Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Mario Ribeiro Martins
Sonhador
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Meu coração deveras traspassado,
parece não sentir a mocidade.
Quando alguém me pergunta: FOSTE AMADO?
Eu lhe respondo com sinceridade:
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Eu já busquei amor entre os amores
e caminhei hostil, sofrendo dores,
perdido na miséria e corrução.
mendigo alheio da felicidade.
Meu coração deveras traspassado,
parece não sentir a mocidade.
Quando alguém me pergunta: FOSTE AMADO?
Eu lhe respondo com sinceridade:
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Eu já busquei amor entre os amores
e caminhei hostil, sofrendo dores,
perdido na miséria e corrução.
1 146
Mário Pederneiras
Íntimo
(fragmento)
A boa vida é esta:
O sossego normal deste meu quarto,
Em luz e paz imerso,
Onde as horas reparto
Entre o — do ganha-pão — rude trabalho
E o Culto do meu Verso,
Que me dá e atesta
A certeza orgulhosa do que valho.
E numa esfera assim, clara e discreta,
Que um bem-estar pacífico resuma,
Ter, como eu tenho, quando leio e escrevo,
O suave enlevo,
De uma
Doce figura feminina e casta
Que, alegremente e carinhosa, arrasta
A vida heróica de mulher de Poeta.
Não que o Poeta seja um mau, um triste
Merecedor de insultos e de apodos,
De ódio e menoscabo...
Nele, ao contrário, só doçura existe,
Mas porque é um pobre diabo
Que sofre mais que todos.
A boa vida é esta:
O sossego normal deste meu quarto,
Em luz e paz imerso,
Onde as horas reparto
Entre o — do ganha-pão — rude trabalho
E o Culto do meu Verso,
Que me dá e atesta
A certeza orgulhosa do que valho.
E numa esfera assim, clara e discreta,
Que um bem-estar pacífico resuma,
Ter, como eu tenho, quando leio e escrevo,
O suave enlevo,
De uma
Doce figura feminina e casta
Que, alegremente e carinhosa, arrasta
A vida heróica de mulher de Poeta.
Não que o Poeta seja um mau, um triste
Merecedor de insultos e de apodos,
De ódio e menoscabo...
Nele, ao contrário, só doçura existe,
Mas porque é um pobre diabo
Que sofre mais que todos.
1 145
Mário Simões
Amor: Luz e Trevas
Que coisas que ao coração vêm!
Que suplício... Que caso de dor...
Se fossemos só nós, de amor;
Mas o mal que o corpo tem,
por outrem é igual sentido!
Se no peito escondido,
Ou na alma sepultado,
Há quem viva de amor contente;
Mesmo que o amor mate gente,
Há quem se diga de amor curado!...
E vós, grossa ameaça,
Cá por dentro nos matais...
Mas, se acaso amor só por nós passa,
Ou de nós vos escapais,
Lançais-nos em cruel tormento,
Num labirinto o pensamento,
Furioso desimaginado
Que vos digo bem magoado,
Se todos fossem iguais,
Eu julgava-vos uma desgraça!...
O fogo das flores
São quimeras populares...
(In Árvores de Fogo, Cinza do Tempo)
Que suplício... Que caso de dor...
Se fossemos só nós, de amor;
Mas o mal que o corpo tem,
por outrem é igual sentido!
Se no peito escondido,
Ou na alma sepultado,
Há quem viva de amor contente;
Mesmo que o amor mate gente,
Há quem se diga de amor curado!...
E vós, grossa ameaça,
Cá por dentro nos matais...
Mas, se acaso amor só por nós passa,
Ou de nós vos escapais,
Lançais-nos em cruel tormento,
Num labirinto o pensamento,
Furioso desimaginado
Que vos digo bem magoado,
Se todos fossem iguais,
Eu julgava-vos uma desgraça!...
O fogo das flores
São quimeras populares...
(In Árvores de Fogo, Cinza do Tempo)
883
Mário Simões
Amor: Luz e Trevas
Que coisas que ao coração vêm!
Que suplício... Que caso de dor...
Se fossemos só nós, de amor;
Mas o mal que o corpo tem,
por outrem é igual sentido!
Se no peito escondido,
Ou na alma sepultado,
Há quem viva de amor contente;
Mesmo que o amor mate gente,
Há quem se diga de amor curado!...
E vós, grossa ameaça,
Cá por dentro nos matais...
Mas, se acaso amor só por nós passa,
Ou de nós vos escapais,
Lançais-nos em cruel tormento,
Num labirinto o pensamento,
Furioso desimaginado
Que vos digo bem magoado,
Se todos fossem iguais,
Eu julgava-vos uma desgraça!...
O fogo das flores
São quimeras populares...
(In Árvores de Fogo, Cinza do Tempo)
Que suplício... Que caso de dor...
Se fossemos só nós, de amor;
Mas o mal que o corpo tem,
por outrem é igual sentido!
Se no peito escondido,
Ou na alma sepultado,
Há quem viva de amor contente;
Mesmo que o amor mate gente,
Há quem se diga de amor curado!...
E vós, grossa ameaça,
Cá por dentro nos matais...
Mas, se acaso amor só por nós passa,
Ou de nós vos escapais,
Lançais-nos em cruel tormento,
Num labirinto o pensamento,
Furioso desimaginado
Que vos digo bem magoado,
Se todos fossem iguais,
Eu julgava-vos uma desgraça!...
O fogo das flores
São quimeras populares...
(In Árvores de Fogo, Cinza do Tempo)
883
Gerardo Mello Mourão
Digo o que vi — pois vi os anjos
Digo o que vi — pois vi os anjos
montados no lombo das poldras azuis
galopando nos potreiros ao redor da cidade — e digo
o que ouvi —
pois ouvi dizer que as deusas moribundas
voltavam à adolescência no crepúsculo
e se entregavam aos anjos
no lombo das poldras azuis
e muitas outras coisas sei
de ver e de ouvir dizer
sobre anjos e deuses
alguns deuses:
subi à montante do rio dos jaguares
no dorso dos crocodilos e achei
a nascente das águas — e escanchado
no espinhado dos sáurios
passei a divisa das águas — perguntei
todos os caminhos do mar
ao abismo à espuma à latitude
e à longitude — pois habitei
minha própria lonjura
e meu álibi:
a corrente das águas carregando
a imagem de meu rosto por onde
a figura se configura — pois habito
meus próprios álibis:
ali estou onde desejo estar — e desejo
o caminho de teus rastros onde
confinado e livre
confino o mundo — pois o prisioneiro
engenha a liberdade —
engenheiro
do dia e da noite
aloeste a sudeste a nornordeste
e quem queira encontrar-me há de seguir
a rota dos abismos — pois
incola do abismo — o abismo
é meu porto e minha pátria
ego poeta cidadão do abismo
pois mordi, Apolo, a fruta de teu nome
e, conheci o sal e o mel e o vinagre e a pimenta
da palavra — o sangue
dos seres e das coisas e seu vinho e sou
o bêbado dos abismos onde
veraneio os meses entre
demônios cartomantes:
— um moço louro a traição periga há uns
papéis confusos longas viagens dinheiros
curtos a mulher morena em lágrimas uma solteira
uma casada e lágrimas pela porta da rua
outra mulher mais outra
empalidece e treme o valete de espadas
uma ruiva pela porta da. rua por onde as já
citadas lágrimas risco de morte uma herança uma estrela
seus astres e desastres:
— "embaralhe o baralho" — e a mão astuta
arqueava as cartas e embaralhava os naipes
descia
ao abismo de seus signos cercado
de profecias por todos os lados
pois enxergava sempre a musa ali
e o coração estremecia aos olhos
da pythia alcovitada — e às vezes
fulgurei em seus olhos e em meus olhos
conheci minha verônica
— pois o que sei de mim
sei por uma sibila, pelas cartomantes
pelas ciganas rastreando as linhas
de minha mão
e o que sei do mundo
é o que sei de mim pelos profetas
é o que sei de mim
por ouvir dizer
é o que sei dos defuntos
na lívida escritura de seus rostos hirtos
entre cravos e rosas quando
meus olhos se agoniam sobre
seus pergaminhos — entre
o hieróglifo de seus dedos rúnicos
e o silêncio pulcro de seus lábios rupestres
Mas um dia rompo o meu silêncio — e as rosas
começam a cair de minha boca
as rosas e as estrelas
e os circunstantes atônitos
me tiram reverentes o chapéu
e dobram os joelhos e me beijam os pés
e quando se erguem
escarnecem de mim e de si mesmos
pois já não se vê mais
que a poeira de um rastro
a aparição e a desaparição — e as rosas
voltam a fechar-se em seus botões de silêncio diante
das estejas apagadas pelo sopro do vento
e sou apenas o que fui — e fui
apenas o que serei na boca dos profetas
dos contadores de lendas
eterno
toda vez que as cartomantes inventem
ao olhar de uma trêmula mulher
o perigo de um príncipe a caminho
e na palma da mão entre o monte de Vênus
e a linha do destino — o presságio
de meu nome alegrará um coração que espera
a chegada da esperança.
Não sou — já fui
não fui — serei
serei o que teria sido
num país que carrego nas pupilas
ego, poeta, Pigafetta
meus olhos pisam meu chão
e caminho pisando os próprios olhos
meus pés escrevem no celeste espaço
com o coruscante stil nuovo
do pentestrelo
minha bitácora — pois escrivão
de Capricórnio tenho por nome
meu pseudônimo
—Caramuru
ou Monteverde? —
montados no lombo das poldras azuis
galopando nos potreiros ao redor da cidade — e digo
o que ouvi —
pois ouvi dizer que as deusas moribundas
voltavam à adolescência no crepúsculo
e se entregavam aos anjos
no lombo das poldras azuis
e muitas outras coisas sei
de ver e de ouvir dizer
sobre anjos e deuses
alguns deuses:
subi à montante do rio dos jaguares
no dorso dos crocodilos e achei
a nascente das águas — e escanchado
no espinhado dos sáurios
passei a divisa das águas — perguntei
todos os caminhos do mar
ao abismo à espuma à latitude
e à longitude — pois habitei
minha própria lonjura
e meu álibi:
a corrente das águas carregando
a imagem de meu rosto por onde
a figura se configura — pois habito
meus próprios álibis:
ali estou onde desejo estar — e desejo
o caminho de teus rastros onde
confinado e livre
confino o mundo — pois o prisioneiro
engenha a liberdade —
engenheiro
do dia e da noite
aloeste a sudeste a nornordeste
e quem queira encontrar-me há de seguir
a rota dos abismos — pois
incola do abismo — o abismo
é meu porto e minha pátria
ego poeta cidadão do abismo
pois mordi, Apolo, a fruta de teu nome
e, conheci o sal e o mel e o vinagre e a pimenta
da palavra — o sangue
dos seres e das coisas e seu vinho e sou
o bêbado dos abismos onde
veraneio os meses entre
demônios cartomantes:
— um moço louro a traição periga há uns
papéis confusos longas viagens dinheiros
curtos a mulher morena em lágrimas uma solteira
uma casada e lágrimas pela porta da rua
outra mulher mais outra
empalidece e treme o valete de espadas
uma ruiva pela porta da. rua por onde as já
citadas lágrimas risco de morte uma herança uma estrela
seus astres e desastres:
— "embaralhe o baralho" — e a mão astuta
arqueava as cartas e embaralhava os naipes
descia
ao abismo de seus signos cercado
de profecias por todos os lados
pois enxergava sempre a musa ali
e o coração estremecia aos olhos
da pythia alcovitada — e às vezes
fulgurei em seus olhos e em meus olhos
conheci minha verônica
— pois o que sei de mim
sei por uma sibila, pelas cartomantes
pelas ciganas rastreando as linhas
de minha mão
e o que sei do mundo
é o que sei de mim pelos profetas
é o que sei de mim
por ouvir dizer
é o que sei dos defuntos
na lívida escritura de seus rostos hirtos
entre cravos e rosas quando
meus olhos se agoniam sobre
seus pergaminhos — entre
o hieróglifo de seus dedos rúnicos
e o silêncio pulcro de seus lábios rupestres
Mas um dia rompo o meu silêncio — e as rosas
começam a cair de minha boca
as rosas e as estrelas
e os circunstantes atônitos
me tiram reverentes o chapéu
e dobram os joelhos e me beijam os pés
e quando se erguem
escarnecem de mim e de si mesmos
pois já não se vê mais
que a poeira de um rastro
a aparição e a desaparição — e as rosas
voltam a fechar-se em seus botões de silêncio diante
das estejas apagadas pelo sopro do vento
e sou apenas o que fui — e fui
apenas o que serei na boca dos profetas
dos contadores de lendas
eterno
toda vez que as cartomantes inventem
ao olhar de uma trêmula mulher
o perigo de um príncipe a caminho
e na palma da mão entre o monte de Vênus
e a linha do destino — o presságio
de meu nome alegrará um coração que espera
a chegada da esperança.
Não sou — já fui
não fui — serei
serei o que teria sido
num país que carrego nas pupilas
ego, poeta, Pigafetta
meus olhos pisam meu chão
e caminho pisando os próprios olhos
meus pés escrevem no celeste espaço
com o coruscante stil nuovo
do pentestrelo
minha bitácora — pois escrivão
de Capricórnio tenho por nome
meu pseudônimo
—Caramuru
ou Monteverde? —
1 220
Gerardo Mello Mourão
Pois faço aos tempos surdos
Pois faço aos tempos surdos a doação deste ouvido
e venho doar ao tempo mudo esta língua
aprendi as álgebras do espaço
e calculei às vezes aurora e noite e sou
sabedor de sua hipotenusa e mestre
de sua bissetriz e de seu algarismo: posso armar
no doce teorema de seu caule
a parábola da rosa e sua paralaxe
pois proponho a rosa aos circunstantes desde
seu logaritmo — colho
teu nome em minha boca
e em minha mão floresces
com teu monte de pétalas
com teu seio redondo —
não seria ali
o sítio do desejo, Capitão Gofredo?
e venho e volto e um deus
veste na própria pele o corpo livre e gera
da incessante vida a saciada morte
e da morte incessante esta sede da vida.
Não estão mortos os deuses, Efraim,
sob a defunta máscara seus olhos
cravejados de esmeraldas
coruscam sobre nós
e a rosa de seus lábios
despetala ao fervor de seu sangue botânico
a suplicante saudação:
tu dichorisandra albo-lineata
tu campelia zanonia
tu gladiolus ceruleus
venustus labiatus
desde o musgo do chão ao firmamento firmas
no lírio vertical o fluxo de teu rosto:
também eu — ego poeta
arranco e piso aos pés minha máscara de morto
e sustento o fulgor de tua
pupila incandescente.
Não, Antônio José,
não morreram os deuses e na pata
do cavalo de Alexandre Mourão
na palmeira de dona Úrsula
em teus olhos moribundos, Capitão,
num punhal no relógio da sala
no patacão de prata no retrato da parede na relva
de tuas coxas sagradas
o rastro de Apolo:
ego poeta, ego cartographus
faço o mapa, Gonçalo, desse rastro
entre o cróton e o crótalus terrificus
pois de terra terrífica é o chão onde um dia
deixaste florescer a planta de teu pé:
e as distâncias do mundo
permanecem regidas
à balística de seu passo — não morreram, amor.
E deles os que um dia visitaram a morte
desceram aos infernos
e subiram aos céus no terceiro dia — e um dia, Augustin,
rebentou um ruido dos céus um vento de tempestade
e mandaram descer suas línguas de fogo
sobre a cabeça do poeta
e saí pelo boulevard bêbado de glória
e os Partas e os Medas e os Elamitas
e os que habitam a Capadócia o Ponto e a Ásia
a Frígia a Panfília e as partes da Líbia
perto de Cirene — e os forasteiros
romanos e judeus e seus prosélitos
e os cretenses e os árabes
e os servos e os croatas e os guerrilheiros guatemaltecos
e a puta de Quebec e o travesti de Amsterdam
recolhiam maravilhados
sílaba por sílaba meu canto — pois conheço
o poliedro da palavra — ego poeta
e no sonho dos adolescentes e dos moribundos
fiz minha morada no país de Pentecostes
e abriram-se as fontes das águas em minha língua
e todos entendiam a fala das fontes das águas.
Por isso
Pallas invoco — Palas Athenaia
e Afrodite clamo — Afrodite
e Zeus e Poseidon e Hermes Trimegisto
e Afrodite clamo — Afrodite — e ao seu nome
estremecem frementes
a pele e o corpo dos machos e das fêmeas:
da concha de seus lábios com seus olhos verdes
ergue-se Afrodite
os mesmos ombros de cabelos molhados
pelo mar da Jônia na concha de Poseidon
calipígia a oeste
e a leste — de pentelhos frondosos
mas ninguém lhe acaricia os pêlos
pois transfigurada
ela nos conta
sob a luz das estrelas
sua própria ficção
e não é mais
que a ficção de si mesma
e de sua metáfora a metáfora
a presença real
— e só a morte
dos deuses é irreal:
e da raiz do coração a língua erecta
ousa chegar ao êxtase:
Afrodite! Afrodite!
da transfiguração
de teu nome real
teu rosto original parece
irreal.
Um dia percorríamos a aurora de Montréal
saudávamos os bisontes e os jaguares nas esquinas do
bairro inglês
e alí
cantava o galo no quintal de Teresa e urrava
o touro de Vila Bela no curral de Eufrásio
ao quebrar das barras
na madrugada hermafrodita:
as donzelas e os Travestis e as putas da Guatemala e as
leopardas ciumentas e os lábios no cio perguntavam
— "por quem, poeta, teu amor, por quem?"
Amante sou é de meu próprio rosto — amoroso estou
do lago de tuas pupilas de onde
meu amor é pela gema de meu dedos no pelo
de tuas virilhas — e apaixonado
estou por minha mão que ronda as tuas coxas
pela língua
que diz teu nome — línguabela abelha
no mel de tuas pétalas em tua
rosa negra — e ali
em seu ninho de estrelas mergulhava
o pássaro — e por ele, amor,
o poeta,
e seu amor.
E não morreram — pois
era uma vez uma cidade, Gilbués chamada — e era uma vez
uma mulher por nome Laura — e outra vez
bebíamos o Ballantines twelve years
na fronteira do Maranhão
barrancas do Parnaíba:
sob a celeste água-marinha
da noite piauiense
as doces loucas de Terezina
penduravam sob as mangueiras
no sanatório de Clidenor
entre as douradas mangas-lira os redondos olhos — e a lua
arredondava o seio das putas quotidianas sob
os coqueiros de Ana Paula — e era uma vez uma noite —
e era uma vez
uma cidade, Gilbués chamada — e era uma vez
uma mulher por nome Isidora — Dora —
de Gilbués chegada — e quem se esquecerá
de Mariana — os mesmos olhos
augurais inaugurais
de Sanharó chegada
aos bordéis do Recife:
do trampolim de seu rosto
o peregrino pé ao desferir o salto
cunhara o rastro — e, pois,
por esses rostos e lugares vivo em romaria
Delos Delfos Gilbués Oeiras e ali o Coronel
Victor de Barros Galvão governador das armas
até Olho dÁgua Grande onde Domingos
o Coronel Domingos Mourão Filho
governador dos povos assentava
o rústico condado e cultivava
a rosa do perigo:
pois visconde conde comes senhor e servo
soldado de aventura sou, Apolo,
pelo sangue das veias
de todo chão de todo rosto
onde quer que esse rastro e tua mão
vela sobre nossos capitães
pois flor-de-lis pois rosa
de puro artelho rosa e flor-de-lis
onde marquês marquei minha fronteira pelo
som de uma flauta pela
corda de sua lira — e por ela
joguei a minha noiva e meu condado e meu escudo
de faixa verde em campo de ouro
um castelo em abismo e abismado
entre as coxas das nove castelãs — ali
farejo o faro de teu falus e sou
de tua corte o derradeiro conde
Gerardus derelictus — criatura
de Apolo e de Melpômene
ego poeta
conde do abismo.
Mas teço o pano pastoreio a cabra e forjo o ferro
e planto a cana
e camponez e obreiro
degolo o conde nas auroras de outubro
ego poeta o conde degolado
à beira de seu abismo:
depois com o sopro de meus pulmões
encho de ar os foles de couro
e malho a brasa dos metais
e produzo as estrelas
na oficina onde canto
o meu próprio motim
e o meu próprio massacre:
Pois malho, Apolo, na bigorna os colhões de aço
e o coração de chumbo — e invento
a mágica do ouro e vou
fazendo rosas braceletes pétalas
e outros objetos de ouro
até chegar à lira:
pois criei a minha mão e fiz
eu mesmo a minha própria lira
suas cordas fiei
e modelei os dedos com que as pulso
do pulso às unhas.
peregrino pelas calçadas do bairro
e os rapazes e as raparigas me apontam:
Gerardo
de
lira.
e venho doar ao tempo mudo esta língua
aprendi as álgebras do espaço
e calculei às vezes aurora e noite e sou
sabedor de sua hipotenusa e mestre
de sua bissetriz e de seu algarismo: posso armar
no doce teorema de seu caule
a parábola da rosa e sua paralaxe
pois proponho a rosa aos circunstantes desde
seu logaritmo — colho
teu nome em minha boca
e em minha mão floresces
com teu monte de pétalas
com teu seio redondo —
não seria ali
o sítio do desejo, Capitão Gofredo?
e venho e volto e um deus
veste na própria pele o corpo livre e gera
da incessante vida a saciada morte
e da morte incessante esta sede da vida.
Não estão mortos os deuses, Efraim,
sob a defunta máscara seus olhos
cravejados de esmeraldas
coruscam sobre nós
e a rosa de seus lábios
despetala ao fervor de seu sangue botânico
a suplicante saudação:
tu dichorisandra albo-lineata
tu campelia zanonia
tu gladiolus ceruleus
venustus labiatus
desde o musgo do chão ao firmamento firmas
no lírio vertical o fluxo de teu rosto:
também eu — ego poeta
arranco e piso aos pés minha máscara de morto
e sustento o fulgor de tua
pupila incandescente.
Não, Antônio José,
não morreram os deuses e na pata
do cavalo de Alexandre Mourão
na palmeira de dona Úrsula
em teus olhos moribundos, Capitão,
num punhal no relógio da sala
no patacão de prata no retrato da parede na relva
de tuas coxas sagradas
o rastro de Apolo:
ego poeta, ego cartographus
faço o mapa, Gonçalo, desse rastro
entre o cróton e o crótalus terrificus
pois de terra terrífica é o chão onde um dia
deixaste florescer a planta de teu pé:
e as distâncias do mundo
permanecem regidas
à balística de seu passo — não morreram, amor.
E deles os que um dia visitaram a morte
desceram aos infernos
e subiram aos céus no terceiro dia — e um dia, Augustin,
rebentou um ruido dos céus um vento de tempestade
e mandaram descer suas línguas de fogo
sobre a cabeça do poeta
e saí pelo boulevard bêbado de glória
e os Partas e os Medas e os Elamitas
e os que habitam a Capadócia o Ponto e a Ásia
a Frígia a Panfília e as partes da Líbia
perto de Cirene — e os forasteiros
romanos e judeus e seus prosélitos
e os cretenses e os árabes
e os servos e os croatas e os guerrilheiros guatemaltecos
e a puta de Quebec e o travesti de Amsterdam
recolhiam maravilhados
sílaba por sílaba meu canto — pois conheço
o poliedro da palavra — ego poeta
e no sonho dos adolescentes e dos moribundos
fiz minha morada no país de Pentecostes
e abriram-se as fontes das águas em minha língua
e todos entendiam a fala das fontes das águas.
Por isso
Pallas invoco — Palas Athenaia
e Afrodite clamo — Afrodite
e Zeus e Poseidon e Hermes Trimegisto
e Afrodite clamo — Afrodite — e ao seu nome
estremecem frementes
a pele e o corpo dos machos e das fêmeas:
da concha de seus lábios com seus olhos verdes
ergue-se Afrodite
os mesmos ombros de cabelos molhados
pelo mar da Jônia na concha de Poseidon
calipígia a oeste
e a leste — de pentelhos frondosos
mas ninguém lhe acaricia os pêlos
pois transfigurada
ela nos conta
sob a luz das estrelas
sua própria ficção
e não é mais
que a ficção de si mesma
e de sua metáfora a metáfora
a presença real
— e só a morte
dos deuses é irreal:
e da raiz do coração a língua erecta
ousa chegar ao êxtase:
Afrodite! Afrodite!
da transfiguração
de teu nome real
teu rosto original parece
irreal.
Um dia percorríamos a aurora de Montréal
saudávamos os bisontes e os jaguares nas esquinas do
bairro inglês
e alí
cantava o galo no quintal de Teresa e urrava
o touro de Vila Bela no curral de Eufrásio
ao quebrar das barras
na madrugada hermafrodita:
as donzelas e os Travestis e as putas da Guatemala e as
leopardas ciumentas e os lábios no cio perguntavam
— "por quem, poeta, teu amor, por quem?"
Amante sou é de meu próprio rosto — amoroso estou
do lago de tuas pupilas de onde
meu amor é pela gema de meu dedos no pelo
de tuas virilhas — e apaixonado
estou por minha mão que ronda as tuas coxas
pela língua
que diz teu nome — línguabela abelha
no mel de tuas pétalas em tua
rosa negra — e ali
em seu ninho de estrelas mergulhava
o pássaro — e por ele, amor,
o poeta,
e seu amor.
E não morreram — pois
era uma vez uma cidade, Gilbués chamada — e era uma vez
uma mulher por nome Laura — e outra vez
bebíamos o Ballantines twelve years
na fronteira do Maranhão
barrancas do Parnaíba:
sob a celeste água-marinha
da noite piauiense
as doces loucas de Terezina
penduravam sob as mangueiras
no sanatório de Clidenor
entre as douradas mangas-lira os redondos olhos — e a lua
arredondava o seio das putas quotidianas sob
os coqueiros de Ana Paula — e era uma vez uma noite —
e era uma vez
uma cidade, Gilbués chamada — e era uma vez
uma mulher por nome Isidora — Dora —
de Gilbués chegada — e quem se esquecerá
de Mariana — os mesmos olhos
augurais inaugurais
de Sanharó chegada
aos bordéis do Recife:
do trampolim de seu rosto
o peregrino pé ao desferir o salto
cunhara o rastro — e, pois,
por esses rostos e lugares vivo em romaria
Delos Delfos Gilbués Oeiras e ali o Coronel
Victor de Barros Galvão governador das armas
até Olho dÁgua Grande onde Domingos
o Coronel Domingos Mourão Filho
governador dos povos assentava
o rústico condado e cultivava
a rosa do perigo:
pois visconde conde comes senhor e servo
soldado de aventura sou, Apolo,
pelo sangue das veias
de todo chão de todo rosto
onde quer que esse rastro e tua mão
vela sobre nossos capitães
pois flor-de-lis pois rosa
de puro artelho rosa e flor-de-lis
onde marquês marquei minha fronteira pelo
som de uma flauta pela
corda de sua lira — e por ela
joguei a minha noiva e meu condado e meu escudo
de faixa verde em campo de ouro
um castelo em abismo e abismado
entre as coxas das nove castelãs — ali
farejo o faro de teu falus e sou
de tua corte o derradeiro conde
Gerardus derelictus — criatura
de Apolo e de Melpômene
ego poeta
conde do abismo.
Mas teço o pano pastoreio a cabra e forjo o ferro
e planto a cana
e camponez e obreiro
degolo o conde nas auroras de outubro
ego poeta o conde degolado
à beira de seu abismo:
depois com o sopro de meus pulmões
encho de ar os foles de couro
e malho a brasa dos metais
e produzo as estrelas
na oficina onde canto
o meu próprio motim
e o meu próprio massacre:
Pois malho, Apolo, na bigorna os colhões de aço
e o coração de chumbo — e invento
a mágica do ouro e vou
fazendo rosas braceletes pétalas
e outros objetos de ouro
até chegar à lira:
pois criei a minha mão e fiz
eu mesmo a minha própria lira
suas cordas fiei
e modelei os dedos com que as pulso
do pulso às unhas.
peregrino pelas calçadas do bairro
e os rapazes e as raparigas me apontam:
Gerardo
de
lira.
1 176
Gerardo Mello Mourão
Alexandre cavalga
Alexandre cavalga
e às vezes é
a bússola amorosa dos anjos
e ao aroma dos jasmineiros o aroma
da nuca de Carmen, do botão dos seios
de Margarida e de Francisca
e às vezes é a bússola do ódio
e dia e noite e noite e dia através
noites e dias
Alexandre cavalga:
e os cavalos cansados param mortos
e o coração cavalga a fúria
e seu rastro se chama vingança.
Vicente Lopes de Negreiros
a raça de André Vidal de Negreiros
matara de tocaia a Manuel, irmão de Alexandre Mourão
e à sombra de uma palmeira da Serra dos Cocos
tinha dezesseis anos
o corpo ensangüentado do adolescente moreno
era belo e terrível e seus olhos
vidrados
pediam vingança ao irmão.
Vicente de Negreiros, chamado Vicente da Caminhadeira
furou o mundo e Alexandre
Mourão no rastro dele
andou duas mil léguas e o Maranhão
e o Piauí e o Ceará e o Rio Grande e Pernambueo e a Paraíba
celebraraxn o tropel de seu cavalo
o furor de sua vendetta
e o trom de seu bacamarte de boca de sino
e os sinos dobraram por duzentos mortos
e os soldados de Xenofonte — Anábasis — não podiam dormir
por causa da tristeza e da saudade
"ouvindo o tiro, nós que estávamos na luta, corremos e achamos nosso irmão morto
e não pudemos mais dormir
ali o deixamos e
fizemos todas as diligências
e não foi possível achar mais o assassino
nesta mesma noite segui em procura
e depois de sete dias e sete noites de minuciosa diligência
informaram estaria sob a proteção do Tenente Coronel João da Costa Alecrim e do tio
Vigário Manuel Pacheco Pimentel, em Vila Nova
risquei o cavalo na porta do Vigário
e de sua alpendrada trinta e oito dias de viagem num cavalo bralhador
até Pedras de Fogo — extremas da Paraíba e Pernambuco
de lá noventa dias a cavalo ao Piauí
e em noventa noites o sertão
espreitado palmo a palmo conheceu
o ódio sábio e inútil de meus olhos:
terral, aracati, nordeste, graviúna, todos
os ventos do país dos Mourões a crina
de meu cavalo conheceu.
O Coronel Diogo Salles comprara um sítio para situar-se no Maranhão aonde se mudara
por certos desgostos:
Coronel Diogo, filho de meu parente Capitão Xavier, a
quem assisti em seus desgostos,
é possível esteja o inimigo em sua Fazenda do Serrote?
— Nem no Serrote do Piauí nem no Serrote do Ceará
e se acaso meu pai o acolheu
não o há de matar na rede de hóspede
mas vai pô-lo a caminho quando saiba
quem é Vicente da Caminhadeira.
— Não, meu parente, não se apeou à minha porta.
E na Fazenda Santa Cruz, a caminho de Quixeramobim,
dois de seus cabras se entregaram à morte de joelhos aos pés de minha
madrinha Francisca
e ela mandou espreitar a casa e as fazendas do Capitão-Mor Lessa
e em cinco dias e cinco noites de espreita — nada;
passei a Crateús e por suspeita
voltei ao Serrote do Capitão Salles
passei a noite ao pé da casa espreitando os movimentos dela
e entrei no alpendre com o primeiro sol
fui honrado pelo Capitão, comi sua coalhada, o requeijão e a tapioca
descansei em rede cheirando a capim santo
segurei-me com o velho ele não proteger Vicente Lopes
que enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele.
Talvez o bandido esteja na casa do sogro em Poço dAgua:
foram vinte e nove dias até Poço dAgua, Piauí,
com os cavalos, os vaqueiros e a matutageiú de meu irmão Eufrosino:
tomei o velho de improviso e nada achei
apertei-o pelo genro, descobriu que há seis dias
dali tinha partido a chamado do Alecrim
que saía tal dia de muda para Pedras de Fogo, Paraíba,
voltei, segui ao Alecrim
antes de chegar a Vila Nova soube que estava no Serrote do velho Salles
ali mesmo fui procurá-los
Vicente da Caminhadeira estava fora da casa invadida por minha fúria
o Coronel Alecrim escapou num paiol de algodão, onde perdeu o nariz que era suposto:
nada fiz e fico contando com mais dois inimigos fortes.
Voltei para Pitombeiras, fazenda de meu irmão Eufrosino, sete léguas,
ia despachar um positivo a Pedras de Fogo
chega uma carta de mulher, inimiga de Vicente Lopes:
— "quer notícias certas, me apareça — "
apareço
apresentou-se um homem
vinha de Nossa Senhora do Ó e dava certeza de estar Vicente Lopes
na Vila de Igarassu, Pernambuco
voltei, preparei-me e segui para Igarassu
pois enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele
E depois de duzentas e tantas léguas de viagem
cheguei a Nossa Senhora do Ó
tomei a casa de meu parente, Capitão André Cursino Cavalcanti
e aconselhou-me:
devia seguir para o Engenho Monjope, de nosso parente, Capitão-Mor João
Cavalcanti de Albuquerque
o senhor mais rico e forte daquelas terras
contei-lhe meu destino
não quis mais que eu saísse:
seus homens é que vão a Igarassu para a missão
e um dos meus para reconhecer:
Vicente Lopes estava tocando viola num forrobodó
— "é aquele":
os homens de meu parente dão duas voltas no salão e o tocador de viola cai
com o peito varado e a bala ainda traspassou o coração de uma rapariga da festa:
na sala grande do Engenho Monjope
o Capitão-Mor abriu a garrafa de vinho do Porto
bebemos em honra de meu defunto irmão
e a Sinhá acendeu no oratório uma vela
à sua alma desagravada.
"Capitão, antes de voltar, quero ir eu mesmo a Igarassu
enfiar o dedo e o cano de minha garrucha no buraco da bala de Vicente Lopes de
Negreiros"
chamou de novo os homens que juraram:
"vá em paz, meu parente, o morto é morto e se ressuscitar em qualquer parte,
de Pedras de Fogo para cá, terras de Pernambuco,
deixará de ser vivo:
vá em paz, os meus homens não mentem"
E depois de onze meses
considerei
descansar meu irmão na sepultura e minha
fadiga em minha casa:
meu pai deu provimento.
Naquele tempo
preparava Eufrosino uma cavalaria para Vila dos Brejos
e Antônio Mourão urna outra
para ir a Caxias, Maranhão:
lá podia comprar terras de uma herdeira de meu avô
anexas às de meu pai e eu podia
escolher um sítio e situar-me entre os irmãos.
Vicente Lopes havia passado a viola
e dançava na sala
o outro tocador morreu por ele
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer que soubesse dele,
Soube na Boa Esperança e não estava
soube em Uruburetama
meus homens andaram vinte e oito léguas desde Vila Nova
e meu pai recebeu uma carta:
"Menezes e Vicente da Caminhadeira tiveram notícia de que
Antônio e Alexandre Mourão
atravessaram o rio Parnaíba com trinta e um cabras armados, rumo a Poço dAgua"
mandei quatorze homens à Capela dos Humildes
um tiro empregou a bala na carne de meu ombro
a luta a ferro frio durou das três às seis da tarde
e o sangue dos irmãos e dos cabras de Vicente Lopes empapara o curral
e ele fugira
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer soubesse dele
nem o cadáver de seu irmão entre os garrotes assombrados e as varejeiras
lambendo sangue
valia o corpo airoso de Manuel
Segui para Capela, Residência, Pequizeiro e Boa Esperança
esquadrinhava sozinho as grotas da serra e um morador me advertiu a medo:
— "meu Senhor, não siga por este caminho, que os logares estão semeados de
Mourões"
e a semente do a
e às vezes é
a bússola amorosa dos anjos
e ao aroma dos jasmineiros o aroma
da nuca de Carmen, do botão dos seios
de Margarida e de Francisca
e às vezes é a bússola do ódio
e dia e noite e noite e dia através
noites e dias
Alexandre cavalga:
e os cavalos cansados param mortos
e o coração cavalga a fúria
e seu rastro se chama vingança.
Vicente Lopes de Negreiros
a raça de André Vidal de Negreiros
matara de tocaia a Manuel, irmão de Alexandre Mourão
e à sombra de uma palmeira da Serra dos Cocos
tinha dezesseis anos
o corpo ensangüentado do adolescente moreno
era belo e terrível e seus olhos
vidrados
pediam vingança ao irmão.
Vicente de Negreiros, chamado Vicente da Caminhadeira
furou o mundo e Alexandre
Mourão no rastro dele
andou duas mil léguas e o Maranhão
e o Piauí e o Ceará e o Rio Grande e Pernambueo e a Paraíba
celebraraxn o tropel de seu cavalo
o furor de sua vendetta
e o trom de seu bacamarte de boca de sino
e os sinos dobraram por duzentos mortos
e os soldados de Xenofonte — Anábasis — não podiam dormir
por causa da tristeza e da saudade
"ouvindo o tiro, nós que estávamos na luta, corremos e achamos nosso irmão morto
e não pudemos mais dormir
ali o deixamos e
fizemos todas as diligências
e não foi possível achar mais o assassino
nesta mesma noite segui em procura
e depois de sete dias e sete noites de minuciosa diligência
informaram estaria sob a proteção do Tenente Coronel João da Costa Alecrim e do tio
Vigário Manuel Pacheco Pimentel, em Vila Nova
risquei o cavalo na porta do Vigário
e de sua alpendrada trinta e oito dias de viagem num cavalo bralhador
até Pedras de Fogo — extremas da Paraíba e Pernambuco
de lá noventa dias a cavalo ao Piauí
e em noventa noites o sertão
espreitado palmo a palmo conheceu
o ódio sábio e inútil de meus olhos:
terral, aracati, nordeste, graviúna, todos
os ventos do país dos Mourões a crina
de meu cavalo conheceu.
O Coronel Diogo Salles comprara um sítio para situar-se no Maranhão aonde se mudara
por certos desgostos:
Coronel Diogo, filho de meu parente Capitão Xavier, a
quem assisti em seus desgostos,
é possível esteja o inimigo em sua Fazenda do Serrote?
— Nem no Serrote do Piauí nem no Serrote do Ceará
e se acaso meu pai o acolheu
não o há de matar na rede de hóspede
mas vai pô-lo a caminho quando saiba
quem é Vicente da Caminhadeira.
— Não, meu parente, não se apeou à minha porta.
E na Fazenda Santa Cruz, a caminho de Quixeramobim,
dois de seus cabras se entregaram à morte de joelhos aos pés de minha
madrinha Francisca
e ela mandou espreitar a casa e as fazendas do Capitão-Mor Lessa
e em cinco dias e cinco noites de espreita — nada;
passei a Crateús e por suspeita
voltei ao Serrote do Capitão Salles
passei a noite ao pé da casa espreitando os movimentos dela
e entrei no alpendre com o primeiro sol
fui honrado pelo Capitão, comi sua coalhada, o requeijão e a tapioca
descansei em rede cheirando a capim santo
segurei-me com o velho ele não proteger Vicente Lopes
que enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele.
Talvez o bandido esteja na casa do sogro em Poço dAgua:
foram vinte e nove dias até Poço dAgua, Piauí,
com os cavalos, os vaqueiros e a matutageiú de meu irmão Eufrosino:
tomei o velho de improviso e nada achei
apertei-o pelo genro, descobriu que há seis dias
dali tinha partido a chamado do Alecrim
que saía tal dia de muda para Pedras de Fogo, Paraíba,
voltei, segui ao Alecrim
antes de chegar a Vila Nova soube que estava no Serrote do velho Salles
ali mesmo fui procurá-los
Vicente da Caminhadeira estava fora da casa invadida por minha fúria
o Coronel Alecrim escapou num paiol de algodão, onde perdeu o nariz que era suposto:
nada fiz e fico contando com mais dois inimigos fortes.
Voltei para Pitombeiras, fazenda de meu irmão Eufrosino, sete léguas,
ia despachar um positivo a Pedras de Fogo
chega uma carta de mulher, inimiga de Vicente Lopes:
— "quer notícias certas, me apareça — "
apareço
apresentou-se um homem
vinha de Nossa Senhora do Ó e dava certeza de estar Vicente Lopes
na Vila de Igarassu, Pernambuco
voltei, preparei-me e segui para Igarassu
pois enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele
E depois de duzentas e tantas léguas de viagem
cheguei a Nossa Senhora do Ó
tomei a casa de meu parente, Capitão André Cursino Cavalcanti
e aconselhou-me:
devia seguir para o Engenho Monjope, de nosso parente, Capitão-Mor João
Cavalcanti de Albuquerque
o senhor mais rico e forte daquelas terras
contei-lhe meu destino
não quis mais que eu saísse:
seus homens é que vão a Igarassu para a missão
e um dos meus para reconhecer:
Vicente Lopes estava tocando viola num forrobodó
— "é aquele":
os homens de meu parente dão duas voltas no salão e o tocador de viola cai
com o peito varado e a bala ainda traspassou o coração de uma rapariga da festa:
na sala grande do Engenho Monjope
o Capitão-Mor abriu a garrafa de vinho do Porto
bebemos em honra de meu defunto irmão
e a Sinhá acendeu no oratório uma vela
à sua alma desagravada.
"Capitão, antes de voltar, quero ir eu mesmo a Igarassu
enfiar o dedo e o cano de minha garrucha no buraco da bala de Vicente Lopes de
Negreiros"
chamou de novo os homens que juraram:
"vá em paz, meu parente, o morto é morto e se ressuscitar em qualquer parte,
de Pedras de Fogo para cá, terras de Pernambuco,
deixará de ser vivo:
vá em paz, os meus homens não mentem"
E depois de onze meses
considerei
descansar meu irmão na sepultura e minha
fadiga em minha casa:
meu pai deu provimento.
Naquele tempo
preparava Eufrosino uma cavalaria para Vila dos Brejos
e Antônio Mourão urna outra
para ir a Caxias, Maranhão:
lá podia comprar terras de uma herdeira de meu avô
anexas às de meu pai e eu podia
escolher um sítio e situar-me entre os irmãos.
Vicente Lopes havia passado a viola
e dançava na sala
o outro tocador morreu por ele
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer que soubesse dele,
Soube na Boa Esperança e não estava
soube em Uruburetama
meus homens andaram vinte e oito léguas desde Vila Nova
e meu pai recebeu uma carta:
"Menezes e Vicente da Caminhadeira tiveram notícia de que
Antônio e Alexandre Mourão
atravessaram o rio Parnaíba com trinta e um cabras armados, rumo a Poço dAgua"
mandei quatorze homens à Capela dos Humildes
um tiro empregou a bala na carne de meu ombro
a luta a ferro frio durou das três às seis da tarde
e o sangue dos irmãos e dos cabras de Vicente Lopes empapara o curral
e ele fugira
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer soubesse dele
nem o cadáver de seu irmão entre os garrotes assombrados e as varejeiras
lambendo sangue
valia o corpo airoso de Manuel
Segui para Capela, Residência, Pequizeiro e Boa Esperança
esquadrinhava sozinho as grotas da serra e um morador me advertiu a medo:
— "meu Senhor, não siga por este caminho, que os logares estão semeados de
Mourões"
e a semente do a
1 303
Gerardo Mello Mourão
Naquele tempo
Naquele tempo
o filho dos Mourões era pastor e muitas coisas
pastoreou seu cajado
o bode o cavalo o boi
e os rifles bandoleiros entre
a Canabrava dos Mourões e a Baixa Verde
dos Mourões
e por ali
tangia o pegureiro sua flauta
pastor de anjos tangeu uns tempos
os serafins e os querubins e Querubina
Januzzi à sombra
dos jasmineiros:
pastor das putas sua flauta
gemia nas esquinas e alegrava os bordéis e a
canção de Lesbos
saudava as meninas machas do L’Étoile
(para Paula e Jane)
e a flauta feiticeira
envenenou teus dias
e tuas noites:
de sua melodia
viveram e morreram as amadas e à beira
de suas sepulturas
o pastor das defuntas sopra o choro
pelas que se mataram de amor.
Pastor hei sido em tanto monte, desde
o monte de Vênus ao monte de Sião
e ao monte galego onde damas de copas e espadas
ambulavam na ronda
pastor de moedas — digo o Banco de Crédito
Real —
cordeiro de Deus tonsurado e imolado
naquelas mangedouras
gado inútil cevou-se à ração de meus dias
e os demônios astutos
dançaram sarabanda no monte de Sião —
e as damas
de copas e espadas corriam
do bordel de Helenita ao de Marina
e os lobos devoravam as meninas
dos olhos do pastor
e nada nos foi poupado — Angelo Simões
de Arruda, nada, Efraín,
pois pastor de heróis condottieri e guerrilheiros
tresmalhados todos os rebanhos — Abdias —
restava apenas este pastoreio
das putas e esta flauta
que nunca lhe caiu da boca na viagem
e um dia nesta flauta
apodrecido o canto de cantar
ensaiasse o pastor no sacro bosque
enfeitiçar os animais e as pedras
quem sabe as fêmeas — sempre elas — de
narinas acesas e de ouvidos em flor
esperassem à noite a serenata irresistível
e pedras e serpentes e fêmeas começassem
a chegar arrastados
da doce melodia.
o filho dos Mourões era pastor e muitas coisas
pastoreou seu cajado
o bode o cavalo o boi
e os rifles bandoleiros entre
a Canabrava dos Mourões e a Baixa Verde
dos Mourões
e por ali
tangia o pegureiro sua flauta
pastor de anjos tangeu uns tempos
os serafins e os querubins e Querubina
Januzzi à sombra
dos jasmineiros:
pastor das putas sua flauta
gemia nas esquinas e alegrava os bordéis e a
canção de Lesbos
saudava as meninas machas do L’Étoile
(para Paula e Jane)
e a flauta feiticeira
envenenou teus dias
e tuas noites:
de sua melodia
viveram e morreram as amadas e à beira
de suas sepulturas
o pastor das defuntas sopra o choro
pelas que se mataram de amor.
Pastor hei sido em tanto monte, desde
o monte de Vênus ao monte de Sião
e ao monte galego onde damas de copas e espadas
ambulavam na ronda
pastor de moedas — digo o Banco de Crédito
Real —
cordeiro de Deus tonsurado e imolado
naquelas mangedouras
gado inútil cevou-se à ração de meus dias
e os demônios astutos
dançaram sarabanda no monte de Sião —
e as damas
de copas e espadas corriam
do bordel de Helenita ao de Marina
e os lobos devoravam as meninas
dos olhos do pastor
e nada nos foi poupado — Angelo Simões
de Arruda, nada, Efraín,
pois pastor de heróis condottieri e guerrilheiros
tresmalhados todos os rebanhos — Abdias —
restava apenas este pastoreio
das putas e esta flauta
que nunca lhe caiu da boca na viagem
e um dia nesta flauta
apodrecido o canto de cantar
ensaiasse o pastor no sacro bosque
enfeitiçar os animais e as pedras
quem sabe as fêmeas — sempre elas — de
narinas acesas e de ouvidos em flor
esperassem à noite a serenata irresistível
e pedras e serpentes e fêmeas começassem
a chegar arrastados
da doce melodia.
1 324
Mônica Banderas
A Besta
Só uma mulher
uma mulher só
com a cabeça baixa
namorando estrelas
de cinema e televisão
cansada de estar alheia
ao seu próprio corpo
anoitece cuidando das rugas
e se queixa com o espelho da plenitude
de cada uma delas...
Mulher de trinta,
unhas frágeis, mãos ásperas,
cabelos ressecados,
bunda retraída, peitos malemolentes,
lábios sem beijar,
coração oco,
quisera um dia ter nascido Júlia Roberts
magrinha, elegante, cheia de amor e Richard Gere...
uma mulher só
com a cabeça baixa
namorando estrelas
de cinema e televisão
cansada de estar alheia
ao seu próprio corpo
anoitece cuidando das rugas
e se queixa com o espelho da plenitude
de cada uma delas...
Mulher de trinta,
unhas frágeis, mãos ásperas,
cabelos ressecados,
bunda retraída, peitos malemolentes,
lábios sem beijar,
coração oco,
quisera um dia ter nascido Júlia Roberts
magrinha, elegante, cheia de amor e Richard Gere...
906
Mônica Banderas
A Besta
Só uma mulher
uma mulher só
com a cabeça baixa
namorando estrelas
de cinema e televisão
cansada de estar alheia
ao seu próprio corpo
anoitece cuidando das rugas
e se queixa com o espelho da plenitude
de cada uma delas...
Mulher de trinta,
unhas frágeis, mãos ásperas,
cabelos ressecados,
bunda retraída, peitos malemolentes,
lábios sem beijar,
coração oco,
quisera um dia ter nascido Júlia Roberts
magrinha, elegante, cheia de amor e Richard Gere...
uma mulher só
com a cabeça baixa
namorando estrelas
de cinema e televisão
cansada de estar alheia
ao seu próprio corpo
anoitece cuidando das rugas
e se queixa com o espelho da plenitude
de cada uma delas...
Mulher de trinta,
unhas frágeis, mãos ásperas,
cabelos ressecados,
bunda retraída, peitos malemolentes,
lábios sem beijar,
coração oco,
quisera um dia ter nascido Júlia Roberts
magrinha, elegante, cheia de amor e Richard Gere...
906
Mônica Banderas
Desaflito
A solidão é um transplante
de um peito de carne
para um peito de aço.
É a sétima arte equivocada
com a película da face (endurecida)
A solidão é portadora de equívocos.
É um corte ao norte do meu sonho
e à leste de meus planos e perspectivas.
de um peito de carne
para um peito de aço.
É a sétima arte equivocada
com a película da face (endurecida)
A solidão é portadora de equívocos.
É um corte ao norte do meu sonho
e à leste de meus planos e perspectivas.
1 064
Moreira Campos
Antecipação
Este fim de tarde,
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.
1 169
Moreira Campos
Antecipação
Este fim de tarde,
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.
1 169
Gerardo Mello Mourão
E onde o sítio do desejo? Pois moreno
E onde o sítio do desejo? Pois moreno
e triste sôbolos rios era; ao longe
o país dos Mourões e ao longe
o país de Apolo e para lá me vou nas caravelas
de Pero Lopes de Sousa
e de seus bagos venho.
E as moças de Jaguaribe em lua e cântaro?
Restavam — e era muito — as montanhas de azul
sôbolos rios do país das Gerais e a espera
de medrar-me afinal dos profetas de pedra
"Amós, digamos", Dantas,
que em chão de salmos e escrituras
sangra bela é no cactus a rosa
da peripécia: em vão
lavrada n’água
sôbolos rios a escritura
do canto do exílio se apagava. E onde
o sítio do desejo?
Entre a camisa e a pele
ia brotando a rosa
no coração talvez palpitasse em seu mapa
de uma rosa dos ventos a corola
tersa labareda
sobre o coração.
Ó país das Gerais onde "o cantar
dos galos é terrível na solidão" e onde
terrível é a saudade de umas terras que a tristeza
amua,
saudade de Airuoca onde
andam formigas, Carlos,
no cobertor vermelho de teu pai
e o doutor de Sião por nome Dantas
Dantas Mota vigia a dor no peito e
em vão o guarda o cachecol de seda
quando ao vento montês
instalam-se os soluços e as sanfonas.
Pois cantar de Sião também ali
pastei estrelas: e por longos anos
o exilado sonhava exílios novos
e ao tom dos sinos e à sombra
das cimarrras dos padres professores
suspeitei tua voz: e de que lado
do mundo é que as auroras nascem?
E de muitos outros países me pediram notícias
pois podes pedir-me agora notícias de muitos
outros países
tenho notícias de muitos outros países
— boa romaria faz
quem em sua casa fica em paz —
e mau romeiro há sido o filho dos Mourões
debaixo de seu chapéu fez moradia:
pisando o chão de suas casas
moram uns com seus pés — e sob o céu
populoso das constelações
caminha esta cabeça moradora: e o que mora
de mim são estes
cabelos inocentes e a testa
e os pasmados olhos:
agora tu, Calíope, me ensina
as imagens não vasadas no vasado olho de Luís Vaz
le roi Edipe a peut-être
un oeil de trop
furente Adamastor comeu um olho
ao filho dos Mourões e onde
foi pupila hoje é ruína
de templo e de mansão e às vezes temo
não reste de tanto rosto desejado
senão sobejos na poeira onde rolaram
as cascas de laranja devoradas.
Mas onde o sítio do desejo?
O mar, o mar de Pero nos rolava para terra
e não podíamos surgir
porque o fundo era de pedra
outro dia ao meio-dia fomos dar à praia
ali, achamos uma nau de duzentos tonéis
e uma chalupa de castelhanos e em chegando
nos disseram
como iam ao Rio Maranhão e o capitão
lhes mandou requerer não fossem sôbolo rio
porquanto era de El-Rei Nosso Senhor e dentro
de sua demarcação — ali
tomei o sol em quinze graus e um sesmo
e em se cerrando a noite com muito vento nordeste
o galeão São Vicente perdeu duas âncoras em se
fazendo à vela
e a caravela Príncipe uma
o surgidouro deste porto é todo sujo
já não posso com as velas e o grande mar
arrebenta-me o mastro do traquete pelos
tamboretes
e engole minhas âncoras
abaixamos o mastro um côvado
pusemos-lhe umas emmes
e com arrataduras o corregemos
o melhor que podemos e gastamos
todo o dia em correger o mastro — mas onde
o sítio do desejo? Demorava-me, verde,
o Cabo Verde ao nordeste e tomava
da quarta do norte, e roxo
o Cabo Roxo a lesnordeste e demorava-me
a Serra Leoa a leste e à quarta do nordeste
fazíamos o caminho a sulsueste:
neste dia nos morreu um homem
o dia todo estivemos sem vento até o quarto da
modorra
e de noite, ao quarto da prima
nos deu uma trovoada de sueste e outra de nordeste
com muito vento e água e relâmpagos.
Naveguei navegamos
água vento relâmpago
entrâncias do labirinto de Gerardo
quartos de primas — Dora, Mariana, onde eram
doces tempestades e caminhos
do sítio do desejo
quartos da modorra depois:
todo animal entristece
depois do coito.
Gran força de vento nos fez
amainar de romania as velas
tomei o sol em dois graus: demorava-me
a ilha de Fernão de Loronha ao suleste
e ao sudoeste demorava
o Cabo de Santo Agostinho o olhar de Santa Mônica
nesta paragem correm as águas aloesnoroeste
e em certos tempos correm mais
assim que nesta paragem a pilotagem é incerta:
por experiência verdadeira
para saberdes se estais de barvalento ou de
julavento
da ilha de Fernão de Loronha
quando estais de barlavento vereis muitas aves
— os mais
rebiforcados e alcatrazes pretos
e de julavento vereis
mui poucas aves e as que virdes serão
alcatrazes brancos
e o mar é mui chão:
entre alcatrazes pretos
e alcatrazes brancos
por mar mui chão
por muito chão de mar
por mar e chão de chãs de terra de Alagoas
às vezes a um tiro de falcão do abismo
se arrisca à peripécia de Gerardo
e incerta é a pilotagem do perigo e Raul
e Efrain e Abdias e Godo e Napoleão
e os outros capitães, Francisco,
tapavam os olhos com a mão
sacudiam a cabeça e tremiam pelo navegante
cheios de misericórdia e terror:
"Carlos — diziam — Carlos, o temerário"—
e era Gerardo entrando, amor,
Gerardo em seu labirinto
e cada qual teria o seu: jogava
Juan y su laberinto
de papel
Agustín y su laberinto
de farsa
Godo y su laberinto
de estrelas
Abdias e seu labirinto
de bocetas
Francisco e seu labirinto
de anjos e Tomás
e seu labirinto de maçã
e vai morrer mordendo a fruta
do primeiro Adão
Tomás talvez o último Adão
mordendo a sua fruta e a fruta
de todos esses labirintos
tem o mesmo sabor o mesmo aroma:
assim, digamos, Gerardo
em seu labirinto navegava
farsa estrela papel bocetas anjos e maçãs
Mas onde o sítio do desejo?
e triste sôbolos rios era; ao longe
o país dos Mourões e ao longe
o país de Apolo e para lá me vou nas caravelas
de Pero Lopes de Sousa
e de seus bagos venho.
E as moças de Jaguaribe em lua e cântaro?
Restavam — e era muito — as montanhas de azul
sôbolos rios do país das Gerais e a espera
de medrar-me afinal dos profetas de pedra
"Amós, digamos", Dantas,
que em chão de salmos e escrituras
sangra bela é no cactus a rosa
da peripécia: em vão
lavrada n’água
sôbolos rios a escritura
do canto do exílio se apagava. E onde
o sítio do desejo?
Entre a camisa e a pele
ia brotando a rosa
no coração talvez palpitasse em seu mapa
de uma rosa dos ventos a corola
tersa labareda
sobre o coração.
Ó país das Gerais onde "o cantar
dos galos é terrível na solidão" e onde
terrível é a saudade de umas terras que a tristeza
amua,
saudade de Airuoca onde
andam formigas, Carlos,
no cobertor vermelho de teu pai
e o doutor de Sião por nome Dantas
Dantas Mota vigia a dor no peito e
em vão o guarda o cachecol de seda
quando ao vento montês
instalam-se os soluços e as sanfonas.
Pois cantar de Sião também ali
pastei estrelas: e por longos anos
o exilado sonhava exílios novos
e ao tom dos sinos e à sombra
das cimarrras dos padres professores
suspeitei tua voz: e de que lado
do mundo é que as auroras nascem?
E de muitos outros países me pediram notícias
pois podes pedir-me agora notícias de muitos
outros países
tenho notícias de muitos outros países
— boa romaria faz
quem em sua casa fica em paz —
e mau romeiro há sido o filho dos Mourões
debaixo de seu chapéu fez moradia:
pisando o chão de suas casas
moram uns com seus pés — e sob o céu
populoso das constelações
caminha esta cabeça moradora: e o que mora
de mim são estes
cabelos inocentes e a testa
e os pasmados olhos:
agora tu, Calíope, me ensina
as imagens não vasadas no vasado olho de Luís Vaz
le roi Edipe a peut-être
un oeil de trop
furente Adamastor comeu um olho
ao filho dos Mourões e onde
foi pupila hoje é ruína
de templo e de mansão e às vezes temo
não reste de tanto rosto desejado
senão sobejos na poeira onde rolaram
as cascas de laranja devoradas.
Mas onde o sítio do desejo?
O mar, o mar de Pero nos rolava para terra
e não podíamos surgir
porque o fundo era de pedra
outro dia ao meio-dia fomos dar à praia
ali, achamos uma nau de duzentos tonéis
e uma chalupa de castelhanos e em chegando
nos disseram
como iam ao Rio Maranhão e o capitão
lhes mandou requerer não fossem sôbolo rio
porquanto era de El-Rei Nosso Senhor e dentro
de sua demarcação — ali
tomei o sol em quinze graus e um sesmo
e em se cerrando a noite com muito vento nordeste
o galeão São Vicente perdeu duas âncoras em se
fazendo à vela
e a caravela Príncipe uma
o surgidouro deste porto é todo sujo
já não posso com as velas e o grande mar
arrebenta-me o mastro do traquete pelos
tamboretes
e engole minhas âncoras
abaixamos o mastro um côvado
pusemos-lhe umas emmes
e com arrataduras o corregemos
o melhor que podemos e gastamos
todo o dia em correger o mastro — mas onde
o sítio do desejo? Demorava-me, verde,
o Cabo Verde ao nordeste e tomava
da quarta do norte, e roxo
o Cabo Roxo a lesnordeste e demorava-me
a Serra Leoa a leste e à quarta do nordeste
fazíamos o caminho a sulsueste:
neste dia nos morreu um homem
o dia todo estivemos sem vento até o quarto da
modorra
e de noite, ao quarto da prima
nos deu uma trovoada de sueste e outra de nordeste
com muito vento e água e relâmpagos.
Naveguei navegamos
água vento relâmpago
entrâncias do labirinto de Gerardo
quartos de primas — Dora, Mariana, onde eram
doces tempestades e caminhos
do sítio do desejo
quartos da modorra depois:
todo animal entristece
depois do coito.
Gran força de vento nos fez
amainar de romania as velas
tomei o sol em dois graus: demorava-me
a ilha de Fernão de Loronha ao suleste
e ao sudoeste demorava
o Cabo de Santo Agostinho o olhar de Santa Mônica
nesta paragem correm as águas aloesnoroeste
e em certos tempos correm mais
assim que nesta paragem a pilotagem é incerta:
por experiência verdadeira
para saberdes se estais de barvalento ou de
julavento
da ilha de Fernão de Loronha
quando estais de barlavento vereis muitas aves
— os mais
rebiforcados e alcatrazes pretos
e de julavento vereis
mui poucas aves e as que virdes serão
alcatrazes brancos
e o mar é mui chão:
entre alcatrazes pretos
e alcatrazes brancos
por mar mui chão
por muito chão de mar
por mar e chão de chãs de terra de Alagoas
às vezes a um tiro de falcão do abismo
se arrisca à peripécia de Gerardo
e incerta é a pilotagem do perigo e Raul
e Efrain e Abdias e Godo e Napoleão
e os outros capitães, Francisco,
tapavam os olhos com a mão
sacudiam a cabeça e tremiam pelo navegante
cheios de misericórdia e terror:
"Carlos — diziam — Carlos, o temerário"—
e era Gerardo entrando, amor,
Gerardo em seu labirinto
e cada qual teria o seu: jogava
Juan y su laberinto
de papel
Agustín y su laberinto
de farsa
Godo y su laberinto
de estrelas
Abdias e seu labirinto
de bocetas
Francisco e seu labirinto
de anjos e Tomás
e seu labirinto de maçã
e vai morrer mordendo a fruta
do primeiro Adão
Tomás talvez o último Adão
mordendo a sua fruta e a fruta
de todos esses labirintos
tem o mesmo sabor o mesmo aroma:
assim, digamos, Gerardo
em seu labirinto navegava
farsa estrela papel bocetas anjos e maçãs
Mas onde o sítio do desejo?
783
Gerardo Mello Mourão
E onde o sítio do desejo? Pois moreno
E onde o sítio do desejo? Pois moreno
e triste sôbolos rios era; ao longe
o país dos Mourões e ao longe
o país de Apolo e para lá me vou nas caravelas
de Pero Lopes de Sousa
e de seus bagos venho.
E as moças de Jaguaribe em lua e cântaro?
Restavam — e era muito — as montanhas de azul
sôbolos rios do país das Gerais e a espera
de medrar-me afinal dos profetas de pedra
"Amós, digamos", Dantas,
que em chão de salmos e escrituras
sangra bela é no cactus a rosa
da peripécia: em vão
lavrada n’água
sôbolos rios a escritura
do canto do exílio se apagava. E onde
o sítio do desejo?
Entre a camisa e a pele
ia brotando a rosa
no coração talvez palpitasse em seu mapa
de uma rosa dos ventos a corola
tersa labareda
sobre o coração.
Ó país das Gerais onde "o cantar
dos galos é terrível na solidão" e onde
terrível é a saudade de umas terras que a tristeza
amua,
saudade de Airuoca onde
andam formigas, Carlos,
no cobertor vermelho de teu pai
e o doutor de Sião por nome Dantas
Dantas Mota vigia a dor no peito e
em vão o guarda o cachecol de seda
quando ao vento montês
instalam-se os soluços e as sanfonas.
Pois cantar de Sião também ali
pastei estrelas: e por longos anos
o exilado sonhava exílios novos
e ao tom dos sinos e à sombra
das cimarrras dos padres professores
suspeitei tua voz: e de que lado
do mundo é que as auroras nascem?
E de muitos outros países me pediram notícias
pois podes pedir-me agora notícias de muitos
outros países
tenho notícias de muitos outros países
— boa romaria faz
quem em sua casa fica em paz —
e mau romeiro há sido o filho dos Mourões
debaixo de seu chapéu fez moradia:
pisando o chão de suas casas
moram uns com seus pés — e sob o céu
populoso das constelações
caminha esta cabeça moradora: e o que mora
de mim são estes
cabelos inocentes e a testa
e os pasmados olhos:
agora tu, Calíope, me ensina
as imagens não vasadas no vasado olho de Luís Vaz
le roi Edipe a peut-être
un oeil de trop
furente Adamastor comeu um olho
ao filho dos Mourões e onde
foi pupila hoje é ruína
de templo e de mansão e às vezes temo
não reste de tanto rosto desejado
senão sobejos na poeira onde rolaram
as cascas de laranja devoradas.
Mas onde o sítio do desejo?
O mar, o mar de Pero nos rolava para terra
e não podíamos surgir
porque o fundo era de pedra
outro dia ao meio-dia fomos dar à praia
ali, achamos uma nau de duzentos tonéis
e uma chalupa de castelhanos e em chegando
nos disseram
como iam ao Rio Maranhão e o capitão
lhes mandou requerer não fossem sôbolo rio
porquanto era de El-Rei Nosso Senhor e dentro
de sua demarcação — ali
tomei o sol em quinze graus e um sesmo
e em se cerrando a noite com muito vento nordeste
o galeão São Vicente perdeu duas âncoras em se
fazendo à vela
e a caravela Príncipe uma
o surgidouro deste porto é todo sujo
já não posso com as velas e o grande mar
arrebenta-me o mastro do traquete pelos
tamboretes
e engole minhas âncoras
abaixamos o mastro um côvado
pusemos-lhe umas emmes
e com arrataduras o corregemos
o melhor que podemos e gastamos
todo o dia em correger o mastro — mas onde
o sítio do desejo? Demorava-me, verde,
o Cabo Verde ao nordeste e tomava
da quarta do norte, e roxo
o Cabo Roxo a lesnordeste e demorava-me
a Serra Leoa a leste e à quarta do nordeste
fazíamos o caminho a sulsueste:
neste dia nos morreu um homem
o dia todo estivemos sem vento até o quarto da
modorra
e de noite, ao quarto da prima
nos deu uma trovoada de sueste e outra de nordeste
com muito vento e água e relâmpagos.
Naveguei navegamos
água vento relâmpago
entrâncias do labirinto de Gerardo
quartos de primas — Dora, Mariana, onde eram
doces tempestades e caminhos
do sítio do desejo
quartos da modorra depois:
todo animal entristece
depois do coito.
Gran força de vento nos fez
amainar de romania as velas
tomei o sol em dois graus: demorava-me
a ilha de Fernão de Loronha ao suleste
e ao sudoeste demorava
o Cabo de Santo Agostinho o olhar de Santa Mônica
nesta paragem correm as águas aloesnoroeste
e em certos tempos correm mais
assim que nesta paragem a pilotagem é incerta:
por experiência verdadeira
para saberdes se estais de barvalento ou de
julavento
da ilha de Fernão de Loronha
quando estais de barlavento vereis muitas aves
— os mais
rebiforcados e alcatrazes pretos
e de julavento vereis
mui poucas aves e as que virdes serão
alcatrazes brancos
e o mar é mui chão:
entre alcatrazes pretos
e alcatrazes brancos
por mar mui chão
por muito chão de mar
por mar e chão de chãs de terra de Alagoas
às vezes a um tiro de falcão do abismo
se arrisca à peripécia de Gerardo
e incerta é a pilotagem do perigo e Raul
e Efrain e Abdias e Godo e Napoleão
e os outros capitães, Francisco,
tapavam os olhos com a mão
sacudiam a cabeça e tremiam pelo navegante
cheios de misericórdia e terror:
"Carlos — diziam — Carlos, o temerário"—
e era Gerardo entrando, amor,
Gerardo em seu labirinto
e cada qual teria o seu: jogava
Juan y su laberinto
de papel
Agustín y su laberinto
de farsa
Godo y su laberinto
de estrelas
Abdias e seu labirinto
de bocetas
Francisco e seu labirinto
de anjos e Tomás
e seu labirinto de maçã
e vai morrer mordendo a fruta
do primeiro Adão
Tomás talvez o último Adão
mordendo a sua fruta e a fruta
de todos esses labirintos
tem o mesmo sabor o mesmo aroma:
assim, digamos, Gerardo
em seu labirinto navegava
farsa estrela papel bocetas anjos e maçãs
Mas onde o sítio do desejo?
e triste sôbolos rios era; ao longe
o país dos Mourões e ao longe
o país de Apolo e para lá me vou nas caravelas
de Pero Lopes de Sousa
e de seus bagos venho.
E as moças de Jaguaribe em lua e cântaro?
Restavam — e era muito — as montanhas de azul
sôbolos rios do país das Gerais e a espera
de medrar-me afinal dos profetas de pedra
"Amós, digamos", Dantas,
que em chão de salmos e escrituras
sangra bela é no cactus a rosa
da peripécia: em vão
lavrada n’água
sôbolos rios a escritura
do canto do exílio se apagava. E onde
o sítio do desejo?
Entre a camisa e a pele
ia brotando a rosa
no coração talvez palpitasse em seu mapa
de uma rosa dos ventos a corola
tersa labareda
sobre o coração.
Ó país das Gerais onde "o cantar
dos galos é terrível na solidão" e onde
terrível é a saudade de umas terras que a tristeza
amua,
saudade de Airuoca onde
andam formigas, Carlos,
no cobertor vermelho de teu pai
e o doutor de Sião por nome Dantas
Dantas Mota vigia a dor no peito e
em vão o guarda o cachecol de seda
quando ao vento montês
instalam-se os soluços e as sanfonas.
Pois cantar de Sião também ali
pastei estrelas: e por longos anos
o exilado sonhava exílios novos
e ao tom dos sinos e à sombra
das cimarrras dos padres professores
suspeitei tua voz: e de que lado
do mundo é que as auroras nascem?
E de muitos outros países me pediram notícias
pois podes pedir-me agora notícias de muitos
outros países
tenho notícias de muitos outros países
— boa romaria faz
quem em sua casa fica em paz —
e mau romeiro há sido o filho dos Mourões
debaixo de seu chapéu fez moradia:
pisando o chão de suas casas
moram uns com seus pés — e sob o céu
populoso das constelações
caminha esta cabeça moradora: e o que mora
de mim são estes
cabelos inocentes e a testa
e os pasmados olhos:
agora tu, Calíope, me ensina
as imagens não vasadas no vasado olho de Luís Vaz
le roi Edipe a peut-être
un oeil de trop
furente Adamastor comeu um olho
ao filho dos Mourões e onde
foi pupila hoje é ruína
de templo e de mansão e às vezes temo
não reste de tanto rosto desejado
senão sobejos na poeira onde rolaram
as cascas de laranja devoradas.
Mas onde o sítio do desejo?
O mar, o mar de Pero nos rolava para terra
e não podíamos surgir
porque o fundo era de pedra
outro dia ao meio-dia fomos dar à praia
ali, achamos uma nau de duzentos tonéis
e uma chalupa de castelhanos e em chegando
nos disseram
como iam ao Rio Maranhão e o capitão
lhes mandou requerer não fossem sôbolo rio
porquanto era de El-Rei Nosso Senhor e dentro
de sua demarcação — ali
tomei o sol em quinze graus e um sesmo
e em se cerrando a noite com muito vento nordeste
o galeão São Vicente perdeu duas âncoras em se
fazendo à vela
e a caravela Príncipe uma
o surgidouro deste porto é todo sujo
já não posso com as velas e o grande mar
arrebenta-me o mastro do traquete pelos
tamboretes
e engole minhas âncoras
abaixamos o mastro um côvado
pusemos-lhe umas emmes
e com arrataduras o corregemos
o melhor que podemos e gastamos
todo o dia em correger o mastro — mas onde
o sítio do desejo? Demorava-me, verde,
o Cabo Verde ao nordeste e tomava
da quarta do norte, e roxo
o Cabo Roxo a lesnordeste e demorava-me
a Serra Leoa a leste e à quarta do nordeste
fazíamos o caminho a sulsueste:
neste dia nos morreu um homem
o dia todo estivemos sem vento até o quarto da
modorra
e de noite, ao quarto da prima
nos deu uma trovoada de sueste e outra de nordeste
com muito vento e água e relâmpagos.
Naveguei navegamos
água vento relâmpago
entrâncias do labirinto de Gerardo
quartos de primas — Dora, Mariana, onde eram
doces tempestades e caminhos
do sítio do desejo
quartos da modorra depois:
todo animal entristece
depois do coito.
Gran força de vento nos fez
amainar de romania as velas
tomei o sol em dois graus: demorava-me
a ilha de Fernão de Loronha ao suleste
e ao sudoeste demorava
o Cabo de Santo Agostinho o olhar de Santa Mônica
nesta paragem correm as águas aloesnoroeste
e em certos tempos correm mais
assim que nesta paragem a pilotagem é incerta:
por experiência verdadeira
para saberdes se estais de barvalento ou de
julavento
da ilha de Fernão de Loronha
quando estais de barlavento vereis muitas aves
— os mais
rebiforcados e alcatrazes pretos
e de julavento vereis
mui poucas aves e as que virdes serão
alcatrazes brancos
e o mar é mui chão:
entre alcatrazes pretos
e alcatrazes brancos
por mar mui chão
por muito chão de mar
por mar e chão de chãs de terra de Alagoas
às vezes a um tiro de falcão do abismo
se arrisca à peripécia de Gerardo
e incerta é a pilotagem do perigo e Raul
e Efrain e Abdias e Godo e Napoleão
e os outros capitães, Francisco,
tapavam os olhos com a mão
sacudiam a cabeça e tremiam pelo navegante
cheios de misericórdia e terror:
"Carlos — diziam — Carlos, o temerário"—
e era Gerardo entrando, amor,
Gerardo em seu labirinto
e cada qual teria o seu: jogava
Juan y su laberinto
de papel
Agustín y su laberinto
de farsa
Godo y su laberinto
de estrelas
Abdias e seu labirinto
de bocetas
Francisco e seu labirinto
de anjos e Tomás
e seu labirinto de maçã
e vai morrer mordendo a fruta
do primeiro Adão
Tomás talvez o último Adão
mordendo a sua fruta e a fruta
de todos esses labirintos
tem o mesmo sabor o mesmo aroma:
assim, digamos, Gerardo
em seu labirinto navegava
farsa estrela papel bocetas anjos e maçãs
Mas onde o sítio do desejo?
783
Gerardo Mello Mourão
Quem de vocês matou o uruguaio
"Quem de vocês matou o uruguaio?"
os soldados não sabiam
"Quero saber imediatamente quem matou o uruguaio" —
— "Saberá Vossa Senhoria que fui eu, Benedito Antônio da Silva, natural do Crato,
número 39 da 2.a Companhia do 12, praça de 1851, ferido na batalha de Caseros".
"E por que matou?"
— "Vossa Mercê, que é da raça dos Mourões, não há de ignorar que eu também
sou morador daqueles pés-de-serra e por isto matei o gringo; pois saiba
Vossa Mercê que estou sem matar desde a guerra do Rosas e o Senhor seu pai me
encomendou três dúzias. Tá completo".
Sob a pala da barretina agaloada
o General de rosto sereno e triste
sorriu sobre o pátio do quartel de Bastarrica
e mandou os soldados passearem tocando
charanga pelas ruas de Montevidéu.
O Marquês de Herval era galante:
Ordem do Dia sobre a batalha de Tuiuti:
— é de louvar o bizarro comportamento do General Sampaio, da raça dos Mourões —
o primeiro cavalo fora derrubado à bala, o segundo também e o terceiro e o quarto
varados à baioneta
combatia a pé
"Guarde seu cavalo, alferes, eu sou da Infantaria"
"Corra à barraca de Osório e diga que estou perdendo muito sangue, é conveniente
substituir-me, fui ferido duas vezes"
continência do Alferes, mão de súbito no peito:
"e esta é a terceira".
"Maté el general brasilero!"
ainda não — e o paraguaio engoliu com chumbo a última sílaba
na mão o sangue da última tapa de carícia sobre a cabeça de seu alazão
espedaçada à bala
quando outra bala decepa a folha da espada
"soldado, passe-me sua espada"
um olhar para o alferes fanfarrão:
tomara a bandeira do porta-estandarte e no meio do mar de sangue e fumaça gritava
"viva o General Sampaio!"
e nos braços dos guerreiros que rangiam os dentes e choravam
e banhado no sangue dos cavalos fortes como o seu
e banhado em seu sangue o sangue
da raça dos Mourões:
"não corte minha perna, doutor,
um general morto é bizarro ainda
um general coxo é feio".
E belo e triste em seu caixão de zinco
os guerreiros da Argentina e do Uruguai lhe hastearam em funeral as bandeiras do Prata
e sobre o chão do país de Godo, Raul e Efran
vou lavrando a escritura deste canto
e ali também é o país dos Mourões e nosso primo Martin Fierro e Osório,
Marquês de Herval, são testemunhas
Antônio de Sampaio, filho do ferreiro de Monte-Mor-o-Velho,
da estirpe de Francisco e Manuel,
da raça dos Mourões
era um general bizarro.
As exéquias na Corte custaram um conto e quatrocentos
o Maestro Arcângelo Fiorito regeu de graça o coro e a orquestra com
primeiros e segundos violinos, violas, violoncelos, fagotes e oboés e trompas e pistons
e Sua Majestade o Imperador que lhe trouxera o corpo de Buenos Aires
ao meio-dia em ponto na Ilha do Bom Jesus entre os inválidos da Pátria
curva a cabeça em reverência
ao filho dos Mourões:
— "Só no Maranhão foram quarenta e seis combates por Vossa Majestade"
sua Divisão se chamava Encouraçada
bateu o paraguaio a ferro-frio nas sangas dos banhados
encouraçada à dureza de seu olhar a soldadesca
não conhecia o medo
aquele olhar endurecido
ao ódio dos Mourões — seu amor e seu ódio —
e ao seu vigor ergueram-se e deitaram-se
para a vida e para a morte
as coisas e os logares e as pessoas.
"Alferes, a morte é bizarra
guarde este botão de minha farda de lembrança
e cante na hora aquela moda que eu cantei no Tamboril à janela de Maria Veras.
Aquela moda..."
E ao meu canto e à moda antiga
que cantavam os machos à janela das fêmeas
no país dos Mourões
vou lavrando a escritura destas terras que são minhas
até além do Prata e além dos Andes
das Ibiturunas azuis
e um dia
no cartório de Ipueiras, Penedo ou Arapiraca
te farei a doação dessas léguas de sesmaria
do Passo de Camaragibe a Villaguay,
de Crateús, Ipu e São Gonçalo dos Mourões
até Buenos Aires e Santiago do Chile e Guayaquil e Bogotá
nos termos da doação de minha avó Dona Ana Feitosa a Santo Anastácio e
Dona Úrsula Mourão a São Gonçalo
e, te farei sobre essas braças de chão
um templo e uma cama de cedro sob o céu de Deus
à sombra dos plátanos e das carnaubeiras para onde
deitada no meu lombo vens chegando.
os soldados não sabiam
"Quero saber imediatamente quem matou o uruguaio" —
— "Saberá Vossa Senhoria que fui eu, Benedito Antônio da Silva, natural do Crato,
número 39 da 2.a Companhia do 12, praça de 1851, ferido na batalha de Caseros".
"E por que matou?"
— "Vossa Mercê, que é da raça dos Mourões, não há de ignorar que eu também
sou morador daqueles pés-de-serra e por isto matei o gringo; pois saiba
Vossa Mercê que estou sem matar desde a guerra do Rosas e o Senhor seu pai me
encomendou três dúzias. Tá completo".
Sob a pala da barretina agaloada
o General de rosto sereno e triste
sorriu sobre o pátio do quartel de Bastarrica
e mandou os soldados passearem tocando
charanga pelas ruas de Montevidéu.
O Marquês de Herval era galante:
Ordem do Dia sobre a batalha de Tuiuti:
— é de louvar o bizarro comportamento do General Sampaio, da raça dos Mourões —
o primeiro cavalo fora derrubado à bala, o segundo também e o terceiro e o quarto
varados à baioneta
combatia a pé
"Guarde seu cavalo, alferes, eu sou da Infantaria"
"Corra à barraca de Osório e diga que estou perdendo muito sangue, é conveniente
substituir-me, fui ferido duas vezes"
continência do Alferes, mão de súbito no peito:
"e esta é a terceira".
"Maté el general brasilero!"
ainda não — e o paraguaio engoliu com chumbo a última sílaba
na mão o sangue da última tapa de carícia sobre a cabeça de seu alazão
espedaçada à bala
quando outra bala decepa a folha da espada
"soldado, passe-me sua espada"
um olhar para o alferes fanfarrão:
tomara a bandeira do porta-estandarte e no meio do mar de sangue e fumaça gritava
"viva o General Sampaio!"
e nos braços dos guerreiros que rangiam os dentes e choravam
e banhado no sangue dos cavalos fortes como o seu
e banhado em seu sangue o sangue
da raça dos Mourões:
"não corte minha perna, doutor,
um general morto é bizarro ainda
um general coxo é feio".
E belo e triste em seu caixão de zinco
os guerreiros da Argentina e do Uruguai lhe hastearam em funeral as bandeiras do Prata
e sobre o chão do país de Godo, Raul e Efran
vou lavrando a escritura deste canto
e ali também é o país dos Mourões e nosso primo Martin Fierro e Osório,
Marquês de Herval, são testemunhas
Antônio de Sampaio, filho do ferreiro de Monte-Mor-o-Velho,
da estirpe de Francisco e Manuel,
da raça dos Mourões
era um general bizarro.
As exéquias na Corte custaram um conto e quatrocentos
o Maestro Arcângelo Fiorito regeu de graça o coro e a orquestra com
primeiros e segundos violinos, violas, violoncelos, fagotes e oboés e trompas e pistons
e Sua Majestade o Imperador que lhe trouxera o corpo de Buenos Aires
ao meio-dia em ponto na Ilha do Bom Jesus entre os inválidos da Pátria
curva a cabeça em reverência
ao filho dos Mourões:
— "Só no Maranhão foram quarenta e seis combates por Vossa Majestade"
sua Divisão se chamava Encouraçada
bateu o paraguaio a ferro-frio nas sangas dos banhados
encouraçada à dureza de seu olhar a soldadesca
não conhecia o medo
aquele olhar endurecido
ao ódio dos Mourões — seu amor e seu ódio —
e ao seu vigor ergueram-se e deitaram-se
para a vida e para a morte
as coisas e os logares e as pessoas.
"Alferes, a morte é bizarra
guarde este botão de minha farda de lembrança
e cante na hora aquela moda que eu cantei no Tamboril à janela de Maria Veras.
Aquela moda..."
E ao meu canto e à moda antiga
que cantavam os machos à janela das fêmeas
no país dos Mourões
vou lavrando a escritura destas terras que são minhas
até além do Prata e além dos Andes
das Ibiturunas azuis
e um dia
no cartório de Ipueiras, Penedo ou Arapiraca
te farei a doação dessas léguas de sesmaria
do Passo de Camaragibe a Villaguay,
de Crateús, Ipu e São Gonçalo dos Mourões
até Buenos Aires e Santiago do Chile e Guayaquil e Bogotá
nos termos da doação de minha avó Dona Ana Feitosa a Santo Anastácio e
Dona Úrsula Mourão a São Gonçalo
e, te farei sobre essas braças de chão
um templo e uma cama de cedro sob o céu de Deus
à sombra dos plátanos e das carnaubeiras para onde
deitada no meu lombo vens chegando.
1 001
Gerardo Mello Mourão
Vamos, Marivalda, à madrugada
Vamos, Marivalda, à madrugada
aprender a areia, a espuma
ensinar-te a ninfa e os exercícios:
todas têm sua vez e agora é a vez
de Marivalda e cada uma
ensaia a sua pauta: esta
ensina a nuca tonsurada, Paula, aquela o seio, Dalva,
Elisabeth a coxa, Iolanda os quadris,
je t’apprendrai une caresse nouvelle
le bout des doigts tout doucement, Dolly,
essa a boca, essa a orelha e sempre
Maria Helena a ordenação
o ensaio da mestria
a ordenação da posse o coração desordenado
de suas mãos amorosas o amor
ó
o amor abriu, compôs o cravo de vinho em que me torno e entorno
à tua boca, à tua embriaguez.
aprender a areia, a espuma
ensinar-te a ninfa e os exercícios:
todas têm sua vez e agora é a vez
de Marivalda e cada uma
ensaia a sua pauta: esta
ensina a nuca tonsurada, Paula, aquela o seio, Dalva,
Elisabeth a coxa, Iolanda os quadris,
je t’apprendrai une caresse nouvelle
le bout des doigts tout doucement, Dolly,
essa a boca, essa a orelha e sempre
Maria Helena a ordenação
o ensaio da mestria
a ordenação da posse o coração desordenado
de suas mãos amorosas o amor
ó
o amor abriu, compôs o cravo de vinho em que me torno e entorno
à tua boca, à tua embriaguez.
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Gerardo Mello Mourão
Vamos, Marivalda, à madrugada
Vamos, Marivalda, à madrugada
aprender a areia, a espuma
ensinar-te a ninfa e os exercícios:
todas têm sua vez e agora é a vez
de Marivalda e cada uma
ensaia a sua pauta: esta
ensina a nuca tonsurada, Paula, aquela o seio, Dalva,
Elisabeth a coxa, Iolanda os quadris,
je t’apprendrai une caresse nouvelle
le bout des doigts tout doucement, Dolly,
essa a boca, essa a orelha e sempre
Maria Helena a ordenação
o ensaio da mestria
a ordenação da posse o coração desordenado
de suas mãos amorosas o amor
ó
o amor abriu, compôs o cravo de vinho em que me torno e entorno
à tua boca, à tua embriaguez.
aprender a areia, a espuma
ensinar-te a ninfa e os exercícios:
todas têm sua vez e agora é a vez
de Marivalda e cada uma
ensaia a sua pauta: esta
ensina a nuca tonsurada, Paula, aquela o seio, Dalva,
Elisabeth a coxa, Iolanda os quadris,
je t’apprendrai une caresse nouvelle
le bout des doigts tout doucement, Dolly,
essa a boca, essa a orelha e sempre
Maria Helena a ordenação
o ensaio da mestria
a ordenação da posse o coração desordenado
de suas mãos amorosas o amor
ó
o amor abriu, compôs o cravo de vinho em que me torno e entorno
à tua boca, à tua embriaguez.
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M. de Monte Maggiore
Salmo da Meia Noite
Tua voz suavizou minha alma e teu pensamento desceu ao meu
coração como um bálsamo.
As tristezas se foram, dispersadas.
A Paz veio, leve como um pássaro,
e a Poesia desatou suas pétalas perfumadas.
Repara, doce Amor, na melodia do meu alaúde.
Estes acordes delicados são para ti uma carícia.
Que vaie a vida sem o Cisne Branco do meu lago azul?
Desprende, Ave Sagrada, um vôo altaneiro e vem pousar nas
águas mansas do meu jardim fechado.
Dar-te-ei carne de coração na hóstia de um amor imenso!
Beberás o licor da poesia no cálice dos meus lábios.
Serás imortal!
Abre as asas brancas nas campinas azuis, onde o sol passeia, e
vem, que te espero, ansiosamente.
Ergueremos um pavilhão colorido nos montes de Sião.
Nossa casa terá água cristalina para os que têm sede
e pão branco para os que pisam os caminhos da vida.
Todas as tardes passearemos envoltos na brisa vespertina e descobriremos,
no horizonte, as telas imortais do Criador,
Em nossa tenda haverá tapetes de Caxemira e pérolas de Ofir e
marfim da índia e rosas de Jericó...
Nossas manhãs serão claras como as manhãs de abril e nossas
noites suaves como as noites de luar de agosto.
Haverá em tudo aquele riso bom que sai do coração, porque
nossa felicidade saiu das mãos de Deus!
Doce amiga, teu perfume me vem na asa da saudade.
A carícia de tuas mãos, sinto-a sobre meus olhos cansados, ao
cair da tarde.
Há um lugar chorando uma ausência... Dentro da noite, ouve-se
um canto triste. É o pombo chamando a companheira para o
ninho vazio.
A felicidade está cantando baixinho a cancão da "Espera". "Ela"
vem vindo, lá longe, na curva azul da lemerança...
coração como um bálsamo.
As tristezas se foram, dispersadas.
A Paz veio, leve como um pássaro,
e a Poesia desatou suas pétalas perfumadas.
Repara, doce Amor, na melodia do meu alaúde.
Estes acordes delicados são para ti uma carícia.
Que vaie a vida sem o Cisne Branco do meu lago azul?
Desprende, Ave Sagrada, um vôo altaneiro e vem pousar nas
águas mansas do meu jardim fechado.
Dar-te-ei carne de coração na hóstia de um amor imenso!
Beberás o licor da poesia no cálice dos meus lábios.
Serás imortal!
Abre as asas brancas nas campinas azuis, onde o sol passeia, e
vem, que te espero, ansiosamente.
Ergueremos um pavilhão colorido nos montes de Sião.
Nossa casa terá água cristalina para os que têm sede
e pão branco para os que pisam os caminhos da vida.
Todas as tardes passearemos envoltos na brisa vespertina e descobriremos,
no horizonte, as telas imortais do Criador,
Em nossa tenda haverá tapetes de Caxemira e pérolas de Ofir e
marfim da índia e rosas de Jericó...
Nossas manhãs serão claras como as manhãs de abril e nossas
noites suaves como as noites de luar de agosto.
Haverá em tudo aquele riso bom que sai do coração, porque
nossa felicidade saiu das mãos de Deus!
Doce amiga, teu perfume me vem na asa da saudade.
A carícia de tuas mãos, sinto-a sobre meus olhos cansados, ao
cair da tarde.
Há um lugar chorando uma ausência... Dentro da noite, ouve-se
um canto triste. É o pombo chamando a companheira para o
ninho vazio.
A felicidade está cantando baixinho a cancão da "Espera". "Ela"
vem vindo, lá longe, na curva azul da lemerança...
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M. de Monte Maggiore
Salmo da Meia Noite
Tua voz suavizou minha alma e teu pensamento desceu ao meu
coração como um bálsamo.
As tristezas se foram, dispersadas.
A Paz veio, leve como um pássaro,
e a Poesia desatou suas pétalas perfumadas.
Repara, doce Amor, na melodia do meu alaúde.
Estes acordes delicados são para ti uma carícia.
Que vaie a vida sem o Cisne Branco do meu lago azul?
Desprende, Ave Sagrada, um vôo altaneiro e vem pousar nas
águas mansas do meu jardim fechado.
Dar-te-ei carne de coração na hóstia de um amor imenso!
Beberás o licor da poesia no cálice dos meus lábios.
Serás imortal!
Abre as asas brancas nas campinas azuis, onde o sol passeia, e
vem, que te espero, ansiosamente.
Ergueremos um pavilhão colorido nos montes de Sião.
Nossa casa terá água cristalina para os que têm sede
e pão branco para os que pisam os caminhos da vida.
Todas as tardes passearemos envoltos na brisa vespertina e descobriremos,
no horizonte, as telas imortais do Criador,
Em nossa tenda haverá tapetes de Caxemira e pérolas de Ofir e
marfim da índia e rosas de Jericó...
Nossas manhãs serão claras como as manhãs de abril e nossas
noites suaves como as noites de luar de agosto.
Haverá em tudo aquele riso bom que sai do coração, porque
nossa felicidade saiu das mãos de Deus!
Doce amiga, teu perfume me vem na asa da saudade.
A carícia de tuas mãos, sinto-a sobre meus olhos cansados, ao
cair da tarde.
Há um lugar chorando uma ausência... Dentro da noite, ouve-se
um canto triste. É o pombo chamando a companheira para o
ninho vazio.
A felicidade está cantando baixinho a cancão da "Espera". "Ela"
vem vindo, lá longe, na curva azul da lemerança...
coração como um bálsamo.
As tristezas se foram, dispersadas.
A Paz veio, leve como um pássaro,
e a Poesia desatou suas pétalas perfumadas.
Repara, doce Amor, na melodia do meu alaúde.
Estes acordes delicados são para ti uma carícia.
Que vaie a vida sem o Cisne Branco do meu lago azul?
Desprende, Ave Sagrada, um vôo altaneiro e vem pousar nas
águas mansas do meu jardim fechado.
Dar-te-ei carne de coração na hóstia de um amor imenso!
Beberás o licor da poesia no cálice dos meus lábios.
Serás imortal!
Abre as asas brancas nas campinas azuis, onde o sol passeia, e
vem, que te espero, ansiosamente.
Ergueremos um pavilhão colorido nos montes de Sião.
Nossa casa terá água cristalina para os que têm sede
e pão branco para os que pisam os caminhos da vida.
Todas as tardes passearemos envoltos na brisa vespertina e descobriremos,
no horizonte, as telas imortais do Criador,
Em nossa tenda haverá tapetes de Caxemira e pérolas de Ofir e
marfim da índia e rosas de Jericó...
Nossas manhãs serão claras como as manhãs de abril e nossas
noites suaves como as noites de luar de agosto.
Haverá em tudo aquele riso bom que sai do coração, porque
nossa felicidade saiu das mãos de Deus!
Doce amiga, teu perfume me vem na asa da saudade.
A carícia de tuas mãos, sinto-a sobre meus olhos cansados, ao
cair da tarde.
Há um lugar chorando uma ausência... Dentro da noite, ouve-se
um canto triste. É o pombo chamando a companheira para o
ninho vazio.
A felicidade está cantando baixinho a cancão da "Espera". "Ela"
vem vindo, lá longe, na curva azul da lemerança...
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Gerardo Mello Mourão
Barão publicou na Revista do Instituto Histórico
Barão publicou na Revista do Instituto Histórico as
Memórias de Alexandre Mourão:
muito sangue e muito amor nessa história
e as velhas da família contam com ódio e orgulho a devastação das terras dos Mourões
pela tropa imperial
Alexandre Mourão salvou-se atravessando a nado o rio Parnaíba com um patacão
de dois mil réis na boca
e o ódio e o orgulho e o sangue e o amor e os patacões de prata são
a herança de meus filhos
e a minha tarefa é atravessar o rio a nado
com o ódio o orgulho o sangue o amor e os patacões de prata
na boca
e nunca perecer na travessia
e saltar na terra estrangeira
a água de meus rios escorrendo dos cabelos
e o barro de minha terra no couro das alpercatas e do peito.
Francisco, neto de Tobias, tinha os cabelos de ouro
e arrancava comigo no quintal as penas dos pavões azuis
e caiu da grande cajazeira sobre a lança do gradil
e houve um jorro de sangue em sua coxa
o sangue pintou a cauda azul dos pavões
o sangue dos Mourões se derrama no país dos Mourões há quatro séculos
o velho Tobias derramou o seu nos dentes de um jacaré do Amazonas
também o derramam das coxas as raparigas fecundas
temos cobrado largamente o nosso sangue
e do alimento da bravura o nosso coração
faz a sua pureza e a sua força
e na festa rústica à beira da fogueira
nossos adolescentes ensinavam os meninos
a cantarem na viola em mesmo tom
o amor e a morte. E as primas prometiam
o seio e o ventre
às estrelas de agosto
e à lua do Equador.
A linha do Equador passa aqui perto
e o signo de Capricórnio já me envolve
no tempo e no espaço e envolta nele
ao luar do trópico
— ó noite de Crateús! —
veio Elisa banhada no açude
veio Carmen banhada nos jasmins da noite
vieram as primas de vestido encarnado e veio
ao coração do infante o vaticínio
do rosto que trarias
o anúncio de teus olhos e o desejo
dos quadris adivinhados
noutras noites mais longe possuídos.
A linha do Equador passa aqui perto
e de seu fio de fogo o meu novelo
há de levar ao coração varado do Minotauro
e dali devolver a alegria
dos rapares e raparigas de Atenas
a linha do Equador passa aqui perto
e em portulanos
de Gênova e de Sagres fui sonhado:
Vicente Yañez Pínzón e Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral
e Bartolomeu Perestrello e o Infante Dom Henrique e Isabel, a Católica,
me caçavam no mar entre hipocampos.
"Se o Amor servir de guia, terás êxito"
disse a Teseu o oráculo de Delfos.
De tuas mãos, amor, recebo o novelo de fogo da linha do Equador
e vou e volto e devolvo aos conquistadores rijo e novo
o pênis que por mim se murchara no ventre
da índia Iracema da tribo tabajara.
Branca filha de Telefasse!
Crescem ao sol numa terra de sol
essas flores de cactus da grinalda
que me dói na cabeça
cresce a fome
das ervas que já vou pastar em tua mão:
sobre as margens do Letes
os plátanos de Creta
aprenderão as palmas sempre verdes
do buriti selvagem.
Não me temas se venho coroado dos cactus e talictres do país dos Mourões
e trago o rosto rude das terras imaturas
sou filho de Calíope e fui eu
que recebi de Apolo na floresta virgem
a cítara de Linos
e aprendi a tanger a cítara de Linos
e fui o primeiro a juntar mais duas cordas à cítara de Linos
e de volta do país moreno
sou eu que vou introduzir de novo em tua casa
a expiação dos crimes, o culto de Dionísios, de Hécate Ctônia
e os outros mistérios órficos.
Todas as noivas mortas voltarão
quando eu tanger a lira no Tenaro
e condoer os capitães do inferno.
Não, eu não te perdi; ao teu encalço
viajei o inferno e demorei no inferno
e ainda espedaçado nas orgias trácias
as águas do rio a arrastar-me a cabeça cortada
os lábios à torrente clamariam
teu nome — e tu serias no meu canto
e touro e cisne e degolado Orfeu
a flor do talictres tem o cheiro da semente humana
em meu lombo em minha asa em minha lira em minha toledana
celebrarás, ó bem amada,
o teu guerreiro e o teu cantor.
Memórias de Alexandre Mourão:
muito sangue e muito amor nessa história
e as velhas da família contam com ódio e orgulho a devastação das terras dos Mourões
pela tropa imperial
Alexandre Mourão salvou-se atravessando a nado o rio Parnaíba com um patacão
de dois mil réis na boca
e o ódio e o orgulho e o sangue e o amor e os patacões de prata são
a herança de meus filhos
e a minha tarefa é atravessar o rio a nado
com o ódio o orgulho o sangue o amor e os patacões de prata
na boca
e nunca perecer na travessia
e saltar na terra estrangeira
a água de meus rios escorrendo dos cabelos
e o barro de minha terra no couro das alpercatas e do peito.
Francisco, neto de Tobias, tinha os cabelos de ouro
e arrancava comigo no quintal as penas dos pavões azuis
e caiu da grande cajazeira sobre a lança do gradil
e houve um jorro de sangue em sua coxa
o sangue pintou a cauda azul dos pavões
o sangue dos Mourões se derrama no país dos Mourões há quatro séculos
o velho Tobias derramou o seu nos dentes de um jacaré do Amazonas
também o derramam das coxas as raparigas fecundas
temos cobrado largamente o nosso sangue
e do alimento da bravura o nosso coração
faz a sua pureza e a sua força
e na festa rústica à beira da fogueira
nossos adolescentes ensinavam os meninos
a cantarem na viola em mesmo tom
o amor e a morte. E as primas prometiam
o seio e o ventre
às estrelas de agosto
e à lua do Equador.
A linha do Equador passa aqui perto
e o signo de Capricórnio já me envolve
no tempo e no espaço e envolta nele
ao luar do trópico
— ó noite de Crateús! —
veio Elisa banhada no açude
veio Carmen banhada nos jasmins da noite
vieram as primas de vestido encarnado e veio
ao coração do infante o vaticínio
do rosto que trarias
o anúncio de teus olhos e o desejo
dos quadris adivinhados
noutras noites mais longe possuídos.
A linha do Equador passa aqui perto
e de seu fio de fogo o meu novelo
há de levar ao coração varado do Minotauro
e dali devolver a alegria
dos rapares e raparigas de Atenas
a linha do Equador passa aqui perto
e em portulanos
de Gênova e de Sagres fui sonhado:
Vicente Yañez Pínzón e Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral
e Bartolomeu Perestrello e o Infante Dom Henrique e Isabel, a Católica,
me caçavam no mar entre hipocampos.
"Se o Amor servir de guia, terás êxito"
disse a Teseu o oráculo de Delfos.
De tuas mãos, amor, recebo o novelo de fogo da linha do Equador
e vou e volto e devolvo aos conquistadores rijo e novo
o pênis que por mim se murchara no ventre
da índia Iracema da tribo tabajara.
Branca filha de Telefasse!
Crescem ao sol numa terra de sol
essas flores de cactus da grinalda
que me dói na cabeça
cresce a fome
das ervas que já vou pastar em tua mão:
sobre as margens do Letes
os plátanos de Creta
aprenderão as palmas sempre verdes
do buriti selvagem.
Não me temas se venho coroado dos cactus e talictres do país dos Mourões
e trago o rosto rude das terras imaturas
sou filho de Calíope e fui eu
que recebi de Apolo na floresta virgem
a cítara de Linos
e aprendi a tanger a cítara de Linos
e fui o primeiro a juntar mais duas cordas à cítara de Linos
e de volta do país moreno
sou eu que vou introduzir de novo em tua casa
a expiação dos crimes, o culto de Dionísios, de Hécate Ctônia
e os outros mistérios órficos.
Todas as noivas mortas voltarão
quando eu tanger a lira no Tenaro
e condoer os capitães do inferno.
Não, eu não te perdi; ao teu encalço
viajei o inferno e demorei no inferno
e ainda espedaçado nas orgias trácias
as águas do rio a arrastar-me a cabeça cortada
os lábios à torrente clamariam
teu nome — e tu serias no meu canto
e touro e cisne e degolado Orfeu
a flor do talictres tem o cheiro da semente humana
em meu lombo em minha asa em minha lira em minha toledana
celebrarás, ó bem amada,
o teu guerreiro e o teu cantor.
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Mônica Banderas
Medo
Enquanto esperamos
o nascer do dia,
acendemos fogueiras
para espantar fantasmas.
o nascer do dia,
acendemos fogueiras
para espantar fantasmas.
892
Mônica Banderas
Medo
Enquanto esperamos
o nascer do dia,
acendemos fogueiras
para espantar fantasmas.
o nascer do dia,
acendemos fogueiras
para espantar fantasmas.
892
Gerardo Mello Mourão
Nem sempre vinham imperadores a nossos enterros
Nem sempre vinham imperadores a nossos enterros
naquele tempo
mas nunca deixamos nossos mortos insepultos
insepultos eram os temerários
que ousaram nossa terra e nosso punho.
O Padre Martiniano de Alencar, pai de José de Alencar, governava a província
in illo tempore
a província era governada por um padre endemoniado, adúltero, covarde e por covarde
invejoso dos bravos que troavam livremente o clavinote pelos pés-de-serra dos Mourões
do pé-da-serra
e emprenhavam suas fêmeas ao ar livre
e eram fortes e belos e bons.
Este papel amarelo é uma carta de seu tetravô: encomenda doze caixas de vinho
francês outras doze de cognac de la ville de Cognac
para a fartura de sua mesa de caitetus, marrecos e veados e atas
maduras graviolas silvestres, cajás, cajus, melancias e ananazes no país dos Mourões
e biscoitos de Jacobs, London,
para as mulheres de sua casa
e por essas fidalguias
o biltre do Alencar decreta:
seja afogado em sangue o país dos Mourões.
Meus engenhos foram queimados
queimados vivos os garrotes de meus currais
ainda hoje nossas terras cheiram
a carne assada a mel queimado
à la viande flambée
não se afogam na água os surubins
no sangue não se afoga a raça dos Mourões
alimento do amor e da bravura
deste vinho se nutre o coração dos puros
deste vinho venho vindo e vejo a vida
e busco sua uva e te chamo de novo
vem, formosa mulher, camélia pálida
que banharam de luz as alvoradas
vem com teus olhos verdes desvairados
ensinar o caminho das uvas
o fervor destas veias quer mais vinho
minha raça é a dos embriagados
minha profissão, meu estado civil: bêbado
residência não tenho: bebo, bêbado, exilado
do país dos Mourões
conspiro a volta e conspiro o Anschlusz
de todas as terras à Capitania de meu avô à sesmaria
de meu país
de Ipueiras a Stocolmo e de Palmares de Pernambuco à ilha grega
essas terras são minhas
sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto
e vou lavrando a escritura de meu canto
e lavrando o tempo e o cedro de uma noite e de uma cama.
naquele tempo
mas nunca deixamos nossos mortos insepultos
insepultos eram os temerários
que ousaram nossa terra e nosso punho.
O Padre Martiniano de Alencar, pai de José de Alencar, governava a província
in illo tempore
a província era governada por um padre endemoniado, adúltero, covarde e por covarde
invejoso dos bravos que troavam livremente o clavinote pelos pés-de-serra dos Mourões
do pé-da-serra
e emprenhavam suas fêmeas ao ar livre
e eram fortes e belos e bons.
Este papel amarelo é uma carta de seu tetravô: encomenda doze caixas de vinho
francês outras doze de cognac de la ville de Cognac
para a fartura de sua mesa de caitetus, marrecos e veados e atas
maduras graviolas silvestres, cajás, cajus, melancias e ananazes no país dos Mourões
e biscoitos de Jacobs, London,
para as mulheres de sua casa
e por essas fidalguias
o biltre do Alencar decreta:
seja afogado em sangue o país dos Mourões.
Meus engenhos foram queimados
queimados vivos os garrotes de meus currais
ainda hoje nossas terras cheiram
a carne assada a mel queimado
à la viande flambée
não se afogam na água os surubins
no sangue não se afoga a raça dos Mourões
alimento do amor e da bravura
deste vinho se nutre o coração dos puros
deste vinho venho vindo e vejo a vida
e busco sua uva e te chamo de novo
vem, formosa mulher, camélia pálida
que banharam de luz as alvoradas
vem com teus olhos verdes desvairados
ensinar o caminho das uvas
o fervor destas veias quer mais vinho
minha raça é a dos embriagados
minha profissão, meu estado civil: bêbado
residência não tenho: bebo, bêbado, exilado
do país dos Mourões
conspiro a volta e conspiro o Anschlusz
de todas as terras à Capitania de meu avô à sesmaria
de meu país
de Ipueiras a Stocolmo e de Palmares de Pernambuco à ilha grega
essas terras são minhas
sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto
e vou lavrando a escritura de meu canto
e lavrando o tempo e o cedro de uma noite e de uma cama.
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