Clarice Lispector
Autor do dia

Clarice Lispector

Clarice Lispector foi uma escritora brasileira, nascida na Ucrânia, conhecida pela sua prosa introspectiva e inovadora. Sua obra explora a condição humana, a identidade, o mistério da existência e a epifania do cotidiano. Com um estilo único, marcado pela subjetividade e pela fragmentação, Clarice mergulhou nas profundezas da consciência, revelando o indizível e o fluxo ininterrupto da vida interior. Sua escrita desafia classificações fáceis, transitando entre o fluxo de consciência, o existenci…

Poema do dia

Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição.
As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
À contaminação da água do mar.
À lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

1972
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Nasceram neste dia

10
Hélio Pellegrino

Hélio Pellegrino foi um médico, psicanalista, escritor e ativista brasileiro, conhecido pela sua obra multifacetada que abrange a poesia, a ficção e ensaios sobre temas sociais e psicanalíticos. A sua escrita, frequentemente marcada por uma profunda sensibilidade e um olhar crítico sobre a condição humana e a sociedade brasileira, explorou as complexidades da psique, o amor, a morte e a busca por sentido. Pellegrino deixou um legado significativo como intelectual engajado e artista sensível.

Heraclito, o Obscuro
Friedrich Dürrenmatt

Friedrich Dürrenmatt foi um proeminente dramaturgo, romancista e ensaísta suíço, conhecido por suas obras teatrais grotescas e filosóficas que exploram as complexidades da condição humana, justiça e moralidade. Ele frequentemente utilizava elementos de humor negro, sátira e o absurdo para questionar a realidade e a sociedade. Suas peças, como "A Visita da Velha Senhora" e "Os Físicos", alcançaram reconhecimento internacional.

Forough Farrokhzad

Forough Farrokhzad foi uma poetisa, realizadora e intelectual iraniana, considerada uma das vozes mais influentes da poesia persa moderna. A sua obra é marcada pela ousadia, pela exploração da condição feminina, pela crítica social e pela intensidade lírica. Através de uma linguagem pessoal e transgressora, abordou temas como o amor, a liberdade, a religião e a alienação, desafiando as convenções sociais e literárias do seu tempo. A sua curta mas impactante vida e obra deixaram um legado duradouro na literatura e no cinema do Irão.

só o som permanece
Alfredo Conde

Alfredo Conde é um escritor galego que se destaca na narrativa contemporânea em língua galega e castelhana. A sua obra explora frequentemente a condição humana, as complexidades das relações interpessoais e a memória histórica. Com uma escrita cuidada e profunda, Conde aborda temas como a identidade, o exílio e a passagem do tempo, refletindo sobre a sociedade e a cultura contemporâneas. A sua produção literária abrange tanto a ficção como o ensaio, consolidando-o como uma voz importante na literatura em língua galega.

Óscar Oliva

Óscar Oliva é um poeta e escritor reconhecido pela sua lírica profunda e pela sua exploração de temas universais como o amor, a morte e a condição humana. A sua obra poética é marcada por uma linguagem cuidada e uma sensibilidade ímpar na abordagem das emoções. Com uma carreira dedicada à arte da palavra, Oliva tem vindo a consolidar a sua voz na literatura, oferecendo aos leitores perspetivas singulares sobre a vida e o universo. A sua poesia convida à reflexão e à contemplação, tecendo versos que ressoam com a alma.

Manuel González Prada

Manuel González Prada foi um destacado escritor, ensaísta e poeta peruano, figura chave do movimento literário modernista em seu país e um fervente crítico social e político. Sua obra caracteriza-se por uma profunda reflexão sobre a realidade peruana, a denúncia da injustiça e do colonialismo, e uma marcada influência do krausismo e do anarquismo. Prada defendeu a modernização do Peru, a reforma educativa e a reivindicação das culturas indígenas. Sua poesia, muitas vezes vanguardista e desafiadora, explora temas como a identidade nacional, a crítica à religião e à moral estabelecida, e uma visão pessimista do destino humano. É considerado um dos intelectuais mais influentes do Peru republicano.

Gaspar Melchor de Jovellanos

Gaspar Melchor de Jovellanos foi uma figura cimeira da Ilustração espanhola, destacando-se como jurista, escritor, político e reformador. O seu pensamento, profundamente enraizado nos princípios da razão e do progresso, abrangeu uma vasta gama de interesses, desde a educação e a economia até à política e à crítica social. Foi um incansável promotor das ideias iluministas em Espanha, procurando modernizar o país e melhorar as condições de vida dos seus concidadãos. A sua obra literária, embora não tão extensa como a sua produção ensaística e política, revela um profundo conhecimento da língua e uma sensibilidade notável, especialmente nas suas composições poéticas e teatrais. Jovellanos é recordado como um dos grandes intelectuais do seu tempo, um homem de estado comprometido com o bem-estar da sua nação e um defensor acérrimo da reforma e do progresso.

Morreram neste dia

12
Lanza del Vasto

Lanza del Vasto, nome secular de Jean-René, foi um poeta, filósofo e ativista italiano, conhecido pela sua filosofia da não-violência e pelo seu engajamento em causas sociais e políticas. Com uma obra literária e ensaística vasta, Del Vasto explorou temas como a espiritualidade, a justiça social e a crítica à sociedade industrial, tornando-se uma figura influente no movimento pacifista.

Aquele que acredita
Carlos Eduardo da Rocha

Carlos Eduardo da Rocha é um nome associado à produção literária em língua portuguesa, com uma obra que tende a explorar as profundezas da experiência humana e as suas interconexões com o mundo circundante. A sua escrita, marcada por uma forte veia poética e reflexiva, aborda temas universais como a identidade, a passagem do tempo e a busca por sentido, utilizando uma linguagem que procura a precisão e a expressividade. Com um estilo que combina a introspeção com uma observação atenta da realidade, Rocha convida o leitor a uma viagem pelo interior das emoções e pelas paisagens da memória. O seu trabalho literário procura estabelecer um diálogo com as inquietações contemporâneas, oferecendo perspetivas que ressoam com a complexidade da vida moderna.

Retrato da Mulher Amada
Maciel Monteiro

Maciel Monteiro foi um poeta brasileiro cuja obra, embora não tão amplamente divulgada quanto a de outros contemporâneos, é um testemunho importante da poesia do século XIX. Sua escrita se caracteriza por uma sensibilidade romântica, com temas que abordam o amor, a natureza e a saudade, refletindo o espírito de sua época. Sua contribuição, ainda que por vezes esquecida, é relevante para a compreensão do panorama literário brasileiro. Maciel Monteiro navegou pelas correntes literárias do Romantismo, expressando em seus versos a melancolia e os anseios característicos desse período. Sua poesia, marcada por um lirismo particular, convida à reflexão sobre a condição humana e a beleza efêmera da vida, consolidando seu lugar na história da literatura brasileira como um poeta de sensibilidade e expressão notáveis.

Formosa
Manuel Botelho de Oliveira

Manuel Botelho de Oliveira foi um poeta e jurisconsulto português, notável pela sua obra "Musa Desterrada", um marco na poesia barroca lusitana. Destacou-se pela exploração de temas como a natureza e a religiosidade, com uma linguagem rica e ornamentada. A sua escrita reflete o contexto cultural e religioso do seu tempo, sendo considerado um dos expoentes da poesia setecentista em Portugal.

Sol e Anarda
João Mello

João Mello foi um poeta e professor universitário português, cuja obra poética se desenvolveu a partir da segunda metade do século XX. Sua poesia é frequentemente caracterizada por uma forte carga existencial e pela exploração de temas como a memória, o tempo e a identidade, com uma linguagem que combina lirismo e rigor intelectual. Além de sua atividade literária, dedicou-se ao ensino e à investigação na área da literatura.

Promessa de Amor
Malangatana Valente Ngwenya

Malangatana Valente Ngwenya foi um proeminente artista plástico e poeta moçambicano, conhecido pela sua obra vibrante e multifacetada que explora as raízes culturais, a história de Moçambique e as lutas do seu povo. As suas pinturas, esculturas e poemas são marcados por uma forte expressividade, cores intensas e figuras estilizadas que evocam a espiritualidade, a ancestralidade e a realidade social. Malangatana dedicou a sua vida à arte como forma de expressão e intervenção, tornando-se um ícone cultural de Moçambique.

A Coruja
Vasko Popa

Vasko Popa foi um poeta sérvio considerado um dos mais importantes da poesia moderna sérvia e europeia. A sua obra, marcada por uma linguagem concisa e imagética, explora temas universais como a identidade, a memória e a condição humana, muitas vezes através de uma abordagem mítica e folclórica. Popa é conhecido pela sua capacidade de transformar elementos do quotidiano e do imaginário popular em metáforas poderosas, criando um universo poético único e de grande profundidade.

- No começo
Pier Luigi Bacchini

Pier Luigi Bacchini foi um poeta, romancista, ensaísta e tradutor italiano. Sua obra é diversificada, abrangendo diferentes gêneros literários, mas mantendo uma linha de continuidade na exploração da condição humana e da linguagem. Com uma veia poética marcante, Bacchini também se aventurou na prosa, onde desenvolveu narrativas que exploram temas filosóficos e existenciais. Sua atuação como tradutor enriqueceu o intercâmbio cultural na Itália, e seus ensaios revelam um pensador atento às nuances da literatura e da cultura.

Aniversários da comunidade

3
poison008

Caos e coincidência

Deusa
jandersoneferreira1

Se um dia a tristeza assolar seu coração e eu não for mais parte do seu presente então serei o calor do sol a tocar seu rosto numa manha de primavera, serei a chuva a tocar sua pele em uma tarde fria de inverno eu serei a estrela mais brilhante do céu e você minha lua assim serei eterno no céu <3

O TEMPO
rayaneabrantes

Perfil de poemas autorais 💌

Amar a si próprio ❤️