Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
António Carlos Cortez
É o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho
Hoje sou eu quem como o rio transluz
Hoje sou eu quem sem primícias seca
Luiza Neto Jorge
é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.
pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe
é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta
dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.
perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.
ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos
aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal
dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora
de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios
sombrios abutres de marinheiros sem literatura.
não me contaram dos barcos como num poema
nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.
no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei
o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.
o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim
pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar
o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas
nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida
onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados
onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)
e era ainda o Tejo
Hoje sou eu quem sem primícias seca
Luiza Neto Jorge
é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.
pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe
é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta
dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.
perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.
ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos
aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal
dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora
de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios
sombrios abutres de marinheiros sem literatura.
não me contaram dos barcos como num poema
nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.
no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei
o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.
o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim
pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar
o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas
nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida
onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados
onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)
e era ainda o Tejo
711
José Bento
Que fazeis, bela
- Que fazeis, bela? - Olho-me a este espelho.
- E porquê nua? - Pra melhor olhar-me.
- E em vós que vedes? - Que quero gozar-me.
- E porque não vos gozais? - Sem aparelho?
- O que vos falta? - Quem seja em amor velho.
- Pois, que sabe esse fazer? - Sab'rá forçar-me.
- E como vos forçará? - Com abraçar-me,
sem esperar licença nem conselho.
- E não resistireis? - Bem pouca coisa.
- Para quê tanto? - Menos que aqui digo;
que ele me saberá vencer, se é atilado.
- E se foge, por ver-vos pudorosa?
- Hei-de ter esse tal por inimigo,
vil, parvo, mole, pouco abonado.
- E porquê nua? - Pra melhor olhar-me.
- E em vós que vedes? - Que quero gozar-me.
- E porque não vos gozais? - Sem aparelho?
- O que vos falta? - Quem seja em amor velho.
- Pois, que sabe esse fazer? - Sab'rá forçar-me.
- E como vos forçará? - Com abraçar-me,
sem esperar licença nem conselho.
- E não resistireis? - Bem pouca coisa.
- Para quê tanto? - Menos que aqui digo;
que ele me saberá vencer, se é atilado.
- E se foge, por ver-vos pudorosa?
- Hei-de ter esse tal por inimigo,
vil, parvo, mole, pouco abonado.
1 096
José Bento
Que fazeis, bela
- Que fazeis, bela? - Olho-me a este espelho.
- E porquê nua? - Pra melhor olhar-me.
- E em vós que vedes? - Que quero gozar-me.
- E porque não vos gozais? - Sem aparelho?
- O que vos falta? - Quem seja em amor velho.
- Pois, que sabe esse fazer? - Sab'rá forçar-me.
- E como vos forçará? - Com abraçar-me,
sem esperar licença nem conselho.
- E não resistireis? - Bem pouca coisa.
- Para quê tanto? - Menos que aqui digo;
que ele me saberá vencer, se é atilado.
- E se foge, por ver-vos pudorosa?
- Hei-de ter esse tal por inimigo,
vil, parvo, mole, pouco abonado.
- E porquê nua? - Pra melhor olhar-me.
- E em vós que vedes? - Que quero gozar-me.
- E porque não vos gozais? - Sem aparelho?
- O que vos falta? - Quem seja em amor velho.
- Pois, que sabe esse fazer? - Sab'rá forçar-me.
- E como vos forçará? - Com abraçar-me,
sem esperar licença nem conselho.
- E não resistireis? - Bem pouca coisa.
- Para quê tanto? - Menos que aqui digo;
que ele me saberá vencer, se é atilado.
- E se foge, por ver-vos pudorosa?
- Hei-de ter esse tal por inimigo,
vil, parvo, mole, pouco abonado.
1 096
António Carlos Cortez
Este é o canto mais perfeito da noite
este é o canto mais perfeito da noite.
a esta hora espera-se o milagre na canção
do último Leonard Cohen
(waiting for the miracle, dizias)
eu apunhalava os astros mais secretos
coisa para ti fora do tempo e sem sentido
mas para mim o canto mais perfeito da noite servia
para recuperar as palavras de prosa (a poesia
tinha-a deixado nos lugares obscuros
da cidade). das palavras eu fazia a matéria
vermelha do sangue onde singravam os barcos
a nossa imaginação de contemporâneos secamente urbanos.
este é o canto mais perfeito da noite mas nenhum de nós
sabe se o milagre vive ainda nas velozes canções
nos corpos de granito que nós agora somos.
se escrevemos as perdas e o desastre depomos palavras
Waiting for the miracle to come
a esta hora espera-se o milagre na canção
do último Leonard Cohen
(waiting for the miracle, dizias)
eu apunhalava os astros mais secretos
coisa para ti fora do tempo e sem sentido
mas para mim o canto mais perfeito da noite servia
para recuperar as palavras de prosa (a poesia
tinha-a deixado nos lugares obscuros
da cidade). das palavras eu fazia a matéria
vermelha do sangue onde singravam os barcos
a nossa imaginação de contemporâneos secamente urbanos.
este é o canto mais perfeito da noite mas nenhum de nós
sabe se o milagre vive ainda nas velozes canções
nos corpos de granito que nós agora somos.
se escrevemos as perdas e o desastre depomos palavras
Waiting for the miracle to come
706
Carlos Soulié do Amaral
O livre na paisagem
Um gaturamo é mais nada
do que pássaro num ramo
de arbusto, de árvore, um
pássaro solto em plano
de ar, planando, voando
dono de si e suas asas.
Canta porque quer, pousa
onde quer e em sua pausa
toda liberdade é inverdade
porque ele a usa
sem sentido de ser
livre ou de querer.
Em verdade um gaturamo
só é pássaro num ramo
quando canta ou pia.
Então, mostra não ter amo
que não seja a alegria.
Tudo o mais nele é paisagem.
Folha ao ramo incorporada,
folha de árvore flanando,
folha no chão, semi-alada,
folha quieta entre folhagem,
no mais esta ave paisagem
é um gaturamo, mais nada.
do que pássaro num ramo
de arbusto, de árvore, um
pássaro solto em plano
de ar, planando, voando
dono de si e suas asas.
Canta porque quer, pousa
onde quer e em sua pausa
toda liberdade é inverdade
porque ele a usa
sem sentido de ser
livre ou de querer.
Em verdade um gaturamo
só é pássaro num ramo
quando canta ou pia.
Então, mostra não ter amo
que não seja a alegria.
Tudo o mais nele é paisagem.
Folha ao ramo incorporada,
folha de árvore flanando,
folha no chão, semi-alada,
folha quieta entre folhagem,
no mais esta ave paisagem
é um gaturamo, mais nada.
786
Maria Lúcia Dal Farra
Abóbora
Despojo-me de tudo quanto tenho
para a tua boca salgada ou doce:
cambuquira, massa, semente, fruto.
Até outro acolho em mim,
ramo duplo das artes.
Bandolim? Violão?
Para meu desconcerto,
abelhas afinam-se no fundo diapasão da minha flor,
na zona mais erógena;
e então, ah, com que cócegas me torço em vivos contornos,
e cresço, esculpindo curvas,
a cor exalando túrgida a úmida temperatura
do meu mistério gozoso:
íntimo encontro do delgado pescoço com quadris –
coito.
Concórdia de contrários,
senhora das duas naturezas
(andrógina)
Ainda assim rastejo
– menina que sou! –
a entregar-me ao gosto da lagarta-rosca
e das brocas.
para a tua boca salgada ou doce:
cambuquira, massa, semente, fruto.
Até outro acolho em mim,
ramo duplo das artes.
Bandolim? Violão?
Para meu desconcerto,
abelhas afinam-se no fundo diapasão da minha flor,
na zona mais erógena;
e então, ah, com que cócegas me torço em vivos contornos,
e cresço, esculpindo curvas,
a cor exalando túrgida a úmida temperatura
do meu mistério gozoso:
íntimo encontro do delgado pescoço com quadris –
coito.
Concórdia de contrários,
senhora das duas naturezas
(andrógina)
Ainda assim rastejo
– menina que sou! –
a entregar-me ao gosto da lagarta-rosca
e das brocas.
841
José Bento
Esse chegar de repente
Esse chegar de repente e abraçá-la,
esse pôr-se a lutar ele com ela,
esse cruzar suas pernas com as dela,
aquele poder mais ele e derrubá-la;
aquele vir abaixo, e ele sobre ela,
e ela cobrir-se e ele destapá-la,
esse pegar na lança e espetá-la,
e esse teimar dele até metê-la;
esse jogo de lombos e cadeiras,
e as palavras tão meigas e amorosas
que um ao outro murmuram, apressados;
esse voltar e andar de mil maneiras,
e fazer neste transe outras mil coisas
nas legítimas perdem os casados.
esse pôr-se a lutar ele com ela,
esse cruzar suas pernas com as dela,
aquele poder mais ele e derrubá-la;
aquele vir abaixo, e ele sobre ela,
e ela cobrir-se e ele destapá-la,
esse pegar na lança e espetá-la,
e esse teimar dele até metê-la;
esse jogo de lombos e cadeiras,
e as palavras tão meigas e amorosas
que um ao outro murmuram, apressados;
esse voltar e andar de mil maneiras,
e fazer neste transe outras mil coisas
nas legítimas perdem os casados.
1 079
Paulo Teixeira
O quarto selo
… ceux qui se suffisent de l’ homme et de son
pauvre et terrible amour.
ALBERT CAMUS, La Peste
Obscuramente adivinhada era entre as sombras
e os reflexos de uma carne defendida
contra as marés do princípio do tempo.
Sobre este corpo duas vezes convertido
em mito, os seus escudos indestrutíveis,
labirintos onde se perdiam sonho e amor
e receio, repousa hoje uma fatalidade garantida.
Satisfeito de ti, em ti guardas espaço
para esse cancro imaginado, sorrindo
consolado nas pretensões de uma religião
que declina com a coragem no só desejo de morrer
frente ao crepúsculo, com a janela em chamas.
Iludido por imagens sempre falsas
de um fim tão próximo, podes esperar,
corpo meu, o teu demandado cumprimento
pauvre et terrible amour.
ALBERT CAMUS, La Peste
Obscuramente adivinhada era entre as sombras
e os reflexos de uma carne defendida
contra as marés do princípio do tempo.
Sobre este corpo duas vezes convertido
em mito, os seus escudos indestrutíveis,
labirintos onde se perdiam sonho e amor
e receio, repousa hoje uma fatalidade garantida.
Satisfeito de ti, em ti guardas espaço
para esse cancro imaginado, sorrindo
consolado nas pretensões de uma religião
que declina com a coragem no só desejo de morrer
frente ao crepúsculo, com a janela em chamas.
Iludido por imagens sempre falsas
de um fim tão próximo, podes esperar,
corpo meu, o teu demandado cumprimento
688
António Carlos Cortez
Skin deep
Adorei a cor do teu vestido
A cor de quando à noite a pele nos toca
Pudessem as minhas mãos ser o vestido
(estrangular-te a pele que me provoca)
A cor de quando à noite a pele nos toca
Pudessem as minhas mãos ser o vestido
(estrangular-te a pele que me provoca)
917
António Carlos Cortez
Skin deep
Adorei a cor do teu vestido
A cor de quando à noite a pele nos toca
Pudessem as minhas mãos ser o vestido
(estrangular-te a pele que me provoca)
A cor de quando à noite a pele nos toca
Pudessem as minhas mãos ser o vestido
(estrangular-te a pele que me provoca)
917
Paulo Teixeira
Os contendores
Eles lutaram a medir a sua por uma força maior,
tendo na penumbra lêveda do quarto
o campo de batalha e no outro o fim a alcançar.
Entre investidas e recuos, golfes desferidos
no ar com os punhos e sevícia nas palavras,
um adiantou-se a deitar o outro por terra.
Este buscava, furtando-se ao peso do corpo, breve,
um suprimento de ar, mas enlanguescia a demorar
depois essa intimidade no espaço fechado.
O primeiro olhava com faces sanguíneas
do alto, como presa ao seu alcance,
o amigo confinado nesse abraço circunpolar.
Ao reduzir uma antiga distância pronominal,
aproximou-lhe do ouvido a boca a segredar
cantada, como um sentimento, a sua vitória.
tendo na penumbra lêveda do quarto
o campo de batalha e no outro o fim a alcançar.
Entre investidas e recuos, golfes desferidos
no ar com os punhos e sevícia nas palavras,
um adiantou-se a deitar o outro por terra.
Este buscava, furtando-se ao peso do corpo, breve,
um suprimento de ar, mas enlanguescia a demorar
depois essa intimidade no espaço fechado.
O primeiro olhava com faces sanguíneas
do alto, como presa ao seu alcance,
o amigo confinado nesse abraço circunpolar.
Ao reduzir uma antiga distância pronominal,
aproximou-lhe do ouvido a boca a segredar
cantada, como um sentimento, a sua vitória.
646
Paulo Teixeira
Cidade ao nascer da lua
A toda a largura do pano vê-se a cidade
com o seu perfil a velar-se, bizantino,
no poente. Abismada está na própria imagem,
onde o brilho do crisólito lembra,
num relance, o seu esplendor perdido:
invólucro fetal lançado, noite calada,
na água que ressuma, lenta, junto às margens.
O ouro foi todo acrisolado na água
em que ferveram as cinzas e a escória
de metais. A chuva e o vento vão
exfoliando as paredes, moendo as tintas,
até se não reconhecer mais o festo às fachadas.
Entre a solidão hirta das duas torres
a lua, mormosa, insinua-se.
com o seu perfil a velar-se, bizantino,
no poente. Abismada está na própria imagem,
onde o brilho do crisólito lembra,
num relance, o seu esplendor perdido:
invólucro fetal lançado, noite calada,
na água que ressuma, lenta, junto às margens.
O ouro foi todo acrisolado na água
em que ferveram as cinzas e a escória
de metais. A chuva e o vento vão
exfoliando as paredes, moendo as tintas,
até se não reconhecer mais o festo às fachadas.
Entre a solidão hirta das duas torres
a lua, mormosa, insinua-se.
665
Daniel Jonas
DENTE-DE-LEÃO
A juba encanecida do dente-de-leão.
Eu soprei-a como velas
de aniversários
e ele envelheceu anos.
Ali, tão calvo agora, o ancião,
um leão glabro
entupido de testosterona,
um Sanção
com a sua cerviz rente
descravando
dos quadris da fêmea
a fome de uma semente.
Eu soprei-a como velas
de aniversários
e ele envelheceu anos.
Ali, tão calvo agora, o ancião,
um leão glabro
entupido de testosterona,
um Sanção
com a sua cerviz rente
descravando
dos quadris da fêmea
a fome de uma semente.
731
Golgona Anghel
Antigamente os bisontes eram gente
Antigamente os bisontes eram gente
e namoravam as raparigas
mais bonitas da aldeia.
Os judeus tinham cauda e
os homens menstruavam duas vezes por mês.
Ninguém se queixava de nada.
Tudo tinha o seu lugar.
Líamos Tolstoi num Skoda,
Hölderlin num Trabant descapotável,
Joyce num Aston Martin,
Camões num UMM.
As grandes emoções
vinham de palavras longas:
australopitecos, jerusalamaleques,
extremaunçãoparaumapernadepau, etc.
Isto explica tanta coisa,
mas não vem nos livros de história.
A história faz apenas ecoar o passado.
Como um búzio.
O passado é o lugar onde os nossos ex
se juntam aos mamutes, à Céline Dion
e ao Windows XP.
e namoravam as raparigas
mais bonitas da aldeia.
Os judeus tinham cauda e
os homens menstruavam duas vezes por mês.
Ninguém se queixava de nada.
Tudo tinha o seu lugar.
Líamos Tolstoi num Skoda,
Hölderlin num Trabant descapotável,
Joyce num Aston Martin,
Camões num UMM.
As grandes emoções
vinham de palavras longas:
australopitecos, jerusalamaleques,
extremaunçãoparaumapernadepau, etc.
Isto explica tanta coisa,
mas não vem nos livros de história.
A história faz apenas ecoar o passado.
Como um búzio.
O passado é o lugar onde os nossos ex
se juntam aos mamutes, à Céline Dion
e ao Windows XP.
1 049
Golgona Anghel
Meia-noite todo dia
Meia-noite todo dia
Tenho humor e vendo-o barato.
Muita gente gosta disto.
Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".
Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.
Tenho humor e vendo-o barato.
Muita gente gosta disto.
Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".
Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.
923
Golgona Anghel
Não gosto de contar os desastres em detalhe
Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.
920
Golgona Anghel
Não gosto de contar os desastres em detalhe
Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.
920
Golgona Anghel
Não gosto de contar os desastres em detalhe
Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.
920
Golgona Anghel
Não gosto de contar os desastres em detalhe
Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.
920
Golgona Anghel
Não gosto de contar os desastres em detalhe
Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.
920
Golgona Anghel
Abro a porta
Abro a porta.
Olho constantemente para o mapa
mas já não me lembro para onde queria ir.
Podia ficar aqui,
enquanto a noite respira nas janelas embaciadas.
Os móveis apagam-me os passos
em ângulos cegos
e, nessas sombras do incerto,
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência
assim como a noite nos tira a roupa
antes de dormir.
Isolado num cantinho da boca entreaberta,
o teu sorriso
vai contribuindo para o genocídio dos camarões
que o vinho branco torna sempre menos sangrento.
Poderia, de facto, ficar aqui
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância.
Vou esvaziando os copos
e começo a compilar beijos,
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
somos todas putas, rapaz,
com ou sem vodka.
Olho constantemente para o mapa
mas já não me lembro para onde queria ir.
Podia ficar aqui,
enquanto a noite respira nas janelas embaciadas.
Os móveis apagam-me os passos
em ângulos cegos
e, nessas sombras do incerto,
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência
assim como a noite nos tira a roupa
antes de dormir.
Isolado num cantinho da boca entreaberta,
o teu sorriso
vai contribuindo para o genocídio dos camarões
que o vinho branco torna sempre menos sangrento.
Poderia, de facto, ficar aqui
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância.
Vou esvaziando os copos
e começo a compilar beijos,
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
somos todas putas, rapaz,
com ou sem vodka.
684
Golgona Anghel
Abro a porta
Abro a porta.
Olho constantemente para o mapa
mas já não me lembro para onde queria ir.
Podia ficar aqui,
enquanto a noite respira nas janelas embaciadas.
Os móveis apagam-me os passos
em ângulos cegos
e, nessas sombras do incerto,
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência
assim como a noite nos tira a roupa
antes de dormir.
Isolado num cantinho da boca entreaberta,
o teu sorriso
vai contribuindo para o genocídio dos camarões
que o vinho branco torna sempre menos sangrento.
Poderia, de facto, ficar aqui
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância.
Vou esvaziando os copos
e começo a compilar beijos,
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
somos todas putas, rapaz,
com ou sem vodka.
Olho constantemente para o mapa
mas já não me lembro para onde queria ir.
Podia ficar aqui,
enquanto a noite respira nas janelas embaciadas.
Os móveis apagam-me os passos
em ângulos cegos
e, nessas sombras do incerto,
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência
assim como a noite nos tira a roupa
antes de dormir.
Isolado num cantinho da boca entreaberta,
o teu sorriso
vai contribuindo para o genocídio dos camarões
que o vinho branco torna sempre menos sangrento.
Poderia, de facto, ficar aqui
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância.
Vou esvaziando os copos
e começo a compilar beijos,
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
somos todas putas, rapaz,
com ou sem vodka.
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Golgona Anghel
Abro a porta
Abro a porta.
Olho constantemente para o mapa
mas já não me lembro para onde queria ir.
Podia ficar aqui,
enquanto a noite respira nas janelas embaciadas.
Os móveis apagam-me os passos
em ângulos cegos
e, nessas sombras do incerto,
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência
assim como a noite nos tira a roupa
antes de dormir.
Isolado num cantinho da boca entreaberta,
o teu sorriso
vai contribuindo para o genocídio dos camarões
que o vinho branco torna sempre menos sangrento.
Poderia, de facto, ficar aqui
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância.
Vou esvaziando os copos
e começo a compilar beijos,
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
somos todas putas, rapaz,
com ou sem vodka.
Olho constantemente para o mapa
mas já não me lembro para onde queria ir.
Podia ficar aqui,
enquanto a noite respira nas janelas embaciadas.
Os móveis apagam-me os passos
em ângulos cegos
e, nessas sombras do incerto,
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência
assim como a noite nos tira a roupa
antes de dormir.
Isolado num cantinho da boca entreaberta,
o teu sorriso
vai contribuindo para o genocídio dos camarões
que o vinho branco torna sempre menos sangrento.
Poderia, de facto, ficar aqui
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância.
Vou esvaziando os copos
e começo a compilar beijos,
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
somos todas putas, rapaz,
com ou sem vodka.
684
Golgona Anghel
Os pássaros estão a cair como pedras do céu
Os pássaros estão a cair como pedras do céu
Sobra um pintassilgo na nossa cozinha
a abanar a sua gaiola com as asas.
Mas o protagonista tranquiliza-o
com um dardo.
Vou apenas na página cinquenta do livro
e já matei toda a gente.
Avanço na leitura como
um carniceiro desliza na carne,
afastando os corpos com a ponta metálica
das botas, apoiando a minha bengala
em umbigos e bocas abertas.
Com é possível,
viver normalmente, sentir-me bem até
e, no entanto, usar uma faca em vez e caneta,
pensar em ti,
imaginar-te por dentro,
provar-te com o dedo,
como se prova uma melancia no supermercado?
Tenho medo de tornar-me um maníaco.
Perder a cabeça. Entrar em ti
um dia e sair do outro lado
com o teu coração espetado na ponta
de uma varinha mágica.
Tenho vergonha de...
Regresso a pé, apanho chuva,
desprezo putas, cumprimento desconhecidos.
Regresso encolhido de frio,
com a cara suja, os pés molhados.
Dás-me uma sopa quente
e adormeço na cadeira da cozinha
encostado na porta do forno
enquanto me passas a ferro a camisa
para o dia seguinte.
Sobra um pintassilgo na nossa cozinha
a abanar a sua gaiola com as asas.
Mas o protagonista tranquiliza-o
com um dardo.
Vou apenas na página cinquenta do livro
e já matei toda a gente.
Avanço na leitura como
um carniceiro desliza na carne,
afastando os corpos com a ponta metálica
das botas, apoiando a minha bengala
em umbigos e bocas abertas.
Com é possível,
viver normalmente, sentir-me bem até
e, no entanto, usar uma faca em vez e caneta,
pensar em ti,
imaginar-te por dentro,
provar-te com o dedo,
como se prova uma melancia no supermercado?
Tenho medo de tornar-me um maníaco.
Perder a cabeça. Entrar em ti
um dia e sair do outro lado
com o teu coração espetado na ponta
de uma varinha mágica.
Tenho vergonha de...
Regresso a pé, apanho chuva,
desprezo putas, cumprimento desconhecidos.
Regresso encolhido de frio,
com a cara suja, os pés molhados.
Dás-me uma sopa quente
e adormeço na cadeira da cozinha
encostado na porta do forno
enquanto me passas a ferro a camisa
para o dia seguinte.
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