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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Horácio Costa

Horácio Costa

Ravenalas

“The Carmen Miranda’s Museum
Is more important than the Louvre”, disse-me
John Ashbery em Nova Iorque, e os olhos
Nadavam em gim. Olhando para o meu
Cocar kamaiurá, Octavio Paz exclamou
“Esto es mejor que un Picasso”. Estávamos
Na casa de Coyoacán: era a primeira vez
Que ele entrava na sala dramática. As plumas
Cor de rosa-flamingo e de araras azuis
Enchiam o espaço, abriam-se sobre
O céu da parede numa “iminência
De gritos”. Não sei se Octavio
De fato escreveu este verso, mas bem
Poderia. Na varanda de Pancho Vives,
Face ao Palácio Real, Gastón
Baquero, o habanero exilado, dizia:
“La Gran Vía es cubana. La Puerta del Sol
Es cubana. El Paseo de la Castellana
También es cubano.” Haroldo ria-se
Às escâncaras: era verão e à onze da noite
Mantinha-se a temperatura em 38º.

Meninos eu vi, lembro a Revista Manchete
Assim como Borges contradizendo
Luisa Valenzuela, quem lhe perguntara
Se a quantidade de espadas em sua obra
Apontava a uma putativa simbologia fálica:
“Eso es impúdico, señorita” –nos olhos
Do vate cego, ainda o brilho da desonra
Vislumbro. Ou creio vislumbrar. O Manuel
Tinha ido de New Haven a Nova Iorque
Ver o portenho, e out of the blue me observou,
Como si nada: “estaremos juntos muchos años”.
Nunca duvidei de sua intuição, não o contradisse
Mas quinze depois o abandonaria: já não podia mais,

Simplesmente já não pude mais.
Escrevo
Em Copacabana, lugar fabuloso entre todos,
E meca de memoriosos: ao longe, numa
Cobertura, descubro contra o azul
Umas improváveis ravenalas.

Também o banhista, qualquer cidadão poetisa
E sente irromper ouvidos adentro uma voz
Que não está, e que escuta como verso-fantasma:
Quantos vozes não escapam ao ar dessa forma
A cada manhã num preciso minuto
Como esse em que peso os meus: se senti-los
Fosse dar-lhes volume, uma debandada
De asas se abriria sobre o Rio de Janeiro,
Sob a forma de alguns versos de amor
Ou referentes à pátria ou aos antepassados
E outros, os mais, sem significado nenhum
Afora o afetivo, que concentra o tempo vivido:
O espaço da metrópole seria pequeno
Para tamanho hachurado lírico, para tanta
Chama sagrada, “Péri Hypsous”, para dardos
Que tais de palavras que se materializassem
E se reduzissem no momento de ouvirem-se
E que se reduzissem –por que não?- a estas,
Sim, fotogênicas de fato, ravenalas. “Leques
Contra o azul entre sol e súdito” –este, escrevi-o
Eu, numa outra manhã, lá no México

E eis-me de novo surfando a memória,
Como esses jovens as ondas. As vozes
Não se desprendem, recocheteiam, somam-se
E ecoam como a brisa que atravessa
Esse palmar suspenso e que
Só eu pareço escutar e pelo qual,
exoticista e tambor, arquiteto
E sintaxista, deixo-me deslizar.

(P.S. Não há hierarquia na memória
 E não se sabe ao certo o que a dispara:
tão importante o pergaminho quanto o plástico-bolha,
assim como o botton e o brasão, e o salmo
conversa com o conteúdo da filipeta e tudo,
na verdade, é um só monumento).
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Domingos Pellegrini

Domingos Pellegrini

Morte de mãe

.1.
Cercando a cama a gente esperava
escorregar daquele corpo a vida
para chorar (como se a morte
não vivesse sempre impressentida)

Matronas em pé com velhas varizes
machos curtidos em pinga úmidos
na penumbra: escuridão arrependida
(todos pendendo para aquele útero)

E devagar a vida escorregava
daquela boneca vestida de mãe
que abria os olhos e que chorava

e que dizia sempre sim sim sim
e esquecemos num canto qualquer e
para sempre fechou os olhos enfim
 

.2.
A carne quando nova, que beleza
mas vem o tempo com rugas varizes
cascas cansaço calos cicatrizes
careca corcunda cegueira surdeza

Olhar sem brilho e gesto sem leveza
tarde saudosa dos dias felizes
noite de acessos, tosses e crises
um dia a menos, única certeza

Vale a pena viver para isso?
E valerá a pena viver mais?
Mas a carne resiste, eis a verdade:

agarra-se às sopas e ao suspiro
dorme com medo de não acordar
e quando dorme enfim, que dignidade


.3.
E nossa mãe morreu, morreu avó
e tia prima cunhada sobrinha
empregada da casa e da rotina
e então nos móveis descansou o pó

Não teve tempo de ter uma amiga
entre campo e cidade em seu quintal
vassoura pia fogão e varal
e tanta planta da rosa à urtiga

Morreu – mas não desabou o mundo
também não despencaram as estrelas
só apagou-se a luz no criado-mudo

Não morreu de velha mas de canseira
e ainda queria dar algum conselho
quando lhe enchemos a boca de terra


.4.
Muito sol sem discursos e sem bronze
– chegamos, abrimos o caixão e
olhamos e olhamos como se
fosse uma foto para mandar longe

E soluçavam as pedras
por onde a gente tropeçava – tanto que
irmão até abraçava irmão e
o banguelo não ria do corcunda

Então irmanamente depusemos
os beijos de café que ela coou
na face enruguecida que bebemos

Choveu remorso até nas crianças
o silêncio afinal nos abençoou
mas em casa já falamos de herança
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Horácio Costa

Horácio Costa

Cuneiforme

Continuo “imerso em mim e
na água dos meus pensamentos”, mas me interessa
mais do que eles esta praia e mais do que ela em si
a presença das três garças pequenas, brancas
e de olhos amarelos e agourentos e talvez
jovens, que por sua vez muito mais me interessam
do que tratar de compreender alguma “jeune parque”
cujos desígnios -não há porque negá-lo e mais a esta altura-
sempre foram para mim para sempre desconhecidos
não: incognoscíveis. Fiai o que quiserdes, na suave companhia
de vossas viscosas irmãs: confesso que vivi entremeado
a tais fibras o que pensei ter querido e o que
vossa caprichosa e parcíssima escolha nelas soube
mais do que sorrateiramente, incognoscivelmente entremeter.
Ainda, e por falar nas palmípedes três,
convenhamos: atraem-me mais os olhares e a alma
que os oito nada discretos cavalheiros que observo
enquanto as observo, desnudos todos frente ao mar,
ao abrigo entre as pedras deste reino naturista,
no Abricó (diga-se o lugar, pois), Recreio dos Bandeirantes,
Rio de Janeiro, Brasil. Hoje
a praia está ampla, o mar turbulento do outono
perde agora em sua cotidiana labuta
contra a areia. Regozijemo-nos.
Os nudistas, sem dúvida, mais do que
as graças, digo, as garças, me interessam:
enquanto observo estas e penso naquelas (Maillol,
volta ao Museu, não me ocupes neste instante),
confiro se alguém há em ereção, ou se algum par
de casuais amantes neste instante se retira da areia
para esconder-se ainda mais entre as grandes pedras
por líquens cobertas e coroadas por bromélias
e por cujos dorsos escorrem suculentas como sêmen
natural, para dedicar-se, ora está óbvio,
a uma não menos natural seção de homo-sexo,
nefanda segundo o vulgo e, aqui, sur mer,
nada, nada surpreendente:
ninguém que proclividade afim não professe
a esta praia vem, e mais num dia de mar-alto
e vento não tépido, frio, e mais: constante.
Somos previsíveis como a presença das garças
que na extensa língua de areia escavam os seus pitéus.
Os meus são esses que se aninham entre as pedras
por um tempo variavelmente curto ou longo
e que menos do que as garças,
que não as graças e suas parcas primas,
me interessam. Há pouco disse o oposto
e agora percebo tal estratégia do dizer,
que como é sabido muito fingem os poetas
e, por que não, também neste inconclusivo texto
(falso: basta de mentiras).

Também nas duas extremidades visuais
há costões ao oceano expostos:
perfazem algo como um enorme anfiteatro
no qual de fato nada acontece: aqui há monólitos
quase a pique e tão gigantescos que a linha da estrada
em sua silhueta desaparece, quando vistos à distância.
Este é o Mar dos Atlantes num cenário deles digno:
aqui poderiam engalfinhar-se em sua guerra. Mas não.
A ele voltei já faz um tempo, e tanto como à dita
“água do meu pensamento” (já não sei o quanto
nela há de verdade ou se a emana caso exista:
água lustral ou mero torvelinho liqüefazente?
E existirá de fato? Em caso positivo,
nela prossigo imerso ou naufragante?).
Há vinte e cinco anos, em Santa Bárbara, em
outro poema, houve falésias, e um convite que jamais
faria de novo a alguém, nem às garças nem às graças,
nem a nenhum sequer amante: já mais. Je vous en jure.
Minha viagem pela matéria hoje é solitária.
Observo
novamente
as ditas garças.

Sobre a areia em trânsito para o mar
ainda me obceca a impermanente escritura cuneiforme
dos tatibitates pèzitos das gratuitas
aves.
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Marco Lucchesi

Marco Lucchesi

Como dizer Villaça

Como dizer Villaça
                os medos
     que devastavam teu coração?  
o mosteiro errante
              ao qual pertencias
    e para o qual não sabias  voltar  
monge sem mosteiro
        saltimbanco de um
   circo místico  
o perene abandono
         de deus
    e dos homens
sob cuja
         sombra inquieto
te guardavas
esse crepúsculo de amores
             não vividos
e tua anfíbia
condição de céu
                  e terra  pecado
e salvação
essa memória
            impenitente
            era teu  inefável luminoso labirinto
a luz
           de que surgiam
           os mortos
para tomar café
          todas as tardes
   na praia do flamengo
teu coração
     feroz
   e compassivo  
e os mortos devastados
          redivivos  pelo deus cruel
          e solitário da memória
das sentenças
           de Abelardo aos livros
           de Gilberto Amado
das cartas de Alceu
        aos poemas
        de Drummond
   um deus que não sabia
         nada de si mesmo
     preso às teias de um fatal esquecimento
a tirania sagrada
       que impuseste  para  esconder
       as formas frágeis de teu  rosto
tuas palavras tendiam
           ao silêncio  transformadas
de há muito  em estrelas  
e um anjo precisaria
             arrancá-las de teus olhos
    antes que se dissolvessem
na luz
    das coisas
fundas que alcançavas
mas ele não veio
    e te salvaste apenas
          das atrocidades do mundo

não do abismo
                 de tua vasta
       mortal  delicada  inocência
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