Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Gerardo Mello Mourão
Estivemos oito dias esperando
Estivemos oito dias esperando
por um bergantim
de nossa companhia se perdera: como não veio
mandou o Capitão pôr uma cruz na ilha e nela
atada
uma carta emburilhada em cera
e nela
dizia ao Capitão do bergantim
o que fizesse vindo ali ter:
e emburilhada em cera e mel
fincada com punhal no coração
esta é uma carta, amor, é teu canto de morte —
epitáfio
da primavera:
naquela madrugada
do Hospital dos Espanhóis:
quando teus olhos foram se afundando
na doce caravela de teu corpo,
a herança
de um quinhão de luz tocou aos meus e a camarinha
doou ao coração sua parte de ar
e no formal de partilha o silêncio
era só meu e o rumor
de uma voz — individido —
sucedeu ao ouvido solitário:
o amante da amada morta tem um ouvido a mais
et video cherubim ac seraphim
et audio:
no rádio de Paquita o tango de ontem
é agora mais forte sobre a rua
Benjamim Constant e no Largo da Glória, ó Paulo Flerrúng,
as merencórias putas são mais tristes
batem mais os relógios pela madrugada no sobrado
de Alice
e no bar do Soares se contemplam mais
as cadeiras espectantes:
partiu quem repartia
comigo o ar e a luz e o silêncio e o rumor
e de ar e de luz e de silêncio e vozes
resultou, amor, mais rico o teu cantor — e agora
resta
percorrer teu inventário e nele
a doação de um anel, de uma estrela,
de um céu de agosto e a promessa
da resposta ao beijo na defunta boca — e quem
pudera cantar — que voz se modulara dentro
deste quarto quando
das maçãs do silêncio vive a morte
de teu rosto — na maçã
de teu rosto — pálida rosa entre as outras flores:
pois à pálida rosa submissa
a rosa de ferro do rosto de Albrecht Engels
flor cinérea dos olhos de Heinz Lorenz e outros
guerreiros alemães:
celebravam a princesa morta
e Chagall e Edgar e os cárceres se abriram
requiem para a infanta morta
Guido Corti e Edmondo di Robilant, dos condados
de Veneza:
à pálida rosa respondia a flor
de mármore do rosto dos fidalgos de Itália
e Enrico Marchesini era florentino e chorava
e Amleto Albieri era vêneto — e chorava
e George Blass, o formoso velho, era do sul da
Alemanha — e chorava
e celebrava a lágrima o melhor azul de seus olhos
renanos
e Meyer-Clason viera da Westphalia — e chorava
os sinos dobraram nas lpueiras e entre os poetas
— entre
Marcos Konder e os outros — entre bons ladrões
bons assassinos tomados de doçura — e
a doçura
pungira o duro olhar de Manoel Bento e o belo
inesquecido rosto de Frau Malik — viera de Bonn
am Rheín e chorava
erue, Domine, trenavam vozes
Padre Frederico Prfllwitz — viera da Prússia e
chorava
viera o Padre Fernando do Rio Comprido — e
chorava
e Frei Meinulfo da Baviera e chorava
e o Padre José — de Turim — e chorava
e Monsenhor Felício Magaldi era napolitano e
chorava
e o Padre Waldir era alagoano — e chorava
e o grande rosto compassivo de Castro Pinto —
chorava.
Naquela tarde sobre o lgarapé das Almas no país
do Pará
a velha Maria Cândida sentiu um nó nas entranhas
transfigurou-se de súbito à beira das águas e
clamou a Manuel e Lourdes e Antônio e
João e Zaida
e aos vizinhos atônitos
apontando a vitória-régia que se afundava nas
águas ao terral de junho:
— Magdalena está morrendo — é a flor
da morte no rosto da princesa" —
e no rosto
mongol do velho pai, da velha mãe
no igarapé dos olhos dourados
a pétala da morta desmaiava.
Pois canto agora sua sombra:
já rosa entre as mulheres — conhecido
foi seu corpo ao macho à borboleta ao óleo-santo
e à manjerona em flor:
entre formas
de brisa e moldes de luar
é lida a sua forma — e sabe dela
a raiz da relva — e à volta
das hortelãs cheirosas
Yugo Kusakabe — era japonês — e chorava
e lavrou-lhe a pedra da sepultura e por ali
sei o caminho do homem em sua mocidade.
Sentado junto à Ponte Vecchio o poeta
examinava o mapa de Eleusis e ensinava aos pés
várzea, lezíria e vertentes do monte
e a lira de Tibulo a tiracolo
pastor da morte a morte o pastoreia
venho de onde para onde parto
Madgalena
da raça dos Mourões
na adega do sepulcro amadurece
a ancoreta do vinho desejado —
sou o axnante de bronze: da espada empunho os
copos
e nos copos de seu vinho com a ponta da espada
mergulhe a macerar-se o coração
e da romã partida
regale-se na lágrima a semente
de amor e morte para sempre
esparzida em teu vôo
E as amantes na alcova e os algozes no ergástulo e
o confessor na extrema-unção e o médico
na autópsia sobre o peito hão de
encontrar-me
de teu pássaro e teu nome a tatuagem azul
.........................
(e ainda cantarei de ti)
.....................
E foi o funeral — esse — de Magdalena domadora
de coração
nas moradas altas do cemitério — testemunha
Efraín — e uma palmeira
cresceu de súbito de sua fina cintura — lembra
Bárbara —
e seu jeito guarda
na boca desse frade alemão
nome de milagre —
good night, sweet Princess,
amadures
no chão da sepultura
e da haste do florido corpo
nas auroras eternas
te encontrarei, formosa, e a mão
arredondada às curvas morenas
macia de madeixas a mão
demorarei no fruto de teu rosto
e à luz dos olhos
põe-te um vestido verde
por formosura
como a pera
quando madura.
por um bergantim
de nossa companhia se perdera: como não veio
mandou o Capitão pôr uma cruz na ilha e nela
atada
uma carta emburilhada em cera
e nela
dizia ao Capitão do bergantim
o que fizesse vindo ali ter:
e emburilhada em cera e mel
fincada com punhal no coração
esta é uma carta, amor, é teu canto de morte —
epitáfio
da primavera:
naquela madrugada
do Hospital dos Espanhóis:
quando teus olhos foram se afundando
na doce caravela de teu corpo,
a herança
de um quinhão de luz tocou aos meus e a camarinha
doou ao coração sua parte de ar
e no formal de partilha o silêncio
era só meu e o rumor
de uma voz — individido —
sucedeu ao ouvido solitário:
o amante da amada morta tem um ouvido a mais
et video cherubim ac seraphim
et audio:
no rádio de Paquita o tango de ontem
é agora mais forte sobre a rua
Benjamim Constant e no Largo da Glória, ó Paulo Flerrúng,
as merencórias putas são mais tristes
batem mais os relógios pela madrugada no sobrado
de Alice
e no bar do Soares se contemplam mais
as cadeiras espectantes:
partiu quem repartia
comigo o ar e a luz e o silêncio e o rumor
e de ar e de luz e de silêncio e vozes
resultou, amor, mais rico o teu cantor — e agora
resta
percorrer teu inventário e nele
a doação de um anel, de uma estrela,
de um céu de agosto e a promessa
da resposta ao beijo na defunta boca — e quem
pudera cantar — que voz se modulara dentro
deste quarto quando
das maçãs do silêncio vive a morte
de teu rosto — na maçã
de teu rosto — pálida rosa entre as outras flores:
pois à pálida rosa submissa
a rosa de ferro do rosto de Albrecht Engels
flor cinérea dos olhos de Heinz Lorenz e outros
guerreiros alemães:
celebravam a princesa morta
e Chagall e Edgar e os cárceres se abriram
requiem para a infanta morta
Guido Corti e Edmondo di Robilant, dos condados
de Veneza:
à pálida rosa respondia a flor
de mármore do rosto dos fidalgos de Itália
e Enrico Marchesini era florentino e chorava
e Amleto Albieri era vêneto — e chorava
e George Blass, o formoso velho, era do sul da
Alemanha — e chorava
e celebrava a lágrima o melhor azul de seus olhos
renanos
e Meyer-Clason viera da Westphalia — e chorava
os sinos dobraram nas lpueiras e entre os poetas
— entre
Marcos Konder e os outros — entre bons ladrões
bons assassinos tomados de doçura — e
a doçura
pungira o duro olhar de Manoel Bento e o belo
inesquecido rosto de Frau Malik — viera de Bonn
am Rheín e chorava
erue, Domine, trenavam vozes
Padre Frederico Prfllwitz — viera da Prússia e
chorava
viera o Padre Fernando do Rio Comprido — e
chorava
e Frei Meinulfo da Baviera e chorava
e o Padre José — de Turim — e chorava
e Monsenhor Felício Magaldi era napolitano e
chorava
e o Padre Waldir era alagoano — e chorava
e o grande rosto compassivo de Castro Pinto —
chorava.
Naquela tarde sobre o lgarapé das Almas no país
do Pará
a velha Maria Cândida sentiu um nó nas entranhas
transfigurou-se de súbito à beira das águas e
clamou a Manuel e Lourdes e Antônio e
João e Zaida
e aos vizinhos atônitos
apontando a vitória-régia que se afundava nas
águas ao terral de junho:
— Magdalena está morrendo — é a flor
da morte no rosto da princesa" —
e no rosto
mongol do velho pai, da velha mãe
no igarapé dos olhos dourados
a pétala da morta desmaiava.
Pois canto agora sua sombra:
já rosa entre as mulheres — conhecido
foi seu corpo ao macho à borboleta ao óleo-santo
e à manjerona em flor:
entre formas
de brisa e moldes de luar
é lida a sua forma — e sabe dela
a raiz da relva — e à volta
das hortelãs cheirosas
Yugo Kusakabe — era japonês — e chorava
e lavrou-lhe a pedra da sepultura e por ali
sei o caminho do homem em sua mocidade.
Sentado junto à Ponte Vecchio o poeta
examinava o mapa de Eleusis e ensinava aos pés
várzea, lezíria e vertentes do monte
e a lira de Tibulo a tiracolo
pastor da morte a morte o pastoreia
venho de onde para onde parto
Madgalena
da raça dos Mourões
na adega do sepulcro amadurece
a ancoreta do vinho desejado —
sou o axnante de bronze: da espada empunho os
copos
e nos copos de seu vinho com a ponta da espada
mergulhe a macerar-se o coração
e da romã partida
regale-se na lágrima a semente
de amor e morte para sempre
esparzida em teu vôo
E as amantes na alcova e os algozes no ergástulo e
o confessor na extrema-unção e o médico
na autópsia sobre o peito hão de
encontrar-me
de teu pássaro e teu nome a tatuagem azul
.........................
(e ainda cantarei de ti)
.....................
E foi o funeral — esse — de Magdalena domadora
de coração
nas moradas altas do cemitério — testemunha
Efraín — e uma palmeira
cresceu de súbito de sua fina cintura — lembra
Bárbara —
e seu jeito guarda
na boca desse frade alemão
nome de milagre —
good night, sweet Princess,
amadures
no chão da sepultura
e da haste do florido corpo
nas auroras eternas
te encontrarei, formosa, e a mão
arredondada às curvas morenas
macia de madeixas a mão
demorarei no fruto de teu rosto
e à luz dos olhos
põe-te um vestido verde
por formosura
como a pera
quando madura.
1 261
Moreira Campos
A Visita
Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta,
eu vos visito não porque seja um bom,
não porque seja aquele homem "coração de ouro",
como dizeis aos vizinhos em tom de segredo,
que contudo deverá ser ouvido por mim,
enquanto meu automóvel espera à sombra da árvore.
Não. Eu vos visito para sentir os caibros toscos desta sala, a telha-vã,
a velha máquina de costura coberta com a toalhinha
sobre a qual repousa a tentativa do jarro de flores;
o retrato desbotado de vosso marido
contra a parede.
Eu vos visito para indagar do moleque que criastes
e que fugiu pela janela,
que o vento da noite ficou batendo.
E eu vos visito sobretudo para usufruir de vossa solidão
e do mistério de vossas palavras nobres,
de mulher lida em romances, embora baratos.
— E os meninos (da vizinhança) ainda aperreiam muito?
— Hem?
— Os meninos?
— Uns vândalos, meu filho.
Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta, esta palavra "vândalos"
me comove muito mais do que todos os vossos males.
Contudo, trouxe-vos estas maçãs para vossa convalescença
ó tia Augusta,
eu vos visito não porque seja um bom,
não porque seja aquele homem "coração de ouro",
como dizeis aos vizinhos em tom de segredo,
que contudo deverá ser ouvido por mim,
enquanto meu automóvel espera à sombra da árvore.
Não. Eu vos visito para sentir os caibros toscos desta sala, a telha-vã,
a velha máquina de costura coberta com a toalhinha
sobre a qual repousa a tentativa do jarro de flores;
o retrato desbotado de vosso marido
contra a parede.
Eu vos visito para indagar do moleque que criastes
e que fugiu pela janela,
que o vento da noite ficou batendo.
E eu vos visito sobretudo para usufruir de vossa solidão
e do mistério de vossas palavras nobres,
de mulher lida em romances, embora baratos.
— E os meninos (da vizinhança) ainda aperreiam muito?
— Hem?
— Os meninos?
— Uns vândalos, meu filho.
Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta, esta palavra "vândalos"
me comove muito mais do que todos os vossos males.
Contudo, trouxe-vos estas maçãs para vossa convalescença
1 639
Gerardo Mello Mourão
Não precisa rezar pelo Padre Inácio:
Não precisa rezar pelo Padre Inácio:
é um mártir de Deus e está no céu
minha bisavó calejou os dedos nas contas do rosário
pela alma do irmão padre:
emboscado pelos inimigos foi amarrado ao tronco de um joazeiro no caminho da Paraíba
castrado à faca de ponta e um cabra
com a ponta de um punhal
tirou-lhe do couro da cabeça a rodela da coroa de padre
"engula agora esta hóstia":
sobre a terra ardente fervia o sangue
do único fálus que poupara as fêmeas
na raça dos Mourões
e a única boca da raça
que de sangue só bebera o do Cristo na Missa
comungava o pedaço de sua carne sangrenta
e desde aquele tempo
os Mourões imolados
ao próprio chão e ao próprio ser se imolam
e sobre a terra plantada de sagrados testículos
nutridos de seu corpo e de seu sangue
existem para a vida e para a morte.
é um mártir de Deus e está no céu
minha bisavó calejou os dedos nas contas do rosário
pela alma do irmão padre:
emboscado pelos inimigos foi amarrado ao tronco de um joazeiro no caminho da Paraíba
castrado à faca de ponta e um cabra
com a ponta de um punhal
tirou-lhe do couro da cabeça a rodela da coroa de padre
"engula agora esta hóstia":
sobre a terra ardente fervia o sangue
do único fálus que poupara as fêmeas
na raça dos Mourões
e a única boca da raça
que de sangue só bebera o do Cristo na Missa
comungava o pedaço de sua carne sangrenta
e desde aquele tempo
os Mourões imolados
ao próprio chão e ao próprio ser se imolam
e sobre a terra plantada de sagrados testículos
nutridos de seu corpo e de seu sangue
existem para a vida e para a morte.
1 048
Gerardo Mello Mourão
Visita o forasteiro sua própria beleza e traz
Visita o forasteiro sua própria beleza e traz
o coração na mão enrolado no mapa
de sua própria pátria
— "Moi aussi, Monsieur, je suis un étranger
e meus olhos pranteiam minha beleza estranha
aos circunstantes
— pois estranho a mim mesmo
só à minha beleza não sou estranho e só
meu coração suporta a delícia cruel
da inventada beleza"
Volvia a cabeça e assumia a garça e o lírio
e flutuavam sobre os ombros
à soberba das pupilas as crinas
das éguas alazãs.
A noite se busca a si mesma
nas calçadas de Chelsea
da haste de sua galáxia sobre
o casaco de pele pende
la cansada paloma de su mano:
não sabe de seu ninho e o ninho
é que estremece à noite
em busca do seu pássaro:
anoiteceu em Chelsea
boa noite, Melpômene Mourão
Estava nu entre as montanhas sagradas
e dizia:
— "não governo meu nome
dado a Melpômene e às outras
tenho de meu o chão que piso
a mulher que escolhi
e os filhos que gerei:
pois boa noite, Apolo,
toma a minha mulher, dorme com ela
viola em tua cama, Calíope, meus filhos".
Quer a beleza o sacrifício
da beleza
e o amor
o sacrifício
do amor
pois eu te queimo a rosa a bem-amada
os pêssegos do outono
e a rosa e a bem-amada e os pêssegos do outono
serão aroma a tuas narinas
— por isso —
do hálito de teus pulmões venho viver.
E lembro-me também das outras oferendas
vinte amantes em chamas sobre teu altar
— "Moi — jai brûlé mon sexe
et je crie sur les flammes
la douleur de ma beauté"
e dessa dor se vive
e dessa dor se morre
Salamandra — chamei
e fulgurou a boca
à labareda de seus olhos
Anoiteceu em Chelsea
e sobre seus altares
na pira crepitavam
os bagos de seu sexo —
"Moi, jai fait ce que fait un dieu"
e eu mesmo sou meu próprio sacrifício
e minha adoração"
Anoiteceu em Chelsea
o adorado adorava o adorador
e às vezes crea a creatura
sua creação
— "Je suis lesclave et le maitre de mon corps
e canto sobre os querubins
la fleur de ma beauté"
— "Não te lembras? um dia a serpente
andava erecta à beira dos riachos:
contempla o meu andar quando anoitece em Chelsea —
eu desejei meu corpo e eu mesmo
ergui da relva
as ancas altas e o redondo seio"
E amante de si mesma
dormia
em seu jasmim sua beleza e em sua
beleza sua solidão
— "E sou Ginandramor Ginandramante
a minha própria companhia
Ginandramada"
Os deuses — só os deuses
não estão sós
e os que caminham por seu país
aprendem sua língua
Boa noite, Apolo,
anoitece em Chelsea e uma asa
de pássaro ou de anjo
me roça a fronte e tremo
ao perigo de seu rosto — e dele
nunca mais me despeçam estes olhos
que a terra, a tua terra, há de nutrir.
Movia as largas pálpebras e da cinza de suas pupilas
se acendiam as lâmpadas douradas
sobre Greenwich Village
Coming from Ohio
—"Are you going to be here for a couple of minutes?
—"For ever, Johnny,
pela eternidade".
Anoitece em Chelsea
from Chelsea to Eleusis, Mister Corso:
— "Who are you who spend the day walking in this lobby" —
eu sou o gastador do dia e o ecônomo da noite
não caminho o hall
ensaio a grande marcha
caminho o dia rumo à noite
e a noite rumo ao dia quando
escapa Mona Lisa de seu quadro e sorri
na adolescência milenária desse rosto chinês e os poetas, Ho
pelos arrozais pelo ria amarelo pelo rio azul
pelas serras de África
conduzem a cruzada e a sagrada lira marca
o ritmo das grandes marchas —
entoando os teus peãs, Apolo,
pois os ventos de Uganda trazem tua voz.
Essa trabalha as ancas sob a saia de veludo vermelho
essa trabalha as unhas escarlates nas sandálias de ouro
essa o umbigo no strip-tease do Club 82
e Johnny no Chelsea trabalha o som:
— "este é um poeta, darling,
veio ouvir minha guitarra e contemplar teus seios" —
e ouvir uma guitarra
e contemplar teus seios
é minha profissão
e consumo o crepúsculo a aurora os clitóris rosados
em seu ninho
e o rouxinol
e o grito do amor — e nasce um seio
de Mo
na
li
sa
Laisa
coming from Ohio
to Delphos — Hellas — clamo e amo e o meu
cl
amor
me tu
mul
tua
Benditos os que beijam teu seio e intumescem teu seio
e apojam teu seio, Eleutheria, onde
as criaturas mamam o leite de Apolo Lykio.
Vejo a lua do Potomac e banha-se no Hudson
e à neblina verde de seus olhos
Laisa
agoniza o sexo e a garganta
de um pássaro se forma
desmancha-se em abelhas
tu —
mel —
tuas —
um tumulto de relvas orvalhadas.
Pois vou a Port-au-Prince, Tuna,
Port-au-Prince
Porto Rico
Porto Belo
Porto Fino
Porto Alegre alegre
por tua noite
e preciso de muitos lugares e de muitas pessoas
preciso de cerejas
e da cereja um mel
e desse mel um fio
para o caminho de labirintos pelas
Califórnias de ouro
e ali
o Macho da Sibila — Alberto —
entre Los Angeles Las Vegas
pastoreia os anjos nas floridas veigas —
caminhos dos Hyperbóreos.
Pois de Kennedy Airport TWA
— "are you a jew, sir?
— Do you speak yddish"?
"are you from India
or Pakistan?
Árabe ou grego?
E eu sou
das terras do Ceará Grande e Mel Redondo
Ipueiras Itabuna e Tanque dArca, Jarmelino,
e não falo yddish
falo a fala falo a flauta falo a língua
das abelhas sobre as cerejas
e leio Léa e lêem- me los angeles
e Lisa
Laisa
Mon
a
Lisa
pois vou
a Porto Belo
Porto Fino e Porto Príncipe onde príncipe
aguardo o reino e a núpcia — e onde
a princesa aprende a abrir-me
a flor das coxas lancinantes
e a pitanga madura e o pintassilgo
me ensinam o que sei:
dormir contigo acordar contigo —
bom dia boa noite
Eleutheria.
o coração na mão enrolado no mapa
de sua própria pátria
— "Moi aussi, Monsieur, je suis un étranger
e meus olhos pranteiam minha beleza estranha
aos circunstantes
— pois estranho a mim mesmo
só à minha beleza não sou estranho e só
meu coração suporta a delícia cruel
da inventada beleza"
Volvia a cabeça e assumia a garça e o lírio
e flutuavam sobre os ombros
à soberba das pupilas as crinas
das éguas alazãs.
A noite se busca a si mesma
nas calçadas de Chelsea
da haste de sua galáxia sobre
o casaco de pele pende
la cansada paloma de su mano:
não sabe de seu ninho e o ninho
é que estremece à noite
em busca do seu pássaro:
anoiteceu em Chelsea
boa noite, Melpômene Mourão
Estava nu entre as montanhas sagradas
e dizia:
— "não governo meu nome
dado a Melpômene e às outras
tenho de meu o chão que piso
a mulher que escolhi
e os filhos que gerei:
pois boa noite, Apolo,
toma a minha mulher, dorme com ela
viola em tua cama, Calíope, meus filhos".
Quer a beleza o sacrifício
da beleza
e o amor
o sacrifício
do amor
pois eu te queimo a rosa a bem-amada
os pêssegos do outono
e a rosa e a bem-amada e os pêssegos do outono
serão aroma a tuas narinas
— por isso —
do hálito de teus pulmões venho viver.
E lembro-me também das outras oferendas
vinte amantes em chamas sobre teu altar
— "Moi — jai brûlé mon sexe
et je crie sur les flammes
la douleur de ma beauté"
e dessa dor se vive
e dessa dor se morre
Salamandra — chamei
e fulgurou a boca
à labareda de seus olhos
Anoiteceu em Chelsea
e sobre seus altares
na pira crepitavam
os bagos de seu sexo —
"Moi, jai fait ce que fait un dieu"
e eu mesmo sou meu próprio sacrifício
e minha adoração"
Anoiteceu em Chelsea
o adorado adorava o adorador
e às vezes crea a creatura
sua creação
— "Je suis lesclave et le maitre de mon corps
e canto sobre os querubins
la fleur de ma beauté"
— "Não te lembras? um dia a serpente
andava erecta à beira dos riachos:
contempla o meu andar quando anoitece em Chelsea —
eu desejei meu corpo e eu mesmo
ergui da relva
as ancas altas e o redondo seio"
E amante de si mesma
dormia
em seu jasmim sua beleza e em sua
beleza sua solidão
— "E sou Ginandramor Ginandramante
a minha própria companhia
Ginandramada"
Os deuses — só os deuses
não estão sós
e os que caminham por seu país
aprendem sua língua
Boa noite, Apolo,
anoitece em Chelsea e uma asa
de pássaro ou de anjo
me roça a fronte e tremo
ao perigo de seu rosto — e dele
nunca mais me despeçam estes olhos
que a terra, a tua terra, há de nutrir.
Movia as largas pálpebras e da cinza de suas pupilas
se acendiam as lâmpadas douradas
sobre Greenwich Village
Coming from Ohio
—"Are you going to be here for a couple of minutes?
—"For ever, Johnny,
pela eternidade".
Anoitece em Chelsea
from Chelsea to Eleusis, Mister Corso:
— "Who are you who spend the day walking in this lobby" —
eu sou o gastador do dia e o ecônomo da noite
não caminho o hall
ensaio a grande marcha
caminho o dia rumo à noite
e a noite rumo ao dia quando
escapa Mona Lisa de seu quadro e sorri
na adolescência milenária desse rosto chinês e os poetas, Ho
pelos arrozais pelo ria amarelo pelo rio azul
pelas serras de África
conduzem a cruzada e a sagrada lira marca
o ritmo das grandes marchas —
entoando os teus peãs, Apolo,
pois os ventos de Uganda trazem tua voz.
Essa trabalha as ancas sob a saia de veludo vermelho
essa trabalha as unhas escarlates nas sandálias de ouro
essa o umbigo no strip-tease do Club 82
e Johnny no Chelsea trabalha o som:
— "este é um poeta, darling,
veio ouvir minha guitarra e contemplar teus seios" —
e ouvir uma guitarra
e contemplar teus seios
é minha profissão
e consumo o crepúsculo a aurora os clitóris rosados
em seu ninho
e o rouxinol
e o grito do amor — e nasce um seio
de Mo
na
li
sa
Laisa
coming from Ohio
to Delphos — Hellas — clamo e amo e o meu
cl
amor
me tu
mul
tua
Benditos os que beijam teu seio e intumescem teu seio
e apojam teu seio, Eleutheria, onde
as criaturas mamam o leite de Apolo Lykio.
Vejo a lua do Potomac e banha-se no Hudson
e à neblina verde de seus olhos
Laisa
agoniza o sexo e a garganta
de um pássaro se forma
desmancha-se em abelhas
tu —
mel —
tuas —
um tumulto de relvas orvalhadas.
Pois vou a Port-au-Prince, Tuna,
Port-au-Prince
Porto Rico
Porto Belo
Porto Fino
Porto Alegre alegre
por tua noite
e preciso de muitos lugares e de muitas pessoas
preciso de cerejas
e da cereja um mel
e desse mel um fio
para o caminho de labirintos pelas
Califórnias de ouro
e ali
o Macho da Sibila — Alberto —
entre Los Angeles Las Vegas
pastoreia os anjos nas floridas veigas —
caminhos dos Hyperbóreos.
Pois de Kennedy Airport TWA
— "are you a jew, sir?
— Do you speak yddish"?
"are you from India
or Pakistan?
Árabe ou grego?
E eu sou
das terras do Ceará Grande e Mel Redondo
Ipueiras Itabuna e Tanque dArca, Jarmelino,
e não falo yddish
falo a fala falo a flauta falo a língua
das abelhas sobre as cerejas
e leio Léa e lêem- me los angeles
e Lisa
Laisa
Mon
a
Lisa
pois vou
a Porto Belo
Porto Fino e Porto Príncipe onde príncipe
aguardo o reino e a núpcia — e onde
a princesa aprende a abrir-me
a flor das coxas lancinantes
e a pitanga madura e o pintassilgo
me ensinam o que sei:
dormir contigo acordar contigo —
bom dia boa noite
Eleutheria.
1 036
Gerardo Mello Mourão
Visita o forasteiro sua própria beleza e traz
Visita o forasteiro sua própria beleza e traz
o coração na mão enrolado no mapa
de sua própria pátria
— "Moi aussi, Monsieur, je suis un étranger
e meus olhos pranteiam minha beleza estranha
aos circunstantes
— pois estranho a mim mesmo
só à minha beleza não sou estranho e só
meu coração suporta a delícia cruel
da inventada beleza"
Volvia a cabeça e assumia a garça e o lírio
e flutuavam sobre os ombros
à soberba das pupilas as crinas
das éguas alazãs.
A noite se busca a si mesma
nas calçadas de Chelsea
da haste de sua galáxia sobre
o casaco de pele pende
la cansada paloma de su mano:
não sabe de seu ninho e o ninho
é que estremece à noite
em busca do seu pássaro:
anoiteceu em Chelsea
boa noite, Melpômene Mourão
Estava nu entre as montanhas sagradas
e dizia:
— "não governo meu nome
dado a Melpômene e às outras
tenho de meu o chão que piso
a mulher que escolhi
e os filhos que gerei:
pois boa noite, Apolo,
toma a minha mulher, dorme com ela
viola em tua cama, Calíope, meus filhos".
Quer a beleza o sacrifício
da beleza
e o amor
o sacrifício
do amor
pois eu te queimo a rosa a bem-amada
os pêssegos do outono
e a rosa e a bem-amada e os pêssegos do outono
serão aroma a tuas narinas
— por isso —
do hálito de teus pulmões venho viver.
E lembro-me também das outras oferendas
vinte amantes em chamas sobre teu altar
— "Moi — jai brûlé mon sexe
et je crie sur les flammes
la douleur de ma beauté"
e dessa dor se vive
e dessa dor se morre
Salamandra — chamei
e fulgurou a boca
à labareda de seus olhos
Anoiteceu em Chelsea
e sobre seus altares
na pira crepitavam
os bagos de seu sexo —
"Moi, jai fait ce que fait un dieu"
e eu mesmo sou meu próprio sacrifício
e minha adoração"
Anoiteceu em Chelsea
o adorado adorava o adorador
e às vezes crea a creatura
sua creação
— "Je suis lesclave et le maitre de mon corps
e canto sobre os querubins
la fleur de ma beauté"
— "Não te lembras? um dia a serpente
andava erecta à beira dos riachos:
contempla o meu andar quando anoitece em Chelsea —
eu desejei meu corpo e eu mesmo
ergui da relva
as ancas altas e o redondo seio"
E amante de si mesma
dormia
em seu jasmim sua beleza e em sua
beleza sua solidão
— "E sou Ginandramor Ginandramante
a minha própria companhia
Ginandramada"
Os deuses — só os deuses
não estão sós
e os que caminham por seu país
aprendem sua língua
Boa noite, Apolo,
anoitece em Chelsea e uma asa
de pássaro ou de anjo
me roça a fronte e tremo
ao perigo de seu rosto — e dele
nunca mais me despeçam estes olhos
que a terra, a tua terra, há de nutrir.
Movia as largas pálpebras e da cinza de suas pupilas
se acendiam as lâmpadas douradas
sobre Greenwich Village
Coming from Ohio
—"Are you going to be here for a couple of minutes?
—"For ever, Johnny,
pela eternidade".
Anoitece em Chelsea
from Chelsea to Eleusis, Mister Corso:
— "Who are you who spend the day walking in this lobby" —
eu sou o gastador do dia e o ecônomo da noite
não caminho o hall
ensaio a grande marcha
caminho o dia rumo à noite
e a noite rumo ao dia quando
escapa Mona Lisa de seu quadro e sorri
na adolescência milenária desse rosto chinês e os poetas, Ho
pelos arrozais pelo ria amarelo pelo rio azul
pelas serras de África
conduzem a cruzada e a sagrada lira marca
o ritmo das grandes marchas —
entoando os teus peãs, Apolo,
pois os ventos de Uganda trazem tua voz.
Essa trabalha as ancas sob a saia de veludo vermelho
essa trabalha as unhas escarlates nas sandálias de ouro
essa o umbigo no strip-tease do Club 82
e Johnny no Chelsea trabalha o som:
— "este é um poeta, darling,
veio ouvir minha guitarra e contemplar teus seios" —
e ouvir uma guitarra
e contemplar teus seios
é minha profissão
e consumo o crepúsculo a aurora os clitóris rosados
em seu ninho
e o rouxinol
e o grito do amor — e nasce um seio
de Mo
na
li
sa
Laisa
coming from Ohio
to Delphos — Hellas — clamo e amo e o meu
cl
amor
me tu
mul
tua
Benditos os que beijam teu seio e intumescem teu seio
e apojam teu seio, Eleutheria, onde
as criaturas mamam o leite de Apolo Lykio.
Vejo a lua do Potomac e banha-se no Hudson
e à neblina verde de seus olhos
Laisa
agoniza o sexo e a garganta
de um pássaro se forma
desmancha-se em abelhas
tu —
mel —
tuas —
um tumulto de relvas orvalhadas.
Pois vou a Port-au-Prince, Tuna,
Port-au-Prince
Porto Rico
Porto Belo
Porto Fino
Porto Alegre alegre
por tua noite
e preciso de muitos lugares e de muitas pessoas
preciso de cerejas
e da cereja um mel
e desse mel um fio
para o caminho de labirintos pelas
Califórnias de ouro
e ali
o Macho da Sibila — Alberto —
entre Los Angeles Las Vegas
pastoreia os anjos nas floridas veigas —
caminhos dos Hyperbóreos.
Pois de Kennedy Airport TWA
— "are you a jew, sir?
— Do you speak yddish"?
"are you from India
or Pakistan?
Árabe ou grego?
E eu sou
das terras do Ceará Grande e Mel Redondo
Ipueiras Itabuna e Tanque dArca, Jarmelino,
e não falo yddish
falo a fala falo a flauta falo a língua
das abelhas sobre as cerejas
e leio Léa e lêem- me los angeles
e Lisa
Laisa
Mon
a
Lisa
pois vou
a Porto Belo
Porto Fino e Porto Príncipe onde príncipe
aguardo o reino e a núpcia — e onde
a princesa aprende a abrir-me
a flor das coxas lancinantes
e a pitanga madura e o pintassilgo
me ensinam o que sei:
dormir contigo acordar contigo —
bom dia boa noite
Eleutheria.
o coração na mão enrolado no mapa
de sua própria pátria
— "Moi aussi, Monsieur, je suis un étranger
e meus olhos pranteiam minha beleza estranha
aos circunstantes
— pois estranho a mim mesmo
só à minha beleza não sou estranho e só
meu coração suporta a delícia cruel
da inventada beleza"
Volvia a cabeça e assumia a garça e o lírio
e flutuavam sobre os ombros
à soberba das pupilas as crinas
das éguas alazãs.
A noite se busca a si mesma
nas calçadas de Chelsea
da haste de sua galáxia sobre
o casaco de pele pende
la cansada paloma de su mano:
não sabe de seu ninho e o ninho
é que estremece à noite
em busca do seu pássaro:
anoiteceu em Chelsea
boa noite, Melpômene Mourão
Estava nu entre as montanhas sagradas
e dizia:
— "não governo meu nome
dado a Melpômene e às outras
tenho de meu o chão que piso
a mulher que escolhi
e os filhos que gerei:
pois boa noite, Apolo,
toma a minha mulher, dorme com ela
viola em tua cama, Calíope, meus filhos".
Quer a beleza o sacrifício
da beleza
e o amor
o sacrifício
do amor
pois eu te queimo a rosa a bem-amada
os pêssegos do outono
e a rosa e a bem-amada e os pêssegos do outono
serão aroma a tuas narinas
— por isso —
do hálito de teus pulmões venho viver.
E lembro-me também das outras oferendas
vinte amantes em chamas sobre teu altar
— "Moi — jai brûlé mon sexe
et je crie sur les flammes
la douleur de ma beauté"
e dessa dor se vive
e dessa dor se morre
Salamandra — chamei
e fulgurou a boca
à labareda de seus olhos
Anoiteceu em Chelsea
e sobre seus altares
na pira crepitavam
os bagos de seu sexo —
"Moi, jai fait ce que fait un dieu"
e eu mesmo sou meu próprio sacrifício
e minha adoração"
Anoiteceu em Chelsea
o adorado adorava o adorador
e às vezes crea a creatura
sua creação
— "Je suis lesclave et le maitre de mon corps
e canto sobre os querubins
la fleur de ma beauté"
— "Não te lembras? um dia a serpente
andava erecta à beira dos riachos:
contempla o meu andar quando anoitece em Chelsea —
eu desejei meu corpo e eu mesmo
ergui da relva
as ancas altas e o redondo seio"
E amante de si mesma
dormia
em seu jasmim sua beleza e em sua
beleza sua solidão
— "E sou Ginandramor Ginandramante
a minha própria companhia
Ginandramada"
Os deuses — só os deuses
não estão sós
e os que caminham por seu país
aprendem sua língua
Boa noite, Apolo,
anoitece em Chelsea e uma asa
de pássaro ou de anjo
me roça a fronte e tremo
ao perigo de seu rosto — e dele
nunca mais me despeçam estes olhos
que a terra, a tua terra, há de nutrir.
Movia as largas pálpebras e da cinza de suas pupilas
se acendiam as lâmpadas douradas
sobre Greenwich Village
Coming from Ohio
—"Are you going to be here for a couple of minutes?
—"For ever, Johnny,
pela eternidade".
Anoitece em Chelsea
from Chelsea to Eleusis, Mister Corso:
— "Who are you who spend the day walking in this lobby" —
eu sou o gastador do dia e o ecônomo da noite
não caminho o hall
ensaio a grande marcha
caminho o dia rumo à noite
e a noite rumo ao dia quando
escapa Mona Lisa de seu quadro e sorri
na adolescência milenária desse rosto chinês e os poetas, Ho
pelos arrozais pelo ria amarelo pelo rio azul
pelas serras de África
conduzem a cruzada e a sagrada lira marca
o ritmo das grandes marchas —
entoando os teus peãs, Apolo,
pois os ventos de Uganda trazem tua voz.
Essa trabalha as ancas sob a saia de veludo vermelho
essa trabalha as unhas escarlates nas sandálias de ouro
essa o umbigo no strip-tease do Club 82
e Johnny no Chelsea trabalha o som:
— "este é um poeta, darling,
veio ouvir minha guitarra e contemplar teus seios" —
e ouvir uma guitarra
e contemplar teus seios
é minha profissão
e consumo o crepúsculo a aurora os clitóris rosados
em seu ninho
e o rouxinol
e o grito do amor — e nasce um seio
de Mo
na
li
sa
Laisa
coming from Ohio
to Delphos — Hellas — clamo e amo e o meu
cl
amor
me tu
mul
tua
Benditos os que beijam teu seio e intumescem teu seio
e apojam teu seio, Eleutheria, onde
as criaturas mamam o leite de Apolo Lykio.
Vejo a lua do Potomac e banha-se no Hudson
e à neblina verde de seus olhos
Laisa
agoniza o sexo e a garganta
de um pássaro se forma
desmancha-se em abelhas
tu —
mel —
tuas —
um tumulto de relvas orvalhadas.
Pois vou a Port-au-Prince, Tuna,
Port-au-Prince
Porto Rico
Porto Belo
Porto Fino
Porto Alegre alegre
por tua noite
e preciso de muitos lugares e de muitas pessoas
preciso de cerejas
e da cereja um mel
e desse mel um fio
para o caminho de labirintos pelas
Califórnias de ouro
e ali
o Macho da Sibila — Alberto —
entre Los Angeles Las Vegas
pastoreia os anjos nas floridas veigas —
caminhos dos Hyperbóreos.
Pois de Kennedy Airport TWA
— "are you a jew, sir?
— Do you speak yddish"?
"are you from India
or Pakistan?
Árabe ou grego?
E eu sou
das terras do Ceará Grande e Mel Redondo
Ipueiras Itabuna e Tanque dArca, Jarmelino,
e não falo yddish
falo a fala falo a flauta falo a língua
das abelhas sobre as cerejas
e leio Léa e lêem- me los angeles
e Lisa
Laisa
Mon
a
Lisa
pois vou
a Porto Belo
Porto Fino e Porto Príncipe onde príncipe
aguardo o reino e a núpcia — e onde
a princesa aprende a abrir-me
a flor das coxas lancinantes
e a pitanga madura e o pintassilgo
me ensinam o que sei:
dormir contigo acordar contigo —
bom dia boa noite
Eleutheria.
1 036
Marcelo Mello Valença
Angústia, aprendi desde cedo
Angústia, aprendi desde cedo
a conviver com ela ao meu lado.
É o conviver com meu medo...
Pesadelo que vivo acordado
Angústia? É o esperar pelo amanhã,
futuro incerto, destino sonhado
É o agarrar-se a esperança vã
e ver a vida correr qual seixo rolado...
a conviver com ela ao meu lado.
É o conviver com meu medo...
Pesadelo que vivo acordado
Angústia? É o esperar pelo amanhã,
futuro incerto, destino sonhado
É o agarrar-se a esperança vã
e ver a vida correr qual seixo rolado...
938
Marcelo Mello Valença
Angústia, aprendi desde cedo
Angústia, aprendi desde cedo
a conviver com ela ao meu lado.
É o conviver com meu medo...
Pesadelo que vivo acordado
Angústia? É o esperar pelo amanhã,
futuro incerto, destino sonhado
É o agarrar-se a esperança vã
e ver a vida correr qual seixo rolado...
a conviver com ela ao meu lado.
É o conviver com meu medo...
Pesadelo que vivo acordado
Angústia? É o esperar pelo amanhã,
futuro incerto, destino sonhado
É o agarrar-se a esperança vã
e ver a vida correr qual seixo rolado...
938
Mirella Márcia
Quinto Soneto
O primeiro véu foi densa névoa, Narciso,
E foi preciso com um sopro eu rasgar.
O segundo véu foi só a mágoa, água
Para navegar. Outro ainda irá restar?
Um terceiro véu vem do luar, amor, ou
Dessa garça que eu toco ao te tocar? Ou
Do piano, cujo som ouvi no ar? Será
Que forças eu terei p’ra atravessar? Pois há
De mim a mim um véu maior que todo o mar,
Mas vou ao lar! És maravilha, dos amores
Minha ilha por visitar! És Tordesilha
Me cortando sem cessar e ainda a filha,
Rima que não cesso de aleitar com este mito
Que me ensina a sina, forma prima de amar.
E foi preciso com um sopro eu rasgar.
O segundo véu foi só a mágoa, água
Para navegar. Outro ainda irá restar?
Um terceiro véu vem do luar, amor, ou
Dessa garça que eu toco ao te tocar? Ou
Do piano, cujo som ouvi no ar? Será
Que forças eu terei p’ra atravessar? Pois há
De mim a mim um véu maior que todo o mar,
Mas vou ao lar! És maravilha, dos amores
Minha ilha por visitar! És Tordesilha
Me cortando sem cessar e ainda a filha,
Rima que não cesso de aleitar com este mito
Que me ensina a sina, forma prima de amar.
930
Martins Napoleão
O Poema da Forma Eterna
(Ó infinito sonho!
O grande céu azul desfolhado no espaço!
O homem pequeno e louco
E o barro úmido às mãos do oleiro cego!)
Expressar cada um
O seu minuto culminante de beleza,
O seu instante de bondade extrema,
O seu momento de heroísmo,
Na subitânea íntegra pureza
De uma forma imperecível!
Como o coágulo de luz no diamante sem jaça,
Qual se a gota de orvalho, porventura,
Imagem matinal do sorriso da luz,
Se condenasse repentinamente.
Não a forma perfeita,
Porém aquela, exata e duradoura,
De um ápice de síntese.
Forma que se transfunda, num jato, a substância
De um momento imortal entre dois limites inúteis do tempo fugaz.
Uma forma que seja — nos limites do vário e mutável — perene.
E possa traduzir a integração, a plenitude e a culminância
Do glorioso momento da vida:
O desejo de fixar o efêmero para o tornar eterno.
Como o oleiro inocente, com as mãos carregadas de sonho,
Procurar transmitir ao barro paciente,
Numa manhã feliz em que os deuses se vestem de luz,
O movimento, a vida, a elástica e nervosa agilidade
Da asa de um pássaro voando...
E o pintor, com os olhos impregnados de cores viventes,
Anseia revelar, numa combinação imprevista de tintas,
Em que a luz e a névoa se misturem,
E a virgindade da manhã se case
À difusa tristeza do crepúsculo,
Num tom maravilhoso,
O úmido olhar do amor que pecou por prazer...
E o músico, de coração sangrante de harmonias,
Tenta subjugar, num acorde que encerre
O resumo de todas as únicas notas supremas
Arrancadas das cordas soluçantes
Dos violinos de todos os artistas
Que morreram em êxtase de sonho.
A expressão musical das primeiras estrelas
Que iluminam o silêncio da tarde,
Como lágrimas de adolescentes...
E o atleta, que tem o sentido dos ritmos nos músculos submissos,
Busca perpetuar, numa imagem que esplenda
Clara e vibrátil como uma ode pindárica,
E tenha a assustadora beleza da vitória sobre a morte,
Ao pasmo olhar da multidão de fôlego suspenso,
O salto sobre o abismo.
E o herói, que mede o valor da vida pela beleza oportuna da morte,
Ambiciona cunhar, numa imagem que ostente
O soberano orgulho do desprezo
E a coragem consciente do perigo,
O simbólico exemplo
Do primeiro soldado que tombou
Com um sorriso nos lábios e uma rosa de sangue no peito.
E o santo que transcende as leis humanas
Aspira a eternizar, numa imagem que seja,
A própria infinitude de todos os êxtases
E todas as bondades sem nenhuma recompensa
O gesto irrepetível
Do instante de humildade e de renúncia
Em que se debruçou para beijar o leproso na boca,
Como um lírio num charco...
E o poeta, flauta cheia do sopro divino
Quer reunir, a um acesso instintivo de forças genésicas
Num canto absoluto
o irrelevado espírito das coisas,
A harmonia que ninguém ousou captar,
A beleza invisível para os outros.
E o lavrador, que espera a bendição de Deus,
Deseja aprender, numa imagem que vibre
Como a entranha da agreste companheira
Sob as primícias da maternidade,
A alegria da terra,
Rasgando o próprio seio sem doer
Para as eclosões das primeiras sementes.
Como o oleiro o seu momento de inocência criadora,
E o pintor, o seu momento de domínio incomparável da matéria plástica,
E o músico o seu momento de cósmica integração,
E o atleta o seu momento de vitória espetacular,
E o santo o seu momento de êxtase supremo
E o lavrador, o seu momento de esperança milagrosa
E o poeta o momento de seu canto absoluto
Todos aspiram a perpetuar-se
Moldando o grande sonho em forma eterna.
Todos desejam essa alegria perfeita
Da forma em que se transfunda, num jato, a substância
Do momento imortal, único, entre os dois limites extremos e inúteis do tempo fugaz.
O grande céu azul desfolhado no espaço!
O homem pequeno e louco
E o barro úmido às mãos do oleiro cego!)
Expressar cada um
O seu minuto culminante de beleza,
O seu instante de bondade extrema,
O seu momento de heroísmo,
Na subitânea íntegra pureza
De uma forma imperecível!
Como o coágulo de luz no diamante sem jaça,
Qual se a gota de orvalho, porventura,
Imagem matinal do sorriso da luz,
Se condenasse repentinamente.
Não a forma perfeita,
Porém aquela, exata e duradoura,
De um ápice de síntese.
Forma que se transfunda, num jato, a substância
De um momento imortal entre dois limites inúteis do tempo fugaz.
Uma forma que seja — nos limites do vário e mutável — perene.
E possa traduzir a integração, a plenitude e a culminância
Do glorioso momento da vida:
O desejo de fixar o efêmero para o tornar eterno.
Como o oleiro inocente, com as mãos carregadas de sonho,
Procurar transmitir ao barro paciente,
Numa manhã feliz em que os deuses se vestem de luz,
O movimento, a vida, a elástica e nervosa agilidade
Da asa de um pássaro voando...
E o pintor, com os olhos impregnados de cores viventes,
Anseia revelar, numa combinação imprevista de tintas,
Em que a luz e a névoa se misturem,
E a virgindade da manhã se case
À difusa tristeza do crepúsculo,
Num tom maravilhoso,
O úmido olhar do amor que pecou por prazer...
E o músico, de coração sangrante de harmonias,
Tenta subjugar, num acorde que encerre
O resumo de todas as únicas notas supremas
Arrancadas das cordas soluçantes
Dos violinos de todos os artistas
Que morreram em êxtase de sonho.
A expressão musical das primeiras estrelas
Que iluminam o silêncio da tarde,
Como lágrimas de adolescentes...
E o atleta, que tem o sentido dos ritmos nos músculos submissos,
Busca perpetuar, numa imagem que esplenda
Clara e vibrátil como uma ode pindárica,
E tenha a assustadora beleza da vitória sobre a morte,
Ao pasmo olhar da multidão de fôlego suspenso,
O salto sobre o abismo.
E o herói, que mede o valor da vida pela beleza oportuna da morte,
Ambiciona cunhar, numa imagem que ostente
O soberano orgulho do desprezo
E a coragem consciente do perigo,
O simbólico exemplo
Do primeiro soldado que tombou
Com um sorriso nos lábios e uma rosa de sangue no peito.
E o santo que transcende as leis humanas
Aspira a eternizar, numa imagem que seja,
A própria infinitude de todos os êxtases
E todas as bondades sem nenhuma recompensa
O gesto irrepetível
Do instante de humildade e de renúncia
Em que se debruçou para beijar o leproso na boca,
Como um lírio num charco...
E o poeta, flauta cheia do sopro divino
Quer reunir, a um acesso instintivo de forças genésicas
Num canto absoluto
o irrelevado espírito das coisas,
A harmonia que ninguém ousou captar,
A beleza invisível para os outros.
E o lavrador, que espera a bendição de Deus,
Deseja aprender, numa imagem que vibre
Como a entranha da agreste companheira
Sob as primícias da maternidade,
A alegria da terra,
Rasgando o próprio seio sem doer
Para as eclosões das primeiras sementes.
Como o oleiro o seu momento de inocência criadora,
E o pintor, o seu momento de domínio incomparável da matéria plástica,
E o músico o seu momento de cósmica integração,
E o atleta o seu momento de vitória espetacular,
E o santo o seu momento de êxtase supremo
E o lavrador, o seu momento de esperança milagrosa
E o poeta o momento de seu canto absoluto
Todos aspiram a perpetuar-se
Moldando o grande sonho em forma eterna.
Todos desejam essa alegria perfeita
Da forma em que se transfunda, num jato, a substância
Do momento imortal, único, entre os dois limites extremos e inúteis do tempo fugaz.
948
Millôr Fernandes
Reflexão Sobre a Reflexão
Terrível é o pensar.
Eu penso tanto
E me canso tanto com meu pensamento
Que às vezes penso em não pensar jamais.
Mas isto requer ser bem pensado
Pois se penso demais
Acabo despensando tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando nisso o tempo todo.
Eu penso tanto
E me canso tanto com meu pensamento
Que às vezes penso em não pensar jamais.
Mas isto requer ser bem pensado
Pois se penso demais
Acabo despensando tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando nisso o tempo todo.
1 593
Martins Napoleão
O Destino da Lira
Dói recolher, na concha e na alma, o alheio pranto
— orvalho a gotejar de outras raízes...
Mas é tão doce a dor de o transformar num canto
Que console infelizes!...
O destino da Lira é como o das estrelas,
Belas e inúteis, aparentemente:
Mas a força vital infinita que há nelas
Faz brotar a semente.
O destino da Lira é o destino das rosas,
morrendo mas deixando o aroma que erra,
Ou no ar ou no esplendor das mulheres formosas,
Como um bem feito à terra.
— orvalho a gotejar de outras raízes...
Mas é tão doce a dor de o transformar num canto
Que console infelizes!...
O destino da Lira é como o das estrelas,
Belas e inúteis, aparentemente:
Mas a força vital infinita que há nelas
Faz brotar a semente.
O destino da Lira é o destino das rosas,
morrendo mas deixando o aroma que erra,
Ou no ar ou no esplendor das mulheres formosas,
Como um bem feito à terra.
891
Martins Napoleão
O Destino da Lira
Dói recolher, na concha e na alma, o alheio pranto
— orvalho a gotejar de outras raízes...
Mas é tão doce a dor de o transformar num canto
Que console infelizes!...
O destino da Lira é como o das estrelas,
Belas e inúteis, aparentemente:
Mas a força vital infinita que há nelas
Faz brotar a semente.
O destino da Lira é o destino das rosas,
morrendo mas deixando o aroma que erra,
Ou no ar ou no esplendor das mulheres formosas,
Como um bem feito à terra.
— orvalho a gotejar de outras raízes...
Mas é tão doce a dor de o transformar num canto
Que console infelizes!...
O destino da Lira é como o das estrelas,
Belas e inúteis, aparentemente:
Mas a força vital infinita que há nelas
Faz brotar a semente.
O destino da Lira é o destino das rosas,
morrendo mas deixando o aroma que erra,
Ou no ar ou no esplendor das mulheres formosas,
Como um bem feito à terra.
891
Maria Lucia Miranda Afonso
Bonsai
Bonsai
Enfaixei meu desejo como os pés das chinesas antigas.
Desde pequenino, envolto nas tiras apertadas de mistério.
De madrugada, eu ouvia os ossos trincando,
sentia o dorso do desejo se arquear, buscando ser no espaço mínimo.
Ao tentar andar, tropeçava. Correr? nem pensar.
Desejava asas com seus delicados pés curvos,
miniaturas de pássaros,
pequenas estruturas circulares.
Como uma árvore bonsai, que desde cedo moldam,
contendo-lhe o caule, podando-lhe as raízes,
meu desejo está plantado em um vaso ornamental,
belo e exótico,
cheio de significados e insólitas metáforas,
como os pés das chinesas antigas...
Enfaixei meu desejo como os pés das chinesas antigas.
Desde pequenino, envolto nas tiras apertadas de mistério.
De madrugada, eu ouvia os ossos trincando,
sentia o dorso do desejo se arquear, buscando ser no espaço mínimo.
Ao tentar andar, tropeçava. Correr? nem pensar.
Desejava asas com seus delicados pés curvos,
miniaturas de pássaros,
pequenas estruturas circulares.
Como uma árvore bonsai, que desde cedo moldam,
contendo-lhe o caule, podando-lhe as raízes,
meu desejo está plantado em um vaso ornamental,
belo e exótico,
cheio de significados e insólitas metáforas,
como os pés das chinesas antigas...
1 341
Manuel João Mansos
Rosas de Sangue
Os passarinhos não cantam,
perderam sua alegria.
Já não canta a cotovia,
voando sobre o arado.
Alentejo abandonado
oh terra afogada em dor,
diz-me lá terra queimada,
onde está o teu valor?
«Hoje estou escravizada,
estão meus campos solitários,
aldeias em agonia:
vieram os mercenários,
Já não canta a cotovia
a sua doce canção.
Agora só canta em mim
a Aldeia de Baleizão:
na sua voz derradeira
erguem-se clamores sem fim
àquela linda ceifeira;
Catarina,
que as tuas rosas de sangue
sejam um grito de alerta
por esta terra deserta
dos meus campos em ruína,
que os mercenários se vão!
Catarina,
das tuas rosas de sangue
as searas brotarão;
nascerá azeite e vinha
e voltará às avezinhas
a sua antiga alegria.
Então, soará de novo,
Alentejo, bem-amado,
a alta voz do teu povo:
— Esta é a Pátria minha,
onde canta a cotovia
voando sobre o arado!…»
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
perderam sua alegria.
Já não canta a cotovia,
voando sobre o arado.
Alentejo abandonado
oh terra afogada em dor,
diz-me lá terra queimada,
onde está o teu valor?
«Hoje estou escravizada,
estão meus campos solitários,
aldeias em agonia:
vieram os mercenários,
Já não canta a cotovia
a sua doce canção.
Agora só canta em mim
a Aldeia de Baleizão:
na sua voz derradeira
erguem-se clamores sem fim
àquela linda ceifeira;
Catarina,
que as tuas rosas de sangue
sejam um grito de alerta
por esta terra deserta
dos meus campos em ruína,
que os mercenários se vão!
Catarina,
das tuas rosas de sangue
as searas brotarão;
nascerá azeite e vinha
e voltará às avezinhas
a sua antiga alegria.
Então, soará de novo,
Alentejo, bem-amado,
a alta voz do teu povo:
— Esta é a Pátria minha,
onde canta a cotovia
voando sobre o arado!…»
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 050
Manuel João Mansos
Rosas de Sangue
Os passarinhos não cantam,
perderam sua alegria.
Já não canta a cotovia,
voando sobre o arado.
Alentejo abandonado
oh terra afogada em dor,
diz-me lá terra queimada,
onde está o teu valor?
«Hoje estou escravizada,
estão meus campos solitários,
aldeias em agonia:
vieram os mercenários,
Já não canta a cotovia
a sua doce canção.
Agora só canta em mim
a Aldeia de Baleizão:
na sua voz derradeira
erguem-se clamores sem fim
àquela linda ceifeira;
Catarina,
que as tuas rosas de sangue
sejam um grito de alerta
por esta terra deserta
dos meus campos em ruína,
que os mercenários se vão!
Catarina,
das tuas rosas de sangue
as searas brotarão;
nascerá azeite e vinha
e voltará às avezinhas
a sua antiga alegria.
Então, soará de novo,
Alentejo, bem-amado,
a alta voz do teu povo:
— Esta é a Pátria minha,
onde canta a cotovia
voando sobre o arado!…»
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
perderam sua alegria.
Já não canta a cotovia,
voando sobre o arado.
Alentejo abandonado
oh terra afogada em dor,
diz-me lá terra queimada,
onde está o teu valor?
«Hoje estou escravizada,
estão meus campos solitários,
aldeias em agonia:
vieram os mercenários,
Já não canta a cotovia
a sua doce canção.
Agora só canta em mim
a Aldeia de Baleizão:
na sua voz derradeira
erguem-se clamores sem fim
àquela linda ceifeira;
Catarina,
que as tuas rosas de sangue
sejam um grito de alerta
por esta terra deserta
dos meus campos em ruína,
que os mercenários se vão!
Catarina,
das tuas rosas de sangue
as searas brotarão;
nascerá azeite e vinha
e voltará às avezinhas
a sua antiga alegria.
Então, soará de novo,
Alentejo, bem-amado,
a alta voz do teu povo:
— Esta é a Pátria minha,
onde canta a cotovia
voando sobre o arado!…»
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 050
Marly de Oliveira
Eu tão prepositiva, desfaleço
Eu, tão prepositiva, desfaleço,
na contorção do que se me propõe:
o mundo não se esquiva à inquisição,
o medo não é bom amigo, o medo
indica a minha forma de não ver
a vã provocação.
Que estreito este caminho, que murado!
Tão pouco que eu ousasse e já seria
talvez o passo necessário
no sentido de ter ou de abster-me,
mas sempre um passo, um movimento,
a voz, um surdo grito, sussurrando
o enleio que o amor conhece,
entretecendo com a hera que cobre o corpo
a matéria do meu espírito,
o seu sigilo, a disputa, os meus dispersos sentidos.
na contorção do que se me propõe:
o mundo não se esquiva à inquisição,
o medo não é bom amigo, o medo
indica a minha forma de não ver
a vã provocação.
Que estreito este caminho, que murado!
Tão pouco que eu ousasse e já seria
talvez o passo necessário
no sentido de ter ou de abster-me,
mas sempre um passo, um movimento,
a voz, um surdo grito, sussurrando
o enleio que o amor conhece,
entretecendo com a hera que cobre o corpo
a matéria do meu espírito,
o seu sigilo, a disputa, os meus dispersos sentidos.
1 186
Micheliny Verunschk
Amiga
Amiga,
lavei os pratos,
mas a mágoa
mastigou-me
o inteiro dia
— esse pedaço
de carne crua
com nervos difíceis
aos dentes,
que sou —.
Se ao menos
eu pudesse banhar
meus pés
na bacia de ágata
do meu avô,
não perdoaria tanto
meus sentimentos
mesquinhos
e debruçaria-me
sobre o balcão
sem rir
e seria
mais triste e grave
e, claro, vestiria luto
por tudo
que foi morto
na minha e tua amizade.
Mas, como vês,
Não sei da bacia branca
donde eu sairia
apaziguada.
lavei os pratos,
mas a mágoa
mastigou-me
o inteiro dia
— esse pedaço
de carne crua
com nervos difíceis
aos dentes,
que sou —.
Se ao menos
eu pudesse banhar
meus pés
na bacia de ágata
do meu avô,
não perdoaria tanto
meus sentimentos
mesquinhos
e debruçaria-me
sobre o balcão
sem rir
e seria
mais triste e grave
e, claro, vestiria luto
por tudo
que foi morto
na minha e tua amizade.
Mas, como vês,
Não sei da bacia branca
donde eu sairia
apaziguada.
943
Micheliny Verunschk
Amiga
Amiga,
lavei os pratos,
mas a mágoa
mastigou-me
o inteiro dia
— esse pedaço
de carne crua
com nervos difíceis
aos dentes,
que sou —.
Se ao menos
eu pudesse banhar
meus pés
na bacia de ágata
do meu avô,
não perdoaria tanto
meus sentimentos
mesquinhos
e debruçaria-me
sobre o balcão
sem rir
e seria
mais triste e grave
e, claro, vestiria luto
por tudo
que foi morto
na minha e tua amizade.
Mas, como vês,
Não sei da bacia branca
donde eu sairia
apaziguada.
lavei os pratos,
mas a mágoa
mastigou-me
o inteiro dia
— esse pedaço
de carne crua
com nervos difíceis
aos dentes,
que sou —.
Se ao menos
eu pudesse banhar
meus pés
na bacia de ágata
do meu avô,
não perdoaria tanto
meus sentimentos
mesquinhos
e debruçaria-me
sobre o balcão
sem rir
e seria
mais triste e grave
e, claro, vestiria luto
por tudo
que foi morto
na minha e tua amizade.
Mas, como vês,
Não sei da bacia branca
donde eu sairia
apaziguada.
943
Micheliny Verunschk
Amiga
Amiga,
lavei os pratos,
mas a mágoa
mastigou-me
o inteiro dia
— esse pedaço
de carne crua
com nervos difíceis
aos dentes,
que sou —.
Se ao menos
eu pudesse banhar
meus pés
na bacia de ágata
do meu avô,
não perdoaria tanto
meus sentimentos
mesquinhos
e debruçaria-me
sobre o balcão
sem rir
e seria
mais triste e grave
e, claro, vestiria luto
por tudo
que foi morto
na minha e tua amizade.
Mas, como vês,
Não sei da bacia branca
donde eu sairia
apaziguada.
lavei os pratos,
mas a mágoa
mastigou-me
o inteiro dia
— esse pedaço
de carne crua
com nervos difíceis
aos dentes,
que sou —.
Se ao menos
eu pudesse banhar
meus pés
na bacia de ágata
do meu avô,
não perdoaria tanto
meus sentimentos
mesquinhos
e debruçaria-me
sobre o balcão
sem rir
e seria
mais triste e grave
e, claro, vestiria luto
por tudo
que foi morto
na minha e tua amizade.
Mas, como vês,
Não sei da bacia branca
donde eu sairia
apaziguada.
943
Micheliny Verunschk
Grindley
Os meninos
da rua velha
querem seda colorida
para povoar os azuis
da xícara clara
de pipas.
Também
balões multicores
e aladas traquinagens
querem os meninos tafuis
do pires
de bordas douradas
(Os meninos
da rua velha:
ladrões do tempo
— crianças —
senhores de prata e luz
gravados na porcelana).
da rua velha
querem seda colorida
para povoar os azuis
da xícara clara
de pipas.
Também
balões multicores
e aladas traquinagens
querem os meninos tafuis
do pires
de bordas douradas
(Os meninos
da rua velha:
ladrões do tempo
— crianças —
senhores de prata e luz
gravados na porcelana).
1 116
Micheliny Verunschk
Vampiro
A palavra
querida
do teu nome
é morcego
nas minhas
madrugadas
e consome
o meu sangue
e minha alma.
Consome:
que és incêndio
em minha casa...
querida
do teu nome
é morcego
nas minhas
madrugadas
e consome
o meu sangue
e minha alma.
Consome:
que és incêndio
em minha casa...
1 198
Micheliny Verunschk
Vampiro
A palavra
querida
do teu nome
é morcego
nas minhas
madrugadas
e consome
o meu sangue
e minha alma.
Consome:
que és incêndio
em minha casa...
querida
do teu nome
é morcego
nas minhas
madrugadas
e consome
o meu sangue
e minha alma.
Consome:
que és incêndio
em minha casa...
1 198
Maria de Lourdes Hortas
Página de Diário
Assim que, aportando, a primavera
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amada
enquanto as pombas lá fora iam ruflando
as asas que abriam a madrugada.
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amada
enquanto as pombas lá fora iam ruflando
as asas que abriam a madrugada.
1 025
Maria de Lourdes Hortas
Página de Diário
Assim que, aportando, a primavera
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amada
enquanto as pombas lá fora iam ruflando
as asas que abriam a madrugada.
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amada
enquanto as pombas lá fora iam ruflando
as asas que abriam a madrugada.
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