Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Hermes Fontes
Luar de Paquetá
Nessas noites dolorosas
Quando o mar, desfeiro em rosas,
Se desfolha à lua cheia
Lembra a ilha um ninho oculto
Onde o amor celebra em culto
Todo o encanto que o rodeia
Nos canteiros ondulantes,
As nereidas incessantes
Abrem lírios ao luar
A água em prece borborinha
E em redor da Capelinha
Vai rezando o verbo amar.
Jardim de afetos
Pombal de amores
Humildes tetos
De pescadores...
Se a lua brilha
Que bem nos dá
Amar na Ilha
De Paquetá!
Pensamento de quem ama,
Hóstia azul, fervendo em chama
Entre lábios separados...
Pensamento de quem ama
Leva o meu radiograma
Ao jardim dos namorados.
Onde é esse paraíso,
O caminho que idealizo
Na ascensão para esse altar,
Paquetá é um céu profundo
Que começa neste mundo
Mas não sabe onde acabar...
Sobre o mar de azul rendado,
Que é toalha de uma noivado,
Surge a Ilha — taça erguida.
E o luar — vinho doirado
Enche a taça do Passado
Que embriaga a nossa vida!
Ai, que filtro milagroso,
Para a mágua e para o gozo
Para a eterna inspiração!
O luar, na mocidade,
Abre as rosas da saudade
Dentro em nosso coração.
In: VASCONCELOS, Ary. Panorama da música popular brasileira. São Paulo: Livr. Martins, 1964. v.1, p.122-123
NOTA: Música de Freire Júnior
Quando o mar, desfeiro em rosas,
Se desfolha à lua cheia
Lembra a ilha um ninho oculto
Onde o amor celebra em culto
Todo o encanto que o rodeia
Nos canteiros ondulantes,
As nereidas incessantes
Abrem lírios ao luar
A água em prece borborinha
E em redor da Capelinha
Vai rezando o verbo amar.
Jardim de afetos
Pombal de amores
Humildes tetos
De pescadores...
Se a lua brilha
Que bem nos dá
Amar na Ilha
De Paquetá!
Pensamento de quem ama,
Hóstia azul, fervendo em chama
Entre lábios separados...
Pensamento de quem ama
Leva o meu radiograma
Ao jardim dos namorados.
Onde é esse paraíso,
O caminho que idealizo
Na ascensão para esse altar,
Paquetá é um céu profundo
Que começa neste mundo
Mas não sabe onde acabar...
Sobre o mar de azul rendado,
Que é toalha de uma noivado,
Surge a Ilha — taça erguida.
E o luar — vinho doirado
Enche a taça do Passado
Que embriaga a nossa vida!
Ai, que filtro milagroso,
Para a mágua e para o gozo
Para a eterna inspiração!
O luar, na mocidade,
Abre as rosas da saudade
Dentro em nosso coração.
In: VASCONCELOS, Ary. Panorama da música popular brasileira. São Paulo: Livr. Martins, 1964. v.1, p.122-123
NOTA: Música de Freire Júnior
2 105
1
Moacyr Felix
Dois Poemas do Homem e sua Escolha
Revenir serait une chute écrasante.
Paul Éluard
I
Se em cada porto, longe, o verde alfombra
uma esperança, uma salgada brisa
para os pesados barcos sobre a sombra
toda feita de nadas, imprecisa
(mas devorando o peixe e o ar e o homem),
alastro as rubras aves do incorpóreo
pelo dorso desnudo de uma tarde
(que é esta parte de mim que eu vou queimando)
e insisto em que eles partam, vou deixando-os
acompanhados desta dor acesa
levar o aviso dos meus olhos, mar
e mar afora... Mas eu fico. E finco
na sombra irreversivelmente minha
a permanência — ciclo e madureza
dos troncos regravados pela chuva,
dos troncos que se cumprem sempre os mesmos,
imóveis, simplesmente se cumprindo
sob um pórtico de nuvens giratórias...
II
Destino. Que é o destino? Que fazer
contra estas sombras íntimas, tão minhas
como o tecido esquivo de mim próprio
preso em meus ossos, latejando um ser
de asas de sal mordendo um chão de ópio?
Ah, destino, oxalá não haja enganos
quando chegar nas pontas dessa teia
de gastos gestos lentos costurados
com o arame triste desses muitos anos!
Quando parar, no tempo, esta alma cheia
de escolhas acabadas, rosa quieta
a desmanchar-se em desenhados ventos,
ah, vida, não me vença a noite alerta
atrás do abismo
e que os abismos incendeia:
deixa eu colher no rosto um rosto certo
do tempo irreversível, som de areia
que já foi casa ou ponte, e não deserto...
Publicado no livro O Pão e o Vinho (1959).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.17-1
Paul Éluard
I
Se em cada porto, longe, o verde alfombra
uma esperança, uma salgada brisa
para os pesados barcos sobre a sombra
toda feita de nadas, imprecisa
(mas devorando o peixe e o ar e o homem),
alastro as rubras aves do incorpóreo
pelo dorso desnudo de uma tarde
(que é esta parte de mim que eu vou queimando)
e insisto em que eles partam, vou deixando-os
acompanhados desta dor acesa
levar o aviso dos meus olhos, mar
e mar afora... Mas eu fico. E finco
na sombra irreversivelmente minha
a permanência — ciclo e madureza
dos troncos regravados pela chuva,
dos troncos que se cumprem sempre os mesmos,
imóveis, simplesmente se cumprindo
sob um pórtico de nuvens giratórias...
II
Destino. Que é o destino? Que fazer
contra estas sombras íntimas, tão minhas
como o tecido esquivo de mim próprio
preso em meus ossos, latejando um ser
de asas de sal mordendo um chão de ópio?
Ah, destino, oxalá não haja enganos
quando chegar nas pontas dessa teia
de gastos gestos lentos costurados
com o arame triste desses muitos anos!
Quando parar, no tempo, esta alma cheia
de escolhas acabadas, rosa quieta
a desmanchar-se em desenhados ventos,
ah, vida, não me vença a noite alerta
atrás do abismo
e que os abismos incendeia:
deixa eu colher no rosto um rosto certo
do tempo irreversível, som de areia
que já foi casa ou ponte, e não deserto...
Publicado no livro O Pão e o Vinho (1959).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.17-1
1 508
1
Antônio Barreto
Para Enxergar Duendes no Jardim
Não há como esconder de ti mesmo tuas invenções mais
puras. Para que um ser exista — como um galho, um unicórnio,
uma pedra, um Mastigolarken, um Catalorpas ou um anjo
— , basta imaginá-lo vivo.
E mesmo que te chamem de louco, visionário, nefelibata
ou lunático; continue assim: telúrico. E absurdamente apaixonado
pela simplicidade da Lua.
Quando a Primavera estiver
começando, acorde bem cedo e,
antes de ir para o jardim, faça a
seguinte simpatia: coloque na tampinha
de uma garrafa um torrão de açúcar,
umedeça-o com 3 gotinhas de água
mineral e mais 3 gotinhas de vinho
tinto suave. Em seguida, deposite-a
sobre as pétalas da menor margarida
que você encontrar, procurando o
canto mais úmido e ensombrado de
seu jardim. Lá, você deverá se
agachar e pronunciar as seguintes
palavras mágicas:
EDNEUD, EDNEUD UEM,
ES ÊCOV ETSIXE,
MEV RAVORP ASSED
ADIBEB!
Se, ao invés de um
duende, aparecer uma abelha, é porque
outras pessoas já fizeram a mesma
simpatia, e o pobre coitado se
embriagou pelo caminho.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.18-20. (Premiados, 3
puras. Para que um ser exista — como um galho, um unicórnio,
uma pedra, um Mastigolarken, um Catalorpas ou um anjo
— , basta imaginá-lo vivo.
E mesmo que te chamem de louco, visionário, nefelibata
ou lunático; continue assim: telúrico. E absurdamente apaixonado
pela simplicidade da Lua.
Quando a Primavera estiver
começando, acorde bem cedo e,
antes de ir para o jardim, faça a
seguinte simpatia: coloque na tampinha
de uma garrafa um torrão de açúcar,
umedeça-o com 3 gotinhas de água
mineral e mais 3 gotinhas de vinho
tinto suave. Em seguida, deposite-a
sobre as pétalas da menor margarida
que você encontrar, procurando o
canto mais úmido e ensombrado de
seu jardim. Lá, você deverá se
agachar e pronunciar as seguintes
palavras mágicas:
EDNEUD, EDNEUD UEM,
ES ÊCOV ETSIXE,
MEV RAVORP ASSED
ADIBEB!
Se, ao invés de um
duende, aparecer uma abelha, é porque
outras pessoas já fizeram a mesma
simpatia, e o pobre coitado se
embriagou pelo caminho.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.18-20. (Premiados, 3
1 501
1
Pedro Nava
Alcazar
Para Rachel de Queiroz
Rosa de neve,
estrela expandida
no fim da noite!
Estrela perdida
que tremes no alto
das chapas de vidro
do céu cristalino!
Surges discreta
como os ladrões...
A luz que enlouquece
vem das espiras
que riscam no ar
as cores agudas
do teu espectro!
Tua luz se insinua
nos olhos dos doidos.
— És tu que te infiltras
nas lágrimas turvas
que empastam a cara
dos bêbedos tristes.
— És tu que lampejas
no mar que se fecha
ao baque cadente
do corpo silente
dos suicidas.
Como és única e clara
quando cintilas
na franja escura
que o dia dilui,
— no límpido instante
em que te exorbitas
e logo te esvais:
Brilhas tão pouco
no fim da noite
— ciclo irisado,
rosa expandida!
Brilhas tão pouco
que mal consigo...
captar teu lume
num breve segundo
de lucidez,
que presto deslumbra
e também desmaia
como luz perdida
no fim da noite.
1941
In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.185-18
Rosa de neve,
estrela expandida
no fim da noite!
Estrela perdida
que tremes no alto
das chapas de vidro
do céu cristalino!
Surges discreta
como os ladrões...
A luz que enlouquece
vem das espiras
que riscam no ar
as cores agudas
do teu espectro!
Tua luz se insinua
nos olhos dos doidos.
— És tu que te infiltras
nas lágrimas turvas
que empastam a cara
dos bêbedos tristes.
— És tu que lampejas
no mar que se fecha
ao baque cadente
do corpo silente
dos suicidas.
Como és única e clara
quando cintilas
na franja escura
que o dia dilui,
— no límpido instante
em que te exorbitas
e logo te esvais:
Brilhas tão pouco
no fim da noite
— ciclo irisado,
rosa expandida!
Brilhas tão pouco
que mal consigo...
captar teu lume
num breve segundo
de lucidez,
que presto deslumbra
e também desmaia
como luz perdida
no fim da noite.
1941
In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.185-18
1 331
1
Martins Fontes
Otelo
Quem minha angústia suportar, prefira
a morte, redentora, à desventura
de não poder, nas vascas da loucura,
distinguir a verdade da mentira.
Infrene dúvida, implacável ira,
esta que me alucina e me tortura!
— Ter ciúmes da luz, formosa e pura,
do chão, da sombra e do ar que se respira!
Invejo a veste que te esconde! a espuma
que, beijando teu corpo, linha a linha,
toda do teu aroma se perfuma!
Amo! E o delírio desta dor mesquinha,
faz que eu deseje ser tu mesma, em suma,
para ter a certeza de que és minha!
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.39-40. (Nossos clássicos, 40
a morte, redentora, à desventura
de não poder, nas vascas da loucura,
distinguir a verdade da mentira.
Infrene dúvida, implacável ira,
esta que me alucina e me tortura!
— Ter ciúmes da luz, formosa e pura,
do chão, da sombra e do ar que se respira!
Invejo a veste que te esconde! a espuma
que, beijando teu corpo, linha a linha,
toda do teu aroma se perfuma!
Amo! E o delírio desta dor mesquinha,
faz que eu deseje ser tu mesma, em suma,
para ter a certeza de que és minha!
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.39-40. (Nossos clássicos, 40
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1
Martins Fontes
Otelo
Quem minha angústia suportar, prefira
a morte, redentora, à desventura
de não poder, nas vascas da loucura,
distinguir a verdade da mentira.
Infrene dúvida, implacável ira,
esta que me alucina e me tortura!
— Ter ciúmes da luz, formosa e pura,
do chão, da sombra e do ar que se respira!
Invejo a veste que te esconde! a espuma
que, beijando teu corpo, linha a linha,
toda do teu aroma se perfuma!
Amo! E o delírio desta dor mesquinha,
faz que eu deseje ser tu mesma, em suma,
para ter a certeza de que és minha!
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.39-40. (Nossos clássicos, 40
a morte, redentora, à desventura
de não poder, nas vascas da loucura,
distinguir a verdade da mentira.
Infrene dúvida, implacável ira,
esta que me alucina e me tortura!
— Ter ciúmes da luz, formosa e pura,
do chão, da sombra e do ar que se respira!
Invejo a veste que te esconde! a espuma
que, beijando teu corpo, linha a linha,
toda do teu aroma se perfuma!
Amo! E o delírio desta dor mesquinha,
faz que eu deseje ser tu mesma, em suma,
para ter a certeza de que és minha!
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.39-40. (Nossos clássicos, 40
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Martins Fontes
Otelo
Quem minha angústia suportar, prefira
a morte, redentora, à desventura
de não poder, nas vascas da loucura,
distinguir a verdade da mentira.
Infrene dúvida, implacável ira,
esta que me alucina e me tortura!
— Ter ciúmes da luz, formosa e pura,
do chão, da sombra e do ar que se respira!
Invejo a veste que te esconde! a espuma
que, beijando teu corpo, linha a linha,
toda do teu aroma se perfuma!
Amo! E o delírio desta dor mesquinha,
faz que eu deseje ser tu mesma, em suma,
para ter a certeza de que és minha!
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.39-40. (Nossos clássicos, 40
a morte, redentora, à desventura
de não poder, nas vascas da loucura,
distinguir a verdade da mentira.
Infrene dúvida, implacável ira,
esta que me alucina e me tortura!
— Ter ciúmes da luz, formosa e pura,
do chão, da sombra e do ar que se respira!
Invejo a veste que te esconde! a espuma
que, beijando teu corpo, linha a linha,
toda do teu aroma se perfuma!
Amo! E o delírio desta dor mesquinha,
faz que eu deseje ser tu mesma, em suma,
para ter a certeza de que és minha!
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.39-40. (Nossos clássicos, 40
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1
Martins Fontes
Otelo
Quem minha angústia suportar, prefira
a morte, redentora, à desventura
de não poder, nas vascas da loucura,
distinguir a verdade da mentira.
Infrene dúvida, implacável ira,
esta que me alucina e me tortura!
— Ter ciúmes da luz, formosa e pura,
do chão, da sombra e do ar que se respira!
Invejo a veste que te esconde! a espuma
que, beijando teu corpo, linha a linha,
toda do teu aroma se perfuma!
Amo! E o delírio desta dor mesquinha,
faz que eu deseje ser tu mesma, em suma,
para ter a certeza de que és minha!
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.39-40. (Nossos clássicos, 40
a morte, redentora, à desventura
de não poder, nas vascas da loucura,
distinguir a verdade da mentira.
Infrene dúvida, implacável ira,
esta que me alucina e me tortura!
— Ter ciúmes da luz, formosa e pura,
do chão, da sombra e do ar que se respira!
Invejo a veste que te esconde! a espuma
que, beijando teu corpo, linha a linha,
toda do teu aroma se perfuma!
Amo! E o delírio desta dor mesquinha,
faz que eu deseje ser tu mesma, em suma,
para ter a certeza de que és minha!
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.39-40. (Nossos clássicos, 40
2 174
1
Manuel de Santa Maria Itaparica
Descrição da Ilha de Itaparica
(...)
XVII
Monstro do mar, Gigante do profundo,
Uma torre nas ondas soçobrada,
Que parece em todo o âmbito rotundo
Jamais besta tão grande foi criada:
Os mares despedaça furibundo
Coa barbatana às vezes levantada,
Cujos membros tetérrimos e broncos
Fazem a Tétis dar gemidos roncos.
XVIII
Baleia vulgarmente lhe chamamos,
Que como só a esta Ilha se sujeita,
Por isso de direito a não deixamos,
Por ser em tudo a descrição perfeita;
E para que bem claro percebamos
O como a pescaria dela é feita,
Quero dar com estudo não ocioso
Esta breve notícia ao curioso.
XIX
Tanto que chega o tempo decretado,
Que este peixe do vento Austro é movido,
Estando à vista de Terra já chegado,
Cujos sinais Netuno dá ferido,
Em um porto desta Ilha assinalado,
E de todo o preciso prevenido,
Estão umas lanchas leves e veleiras,
Que se fazem cos remos mais ligeiras.
XX
Os Nautas são Etíopes robustos,
E outros mais do sangue misturado,
Alguns Mestiços em a cor adustos,
Cada qual pelo esforço assinalado:
Outro ali vai também, que sem ter sustos
Leva o arpão da corda pendurado,
Também um, que no ofício a Glauco ofusca,
E para isto Brásilo se busca.
(...)
XXV
O arpão farpado tem nas mãos suspenso
Um, que da proa o vai arremessando,
Todos os mais deixando o remo extenso
Se vão na lancha súbito deitando;
E depois que ferido o peixe imenso
O veloz curso vai continuando,
Surge cad'um com fúria e força tanta,
Que como um Anteu forte se levanta.
XXVI
Corre o monstro com tal ferocidade,
Que vai partindo o úmido Elemento,
E lá do pego na concavidade
Parece mostra Tétis sentimento:
Leva a lancha com tal velocidade,
E com tão apressado movimento,
Que cá de longe apenas aparece,
Sem que em alguma parte se escondesse.
(...)
Publicado no livro Eustáquidos: poema sacro e tragicômico (1769*).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.146-148. (Textos, 2)
NOTA: Poema composto de 65 oitava
XVII
Monstro do mar, Gigante do profundo,
Uma torre nas ondas soçobrada,
Que parece em todo o âmbito rotundo
Jamais besta tão grande foi criada:
Os mares despedaça furibundo
Coa barbatana às vezes levantada,
Cujos membros tetérrimos e broncos
Fazem a Tétis dar gemidos roncos.
XVIII
Baleia vulgarmente lhe chamamos,
Que como só a esta Ilha se sujeita,
Por isso de direito a não deixamos,
Por ser em tudo a descrição perfeita;
E para que bem claro percebamos
O como a pescaria dela é feita,
Quero dar com estudo não ocioso
Esta breve notícia ao curioso.
XIX
Tanto que chega o tempo decretado,
Que este peixe do vento Austro é movido,
Estando à vista de Terra já chegado,
Cujos sinais Netuno dá ferido,
Em um porto desta Ilha assinalado,
E de todo o preciso prevenido,
Estão umas lanchas leves e veleiras,
Que se fazem cos remos mais ligeiras.
XX
Os Nautas são Etíopes robustos,
E outros mais do sangue misturado,
Alguns Mestiços em a cor adustos,
Cada qual pelo esforço assinalado:
Outro ali vai também, que sem ter sustos
Leva o arpão da corda pendurado,
Também um, que no ofício a Glauco ofusca,
E para isto Brásilo se busca.
(...)
XXV
O arpão farpado tem nas mãos suspenso
Um, que da proa o vai arremessando,
Todos os mais deixando o remo extenso
Se vão na lancha súbito deitando;
E depois que ferido o peixe imenso
O veloz curso vai continuando,
Surge cad'um com fúria e força tanta,
Que como um Anteu forte se levanta.
XXVI
Corre o monstro com tal ferocidade,
Que vai partindo o úmido Elemento,
E lá do pego na concavidade
Parece mostra Tétis sentimento:
Leva a lancha com tal velocidade,
E com tão apressado movimento,
Que cá de longe apenas aparece,
Sem que em alguma parte se escondesse.
(...)
Publicado no livro Eustáquidos: poema sacro e tragicômico (1769*).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.146-148. (Textos, 2)
NOTA: Poema composto de 65 oitava
3 103
1
Cruz e Sousa
Pressago
Nas águas daquele lago
Dormita a sombra de Iago...
Um véu de luar funéreo
Cobre tudo de mistério...
Há um lívido abandono
Do luar no estranho sono.
Transfiguração enorme
Encobre o luar que dorme...
Dá meia-noite na ermida,
Como o último ai de uma vida.
São badaladas nevoentas,
Sonolentas, sonolentas...
Do céu no estrelado luxo
Passa o fantasma de um bruxo.
No mar tenebroso e tetro
Vaga de um náufrago o espectro.
Como fantásticos signos,
Erram demônios malignos.
Na brancura das ossadas
Gemem as almas penadas.
Lobisomens, feiticeiras
Gargalham no luar das eiras.
Os vultos dos enforcados
Uivam nos ventos irados.
Os sinos das torres frias
Soluçam hipocondrias.
Luxúrias de virgens mortas
Das tumbas rasgam as portas.
Andam torvos pesadelos
Arrepiando os cabelos.
Coalha nos lodos abjetos
O sangue roxo dos fetos.
Há rios maus, amarelos
De presságio de flagelos.
Das vesgas concupiscências
Saem vis fosforescências.
Os remorsos contorcidos
Mordem os ares pungidos.
A alma cobarde de Judas
Recebe expressões cornudas.
Negras aves de rapina
Mostram a garra assassina.
Sob o céu que nos oprime
Languescem formas de crime.
Com os mais sinistros furores,
Saem gemidos das flores.
Caveiras! Que horror medonho!
Parecem visões de um sonho!
A morte com Sancho Pança,
Grotesca e trágica dança.
E como um símbolo eterno,
Ritmos dos Ritmos do inferno.
No lago morto, ondulando,
Dentre o luar noctivagando,
O corvo hediondo crocita
Da sombra d’Iago maldita!
Publicado no livro Faróis (1900).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinenses de Cultura, 1985. p.73-75
Dormita a sombra de Iago...
Um véu de luar funéreo
Cobre tudo de mistério...
Há um lívido abandono
Do luar no estranho sono.
Transfiguração enorme
Encobre o luar que dorme...
Dá meia-noite na ermida,
Como o último ai de uma vida.
São badaladas nevoentas,
Sonolentas, sonolentas...
Do céu no estrelado luxo
Passa o fantasma de um bruxo.
No mar tenebroso e tetro
Vaga de um náufrago o espectro.
Como fantásticos signos,
Erram demônios malignos.
Na brancura das ossadas
Gemem as almas penadas.
Lobisomens, feiticeiras
Gargalham no luar das eiras.
Os vultos dos enforcados
Uivam nos ventos irados.
Os sinos das torres frias
Soluçam hipocondrias.
Luxúrias de virgens mortas
Das tumbas rasgam as portas.
Andam torvos pesadelos
Arrepiando os cabelos.
Coalha nos lodos abjetos
O sangue roxo dos fetos.
Há rios maus, amarelos
De presságio de flagelos.
Das vesgas concupiscências
Saem vis fosforescências.
Os remorsos contorcidos
Mordem os ares pungidos.
A alma cobarde de Judas
Recebe expressões cornudas.
Negras aves de rapina
Mostram a garra assassina.
Sob o céu que nos oprime
Languescem formas de crime.
Com os mais sinistros furores,
Saem gemidos das flores.
Caveiras! Que horror medonho!
Parecem visões de um sonho!
A morte com Sancho Pança,
Grotesca e trágica dança.
E como um símbolo eterno,
Ritmos dos Ritmos do inferno.
No lago morto, ondulando,
Dentre o luar noctivagando,
O corvo hediondo crocita
Da sombra d’Iago maldita!
Publicado no livro Faróis (1900).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinenses de Cultura, 1985. p.73-75
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1
Cruz e Sousa
Pressago
Nas águas daquele lago
Dormita a sombra de Iago...
Um véu de luar funéreo
Cobre tudo de mistério...
Há um lívido abandono
Do luar no estranho sono.
Transfiguração enorme
Encobre o luar que dorme...
Dá meia-noite na ermida,
Como o último ai de uma vida.
São badaladas nevoentas,
Sonolentas, sonolentas...
Do céu no estrelado luxo
Passa o fantasma de um bruxo.
No mar tenebroso e tetro
Vaga de um náufrago o espectro.
Como fantásticos signos,
Erram demônios malignos.
Na brancura das ossadas
Gemem as almas penadas.
Lobisomens, feiticeiras
Gargalham no luar das eiras.
Os vultos dos enforcados
Uivam nos ventos irados.
Os sinos das torres frias
Soluçam hipocondrias.
Luxúrias de virgens mortas
Das tumbas rasgam as portas.
Andam torvos pesadelos
Arrepiando os cabelos.
Coalha nos lodos abjetos
O sangue roxo dos fetos.
Há rios maus, amarelos
De presságio de flagelos.
Das vesgas concupiscências
Saem vis fosforescências.
Os remorsos contorcidos
Mordem os ares pungidos.
A alma cobarde de Judas
Recebe expressões cornudas.
Negras aves de rapina
Mostram a garra assassina.
Sob o céu que nos oprime
Languescem formas de crime.
Com os mais sinistros furores,
Saem gemidos das flores.
Caveiras! Que horror medonho!
Parecem visões de um sonho!
A morte com Sancho Pança,
Grotesca e trágica dança.
E como um símbolo eterno,
Ritmos dos Ritmos do inferno.
No lago morto, ondulando,
Dentre o luar noctivagando,
O corvo hediondo crocita
Da sombra d’Iago maldita!
Publicado no livro Faróis (1900).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinenses de Cultura, 1985. p.73-75
Dormita a sombra de Iago...
Um véu de luar funéreo
Cobre tudo de mistério...
Há um lívido abandono
Do luar no estranho sono.
Transfiguração enorme
Encobre o luar que dorme...
Dá meia-noite na ermida,
Como o último ai de uma vida.
São badaladas nevoentas,
Sonolentas, sonolentas...
Do céu no estrelado luxo
Passa o fantasma de um bruxo.
No mar tenebroso e tetro
Vaga de um náufrago o espectro.
Como fantásticos signos,
Erram demônios malignos.
Na brancura das ossadas
Gemem as almas penadas.
Lobisomens, feiticeiras
Gargalham no luar das eiras.
Os vultos dos enforcados
Uivam nos ventos irados.
Os sinos das torres frias
Soluçam hipocondrias.
Luxúrias de virgens mortas
Das tumbas rasgam as portas.
Andam torvos pesadelos
Arrepiando os cabelos.
Coalha nos lodos abjetos
O sangue roxo dos fetos.
Há rios maus, amarelos
De presságio de flagelos.
Das vesgas concupiscências
Saem vis fosforescências.
Os remorsos contorcidos
Mordem os ares pungidos.
A alma cobarde de Judas
Recebe expressões cornudas.
Negras aves de rapina
Mostram a garra assassina.
Sob o céu que nos oprime
Languescem formas de crime.
Com os mais sinistros furores,
Saem gemidos das flores.
Caveiras! Que horror medonho!
Parecem visões de um sonho!
A morte com Sancho Pança,
Grotesca e trágica dança.
E como um símbolo eterno,
Ritmos dos Ritmos do inferno.
No lago morto, ondulando,
Dentre o luar noctivagando,
O corvo hediondo crocita
Da sombra d’Iago maldita!
Publicado no livro Faróis (1900).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinenses de Cultura, 1985. p.73-75
4 644
1
da Costa e Silva
Madrigal de um Louco
L u a !
Camélia
Que flutua
No azul. Ofélia
Serena e dolente,
Fria, vagando pelas
Alturas, serenamente,
Por entre os lírios das estrelas;
Santelmo aceso para a Saudade;
Luz etérea, simbólica, perdida
Entre os astros de ouro pela imensidade;
Esfinge da Ilusão no deserto da Vida!
Lâmpada do Sonho, lívida, suspensa...
Vaso espiritual dos meus cismares,
Custódia argêntea da minha crença,
Ó Rosa Mística dos ares!
Unge o meu ser, na apoteose
Da tua luz, e eu frua,
Cismando, a pureza
Da luz e goze
Toda a tua
Tristeza,
L u a !
Publicado no livro Sangue (1908).
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.89
Camélia
Que flutua
No azul. Ofélia
Serena e dolente,
Fria, vagando pelas
Alturas, serenamente,
Por entre os lírios das estrelas;
Santelmo aceso para a Saudade;
Luz etérea, simbólica, perdida
Entre os astros de ouro pela imensidade;
Esfinge da Ilusão no deserto da Vida!
Lâmpada do Sonho, lívida, suspensa...
Vaso espiritual dos meus cismares,
Custódia argêntea da minha crença,
Ó Rosa Mística dos ares!
Unge o meu ser, na apoteose
Da tua luz, e eu frua,
Cismando, a pureza
Da luz e goze
Toda a tua
Tristeza,
L u a !
Publicado no livro Sangue (1908).
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.89
2 760
1
da Costa e Silva
Madrigal de um Louco
L u a !
Camélia
Que flutua
No azul. Ofélia
Serena e dolente,
Fria, vagando pelas
Alturas, serenamente,
Por entre os lírios das estrelas;
Santelmo aceso para a Saudade;
Luz etérea, simbólica, perdida
Entre os astros de ouro pela imensidade;
Esfinge da Ilusão no deserto da Vida!
Lâmpada do Sonho, lívida, suspensa...
Vaso espiritual dos meus cismares,
Custódia argêntea da minha crença,
Ó Rosa Mística dos ares!
Unge o meu ser, na apoteose
Da tua luz, e eu frua,
Cismando, a pureza
Da luz e goze
Toda a tua
Tristeza,
L u a !
Publicado no livro Sangue (1908).
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.89
Camélia
Que flutua
No azul. Ofélia
Serena e dolente,
Fria, vagando pelas
Alturas, serenamente,
Por entre os lírios das estrelas;
Santelmo aceso para a Saudade;
Luz etérea, simbólica, perdida
Entre os astros de ouro pela imensidade;
Esfinge da Ilusão no deserto da Vida!
Lâmpada do Sonho, lívida, suspensa...
Vaso espiritual dos meus cismares,
Custódia argêntea da minha crença,
Ó Rosa Mística dos ares!
Unge o meu ser, na apoteose
Da tua luz, e eu frua,
Cismando, a pureza
Da luz e goze
Toda a tua
Tristeza,
L u a !
Publicado no livro Sangue (1908).
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.89
2 760
1
Luiz de Miranda
Ferramentas do Tempo
a Lígia Averbuck
Ferramentas do tempo
feito luz de manhã aberta
luzindo à sombra da porta
do próprio corpo
armas luzindo na noite morta
junto aos cadáveres do sonho
e o vento jogando
mundos indecifráveis no ar
Tento reduzir a sina
reduzir o sinal
luzir no fundo da morte
tua presença
Tento reluzir
na pálpebra do verão
no ombro da tarde
e escorre alegria
na alameda fechada do dia
E tudo são papéis, poeira
fiapos de lembrança
pedaços da própria carne
e tudo arde no ar
à luz desamparada das coisas envelhecidas
Ferramentas do tempo
trazem lampiões lamparinas incêndios
trazem o fogo de dentro
da terra e do corpo
a repor memória ao companheiro morto
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.298-29
Ferramentas do tempo
feito luz de manhã aberta
luzindo à sombra da porta
do próprio corpo
armas luzindo na noite morta
junto aos cadáveres do sonho
e o vento jogando
mundos indecifráveis no ar
Tento reduzir a sina
reduzir o sinal
luzir no fundo da morte
tua presença
Tento reluzir
na pálpebra do verão
no ombro da tarde
e escorre alegria
na alameda fechada do dia
E tudo são papéis, poeira
fiapos de lembrança
pedaços da própria carne
e tudo arde no ar
à luz desamparada das coisas envelhecidas
Ferramentas do tempo
trazem lampiões lamparinas incêndios
trazem o fogo de dentro
da terra e do corpo
a repor memória ao companheiro morto
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.298-29
1 559
1
Rubens Rodrigues Torres Filho
Janelas
Minha amada me diz: — Mete.
Céus! Me sinto um meteoro —
e vou indo, feito um globo,
feito um bobo, uma vedete,
um luminoso sinistro.
Ela quer, alguém diria
(quem diria?), ela reflete
compenetrada alegria
por me sentir tão minério,
penhascos e companhia:
essa praia e seus mistérios.
A natureza copia
o que inventamos, aéreos.
Minha amada me diz: — Vem.
Um turbilhão nos trabalha.
O mesmo nos atrapalha,
como quem diz: — Eu também.
Palavras giram no avesso
e nelas nos reconheço
alados, entrelaçados
e realçados por essas
sombras de traços,
espaços
de intraduzíveis janelas.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
Céus! Me sinto um meteoro —
e vou indo, feito um globo,
feito um bobo, uma vedete,
um luminoso sinistro.
Ela quer, alguém diria
(quem diria?), ela reflete
compenetrada alegria
por me sentir tão minério,
penhascos e companhia:
essa praia e seus mistérios.
A natureza copia
o que inventamos, aéreos.
Minha amada me diz: — Vem.
Um turbilhão nos trabalha.
O mesmo nos atrapalha,
como quem diz: — Eu também.
Palavras giram no avesso
e nelas nos reconheço
alados, entrelaçados
e realçados por essas
sombras de traços,
espaços
de intraduzíveis janelas.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 345
1
Rubens Rodrigues Torres Filho
Janelas
Minha amada me diz: — Mete.
Céus! Me sinto um meteoro —
e vou indo, feito um globo,
feito um bobo, uma vedete,
um luminoso sinistro.
Ela quer, alguém diria
(quem diria?), ela reflete
compenetrada alegria
por me sentir tão minério,
penhascos e companhia:
essa praia e seus mistérios.
A natureza copia
o que inventamos, aéreos.
Minha amada me diz: — Vem.
Um turbilhão nos trabalha.
O mesmo nos atrapalha,
como quem diz: — Eu também.
Palavras giram no avesso
e nelas nos reconheço
alados, entrelaçados
e realçados por essas
sombras de traços,
espaços
de intraduzíveis janelas.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
Céus! Me sinto um meteoro —
e vou indo, feito um globo,
feito um bobo, uma vedete,
um luminoso sinistro.
Ela quer, alguém diria
(quem diria?), ela reflete
compenetrada alegria
por me sentir tão minério,
penhascos e companhia:
essa praia e seus mistérios.
A natureza copia
o que inventamos, aéreos.
Minha amada me diz: — Vem.
Um turbilhão nos trabalha.
O mesmo nos atrapalha,
como quem diz: — Eu também.
Palavras giram no avesso
e nelas nos reconheço
alados, entrelaçados
e realçados por essas
sombras de traços,
espaços
de intraduzíveis janelas.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 345
1
D. Pedro II
Soneto
Segredo d'alma, da existência arcano,
Eterno amor num instante concebido,
Mal sem esperança, oculto a ente humano,
E nunca de quem fê-lo conhecido.
Ai! Perto dela desapercebido
Sempre a seu lado, e só, cruel engano,
Na terra gastarei meu ser insano
Nada ousando pedir e havendo tido!
Se Deus a fez tão doce e carinhosa,
Contudo anda inatenta e descuidosa
Do murmúrio de amor que a tem seguido.
Piamente ao cru dever sempre fiel
Dirá lendo a poesia, seu painel:
"Que mulher é?" Sem tê-lo compreendido.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Versões.
NOTA: Tradução do poema de Félix Anver
Eterno amor num instante concebido,
Mal sem esperança, oculto a ente humano,
E nunca de quem fê-lo conhecido.
Ai! Perto dela desapercebido
Sempre a seu lado, e só, cruel engano,
Na terra gastarei meu ser insano
Nada ousando pedir e havendo tido!
Se Deus a fez tão doce e carinhosa,
Contudo anda inatenta e descuidosa
Do murmúrio de amor que a tem seguido.
Piamente ao cru dever sempre fiel
Dirá lendo a poesia, seu painel:
"Que mulher é?" Sem tê-lo compreendido.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Versões.
NOTA: Tradução do poema de Félix Anver
2 332
1
Claudio Willer
Mais uma Vez
mergulho no amor
com a cega convicção dos suicidas
penetro passo a passo
nesta região misteriosa
turva
opaca
aberta pelo encontro dos corpos
e sinto outra familiaridade nas coisas
esta calma permanência dos objetos
agora formas de lembrar-se
o mundo
que se reduz a traços da presença
a realidade
que fala ao transformar-se em memória
tudo é conivência e signo
o espaço uma extensão do gesto
as coisas
matéria de evocação
qualquer coisa treme dentro da noite
como se fosse um som de flauta
e a cidade se contorce e se retrai
MAIS UMA VEZ
ao abrir-se para este turbulento silêncio
de olhar frente ao olhar
pele contra pele
sexo sobre sexo
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
com a cega convicção dos suicidas
penetro passo a passo
nesta região misteriosa
turva
opaca
aberta pelo encontro dos corpos
e sinto outra familiaridade nas coisas
esta calma permanência dos objetos
agora formas de lembrar-se
o mundo
que se reduz a traços da presença
a realidade
que fala ao transformar-se em memória
tudo é conivência e signo
o espaço uma extensão do gesto
as coisas
matéria de evocação
qualquer coisa treme dentro da noite
como se fosse um som de flauta
e a cidade se contorce e se retrai
MAIS UMA VEZ
ao abrir-se para este turbulento silêncio
de olhar frente ao olhar
pele contra pele
sexo sobre sexo
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
1 561
1
Claudio Willer
Mais uma Vez
mergulho no amor
com a cega convicção dos suicidas
penetro passo a passo
nesta região misteriosa
turva
opaca
aberta pelo encontro dos corpos
e sinto outra familiaridade nas coisas
esta calma permanência dos objetos
agora formas de lembrar-se
o mundo
que se reduz a traços da presença
a realidade
que fala ao transformar-se em memória
tudo é conivência e signo
o espaço uma extensão do gesto
as coisas
matéria de evocação
qualquer coisa treme dentro da noite
como se fosse um som de flauta
e a cidade se contorce e se retrai
MAIS UMA VEZ
ao abrir-se para este turbulento silêncio
de olhar frente ao olhar
pele contra pele
sexo sobre sexo
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
com a cega convicção dos suicidas
penetro passo a passo
nesta região misteriosa
turva
opaca
aberta pelo encontro dos corpos
e sinto outra familiaridade nas coisas
esta calma permanência dos objetos
agora formas de lembrar-se
o mundo
que se reduz a traços da presença
a realidade
que fala ao transformar-se em memória
tudo é conivência e signo
o espaço uma extensão do gesto
as coisas
matéria de evocação
qualquer coisa treme dentro da noite
como se fosse um som de flauta
e a cidade se contorce e se retrai
MAIS UMA VEZ
ao abrir-se para este turbulento silêncio
de olhar frente ao olhar
pele contra pele
sexo sobre sexo
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
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1
Luiz de Miranda
Retina do Ofício
a Antônio Hohlfeldt
Não trabalho a palavra
temperada ao vão ofício
de cozê-la ao zelo maior
do jogo formal
trabalho-a como a madeira
onde fixo cepilho
plaina e lixa
e que nela se perca
a condição central de madeira
que a mão torna em utensílio
doméstico: cama mesa cadeira
trabalho-a pela retina
dolorosa destes dias
cheia de mortos
e tempero essa palavra
com o gosto que a vida
empresta ao tempo
incinerando o medo
a angústia
o mofo da lembrança
o espelho sem brilho dos fantasmas
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.29
Não trabalho a palavra
temperada ao vão ofício
de cozê-la ao zelo maior
do jogo formal
trabalho-a como a madeira
onde fixo cepilho
plaina e lixa
e que nela se perca
a condição central de madeira
que a mão torna em utensílio
doméstico: cama mesa cadeira
trabalho-a pela retina
dolorosa destes dias
cheia de mortos
e tempero essa palavra
com o gosto que a vida
empresta ao tempo
incinerando o medo
a angústia
o mofo da lembrança
o espelho sem brilho dos fantasmas
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.29
1 432
1
Luiz de Miranda
Retina do Ofício
a Antônio Hohlfeldt
Não trabalho a palavra
temperada ao vão ofício
de cozê-la ao zelo maior
do jogo formal
trabalho-a como a madeira
onde fixo cepilho
plaina e lixa
e que nela se perca
a condição central de madeira
que a mão torna em utensílio
doméstico: cama mesa cadeira
trabalho-a pela retina
dolorosa destes dias
cheia de mortos
e tempero essa palavra
com o gosto que a vida
empresta ao tempo
incinerando o medo
a angústia
o mofo da lembrança
o espelho sem brilho dos fantasmas
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.29
Não trabalho a palavra
temperada ao vão ofício
de cozê-la ao zelo maior
do jogo formal
trabalho-a como a madeira
onde fixo cepilho
plaina e lixa
e que nela se perca
a condição central de madeira
que a mão torna em utensílio
doméstico: cama mesa cadeira
trabalho-a pela retina
dolorosa destes dias
cheia de mortos
e tempero essa palavra
com o gosto que a vida
empresta ao tempo
incinerando o medo
a angústia
o mofo da lembrança
o espelho sem brilho dos fantasmas
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.29
1 432
1
Capinan
No Coração da Saideira
Hoje não tem dança
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
E na praça, ninguém pra cantar
Me lembro tanto
É tão grande a saudade
Que até parece verdade que o tempo
Ainda pode voltar
Tempo de praia
De ponta de pedra
Das noites de lua
Dos blocos de rua
Do susto e a carreira
Da caramboleia
Do bumba-meu-boi
Que tempo que foi
Agulha frita, mugunzá cravo e canela (BIS)
Serenata eu fiz pra ela
Cada noite de luar
Tempo do corso
Na rua da Aurora
Moço na praça
Menina e senhora
No bonde de Olinda
Pra baixo e pra cima do caramanchão
Esqueço mais não
E frevo ainda
Apesar da quarta-feira
No coração da saideira
Vendo a vida se enfeitar
In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 58, p. 45-46, 1979
NOTA: Parceria com Edu Lob
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
E na praça, ninguém pra cantar
Me lembro tanto
É tão grande a saudade
Que até parece verdade que o tempo
Ainda pode voltar
Tempo de praia
De ponta de pedra
Das noites de lua
Dos blocos de rua
Do susto e a carreira
Da caramboleia
Do bumba-meu-boi
Que tempo que foi
Agulha frita, mugunzá cravo e canela (BIS)
Serenata eu fiz pra ela
Cada noite de luar
Tempo do corso
Na rua da Aurora
Moço na praça
Menina e senhora
No bonde de Olinda
Pra baixo e pra cima do caramanchão
Esqueço mais não
E frevo ainda
Apesar da quarta-feira
No coração da saideira
Vendo a vida se enfeitar
In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 58, p. 45-46, 1979
NOTA: Parceria com Edu Lob
1 461
1
Capinan
No Coração da Saideira
Hoje não tem dança
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
E na praça, ninguém pra cantar
Me lembro tanto
É tão grande a saudade
Que até parece verdade que o tempo
Ainda pode voltar
Tempo de praia
De ponta de pedra
Das noites de lua
Dos blocos de rua
Do susto e a carreira
Da caramboleia
Do bumba-meu-boi
Que tempo que foi
Agulha frita, mugunzá cravo e canela (BIS)
Serenata eu fiz pra ela
Cada noite de luar
Tempo do corso
Na rua da Aurora
Moço na praça
Menina e senhora
No bonde de Olinda
Pra baixo e pra cima do caramanchão
Esqueço mais não
E frevo ainda
Apesar da quarta-feira
No coração da saideira
Vendo a vida se enfeitar
In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 58, p. 45-46, 1979
NOTA: Parceria com Edu Lob
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
E na praça, ninguém pra cantar
Me lembro tanto
É tão grande a saudade
Que até parece verdade que o tempo
Ainda pode voltar
Tempo de praia
De ponta de pedra
Das noites de lua
Dos blocos de rua
Do susto e a carreira
Da caramboleia
Do bumba-meu-boi
Que tempo que foi
Agulha frita, mugunzá cravo e canela (BIS)
Serenata eu fiz pra ela
Cada noite de luar
Tempo do corso
Na rua da Aurora
Moço na praça
Menina e senhora
No bonde de Olinda
Pra baixo e pra cima do caramanchão
Esqueço mais não
E frevo ainda
Apesar da quarta-feira
No coração da saideira
Vendo a vida se enfeitar
In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 58, p. 45-46, 1979
NOTA: Parceria com Edu Lob
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1
Eudoro Augusto
Luna de Lupe
Quero mais não.
Estou meio over de emoção.
Estou sem aquilo que chamam estrutura
pra amortecer esta aflição,
esta fissura.
Meu corpo é um barco sonolento
e falta vento
pra me levar a outra ilha.
Outra razão, outro delírio,
outro luar de vampiro
à procura de um irmão.
Pode parar: a noite é escura.
Não quero o copo de água pura
que você bebe em minha turva solidão.
Quero mais não.
Hoje me sobra emoção.
Sobra verdade, falta força, sobra sangue.
Hoje eu vou dormir no mangue
que outros chamam coração.
Pode parar.
Virou bocejo, era tesão.
Você jamais deu boa vida ao meu desejo,
foi pouco sim pra muito não.
E agora chega.
Deixa rolar mas nunca esqueça
de virar minha cabeça:
eu amo sempre o lado errado da paixão.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
Estou meio over de emoção.
Estou sem aquilo que chamam estrutura
pra amortecer esta aflição,
esta fissura.
Meu corpo é um barco sonolento
e falta vento
pra me levar a outra ilha.
Outra razão, outro delírio,
outro luar de vampiro
à procura de um irmão.
Pode parar: a noite é escura.
Não quero o copo de água pura
que você bebe em minha turva solidão.
Quero mais não.
Hoje me sobra emoção.
Sobra verdade, falta força, sobra sangue.
Hoje eu vou dormir no mangue
que outros chamam coração.
Pode parar.
Virou bocejo, era tesão.
Você jamais deu boa vida ao meu desejo,
foi pouco sim pra muito não.
E agora chega.
Deixa rolar mas nunca esqueça
de virar minha cabeça:
eu amo sempre o lado errado da paixão.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
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