Sophia de Mello Breyner Andresen
Autor do dia

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen foi uma das mais proeminentes poetisas da língua portuguesa, conhecida pela sua lírica depurada, pela clareza do pensamento e pela profunda ligação com a Grécia Antiga e a natureza. A sua obra poética é marcada por uma constante busca pela justiça, pela beleza e pela verdade, explorando temas universais como o amor, a morte, o tempo e a condição humana, sempre com um olhar voltado para a redenção e a esperança. Sua poesia é reconhecida pela sua força moral e pela…

Poema do dia

Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição.
As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
À contaminação da água do mar.
À lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

1972
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Citação do dia
Custámos a casar. Ela recusava-se a casar comigo enquanto eu estivesse bêbado e eu recusava-me a casar com ela quando estava sóbrio.
— Henny Youngman
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Nasceram neste dia

6
Casimiro de Abreu

Casimiro de Abreu foi um poeta brasileiro do Romantismo, conhecido pela sua poesia lírica e sentimental, que evoca com nostalgia a infância, a vida simples no campo e a saudade da terra natal. A sua obra, embora relativamente escassa, marcou profundamente a literatura brasileira pela sua delicadeza, musicalidade e pela exploração de temas universais como a inocência perdida e o amor familiar. Considerado um dos principais expoentes da segunda geração romântica no Brasil, Casimiro de Abreu deixou um legado de versos que continuam a emocionar pela sua candura e pela representação de um mundo idealizado, marcado pela pureza e pela afetividade.

Moreninha (trechos)
Silveira Neto

Silveira Neto foi um poeta, contista, romancista e jornalista brasileiro. Sua obra é marcada por uma profunda reflexão sobre a condição humana, a efemeridade do tempo e a busca por sentido em um mundo em constante transformação. Com uma linguagem rica e imagética, explorou temas como o amor, a morte, a solidão e a passagem inexorável dos anos, frequentemente ambientados em cenários que evocam a melancolia e a introspecção.

Pórtico
Walmir Ayala

Walmir Ayala foi um poeta, contista, romancista, ensaísta e crítico literário brasileiro. Sua obra é marcada pela exploração de temas existenciais, pela ironia e por uma linguagem concisa e precisa. Desenvolveu uma carreira multifacetada, atuando também como editor e tradutor, e deixou um legado significativo na literatura brasileira contemporânea.

Astromulhersubmarino
Manuel António Lino

Manuel António Lino foi um poeta e médico português, cuja obra poética se distingue pela profundidade da reflexão sobre a condição humana, a efemeridade da vida e a complexidade das relações interpessoais. A sua escrita, muitas vezes marcada por um tom confessional e uma linguagem lírica requintada, explora temas como a dor, a saudade, a busca por sentido e a beleza encontrada nos momentos mais simples. Com uma sensibilidade aguçada e uma visão humanista, Lino deixou um legado poético que ressoa pela sua autenticidade e pela capacidade de tocar o leitor nas suas fragilidades e anseios mais profundos, consolidando-se como uma voz singular na poesia portuguesa contemporânea.

Morreram neste dia

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T. S. Eliot

Thomas Stearns Eliot foi um poeta, dramaturgo, crítico literário e editor anglo-americano, amplamente considerado um dos mais importantes poetas em língua inglesa do século XX. A sua obra é marcada por uma profunda exploração da condição humana, da espiritualidade e da desintegração da sociedade moderna. Eliot é conhecido pela sua linguagem erudita, pela complexidade imagética e pela abordagem a temas como o tempo, a memória e a fé.

The Love Song of J Alfred Prufrock
Albert Delpit

Albert Delpit foi um escritor e jornalista francês, nascido em Nova Orleães. Conhecido pelos seus romances e novelas, Delpit explorou frequentemente temas relacionados com a sociedade francesa e as suas colónias, com um olhar crítico e por vezes satírico. As suas obras retratam a burguesia, os costumes da época e as relações sociais.

Maria Manuela Couto Viana

Maria Manuela Couto Viana foi uma poetisa portuguesa conhecida pela sua obra que explora a identidade, a memória e a passagem do tempo. A sua poesia caracteriza-se pela profundidade lírica, pela musicalidade e pela delicadeza na abordagem de temas universais. Com uma escrita cuidada e evocativa, Viana deixou um legado poético que continua a ser apreciado pela sua sensibilidade e pela força das suas imagens.

Nuno de Montemor

Nuno de Montemor foi um poeta português cujo trabalho se insere na corrente do modernismo, com uma forte inclinação para a experimentação formal e temática. A sua poesia é reconhecida pela inovação linguística, pela exploração do surrealismo e pela abordagem de temas como a identidade, a cidade e a subjetividade, refletindo um espírito inquieto e vanguardista.

Rui Costa

Rui Costa é um poeta português cuja obra se caracteriza por uma profunda sensibilidade e um olhar atento sobre o quotidiano e as suas complexidades. A sua poesia explora a condição humana, as relações interpessoais e a busca por significado, com uma linguagem que equilibra a clareza e a sugestão poética.

Elegia azul
Zoraida Burgos

Zoraida Burgos é uma escritora e poetisa espanhola, conhecida por sua obra literária que frequentemente aborda temas sociais, históricos e a condição humana. Sua escrita se caracteriza pela sensibilidade e pela profundidade na exploração de personagens e narrativas que ressoam com a realidade e as emoções. Com uma carreira dedicada à literatura, Burgos tem contribuído para a cena literária em língua espanhola com diversas obras que exploram diferentes gêneros. Sua voz é reconhecida pela força e pela capacidade de conectar-se com o leitor através de histórias marcantes e reflexivas.

Fred Chappell

Fred Chappell é um aclamado poeta, romancista e ensaísta americano, conhecido por sua prosa vigorosa e lírica, frequentemente ambientada nas paisagens rurais da Carolina do Norte. Sua obra explora as complexidades da natureza humana, o folclore americano e as intersecções entre o mundano e o transcendente. Como poeta, Chappell demonstra uma maestria formal notável, combinando humor, inteligência e uma profunda sensibilidade para com os mistérios da vida. Seus romances, em particular a série "The Mis-Adventures of Lincoln".

José Pedroni

José Pedroni foi um destacado poeta brasileiro, reconhecido pelo seu lirismo profundo e pela sua ligação com a terra e o quotidiano. A sua obra caracteriza-se por uma sensibilidade especial para os temas rurais, o amor e a condição humana, expressa através de uma linguagem simples mas carregada de emotividade. Foi uma figura importante na poesia brasileira do século XX, deixando um legado de versos que evocam a beleza do simples e a força dos sentimentos.

Aniversários da comunidade

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Bernardo de Jesus

“Sou o homem que com grande ousadia descobriu o que já havia sido descoberto antes”, Amante da Verdade.

Alegria intensa da criação de Deus