Poemas neste tema
Vida e Existência
João Cabral de Melo Neto
Duplicidade do Tempo
O níquel, o alumínio, o estanho,
e outros assépticos elementos,
ao fim se corrompem: o tempo
injeta em cada um seu veneno.
A merda, o lixo, o corpo podre,
os humores, vivos dejetos,
não se corrompem mais: o tempo
seca-os ao fim, com mil cautérios.
e outros assépticos elementos,
ao fim se corrompem: o tempo
injeta em cada um seu veneno.
A merda, o lixo, o corpo podre,
os humores, vivos dejetos,
não se corrompem mais: o tempo
seca-os ao fim, com mil cautérios.
2 709
2
João Cabral de Melo Neto
Duplicidade do Tempo
O níquel, o alumínio, o estanho,
e outros assépticos elementos,
ao fim se corrompem: o tempo
injeta em cada um seu veneno.
A merda, o lixo, o corpo podre,
os humores, vivos dejetos,
não se corrompem mais: o tempo
seca-os ao fim, com mil cautérios.
e outros assépticos elementos,
ao fim se corrompem: o tempo
injeta em cada um seu veneno.
A merda, o lixo, o corpo podre,
os humores, vivos dejetos,
não se corrompem mais: o tempo
seca-os ao fim, com mil cautérios.
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2
Reinaldo Ferreira
Na tarde morna
Na tarde morna
Passeio a culpa de quem sou,
Ai quem sou! Diz que não torna
Ao pecado que pecou
Passa o sossego
Na meiga tarde e quem sou,
Ai quem sou! Quer o aconchego
Que para sempre emigrou.
A noite cai,
Venenosa; e quem sou?
Ai quem sou! Esboroa e esvai
A certa voz que o chamou.
E eis cumprindo
Os dois destinos, quem sou,
E quem sou? A morte vindo,
Com qual dos dois é que vou?
Passeio a culpa de quem sou,
Ai quem sou! Diz que não torna
Ao pecado que pecou
Passa o sossego
Na meiga tarde e quem sou,
Ai quem sou! Quer o aconchego
Que para sempre emigrou.
A noite cai,
Venenosa; e quem sou?
Ai quem sou! Esboroa e esvai
A certa voz que o chamou.
E eis cumprindo
Os dois destinos, quem sou,
E quem sou? A morte vindo,
Com qual dos dois é que vou?
1 639
2
Jorge de Sena
Declaração
Sinto que vou voltar-me para Ti,
Para Ti — como te descrevem e não há que fugir,
não como te penso.
Mesmo o que eu sinto
é que, mais tarde ou mais cedo, cairei rendido.
Contudo sei que vou acreditar
e esquecer o resto porque é lógico, tão lógico!,
tão claro que enraivece e cansa e desconsola...
Ah eu bem conheço que não somos racionais,
mas sempre somos nós e sermo-nos
é o haver mistérios na alma e no mundo
e o não haver necessidade de mistérios em Ti.
Contudo sei que um dia cairei rendido
e hei de acreditar nos dogmas
e nessa crença encontrarei a alegria
de quem contempla paredes verdadeiras
só do seu lado, encontrarei uma alegria de sedução poética ...
Sei também que hei de acabar por ter
piedade dos que não acreditarem
e que hei de deixar de compreender o mundo
uma maneira de sentir de cada um,
para primeiro sinceramente o considerar maneira vaga de
Tu seres,
de Tu te revelares,
e depois me esquecer de tudo
e ir ajoelhar diante dos teus altares
com crepitações mansas de felicidade
e achando poucas todas as velas e flores
para o trono em que estarás por dentro dos meus olhos.
Sei que hei de repetir inefavelmente as orações
e todos esses requerimentos divinos em que há um espaço
para o meu nome;
sei que me hei de entregar a quanto dizem a Teu respeito
e que a minha alma passará a ser minha
e de quem a pesquisar e dormirá tranqüila;
sei que hei de beijar a mão aos íntimos dos teus símbolos
e que os hei de ouvir como se tivesses bocas terrenas,
ah sei que hei de ter preferência por uma ou outra das formas
que dão a Tua Mãe,
sei que hei de olhar enlevado o que não é o Teu retrato,
principalmente aquele de quando eras menino,
e que hei de admitir a Tua presença atual e simultânea
do Teu corpo em todas as Tuas idades e seus acontecimentos;
sei que poderei servir a propaganda
— olhem-no!, como se converteu —
e sei que o meu orgulho se revoltará
e tirarei prazer de Ti nessa revolta;
sei que hei de distinguir entre Ti e o Teu coração,
sei que hei de ser sincero em tudo por não dar por isso,
e sei que hei de esperar confiado a hora de ir ter conTigo,
atribuindo-Te entretanto,
sem querer e sem pensar,
qualidades mesquinhamente humanas e quimericamente divinas,
vendo sinais de Ti em todas as coisas até na minha inércia,
sinais da Tua justiça no mínimo contratempo,
sinais dos Teus desígnios na maior catástrofe...
E SEI QUE, ENTÃO ME HEI DE RENEGAR E ESTE POEMA
À FRENTE?
que hei de renegar tudo,
e por isso Te previno do que sei
para que toda a gente possa ver que eu sinto o que hás de ser
— é que eu conheço-me e adivinho os outros
ou julgo adivinhá-los, tanto faz para o caso.
Talvez que eu me engane e esteja a sustentar-me de erros,
mas os meus erros também são eu próprio!
e eu sei que hei de ser eu e Tu
e os meus erros entre nós dois
enquanto não fechar os olhos e os não reabrir
tal como te descrevem e não há que fugir.
Por tudo, por nada, por mim, que eu abandonarei,
Por Ti, sim, por Ti!... e tudo é tudo,
eu Te previno e mais Te digo:
não irei para Ti..., Perdoa-me! ...
(Olha, já Te peço perdão!)
não caminharei para Ti por hábito ou por fé,
nem por tradição,
nem por interesse,
mas porque o Outro, cá dentro, abdicará, não tarda...
e para onde me voltarei eu, eu!. . ., senão por Ti
até acreditar em Ti como te fazem?
É melhor assim — não procurar.
Tudo está feito, tudo está escrito,
tudo está murado, e bem, com alicerces nos nossos próprios defeitos
— é só ouvir,
é só ler,
é só pasmar sereno,
é só ficar.
Para Ti — como te descrevem e não há que fugir,
não como te penso.
Mesmo o que eu sinto
é que, mais tarde ou mais cedo, cairei rendido.
Contudo sei que vou acreditar
e esquecer o resto porque é lógico, tão lógico!,
tão claro que enraivece e cansa e desconsola...
Ah eu bem conheço que não somos racionais,
mas sempre somos nós e sermo-nos
é o haver mistérios na alma e no mundo
e o não haver necessidade de mistérios em Ti.
Contudo sei que um dia cairei rendido
e hei de acreditar nos dogmas
e nessa crença encontrarei a alegria
de quem contempla paredes verdadeiras
só do seu lado, encontrarei uma alegria de sedução poética ...
Sei também que hei de acabar por ter
piedade dos que não acreditarem
e que hei de deixar de compreender o mundo
uma maneira de sentir de cada um,
para primeiro sinceramente o considerar maneira vaga de
Tu seres,
de Tu te revelares,
e depois me esquecer de tudo
e ir ajoelhar diante dos teus altares
com crepitações mansas de felicidade
e achando poucas todas as velas e flores
para o trono em que estarás por dentro dos meus olhos.
Sei que hei de repetir inefavelmente as orações
e todos esses requerimentos divinos em que há um espaço
para o meu nome;
sei que me hei de entregar a quanto dizem a Teu respeito
e que a minha alma passará a ser minha
e de quem a pesquisar e dormirá tranqüila;
sei que hei de beijar a mão aos íntimos dos teus símbolos
e que os hei de ouvir como se tivesses bocas terrenas,
ah sei que hei de ter preferência por uma ou outra das formas
que dão a Tua Mãe,
sei que hei de olhar enlevado o que não é o Teu retrato,
principalmente aquele de quando eras menino,
e que hei de admitir a Tua presença atual e simultânea
do Teu corpo em todas as Tuas idades e seus acontecimentos;
sei que poderei servir a propaganda
— olhem-no!, como se converteu —
e sei que o meu orgulho se revoltará
e tirarei prazer de Ti nessa revolta;
sei que hei de distinguir entre Ti e o Teu coração,
sei que hei de ser sincero em tudo por não dar por isso,
e sei que hei de esperar confiado a hora de ir ter conTigo,
atribuindo-Te entretanto,
sem querer e sem pensar,
qualidades mesquinhamente humanas e quimericamente divinas,
vendo sinais de Ti em todas as coisas até na minha inércia,
sinais da Tua justiça no mínimo contratempo,
sinais dos Teus desígnios na maior catástrofe...
E SEI QUE, ENTÃO ME HEI DE RENEGAR E ESTE POEMA
À FRENTE?
que hei de renegar tudo,
e por isso Te previno do que sei
para que toda a gente possa ver que eu sinto o que hás de ser
— é que eu conheço-me e adivinho os outros
ou julgo adivinhá-los, tanto faz para o caso.
Talvez que eu me engane e esteja a sustentar-me de erros,
mas os meus erros também são eu próprio!
e eu sei que hei de ser eu e Tu
e os meus erros entre nós dois
enquanto não fechar os olhos e os não reabrir
tal como te descrevem e não há que fugir.
Por tudo, por nada, por mim, que eu abandonarei,
Por Ti, sim, por Ti!... e tudo é tudo,
eu Te previno e mais Te digo:
não irei para Ti..., Perdoa-me! ...
(Olha, já Te peço perdão!)
não caminharei para Ti por hábito ou por fé,
nem por tradição,
nem por interesse,
mas porque o Outro, cá dentro, abdicará, não tarda...
e para onde me voltarei eu, eu!. . ., senão por Ti
até acreditar em Ti como te fazem?
É melhor assim — não procurar.
Tudo está feito, tudo está escrito,
tudo está murado, e bem, com alicerces nos nossos próprios defeitos
— é só ouvir,
é só ler,
é só pasmar sereno,
é só ficar.
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Jorge de Sena
Declaração
Sinto que vou voltar-me para Ti,
Para Ti — como te descrevem e não há que fugir,
não como te penso.
Mesmo o que eu sinto
é que, mais tarde ou mais cedo, cairei rendido.
Contudo sei que vou acreditar
e esquecer o resto porque é lógico, tão lógico!,
tão claro que enraivece e cansa e desconsola...
Ah eu bem conheço que não somos racionais,
mas sempre somos nós e sermo-nos
é o haver mistérios na alma e no mundo
e o não haver necessidade de mistérios em Ti.
Contudo sei que um dia cairei rendido
e hei de acreditar nos dogmas
e nessa crença encontrarei a alegria
de quem contempla paredes verdadeiras
só do seu lado, encontrarei uma alegria de sedução poética ...
Sei também que hei de acabar por ter
piedade dos que não acreditarem
e que hei de deixar de compreender o mundo
uma maneira de sentir de cada um,
para primeiro sinceramente o considerar maneira vaga de
Tu seres,
de Tu te revelares,
e depois me esquecer de tudo
e ir ajoelhar diante dos teus altares
com crepitações mansas de felicidade
e achando poucas todas as velas e flores
para o trono em que estarás por dentro dos meus olhos.
Sei que hei de repetir inefavelmente as orações
e todos esses requerimentos divinos em que há um espaço
para o meu nome;
sei que me hei de entregar a quanto dizem a Teu respeito
e que a minha alma passará a ser minha
e de quem a pesquisar e dormirá tranqüila;
sei que hei de beijar a mão aos íntimos dos teus símbolos
e que os hei de ouvir como se tivesses bocas terrenas,
ah sei que hei de ter preferência por uma ou outra das formas
que dão a Tua Mãe,
sei que hei de olhar enlevado o que não é o Teu retrato,
principalmente aquele de quando eras menino,
e que hei de admitir a Tua presença atual e simultânea
do Teu corpo em todas as Tuas idades e seus acontecimentos;
sei que poderei servir a propaganda
— olhem-no!, como se converteu —
e sei que o meu orgulho se revoltará
e tirarei prazer de Ti nessa revolta;
sei que hei de distinguir entre Ti e o Teu coração,
sei que hei de ser sincero em tudo por não dar por isso,
e sei que hei de esperar confiado a hora de ir ter conTigo,
atribuindo-Te entretanto,
sem querer e sem pensar,
qualidades mesquinhamente humanas e quimericamente divinas,
vendo sinais de Ti em todas as coisas até na minha inércia,
sinais da Tua justiça no mínimo contratempo,
sinais dos Teus desígnios na maior catástrofe...
E SEI QUE, ENTÃO ME HEI DE RENEGAR E ESTE POEMA
À FRENTE?
que hei de renegar tudo,
e por isso Te previno do que sei
para que toda a gente possa ver que eu sinto o que hás de ser
— é que eu conheço-me e adivinho os outros
ou julgo adivinhá-los, tanto faz para o caso.
Talvez que eu me engane e esteja a sustentar-me de erros,
mas os meus erros também são eu próprio!
e eu sei que hei de ser eu e Tu
e os meus erros entre nós dois
enquanto não fechar os olhos e os não reabrir
tal como te descrevem e não há que fugir.
Por tudo, por nada, por mim, que eu abandonarei,
Por Ti, sim, por Ti!... e tudo é tudo,
eu Te previno e mais Te digo:
não irei para Ti..., Perdoa-me! ...
(Olha, já Te peço perdão!)
não caminharei para Ti por hábito ou por fé,
nem por tradição,
nem por interesse,
mas porque o Outro, cá dentro, abdicará, não tarda...
e para onde me voltarei eu, eu!. . ., senão por Ti
até acreditar em Ti como te fazem?
É melhor assim — não procurar.
Tudo está feito, tudo está escrito,
tudo está murado, e bem, com alicerces nos nossos próprios defeitos
— é só ouvir,
é só ler,
é só pasmar sereno,
é só ficar.
Para Ti — como te descrevem e não há que fugir,
não como te penso.
Mesmo o que eu sinto
é que, mais tarde ou mais cedo, cairei rendido.
Contudo sei que vou acreditar
e esquecer o resto porque é lógico, tão lógico!,
tão claro que enraivece e cansa e desconsola...
Ah eu bem conheço que não somos racionais,
mas sempre somos nós e sermo-nos
é o haver mistérios na alma e no mundo
e o não haver necessidade de mistérios em Ti.
Contudo sei que um dia cairei rendido
e hei de acreditar nos dogmas
e nessa crença encontrarei a alegria
de quem contempla paredes verdadeiras
só do seu lado, encontrarei uma alegria de sedução poética ...
Sei também que hei de acabar por ter
piedade dos que não acreditarem
e que hei de deixar de compreender o mundo
uma maneira de sentir de cada um,
para primeiro sinceramente o considerar maneira vaga de
Tu seres,
de Tu te revelares,
e depois me esquecer de tudo
e ir ajoelhar diante dos teus altares
com crepitações mansas de felicidade
e achando poucas todas as velas e flores
para o trono em que estarás por dentro dos meus olhos.
Sei que hei de repetir inefavelmente as orações
e todos esses requerimentos divinos em que há um espaço
para o meu nome;
sei que me hei de entregar a quanto dizem a Teu respeito
e que a minha alma passará a ser minha
e de quem a pesquisar e dormirá tranqüila;
sei que hei de beijar a mão aos íntimos dos teus símbolos
e que os hei de ouvir como se tivesses bocas terrenas,
ah sei que hei de ter preferência por uma ou outra das formas
que dão a Tua Mãe,
sei que hei de olhar enlevado o que não é o Teu retrato,
principalmente aquele de quando eras menino,
e que hei de admitir a Tua presença atual e simultânea
do Teu corpo em todas as Tuas idades e seus acontecimentos;
sei que poderei servir a propaganda
— olhem-no!, como se converteu —
e sei que o meu orgulho se revoltará
e tirarei prazer de Ti nessa revolta;
sei que hei de distinguir entre Ti e o Teu coração,
sei que hei de ser sincero em tudo por não dar por isso,
e sei que hei de esperar confiado a hora de ir ter conTigo,
atribuindo-Te entretanto,
sem querer e sem pensar,
qualidades mesquinhamente humanas e quimericamente divinas,
vendo sinais de Ti em todas as coisas até na minha inércia,
sinais da Tua justiça no mínimo contratempo,
sinais dos Teus desígnios na maior catástrofe...
E SEI QUE, ENTÃO ME HEI DE RENEGAR E ESTE POEMA
À FRENTE?
que hei de renegar tudo,
e por isso Te previno do que sei
para que toda a gente possa ver que eu sinto o que hás de ser
— é que eu conheço-me e adivinho os outros
ou julgo adivinhá-los, tanto faz para o caso.
Talvez que eu me engane e esteja a sustentar-me de erros,
mas os meus erros também são eu próprio!
e eu sei que hei de ser eu e Tu
e os meus erros entre nós dois
enquanto não fechar os olhos e os não reabrir
tal como te descrevem e não há que fugir.
Por tudo, por nada, por mim, que eu abandonarei,
Por Ti, sim, por Ti!... e tudo é tudo,
eu Te previno e mais Te digo:
não irei para Ti..., Perdoa-me! ...
(Olha, já Te peço perdão!)
não caminharei para Ti por hábito ou por fé,
nem por tradição,
nem por interesse,
mas porque o Outro, cá dentro, abdicará, não tarda...
e para onde me voltarei eu, eu!. . ., senão por Ti
até acreditar em Ti como te fazem?
É melhor assim — não procurar.
Tudo está feito, tudo está escrito,
tudo está murado, e bem, com alicerces nos nossos próprios defeitos
— é só ouvir,
é só ler,
é só pasmar sereno,
é só ficar.
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2
Batista Cepelos
Resignação
Este Anjo do Infortúnio, que me guia
Desde o primeiro albor da tenra idade,
E os lírios roxos da melancolia
Desfolha sobre a minha mocidade...
Este, que me acompanha e me vigia,
Sorrindo-me um sorriso de bondade,
E, na dor, que é o meu pão de cada dia,
Me fortalece contra a iniqüidade...
Este, bendito seja, enquanto eu vivo,
A debater-me em trevas horrorosas,
Como um ansioso pássaro cativo!
E que, sobre o meu túmulo, tristonho,
Distenda as asas misericordiosas,
Quando eu sonhar aquele Grande Sonho...
Desde o primeiro albor da tenra idade,
E os lírios roxos da melancolia
Desfolha sobre a minha mocidade...
Este, que me acompanha e me vigia,
Sorrindo-me um sorriso de bondade,
E, na dor, que é o meu pão de cada dia,
Me fortalece contra a iniqüidade...
Este, bendito seja, enquanto eu vivo,
A debater-me em trevas horrorosas,
Como um ansioso pássaro cativo!
E que, sobre o meu túmulo, tristonho,
Distenda as asas misericordiosas,
Quando eu sonhar aquele Grande Sonho...
1 582
2
Batista Cepelos
Resignação
Este Anjo do Infortúnio, que me guia
Desde o primeiro albor da tenra idade,
E os lírios roxos da melancolia
Desfolha sobre a minha mocidade...
Este, que me acompanha e me vigia,
Sorrindo-me um sorriso de bondade,
E, na dor, que é o meu pão de cada dia,
Me fortalece contra a iniqüidade...
Este, bendito seja, enquanto eu vivo,
A debater-me em trevas horrorosas,
Como um ansioso pássaro cativo!
E que, sobre o meu túmulo, tristonho,
Distenda as asas misericordiosas,
Quando eu sonhar aquele Grande Sonho...
Desde o primeiro albor da tenra idade,
E os lírios roxos da melancolia
Desfolha sobre a minha mocidade...
Este, que me acompanha e me vigia,
Sorrindo-me um sorriso de bondade,
E, na dor, que é o meu pão de cada dia,
Me fortalece contra a iniqüidade...
Este, bendito seja, enquanto eu vivo,
A debater-me em trevas horrorosas,
Como um ansioso pássaro cativo!
E que, sobre o meu túmulo, tristonho,
Distenda as asas misericordiosas,
Quando eu sonhar aquele Grande Sonho...
1 582
2
Batista Cepelos
Resignação
Este Anjo do Infortúnio, que me guia
Desde o primeiro albor da tenra idade,
E os lírios roxos da melancolia
Desfolha sobre a minha mocidade...
Este, que me acompanha e me vigia,
Sorrindo-me um sorriso de bondade,
E, na dor, que é o meu pão de cada dia,
Me fortalece contra a iniqüidade...
Este, bendito seja, enquanto eu vivo,
A debater-me em trevas horrorosas,
Como um ansioso pássaro cativo!
E que, sobre o meu túmulo, tristonho,
Distenda as asas misericordiosas,
Quando eu sonhar aquele Grande Sonho...
Desde o primeiro albor da tenra idade,
E os lírios roxos da melancolia
Desfolha sobre a minha mocidade...
Este, que me acompanha e me vigia,
Sorrindo-me um sorriso de bondade,
E, na dor, que é o meu pão de cada dia,
Me fortalece contra a iniqüidade...
Este, bendito seja, enquanto eu vivo,
A debater-me em trevas horrorosas,
Como um ansioso pássaro cativo!
E que, sobre o meu túmulo, tristonho,
Distenda as asas misericordiosas,
Quando eu sonhar aquele Grande Sonho...
1 582
2
Almir Fonseca
Último Soneto
Padecendo no leito de Procusto,
Eu sinto a vida se esvaindo aos poucos,
E às vezes tenho pesadelos loucos
Que ao lembrá-los depois inda me assusto
Levados por espíritos de amoucos,
Num desespero crucial, injusto,
Desço, com a exigüidade do meu busto,
À escuridão das covas e cavoucos.
Mas quebrando os grilhões e os arganéus
Que me atavam às fundas sepulturas,
— Surjo singrando a vastidão dos céus,
Como se navegasse em mansas vagas
Para alcançar as máximas alturas
Do além, buscando esplendorosas plagas...
Eu sinto a vida se esvaindo aos poucos,
E às vezes tenho pesadelos loucos
Que ao lembrá-los depois inda me assusto
Levados por espíritos de amoucos,
Num desespero crucial, injusto,
Desço, com a exigüidade do meu busto,
À escuridão das covas e cavoucos.
Mas quebrando os grilhões e os arganéus
Que me atavam às fundas sepulturas,
— Surjo singrando a vastidão dos céus,
Como se navegasse em mansas vagas
Para alcançar as máximas alturas
Do além, buscando esplendorosas plagas...
1 796
2
Almir Fonseca
Último Soneto
Padecendo no leito de Procusto,
Eu sinto a vida se esvaindo aos poucos,
E às vezes tenho pesadelos loucos
Que ao lembrá-los depois inda me assusto
Levados por espíritos de amoucos,
Num desespero crucial, injusto,
Desço, com a exigüidade do meu busto,
À escuridão das covas e cavoucos.
Mas quebrando os grilhões e os arganéus
Que me atavam às fundas sepulturas,
— Surjo singrando a vastidão dos céus,
Como se navegasse em mansas vagas
Para alcançar as máximas alturas
Do além, buscando esplendorosas plagas...
Eu sinto a vida se esvaindo aos poucos,
E às vezes tenho pesadelos loucos
Que ao lembrá-los depois inda me assusto
Levados por espíritos de amoucos,
Num desespero crucial, injusto,
Desço, com a exigüidade do meu busto,
À escuridão das covas e cavoucos.
Mas quebrando os grilhões e os arganéus
Que me atavam às fundas sepulturas,
— Surjo singrando a vastidão dos céus,
Como se navegasse em mansas vagas
Para alcançar as máximas alturas
Do além, buscando esplendorosas plagas...
1 796
2
Almir Fonseca
Último Soneto
Padecendo no leito de Procusto,
Eu sinto a vida se esvaindo aos poucos,
E às vezes tenho pesadelos loucos
Que ao lembrá-los depois inda me assusto
Levados por espíritos de amoucos,
Num desespero crucial, injusto,
Desço, com a exigüidade do meu busto,
À escuridão das covas e cavoucos.
Mas quebrando os grilhões e os arganéus
Que me atavam às fundas sepulturas,
— Surjo singrando a vastidão dos céus,
Como se navegasse em mansas vagas
Para alcançar as máximas alturas
Do além, buscando esplendorosas plagas...
Eu sinto a vida se esvaindo aos poucos,
E às vezes tenho pesadelos loucos
Que ao lembrá-los depois inda me assusto
Levados por espíritos de amoucos,
Num desespero crucial, injusto,
Desço, com a exigüidade do meu busto,
À escuridão das covas e cavoucos.
Mas quebrando os grilhões e os arganéus
Que me atavam às fundas sepulturas,
— Surjo singrando a vastidão dos céus,
Como se navegasse em mansas vagas
Para alcançar as máximas alturas
Do além, buscando esplendorosas plagas...
1 796
2
Vinicius de Moraes
Rosário
E eu que era um menino puro
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava... mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos noturnos
Luzindo de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha...
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado
Lembro que longe, nos Ionges
Um gramofone tocava
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anêmona na água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pêlo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana brava.
Senti à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só naquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe para quem, quem sabe?
Mas como me seduzia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava...
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava... mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos noturnos
Luzindo de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha...
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado
Lembro que longe, nos Ionges
Um gramofone tocava
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anêmona na água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pêlo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana brava.
Senti à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só naquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe para quem, quem sabe?
Mas como me seduzia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava...
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.
7 869
2
Vinicius de Moraes
Rosário
E eu que era um menino puro
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava... mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos noturnos
Luzindo de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha...
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado
Lembro que longe, nos Ionges
Um gramofone tocava
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anêmona na água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pêlo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana brava.
Senti à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só naquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe para quem, quem sabe?
Mas como me seduzia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava...
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava... mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos noturnos
Luzindo de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha...
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado
Lembro que longe, nos Ionges
Um gramofone tocava
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anêmona na água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pêlo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana brava.
Senti à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só naquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe para quem, quem sabe?
Mas como me seduzia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava...
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.
7 869
2
Vinicius de Moraes
Rosário
E eu que era um menino puro
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava... mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos noturnos
Luzindo de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha...
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado
Lembro que longe, nos Ionges
Um gramofone tocava
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anêmona na água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pêlo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana brava.
Senti à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só naquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe para quem, quem sabe?
Mas como me seduzia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava...
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava... mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos noturnos
Luzindo de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha...
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado
Lembro que longe, nos Ionges
Um gramofone tocava
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anêmona na água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pêlo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana brava.
Senti à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só naquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe para quem, quem sabe?
Mas como me seduzia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava...
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.
7 869
2
Tomé Varela da Silva
Ter uma Ter várias
Ter uma só cara
é estar-se nu
em casa
ou no jardim.
Ter várias caras
é mais fácil
que estar-se nu
em qualquer lado.
Ter várias caras
é doença social
de bom tom.
Ter uma só cara
é saúde
ou doença mental.
é estar-se nu
em casa
ou no jardim.
Ter várias caras
é mais fácil
que estar-se nu
em qualquer lado.
Ter várias caras
é doença social
de bom tom.
Ter uma só cara
é saúde
ou doença mental.
1 336
2
Nauro Machado
Dança Herética
Sou ímpar:
sou par em mim,
quando em minha alma carrego deus
transportado num cofo de vísceras
pelas ladeiras da misericórdia.
Quem me restituirá ao impar que sou,
senão a morte que descascará minha pele
abandonando os braços inutilmente
à espera do sol?
Sou ímpar em mim e par em Deus.
sou par em mim,
quando em minha alma carrego deus
transportado num cofo de vísceras
pelas ladeiras da misericórdia.
Quem me restituirá ao impar que sou,
senão a morte que descascará minha pele
abandonando os braços inutilmente
à espera do sol?
Sou ímpar em mim e par em Deus.
2 135
2
Nauro Machado
Dança Herética
Sou ímpar:
sou par em mim,
quando em minha alma carrego deus
transportado num cofo de vísceras
pelas ladeiras da misericórdia.
Quem me restituirá ao impar que sou,
senão a morte que descascará minha pele
abandonando os braços inutilmente
à espera do sol?
Sou ímpar em mim e par em Deus.
sou par em mim,
quando em minha alma carrego deus
transportado num cofo de vísceras
pelas ladeiras da misericórdia.
Quem me restituirá ao impar que sou,
senão a morte que descascará minha pele
abandonando os braços inutilmente
à espera do sol?
Sou ímpar em mim e par em Deus.
2 135
2
Nauro Machado
Dança Herética
Sou ímpar:
sou par em mim,
quando em minha alma carrego deus
transportado num cofo de vísceras
pelas ladeiras da misericórdia.
Quem me restituirá ao impar que sou,
senão a morte que descascará minha pele
abandonando os braços inutilmente
à espera do sol?
Sou ímpar em mim e par em Deus.
sou par em mim,
quando em minha alma carrego deus
transportado num cofo de vísceras
pelas ladeiras da misericórdia.
Quem me restituirá ao impar que sou,
senão a morte que descascará minha pele
abandonando os braços inutilmente
à espera do sol?
Sou ímpar em mim e par em Deus.
2 135
2
Angela Santos
Crepúsculo
A
nudez e o frio do que era
acordaram o sonho
maior que o quase - nada
dentro de mim
Eu crescia
por dentro, crescia por fora
ante o espanto e a espera.
e os meus olhos cresciam,
assustados cresciam
e dentro deles um sonho,
mundos
outros.
O meu corpo eternizava
o crepúsculo da Primavera
os cheiros as cores
Maio nos sentidos perpetuado.
Fora de mim,
indiferente
o suceder de estações
pétalas, réstias de sol
árvores despidas, vergadas
pelos ventos outonais.
nudez e o frio do que era
acordaram o sonho
maior que o quase - nada
dentro de mim
Eu crescia
por dentro, crescia por fora
ante o espanto e a espera.
e os meus olhos cresciam,
assustados cresciam
e dentro deles um sonho,
mundos
outros.
O meu corpo eternizava
o crepúsculo da Primavera
os cheiros as cores
Maio nos sentidos perpetuado.
Fora de mim,
indiferente
o suceder de estações
pétalas, réstias de sol
árvores despidas, vergadas
pelos ventos outonais.
1 340
2
Angela Santos
Crepúsculo
A
nudez e o frio do que era
acordaram o sonho
maior que o quase - nada
dentro de mim
Eu crescia
por dentro, crescia por fora
ante o espanto e a espera.
e os meus olhos cresciam,
assustados cresciam
e dentro deles um sonho,
mundos
outros.
O meu corpo eternizava
o crepúsculo da Primavera
os cheiros as cores
Maio nos sentidos perpetuado.
Fora de mim,
indiferente
o suceder de estações
pétalas, réstias de sol
árvores despidas, vergadas
pelos ventos outonais.
nudez e o frio do que era
acordaram o sonho
maior que o quase - nada
dentro de mim
Eu crescia
por dentro, crescia por fora
ante o espanto e a espera.
e os meus olhos cresciam,
assustados cresciam
e dentro deles um sonho,
mundos
outros.
O meu corpo eternizava
o crepúsculo da Primavera
os cheiros as cores
Maio nos sentidos perpetuado.
Fora de mim,
indiferente
o suceder de estações
pétalas, réstias de sol
árvores despidas, vergadas
pelos ventos outonais.
1 340
2
Artur Ferreira
Esses Hábitos que Tens
Hoje acordei
e ainda sonhando,
naqueles instantes entre sonhar e acordar,
senti tua perna se roçar entre as minhas...
Esse hábito doce que tens
de me acordar...
Ouvi muito longe, o teu respirar,
suave e pausado, murmurando
coisas sem nexo...
Esse hábito doce que tens
de me saudar de manhã...
Semi-adormecida, pegaste minha mão
e a puseste entre os seios
meu pouso diário...
Esse hábito lindo que tens
de me excitar...
E viajei nos meus sonhos, não querendo acordar,
amando o teu corpo, vezes sem conta...
e então despertei, sentindo saudades
desses hábitos antigos
que tinhas comigo...
e ainda sonhando,
naqueles instantes entre sonhar e acordar,
senti tua perna se roçar entre as minhas...
Esse hábito doce que tens
de me acordar...
Ouvi muito longe, o teu respirar,
suave e pausado, murmurando
coisas sem nexo...
Esse hábito doce que tens
de me saudar de manhã...
Semi-adormecida, pegaste minha mão
e a puseste entre os seios
meu pouso diário...
Esse hábito lindo que tens
de me excitar...
E viajei nos meus sonhos, não querendo acordar,
amando o teu corpo, vezes sem conta...
e então despertei, sentindo saudades
desses hábitos antigos
que tinhas comigo...
1 008
2
Artur Ferreira
Esses Hábitos que Tens
Hoje acordei
e ainda sonhando,
naqueles instantes entre sonhar e acordar,
senti tua perna se roçar entre as minhas...
Esse hábito doce que tens
de me acordar...
Ouvi muito longe, o teu respirar,
suave e pausado, murmurando
coisas sem nexo...
Esse hábito doce que tens
de me saudar de manhã...
Semi-adormecida, pegaste minha mão
e a puseste entre os seios
meu pouso diário...
Esse hábito lindo que tens
de me excitar...
E viajei nos meus sonhos, não querendo acordar,
amando o teu corpo, vezes sem conta...
e então despertei, sentindo saudades
desses hábitos antigos
que tinhas comigo...
e ainda sonhando,
naqueles instantes entre sonhar e acordar,
senti tua perna se roçar entre as minhas...
Esse hábito doce que tens
de me acordar...
Ouvi muito longe, o teu respirar,
suave e pausado, murmurando
coisas sem nexo...
Esse hábito doce que tens
de me saudar de manhã...
Semi-adormecida, pegaste minha mão
e a puseste entre os seios
meu pouso diário...
Esse hábito lindo que tens
de me excitar...
E viajei nos meus sonhos, não querendo acordar,
amando o teu corpo, vezes sem conta...
e então despertei, sentindo saudades
desses hábitos antigos
que tinhas comigo...
1 008
2
Aníbal Raposo
Poema na Madrugada
Tu e eu na mesma hélice
Tu, muitas espiras acima
Que voas mais alto...
Cirandas à volta da lua feiticeira
Com as tuas asas de fogo
Incendeias-me o corpo
E em torrentes e lava
O meu amor flui
E como ela,
Em desespero,
Procura o mar...
Deixa-me dançar contigo uma dança índia
À volta da fogueira
Do nosso encantamento.
Deixa-me enlouquecer ao ritmo
Dum batuque africano
Transposto para um terreiro da Baía.
Deixa-me sentir os sortilégios
De Oxúm e de Oxalá.
Deitar, na praia, flores a Iemanjá.
Adorar a mãe Terra
Sentir-lhe o cheiro
Depois de uma chuvada de Agosto.
Eu quero ser, ao mesmo tempo,
Vinho e mosto.
Madrugada, sol nascente,
Entardecer e sol posto.
Curare.
Veneno na ponta da zarabatana.
Réstia de lucidez em mente insana.
Canta comigo irmã
A cantiga da terra prenhe.
Enforquemos as vaidades
Em gravatas ridículas
Confeccionadas em boa seda
E vendidas por um moderno bufarinheiro
Junto à catedral de Milão.
Deixa-me fundear nas tuas angras.
Ser o teu pirata argelino de estimação.
O teu bandeirante,
Buscando a esmeralda perdida
No meio do sertão.
Eu quero ser o desatino da tua insónia.
A tua noite mal dormida.
A tua cicatriz, a tua ferida,
Cauterizada com ferros ardentes.
Quero ser o teu ranger de dentes
Ante o desespero da miséria...
O teu grilo falante.
O espinho da tua rosa triunfante.
Deixa-me caboucar o sonho.
Construir castelos quiméricos.
Inventar outra arquitectura.
Redonda.
Quero esperar por ti
Na paragem do autocarro
Que vai partir, já
Para Nova Deli.
Quero ser uma luzinha ténue
Na via láctea nocturna
Desta vida favelada.
Rocinha!
Rio e margem,
Voo picado
Pedra Bonita, pivete.
(Glória ao escrete!)
O poder está
Na ponta do canivete!
Ipanema...
Saravah! Irmão Vinícius
Poetinha do amor e do vício.
Aqui estou!
Dou-te razão:
A inspiração continua a estar
Bem no fundo do copo
E da alma.
Salvé musa minha
Habitante da ilha irmã.
Continuas a ser o meu luzeiro,
Estrela da manhã.
Por ti adoro Baco.
Por ti versejo.
Por ti faço charadas,
Num desejo
De te ter mais perto.
Sem ti sou um navio no deserto.
O profeta do caos.
Caruso a cantar na ópera de Manaus.
O porco nos joelhos do visionário Klaus Kinsky
Na epopeia de Fritz Carraldo.
O caldo
Da loucura...
Pura...
Heroína...
Menina...
Lua...
Tu, muitas espiras acima
Que voas mais alto...
Cirandas à volta da lua feiticeira
Com as tuas asas de fogo
Incendeias-me o corpo
E em torrentes e lava
O meu amor flui
E como ela,
Em desespero,
Procura o mar...
Deixa-me dançar contigo uma dança índia
À volta da fogueira
Do nosso encantamento.
Deixa-me enlouquecer ao ritmo
Dum batuque africano
Transposto para um terreiro da Baía.
Deixa-me sentir os sortilégios
De Oxúm e de Oxalá.
Deitar, na praia, flores a Iemanjá.
Adorar a mãe Terra
Sentir-lhe o cheiro
Depois de uma chuvada de Agosto.
Eu quero ser, ao mesmo tempo,
Vinho e mosto.
Madrugada, sol nascente,
Entardecer e sol posto.
Curare.
Veneno na ponta da zarabatana.
Réstia de lucidez em mente insana.
Canta comigo irmã
A cantiga da terra prenhe.
Enforquemos as vaidades
Em gravatas ridículas
Confeccionadas em boa seda
E vendidas por um moderno bufarinheiro
Junto à catedral de Milão.
Deixa-me fundear nas tuas angras.
Ser o teu pirata argelino de estimação.
O teu bandeirante,
Buscando a esmeralda perdida
No meio do sertão.
Eu quero ser o desatino da tua insónia.
A tua noite mal dormida.
A tua cicatriz, a tua ferida,
Cauterizada com ferros ardentes.
Quero ser o teu ranger de dentes
Ante o desespero da miséria...
O teu grilo falante.
O espinho da tua rosa triunfante.
Deixa-me caboucar o sonho.
Construir castelos quiméricos.
Inventar outra arquitectura.
Redonda.
Quero esperar por ti
Na paragem do autocarro
Que vai partir, já
Para Nova Deli.
Quero ser uma luzinha ténue
Na via láctea nocturna
Desta vida favelada.
Rocinha!
Rio e margem,
Voo picado
Pedra Bonita, pivete.
(Glória ao escrete!)
O poder está
Na ponta do canivete!
Ipanema...
Saravah! Irmão Vinícius
Poetinha do amor e do vício.
Aqui estou!
Dou-te razão:
A inspiração continua a estar
Bem no fundo do copo
E da alma.
Salvé musa minha
Habitante da ilha irmã.
Continuas a ser o meu luzeiro,
Estrela da manhã.
Por ti adoro Baco.
Por ti versejo.
Por ti faço charadas,
Num desejo
De te ter mais perto.
Sem ti sou um navio no deserto.
O profeta do caos.
Caruso a cantar na ópera de Manaus.
O porco nos joelhos do visionário Klaus Kinsky
Na epopeia de Fritz Carraldo.
O caldo
Da loucura...
Pura...
Heroína...
Menina...
Lua...
1 043
2
Lya Luft
Guardei-me para Ti
Guardei-me
para ti como um segredo
Que eu mesma não desvendei:
Há notas nesta guitarra que não toquei,
Há praias na minha ilha que nem andei.
É preciso que me tomes, além do riso e do olhar,
Naquilo que não conheço e adivinhei;
É preciso que me ensines a canção do que serei
E me cries com teu gesto
Que nem sonhei.
para ti como um segredo
Que eu mesma não desvendei:
Há notas nesta guitarra que não toquei,
Há praias na minha ilha que nem andei.
É preciso que me tomes, além do riso e do olhar,
Naquilo que não conheço e adivinhei;
É preciso que me ensines a canção do que serei
E me cries com teu gesto
Que nem sonhei.
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