Poemas neste tema
Relações e Família
Lêdo Ivo
Os Morcegos
Os morcegos se escondem entre as cornijas
da alfândega. Mas onde se escondem os homens,
que contudo voam a vida inteiro no escuro,
chocando-se contra as paredes brancas do amor?
A casa de nosso pai era cheia de morcegos
pendentes, como luminárias, dos velhos caibros
que sustentavam o telhado ameaçado pelas chuvas.
"Estes filhos chupam o nosso sangue", suspirava meu pai.
Que homem jogará a primeira pedra nesse mamífero
que, como ele, se nutre do sangue dos outros bichos
(meu irmão! meu irmão!) e, comunitário, exige
o suor do semelhante mesmo na escuridão?
No halo de um seio jovem como a noite
esconde-se o homem; na paina de seu travesseiro, na luz
do farol
o homem guarda as moedas douradas de seu amor.
Mas o morcego, dormindo como um pêndulo, só guarda
o dia ofendido.
Ao morrer, nosso pai nos deixou (a mim e a meus oitoirmãos)
a sua casa onde à noite chovia pelas telhas quebradas.
Levantamos a hipoteca e conservamos os morcegos.
E entre os nossas paredes eles se debatem: cegos como nós.
The Bats Poema em Inglês
da alfândega. Mas onde se escondem os homens,
que contudo voam a vida inteiro no escuro,
chocando-se contra as paredes brancas do amor?
A casa de nosso pai era cheia de morcegos
pendentes, como luminárias, dos velhos caibros
que sustentavam o telhado ameaçado pelas chuvas.
"Estes filhos chupam o nosso sangue", suspirava meu pai.
Que homem jogará a primeira pedra nesse mamífero
que, como ele, se nutre do sangue dos outros bichos
(meu irmão! meu irmão!) e, comunitário, exige
o suor do semelhante mesmo na escuridão?
No halo de um seio jovem como a noite
esconde-se o homem; na paina de seu travesseiro, na luz
do farol
o homem guarda as moedas douradas de seu amor.
Mas o morcego, dormindo como um pêndulo, só guarda
o dia ofendido.
Ao morrer, nosso pai nos deixou (a mim e a meus oitoirmãos)
a sua casa onde à noite chovia pelas telhas quebradas.
Levantamos a hipoteca e conservamos os morcegos.
E entre os nossas paredes eles se debatem: cegos como nós.
The Bats Poema em Inglês
2 223
Lígia Diniz
Por Você
Mas o que sinto acima de tudo é medo
Eu, o girassol mais antigo
A catedral mais imponente
A torre mais forte
desmoronou por você
As dunas mais firmes
desmancharam no vento (você)
O mar mais bravio
se acalmou (por você)
A floresta mais viva
queimou (com você)
O sussurro mais suave
virou um grito (em você)
A mulher mais madura
A criança mais leve e alegre
A mais fiel amiga
A mais corajosa e perseverante,
Eu
Caí por você.
Eu, o girassol mais antigo
A catedral mais imponente
A torre mais forte
desmoronou por você
As dunas mais firmes
desmancharam no vento (você)
O mar mais bravio
se acalmou (por você)
A floresta mais viva
queimou (com você)
O sussurro mais suave
virou um grito (em você)
A mulher mais madura
A criança mais leve e alegre
A mais fiel amiga
A mais corajosa e perseverante,
Eu
Caí por você.
848
Valéry Larbaud
Descuido
Mergulhei por descuido teus olhos
Em outros mares, em outros vinhos:
Perigosas paisagens, proibidas,
Que desfazem seus próprios caminhos.
Hoje, mais nada sabemos, loucos
E bêbados náufragos de um sonho.
Os nossos silêncios estão roucos
De tanto nos ferirmos. Choramos.
Que outros céus acolham nossos corpos.
Em outros mares, em outros vinhos:
Perigosas paisagens, proibidas,
Que desfazem seus próprios caminhos.
Hoje, mais nada sabemos, loucos
E bêbados náufragos de um sonho.
Os nossos silêncios estão roucos
De tanto nos ferirmos. Choramos.
Que outros céus acolham nossos corpos.
834
Valéry Larbaud
Descuido
Mergulhei por descuido teus olhos
Em outros mares, em outros vinhos:
Perigosas paisagens, proibidas,
Que desfazem seus próprios caminhos.
Hoje, mais nada sabemos, loucos
E bêbados náufragos de um sonho.
Os nossos silêncios estão roucos
De tanto nos ferirmos. Choramos.
Que outros céus acolham nossos corpos.
Em outros mares, em outros vinhos:
Perigosas paisagens, proibidas,
Que desfazem seus próprios caminhos.
Hoje, mais nada sabemos, loucos
E bêbados náufragos de um sonho.
Os nossos silêncios estão roucos
De tanto nos ferirmos. Choramos.
Que outros céus acolham nossos corpos.
834
Laura Amélia Damous
Autópsia
e ficou atestado que quando rasgaram
suas pálpebras
encontraram de por-de-sol e lua
lua minguante lua crescente
lua cheia
e estrelas
o precário e doído equilíbrio da vida
latejava no cérebro cansado
nas virilhas ainda quentes
o aconchego
e a calma do sexo apaziguado
Do sangue que escorria ente as veias
e artérias
um perfume de jasmim seco
No labirinto de nervos e entranhas
que não mais viviam
(fácil de ser visto)
TEU NOME
suas pálpebras
encontraram de por-de-sol e lua
lua minguante lua crescente
lua cheia
e estrelas
o precário e doído equilíbrio da vida
latejava no cérebro cansado
nas virilhas ainda quentes
o aconchego
e a calma do sexo apaziguado
Do sangue que escorria ente as veias
e artérias
um perfume de jasmim seco
No labirinto de nervos e entranhas
que não mais viviam
(fácil de ser visto)
TEU NOME
1 040
Valéry Larbaud
Noite de Verão
As horas, uma a uma, tempo adentro,
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.
O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.
Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas
Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.
O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.
Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas
Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.
981
J. Ribamar Matos
Silêncio
Pouco te importa o meu sofrer insano
e que eu viva, afinal, como hoje vivo,
nessa angústia de pássaro cativo,
a andar de desengano em desengano!
Já não tenho ilusões nem mais me engano
com a minha existência sem motivo,
pois não creio em, depois, ver redivivo
o vigor de outros tempos, espartano.
Ver-me-ás, entretanto, silencioso e mudo,
nem um lamento de meu lábio triste
ouvirás nunca mais, depois de tudo!
Calado e triste há de me ver agora,
sem o vigor de quando tu surgiste,
tecendo versos pela vida a fora...
e que eu viva, afinal, como hoje vivo,
nessa angústia de pássaro cativo,
a andar de desengano em desengano!
Já não tenho ilusões nem mais me engano
com a minha existência sem motivo,
pois não creio em, depois, ver redivivo
o vigor de outros tempos, espartano.
Ver-me-ás, entretanto, silencioso e mudo,
nem um lamento de meu lábio triste
ouvirás nunca mais, depois de tudo!
Calado e triste há de me ver agora,
sem o vigor de quando tu surgiste,
tecendo versos pela vida a fora...
1 051
J. Ribamar Matos
Silêncio
Pouco te importa o meu sofrer insano
e que eu viva, afinal, como hoje vivo,
nessa angústia de pássaro cativo,
a andar de desengano em desengano!
Já não tenho ilusões nem mais me engano
com a minha existência sem motivo,
pois não creio em, depois, ver redivivo
o vigor de outros tempos, espartano.
Ver-me-ás, entretanto, silencioso e mudo,
nem um lamento de meu lábio triste
ouvirás nunca mais, depois de tudo!
Calado e triste há de me ver agora,
sem o vigor de quando tu surgiste,
tecendo versos pela vida a fora...
e que eu viva, afinal, como hoje vivo,
nessa angústia de pássaro cativo,
a andar de desengano em desengano!
Já não tenho ilusões nem mais me engano
com a minha existência sem motivo,
pois não creio em, depois, ver redivivo
o vigor de outros tempos, espartano.
Ver-me-ás, entretanto, silencioso e mudo,
nem um lamento de meu lábio triste
ouvirás nunca mais, depois de tudo!
Calado e triste há de me ver agora,
sem o vigor de quando tu surgiste,
tecendo versos pela vida a fora...
1 051
Jerônimo Rodrigues de Castro
Soneto
Clície ao Sol que os seus íntimos amores
ingrato desdenhou com aspereza,
amou firme, apurando a sua fineza
no terrível crisol de seus rigores.
Endimião, que os mais finos primores
de amor gozou da nítida Princesa
do etéreo firmamento, a sua beleza
amou também, rendido a seus favores.
A Lua a Endimião buscou constante,
Clície buscou ao Sol, com a evidência
de seguir-lhe o seu curso rutilante.
Assim fica bem clara a conseqüência,
que Clícle mostrou que era mais amante,
que ao Sol amou sem ter correspondência.
ingrato desdenhou com aspereza,
amou firme, apurando a sua fineza
no terrível crisol de seus rigores.
Endimião, que os mais finos primores
de amor gozou da nítida Princesa
do etéreo firmamento, a sua beleza
amou também, rendido a seus favores.
A Lua a Endimião buscou constante,
Clície buscou ao Sol, com a evidência
de seguir-lhe o seu curso rutilante.
Assim fica bem clara a conseqüência,
que Clícle mostrou que era mais amante,
que ao Sol amou sem ter correspondência.
953
Jerônimo Rodrigues de Castro
Soneto
Clície ao Sol que os seus íntimos amores
ingrato desdenhou com aspereza,
amou firme, apurando a sua fineza
no terrível crisol de seus rigores.
Endimião, que os mais finos primores
de amor gozou da nítida Princesa
do etéreo firmamento, a sua beleza
amou também, rendido a seus favores.
A Lua a Endimião buscou constante,
Clície buscou ao Sol, com a evidência
de seguir-lhe o seu curso rutilante.
Assim fica bem clara a conseqüência,
que Clícle mostrou que era mais amante,
que ao Sol amou sem ter correspondência.
ingrato desdenhou com aspereza,
amou firme, apurando a sua fineza
no terrível crisol de seus rigores.
Endimião, que os mais finos primores
de amor gozou da nítida Princesa
do etéreo firmamento, a sua beleza
amou também, rendido a seus favores.
A Lua a Endimião buscou constante,
Clície buscou ao Sol, com a evidência
de seguir-lhe o seu curso rutilante.
Assim fica bem clara a conseqüência,
que Clícle mostrou que era mais amante,
que ao Sol amou sem ter correspondência.
953
Janete Rodrigues Ribeiro
Busca
Ah! Quisera me perder na noite dos tempos
Correndo ligeira e leve como os ventos
Procurando a linha do horizonte
Buscando do amor, a verdadeira fonte!
Ah! Quisera doar-me assim, por inteira,
E apresentar-me doce, suave,
como a lua, faceira,
Ao meu amor primeiro, amor emoção,
Que fizesse vibrar todas as fibras do meu coração!
Ah! Quisera num abraço final
De tua vida, ser a medida do sal,
E num beijo, jurando eterna paixão,
Entregar-me em teus braços,
de alma e coração!
Correndo ligeira e leve como os ventos
Procurando a linha do horizonte
Buscando do amor, a verdadeira fonte!
Ah! Quisera doar-me assim, por inteira,
E apresentar-me doce, suave,
como a lua, faceira,
Ao meu amor primeiro, amor emoção,
Que fizesse vibrar todas as fibras do meu coração!
Ah! Quisera num abraço final
De tua vida, ser a medida do sal,
E num beijo, jurando eterna paixão,
Entregar-me em teus braços,
de alma e coração!
898
Laura Amélia Damous
Papagaio
Trituro esta dor
socada em pilão
como tia Ana do grão
gerava o café
Trituro esta dor
e faço cerol
para untar a linha
que nos partirá
socada em pilão
como tia Ana do grão
gerava o café
Trituro esta dor
e faço cerol
para untar a linha
que nos partirá
929
José Sarney
Carta do Anti-Santo José
aos seus tristes
EU, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
BENDITO sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos
e pousaram
à beira dos Defuntos
onde sacodem a viagem
e fazem ninhos
na folha das plantas aquáticas
que flutuam como anjos deitados
na mansidão dos lagos.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo abandono dessa sombra
que prometeu entregar-me o corpo
de pelúcias de carne para que eu o amasse
com a força de todas as tempestades
e eu nunca o amei.
NÃO me julgueis por haver
começado o meu caminho
naquela canoa de toldos
e ramos que cantavam,
"bendito é o santo nome".
EU fui ferido pelos vampiros gigantes
que esmagaram a sunga de chita colegial
feita de flores pequenas e alças de rendas
onde ficou sepultado para sempre
o seu sexo pequenino
e o meu primeiro olhar
que eu carregava nas mãos
como o cálice
daquele vinho
do corpo de Deus que eu não bebi
para embriagar-me
na fome de amar a pronta carne,
o pão, o fruto, a vida e
os peixes que habitavam os lagos desse campo
que me abriu os olhos numa manhã de abril.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo que fui
e jamais fui e sempre serei,
pois de não ser vou sendo
esta noite que não teve pôr de sol.
EU juro que a cadela que latia
junto de tuas mãos e eu dizia que era raiva
devia ter morrido
para que hoje eu não a lembrasse
para matar o meu ódio e ressuscitar o meu nojo
de pensar que eu fui capaz de amar
e os ventos da minha vida
não têm mais velas a empurrar
nem barcos para sair do Rio Pericumã e chegar
ao mar alto da Ponta de Itacolomi
e ali afundar
como afundaram
nas pedras eternas de moluscos
tantas navegações e tantos monstros.
IRMÃOS:
Eu habitei a Rua da Madre de Deus
onde os teares funcionavam dia e noite, no número 127.
Dona Sérgia! eu te beijo cerzideira
que me carregou de amor quando os outros me cuspiam
e as estátuas de porcelana branca que vieram de Portugal
guardavam vigilantes as cumeeiras largas do casario da Fábrica
onde batiam algodão branco e doce
da velha indústria Santa Amélia
e as operárias furtavam
os casulos
para higiene do ciclo menstrual
naquele mundo de louças
fusos, caldeiras e fardos.
A Fonte das Pedras
que de pedras tinha a água que escorria como sangue
das carrancas que jamais aceitaram o suor dos escravos
que Dona Ana Jansen fazia atirar nos poços de lanças
para serem espetados e se transformarem em fantasmas que
enchiam de gemidos todos os becos desta cidade que
nasceu para ser possuída em coitos de agonia e pecado
e em virgindades com cheiro de alfazema
entre o amor e as picadas de arraia.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo bonde de minha infância que matei
porque eu o amava e o matei,
como se não mata o amor, mas
pelo indesejo da morte.
ELE não corre e foram minhas mãos
que o trucidaram e trucidaram com ele
as moças todas que estavam na janela
e eu desejava casar para fazer filhos que
de novo pegassem o bonde
e fossem até o fim dos caminhos
e de novo fizessem outros filhos e outros mais
para que o bonde fosse o trilho eterno
e não o fim do filho.
..............................................
IRMÃOS:
NÃO me julguei por não haver fugido
com a trapezista do circo mambembe,
com que todos os meninos
das cidades de cavalos e cabeças-de-cuia
pensam fugir para viver em
acrobacias e picadeiros.
Eu a reencontrei em Brooklin, num janeiro de neve
nessa cidade de Nova Iorque que eu também amei
como se ama a prostituta pintada
que nos acena com uma noite de orgia.
O táxi amarelo parou. De repente ao meu lado
a trapezista que eu tinha amado
e ali repousava de sandálias e tranças.
Ao meu espanto apenas disse:
José!
De repente o mundo voltou ao princípio e eu senti
que os passarinhos podem cantar em Manhatan como
na mangueira velha do quintal da casa do velho José Costa,
meu avô,
que me disse um dia:
Guarda a tua alma e o teu corpo em vinha-dalho,
porque a vida é feita de postas azedas
em que os figos e as melancias não têm nem gosto nem cor.
IRMÃOS:
EU, José,
vos digo que a vida é um bando de itãs
que gritam histéricas
na beira do lago de Viana à espera
da terra parar de repente
e de repente a canarana ter flores eternas
as mangueiras terem galhos de meia légua e
debaixo de sua sombra
os índios pedirem amor com os anjos,
plantando rosas de capim de marreca
e o homem Senhor do destino
possa descansar os seus lábios vermelhos
nos seios das deusas jovens,
adormecidas nas aguadas de ventos,
novilhas de todos os mundos.
IRMÃOS:
PERDOAI-ME de dizer a Deus
que ele não pode pisar meus caminhos
com os pés de cardos
que romperam de sangue a coroa fria e sem glória
desses dias que ele me deu e eu esmaguei.
IRMÃOS:
perdoai-me.
o sonho da morte é uma nuvem
que não cobre as eternas noites da vida.
(Os Maribondos de Fogo / 1978)
EU, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
BENDITO sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos
e pousaram
à beira dos Defuntos
onde sacodem a viagem
e fazem ninhos
na folha das plantas aquáticas
que flutuam como anjos deitados
na mansidão dos lagos.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo abandono dessa sombra
que prometeu entregar-me o corpo
de pelúcias de carne para que eu o amasse
com a força de todas as tempestades
e eu nunca o amei.
NÃO me julgueis por haver
começado o meu caminho
naquela canoa de toldos
e ramos que cantavam,
"bendito é o santo nome".
EU fui ferido pelos vampiros gigantes
que esmagaram a sunga de chita colegial
feita de flores pequenas e alças de rendas
onde ficou sepultado para sempre
o seu sexo pequenino
e o meu primeiro olhar
que eu carregava nas mãos
como o cálice
daquele vinho
do corpo de Deus que eu não bebi
para embriagar-me
na fome de amar a pronta carne,
o pão, o fruto, a vida e
os peixes que habitavam os lagos desse campo
que me abriu os olhos numa manhã de abril.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo que fui
e jamais fui e sempre serei,
pois de não ser vou sendo
esta noite que não teve pôr de sol.
EU juro que a cadela que latia
junto de tuas mãos e eu dizia que era raiva
devia ter morrido
para que hoje eu não a lembrasse
para matar o meu ódio e ressuscitar o meu nojo
de pensar que eu fui capaz de amar
e os ventos da minha vida
não têm mais velas a empurrar
nem barcos para sair do Rio Pericumã e chegar
ao mar alto da Ponta de Itacolomi
e ali afundar
como afundaram
nas pedras eternas de moluscos
tantas navegações e tantos monstros.
IRMÃOS:
Eu habitei a Rua da Madre de Deus
onde os teares funcionavam dia e noite, no número 127.
Dona Sérgia! eu te beijo cerzideira
que me carregou de amor quando os outros me cuspiam
e as estátuas de porcelana branca que vieram de Portugal
guardavam vigilantes as cumeeiras largas do casario da Fábrica
onde batiam algodão branco e doce
da velha indústria Santa Amélia
e as operárias furtavam
os casulos
para higiene do ciclo menstrual
naquele mundo de louças
fusos, caldeiras e fardos.
A Fonte das Pedras
que de pedras tinha a água que escorria como sangue
das carrancas que jamais aceitaram o suor dos escravos
que Dona Ana Jansen fazia atirar nos poços de lanças
para serem espetados e se transformarem em fantasmas que
enchiam de gemidos todos os becos desta cidade que
nasceu para ser possuída em coitos de agonia e pecado
e em virgindades com cheiro de alfazema
entre o amor e as picadas de arraia.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo bonde de minha infância que matei
porque eu o amava e o matei,
como se não mata o amor, mas
pelo indesejo da morte.
ELE não corre e foram minhas mãos
que o trucidaram e trucidaram com ele
as moças todas que estavam na janela
e eu desejava casar para fazer filhos que
de novo pegassem o bonde
e fossem até o fim dos caminhos
e de novo fizessem outros filhos e outros mais
para que o bonde fosse o trilho eterno
e não o fim do filho.
..............................................
IRMÃOS:
NÃO me julguei por não haver fugido
com a trapezista do circo mambembe,
com que todos os meninos
das cidades de cavalos e cabeças-de-cuia
pensam fugir para viver em
acrobacias e picadeiros.
Eu a reencontrei em Brooklin, num janeiro de neve
nessa cidade de Nova Iorque que eu também amei
como se ama a prostituta pintada
que nos acena com uma noite de orgia.
O táxi amarelo parou. De repente ao meu lado
a trapezista que eu tinha amado
e ali repousava de sandálias e tranças.
Ao meu espanto apenas disse:
José!
De repente o mundo voltou ao princípio e eu senti
que os passarinhos podem cantar em Manhatan como
na mangueira velha do quintal da casa do velho José Costa,
meu avô,
que me disse um dia:
Guarda a tua alma e o teu corpo em vinha-dalho,
porque a vida é feita de postas azedas
em que os figos e as melancias não têm nem gosto nem cor.
IRMÃOS:
EU, José,
vos digo que a vida é um bando de itãs
que gritam histéricas
na beira do lago de Viana à espera
da terra parar de repente
e de repente a canarana ter flores eternas
as mangueiras terem galhos de meia légua e
debaixo de sua sombra
os índios pedirem amor com os anjos,
plantando rosas de capim de marreca
e o homem Senhor do destino
possa descansar os seus lábios vermelhos
nos seios das deusas jovens,
adormecidas nas aguadas de ventos,
novilhas de todos os mundos.
IRMÃOS:
PERDOAI-ME de dizer a Deus
que ele não pode pisar meus caminhos
com os pés de cardos
que romperam de sangue a coroa fria e sem glória
desses dias que ele me deu e eu esmaguei.
IRMÃOS:
perdoai-me.
o sonho da morte é uma nuvem
que não cobre as eternas noites da vida.
(Os Maribondos de Fogo / 1978)
1 673
Valéry Larbaud
Mise au Point
Deixou teu gesto ali
nenhuma rosa,
delicadeza e não ser,
nenhum suspiro,
silêncio e resposta.
E a lua nenhuma
grita a lembrança esquecida
de teu nenhum sorriso.
Frios cristais, no entanto,
que guardam vinhos de sangue,
não são teus olhos, ainda.
nenhuma rosa,
delicadeza e não ser,
nenhum suspiro,
silêncio e resposta.
E a lua nenhuma
grita a lembrança esquecida
de teu nenhum sorriso.
Frios cristais, no entanto,
que guardam vinhos de sangue,
não são teus olhos, ainda.
999
Luís António Cajazeira Ramos
Breu em Chamas
A não ser pelo fato de ser
meu melhor amigo, você
não me conhece. Ninguém me conhece.
Mas cê está tão perto!
Desde ontem que o olho há horas para sempre,
e você nem percebe o quanto estou distante...
eu dentro de meu próprio ventre.
São quilômetros de distâncias milimétricas
que nos separam,
eu e meu ventre,
do mais próximo sol poente de um olhar apaixonado.
E eu não vejo mais emoções
dentro de qualquer ventre,
pois o amor, pouco provável, esqueceu o caminho,
deitou em minha cama e dormiu,
fazendo uma fogueira de todas as minhas veleidades.
meu melhor amigo, você
não me conhece. Ninguém me conhece.
Mas cê está tão perto!
Desde ontem que o olho há horas para sempre,
e você nem percebe o quanto estou distante...
eu dentro de meu próprio ventre.
São quilômetros de distâncias milimétricas
que nos separam,
eu e meu ventre,
do mais próximo sol poente de um olhar apaixonado.
E eu não vejo mais emoções
dentro de qualquer ventre,
pois o amor, pouco provável, esqueceu o caminho,
deitou em minha cama e dormiu,
fazendo uma fogueira de todas as minhas veleidades.
942
Laura Amélia Damous
Véspera de Reis
Imperfeito tempo
em que és
o instante perfeito
Exato instante
de que é feita
a eternidade
em que és
o instante perfeito
Exato instante
de que é feita
a eternidade
1 097
J. Ribamar Matos
Ressurreição
Se eu falecer, querida, bem distante,
e não vires, sequer, meu corpo frio,
ao meu sepulcro leva, a cada instante,
a dor cristalizada, fio a fio...
Reza ao teu morto uma oração constante:
deixa cair do triste olhar vazio,
do teu, então, já pálido semblante
o pranto que te torna o olhar sombrio...
Vai derramar em minha sepultura
chuva eterna de lágrima sentida
de tua alma, diluída na amargura;
que, se molhar a minha face ungida,
então me erguendo lá da cova escura,
eu chamarei por ti, mulher querida!
e não vires, sequer, meu corpo frio,
ao meu sepulcro leva, a cada instante,
a dor cristalizada, fio a fio...
Reza ao teu morto uma oração constante:
deixa cair do triste olhar vazio,
do teu, então, já pálido semblante
o pranto que te torna o olhar sombrio...
Vai derramar em minha sepultura
chuva eterna de lágrima sentida
de tua alma, diluída na amargura;
que, se molhar a minha face ungida,
então me erguendo lá da cova escura,
eu chamarei por ti, mulher querida!
1 157
Laura Amélia Damous
Ânfora
Nem percebeste a leve brisa.
Eu
que sou tormenta
fúria e vento.
Só tu
cabes em mim.
Eu
que sou tormenta
fúria e vento.
Só tu
cabes em mim.
939
Lígia Andrade
Silêncio
O silêncio brota
Flui
escorre em cada canto
Da casa
Exala um perfume triste
De abandono
De algo que passou
Não volta mais
O irremediável
Silêncio
Faca de dois gumes
Cicatriza e ao mesmo tempo fere
E nós
Aproximados na mesma freqüência morna
Mais nos afastamos
Por falta de palavras...
Flui
escorre em cada canto
Da casa
Exala um perfume triste
De abandono
De algo que passou
Não volta mais
O irremediável
Silêncio
Faca de dois gumes
Cicatriza e ao mesmo tempo fere
E nós
Aproximados na mesma freqüência morna
Mais nos afastamos
Por falta de palavras...
976
João Ribeiro
Simples Balada
"Tu vais partir, Dom Gil! Sus! Cavaleiro!
"Essa tristeza de tua alma espanca.
"Deixa o penhor de um beijo derradeiro
"No retrato gentil de Dona Branca".,
Mas tanto fel no longo beijo havia,
E tanta incomparável amargura,
Que o solitário beijo aos poucos ia
Roubando à tela a pálida figura.
Cresce, recresce, as linhas devastando,
Nódoa voraz pela figura entorna.
Dom Gil, onde se vai, demorando
Não aparece, aos lares não retorna?!
E o beijo avulta devorando a trama
Do quadro, haurindo a pálida figura...
Tarde chega Dom Gil. De longe exclama:
— "Vou ver-te agora, ó santa criatura!"
Funda tristeza o rosto lhe anuvia;
Quem de Dom Gil esta tristeza espanca?
Havia um beijo — eis tudo quanto havia!
A tela estava inteiramente branca.
"Essa tristeza de tua alma espanca.
"Deixa o penhor de um beijo derradeiro
"No retrato gentil de Dona Branca".,
Mas tanto fel no longo beijo havia,
E tanta incomparável amargura,
Que o solitário beijo aos poucos ia
Roubando à tela a pálida figura.
Cresce, recresce, as linhas devastando,
Nódoa voraz pela figura entorna.
Dom Gil, onde se vai, demorando
Não aparece, aos lares não retorna?!
E o beijo avulta devorando a trama
Do quadro, haurindo a pálida figura...
Tarde chega Dom Gil. De longe exclama:
— "Vou ver-te agora, ó santa criatura!"
Funda tristeza o rosto lhe anuvia;
Quem de Dom Gil esta tristeza espanca?
Havia um beijo — eis tudo quanto havia!
A tela estava inteiramente branca.
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Laura Amélia Damous
Oferenda
Venho te oferecer meu coração
como o cansaço se oferece aos amantes
o suor aos corpos exaustos
depois de definitivo abraço
Venho te oferecer meu coração
como a lua se oferece à noite
e o vento à tempestade
Venho te oferecer meu coração
como o peixe se oferece à captura
no engano do anzol
como o cansaço se oferece aos amantes
o suor aos corpos exaustos
depois de definitivo abraço
Venho te oferecer meu coração
como a lua se oferece à noite
e o vento à tempestade
Venho te oferecer meu coração
como o peixe se oferece à captura
no engano do anzol
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José Maria Nascimento
A Casa de Palha
A coberta da casa tinha
o verde das palhas.
A colheita da lenha
ao rebentar da madrugada.
O macio lençol de linho
ao calor dos raios solares.
A festa de um novo teto
em um Domingo de Páscoa.
Latas de leite Ninho vazias:
raros tanques de guerra,
fertilizavam as alegrias
dos meus Natais passados.
Nenhuma só moeda queimava
as minhas pequeninas mãos.
Até o presente era uma irmandade
com o futuro sempre fertilizado.
A chama do tempo de leve
tudo foi consumindo tudo.
Levou os meus carneiros
e as verduras do quintal.
O ara da noite se misturou
com cinzas: é sufocante!
Ó misteriosa e amada natureza,
como monótona ficou a existência!
o verde das palhas.
A colheita da lenha
ao rebentar da madrugada.
O macio lençol de linho
ao calor dos raios solares.
A festa de um novo teto
em um Domingo de Páscoa.
Latas de leite Ninho vazias:
raros tanques de guerra,
fertilizavam as alegrias
dos meus Natais passados.
Nenhuma só moeda queimava
as minhas pequeninas mãos.
Até o presente era uma irmandade
com o futuro sempre fertilizado.
A chama do tempo de leve
tudo foi consumindo tudo.
Levou os meus carneiros
e as verduras do quintal.
O ara da noite se misturou
com cinzas: é sufocante!
Ó misteriosa e amada natureza,
como monótona ficou a existência!
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João Marcio Furtado Costa
Pai
Pai
(10/95)
Júnior, foste batizado
e tomaste, então, o cuidado
de saber que é responsabilidade,
o ônus que tal fato atrai.
Mas não te fizeste de rogado
e cobriste de honra o legado
soubeste conservar vitalidade,
no nome que herdaste de teu pai.
Estudando comandaste os laços
e escolheste teu mote: a ciência,
que tratando com respeito e veemência
fizeste dela a luz dos nossos passos.
És tão honesto, sensível, versátil,
bem humorado, tenaz e amigo.
Felicidade não é utopia, não é volátil,
pois ela existe se estivermos contigo.
(10/95)
Júnior, foste batizado
e tomaste, então, o cuidado
de saber que é responsabilidade,
o ônus que tal fato atrai.
Mas não te fizeste de rogado
e cobriste de honra o legado
soubeste conservar vitalidade,
no nome que herdaste de teu pai.
Estudando comandaste os laços
e escolheste teu mote: a ciência,
que tratando com respeito e veemência
fizeste dela a luz dos nossos passos.
És tão honesto, sensível, versátil,
bem humorado, tenaz e amigo.
Felicidade não é utopia, não é volátil,
pois ela existe se estivermos contigo.
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João Marcio Furtado Costa
Pai
Pai
(10/95)
Júnior, foste batizado
e tomaste, então, o cuidado
de saber que é responsabilidade,
o ônus que tal fato atrai.
Mas não te fizeste de rogado
e cobriste de honra o legado
soubeste conservar vitalidade,
no nome que herdaste de teu pai.
Estudando comandaste os laços
e escolheste teu mote: a ciência,
que tratando com respeito e veemência
fizeste dela a luz dos nossos passos.
És tão honesto, sensível, versátil,
bem humorado, tenaz e amigo.
Felicidade não é utopia, não é volátil,
pois ela existe se estivermos contigo.
(10/95)
Júnior, foste batizado
e tomaste, então, o cuidado
de saber que é responsabilidade,
o ônus que tal fato atrai.
Mas não te fizeste de rogado
e cobriste de honra o legado
soubeste conservar vitalidade,
no nome que herdaste de teu pai.
Estudando comandaste os laços
e escolheste teu mote: a ciência,
que tratando com respeito e veemência
fizeste dela a luz dos nossos passos.
És tão honesto, sensível, versátil,
bem humorado, tenaz e amigo.
Felicidade não é utopia, não é volátil,
pois ela existe se estivermos contigo.
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