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Poemas neste tema

Relações e Família

Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

Prelúdios

1
Recuo diante de uma coisa que se arrasta de lado pela
tempestade de neve.
Fragmento do que está para vir.
Uma parede esboroando-se. Uma coisa sem olhos. Rija.
Um rosto de dentes.
Uma parede solitária. Ou é uma casa que ali está
embora a não consiga ver?
O futuro … um exército de casas vazias
tacteando o caminho pela neve que cai. 

2
Duas verdades aproximam-se uma da outra. Uma vem de dentro,
outra de fora,
e onde se encontram é possível ter um indício
de nós.

O homem que vê o que está para acontecer grita desvairado
“Alto!
Seja o que for, desde que não tenha de me conhecer a mim mesmo.”

E há um barco que se quer amarrar à terra – insiste mesmo
aqui –
de facto insistirá ainda milhares de vezes.

Da escuridão dos bosques surge um longo arpão,
irrompe pela janela aberta
entre os convidados que aquecem dançando.

3
O apartamento onde vivi metade da minha vida tem de ficar vazio. Já não tem nada. A âncora tem
de subir – apesar do peso da tristeza, é o apartamento mais leve de toda a cidade. A verdade não
precisa de nenhuma mobília. A minha vida fechou agora um grande círculo e voltou ao ponto de
partida: uma sala vazia. Coisas que nela vivi tornam-se visíveis nas paredes iguais a pinturas
egípcias, murais duma câmara funerária. Imagens esbatendo-se devido a uma luz excessiva. As
janelas mais largas. O apartamento vazio é um grande telescópio apontado ao céu. É silencioso
como um ritual Quaker. Tudo o que podes escutar são as pombas nas traseiras, o arrulhar delas.
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Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

Vermeer

Não é um mundo seguro. O ruído começa ali,
do outro lado da parede
onde está a estalagem
com risos e refregas, rixas de dentes, lágrimas,
o seu retinir de sinos
e o cunhado insano, o assassino, que faz com
que na sua presença todos sintam temor.

A grande explosão e o tropel do resgate que chega atrasado
os barcos exibindo-se nos canais, o dinheiro correndo
para o bolso do homem malvado
ultimatos atrás de ultimatos
flores encarnadas abertas ressoando premonições de guerra. 

E exactamente dali através da parede
para o estúdio de luz
e os segundos a quem autorizaram viver séculos.
Quadros com nomes próprios “A Lição de Música”
ou “Mulher de Azul Lendo uma Carta”.
Está grávida de oito meses, dois corações que batem dentro dela.
Na parede atrás vê-se um mapa enrugado da Terra Incognita.

Respira apenas. Um material azul que se desconhece está pregado às cadeiras.
Os rebites de ouro voaram com incrível rapidez
e pousaram ali abruptamente
como se não fossem outra coisa senão silêncio.

Os ouvidos zumbem, talvez do abismo talvez do cume.
É a pressão do outro lado da parede
A pressão que faz flutuar os factos
e firmar o pincel. 

Atravessar as paredes faz sofrer, faz adoecer
mas não temos outra escolha.
O mundo é um. Mas as paredes ….
As paredes são parte de ti –
Ou se sabe ou não se sabe embora seja assim para todos
excepto para as crianças. Para elas não há paredes.

O céu limpo tomou o seu lugar e encostou-se à parede.
É como uma prece ao vazio.
E o vazio volta o seu rosto para nós
E murmura
“Não sou vazio, sou aberto”.
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Victor Segalen

Victor Segalen

Pedra Musical

Eis o lugar onde se reconheceram os amantes
apaixonados pela flauta desigual;

Eis a mesa onde se alegraram o esposo hábil
e a moça inebriada;

Eis a cama onde eles se amavam pelos tons essenciais,

Através do metal dos sinos, da pele dura dos
sílex tilintantes,

Através dos cabelos do alaúde, no rumor dos tambores,
nas costas do tigre de madeira oca,

Entre o encantamento dos pavões de grito claro,
das gruas de chamado breve, da fênix de fala inaudita.

Eis o topo do palácio sonante que Mu-Kung (*),
o pai, ergueu para eles como um pedestal,

E eis – alçando-se mais suaves que fênix, aves fêmeas
e pavões – eis o espaço onde eles voaram.

Toquem-me: todas essas vozes vivem
na minha pedra musical.



Pierre Musicale

Voici le lieu où ils se reconnurent, les amants amoureux
de la flûte inégale;


Voici la table où ils se réjouirent l’époux habile
et la fille enivrée ;


Voici l’estrade où ils s’aimaient par les tons essentiels,


Au travers du métal des cloches, de la peau dure
des silex tintants,


À travers les cheveux du luth, dans la rumeur
des tambours, sur le dos du tigre de bois creux,


Parmi l’enchantement des paons au cri clair, des grues
à l’appel bref, du phénix au parler inouï.


Voici le faîte du palais sonnant que Mou-Koung, le père,
dressa pour eux comme un socle,


Et voilà, – d’un envol plus suave que phénix, oiselles
et paons, – voilà l’espace où ils ont pris essor.

Qu’on me touche : toutes ces voix vivente
dans ma pierre musicale.
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