Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Louise Glück
Sirena
Me tornei uma criminosa ao me apaixonar.
Antes disso eu era uma garçonete.
Eu não queria ir para Chicago contigo.
queria que casasses comigo, queria
que tua esposa sofresse.
Queria que a vida dela fosse como uma peça
em que todos os partes são tristes partes.
Pode uma pessoa decente
pensar assim? Eu mereço
reconhecimento por minha coragem —
Sentei-me no escuro de teu alpendre.
Tudo estava claro para para mim:
se tua mulher não te deixava partir
era prova de que não te amava.
Se ela te amasse
não queria que fosses feliz?
Considero agora que
se eu sentisse menos poderia
ser uma pessoa melhor. Eu era
uma boa garçonete,
conseguia equilibrar oito drinques.
Eu costumava te contar meus sonhos.
Noite passada eu vi uma mulher sentada num ônibus escuro —
no sonho, ela chora, o ônibus em que está começa a partir. Com uma das mãos
ela abana; com a outra, golpeia
uma caixa de ovos cheia de bebês
O sonho não resgata a donzela.
Antes disso eu era uma garçonete.
Eu não queria ir para Chicago contigo.
queria que casasses comigo, queria
que tua esposa sofresse.
Queria que a vida dela fosse como uma peça
em que todos os partes são tristes partes.
Pode uma pessoa decente
pensar assim? Eu mereço
reconhecimento por minha coragem —
Sentei-me no escuro de teu alpendre.
Tudo estava claro para para mim:
se tua mulher não te deixava partir
era prova de que não te amava.
Se ela te amasse
não queria que fosses feliz?
Considero agora que
se eu sentisse menos poderia
ser uma pessoa melhor. Eu era
uma boa garçonete,
conseguia equilibrar oito drinques.
Eu costumava te contar meus sonhos.
Noite passada eu vi uma mulher sentada num ônibus escuro —
no sonho, ela chora, o ônibus em que está começa a partir. Com uma das mãos
ela abana; com a outra, golpeia
uma caixa de ovos cheia de bebês
O sonho não resgata a donzela.
771
Louise Glück
Mãe e filho
Somos todos sonhadores; não sabemos quem somos.
Alguma máquina nos criou; a máquina do mundo, a constritiva família.
Então, de volta ao mundo, polidos por suaves chicotes.
Sonhamos; não lembramos.
A máquina da família: pelagem negra,
florestas do corpo materno.
A máquina da mãe: a cidade branca
dentro dela.
E antes disso: terra e água.
Musgo entre as pedras, pedaços de folha e grama.
E antes, células numa imensa escuridão.
E antes disso, o mundo velado.
É por isto que você nasceu: para me calar.
Células de minha mãe e de que pai, é a sua vez
de ser fundamental, de se tornar uma obra-prima.
Eu improvisei; eu nunca me lembro de nada.
Agora é sua vez de se deixar guiar;
é você quem exige saber:
Por que eu sofro? Por que sou ignorante?
Células numa imensa escuridão. Alguma máquina nos criou;
é sua vez de se dirigir a ela, de ficar perguntando
qual é meu propósito? Qual é meu propósito?
Alguma máquina nos criou; a máquina do mundo, a constritiva família.
Então, de volta ao mundo, polidos por suaves chicotes.
Sonhamos; não lembramos.
A máquina da família: pelagem negra,
florestas do corpo materno.
A máquina da mãe: a cidade branca
dentro dela.
E antes disso: terra e água.
Musgo entre as pedras, pedaços de folha e grama.
E antes, células numa imensa escuridão.
E antes disso, o mundo velado.
É por isto que você nasceu: para me calar.
Células de minha mãe e de que pai, é a sua vez
de ser fundamental, de se tornar uma obra-prima.
Eu improvisei; eu nunca me lembro de nada.
Agora é sua vez de se deixar guiar;
é você quem exige saber:
Por que eu sofro? Por que sou ignorante?
Células numa imensa escuridão. Alguma máquina nos criou;
é sua vez de se dirigir a ela, de ficar perguntando
qual é meu propósito? Qual é meu propósito?
927
Francisco Mallmann
I
trago-lhe boas notícias
finalmente será demolida
a parede e instalarão
para mim uma janela
nem posso acreditar
depois do tanto
que insisti
agora verei a ponte
agora verei o caminho
que fizeste ao fugir
fernando a vida é terrível
mas disseram-me que
às vezes se descansa eu
daqui mal posso esperar
finalmente será demolida
a parede e instalarão
para mim uma janela
nem posso acreditar
depois do tanto
que insisti
agora verei a ponte
agora verei o caminho
que fizeste ao fugir
fernando a vida é terrível
mas disseram-me que
às vezes se descansa eu
daqui mal posso esperar
832
Louise Glück
Paisagem/3
Nos fins do outono uma rapariga deitou fogo
a um trigal. O outono
fora muito seco; o campo
ardeu como palha.
Depois não sobrou nada.
Se o atravessávamos, não víamos nada.
Nada havia para colher, para cheirar.
Os cavalos não compreendem –
Onde está o campo, parecem dizer.
Como tu ou eu a perguntar
onde está a nossa casa.
Ninguém sabe responder-lhes.
Não sobra nada;
resta-nos esperar, a bem do lavrador,
que o seguro pague.
É como perder um ano de vida.
Em que perderias um ano da tua vida?
Mais tarde regressas ao velho lugar –
só restam cinzas: negrume e vazio.
Pensas: como pude viver aqui?
Mas na altura era diferente,
mesmo no último verão. A terra agia
como se nada de mal pudesse acontecer-lhe.
Um único fósforo foi quanto bastou.
Mas no momento certo – teve de ser no momento certo.
O campo crestado, seco –
a morte já a postos
por assim dizer.
traduzido por Rui Pires Cabral
a um trigal. O outono
fora muito seco; o campo
ardeu como palha.
Depois não sobrou nada.
Se o atravessávamos, não víamos nada.
Nada havia para colher, para cheirar.
Os cavalos não compreendem –
Onde está o campo, parecem dizer.
Como tu ou eu a perguntar
onde está a nossa casa.
Ninguém sabe responder-lhes.
Não sobra nada;
resta-nos esperar, a bem do lavrador,
que o seguro pague.
É como perder um ano de vida.
Em que perderias um ano da tua vida?
Mais tarde regressas ao velho lugar –
só restam cinzas: negrume e vazio.
Pensas: como pude viver aqui?
Mas na altura era diferente,
mesmo no último verão. A terra agia
como se nada de mal pudesse acontecer-lhe.
Um único fósforo foi quanto bastou.
Mas no momento certo – teve de ser no momento certo.
O campo crestado, seco –
a morte já a postos
por assim dizer.
traduzido por Rui Pires Cabral
771
João Cabral de Melo Neto
Os Três Mal-Amados
O amor comeu meu nome, minha identidade,
meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia, meu endereço. O amor
comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos
os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas
camisas. O amor comeu metros e metros de
gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o
número de meus sapatos, o tamanho de meus
chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a
cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas
médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas,
minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus
testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de
poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações
em verso. Comeu no dicionário as palavras que
poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso:
pente, navalha, escovas, tesouras de unhas,
canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de
meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada
no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto
mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu
a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de
propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos
que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde
irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta,
cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas.
O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos,
e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua
chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba
de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam
sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas
de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a
água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os
mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde
ácido das plantas de cana cobrindo os morros
regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo
trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de
cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas
coisas de que eu desesperava por não saber falar
delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas
folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de
meu relógio, os anos que as linhas de minha mão
asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro
grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da
terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e
minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu
silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte”.
meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia, meu endereço. O amor
comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos
os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas
camisas. O amor comeu metros e metros de
gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o
número de meus sapatos, o tamanho de meus
chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a
cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas
médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas,
minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus
testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de
poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações
em verso. Comeu no dicionário as palavras que
poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso:
pente, navalha, escovas, tesouras de unhas,
canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de
meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada
no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto
mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu
a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de
propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos
que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde
irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta,
cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas.
O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos,
e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua
chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba
de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam
sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas
de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a
água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os
mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde
ácido das plantas de cana cobrindo os morros
regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo
trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de
cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas
coisas de que eu desesperava por não saber falar
delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas
folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de
meu relógio, os anos que as linhas de minha mão
asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro
grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da
terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e
minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu
silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte”.
1 421
Edmir Domingues
Soneto a Charles Chaplin
Já que o sal não nos dão nos dás a rosa,
a nós que temos sido a pura espera,
de que viesses trazendo a primavera
à nossa contingência dolorosa.
E na vila noturna e silenciosa
onde as pedras têm vida e os galhos de hera
nos falam, sob as luas da quimera
seremos a ciranda e a polvorosa.
Assim, na inquietação dos novos climas,
teremos os teus passos e presença
junto às nossas privadas pantomimas.
Sendo quase irreais quanto insensatos,
como se repousáramos na crença
do céu que deve haver para os sapatos.
a nós que temos sido a pura espera,
de que viesses trazendo a primavera
à nossa contingência dolorosa.
E na vila noturna e silenciosa
onde as pedras têm vida e os galhos de hera
nos falam, sob as luas da quimera
seremos a ciranda e a polvorosa.
Assim, na inquietação dos novos climas,
teremos os teus passos e presença
junto às nossas privadas pantomimas.
Sendo quase irreais quanto insensatos,
como se repousáramos na crença
do céu que deve haver para os sapatos.
630
Edmir Domingues
Soneto a Charles Chaplin
Já que o sal não nos dão nos dás a rosa,
a nós que temos sido a pura espera,
de que viesses trazendo a primavera
à nossa contingência dolorosa.
E na vila noturna e silenciosa
onde as pedras têm vida e os galhos de hera
nos falam, sob as luas da quimera
seremos a ciranda e a polvorosa.
Assim, na inquietação dos novos climas,
teremos os teus passos e presença
junto às nossas privadas pantomimas.
Sendo quase irreais quanto insensatos,
como se repousáramos na crença
do céu que deve haver para os sapatos.
a nós que temos sido a pura espera,
de que viesses trazendo a primavera
à nossa contingência dolorosa.
E na vila noturna e silenciosa
onde as pedras têm vida e os galhos de hera
nos falam, sob as luas da quimera
seremos a ciranda e a polvorosa.
Assim, na inquietação dos novos climas,
teremos os teus passos e presença
junto às nossas privadas pantomimas.
Sendo quase irreais quanto insensatos,
como se repousáramos na crença
do céu que deve haver para os sapatos.
630
Edmir Domingues
Soneto do azul e da busca
Azul no chão que um príncipe há morrido
aqui, ou tinta azul foi derramada,
talvez, quem sabe?, à luz da madrugada
em que o amor foi contato e foi sentido.
Não desceria o céu sobre essa estrada
para torná-la azul no azul descido,
e a solução ê o sangue, o sangue tido
por nobreza que enfim não vale nada.
Eis porque deixo a vida e busco o poço,
para perder-me em nuvens de alvoroço
se não te achei, contigo a primavera.
A fumaça do gesto ao mar se arrase,
confio as ter, assim transponha o gaze,
que onde tempo não há não cabe espera.
aqui, ou tinta azul foi derramada,
talvez, quem sabe?, à luz da madrugada
em que o amor foi contato e foi sentido.
Não desceria o céu sobre essa estrada
para torná-la azul no azul descido,
e a solução ê o sangue, o sangue tido
por nobreza que enfim não vale nada.
Eis porque deixo a vida e busco o poço,
para perder-me em nuvens de alvoroço
se não te achei, contigo a primavera.
A fumaça do gesto ao mar se arrase,
confio as ter, assim transponha o gaze,
que onde tempo não há não cabe espera.
829
Edmir Domingues
Soneto feito com água do mar
Hoje que o barco é nosso, e no recôncavo
desmancha-se a ternura em mãos de vento,
pressinto as vibrações contidas entre
lavarinto o cordão nas verdes ondas.
Pois somos como as coisas de silêncio
deixadas no outro dia, em céus de longe,
pelas angras sem fim de velhos sonhos,
quanto mais velhos tanto mais idênticos.
Que a vida volta, e as noites antiquíssimas
nunca serão passados e absolutos
mas tornarão nas íntimas carícias.
Levagantes e polvos não são tudo.
Há mistério nos mares e nos vícios
e mundos abissais nos cantos surdos.
desmancha-se a ternura em mãos de vento,
pressinto as vibrações contidas entre
lavarinto o cordão nas verdes ondas.
Pois somos como as coisas de silêncio
deixadas no outro dia, em céus de longe,
pelas angras sem fim de velhos sonhos,
quanto mais velhos tanto mais idênticos.
Que a vida volta, e as noites antiquíssimas
nunca serão passados e absolutos
mas tornarão nas íntimas carícias.
Levagantes e polvos não são tudo.
Há mistério nos mares e nos vícios
e mundos abissais nos cantos surdos.
771
Louise Glück
A rosa branca
Isto é a terra? Então
não sou daqui
Quem és tu na janela acesa,
agora à sombra das folhas trêmulas
do viburno?
Podes sobreviver onde não vou durar
Além do próximo verão?
A noite inteira os galhos esguios da árvore
movem-se e sussurram à janela iluminada.
Explica a minha vida, tu que não fazes sinal algum,
embora eu chame por ti na noite:
não sou como tu, tenho apenas
meu corpo como voz; não posso
desaparecer no silêncio —
E na manhã fria
sobre a superfície escura da terra
vagueiam ecos da minha voz,
brancura que firme se consome em escuridão
como se finalmente fizesses um sinal
para me convencer de que também não pudeste sobreviver aqui
ou para me mostrar que não és a luz que chamei
mas o breu atrás dela.
não sou daqui
Quem és tu na janela acesa,
agora à sombra das folhas trêmulas
do viburno?
Podes sobreviver onde não vou durar
Além do próximo verão?
A noite inteira os galhos esguios da árvore
movem-se e sussurram à janela iluminada.
Explica a minha vida, tu que não fazes sinal algum,
embora eu chame por ti na noite:
não sou como tu, tenho apenas
meu corpo como voz; não posso
desaparecer no silêncio —
E na manhã fria
sobre a superfície escura da terra
vagueiam ecos da minha voz,
brancura que firme se consome em escuridão
como se finalmente fizesses um sinal
para me convencer de que também não pudeste sobreviver aqui
ou para me mostrar que não és a luz que chamei
mas o breu atrás dela.
964
Edmir Domingues
Soneto com jeito de chegança
Ventos do mar que não peninsulares
trouxeram nossas vozes de chegança,
navegantes de barcos de esperança
na roupa das cantigas seculares.
Lembrávamos Lisboa, os mansos lares,
as cachopas pousadas na lembrança,
as vagas que nem sempre de bonança,
na saudade da copla e dos cantares.
Outros, os capitães-de-mar-e-guerra,
tristes de ver o barco agora em terra
descem do rito náutico aos lamentos.
Sem curva de marés nos decompomos
porquanto marinheiros já não somos
mas o gesto e a canção dos movimentos.
trouxeram nossas vozes de chegança,
navegantes de barcos de esperança
na roupa das cantigas seculares.
Lembrávamos Lisboa, os mansos lares,
as cachopas pousadas na lembrança,
as vagas que nem sempre de bonança,
na saudade da copla e dos cantares.
Outros, os capitães-de-mar-e-guerra,
tristes de ver o barco agora em terra
descem do rito náutico aos lamentos.
Sem curva de marés nos decompomos
porquanto marinheiros já não somos
mas o gesto e a canção dos movimentos.
710
Knut Hamsun
Em cem anos, tudo estará esquecido
Reviro-me insone por noites a fio,
qual náufrago num barco adernando,
e tudo por que tanto tenho sofrido
ao fim sempre vem dar em pranto.
Mas por que sofrer tanto?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Num sobressalto me vejo cantando
personagem da própria labuta.
Comungo com Deus qual gigante desperto
e a mesa com o diabo divido.
Por que, afinal, tamanha disputa?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Eis que então cessa enfim o conflito
e de alma enlevada ao mar eu me faço.
Nas vagas amargas me lanço
e assisto a meu mundo ser engolido.
Por que preferir um tal ranço?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Oh, não, antes flanar pela vida,
lançar um livro a cada Natal,
ombrear-se com os grandes poetas
e morrer como um lorde das letras.
É isto então que me faz decidido:
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Trad.: Leonardo Pinto Silva
Knut Hamsun – Om Hundrede År Er Alting Glemt
Jeg driver i aften og tænker og strider,
jeg synes jeg er som en kantret båt,
og alt hvad jeg jamrer og alt hvad jeg lider
det ender vel gjerne med gråt.
Men hvi skal jeg være så hårdt beklemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Da hopper jeg heller og synger en vise
og holder mit liv for en skjøn roman.
Jeg æter ved Gud som en fuldvoksen rise
og drikker som bare fan.
Men hvi skal jeg fare med al den skjæmt?
Om hundrede år er alting glemt.
Så stanser jeg virkelig heller striden
og ganger til sjøs med min pinte sjæl.
Der finder nok verden mig engang siden
så bitterlig druknet ihjæl.
Men hvi skal jeg ende så altfor slemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Å nei, det er bedre at rusle og leve
og skrive en bok til hver kommende jul
og stige tilslut til en versets greve
og dø som en romanens mogul.
Da er det nu dette som gjør mig forstemt:
Om hundrede år er alting glemt.
qual náufrago num barco adernando,
e tudo por que tanto tenho sofrido
ao fim sempre vem dar em pranto.
Mas por que sofrer tanto?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Num sobressalto me vejo cantando
personagem da própria labuta.
Comungo com Deus qual gigante desperto
e a mesa com o diabo divido.
Por que, afinal, tamanha disputa?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Eis que então cessa enfim o conflito
e de alma enlevada ao mar eu me faço.
Nas vagas amargas me lanço
e assisto a meu mundo ser engolido.
Por que preferir um tal ranço?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Oh, não, antes flanar pela vida,
lançar um livro a cada Natal,
ombrear-se com os grandes poetas
e morrer como um lorde das letras.
É isto então que me faz decidido:
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Trad.: Leonardo Pinto Silva
Knut Hamsun – Om Hundrede År Er Alting Glemt
Jeg driver i aften og tænker og strider,
jeg synes jeg er som en kantret båt,
og alt hvad jeg jamrer og alt hvad jeg lider
det ender vel gjerne med gråt.
Men hvi skal jeg være så hårdt beklemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Da hopper jeg heller og synger en vise
og holder mit liv for en skjøn roman.
Jeg æter ved Gud som en fuldvoksen rise
og drikker som bare fan.
Men hvi skal jeg fare med al den skjæmt?
Om hundrede år er alting glemt.
Så stanser jeg virkelig heller striden
og ganger til sjøs med min pinte sjæl.
Der finder nok verden mig engang siden
så bitterlig druknet ihjæl.
Men hvi skal jeg ende så altfor slemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Å nei, det er bedre at rusle og leve
og skrive en bok til hver kommende jul
og stige tilslut til en versets greve
og dø som en romanens mogul.
Da er det nu dette som gjør mig forstemt:
Om hundrede år er alting glemt.
566
Alexandre Herculano
Arrábida
I
Salve, ó vale do sul, saudoso e belo!
Salve, ó pátria da paz, deserto santo,
Onde não ruge a grande voz das turbas!
Solo sagrado a Deus, pudesse ao mundo
O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
Qual ao freixo robusto a frágil hera,
E a romagem do túmulo cumprindo,
Só conhecer, ao despertar na morte,
Essa vida sem mal, sem dor, sem termo,
Que íntima voz contínuo nos promete
No trânsito chamado o viver do homem.
II
Suspira o vento no álamo frondoso;
As aves soltam matutino canto;
Late o lebréu na encosta, e o mar sussurra
Dos alcantis na base carcomida:
Eis o ruído de ermo! Ao longe o negro,
Insondado oceano, e o céu cerúleo
Se abraçam no horizonte. Imensa imagem
Da eternidade e do infinito, salve!
III
Oh, como surge majestosa e bela,
Com viço da criação, a natureza
No solitário vale! E o leve insecto
E a relva e os matos e a fragrância pura
Das boninas da encosta estão contando
Mil saudades de Deus, que os há lançado,
Com mão profusa, no regaço ameno
Da solidão, onde se esconde o justo.
E lá campeiam no alto das montanhas
Os escalvados píncaros, severos,
Quais guardadores de um lugar que é santo;
Atalaias que ao longe o mundo observam,
Cerrando até o mar o último abrigo
Da crença viva, da oração piedosa,
Que se ergue a Deus de lábios inocentes.
Sobre esta cena o sol verte em torrentes
Da manhã o fulgor; a brisa esvai-se
Pelos rosmaninhais, e inclina os topos
Do zimbro e alecrineiro, ao rés sentados
Desses tronos de fragas sobrepostas,
Que alpestres matas de medronhos vestem;
O rocio da noite à branca rosa
No seio derramou frescor suave,
E inda existência lhe dará um dia.
Formoso ermo do sul, outra vez, salve!
IV
Negro, estéril rochedo, que contrastas,
Na mudez tua, o plácido sussurro
Das árvores do vale, que vicejam
Ricas d'encantos, coa estação propícia;
Suavíssimo aroma, que, manando
Das variegadas flores, derramadas
Na sinuosa encosta da montanha,
Do altar da solidão subindo aos ores,
És digno incenso ao Criador erguido;
Livres aves, filhas da espessura,
Que só teceis da natureza as hinos,
O que crê, o cantor, que foi lançado,
Estranho no mundo, no bulício dele,
Vem saudar-vos, sentir um gozo puro,
Dus homens esquecer paixões e opróbio,
E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
O Sol, e uma só vez puro saudar-lha.
Convosco eu sou maior; mais longe a mente
dos céus se imerge livre,
E se desprende de mortais memórias
Na solidão solene, onde, incessante,
Em cada pedra, em cada flor se escuta
Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
A dextra sua em multiforme quadro.
V
Escalvado penedo, que repousas
Lá no cimo do monte, ameaçando
Ruína ao roble secular da encosta,
Que sonolento move a coma estiva
Ante a aragem do mar, foste formoso;
Já te cobriram cespedes virentes;
Mus o tempo voou, e nele envolta
A formosura tua. Despedidos
Das negras nuvens o chuveiro espesso
E o granizo, que o solo fustigando
Tritura u tenra lanceolada relva,
Durante largos séculos, no Inverno,
Dos vendavais no dorso a ti desceram.
Qual amplexo brutal de ardos grosseiro,
Que, maculando virginal pureza.
Do pudor varre a auréola celeste,
E deixa, em vez de um serafim m Terra,
Queimada flor que devorou o raio.
VI
Caveira da montanha, ossada imensa,
É tua campa o Céu: sepulcro o vale
Um dia te será. Quando sentires
Rugir com som medonho a Terra ao longe,
Na expansão dos vulcões, e o mar, bramindo,
Lançar à praia vagalhões cruzados;
Tremer-te a larga base, e sacudir-te
De sobre si, o fundo deste vale
Te vai servir de túmulo; e os carvalhos
Do mundo primogénitos, e os sobros,
Arrastados por ti lá da colina,
Contigo hão-de jazer. De novo a terra
Te cobrirá o dorso sinuoso:
Outra vez sobre ti nascendo os lírios,
Do seu puro candor hão-de adornar-te;
E tu, ora medonho e nu e triste,
Ainda belo serás, vestido e alegre.
VII
Mais que o homem feliz! Quando eu no vale
Dos túmulos cair; quando uma pedra
Os ossos me esconder, se me for dada,
Não mais reviverei; não mais meus olhos
Verão, ao pôr-se, o Sol em dia estivo,
Se em turbilhões de púrpura, que ondeiam
Pelo extremo dos céus sobre o ocidente.
Vai provar que um Deus há o estranhos povos
E além das ondas trémulo sumir-se;
Nem, quando, lá do cimo das montanhas,
Com torrentes de luz inunda as veigas:
Não mais verei o refulgir da Lua
No irrequieto mar, na paz da noite,
Por horas em que vela o criminoso,
A quem íntima voz rouba o sossego.
E em que o justo descansa, ou, solitário,
Ergue ao Senhor um hino harmonioso.
VIII
Ontem, sentado num penhasco, e perto
Dos águas, então quedas, do oceano,
Eu também o louvei sem ser um justo:
E meditei, e a mente extasiada
Deixei correr pela amplidão das ondas.
Como abraço materno era suave
A aragem fresca do cair das trevas.
Enquanto, envolta em glória, a clara Lua
Sumia em seu fulgor milhões d'estrelas.
Tudo calado estava: o mar somente
As harmonias da criação soltava,
Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto
Se agitava, gemendo e murmurando.
Ante o sopro de oeste: ali dos olhos
O pranto me correu, sem que o sentisse.
E aos pés de Deus se derramou minha alma.
IX
Oh, que viesse o que não crê, comigo,
À vicejante Arrábida de noite,
E se assentasse aqui sobre estas fragas,
Escutando o sussurro incerto e triste
Das movediças ramas, que povoa
De saudade e de amor nocturna brisa;
Que visse a lua, o espaço opresso de astros,
E ouvisse o mar soando: – ele chorara,
Qual eu chorei, as lágrimas do gozo,
E, adorando o Senhor, detestaria
De uma ciência vã seu vão orgulho.
X
É aqui neste vale, ao qual não chega
Humana voz e o tumultuar das turbas,
Onde o nada da vida sonda livre
O coração, que busca ir abrigar-se
No futuro, e debaixo do amplo manto
Da piedade de Deus: aqui serena
Vem a imagem da campa, como a imagem
Da pátria ao desterrado; aqui, solene,
Brada a montanha, memorando a morte.
Essas penhas, que, lá no alto das serras
Nuas, crestadas, solitárias dormem,
Parecem imitar da sepultura
O aspecto melancólico e o repouso
Tão desejado do que em Deus confia.
Bem semelhante à paz. que se há sentado
Por séculos, ali, nas cordilheiras
É o silêncio do adro, onde reúnem
Os ciprestes e a Cruz, o Céu e a Terra.
Como tu vens cercado de esperança,
Para o inocente, ó plácido sepulcro!
Junto das tuas bordas pavorosas
O perverso recua horrorizado:
Após si volve os olhos; na existência
Deserto árido só descobre ao longe.
Onde a virtude não deixou um trilho.
Mas o justo, chegando à meta extrema,
Que separa de nós a eternidade,
Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta..
O infeliz e o feliz lá dormem ambos,
Tranquilamente: e o trovador mesquinho,
Que peregrino vagueou na Terra,
Sem encontrar um coração ardente
Que o entendesse, a pátria de seus sonhos,
Ignota, por lá busca; e quando as eras
Vierem junto às cinzas colocar-lhe
Tardios louros, que escondera a inveja,
Ele não erguerá a mão mirrada,
Para os cingir na regelada fronte.
Justiça, glória, amor, saudade, tudo,
An pé da sepultura, é som perdido
De harpa eólia esquecida em brenha ou selva:
O despertar um pai, que saboreia
Entre os bruços da morte o extremo sono,
Já não é dado ao filial suspiro;
Em vão o amante, ali, da amada sua
De rosas sobre a c'roa debruçado,
Rega de amargo pranto as murchas flores
E a fria pedra: a pedra é sempre fria.
E para sempre as flores se murcharam.
XI
Belo ermo!, eu hei-de amar-te enquanto esta alma,
Aspirando o futuro além da vida
E um hálito dos Céus, gemer atada
À coluna do exílio, a que se chama
Em língua vil e mentirosa o mundo.
Eu hei-de amar-te, ó vale, como um filho
Dos sonhos meus. A imagem do deserto
Guardá-la-ei no coração, bem junto
Com minha fé, meu único tesouro.
Qual pomposo jardim de verme ilustre,
Chamado rei ou nobre, há-de contigo
Comparar-se, ó deserto? Aqui não cresce
Em vaso de alabastro a flor cativa,
Ou árvore educada por mão de homem,
Que lhe diga: «És escrava», e erga um ferro
E lhe decepe os troncos. Como é livre
A vaga do oceano, é livre no ermo
A bonina rasteira ou freixo altivo!
Não lhes diz: «Nasce aqui, ou lá não cresças».
Humana voz. Se baqueou o freixo,
Deus o mandou: se a flor pendida murcha,
É que o rocio não desceu de noite,
E da vida o Senhor lhe nega a vida.
Céu livre, Terra livre, e livre a mente,
Paz íntima, e saudade, mas saudade
Que não dói, que não mirra, e que consola,
São as riquezas do ermo, onde sorriem
Das procelas do mundo os que o deixaram.
XII
Ali naquela encosta, ontem de noite,
Alvejava por entre os medronheiros
Do solitário a habitação tranquila:
E eu vagueei por lá. Patente estava
O pobre albergue do eremita humilde,
Onde jazia o filho da esperança
Sob as asas de Deus, à luz dos astros,
Em leito, duro sim, não de remorsos.
Oh, com quanto sossego o bom do velho
Dormia! A leve aragem lhe ondeava
As raras cãs na fronte, onde se lia
A bela história de passados anos.
De alto choupo através passava um raio
Da Lua – astro de paz, astro que chama
Os olhos para o céu, e a Deus a mente -
E em luz pálida as faces !he banhava:
E talvez neste raio o Pai celeste
Da pátria eterna, lhe enviava a imagem,
Que o sorriso dus lábios lhe fugia,
Como se um sonho de ventura e glória
Na Terra de antemão o consolasse.
E eu comparei o solitário obscuro
Ao inquieto filho das cidades:
Comparei o deserto silencioso
Ao perpétuo ruído que sussurra
Pelos palácios do abastado e nobre,
Pelos paços dos reis; e condoí-me
Do cortesão soberbo, que só cura
De honras, haveres, glória, que se compram
Com maldições e perenal remorso.
Glória! A sua qual é? Pelas campinas,
Cobertas de cadáveres, regadas
De negro sangue, ele segou seus louros;
Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva
Ao som do choro da viúva e do órfão;
Ou, dos sustos senhor, em seu delírio,
Os homens, seu irmãos, flagela e oprime.
Lá o filho do pó se julga um nume,
Porque a Terra o adorou; o desgraçado
Pensa, talvez, que o verme dos sepulcros
Nunca se há-de chegar para tragá-lo
Ao banquete da morte, imaginando
Que uma lájea de mármore, que esconde
O cadáver do grande, é mais durável
Do que esse chão sem inscrição, sem nome.
Por onde o opresso, o mísero, procura
O repouso, e se atira aos pés do trono
Do Omnipotente, a demandar justiça
Contra os fortes do mundo, os seus tiranos.
XIII
Ó cidade, cidade, que transbordas
De vícios, de paixões e de amarguras!
Tu lá estás, na tua pompa envolta,
Soberba prostituta, alardeando
Os teatros, e os paços, e o ruído
Das carroças dos nobres recamadas
De ouro e prata, e os prazeres de uma vida
Tempestuosa, e o tropear contínuo
Dos férvidos ginetes, que alevantam
O pó e o lodo cortesão das praças;
E as gerações corruptas de teus filhos
Lá se revolvem, qual montão de vermes
Sobre um cadáver pútrido! Cidade,
Branqueado sepulcro, que misturas
A opulência, a miséria, a dor e o gozo,
Honra e infâmia, pudor e impudícia
Céu e inferno, que és tu? Escárnio ou glória
Da humanidade? O que o souber que o diga!
Bem negra avulta aqui, na paz do vale,
A imagem desse povo, que reflui
Das moradas à rua, à praça, ao templo;
Que ri, e chora, folga, e geme, e morre,
Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;
Absurdo misto de baixeza extrema
E de extrema ousadia; vulto enorme,
Ora aos pés de um vil déspota estendido,
Ora surgindo, e arremessando ao nada
As memórias dos séculos que foram,
E depois sobre o nada adormecendo.
Vê-lo, rico de opróbrio, ir assentar-se
Em joelhos nos átrios dos tiranos.
Onde, entre o lampejar de armas de servos,
O servo popular adora um tigre ?
Esse tigre é o ídolo do povo!
Saudai-o; que ele o manda: abençoai-lhe
O férreo ceptro: ide folgar em roda
De cadafalsos, povoados sempre
De vítimas ilustres, cujo arranco
Seja como harmonia, que adormente
Em seus terrores o senhor das turbas.
Passai depois. Se a mão da Providência
Esmigalhou a fronte à tirania;
Se o déspota caiu, e está deitado
No lodaçal da sua infâmia, a turba
Lá vai buscar o ceptro dos terrores,
E diz: «É meu»; e assenta-se na praça,
E envolta em roto manto. e julga, e reina.
Se um ímpio, então, na afogueada boca
De vulcão popular sacode um facho,
Eis o incêndio que muge, e a lava sobe,
E referve, e trasborda, e se derrama
Pelas ruas além: clamor retumba
De anarquia impudente, e o brilho de armas
Pelo escuro transluz, como um presságio
De assolação, e se amontoam vagas
Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo;
Desse vulgo, que ao som de infernais hinos
Cava fundo da Pátria a sepultura,
Onde, abraçando a glória do passado
E do futuro a última esperança,
As esmaga consigo, e ri morrendo.
Tal és, cidade, licenciosa ou serva!
Outros louvem teus paços sumptuosos,
Teu ouro, teu poder: sentina impura
De corrupções, teus não serão meus hinos!
XIV
Cantor da solidão, vim assentar-me
Junto do verde céspede do vale,
E a paz de Deus do mundo me consola.
Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo,
Um pobre conventinho. Homem piedoso
O alevantou há séculos, passando,
Como orvalho do céu, por este sítio,
De virtudes depois tão rico e fértil.
Como um pai de seus filhos rodeado,
Pelos matos do outeiro o vão cercando
Os tugúrios de humildes eremitas,
Onde o cilício e a compunção apagam
Da lembrança de Deus passados erros
Do pecador, que reclinou a fronte
Penitente no pó. O sacerdote
Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;
E perdoou-lhe, e consolou-o em nome
Do que expirando perdoava, o Justo,
Que entre os humanos não achou piedade.
XV
Religião! do mísero conforto,
Abrigo extremo de alma, que há mirrado
O longo agonizar de uma saudade.
Da desonra, do exílio, ou da injustiça,
Tu consolas aquele, que ouve o Verbo.
Que renovou o corrompido mundo,
E que mil povos pouco a pouco ouviram.
Nobre, plebeu, dominador, ou servo,
O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,
Da desgraça no dia ajoelharam
No limiar do solitário templo.
Ao pé desse portal, que veste o musgo,
Encontrou-os chorando o sacerdote,
Que da serra descia à meia-noite,
Pelo sino das preces convocado:
Aí os viu ao despontar do dia,
Sob os raios do Sol, ainda chorando,
Passados meses, o burel grosseiro,
O leito de cortiça, e a fervorosa
E contínua oração foram cerrando
Nos corações dos míseros as chagas,
Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.
Aqui, depois, qual hálito suave.
Da Primavera, lhes correu a vida,
Até sumir-se no adro do convento,
Debaixo de uma lájea tosca e humilde,
Sem nome, nem palavra, que recorde
O que a terra abrigou no sono extremo.
Eremitério antigo, oh, se pudesses
Dos anos que lá vão contar a história;
Se ora, à voz do cantor, possível fosse
Transudar desse chão, gelado e mudo,
O mudo pranto, em noites dolorosas,
Por náufragos do mundo derramado
Sobre ele, e aos pés da Cruz!... Se vós pudésseis,
Broncas pedras, falar, o que diríeis!
Quantos nomes mimosos da ventura,
Convertidos em fábula das gentes.
Despertariam o eco das montanhas,
Se aos negros troncos do sobreiro antigo
Mandasse o Eterno sussurrar a história
Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,
Para um leito formar, onde velassem
Da mágoa, ou do remorso, as longas noites!
Aqui veio, talvez, buscar asilo
Um poderoso, outrora anjo da Terra,
Despenhado nas trevas do infortúnio;
Aqui gemeu, talvez, o amor traído,
Ou pela morte convertido em cancro
De infernal desespero; aqui soaram
Do arrependido os últimos gemidos,
Depois da vida derramada em gozos,
Depois do gozo convertido em tédio.
Mas quem foram? Nenhum, depondo em terra
Vestidura mortal, deixou vestígios
De seu breve passar. E isso que importa,
Se Deus o viu; se as lágrimas do triste
Ele contou, para as pagar com glória?
XVI
Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda
Que serpeia do monte ao fundo vale,
Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,
Como um farol de vida em mar de escolhos:
Ao cristão infeliz acolhe no ermo.
E consolando-o, diz-lhe: «A pátria tua
É lá no Céu: abraça-te comigo.»
Junto dela esses homens, que passaram
Acurvados na dor, as mãos ergueram
Para o Deus, que perdoa, e que é conforto
Dos que aos pés deste símbolo da esp'rança
Vêm derramar seu coração aflito:
É do deserto a história, a cruz e a campa;
E sobre tudo o mais pousa o silêncio.
XVII
Feliz da Terra, os monges não maldigas;
Do que em Deus confiou não escarneças:
Folgando segue a trilha, que há juncado,
Para teus pés, de flores a fortuna.
E sobre a morta crença em paz descansa.
Que mal te faz. Que gozo vai roubar-te
O que ensanguenta os pés no tojo agreste,
E sobre a fria pedra encosta a fronte?
Que mal te faz uma oração erguida,
Nas solidões, por voz sumida e frouxa,
E que, subindo aos Céus, só Deus escuta?
Oh, não insultes lágrimas alheias,
E deixa a fé ao que não tem mais nada!...
E se estes versos te contristam, rasga-os.
Teus menestréis te venderão seus hinos,
Nos banquetes opíparos, enquanto
O negro pão repartirá comigo,
Seu trovador, o pobre anacoreta,
Que não te inveja as ditas, como as c'roas
Do prazer ao cantor eu não invejo;
Tristes coroas, sob as quais às vezes
Está gravada uma inscrição d'infâmia.
Salve, ó vale do sul, saudoso e belo!
Salve, ó pátria da paz, deserto santo,
Onde não ruge a grande voz das turbas!
Solo sagrado a Deus, pudesse ao mundo
O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
Qual ao freixo robusto a frágil hera,
E a romagem do túmulo cumprindo,
Só conhecer, ao despertar na morte,
Essa vida sem mal, sem dor, sem termo,
Que íntima voz contínuo nos promete
No trânsito chamado o viver do homem.
II
Suspira o vento no álamo frondoso;
As aves soltam matutino canto;
Late o lebréu na encosta, e o mar sussurra
Dos alcantis na base carcomida:
Eis o ruído de ermo! Ao longe o negro,
Insondado oceano, e o céu cerúleo
Se abraçam no horizonte. Imensa imagem
Da eternidade e do infinito, salve!
III
Oh, como surge majestosa e bela,
Com viço da criação, a natureza
No solitário vale! E o leve insecto
E a relva e os matos e a fragrância pura
Das boninas da encosta estão contando
Mil saudades de Deus, que os há lançado,
Com mão profusa, no regaço ameno
Da solidão, onde se esconde o justo.
E lá campeiam no alto das montanhas
Os escalvados píncaros, severos,
Quais guardadores de um lugar que é santo;
Atalaias que ao longe o mundo observam,
Cerrando até o mar o último abrigo
Da crença viva, da oração piedosa,
Que se ergue a Deus de lábios inocentes.
Sobre esta cena o sol verte em torrentes
Da manhã o fulgor; a brisa esvai-se
Pelos rosmaninhais, e inclina os topos
Do zimbro e alecrineiro, ao rés sentados
Desses tronos de fragas sobrepostas,
Que alpestres matas de medronhos vestem;
O rocio da noite à branca rosa
No seio derramou frescor suave,
E inda existência lhe dará um dia.
Formoso ermo do sul, outra vez, salve!
IV
Negro, estéril rochedo, que contrastas,
Na mudez tua, o plácido sussurro
Das árvores do vale, que vicejam
Ricas d'encantos, coa estação propícia;
Suavíssimo aroma, que, manando
Das variegadas flores, derramadas
Na sinuosa encosta da montanha,
Do altar da solidão subindo aos ores,
És digno incenso ao Criador erguido;
Livres aves, filhas da espessura,
Que só teceis da natureza as hinos,
O que crê, o cantor, que foi lançado,
Estranho no mundo, no bulício dele,
Vem saudar-vos, sentir um gozo puro,
Dus homens esquecer paixões e opróbio,
E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
O Sol, e uma só vez puro saudar-lha.
Convosco eu sou maior; mais longe a mente
dos céus se imerge livre,
E se desprende de mortais memórias
Na solidão solene, onde, incessante,
Em cada pedra, em cada flor se escuta
Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
A dextra sua em multiforme quadro.
V
Escalvado penedo, que repousas
Lá no cimo do monte, ameaçando
Ruína ao roble secular da encosta,
Que sonolento move a coma estiva
Ante a aragem do mar, foste formoso;
Já te cobriram cespedes virentes;
Mus o tempo voou, e nele envolta
A formosura tua. Despedidos
Das negras nuvens o chuveiro espesso
E o granizo, que o solo fustigando
Tritura u tenra lanceolada relva,
Durante largos séculos, no Inverno,
Dos vendavais no dorso a ti desceram.
Qual amplexo brutal de ardos grosseiro,
Que, maculando virginal pureza.
Do pudor varre a auréola celeste,
E deixa, em vez de um serafim m Terra,
Queimada flor que devorou o raio.
VI
Caveira da montanha, ossada imensa,
É tua campa o Céu: sepulcro o vale
Um dia te será. Quando sentires
Rugir com som medonho a Terra ao longe,
Na expansão dos vulcões, e o mar, bramindo,
Lançar à praia vagalhões cruzados;
Tremer-te a larga base, e sacudir-te
De sobre si, o fundo deste vale
Te vai servir de túmulo; e os carvalhos
Do mundo primogénitos, e os sobros,
Arrastados por ti lá da colina,
Contigo hão-de jazer. De novo a terra
Te cobrirá o dorso sinuoso:
Outra vez sobre ti nascendo os lírios,
Do seu puro candor hão-de adornar-te;
E tu, ora medonho e nu e triste,
Ainda belo serás, vestido e alegre.
VII
Mais que o homem feliz! Quando eu no vale
Dos túmulos cair; quando uma pedra
Os ossos me esconder, se me for dada,
Não mais reviverei; não mais meus olhos
Verão, ao pôr-se, o Sol em dia estivo,
Se em turbilhões de púrpura, que ondeiam
Pelo extremo dos céus sobre o ocidente.
Vai provar que um Deus há o estranhos povos
E além das ondas trémulo sumir-se;
Nem, quando, lá do cimo das montanhas,
Com torrentes de luz inunda as veigas:
Não mais verei o refulgir da Lua
No irrequieto mar, na paz da noite,
Por horas em que vela o criminoso,
A quem íntima voz rouba o sossego.
E em que o justo descansa, ou, solitário,
Ergue ao Senhor um hino harmonioso.
VIII
Ontem, sentado num penhasco, e perto
Dos águas, então quedas, do oceano,
Eu também o louvei sem ser um justo:
E meditei, e a mente extasiada
Deixei correr pela amplidão das ondas.
Como abraço materno era suave
A aragem fresca do cair das trevas.
Enquanto, envolta em glória, a clara Lua
Sumia em seu fulgor milhões d'estrelas.
Tudo calado estava: o mar somente
As harmonias da criação soltava,
Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto
Se agitava, gemendo e murmurando.
Ante o sopro de oeste: ali dos olhos
O pranto me correu, sem que o sentisse.
E aos pés de Deus se derramou minha alma.
IX
Oh, que viesse o que não crê, comigo,
À vicejante Arrábida de noite,
E se assentasse aqui sobre estas fragas,
Escutando o sussurro incerto e triste
Das movediças ramas, que povoa
De saudade e de amor nocturna brisa;
Que visse a lua, o espaço opresso de astros,
E ouvisse o mar soando: – ele chorara,
Qual eu chorei, as lágrimas do gozo,
E, adorando o Senhor, detestaria
De uma ciência vã seu vão orgulho.
X
É aqui neste vale, ao qual não chega
Humana voz e o tumultuar das turbas,
Onde o nada da vida sonda livre
O coração, que busca ir abrigar-se
No futuro, e debaixo do amplo manto
Da piedade de Deus: aqui serena
Vem a imagem da campa, como a imagem
Da pátria ao desterrado; aqui, solene,
Brada a montanha, memorando a morte.
Essas penhas, que, lá no alto das serras
Nuas, crestadas, solitárias dormem,
Parecem imitar da sepultura
O aspecto melancólico e o repouso
Tão desejado do que em Deus confia.
Bem semelhante à paz. que se há sentado
Por séculos, ali, nas cordilheiras
É o silêncio do adro, onde reúnem
Os ciprestes e a Cruz, o Céu e a Terra.
Como tu vens cercado de esperança,
Para o inocente, ó plácido sepulcro!
Junto das tuas bordas pavorosas
O perverso recua horrorizado:
Após si volve os olhos; na existência
Deserto árido só descobre ao longe.
Onde a virtude não deixou um trilho.
Mas o justo, chegando à meta extrema,
Que separa de nós a eternidade,
Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta..
O infeliz e o feliz lá dormem ambos,
Tranquilamente: e o trovador mesquinho,
Que peregrino vagueou na Terra,
Sem encontrar um coração ardente
Que o entendesse, a pátria de seus sonhos,
Ignota, por lá busca; e quando as eras
Vierem junto às cinzas colocar-lhe
Tardios louros, que escondera a inveja,
Ele não erguerá a mão mirrada,
Para os cingir na regelada fronte.
Justiça, glória, amor, saudade, tudo,
An pé da sepultura, é som perdido
De harpa eólia esquecida em brenha ou selva:
O despertar um pai, que saboreia
Entre os bruços da morte o extremo sono,
Já não é dado ao filial suspiro;
Em vão o amante, ali, da amada sua
De rosas sobre a c'roa debruçado,
Rega de amargo pranto as murchas flores
E a fria pedra: a pedra é sempre fria.
E para sempre as flores se murcharam.
XI
Belo ermo!, eu hei-de amar-te enquanto esta alma,
Aspirando o futuro além da vida
E um hálito dos Céus, gemer atada
À coluna do exílio, a que se chama
Em língua vil e mentirosa o mundo.
Eu hei-de amar-te, ó vale, como um filho
Dos sonhos meus. A imagem do deserto
Guardá-la-ei no coração, bem junto
Com minha fé, meu único tesouro.
Qual pomposo jardim de verme ilustre,
Chamado rei ou nobre, há-de contigo
Comparar-se, ó deserto? Aqui não cresce
Em vaso de alabastro a flor cativa,
Ou árvore educada por mão de homem,
Que lhe diga: «És escrava», e erga um ferro
E lhe decepe os troncos. Como é livre
A vaga do oceano, é livre no ermo
A bonina rasteira ou freixo altivo!
Não lhes diz: «Nasce aqui, ou lá não cresças».
Humana voz. Se baqueou o freixo,
Deus o mandou: se a flor pendida murcha,
É que o rocio não desceu de noite,
E da vida o Senhor lhe nega a vida.
Céu livre, Terra livre, e livre a mente,
Paz íntima, e saudade, mas saudade
Que não dói, que não mirra, e que consola,
São as riquezas do ermo, onde sorriem
Das procelas do mundo os que o deixaram.
XII
Ali naquela encosta, ontem de noite,
Alvejava por entre os medronheiros
Do solitário a habitação tranquila:
E eu vagueei por lá. Patente estava
O pobre albergue do eremita humilde,
Onde jazia o filho da esperança
Sob as asas de Deus, à luz dos astros,
Em leito, duro sim, não de remorsos.
Oh, com quanto sossego o bom do velho
Dormia! A leve aragem lhe ondeava
As raras cãs na fronte, onde se lia
A bela história de passados anos.
De alto choupo através passava um raio
Da Lua – astro de paz, astro que chama
Os olhos para o céu, e a Deus a mente -
E em luz pálida as faces !he banhava:
E talvez neste raio o Pai celeste
Da pátria eterna, lhe enviava a imagem,
Que o sorriso dus lábios lhe fugia,
Como se um sonho de ventura e glória
Na Terra de antemão o consolasse.
E eu comparei o solitário obscuro
Ao inquieto filho das cidades:
Comparei o deserto silencioso
Ao perpétuo ruído que sussurra
Pelos palácios do abastado e nobre,
Pelos paços dos reis; e condoí-me
Do cortesão soberbo, que só cura
De honras, haveres, glória, que se compram
Com maldições e perenal remorso.
Glória! A sua qual é? Pelas campinas,
Cobertas de cadáveres, regadas
De negro sangue, ele segou seus louros;
Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva
Ao som do choro da viúva e do órfão;
Ou, dos sustos senhor, em seu delírio,
Os homens, seu irmãos, flagela e oprime.
Lá o filho do pó se julga um nume,
Porque a Terra o adorou; o desgraçado
Pensa, talvez, que o verme dos sepulcros
Nunca se há-de chegar para tragá-lo
Ao banquete da morte, imaginando
Que uma lájea de mármore, que esconde
O cadáver do grande, é mais durável
Do que esse chão sem inscrição, sem nome.
Por onde o opresso, o mísero, procura
O repouso, e se atira aos pés do trono
Do Omnipotente, a demandar justiça
Contra os fortes do mundo, os seus tiranos.
XIII
Ó cidade, cidade, que transbordas
De vícios, de paixões e de amarguras!
Tu lá estás, na tua pompa envolta,
Soberba prostituta, alardeando
Os teatros, e os paços, e o ruído
Das carroças dos nobres recamadas
De ouro e prata, e os prazeres de uma vida
Tempestuosa, e o tropear contínuo
Dos férvidos ginetes, que alevantam
O pó e o lodo cortesão das praças;
E as gerações corruptas de teus filhos
Lá se revolvem, qual montão de vermes
Sobre um cadáver pútrido! Cidade,
Branqueado sepulcro, que misturas
A opulência, a miséria, a dor e o gozo,
Honra e infâmia, pudor e impudícia
Céu e inferno, que és tu? Escárnio ou glória
Da humanidade? O que o souber que o diga!
Bem negra avulta aqui, na paz do vale,
A imagem desse povo, que reflui
Das moradas à rua, à praça, ao templo;
Que ri, e chora, folga, e geme, e morre,
Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;
Absurdo misto de baixeza extrema
E de extrema ousadia; vulto enorme,
Ora aos pés de um vil déspota estendido,
Ora surgindo, e arremessando ao nada
As memórias dos séculos que foram,
E depois sobre o nada adormecendo.
Vê-lo, rico de opróbrio, ir assentar-se
Em joelhos nos átrios dos tiranos.
Onde, entre o lampejar de armas de servos,
O servo popular adora um tigre ?
Esse tigre é o ídolo do povo!
Saudai-o; que ele o manda: abençoai-lhe
O férreo ceptro: ide folgar em roda
De cadafalsos, povoados sempre
De vítimas ilustres, cujo arranco
Seja como harmonia, que adormente
Em seus terrores o senhor das turbas.
Passai depois. Se a mão da Providência
Esmigalhou a fronte à tirania;
Se o déspota caiu, e está deitado
No lodaçal da sua infâmia, a turba
Lá vai buscar o ceptro dos terrores,
E diz: «É meu»; e assenta-se na praça,
E envolta em roto manto. e julga, e reina.
Se um ímpio, então, na afogueada boca
De vulcão popular sacode um facho,
Eis o incêndio que muge, e a lava sobe,
E referve, e trasborda, e se derrama
Pelas ruas além: clamor retumba
De anarquia impudente, e o brilho de armas
Pelo escuro transluz, como um presságio
De assolação, e se amontoam vagas
Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo;
Desse vulgo, que ao som de infernais hinos
Cava fundo da Pátria a sepultura,
Onde, abraçando a glória do passado
E do futuro a última esperança,
As esmaga consigo, e ri morrendo.
Tal és, cidade, licenciosa ou serva!
Outros louvem teus paços sumptuosos,
Teu ouro, teu poder: sentina impura
De corrupções, teus não serão meus hinos!
XIV
Cantor da solidão, vim assentar-me
Junto do verde céspede do vale,
E a paz de Deus do mundo me consola.
Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo,
Um pobre conventinho. Homem piedoso
O alevantou há séculos, passando,
Como orvalho do céu, por este sítio,
De virtudes depois tão rico e fértil.
Como um pai de seus filhos rodeado,
Pelos matos do outeiro o vão cercando
Os tugúrios de humildes eremitas,
Onde o cilício e a compunção apagam
Da lembrança de Deus passados erros
Do pecador, que reclinou a fronte
Penitente no pó. O sacerdote
Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;
E perdoou-lhe, e consolou-o em nome
Do que expirando perdoava, o Justo,
Que entre os humanos não achou piedade.
XV
Religião! do mísero conforto,
Abrigo extremo de alma, que há mirrado
O longo agonizar de uma saudade.
Da desonra, do exílio, ou da injustiça,
Tu consolas aquele, que ouve o Verbo.
Que renovou o corrompido mundo,
E que mil povos pouco a pouco ouviram.
Nobre, plebeu, dominador, ou servo,
O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,
Da desgraça no dia ajoelharam
No limiar do solitário templo.
Ao pé desse portal, que veste o musgo,
Encontrou-os chorando o sacerdote,
Que da serra descia à meia-noite,
Pelo sino das preces convocado:
Aí os viu ao despontar do dia,
Sob os raios do Sol, ainda chorando,
Passados meses, o burel grosseiro,
O leito de cortiça, e a fervorosa
E contínua oração foram cerrando
Nos corações dos míseros as chagas,
Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.
Aqui, depois, qual hálito suave.
Da Primavera, lhes correu a vida,
Até sumir-se no adro do convento,
Debaixo de uma lájea tosca e humilde,
Sem nome, nem palavra, que recorde
O que a terra abrigou no sono extremo.
Eremitério antigo, oh, se pudesses
Dos anos que lá vão contar a história;
Se ora, à voz do cantor, possível fosse
Transudar desse chão, gelado e mudo,
O mudo pranto, em noites dolorosas,
Por náufragos do mundo derramado
Sobre ele, e aos pés da Cruz!... Se vós pudésseis,
Broncas pedras, falar, o que diríeis!
Quantos nomes mimosos da ventura,
Convertidos em fábula das gentes.
Despertariam o eco das montanhas,
Se aos negros troncos do sobreiro antigo
Mandasse o Eterno sussurrar a história
Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,
Para um leito formar, onde velassem
Da mágoa, ou do remorso, as longas noites!
Aqui veio, talvez, buscar asilo
Um poderoso, outrora anjo da Terra,
Despenhado nas trevas do infortúnio;
Aqui gemeu, talvez, o amor traído,
Ou pela morte convertido em cancro
De infernal desespero; aqui soaram
Do arrependido os últimos gemidos,
Depois da vida derramada em gozos,
Depois do gozo convertido em tédio.
Mas quem foram? Nenhum, depondo em terra
Vestidura mortal, deixou vestígios
De seu breve passar. E isso que importa,
Se Deus o viu; se as lágrimas do triste
Ele contou, para as pagar com glória?
XVI
Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda
Que serpeia do monte ao fundo vale,
Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,
Como um farol de vida em mar de escolhos:
Ao cristão infeliz acolhe no ermo.
E consolando-o, diz-lhe: «A pátria tua
É lá no Céu: abraça-te comigo.»
Junto dela esses homens, que passaram
Acurvados na dor, as mãos ergueram
Para o Deus, que perdoa, e que é conforto
Dos que aos pés deste símbolo da esp'rança
Vêm derramar seu coração aflito:
É do deserto a história, a cruz e a campa;
E sobre tudo o mais pousa o silêncio.
XVII
Feliz da Terra, os monges não maldigas;
Do que em Deus confiou não escarneças:
Folgando segue a trilha, que há juncado,
Para teus pés, de flores a fortuna.
E sobre a morta crença em paz descansa.
Que mal te faz. Que gozo vai roubar-te
O que ensanguenta os pés no tojo agreste,
E sobre a fria pedra encosta a fronte?
Que mal te faz uma oração erguida,
Nas solidões, por voz sumida e frouxa,
E que, subindo aos Céus, só Deus escuta?
Oh, não insultes lágrimas alheias,
E deixa a fé ao que não tem mais nada!...
E se estes versos te contristam, rasga-os.
Teus menestréis te venderão seus hinos,
Nos banquetes opíparos, enquanto
O negro pão repartirá comigo,
Seu trovador, o pobre anacoreta,
Que não te inveja as ditas, como as c'roas
Do prazer ao cantor eu não invejo;
Tristes coroas, sob as quais às vezes
Está gravada uma inscrição d'infâmia.
1 572
João Cabral de Melo Neto
A Joaquim Cardozo
Com teus sapatos de borracha
seguramente
é que os seres pisam
no fundo das águas.
Encontraste algum dia
sobre a terra
o fundo do mar,
o tempo marinho e calmo?
Tuas refeições de peixe;
teus nomes
femininos: Mariana; teu verso
medido pelas ondas;
a cidade que não consegues
esquecer
aflorada no mar: Recife,
arrecifes, marés, maresias;
e marinha ainda a arquitetura
que calculaste:
tantos sinais da marítima nostalgia
que te fez lento e longo
(O engenheiro, 1942-1945)
seguramente
é que os seres pisam
no fundo das águas.
Encontraste algum dia
sobre a terra
o fundo do mar,
o tempo marinho e calmo?
Tuas refeições de peixe;
teus nomes
femininos: Mariana; teu verso
medido pelas ondas;
a cidade que não consegues
esquecer
aflorada no mar: Recife,
arrecifes, marés, maresias;
e marinha ainda a arquitetura
que calculaste:
tantos sinais da marítima nostalgia
que te fez lento e longo
(O engenheiro, 1942-1945)
1 103
Stéphane Mallarmé
Tristeza de verão
O sol, na areia, aquece, ó brava adormecida,
O ouro da tua coma em banho langoroso,
Queimando o seu incenso em tua face aguerrida,
E mistura aos teus prantos um filtro amoroso.
Desse branco fulgor a imóvel calmaria
Te faz dizer, dolente, ó carícias discretas,
‘Jamais nós dois seremos uma múmia fria
Sob o antigo deserto e as palmeiras eretas!’
Porém os teus cabelos, rio morno, imploram
Para afogar sem medo a nossa alma triste
E encontrar esse Nada que em teu ser não medra.
Degustarei o bistre que teus cílios choram
Para ver se ele doa àquele que feriste
A insensibilidade do azul e da pedra.
(Stéphane Mallarmé, 1864, trad. Augusto de Campos)
O ouro da tua coma em banho langoroso,
Queimando o seu incenso em tua face aguerrida,
E mistura aos teus prantos um filtro amoroso.
Desse branco fulgor a imóvel calmaria
Te faz dizer, dolente, ó carícias discretas,
‘Jamais nós dois seremos uma múmia fria
Sob o antigo deserto e as palmeiras eretas!’
Porém os teus cabelos, rio morno, imploram
Para afogar sem medo a nossa alma triste
E encontrar esse Nada que em teu ser não medra.
Degustarei o bistre que teus cílios choram
Para ver se ele doa àquele que feriste
A insensibilidade do azul e da pedra.
(Stéphane Mallarmé, 1864, trad. Augusto de Campos)
1 702
Edmir Domingues
soneto XXXII - São catorze
Há príncipes deitados sobre a areia,
olhares tristes, bocas ofegantes.
São catorze, buscando a noite feia,
e deixando a chorar catorze amantes.
Loucos são, mais que loucos, inconstantes,
por trocarem castelos por aldeia,
até que tragam ventos navegantes
o barco de marfim da lua cheia.
O vento traz sabores de invernada,
e os príncipes, deitados sobre a estrada,
banham-se em frustração que os acompanha.
Pois vestindo-se em múltipla importância
não puderam reter a antiga infância
e perderam-se um dia, ante a montanha.
olhares tristes, bocas ofegantes.
São catorze, buscando a noite feia,
e deixando a chorar catorze amantes.
Loucos são, mais que loucos, inconstantes,
por trocarem castelos por aldeia,
até que tragam ventos navegantes
o barco de marfim da lua cheia.
O vento traz sabores de invernada,
e os príncipes, deitados sobre a estrada,
banham-se em frustração que os acompanha.
Pois vestindo-se em múltipla importância
não puderam reter a antiga infância
e perderam-se um dia, ante a montanha.
581
Edmir Domingues
soneto XXXII - São catorze
Há príncipes deitados sobre a areia,
olhares tristes, bocas ofegantes.
São catorze, buscando a noite feia,
e deixando a chorar catorze amantes.
Loucos são, mais que loucos, inconstantes,
por trocarem castelos por aldeia,
até que tragam ventos navegantes
o barco de marfim da lua cheia.
O vento traz sabores de invernada,
e os príncipes, deitados sobre a estrada,
banham-se em frustração que os acompanha.
Pois vestindo-se em múltipla importância
não puderam reter a antiga infância
e perderam-se um dia, ante a montanha.
olhares tristes, bocas ofegantes.
São catorze, buscando a noite feia,
e deixando a chorar catorze amantes.
Loucos são, mais que loucos, inconstantes,
por trocarem castelos por aldeia,
até que tragam ventos navegantes
o barco de marfim da lua cheia.
O vento traz sabores de invernada,
e os príncipes, deitados sobre a estrada,
banham-se em frustração que os acompanha.
Pois vestindo-se em múltipla importância
não puderam reter a antiga infância
e perderam-se um dia, ante a montanha.
581
Airas Nunes
Bailia das avelaneiras
Bailemos nós já todas três, ai amigas,
sô aquestas avelaneiras frolidas;
e quen for velida, como nós, velidas,se amigo amar,
sô aquestas avelaneiras frolidasverrá bailar.
Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
sô aqueste ramo destas avelanas;
e quen for louçana, como nós, louçanasse amigo amar,
sô aqueste ramo destas avelanasverrá bailar.
Por Deus, ai amigas, mentr’al non fazemos,
sô aqueste ramo frolido bailemos;
e quen ben parecer, como nós parecemos,se amigo amar,
sô aqueste ramo sô-l’ que nós bailemosverrá bailar.
sô aquestas avelaneiras frolidas;
e quen for velida, como nós, velidas,se amigo amar,
sô aquestas avelaneiras frolidasverrá bailar.
Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
sô aqueste ramo destas avelanas;
e quen for louçana, como nós, louçanasse amigo amar,
sô aqueste ramo destas avelanasverrá bailar.
Por Deus, ai amigas, mentr’al non fazemos,
sô aqueste ramo frolido bailemos;
e quen ben parecer, como nós parecemos,se amigo amar,
sô aqueste ramo sô-l’ que nós bailemosverrá bailar.
1 202
João Cabral de Melo Neto
O Fim do Mundo
No fim de um mundo melancólico
os homens lêem jornais
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol
Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.
O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.
os homens lêem jornais
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol
Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.
O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.
1 175
João Cabral de Melo Neto
O Fim do Mundo
No fim de um mundo melancólico
os homens lêem jornais
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol
Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.
O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.
os homens lêem jornais
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol
Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.
O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.
1 175
Edmir Domingues
soneto XXIX - Olhos de espantalho
E então fez-se de trunfo um sonho falho
gerado sob os ventos das bonanças,
mas foi tema das novas contradanças
toda a idéia de morno e de agasalho.
De nada então valeram neve e orvalho
em peso sobre as velhas esperanças,
quando toda a ternura das crianças
dançava em nossos olhos de espantalho.
E anjos verdes, e arcanjos amarelos,
foram buscar o canto em violoncelos
e atabaques até de mitos mestos.
E assim foram milagre as nossas túnicas
feitas de palha e luz, tornadas únicas
por nossas invenções e nossos gestos.
gerado sob os ventos das bonanças,
mas foi tema das novas contradanças
toda a idéia de morno e de agasalho.
De nada então valeram neve e orvalho
em peso sobre as velhas esperanças,
quando toda a ternura das crianças
dançava em nossos olhos de espantalho.
E anjos verdes, e arcanjos amarelos,
foram buscar o canto em violoncelos
e atabaques até de mitos mestos.
E assim foram milagre as nossas túnicas
feitas de palha e luz, tornadas únicas
por nossas invenções e nossos gestos.
525
Edmir Domingues
Soneto quase social
E eu tomei porque noite se fazia
as subnutridas mãos dos meus amigos,
saímos a um país de ventania,
os sentimentos falhos quando antigos.
A nós não nos falassem de perigos
que era inútil que mais por sempre havia,
não valendo dizer quanto a castigos
quando há fome e onde a voz se faz por fria.
Éramos magros como Dom Quixotes
foragidos de livros e dialéticas,
guardando a Lua em bolsos carcomidos.
Qual fazíamos antes meninotes
num tempo de repouso e de patéticas
cantigas que ainda o são junto aos ouvidos.
as subnutridas mãos dos meus amigos,
saímos a um país de ventania,
os sentimentos falhos quando antigos.
A nós não nos falassem de perigos
que era inútil que mais por sempre havia,
não valendo dizer quanto a castigos
quando há fome e onde a voz se faz por fria.
Éramos magros como Dom Quixotes
foragidos de livros e dialéticas,
guardando a Lua em bolsos carcomidos.
Qual fazíamos antes meninotes
num tempo de repouso e de patéticas
cantigas que ainda o são junto aos ouvidos.
568
Edmir Domingues
Soneto quase social
E eu tomei porque noite se fazia
as subnutridas mãos dos meus amigos,
saímos a um país de ventania,
os sentimentos falhos quando antigos.
A nós não nos falassem de perigos
que era inútil que mais por sempre havia,
não valendo dizer quanto a castigos
quando há fome e onde a voz se faz por fria.
Éramos magros como Dom Quixotes
foragidos de livros e dialéticas,
guardando a Lua em bolsos carcomidos.
Qual fazíamos antes meninotes
num tempo de repouso e de patéticas
cantigas que ainda o são junto aos ouvidos.
as subnutridas mãos dos meus amigos,
saímos a um país de ventania,
os sentimentos falhos quando antigos.
A nós não nos falassem de perigos
que era inútil que mais por sempre havia,
não valendo dizer quanto a castigos
quando há fome e onde a voz se faz por fria.
Éramos magros como Dom Quixotes
foragidos de livros e dialéticas,
guardando a Lua em bolsos carcomidos.
Qual fazíamos antes meninotes
num tempo de repouso e de patéticas
cantigas que ainda o são junto aos ouvidos.
568