Paulo Teixeira

Paulo Teixeira

n. 1962 MZ MZ

Paulo Teixeira é um poeta português contemporâneo, cuja obra se caracteriza pela exploração de temas universais como a memória, o tempo, a identidade e as relações humanas, com uma linguagem lírica e introspectiva. Sua poesia, muitas vezes marcada por uma sensibilidade aguçada e uma profunda reflexão sobre a condição humana, tem vindo a conquistar um lugar de destaque na literatura portuguesa recente, através de uma voz autêntica e com forte capacidade de ressonância.

n. 1962-09-14, Maputo

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1063 TWENTY-SIXTH ST. SANTA MONICA

(Brecht na Califórnia)

Pede-se-nos complacência     
para com os bons selvagens,
se olham com expressão amável    
e vazia a nobreza romana banida
de uma vez para o Ponto.

Aqui prossegue uma existência insular
essa Weimar das sombras,                                    
com a sua moral rígida e os costumes austeros,
as disputas vãs e recorrentes
sobre os sentidos que toma a guerra
na Europa, como se aí um outro vivesse
o prolongamento das suas vidas amputadas
nesta margem leve e frívola da América.

Ei-la reduzida a assistir de longe,     
com um oceano e um continente de permeio,
às mortes na família.                                             

Trocam currículos e carreiras,      
affidavit e declarações de rendimentos válidas por cinco anos,
pelo direito de habitar este litoral de palmeiras     
e limoeiros de meridional Itália,
mas onde a musa se não demora
a soprar ventos da Cítia                 
entre barcos, redes de pesca
e ninfas de praia (californianas).

Vieram para morrer entre os Getas,    
adeptos do surf & da bricolage,
entre casinos, estúdios de cinema
e poços de petróleo.

Sabemos como a vida imita os filmes.

Os mitos no tempo da física
são como as estrelas poeira sem brilho
num mundo de luz artificial
e poesia impossível —
pois como compor uma ode            
ao deus menor que move,
acima do rumor de pneumáticos e motores,   
os mecanismos da sorte
em Sunset Boulevard?
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Biografia

Identificação e contexto básico

Paulo Teixeira é um poeta português contemporâneo, cuja obra se insere no panorama literário do final do século XX e início do século XXI. A sua produção poética é marcada por uma forte componente lírica e reflexiva, explorando a condição humana em suas diversas facetas.

Infância e formação

A infância e formação de Paulo Teixeira, embora não amplamente documentadas em fontes públicas de fácil acesso, parecem ter-lhe fornecido uma base sólida para a sua sensibilidade e para a forma como aborda os temas da memória e da identidade em sua obra.

Percurso literário

O percurso literário de Paulo Teixeira tem sido marcado por uma evolução consistente na exploração de temas como a memória, o tempo, a identidade e as complexidades das relações humanas. Sua escrita demonstra uma procura contínua por aprofundar a expressão lírica e a reflexão existencial, consolidando uma voz poética distinta no panorama literário.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Paulo Teixeira é caracterizada por um lirismo introspectivo e uma linguagem cuidada, que explora com profundidade a passagem do tempo, a efemeridade da existência e a busca por significado. Os seus poemas frequentemente abordam temas como a memória, a saudade, a identidade pessoal e a universalidade das experiências humanas. O tom é muitas vezes melancólico, mas sempre permeado por uma esperança subtil e por uma profunda empatia. A sua poesia convida à reflexão sobre a condição humana, utilizando uma linguagem acessível, mas rica em imagens e simbolismos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Paulo Teixeira insere-se no contexto cultural e histórico de Portugal contemporâneo, um período marcado por rápidas transformações sociais e tecnológicas, que inevitavelmente se refletem na produção literária. A sua obra dialoga com as preocupações e inquietações da sociedade atual, abordando temas universais através de uma perspetiva pessoal e intimista.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Paulo Teixeira são escassos em fontes públicas, mas a sua poesia sugere uma personalidade reflexiva e uma profunda conexão com as emoções e experiências humanas. A forma como aborda temas como a memória e as relações sugere uma vida interior rica e uma sensibilidade aguçada.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Paulo Teixeira tem vindo a ser reconhecida pela sua qualidade lírica e pela profundidade das suas reflexões. Embora possa não ter atingido a fama de autores de outras épocas, a sua poesia tem conquistado leitores e críticos pela sua autenticidade e pela capacidade de tocar em questões existenciais de forma sensível e pertinente.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Paulo Teixeira podem residir em poetas que exploraram o lirismo introspectivo e a reflexão sobre a condição humana. O seu legado, ainda em construção, parece apontar para uma contribuição significativa na poesia portuguesa contemporânea, através de uma voz que se distingue pela sua autenticidade e pela universalidade dos temas abordados.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Paulo Teixeira permite diversas interpretações, mas um fio condutor é a exploração da fragilidade da existência humana, a importância da memória e a busca por um sentido nas relações e nas experiências. A sua obra convida a uma introspeção profunda, promovendo um diálogo entre o leitor e as suas próprias inquietações.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações específicas sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da vida de Paulo Teixeira não são facilmente acessíveis em fontes públicas. No entanto, a própria natureza introspectiva da sua poesia sugere um autor dedicado à observação atenta do mundo interior e exterior.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Como autor contemporâneo, Paulo Teixeira continua a sua produção literária, e a sua obra póstuma ainda está por ser escrita e revelada. A sua memória, contudo, está a ser construída através da sua poesia, que ressoa com os leitores e se integra na memória literária portuguesa.

Poemas

16

Autobiografia cautelar

1
Como se escreve a vida com pronomes trocados,
se tudo nela se recusa a ser uma história
urdida em encontros e aventuras,
país como Helvécia onde nada acontece,
a peça sem mudança de cena onde,
antes de se dar por isso, cai o pano
que o espectador, entre o cínico e o cénico,
duvida alguma vez ter sido içado.    


2
Escrever a vida: tarefa odorífera
como a do homem que desenterra cadáveres
e os expõe para dissecação na mesa fria,
fétida cloaca onde não houve Brama
mais que o bramir das ondas,
nem aura que por ti subisse, helicoidal,
dias como serpentinas, céus como ovos de Páscoa,
transubstanciação em pleno dia,
fortuna em descendência colateral,
causas como Bilbau e Belfast,
violação e rapto para uma ilha deserta,
clímaces de ondas electromagnéticas
num qualquer hemisfério cerebral,
hipérbole (fora do poema),
nada que te olhe da altura de dois andares
na hierarquia dos teus dias;
só este sabor biliar que ascende à boca
de uma ferida ulcerada
no eixo transverso da alma.


3
Autobiografia do que se perdeu
como bagagem abandonada no passeio
e só a custo resgatas do oblívio;
bocados de canções que algum dia
te prenderam a uma coisa terrena;
o nome de duas ou três cidades
onde terias ficado um dia mais;
rostos que contigo se cruzaram
— puro assomo de beleza na noite —
sem deixarem sequer o leve tambor
dos seus dedos nas espáduas;
amigos em conversa com suas certezas
à mesa da solidão jornaleira;
amigos: perdidos em morte, indiferença,
cabalas de quem julgou que a poesia
podia ser a feira que lhes faz falta.


4
Autobiografia? Só a do efémero
ou do entardecer que dura
como único deslumbramento, fiel a ti
como gravata colorida, pura cenografia
sem palavras, carta do país das Hespérides
onde nunca ninguém foi nem espera de ti resposta.
654

Auto de fé

Quando o amor é como os papéis velhos
e anseia por mais arte que a do poema
o coração é o forno onde ardem palavras.

Nesse dia  elas foram, amarradas com barbante,
viúvas precipitando-se dentro da pira.
Fiquei a vê-las abrirem-se como pétalas
para  logo definharem a meus olhos
numa florescência não cumprida.
O seu frémito era ainda uma ânsia minha.

Remexi as cinzas, agitei o ar com as mãos.
Vi como um poema se mostra servil ante o fogo.
E pensei: ardessem também os meus dedos!
Para que o poema não deixe crias ao morrer
e não mais confira o direito à vida
do que nele vai escrito.

Porque o amor é a arte que fica além do poema,
no dia em que não escrever mais poemas
sei que o amor resgatará o meu corpo da chama.
1 220

Uma Residência

Um ano depois de eu nascer,
Berlim era um convés de voo
com naves laterais e galeria
de ventilação, forças aerotransportáveis
e sereia de alarme aéreo.

Imagino Gombrowicz chegando,
espécie de nómada insolente,
com o cinismo prático
e as mil facetas da sua alma dialéctica,      
proscrito uma vez mais,
por decisão unilateral,
para um ano longe da pampa.     
                                                   
A Alemanha era uma arte de decompor em partes   
um direito adquirido com o nascimento,
e a cidade uma protuberância da guerra fria,
purga de ar de que ele podia seguir
as descargas luminosas no alto penhasco
onde o alojaram em Hohenzollerndamm.                     

Tivesse o dom de vaticinar
e saberia que era citado
a depor com o corpo a infância polaca
nos aromas que se libertam       
de aceres e bétulas nas áleas do Tiergarten.     

Uma dissidência terminava assim,
neste retiro verde e sossegado —            
como um castigo corporal
ou qualquer coisa de congénito,
a Europa vinha ao seu encontro      
e a morte com um odor característico
irrompia, longe da confusão e do caos,                    
por entre os néons e a névoa da  pax americana.
729

A segunda Pessoa

To count the loves one has grown out of
                                                         W. H. Auden


Tu reincides sem nome na lembrança,
presença não conhecida mas desejada
além do véu das estações e dos anos,

distante como dia de sol na bruma,
guardam-te em vão silêncios e demoras;
ao papel vens como lição não decorada,

perdido em missas vazias e solenes,
tu, forma de despedaçamento no meu corpo,
tu, dilaceração sem marca sobre a pele.

A espera queimou já meio caminho
desta vida e para o ar que respiro
não há mão incensaria, estrelas

em vigília na funda noite das galáxias,
sóis negros e prestas nebulosas
que correm para o avesso de Deus.

Lâmpadas e a lua foram guardas destas noites,
sem enlevo e sem futuro, exaladas por uma alma
presa na armação dos últimos laços.

Um desejo pode ser agora o pavor de um anseio
teu tumultuando o sangue em trânsito
pelas moradas do corpo quando esse adejo,

sei, as deixa suspensas na varanda dos sentidos.
Inquiro essa vontade que fez de ti um ser
inacessível a todos os vaticínios, invalidado

em nome e corpo, esboroando-se entre os dedos
como estátua mensurável outrora num desejo
e cinzelada de um sopro contra a luz.
685

Os contendores

Eles lutaram a medir a sua por uma força maior,
tendo na penumbra lêveda do quarto
o campo de batalha e no outro o fim a alcançar.

Entre investidas e recuos, golfes desferidos
no ar com os punhos e sevícia nas palavras,
um adiantou-se a deitar o outro por terra.

Este buscava, furtando-se ao peso do corpo, breve,
um suprimento de ar, mas enlanguescia a demorar
depois essa intimidade no espaço fechado.

O primeiro olhava com faces sanguíneas
do alto, como presa ao seu alcance,
o amigo confinado nesse abraço circunpolar.

Ao reduzir uma antiga distância pronominal,
aproximou-lhe do ouvido a boca a segredar
cantada, como um sentimento, a sua vitória.
648

1063 TWENTY-SIXTH ST. SANTA MONICA

(Brecht na Califórnia)

Pede-se-nos complacência     
para com os bons selvagens,
se olham com expressão amável    
e vazia a nobreza romana banida
de uma vez para o Ponto.

Aqui prossegue uma existência insular
essa Weimar das sombras,                                    
com a sua moral rígida e os costumes austeros,
as disputas vãs e recorrentes
sobre os sentidos que toma a guerra
na Europa, como se aí um outro vivesse
o prolongamento das suas vidas amputadas
nesta margem leve e frívola da América.

Ei-la reduzida a assistir de longe,     
com um oceano e um continente de permeio,
às mortes na família.                                             

Trocam currículos e carreiras,      
affidavit e declarações de rendimentos válidas por cinco anos,
pelo direito de habitar este litoral de palmeiras     
e limoeiros de meridional Itália,
mas onde a musa se não demora
a soprar ventos da Cítia                 
entre barcos, redes de pesca
e ninfas de praia (californianas).

Vieram para morrer entre os Getas,    
adeptos do surf & da bricolage,
entre casinos, estúdios de cinema
e poços de petróleo.

Sabemos como a vida imita os filmes.

Os mitos no tempo da física
são como as estrelas poeira sem brilho
num mundo de luz artificial
e poesia impossível —
pois como compor uma ode            
ao deus menor que move,
acima do rumor de pneumáticos e motores,   
os mecanismos da sorte
em Sunset Boulevard?
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