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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Raul Pompéia

Raul Pompéia

Inverno

Ya la esperanza a los hombres
Para siempre abandonó:
Los recuerdos son tan solo
Pasto de su corazon.

J. DE ESPRONCEDA.
(El Diablo mundo).

Inverno! inverno! inverno!
Tristes nevoeiros, frios negrumes da longa treva boreal,
descampados de gelo cujo limite escapa-nos sempre, desesperadamente,
para lá do horizonte, perpétua solidão inóspita, onde apenas se ouve
a voz do vento que passa uivando como uma legião de lobos, através da
cidade de catedrais e túmulos de cristal na planície, fantasmas que a
miragem povoam e animam, tudo isto: decepções, obscuridade, solidão,
desespero e a hora invisível que passa como o vento, tudo isto é o
frio inverno da vida.
Há no espírito o luto profundo daquele céu de bruma dos lugares
onde a natureza dorme por meses, à espera do sol avaro que não vem.
Nem ao menos a letargia acorda ao clarão de falsas auroras, nem
uma vez ao menos a cúpula unida das névoas abre um postigo para o
outro céu, a região dos astros. Nada! Nada! Procuramos encontrar
fora de nós alguma coisa do que nos falta e os pobres olhos cansados
não vão além dos cabelos brancos que caem pela fronte; sofre-se
o desengano do invernado que da fria choupana contasse ver a seara
loura dos bons dias por entre as franjas de neve que os tetos babam
ao frio.

Tudo sombrio e triste. Triste o derradeiro consolo do inverno que
embriaga entretanto como o último vinho dos condenados: a recordação
dos dias idos, a acerba saudade da primavera.


Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série II - Amar.

In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.53. (Vera Cruz, 324c
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Sílvio Romero

Sílvio Romero

VI - A Modinha

A festa fervia!... Que voltas ligeiras
Os corpos adestros lá davam sutis!...
Que risos, que galas, que formas faceiras
Das jovens matutas nos lindos perfis!...

Gemia a viola nos seus devaneios,
No ar se perdiam das cordas os sons...
Nos olhos quebrados, nos trêmulos seios
Que graças, que sustos, que mimos, que tons!...

Na dança em vertigem, as frontes pendidas,
Aos meigos requebros, volvia-se um par;
Dos trenos suaves, das notas sentidas
Nas almas caía sereno orvalhar...

E os olhos falavam de gozos celestes —
Brotados nos seios dos sonhos em flor: —
Cochichos, carinhos... ruídos de vestes...
Mas lá do recato sentia-se o olor.

Que doces sonidos de passos sonoros,
Que belas miragens revolvem-se então!...
Aos bons desafios dos peitos canoros
A dança redobra no seu turbilhão...

Recresce o baiano; nos seus refervidos,
Em tais rodopios um céu se desfaz...
Um céu de desejos, de sons, de gemidos,
De sonhos, de cismas que a vida nos traz...

Cansadas as notas, estanque a loquela,
Deixadas as danças, o par se assentou:
"Agora a modinha!..." "Sim, vamos a ela!..."
"Quem canta, que chegue!..." "Se querem eu vou!"

Disse um da festa: e, pondo os dedos trépidos
No violão que geme ao seu ardor,
Dá começo, ao depois que ledo o empalma,
"Às belas por quem minh'alma
Empalidece de amor!..."

E cresce o canto alegre, suavíssimo
Como puras manhãs todas em flor...
O ruído do mundo lá se acalma
"Nas belas por quem minh'alma
Empalidece de amor!..."

E das notas que vibra ali dulcíssimas
Sonora a voz do lúcido cantor,
Do belo e da saudade cabe a palma
"Às belas por quem minh'alma
Empalidece de amor!..."

São sonhos palpitantes, ameníssimos
Que ao peito nos imergem seu candor;
Transparece do céu a vida calma
"Nas belas por quem minh'alma
Empalidece de amor..."


Poema integrante da série Recordações.

In: ROMERO, Sílvio. Últimos harpejos: fragmentos poéticos. Pelotas: Carlos Pinto, 1883
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Raul Pompéia

Raul Pompéia

Voto Feminino e Voto Estudantil

Verdade é que não deram voto as mulheres.

Mas as mulheres o que precisam é de mais atenções, de mais proteção social, não é de mais direitos políticos.

O direito de voto com extensão às mulheres seria a instuição legal da virago, que é a mais feia da monstruosidade de que dá cópia a sociedade, ainda pior do que a extravagância oposta do maricas; porque o defeito deste está na influência e o da virago está na demasia, e o mal por excesso sempre dá mais na vista. Viragos já basta que o sejam por necessidade de temperamento algumas respeitáveis sogras, que entendem tomar excessivamente a sério o seu papel.

Também o Congresso não deu voto aos estudantes maiores de 18 anos, nem de nenhuma outra idade.

Mas, para que o voto aos estudantes? É preciso que a gente tenha tempo de ser moço, e ser moço é poder fazer figas a tudo neste mundo, a começar pela política. Já em São Paulo o jornal político da Academia matou a serenata. E todos sabem quanto perdeu a poética cidade dos estudantes, com a morte das guitarras. E o interessante é que os oradores dos clubs partidários, não oram hoje como cantavam antigamente os trovadores das orgias ao luar.

O voto aos estudantes seria a consagração desse descalabro na lei; seria a abolição dos verdes anos, alguma cousa como a revogação da primavera. Com a idade de 15 anos, de 18 que fosse, entrava-se em sinistra maioridade e adeus idade dos poemas, adeus uma boêmia, adeus credores amáveis, adeus mesmo à risonha mesada, porque as divergências políticas paralisariam muitas vezes, a manuficência periódica dos cofres paternos. Era começar logo a vida da responsabilidade, a vida prática... Vida prática. As escolas sabem o sentido destas duas terríveis palavras na imaginação de quem ainda a tem ocupada pelo revôo das estrofes e pelo cantar das rimas.

Já bem pouco de moços têm os moços brasileiros que tão depressa cedem à preocupação melancólica da vida, para mais se agravar essa tendência de fraqueza, sobrecarregando-a com responsabilidades eleitorais.

Nenhum mal faz que mesmo com perda para estatística dos círculos da cabala se vão deixando os estudantes à estudantina.

Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 23 fev. 1891. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 195-196
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José Albano

José Albano

Comédia Angélica

A cena se passa em Lourdes.

Coro de pastoras

Violeta suave,
Santa MARIA,
O teu pranto nos lave
De noite e dia.

Tu que em Belém nos deste
A graça suma,
Açucena celeste,
Tu nos perfuma.

Rosa d'amor primeva,
Casta e pudica,
Tu nos levanta, enleva
E glorifica.

E, até que enfim desponte
A alta ventura,
Corra a água desta fonte
Perene e pura.

Coro de fiéis

Abril, de violetas coroado,
Pinta de cores mil o verde prado
E em ledos bosques e vergéis risonhos
Voam amores, ilusões e sonhos.
Desliza o rio, duma e doutra margem
Flores fragrantes fresco aroma espargem
E surgem dentre lírios amorosos
Doces desejos e mais doces gozos.
É já passado o inverno duro e ingrato,
A primavera ostenta rico ornato
E já lá vêm chegando as três donzelas
Sábias, prudentes, ínclitas e belas
Que inspiraram o engenho peregrino
Do Angélico Doutor Tomás d'Aquino.
Eis a Fé, a Esperança e a Caridade,
Trazendo co'o prazer que nos invade,
A santa cruz, luzindo eternamente,
A âncora forte e o coração ardente.



Minhas irmãs caríssimas e amáveis,
Dizei-me em que lugar remoto andáveis,
Pois quase nunca a vós me vejo unida,
Almas salvando para a eterna vida.
Porém aqui, nesta sagrada gruta,
Do mal nos livra a Virgem impoluta
E não tememos nunca força ou manha,
Quando a graça de Deus nos acompanha
E o resplendor da estrela matutina
O caminho do céu nos ilumina.

Esperança

Às vezes, Fé, contigo também ando,
Pois por todo o universo vou voando,
Porém por que tão raras vezes vejo
Da Caridade o rosto benfazejo?

Caridade

Não faltam os que creiam e que esperem,
Mas, ó tristeza, amar bem poucos querem.
E ai dos que deixam a inocência casta,
Todo o prazer do mundo não lhes basta.

(...)


Publicado no livro Comédia Angélica (1918).

In: ALBANO, José. Rimas: poesia reunida e prefaciada por Manuel Bandeira. Pref. Bernardo de Mendonça. 3.ed. acrescida de perfis biográficos, estudos críticos e bibliografia. Rio de Janeiro: Graphia, 1993. p.150-152. (Série Revisões, 3
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Raimundo Correia

Raimundo Correia

Plenilúnio

Além nos ares, tremulamente,
Que visão branca das nuvens sai!
Luz entre as franças, fria e silente;
Assim nos ares, tremulamente,
Balão aceso subindo vai...

Há tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo do seu fulgor!
Lua dos tristes e enamorados,
Golfão de cismas fascinador!

Astro dos loucos, sol da demência,
Vaga, notâmbula aparição!
Quantos, bebendo-te a refulgência,
Quantos por isso, sol da demência,
Lua dos loucos, loucos estão!

Quantos à noite, de alva sereia
O falaz canto na febre a ouvir,
No argênteo fluxo da lua cheia,
Alucinados se deixam ir...

Também outrora, num mar de lua,
Voguei na esteira de um louco ideal;
Exposta aos euros a fronte nua,
Dei-me ao relento, num mar de lua,
Banhos de lua que fazem mal.

Ah! Quantas vezes, absorto nela,
Por horas mortas postar-me vim
Cogitabundo, triste, à janela,
Tardas vigílias passando assim!

E assim, fitando-a noites inteiras;
Seu disco argênteo n’alma imprimi;
Olhos pisados, fundas olheiras,
Passei fitando-a noites inteiras,
Fitei-a tanto, que enlouqueci!

Tantos serenos tão doentios,
Friagens tantas padeci eu;
Chuva de raios de prata frios
A fronte em brasa me arrefeceu!

Lunárias flores, ao feral lume,
– Caçoilas de ópio, de embriaguez –
Evaporavam letal perfume...
E os lençóis d’água, do feral lume
Se amortalhavam na lividez...

Fúlgida névoa vem-me ofuscante
De um pesadelo de luz encher,
E a tudo em roda, desde esse instante,
Da cor da lua começo a ver.

E erguem por vias enluaradas
Minhas sandálias chispas e flux...
Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
Eu sigo às tontas, cego de luz...

Um luar amplo me inunda, e eu ando
Em visionária luz a nadar,
Por toda a parte, louco arrastando
O largo manto do meu luar...


Publicado no livro Poesias (1898).

In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.156-157.
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Raimundo Correia

Raimundo Correia

Plenilúnio

Além nos ares, tremulamente,
Que visão branca das nuvens sai!
Luz entre as franças, fria e silente;
Assim nos ares, tremulamente,
Balão aceso subindo vai...

Há tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo do seu fulgor!
Lua dos tristes e enamorados,
Golfão de cismas fascinador!

Astro dos loucos, sol da demência,
Vaga, notâmbula aparição!
Quantos, bebendo-te a refulgência,
Quantos por isso, sol da demência,
Lua dos loucos, loucos estão!

Quantos à noite, de alva sereia
O falaz canto na febre a ouvir,
No argênteo fluxo da lua cheia,
Alucinados se deixam ir...

Também outrora, num mar de lua,
Voguei na esteira de um louco ideal;
Exposta aos euros a fronte nua,
Dei-me ao relento, num mar de lua,
Banhos de lua que fazem mal.

Ah! Quantas vezes, absorto nela,
Por horas mortas postar-me vim
Cogitabundo, triste, à janela,
Tardas vigílias passando assim!

E assim, fitando-a noites inteiras;
Seu disco argênteo n’alma imprimi;
Olhos pisados, fundas olheiras,
Passei fitando-a noites inteiras,
Fitei-a tanto, que enlouqueci!

Tantos serenos tão doentios,
Friagens tantas padeci eu;
Chuva de raios de prata frios
A fronte em brasa me arrefeceu!

Lunárias flores, ao feral lume,
– Caçoilas de ópio, de embriaguez –
Evaporavam letal perfume...
E os lençóis d’água, do feral lume
Se amortalhavam na lividez...

Fúlgida névoa vem-me ofuscante
De um pesadelo de luz encher,
E a tudo em roda, desde esse instante,
Da cor da lua começo a ver.

E erguem por vias enluaradas
Minhas sandálias chispas e flux...
Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
Eu sigo às tontas, cego de luz...

Um luar amplo me inunda, e eu ando
Em visionária luz a nadar,
Por toda a parte, louco arrastando
O largo manto do meu luar...


Publicado no livro Poesias (1898).

In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.156-157.
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