Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Neide Archanjo
41 [A cidade nunca me cansou, Quixote
A cidade nunca me cansou, Quixote,
apenas me confundiu
quando se espalhou pelas marginais,
empurrou o rio
e saiu do outro lado do mundo.
Gostaria que ela fosse
a cidade de Oswald de Andrade, o sátiro,
e as tardes limpas do rio Tietê
e os passeios de Cadillac pelo Paraíso.
Esta é a rua Mauá.
O trem ali embaixo
não dá vontade de partir,
porque sinto que nenhuma viagem,
nenhuma outra vida,
nenhuma outra forma de vida,
mudaria a vida,
este estado definitivo e morno
de todas as coisas.
Por isso vou, volto, reflito.
E tenho medo.
In: ARCHANJO, Neide. Quixote largo e foxtrote. São Paulo: Ed. do Escritor, 1975
apenas me confundiu
quando se espalhou pelas marginais,
empurrou o rio
e saiu do outro lado do mundo.
Gostaria que ela fosse
a cidade de Oswald de Andrade, o sátiro,
e as tardes limpas do rio Tietê
e os passeios de Cadillac pelo Paraíso.
Esta é a rua Mauá.
O trem ali embaixo
não dá vontade de partir,
porque sinto que nenhuma viagem,
nenhuma outra vida,
nenhuma outra forma de vida,
mudaria a vida,
este estado definitivo e morno
de todas as coisas.
Por isso vou, volto, reflito.
E tenho medo.
In: ARCHANJO, Neide. Quixote largo e foxtrote. São Paulo: Ed. do Escritor, 1975
1 101
Eunice Arruda
Outra Dúvida
Não sei se é
amor
ou
minha vida que pede
socorro
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
amor
ou
minha vida que pede
socorro
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
976
Eunice Arruda
Outra Dúvida
Não sei se é
amor
ou
minha vida que pede
socorro
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
amor
ou
minha vida que pede
socorro
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
976
Eunice Arruda
Predição
Fazer da
busca o
ideal
Rasgar o ventre de
todas as noites
para encontrar
aurora
O que não somos hoje
é o que há de nos
esmagar
amanhã
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
busca o
ideal
Rasgar o ventre de
todas as noites
para encontrar
aurora
O que não somos hoje
é o que há de nos
esmagar
amanhã
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
1 029
Frederico Barbosa
Effort F For Fake, 1981
não sendo muitos, eu
não vejo possibilidade de
escape.
nego.
possibilidade de
escape.
não sendo muitos, eu
nego.
não vejo
possibilidade de
não sendo muitos, eu
escape.
não vejo
nego.
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 1 - A Consciência do Zero
não vejo possibilidade de
escape.
nego.
possibilidade de
escape.
não sendo muitos, eu
nego.
não vejo
possibilidade de
não sendo muitos, eu
escape.
não vejo
nego.
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 1 - A Consciência do Zero
1 172
Frederico Barbosa
Effort F For Fake, 1981
não sendo muitos, eu
não vejo possibilidade de
escape.
nego.
possibilidade de
escape.
não sendo muitos, eu
nego.
não vejo
possibilidade de
não sendo muitos, eu
escape.
não vejo
nego.
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 1 - A Consciência do Zero
não vejo possibilidade de
escape.
nego.
possibilidade de
escape.
não sendo muitos, eu
nego.
não vejo
possibilidade de
não sendo muitos, eu
escape.
não vejo
nego.
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 1 - A Consciência do Zero
1 172
Ulisses Tavares
Refazendo
para Léia Cardenuto
a ausência do soco
reforça o punho,
a falta do chicote
atiça o domador,
a despensa vazia
aguça a língua,
a supressão da palavra
aviva o discurso,
a imprevisão do certo
devolve o inexorável,
a abstração do corpo
prepara o repartir,
a descoloração da rosa
reintegra a paisagem,
a andança no charco
redescobre a terra firme,
a pororoca do medo
desperta a coragem,
a recusa da garrafa
retorna o vinho,
a cortada do caule
reforça a raiz,
a supressão do canto
reinventa o verso,
a despedida do vôo
refaz o arremesso,
a solidão aberta
reescreve o amor.
In: TAVARES, Ulisses. Pega gente. 2.ed. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1978. p.45. (Colecão PF)
NOTA: No livro PULSO (1995), os versos "a falta do chicote/atiça o domador", foram alterados para "a falta de caça/atiça o tigre"; o verso "a cortada do caule" foi alterado para "o corte do caule
a ausência do soco
reforça o punho,
a falta do chicote
atiça o domador,
a despensa vazia
aguça a língua,
a supressão da palavra
aviva o discurso,
a imprevisão do certo
devolve o inexorável,
a abstração do corpo
prepara o repartir,
a descoloração da rosa
reintegra a paisagem,
a andança no charco
redescobre a terra firme,
a pororoca do medo
desperta a coragem,
a recusa da garrafa
retorna o vinho,
a cortada do caule
reforça a raiz,
a supressão do canto
reinventa o verso,
a despedida do vôo
refaz o arremesso,
a solidão aberta
reescreve o amor.
In: TAVARES, Ulisses. Pega gente. 2.ed. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1978. p.45. (Colecão PF)
NOTA: No livro PULSO (1995), os versos "a falta do chicote/atiça o domador", foram alterados para "a falta de caça/atiça o tigre"; o verso "a cortada do caule" foi alterado para "o corte do caule
1 950
Rubens Rodrigues Torres Filho
Circunflexo
O vôo circunflexo de uma ave,
ponto de exclamação e convergência
de um olhar mais que nítido: vazado.
(— E, transpassada por um vento externo e interno,
a praça, com janelas para a praça.)
Deixamos de esperar que alguma dança
perdoe nosso espaço alucinado.
O desenho dos gestos se extravia,
a dor se agrava, grava em nós seu mapa.
Pouco faltou para que nosso invento
tivesse sopro, fosse além do traço:
navegação, mais rápida que a barca,
ia tecendo sua própria água.
As linhas, uma a uma, caem mortas
diante desta manhã, trava, aguçada
pelas doces palavras
desarmadas.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1
ponto de exclamação e convergência
de um olhar mais que nítido: vazado.
(— E, transpassada por um vento externo e interno,
a praça, com janelas para a praça.)
Deixamos de esperar que alguma dança
perdoe nosso espaço alucinado.
O desenho dos gestos se extravia,
a dor se agrava, grava em nós seu mapa.
Pouco faltou para que nosso invento
tivesse sopro, fosse além do traço:
navegação, mais rápida que a barca,
ia tecendo sua própria água.
As linhas, uma a uma, caem mortas
diante desta manhã, trava, aguçada
pelas doces palavras
desarmadas.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1
1 764
Cruz e Sousa
Asas Abertas
As asas da minh'alma estão abertas!
Podes te agasalhar no meu Carinho,
Abrigar-te de frios no meu Ninho
Com as tuas asas trêmulas, incertas.
Tu'alma lembra vastidões desertas
Onde tudo é gelado e é só espinho.
Mas na minh'alma encontrarás o Vinho
e as graças todas do Conforto certas.
Vem! Há em mim o eterno Amor imenso
Que vai tudo florindo e fecundando
E sobe aos céus como sagrado incenso.
Eis a minh'alma, as asas palpitando
Com a saudade de agitado lenço
O segredo dos longes procurando...
Publicado no livro Últimos sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e notas Adriano da Gama Kury. Est. liter. Julio Castañon Guimarães. 2.ed. Florianópolis: Ed. da UFSC: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 198
Podes te agasalhar no meu Carinho,
Abrigar-te de frios no meu Ninho
Com as tuas asas trêmulas, incertas.
Tu'alma lembra vastidões desertas
Onde tudo é gelado e é só espinho.
Mas na minh'alma encontrarás o Vinho
e as graças todas do Conforto certas.
Vem! Há em mim o eterno Amor imenso
Que vai tudo florindo e fecundando
E sobe aos céus como sagrado incenso.
Eis a minh'alma, as asas palpitando
Com a saudade de agitado lenço
O segredo dos longes procurando...
Publicado no livro Últimos sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e notas Adriano da Gama Kury. Est. liter. Julio Castañon Guimarães. 2.ed. Florianópolis: Ed. da UFSC: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 198
2 690
Cruz e Sousa
Asas Abertas
As asas da minh'alma estão abertas!
Podes te agasalhar no meu Carinho,
Abrigar-te de frios no meu Ninho
Com as tuas asas trêmulas, incertas.
Tu'alma lembra vastidões desertas
Onde tudo é gelado e é só espinho.
Mas na minh'alma encontrarás o Vinho
e as graças todas do Conforto certas.
Vem! Há em mim o eterno Amor imenso
Que vai tudo florindo e fecundando
E sobe aos céus como sagrado incenso.
Eis a minh'alma, as asas palpitando
Com a saudade de agitado lenço
O segredo dos longes procurando...
Publicado no livro Últimos sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e notas Adriano da Gama Kury. Est. liter. Julio Castañon Guimarães. 2.ed. Florianópolis: Ed. da UFSC: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 198
Podes te agasalhar no meu Carinho,
Abrigar-te de frios no meu Ninho
Com as tuas asas trêmulas, incertas.
Tu'alma lembra vastidões desertas
Onde tudo é gelado e é só espinho.
Mas na minh'alma encontrarás o Vinho
e as graças todas do Conforto certas.
Vem! Há em mim o eterno Amor imenso
Que vai tudo florindo e fecundando
E sobe aos céus como sagrado incenso.
Eis a minh'alma, as asas palpitando
Com a saudade de agitado lenço
O segredo dos longes procurando...
Publicado no livro Últimos sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e notas Adriano da Gama Kury. Est. liter. Julio Castañon Guimarães. 2.ed. Florianópolis: Ed. da UFSC: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 198
2 690
Alberto da Costa e Silva
Outro Adeus
Sob o teto e a ferrugem
do mercado, em Fortaleza,
ele tocava a rabeca
e era cego. Tocava
com a cabeça inclinada,
esta mesma que vejo
na fieira de músicos
sobre a porta da igreja
larga e ocre de Sória,
os mesmos pés descalços
e chagados na pedra,
e a voz que me chega,
baixa, rouca, irritante,
toda sujo e pobreza.
Como dizer a outrem
o que está no meu sangue?
Que levei ao curral
os corcéis de Patroclo
e deitei minha nuca
sobre um colo de espinhos?
Mas, em Medinaceli,
Alberca e entardeceres,
senti o mesmo cheiro
de palha, urina e pêlo
de um jumento suado
sob o sol de Sobral
e o rancor da saudade
e a saudade sonhada.
Por que reparo tanto
em cada coisa, atento
ao poro, ao grão, ao risco,
ao veio, à sombra e ao brilho?
Para me amanhecer.
E não ter, à distância
de outro chão e outra luz,
esta carne. Contemplo
o cego e o céu do tempo:
um odor de farelo
repousa a servidão
deste corpo em que perco
o que em nós há de encontro
entre o ausente e o eterno.
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
do mercado, em Fortaleza,
ele tocava a rabeca
e era cego. Tocava
com a cabeça inclinada,
esta mesma que vejo
na fieira de músicos
sobre a porta da igreja
larga e ocre de Sória,
os mesmos pés descalços
e chagados na pedra,
e a voz que me chega,
baixa, rouca, irritante,
toda sujo e pobreza.
Como dizer a outrem
o que está no meu sangue?
Que levei ao curral
os corcéis de Patroclo
e deitei minha nuca
sobre um colo de espinhos?
Mas, em Medinaceli,
Alberca e entardeceres,
senti o mesmo cheiro
de palha, urina e pêlo
de um jumento suado
sob o sol de Sobral
e o rancor da saudade
e a saudade sonhada.
Por que reparo tanto
em cada coisa, atento
ao poro, ao grão, ao risco,
ao veio, à sombra e ao brilho?
Para me amanhecer.
E não ter, à distância
de outro chão e outra luz,
esta carne. Contemplo
o cego e o céu do tempo:
um odor de farelo
repousa a servidão
deste corpo em que perco
o que em nós há de encontro
entre o ausente e o eterno.
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
1 483
Tomás Antônio Gonzaga
Lira V
Eu não sou, minha Nise, pegureiro,
que viva de guardar alheio gado;
nem sou pastor grosseiro,
dos frios gelos e do Sol queimado,
que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
A Cresso não igualo no tesouro;
mas deu-me a sorte com que honrado viva.
Não cinjo coroa d'ouro;
mas Povos mando, e na testa altiva
verdeja a Coroa do Sagrado Louro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Maldito seja aquele, que só trata
de contar, escondido, a vil riqueza,
que, cego, se arrebata
em buscar nos Avós a vã nobreza,
com que aos mais homens, seus iguais, abata.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
As fortunas, que em torno de mim vejo,
por falsos bens, que enganam, não reputo;
mas antes mais desejo:
não para me voltar soberbo em bruto,
por ver-me grande, quando a mão te beijo.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pela Ninfa, que jaz vertida em Louro,
o grande Deus Apolo não delira?
Jove, mudado em Touro
e já mudado em velha não suspira?
Seguir aos Deuses nunca foi desdouro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pretendam Anibais honrar a História,
e cinjam com a mão, de sangue cheia,
os louros da vitória;
eu revolvo os teus dons na minha idéia:
só dons que vêm do céu são minha glória
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Publicado no livro Marília de Dirceu: Terceira Parte (1812).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
que viva de guardar alheio gado;
nem sou pastor grosseiro,
dos frios gelos e do Sol queimado,
que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
A Cresso não igualo no tesouro;
mas deu-me a sorte com que honrado viva.
Não cinjo coroa d'ouro;
mas Povos mando, e na testa altiva
verdeja a Coroa do Sagrado Louro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Maldito seja aquele, que só trata
de contar, escondido, a vil riqueza,
que, cego, se arrebata
em buscar nos Avós a vã nobreza,
com que aos mais homens, seus iguais, abata.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
As fortunas, que em torno de mim vejo,
por falsos bens, que enganam, não reputo;
mas antes mais desejo:
não para me voltar soberbo em bruto,
por ver-me grande, quando a mão te beijo.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pela Ninfa, que jaz vertida em Louro,
o grande Deus Apolo não delira?
Jove, mudado em Touro
e já mudado em velha não suspira?
Seguir aos Deuses nunca foi desdouro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pretendam Anibais honrar a História,
e cinjam com a mão, de sangue cheia,
os louros da vitória;
eu revolvo os teus dons na minha idéia:
só dons que vêm do céu são minha glória
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Publicado no livro Marília de Dirceu: Terceira Parte (1812).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
3 892
Gregório de Matos
Novas do Mundo
França está mui doente das ilhargas,
Inglaterra tem dores de cabeça,
Purga-se Holanda, e temo lhe aconteça
Ficar debilitada com descargas.
Alemanha lhe aplica ervas amargas,
Botões de fogo, com que convaleça.
Espanha não lhe dá, que este mal cresça.
Portugal tem saúde e forças largas.
Morre Constantinopla, está ungida.
Veneza engorda, e toma forças dobres,
Roma está bem, e toda a Igreja boa.
Europa anda de humores mal regida.
Na América arribaram muitos pobres.
Estas as novas são, que há de Lisboa.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Botão de fogo: instrumento cirúrgico com um botão de aço que se aquece para cauteriza
Inglaterra tem dores de cabeça,
Purga-se Holanda, e temo lhe aconteça
Ficar debilitada com descargas.
Alemanha lhe aplica ervas amargas,
Botões de fogo, com que convaleça.
Espanha não lhe dá, que este mal cresça.
Portugal tem saúde e forças largas.
Morre Constantinopla, está ungida.
Veneza engorda, e toma forças dobres,
Roma está bem, e toda a Igreja boa.
Europa anda de humores mal regida.
Na América arribaram muitos pobres.
Estas as novas são, que há de Lisboa.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Botão de fogo: instrumento cirúrgico com um botão de aço que se aquece para cauteriza
1 821
Max Martins
Um Rosto Soletrado
Traço
do meu gozo aos gozos de Anaiz — Joana
Arcanjo
de Laarcen
os lábios desta jaula:
Teu nome de amargura me instrumenta
funda o que me escreve e nego transferindo-me
dos jardins de mim ao resto de tuas frases
Aprendiz das folhas, úmido, o musgo mostra
olha
o texto amado, o rosto soletrado
o frio silêncio tátil duvidando-nos
E quem sou eu para guardar os ecos
o cheiro agudo e bárbaro de tua vulva
o formigueiro?
Oh égua aveludada — juventude
arranca de meu beijo este saber, sabor de cinzas!
O silêncio invulnerável de dois insetos copulando
(e que inversamente é crespo neste leito)
colhe
da maciez de um seio, o gume, a jóia de uma fresta,
a flama
e a sombra rente, rápida do olhar: frutos sobre a mesa
fartos
e opulentos de silêncio
apodrecendo
Publicado no livro Caminho de Marahu (1983).
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. p.116-117. (Verso & reverso, 2
do meu gozo aos gozos de Anaiz — Joana
Arcanjo
de Laarcen
os lábios desta jaula:
Teu nome de amargura me instrumenta
funda o que me escreve e nego transferindo-me
dos jardins de mim ao resto de tuas frases
Aprendiz das folhas, úmido, o musgo mostra
olha
o texto amado, o rosto soletrado
o frio silêncio tátil duvidando-nos
E quem sou eu para guardar os ecos
o cheiro agudo e bárbaro de tua vulva
o formigueiro?
Oh égua aveludada — juventude
arranca de meu beijo este saber, sabor de cinzas!
O silêncio invulnerável de dois insetos copulando
(e que inversamente é crespo neste leito)
colhe
da maciez de um seio, o gume, a jóia de uma fresta,
a flama
e a sombra rente, rápida do olhar: frutos sobre a mesa
fartos
e opulentos de silêncio
apodrecendo
Publicado no livro Caminho de Marahu (1983).
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. p.116-117. (Verso & reverso, 2
1 438
Gregório de Matos
Descreve a Vida Escolástica
Mancebo sem dinheiro, bom barrete,
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato,
Cabelo penteado, bom topete.
Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia ao Moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete.
A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, sátira elegante.
Cartinhas de trocado para a Freira,
Comer boi, ser Quixote com as Damas,
Pouco estudo, isto é ser estudante.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato,
Cabelo penteado, bom topete.
Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia ao Moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete.
A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, sátira elegante.
Cartinhas de trocado para a Freira,
Comer boi, ser Quixote com as Damas,
Pouco estudo, isto é ser estudante.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
6 312
Raimundo Correia
Epístola ao Bardo Muniz
Cala-te, esdrúxulo lírico;
Teu estro é bandulho hidrópico!
Olha as garras de um satírico!
Cala-te, esdrúxulo lírico!
Teu verso ao leitor empírico
Fere de tópico em tópico...
Cala-te, esdrúxulo lírico;
Teu estro é bandulho hidrópico!
(...)
Nos teus preitos esquipáticos
Citas tanto bardo, — Hipócrates!
Citas autores dramáticos
Nos teus preitos esquipáticos
Citas talentos simpáticos!
Citas Camões! Citas Sócrates!
Nos teus preitos esquipáticos
Citas tanto bardo, — Hipócrates!
Muniz! tu causas-nos cólicas!
Erudito de catálogos!
Pondo as almas melancólicas,
Muniz! tu causas-nos cólicas!
Faze antes canções bucólicas,
Mas nunca preitos análogos!
Muniz! tu causas-nos cólicas
Erudito de catálogos!
Deita antes verso byrônico,
Mas, rápido, a velocípede...
Sê ferino, sê irônico!
Deita antes verso byrônico!
Que diabo! Isso é vício crônico!
Espanta que sejas bípede!
Deita antes verso byrônico,
Mas, rápido, a velocípede...
Larga essa lira caquética!
Ouve! e desculpa esta epístola!
Ó professor de dialética!
Larga essa lira caquética!
Porque antes não curas ética,
Pústula, escrófula e fístula!
Larga essa lira caquética!
Ouve! e desculpa esta epístola!
Poema integrante da série Poesias Avulsas.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo. Ed. Nacional, 1948. v.2, p.354-356
Teu estro é bandulho hidrópico!
Olha as garras de um satírico!
Cala-te, esdrúxulo lírico!
Teu verso ao leitor empírico
Fere de tópico em tópico...
Cala-te, esdrúxulo lírico;
Teu estro é bandulho hidrópico!
(...)
Nos teus preitos esquipáticos
Citas tanto bardo, — Hipócrates!
Citas autores dramáticos
Nos teus preitos esquipáticos
Citas talentos simpáticos!
Citas Camões! Citas Sócrates!
Nos teus preitos esquipáticos
Citas tanto bardo, — Hipócrates!
Muniz! tu causas-nos cólicas!
Erudito de catálogos!
Pondo as almas melancólicas,
Muniz! tu causas-nos cólicas!
Faze antes canções bucólicas,
Mas nunca preitos análogos!
Muniz! tu causas-nos cólicas
Erudito de catálogos!
Deita antes verso byrônico,
Mas, rápido, a velocípede...
Sê ferino, sê irônico!
Deita antes verso byrônico!
Que diabo! Isso é vício crônico!
Espanta que sejas bípede!
Deita antes verso byrônico,
Mas, rápido, a velocípede...
Larga essa lira caquética!
Ouve! e desculpa esta epístola!
Ó professor de dialética!
Larga essa lira caquética!
Porque antes não curas ética,
Pústula, escrófula e fístula!
Larga essa lira caquética!
Ouve! e desculpa esta epístola!
Poema integrante da série Poesias Avulsas.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo. Ed. Nacional, 1948. v.2, p.354-356
1 523
Raimundo Correia
Epístola ao Bardo Muniz
Cala-te, esdrúxulo lírico;
Teu estro é bandulho hidrópico!
Olha as garras de um satírico!
Cala-te, esdrúxulo lírico!
Teu verso ao leitor empírico
Fere de tópico em tópico...
Cala-te, esdrúxulo lírico;
Teu estro é bandulho hidrópico!
(...)
Nos teus preitos esquipáticos
Citas tanto bardo, — Hipócrates!
Citas autores dramáticos
Nos teus preitos esquipáticos
Citas talentos simpáticos!
Citas Camões! Citas Sócrates!
Nos teus preitos esquipáticos
Citas tanto bardo, — Hipócrates!
Muniz! tu causas-nos cólicas!
Erudito de catálogos!
Pondo as almas melancólicas,
Muniz! tu causas-nos cólicas!
Faze antes canções bucólicas,
Mas nunca preitos análogos!
Muniz! tu causas-nos cólicas
Erudito de catálogos!
Deita antes verso byrônico,
Mas, rápido, a velocípede...
Sê ferino, sê irônico!
Deita antes verso byrônico!
Que diabo! Isso é vício crônico!
Espanta que sejas bípede!
Deita antes verso byrônico,
Mas, rápido, a velocípede...
Larga essa lira caquética!
Ouve! e desculpa esta epístola!
Ó professor de dialética!
Larga essa lira caquética!
Porque antes não curas ética,
Pústula, escrófula e fístula!
Larga essa lira caquética!
Ouve! e desculpa esta epístola!
Poema integrante da série Poesias Avulsas.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo. Ed. Nacional, 1948. v.2, p.354-356
Teu estro é bandulho hidrópico!
Olha as garras de um satírico!
Cala-te, esdrúxulo lírico!
Teu verso ao leitor empírico
Fere de tópico em tópico...
Cala-te, esdrúxulo lírico;
Teu estro é bandulho hidrópico!
(...)
Nos teus preitos esquipáticos
Citas tanto bardo, — Hipócrates!
Citas autores dramáticos
Nos teus preitos esquipáticos
Citas talentos simpáticos!
Citas Camões! Citas Sócrates!
Nos teus preitos esquipáticos
Citas tanto bardo, — Hipócrates!
Muniz! tu causas-nos cólicas!
Erudito de catálogos!
Pondo as almas melancólicas,
Muniz! tu causas-nos cólicas!
Faze antes canções bucólicas,
Mas nunca preitos análogos!
Muniz! tu causas-nos cólicas
Erudito de catálogos!
Deita antes verso byrônico,
Mas, rápido, a velocípede...
Sê ferino, sê irônico!
Deita antes verso byrônico!
Que diabo! Isso é vício crônico!
Espanta que sejas bípede!
Deita antes verso byrônico,
Mas, rápido, a velocípede...
Larga essa lira caquética!
Ouve! e desculpa esta epístola!
Ó professor de dialética!
Larga essa lira caquética!
Porque antes não curas ética,
Pústula, escrófula e fístula!
Larga essa lira caquética!
Ouve! e desculpa esta epístola!
Poema integrante da série Poesias Avulsas.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo. Ed. Nacional, 1948. v.2, p.354-356
1 523
Walmir Ayala
Ciclo
III (passeio)
Passeamos corpo a corpo
com muitos segredos impedidos
e muitos medos, muitas águas
nos imaturos vestidos.
Muitas águas que não secam,
de prantos desprevenidos.
(Passeamos corpo a corpo,
confusos, desentendidos).
Havia entre nós a caixa
que um anjo prendia nos dedos,
por isso necessitávamos
da precaução de tais medos.
E este era o caminho certo
do meu descanso, do meu triste
coração claro e deserto
que junto às águas repartiste.
Junto àquelas mesmas águas
que te afogaram
mas não viste.
Publicado no livro Cantata (1966). Poema integrante da série Os Espinhos da Noite.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.239-242
NOTA: Poema dividido em 4 partes: I (a vinda), II (tempo), III (passeio), IV (colheita
Passeamos corpo a corpo
com muitos segredos impedidos
e muitos medos, muitas águas
nos imaturos vestidos.
Muitas águas que não secam,
de prantos desprevenidos.
(Passeamos corpo a corpo,
confusos, desentendidos).
Havia entre nós a caixa
que um anjo prendia nos dedos,
por isso necessitávamos
da precaução de tais medos.
E este era o caminho certo
do meu descanso, do meu triste
coração claro e deserto
que junto às águas repartiste.
Junto àquelas mesmas águas
que te afogaram
mas não viste.
Publicado no livro Cantata (1966). Poema integrante da série Os Espinhos da Noite.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.239-242
NOTA: Poema dividido em 4 partes: I (a vinda), II (tempo), III (passeio), IV (colheita
1 470
Walmir Ayala
Ciclo
III (passeio)
Passeamos corpo a corpo
com muitos segredos impedidos
e muitos medos, muitas águas
nos imaturos vestidos.
Muitas águas que não secam,
de prantos desprevenidos.
(Passeamos corpo a corpo,
confusos, desentendidos).
Havia entre nós a caixa
que um anjo prendia nos dedos,
por isso necessitávamos
da precaução de tais medos.
E este era o caminho certo
do meu descanso, do meu triste
coração claro e deserto
que junto às águas repartiste.
Junto àquelas mesmas águas
que te afogaram
mas não viste.
Publicado no livro Cantata (1966). Poema integrante da série Os Espinhos da Noite.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.239-242
NOTA: Poema dividido em 4 partes: I (a vinda), II (tempo), III (passeio), IV (colheita
Passeamos corpo a corpo
com muitos segredos impedidos
e muitos medos, muitas águas
nos imaturos vestidos.
Muitas águas que não secam,
de prantos desprevenidos.
(Passeamos corpo a corpo,
confusos, desentendidos).
Havia entre nós a caixa
que um anjo prendia nos dedos,
por isso necessitávamos
da precaução de tais medos.
E este era o caminho certo
do meu descanso, do meu triste
coração claro e deserto
que junto às águas repartiste.
Junto àquelas mesmas águas
que te afogaram
mas não viste.
Publicado no livro Cantata (1966). Poema integrante da série Os Espinhos da Noite.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.239-242
NOTA: Poema dividido em 4 partes: I (a vinda), II (tempo), III (passeio), IV (colheita
1 470
Augusto Massi
Homem Rindo
para José Paulo Paes
A roda de amigos
sacudida por uma
rajada de risos.
Me concentro num
homem tímido que
sorri por dentro.
Deslocado na roda
rapidamente corta
o riso pela raiz.
Mas o riso retorna.
Coceira furiosa nos
orifícios do nariz.
Bebe graça no gargalo
rola rala racha o bico
ri até ficar sem graça.
A rodada de amigos
explode às gargalhadas:
o tímido é sua cachaça.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
A roda de amigos
sacudida por uma
rajada de risos.
Me concentro num
homem tímido que
sorri por dentro.
Deslocado na roda
rapidamente corta
o riso pela raiz.
Mas o riso retorna.
Coceira furiosa nos
orifícios do nariz.
Bebe graça no gargalo
rola rala racha o bico
ri até ficar sem graça.
A rodada de amigos
explode às gargalhadas:
o tímido é sua cachaça.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 579
Augusto Massi
Homem Rindo
para José Paulo Paes
A roda de amigos
sacudida por uma
rajada de risos.
Me concentro num
homem tímido que
sorri por dentro.
Deslocado na roda
rapidamente corta
o riso pela raiz.
Mas o riso retorna.
Coceira furiosa nos
orifícios do nariz.
Bebe graça no gargalo
rola rala racha o bico
ri até ficar sem graça.
A rodada de amigos
explode às gargalhadas:
o tímido é sua cachaça.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
A roda de amigos
sacudida por uma
rajada de risos.
Me concentro num
homem tímido que
sorri por dentro.
Deslocado na roda
rapidamente corta
o riso pela raiz.
Mas o riso retorna.
Coceira furiosa nos
orifícios do nariz.
Bebe graça no gargalo
rola rala racha o bico
ri até ficar sem graça.
A rodada de amigos
explode às gargalhadas:
o tímido é sua cachaça.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 579
Augusto Massi
Homem Rindo
para José Paulo Paes
A roda de amigos
sacudida por uma
rajada de risos.
Me concentro num
homem tímido que
sorri por dentro.
Deslocado na roda
rapidamente corta
o riso pela raiz.
Mas o riso retorna.
Coceira furiosa nos
orifícios do nariz.
Bebe graça no gargalo
rola rala racha o bico
ri até ficar sem graça.
A rodada de amigos
explode às gargalhadas:
o tímido é sua cachaça.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
A roda de amigos
sacudida por uma
rajada de risos.
Me concentro num
homem tímido que
sorri por dentro.
Deslocado na roda
rapidamente corta
o riso pela raiz.
Mas o riso retorna.
Coceira furiosa nos
orifícios do nariz.
Bebe graça no gargalo
rola rala racha o bico
ri até ficar sem graça.
A rodada de amigos
explode às gargalhadas:
o tímido é sua cachaça.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 579