Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Paulo Henriques Britto
III
Há algum tempo coleciono cadáveres.
Minhas gavetas não têm mais lugar.
Eu curto o prazer meio besta
dos numismatas e taxidermistas.
Meus mortos gozam a eternidade postiça
dos bálsamos e etiquetas.
E assim convivemos todos
na mais perfeita urbanidade
nesse apartamento igualzinho
a qualquer outro da cidade.
Minhas gavetas não têm mais lugar.
Eu curto o prazer meio besta
dos numismatas e taxidermistas.
Meus mortos gozam a eternidade postiça
dos bálsamos e etiquetas.
E assim convivemos todos
na mais perfeita urbanidade
nesse apartamento igualzinho
a qualquer outro da cidade.
515
Horácio Costa
Aniversários
Vinte Anos Depois é um romance de Alexandre Dumas
duas décadas não são nada
é a média de vida do homem primitivo do escravo romano
é a idade de um cão muito muito velho
é a média de glória de um artista maior
o tempo sem celulite de uma cortesã
o lapso de procriação depois do casamento
quatro ou cinco mandatos políticos o auge de um Império
vinte anos levou a Constantino reformar Bizâncio
vinte anos fizeram a fortuna de Frick Morgan e Du Pont
vinte anos entre a apresentação no Templo e a crucificação
vinte anos é a matéria dos memorialistas
vinte anos e o povo se cansa da Revolução
vinte anos depois Odette está casada e Marcel morto
a roda o computador pessoal a moda das perucas brancas se
popularizam em não mais de vinte anos
Quéfren e Miquerinos construíram suas pirâmides em vinte
curtos anos
vinte anos depois o cadáver está frio olvidadíssimo
vinte anos de exercício e o êxtase desce ao asceta
nada nada são duas décadas vinte vezes nada
a ponte nova entre aqui e ali está congestionada hoje
a então chamada ponte do futuro já não serve mais
agora quando estás nela também estás aqui
tinhas o cabelo solto tinhas a rédea solta
soltas tinhas as palavras
há vinte anos
entre aqui e ali
duas décadas não são nada
é a média de vida do homem primitivo do escravo romano
é a idade de um cão muito muito velho
é a média de glória de um artista maior
o tempo sem celulite de uma cortesã
o lapso de procriação depois do casamento
quatro ou cinco mandatos políticos o auge de um Império
vinte anos levou a Constantino reformar Bizâncio
vinte anos fizeram a fortuna de Frick Morgan e Du Pont
vinte anos entre a apresentação no Templo e a crucificação
vinte anos é a matéria dos memorialistas
vinte anos e o povo se cansa da Revolução
vinte anos depois Odette está casada e Marcel morto
a roda o computador pessoal a moda das perucas brancas se
popularizam em não mais de vinte anos
Quéfren e Miquerinos construíram suas pirâmides em vinte
curtos anos
vinte anos depois o cadáver está frio olvidadíssimo
vinte anos de exercício e o êxtase desce ao asceta
nada nada são duas décadas vinte vezes nada
a ponte nova entre aqui e ali está congestionada hoje
a então chamada ponte do futuro já não serve mais
agora quando estás nela também estás aqui
tinhas o cabelo solto tinhas a rédea solta
soltas tinhas as palavras
há vinte anos
entre aqui e ali
714
Horácio Costa
Ravenalas
“The Carmen Miranda’s Museum
Is more important than the Louvre”, disse-me
John Ashbery em Nova Iorque, e os olhos
Nadavam em gim. Olhando para o meu
Cocar kamaiurá, Octavio Paz exclamou
“Esto es mejor que un Picasso”. Estávamos
Na casa de Coyoacán: era a primeira vez
Que ele entrava na sala dramática. As plumas
Cor de rosa-flamingo e de araras azuis
Enchiam o espaço, abriam-se sobre
O céu da parede numa “iminência
De gritos”. Não sei se Octavio
De fato escreveu este verso, mas bem
Poderia. Na varanda de Pancho Vives,
Face ao Palácio Real, Gastón
Baquero, o habanero exilado, dizia:
“La Gran Vía es cubana. La Puerta del Sol
Es cubana. El Paseo de la Castellana
También es cubano.” Haroldo ria-se
Às escâncaras: era verão e à onze da noite
Mantinha-se a temperatura em 38º.
Meninos eu vi, lembro a Revista Manchete
Assim como Borges contradizendo
Luisa Valenzuela, quem lhe perguntara
Se a quantidade de espadas em sua obra
Apontava a uma putativa simbologia fálica:
“Eso es impúdico, señorita” –nos olhos
Do vate cego, ainda o brilho da desonra
Vislumbro. Ou creio vislumbrar. O Manuel
Tinha ido de New Haven a Nova Iorque
Ver o portenho, e out of the blue me observou,
Como si nada: “estaremos juntos muchos años”.
Nunca duvidei de sua intuição, não o contradisse
Mas quinze depois o abandonaria: já não podia mais,
Simplesmente já não pude mais.
Escrevo
Em Copacabana, lugar fabuloso entre todos,
E meca de memoriosos: ao longe, numa
Cobertura, descubro contra o azul
Umas improváveis ravenalas.
Também o banhista, qualquer cidadão poetisa
E sente irromper ouvidos adentro uma voz
Que não está, e que escuta como verso-fantasma:
Quantos vozes não escapam ao ar dessa forma
A cada manhã num preciso minuto
Como esse em que peso os meus: se senti-los
Fosse dar-lhes volume, uma debandada
De asas se abriria sobre o Rio de Janeiro,
Sob a forma de alguns versos de amor
Ou referentes à pátria ou aos antepassados
E outros, os mais, sem significado nenhum
Afora o afetivo, que concentra o tempo vivido:
O espaço da metrópole seria pequeno
Para tamanho hachurado lírico, para tanta
Chama sagrada, “Péri Hypsous”, para dardos
Que tais de palavras que se materializassem
E se reduzissem no momento de ouvirem-se
E que se reduzissem –por que não?- a estas,
Sim, fotogênicas de fato, ravenalas. “Leques
Contra o azul entre sol e súdito” –este, escrevi-o
Eu, numa outra manhã, lá no México
E eis-me de novo surfando a memória,
Como esses jovens as ondas. As vozes
Não se desprendem, recocheteiam, somam-se
E ecoam como a brisa que atravessa
Esse palmar suspenso e que
Só eu pareço escutar e pelo qual,
exoticista e tambor, arquiteto
E sintaxista, deixo-me deslizar.
(P.S. Não há hierarquia na memória
E não se sabe ao certo o que a dispara:
tão importante o pergaminho quanto o plástico-bolha,
assim como o botton e o brasão, e o salmo
conversa com o conteúdo da filipeta e tudo,
na verdade, é um só monumento).
Is more important than the Louvre”, disse-me
John Ashbery em Nova Iorque, e os olhos
Nadavam em gim. Olhando para o meu
Cocar kamaiurá, Octavio Paz exclamou
“Esto es mejor que un Picasso”. Estávamos
Na casa de Coyoacán: era a primeira vez
Que ele entrava na sala dramática. As plumas
Cor de rosa-flamingo e de araras azuis
Enchiam o espaço, abriam-se sobre
O céu da parede numa “iminência
De gritos”. Não sei se Octavio
De fato escreveu este verso, mas bem
Poderia. Na varanda de Pancho Vives,
Face ao Palácio Real, Gastón
Baquero, o habanero exilado, dizia:
“La Gran Vía es cubana. La Puerta del Sol
Es cubana. El Paseo de la Castellana
También es cubano.” Haroldo ria-se
Às escâncaras: era verão e à onze da noite
Mantinha-se a temperatura em 38º.
Meninos eu vi, lembro a Revista Manchete
Assim como Borges contradizendo
Luisa Valenzuela, quem lhe perguntara
Se a quantidade de espadas em sua obra
Apontava a uma putativa simbologia fálica:
“Eso es impúdico, señorita” –nos olhos
Do vate cego, ainda o brilho da desonra
Vislumbro. Ou creio vislumbrar. O Manuel
Tinha ido de New Haven a Nova Iorque
Ver o portenho, e out of the blue me observou,
Como si nada: “estaremos juntos muchos años”.
Nunca duvidei de sua intuição, não o contradisse
Mas quinze depois o abandonaria: já não podia mais,
Simplesmente já não pude mais.
Escrevo
Em Copacabana, lugar fabuloso entre todos,
E meca de memoriosos: ao longe, numa
Cobertura, descubro contra o azul
Umas improváveis ravenalas.
Também o banhista, qualquer cidadão poetisa
E sente irromper ouvidos adentro uma voz
Que não está, e que escuta como verso-fantasma:
Quantos vozes não escapam ao ar dessa forma
A cada manhã num preciso minuto
Como esse em que peso os meus: se senti-los
Fosse dar-lhes volume, uma debandada
De asas se abriria sobre o Rio de Janeiro,
Sob a forma de alguns versos de amor
Ou referentes à pátria ou aos antepassados
E outros, os mais, sem significado nenhum
Afora o afetivo, que concentra o tempo vivido:
O espaço da metrópole seria pequeno
Para tamanho hachurado lírico, para tanta
Chama sagrada, “Péri Hypsous”, para dardos
Que tais de palavras que se materializassem
E se reduzissem no momento de ouvirem-se
E que se reduzissem –por que não?- a estas,
Sim, fotogênicas de fato, ravenalas. “Leques
Contra o azul entre sol e súdito” –este, escrevi-o
Eu, numa outra manhã, lá no México
E eis-me de novo surfando a memória,
Como esses jovens as ondas. As vozes
Não se desprendem, recocheteiam, somam-se
E ecoam como a brisa que atravessa
Esse palmar suspenso e que
Só eu pareço escutar e pelo qual,
exoticista e tambor, arquiteto
E sintaxista, deixo-me deslizar.
(P.S. Não há hierarquia na memória
E não se sabe ao certo o que a dispara:
tão importante o pergaminho quanto o plástico-bolha,
assim como o botton e o brasão, e o salmo
conversa com o conteúdo da filipeta e tudo,
na verdade, é um só monumento).
701
Cida Pedrosa
fotografia de guerra
o menino de camisa vermelha e sapatinhos
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema
a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema
as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema
a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema
as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
923
Paulo Henriques Britto
X
Dentro da noite por fim construída
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
757
Domingos Pellegrini
Morte de mãe
.1.
Cercando a cama a gente esperava
escorregar daquele corpo a vida
para chorar (como se a morte
não vivesse sempre impressentida)
Matronas em pé com velhas varizes
machos curtidos em pinga úmidos
na penumbra: escuridão arrependida
(todos pendendo para aquele útero)
E devagar a vida escorregava
daquela boneca vestida de mãe
que abria os olhos e que chorava
e que dizia sempre sim sim sim
e esquecemos num canto qualquer e
para sempre fechou os olhos enfim
.2.
A carne quando nova, que beleza
mas vem o tempo com rugas varizes
cascas cansaço calos cicatrizes
careca corcunda cegueira surdeza
Olhar sem brilho e gesto sem leveza
tarde saudosa dos dias felizes
noite de acessos, tosses e crises
um dia a menos, única certeza
Vale a pena viver para isso?
E valerá a pena viver mais?
Mas a carne resiste, eis a verdade:
agarra-se às sopas e ao suspiro
dorme com medo de não acordar
e quando dorme enfim, que dignidade
.3.
E nossa mãe morreu, morreu avó
e tia prima cunhada sobrinha
empregada da casa e da rotina
e então nos móveis descansou o pó
Não teve tempo de ter uma amiga
entre campo e cidade em seu quintal
vassoura pia fogão e varal
e tanta planta da rosa à urtiga
Morreu – mas não desabou o mundo
também não despencaram as estrelas
só apagou-se a luz no criado-mudo
Não morreu de velha mas de canseira
e ainda queria dar algum conselho
quando lhe enchemos a boca de terra
.4.
Muito sol sem discursos e sem bronze
– chegamos, abrimos o caixão e
olhamos e olhamos como se
fosse uma foto para mandar longe
E soluçavam as pedras
por onde a gente tropeçava – tanto que
irmão até abraçava irmão e
o banguelo não ria do corcunda
Então irmanamente depusemos
os beijos de café que ela coou
na face enruguecida que bebemos
Choveu remorso até nas crianças
o silêncio afinal nos abençoou
mas em casa já falamos de herança
Cercando a cama a gente esperava
escorregar daquele corpo a vida
para chorar (como se a morte
não vivesse sempre impressentida)
Matronas em pé com velhas varizes
machos curtidos em pinga úmidos
na penumbra: escuridão arrependida
(todos pendendo para aquele útero)
E devagar a vida escorregava
daquela boneca vestida de mãe
que abria os olhos e que chorava
e que dizia sempre sim sim sim
e esquecemos num canto qualquer e
para sempre fechou os olhos enfim
.2.
A carne quando nova, que beleza
mas vem o tempo com rugas varizes
cascas cansaço calos cicatrizes
careca corcunda cegueira surdeza
Olhar sem brilho e gesto sem leveza
tarde saudosa dos dias felizes
noite de acessos, tosses e crises
um dia a menos, única certeza
Vale a pena viver para isso?
E valerá a pena viver mais?
Mas a carne resiste, eis a verdade:
agarra-se às sopas e ao suspiro
dorme com medo de não acordar
e quando dorme enfim, que dignidade
.3.
E nossa mãe morreu, morreu avó
e tia prima cunhada sobrinha
empregada da casa e da rotina
e então nos móveis descansou o pó
Não teve tempo de ter uma amiga
entre campo e cidade em seu quintal
vassoura pia fogão e varal
e tanta planta da rosa à urtiga
Morreu – mas não desabou o mundo
também não despencaram as estrelas
só apagou-se a luz no criado-mudo
Não morreu de velha mas de canseira
e ainda queria dar algum conselho
quando lhe enchemos a boca de terra
.4.
Muito sol sem discursos e sem bronze
– chegamos, abrimos o caixão e
olhamos e olhamos como se
fosse uma foto para mandar longe
E soluçavam as pedras
por onde a gente tropeçava – tanto que
irmão até abraçava irmão e
o banguelo não ria do corcunda
Então irmanamente depusemos
os beijos de café que ela coou
na face enruguecida que bebemos
Choveu remorso até nas crianças
o silêncio afinal nos abençoou
mas em casa já falamos de herança
696
Horácio Costa
Cuneiforme
Continuo “imerso em mim e
na água dos meus pensamentos”, mas me interessa
mais do que eles esta praia e mais do que ela em si
a presença das três garças pequenas, brancas
e de olhos amarelos e agourentos e talvez
jovens, que por sua vez muito mais me interessam
do que tratar de compreender alguma “jeune parque”
cujos desígnios -não há porque negá-lo e mais a esta altura-
sempre foram para mim para sempre desconhecidos
não: incognoscíveis. Fiai o que quiserdes, na suave companhia
de vossas viscosas irmãs: confesso que vivi entremeado
a tais fibras o que pensei ter querido e o que
vossa caprichosa e parcíssima escolha nelas soube
mais do que sorrateiramente, incognoscivelmente entremeter.
Ainda, e por falar nas palmípedes três,
convenhamos: atraem-me mais os olhares e a alma
que os oito nada discretos cavalheiros que observo
enquanto as observo, desnudos todos frente ao mar,
ao abrigo entre as pedras deste reino naturista,
no Abricó (diga-se o lugar, pois), Recreio dos Bandeirantes,
Rio de Janeiro, Brasil. Hoje
a praia está ampla, o mar turbulento do outono
perde agora em sua cotidiana labuta
contra a areia. Regozijemo-nos.
Os nudistas, sem dúvida, mais do que
as graças, digo, as garças, me interessam:
enquanto observo estas e penso naquelas (Maillol,
volta ao Museu, não me ocupes neste instante),
confiro se alguém há em ereção, ou se algum par
de casuais amantes neste instante se retira da areia
para esconder-se ainda mais entre as grandes pedras
por líquens cobertas e coroadas por bromélias
e por cujos dorsos escorrem suculentas como sêmen
natural, para dedicar-se, ora está óbvio,
a uma não menos natural seção de homo-sexo,
nefanda segundo o vulgo e, aqui, sur mer,
nada, nada surpreendente:
ninguém que proclividade afim não professe
a esta praia vem, e mais num dia de mar-alto
e vento não tépido, frio, e mais: constante.
Somos previsíveis como a presença das garças
que na extensa língua de areia escavam os seus pitéus.
Os meus são esses que se aninham entre as pedras
por um tempo variavelmente curto ou longo
e que menos do que as garças,
que não as graças e suas parcas primas,
me interessam. Há pouco disse o oposto
e agora percebo tal estratégia do dizer,
que como é sabido muito fingem os poetas
e, por que não, também neste inconclusivo texto
(falso: basta de mentiras).
Também nas duas extremidades visuais
há costões ao oceano expostos:
perfazem algo como um enorme anfiteatro
no qual de fato nada acontece: aqui há monólitos
quase a pique e tão gigantescos que a linha da estrada
em sua silhueta desaparece, quando vistos à distância.
Este é o Mar dos Atlantes num cenário deles digno:
aqui poderiam engalfinhar-se em sua guerra. Mas não.
A ele voltei já faz um tempo, e tanto como à dita
“água do meu pensamento” (já não sei o quanto
nela há de verdade ou se a emana caso exista:
água lustral ou mero torvelinho liqüefazente?
E existirá de fato? Em caso positivo,
nela prossigo imerso ou naufragante?).
Há vinte e cinco anos, em Santa Bárbara, em
outro poema, houve falésias, e um convite que jamais
faria de novo a alguém, nem às garças nem às graças,
nem a nenhum sequer amante: já mais. Je vous en jure.
Minha viagem pela matéria hoje é solitária.
Observo
novamente
as ditas garças.
Sobre a areia em trânsito para o mar
ainda me obceca a impermanente escritura cuneiforme
dos tatibitates pèzitos das gratuitas
aves.
na água dos meus pensamentos”, mas me interessa
mais do que eles esta praia e mais do que ela em si
a presença das três garças pequenas, brancas
e de olhos amarelos e agourentos e talvez
jovens, que por sua vez muito mais me interessam
do que tratar de compreender alguma “jeune parque”
cujos desígnios -não há porque negá-lo e mais a esta altura-
sempre foram para mim para sempre desconhecidos
não: incognoscíveis. Fiai o que quiserdes, na suave companhia
de vossas viscosas irmãs: confesso que vivi entremeado
a tais fibras o que pensei ter querido e o que
vossa caprichosa e parcíssima escolha nelas soube
mais do que sorrateiramente, incognoscivelmente entremeter.
Ainda, e por falar nas palmípedes três,
convenhamos: atraem-me mais os olhares e a alma
que os oito nada discretos cavalheiros que observo
enquanto as observo, desnudos todos frente ao mar,
ao abrigo entre as pedras deste reino naturista,
no Abricó (diga-se o lugar, pois), Recreio dos Bandeirantes,
Rio de Janeiro, Brasil. Hoje
a praia está ampla, o mar turbulento do outono
perde agora em sua cotidiana labuta
contra a areia. Regozijemo-nos.
Os nudistas, sem dúvida, mais do que
as graças, digo, as garças, me interessam:
enquanto observo estas e penso naquelas (Maillol,
volta ao Museu, não me ocupes neste instante),
confiro se alguém há em ereção, ou se algum par
de casuais amantes neste instante se retira da areia
para esconder-se ainda mais entre as grandes pedras
por líquens cobertas e coroadas por bromélias
e por cujos dorsos escorrem suculentas como sêmen
natural, para dedicar-se, ora está óbvio,
a uma não menos natural seção de homo-sexo,
nefanda segundo o vulgo e, aqui, sur mer,
nada, nada surpreendente:
ninguém que proclividade afim não professe
a esta praia vem, e mais num dia de mar-alto
e vento não tépido, frio, e mais: constante.
Somos previsíveis como a presença das garças
que na extensa língua de areia escavam os seus pitéus.
Os meus são esses que se aninham entre as pedras
por um tempo variavelmente curto ou longo
e que menos do que as garças,
que não as graças e suas parcas primas,
me interessam. Há pouco disse o oposto
e agora percebo tal estratégia do dizer,
que como é sabido muito fingem os poetas
e, por que não, também neste inconclusivo texto
(falso: basta de mentiras).
Também nas duas extremidades visuais
há costões ao oceano expostos:
perfazem algo como um enorme anfiteatro
no qual de fato nada acontece: aqui há monólitos
quase a pique e tão gigantescos que a linha da estrada
em sua silhueta desaparece, quando vistos à distância.
Este é o Mar dos Atlantes num cenário deles digno:
aqui poderiam engalfinhar-se em sua guerra. Mas não.
A ele voltei já faz um tempo, e tanto como à dita
“água do meu pensamento” (já não sei o quanto
nela há de verdade ou se a emana caso exista:
água lustral ou mero torvelinho liqüefazente?
E existirá de fato? Em caso positivo,
nela prossigo imerso ou naufragante?).
Há vinte e cinco anos, em Santa Bárbara, em
outro poema, houve falésias, e um convite que jamais
faria de novo a alguém, nem às garças nem às graças,
nem a nenhum sequer amante: já mais. Je vous en jure.
Minha viagem pela matéria hoje é solitária.
Observo
novamente
as ditas garças.
Sobre a areia em trânsito para o mar
ainda me obceca a impermanente escritura cuneiforme
dos tatibitates pèzitos das gratuitas
aves.
613
Cida Pedrosa
O CAMINHO DA FACA
parte em arco
rumo ao corpo amado
flecha a fera, exposta
à chaga
cruza a dor, o sonho
escuta
zunindo a lâmina
flamejante alcança
artérias e vasos
aquedutos pontes
parte em seta
rumo ao corpo amado
serena ira, ao amor
alcança
desdobra a carne
desnuda a veia
instala certeira
a eternidade
pára qual âncora
dentro do corpo amado
ferina flor, ao corpo
planta
rumo ao corpo amado
flecha a fera, exposta
à chaga
cruza a dor, o sonho
escuta
zunindo a lâmina
flamejante alcança
artérias e vasos
aquedutos pontes
parte em seta
rumo ao corpo amado
serena ira, ao amor
alcança
desdobra a carne
desnuda a veia
instala certeira
a eternidade
pára qual âncora
dentro do corpo amado
ferina flor, ao corpo
planta
695
Cida Pedrosa
O CAMINHO DA FACA
parte em arco
rumo ao corpo amado
flecha a fera, exposta
à chaga
cruza a dor, o sonho
escuta
zunindo a lâmina
flamejante alcança
artérias e vasos
aquedutos pontes
parte em seta
rumo ao corpo amado
serena ira, ao amor
alcança
desdobra a carne
desnuda a veia
instala certeira
a eternidade
pára qual âncora
dentro do corpo amado
ferina flor, ao corpo
planta
rumo ao corpo amado
flecha a fera, exposta
à chaga
cruza a dor, o sonho
escuta
zunindo a lâmina
flamejante alcança
artérias e vasos
aquedutos pontes
parte em seta
rumo ao corpo amado
serena ira, ao amor
alcança
desdobra a carne
desnuda a veia
instala certeira
a eternidade
pára qual âncora
dentro do corpo amado
ferina flor, ao corpo
planta
695
Cida Pedrosa
DIFERENÇA
meu amor ouve fado
não rodopia
apenas baila e espreita.
eu gosto de tango.
minha mãe sempre diz:
seus olhos são trágicos.
não rodopia
apenas baila e espreita.
eu gosto de tango.
minha mãe sempre diz:
seus olhos são trágicos.
764
Horácio Costa
A rã
Sim, naquele volet gauche
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.
Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.
A Rã não me quer
E nem a ti
Nem a si
Nem ninguém.
Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
E desisto
Da água.
Creio que
Isto lhe faz gosto:
Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.
Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.
A Rã não me quer
E nem a ti
Nem a si
Nem ninguém.
Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
E desisto
Da água.
Creio que
Isto lhe faz gosto:
Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
798
Paulo Henriques Britto
MEMENTO MORI II
Luz frágil que brota no breu
e num rápido relance dá forma
e cor e corpo às coisas todas,
luz que se apega o pouco que pode
às aparências, acredita piamente
no sonho de substância que secretam,
luta com todas as parcas forças
contra o conforto de apagar-se enfim
por trás de duas implacáveis pálpebras.
e num rápido relance dá forma
e cor e corpo às coisas todas,
luz que se apega o pouco que pode
às aparências, acredita piamente
no sonho de substância que secretam,
luta com todas as parcas forças
contra o conforto de apagar-se enfim
por trás de duas implacáveis pálpebras.
845
Cida Pedrosa
o sol anestesia
o sol anestesia a dor e de dor é feito
como deve ser feito de dor o frio do outro campo
como deve ser feito de dor o frio do outro campo
695
Marco Lucchesi
Autopoema
Marco lucchesi
é o nome
de uma nuvem
árdua pluriforme
ligeira
e imperscrutável
que se desmancha
na medida
em que se mostra
Tão maleável
como
um serafim
tão
orgulhoso
como um paquiderme
Um poço
estranho
mudo
e longilíneo
O medo para
fora e o grito
para dentro
Marco lucchesi
nuvem
paquiderme
fera abismo
sem fundo
anjo da terra
Monstro de
cega e fatal
contradição
é o nome
de uma nuvem
árdua pluriforme
ligeira
e imperscrutável
que se desmancha
na medida
em que se mostra
Tão maleável
como
um serafim
tão
orgulhoso
como um paquiderme
Um poço
estranho
mudo
e longilíneo
O medo para
fora e o grito
para dentro
Marco lucchesi
nuvem
paquiderme
fera abismo
sem fundo
anjo da terra
Monstro de
cega e fatal
contradição
873
Horácio Costa
Três laranjas
vida maior que eu próprio
anárquico proliferante alfabeto
que se detém como um gato rebelde
sobre a face sem fim desta laranja
sobre a mesa da sala pousada
asteróide abandonado ao próprio eixo
no crepúsculo explodido desde adentro
vida cristalizada num salto
sobre o verbo que encolhe as garras
sobre a pauta do minuto calmo
onde nesta pele ao azar incidem
as demais por nascer e as já pulsadas
poros espelhos de vulcões irradiantes
fruto estático, padrão concêntrico
reflexo amarelo de uma vida em transe
apetecível gota de um orgasmo cósmico
animal demais que se esconde em si
pelo prazer de dar-se e consumir-se inteiro
sob a urgência de meus sentidos turvos
vida que degusto e não compreendo
teu sumo é pouco para matar a sede
anárquico proliferante alfabeto
que se detém como um gato rebelde
sobre a face sem fim desta laranja
sobre a mesa da sala pousada
asteróide abandonado ao próprio eixo
no crepúsculo explodido desde adentro
vida cristalizada num salto
sobre o verbo que encolhe as garras
sobre a pauta do minuto calmo
onde nesta pele ao azar incidem
as demais por nascer e as já pulsadas
poros espelhos de vulcões irradiantes
fruto estático, padrão concêntrico
reflexo amarelo de uma vida em transe
apetecível gota de um orgasmo cósmico
animal demais que se esconde em si
pelo prazer de dar-se e consumir-se inteiro
sob a urgência de meus sentidos turvos
vida que degusto e não compreendo
teu sumo é pouco para matar a sede
727
Cida Pedrosa
ladainha para alberto da cunha melo
para a alma do poeta que se foi
eu rogo ao poema que componha o silêncio
para a alma do sertanejo que se foi
eu rogo ao poema que se empalhe em chuva
para a alma da criança que se foi
eu rogo ao poema que confeite a vida
para a alma da negra que se foi
eu rogo ao poema que se emplume em pássaro
para a alma do pobre que se foi
eu rogo ao poema que petrifique o pão
para a alma do revolucionário que se foi
eu rogo ao poema que ampute o sonho
para a alma do músico que se foi
eu rogo ao poema que dedilhe o chão
para a alma do filho que se foi
eu rogo ao poema que psicografe a falta
para a alma do palhaço que se foi
eu rogo ao poema que reinvente a cor
para alma da mulher que se foi
eu rogo ao poema que alcance as asas
para a alma do poema que se foi
eu rogo à poesia que borde os sentidos
para a alma do verso que se foi
eu rogo à palavra que se parta em várias
para a alma da palavra que se foi
eu rogo ao poeta que se ajoelhe e crie
eu rogo ao poema que componha o silêncio
para a alma do sertanejo que se foi
eu rogo ao poema que se empalhe em chuva
para a alma da criança que se foi
eu rogo ao poema que confeite a vida
para a alma da negra que se foi
eu rogo ao poema que se emplume em pássaro
para a alma do pobre que se foi
eu rogo ao poema que petrifique o pão
para a alma do revolucionário que se foi
eu rogo ao poema que ampute o sonho
para a alma do músico que se foi
eu rogo ao poema que dedilhe o chão
para a alma do filho que se foi
eu rogo ao poema que psicografe a falta
para a alma do palhaço que se foi
eu rogo ao poema que reinvente a cor
para alma da mulher que se foi
eu rogo ao poema que alcance as asas
para a alma do poema que se foi
eu rogo à poesia que borde os sentidos
para a alma do verso que se foi
eu rogo à palavra que se parta em várias
para a alma da palavra que se foi
eu rogo ao poeta que se ajoelhe e crie
973
Alexandre Guarnieri
rotinas (repartição)
os rituais estoicos do escritório, entre móveis
sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os
funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa
tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que
o chefe reclama, avulsas, ouvindo a secretária
soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto
convulsionam os números (necessário é discá-los
todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao
invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,
se matando aos poucos estes homens que
trabalham: um por um, inúteis, caminham na calma
ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos
próprios rostos, projetados nos mictórios, findam
em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as
máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,
sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou
delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos
sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os
funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa
tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que
o chefe reclama, avulsas, ouvindo a secretária
soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto
convulsionam os números (necessário é discá-los
todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao
invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,
se matando aos poucos estes homens que
trabalham: um por um, inúteis, caminham na calma
ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos
próprios rostos, projetados nos mictórios, findam
em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as
máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,
sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou
delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos
sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
753
Paulo Henriques Britto
nenhum mistério - X
Dentro da noite por fim construída
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
737
Horácio Costa
Caixa de água azul
Entre a ramagem da árvore desconhecida,
Caducifólia, nem de Jessé ou genealógica,
Um volume azul sobre uma laje, caixa de água
De polietileno ou poliuretano.
Notação distante na paisagem urbana,
Obsedante recordação no agora-agora,
Calle Río Poo 108, Colonia Cuauhtémoc,
Suites Parioli, México, Capital.
O mar, não. O mar, não. O mar, não. O mar, não.
Um exagero de zéfiros, então: o expresso
Descia a serra em Simcas-Chambord tangerina,
Rumo à baía divisada entre montanhas:
Ao longe, o porto e as torres, guindastes e praias;
Ao pé a pantanosa terra, como espaguete, úmida.
O talento da oitava real quereríamos,
O seu sempre imarcescível horizonte.
Nele seguia a senhora duas vezes por ano,
Qual a ordem das vogais, dos ritos identitários,
às vilegiaturas; se lhe encolhera
o mundo à mínima possível transumância.
Para lá da paisagem, a sós uiva o engenho,
Aquilo que em linguagem transforma a língua.
A árvore que se agita em eterno lenho
Enraíza no presente o espectro que míngua.
Ia a senhora, olhos de pomba, um único anel
De coral; cruzou-se a morte entre ela e o poema.
O mar, não. Caixa de água azul entre prédios alheios.
Este o horizonte, marchetado em fragmentos,
Reduzido a um puzzle no qual o montador
A si se vê como uma das peças faltantes.
O agora não sabe o que diz: memoria vincitrix.
Desce uma vez mais o expresso a estrada de Santos.
Caducifólia, nem de Jessé ou genealógica,
Um volume azul sobre uma laje, caixa de água
De polietileno ou poliuretano.
Notação distante na paisagem urbana,
Obsedante recordação no agora-agora,
Calle Río Poo 108, Colonia Cuauhtémoc,
Suites Parioli, México, Capital.
O mar, não. O mar, não. O mar, não. O mar, não.
Um exagero de zéfiros, então: o expresso
Descia a serra em Simcas-Chambord tangerina,
Rumo à baía divisada entre montanhas:
Ao longe, o porto e as torres, guindastes e praias;
Ao pé a pantanosa terra, como espaguete, úmida.
O talento da oitava real quereríamos,
O seu sempre imarcescível horizonte.
Nele seguia a senhora duas vezes por ano,
Qual a ordem das vogais, dos ritos identitários,
às vilegiaturas; se lhe encolhera
o mundo à mínima possível transumância.
Para lá da paisagem, a sós uiva o engenho,
Aquilo que em linguagem transforma a língua.
A árvore que se agita em eterno lenho
Enraíza no presente o espectro que míngua.
Ia a senhora, olhos de pomba, um único anel
De coral; cruzou-se a morte entre ela e o poema.
O mar, não. Caixa de água azul entre prédios alheios.
Este o horizonte, marchetado em fragmentos,
Reduzido a um puzzle no qual o montador
A si se vê como uma das peças faltantes.
O agora não sabe o que diz: memoria vincitrix.
Desce uma vez mais o expresso a estrada de Santos.
710
Marco Lucchesi
Santa Cruz
Constança foi ao céu me visitar
seu vestido era verde
como as pedras
de Itacoatiara
trazia nos olhos
um canarinho
um buquê de flores
e os seios de minha mãe
soprou em meus pulmões
como quem salva um
afogado
nas terras ínvias do coração
inundadas
de pranto e algaravia
deitou ali todas as flores
como se fosse o Éden
num céu terrivelmente
azul
(havemos
todos de ressuscitar
um dia sob esse mesmo
azul )
o vento de meus pulmões
canta e silencia
recua e avança
não escondo minhas lágrimas
Jesus também chorou
no Jardim das Oliveiras
a vida é um arquipélago
de amor atormentado
uma Roma
que se debate em delírios
enquanto espera
a chegada dos bárbaros
ou a vinda
fulminante do Messias
seu vestido era verde
como as pedras
de Itacoatiara
trazia nos olhos
um canarinho
um buquê de flores
e os seios de minha mãe
soprou em meus pulmões
como quem salva um
afogado
nas terras ínvias do coração
inundadas
de pranto e algaravia
deitou ali todas as flores
como se fosse o Éden
num céu terrivelmente
azul
(havemos
todos de ressuscitar
um dia sob esse mesmo
azul )
o vento de meus pulmões
canta e silencia
recua e avança
não escondo minhas lágrimas
Jesus também chorou
no Jardim das Oliveiras
a vida é um arquipélago
de amor atormentado
uma Roma
que se debate em delírios
enquanto espera
a chegada dos bárbaros
ou a vinda
fulminante do Messias
827
Marco Lucchesi
Como dizer Villaça
Como dizer Villaça
os medos
que devastavam teu coração?
o mosteiro errante
ao qual pertencias
e para o qual não sabias voltar
monge sem mosteiro
saltimbanco de um
circo místico
o perene abandono
de deus
e dos homens
sob cuja
sombra inquieto
te guardavas
esse crepúsculo de amores
não vividos
e tua anfíbia
condição de céu
e terra pecado
e salvação
essa memória
impenitente
era teu inefável luminoso labirinto
a luz
de que surgiam
os mortos
para tomar café
todas as tardes
na praia do flamengo
teu coração
feroz
e compassivo
e os mortos devastados
redivivos pelo deus cruel
e solitário da memória
das sentenças
de Abelardo aos livros
de Gilberto Amado
das cartas de Alceu
aos poemas
de Drummond
um deus que não sabia
nada de si mesmo
preso às teias de um fatal esquecimento
a tirania sagrada
que impuseste para esconder
as formas frágeis de teu rosto
tuas palavras tendiam
ao silêncio transformadas
de há muito em estrelas
e um anjo precisaria
arrancá-las de teus olhos
antes que se dissolvessem
na luz
das coisas
fundas que alcançavas
mas ele não veio
e te salvaste apenas
das atrocidades do mundo
não do abismo
de tua vasta
mortal delicada inocência
os medos
que devastavam teu coração?
o mosteiro errante
ao qual pertencias
e para o qual não sabias voltar
monge sem mosteiro
saltimbanco de um
circo místico
o perene abandono
de deus
e dos homens
sob cuja
sombra inquieto
te guardavas
esse crepúsculo de amores
não vividos
e tua anfíbia
condição de céu
e terra pecado
e salvação
essa memória
impenitente
era teu inefável luminoso labirinto
a luz
de que surgiam
os mortos
para tomar café
todas as tardes
na praia do flamengo
teu coração
feroz
e compassivo
e os mortos devastados
redivivos pelo deus cruel
e solitário da memória
das sentenças
de Abelardo aos livros
de Gilberto Amado
das cartas de Alceu
aos poemas
de Drummond
um deus que não sabia
nada de si mesmo
preso às teias de um fatal esquecimento
a tirania sagrada
que impuseste para esconder
as formas frágeis de teu rosto
tuas palavras tendiam
ao silêncio transformadas
de há muito em estrelas
e um anjo precisaria
arrancá-las de teus olhos
antes que se dissolvessem
na luz
das coisas
fundas que alcançavas
mas ele não veio
e te salvaste apenas
das atrocidades do mundo
não do abismo
de tua vasta
mortal delicada inocência
724
Paulo Henriques Britto
dez sonetos sentimentais - X
Dentro da noite que construo aos poucos
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
785
Paulo Henriques Britto
dez sonetos sentimentais - X
Dentro da noite que construo aos poucos
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
785
Cida Pedrosa
diáspora
abro os olhos
e a quarta-feira é cinza
as taras da noite me perseguem
neste quarto de hotel
é bom acordar sem deus
descer a rua
e ver o mesmo flanelinha no ofício
diáspora
palavra que me segue
sem pedir perdão
sou retalho carne dilacerada
fragmento escuridão
abro as pernas no sinal
os carros passam
e o vento leva pó para o meu rosto
a noite chega
a quarta-feira é cinza
e faz tanto tempo que me perdi de mim
e a quarta-feira é cinza
as taras da noite me perseguem
neste quarto de hotel
é bom acordar sem deus
descer a rua
e ver o mesmo flanelinha no ofício
diáspora
palavra que me segue
sem pedir perdão
sou retalho carne dilacerada
fragmento escuridão
abro as pernas no sinal
os carros passam
e o vento leva pó para o meu rosto
a noite chega
a quarta-feira é cinza
e faz tanto tempo que me perdi de mim
845