Poemas neste tema
Vida e Existência
Nuno Júdice
Um poema de amor, ainda
Um trabalho sonâmbulo corrói a vegetação. O vento
assombra o mutismo das suas folhas. Incham com a chuva,
grávidas de uma febre cinzenta. Arranco-lhes esse fruto
com mãos de crepúsculo.
Ponho-o na mesa onde me sentei contigo. Colho
o teu olhar triste; espalho-o no prato onde a vida
arrefece. Comemos devagar cada sílaba do amor que
nenhum de nós prenuncia.
E um coral de silêncio brota dos teus
dedos, enquanto te afastas.
Nuno Júdice | "Poesia Reunida", 2001
assombra o mutismo das suas folhas. Incham com a chuva,
grávidas de uma febre cinzenta. Arranco-lhes esse fruto
com mãos de crepúsculo.
Ponho-o na mesa onde me sentei contigo. Colho
o teu olhar triste; espalho-o no prato onde a vida
arrefece. Comemos devagar cada sílaba do amor que
nenhum de nós prenuncia.
E um coral de silêncio brota dos teus
dedos, enquanto te afastas.
Nuno Júdice | "Poesia Reunida", 2001
1 190
1
Fernando Pessoa
PEDROUÇOS
Quando eu era pequeno não sabia
Que cresceria.
Pelo menos não o sentia.
Naquela idade o tempo não existe.
Cada dia é a mesma mesa
Com o mesmo quintal ao fundo;
E quando se sente tristeza
Está tristeza, mas não se está triste.
Eu era assim
E todas as crianças d'este mundo
Assim foram antes de mim.
O quintal grande estava dividido
Por uma frágil grade, alta, de tiras
Cruzadas, de madeirinhas,
Em horta e em jardim.
Meu coração anda esquecido,
Mas não minha visão. De ela não tires
Tempo, esse quadro onde o feliz que eu fui
Dá-me uma felicidade ainda minha!
Inútil o teu frio curso flui
Para quem das lembranças se acarinha.
Que cresceria.
Pelo menos não o sentia.
Naquela idade o tempo não existe.
Cada dia é a mesma mesa
Com o mesmo quintal ao fundo;
E quando se sente tristeza
Está tristeza, mas não se está triste.
Eu era assim
E todas as crianças d'este mundo
Assim foram antes de mim.
O quintal grande estava dividido
Por uma frágil grade, alta, de tiras
Cruzadas, de madeirinhas,
Em horta e em jardim.
Meu coração anda esquecido,
Mas não minha visão. De ela não tires
Tempo, esse quadro onde o feliz que eu fui
Dá-me uma felicidade ainda minha!
Inútil o teu frio curso flui
Para quem das lembranças se acarinha.
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1
Fernando Pessoa
PEDROUÇOS
Quando eu era pequeno não sabia
Que cresceria.
Pelo menos não o sentia.
Naquela idade o tempo não existe.
Cada dia é a mesma mesa
Com o mesmo quintal ao fundo;
E quando se sente tristeza
Está tristeza, mas não se está triste.
Eu era assim
E todas as crianças d'este mundo
Assim foram antes de mim.
O quintal grande estava dividido
Por uma frágil grade, alta, de tiras
Cruzadas, de madeirinhas,
Em horta e em jardim.
Meu coração anda esquecido,
Mas não minha visão. De ela não tires
Tempo, esse quadro onde o feliz que eu fui
Dá-me uma felicidade ainda minha!
Inútil o teu frio curso flui
Para quem das lembranças se acarinha.
Que cresceria.
Pelo menos não o sentia.
Naquela idade o tempo não existe.
Cada dia é a mesma mesa
Com o mesmo quintal ao fundo;
E quando se sente tristeza
Está tristeza, mas não se está triste.
Eu era assim
E todas as crianças d'este mundo
Assim foram antes de mim.
O quintal grande estava dividido
Por uma frágil grade, alta, de tiras
Cruzadas, de madeirinhas,
Em horta e em jardim.
Meu coração anda esquecido,
Mas não minha visão. De ela não tires
Tempo, esse quadro onde o feliz que eu fui
Dá-me uma felicidade ainda minha!
Inútil o teu frio curso flui
Para quem das lembranças se acarinha.
1 869
1
Fernando Pessoa
PEDROUÇOS
Quando eu era pequeno não sabia
Que cresceria.
Pelo menos não o sentia.
Naquela idade o tempo não existe.
Cada dia é a mesma mesa
Com o mesmo quintal ao fundo;
E quando se sente tristeza
Está tristeza, mas não se está triste.
Eu era assim
E todas as crianças d'este mundo
Assim foram antes de mim.
O quintal grande estava dividido
Por uma frágil grade, alta, de tiras
Cruzadas, de madeirinhas,
Em horta e em jardim.
Meu coração anda esquecido,
Mas não minha visão. De ela não tires
Tempo, esse quadro onde o feliz que eu fui
Dá-me uma felicidade ainda minha!
Inútil o teu frio curso flui
Para quem das lembranças se acarinha.
Que cresceria.
Pelo menos não o sentia.
Naquela idade o tempo não existe.
Cada dia é a mesma mesa
Com o mesmo quintal ao fundo;
E quando se sente tristeza
Está tristeza, mas não se está triste.
Eu era assim
E todas as crianças d'este mundo
Assim foram antes de mim.
O quintal grande estava dividido
Por uma frágil grade, alta, de tiras
Cruzadas, de madeirinhas,
Em horta e em jardim.
Meu coração anda esquecido,
Mas não minha visão. De ela não tires
Tempo, esse quadro onde o feliz que eu fui
Dá-me uma felicidade ainda minha!
Inútil o teu frio curso flui
Para quem das lembranças se acarinha.
1 869
1
Fernando Pessoa
Agora que sinto amor
Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.
2 585
1
Fernando Pessoa
Essa simplicidade d'alma
Essa simplicidade d'alma
Possuída não só dos inocentes
Mas até dos viciosos, criminosos
De ter uma (...)
Sem constantemente analisar
O que vai no seu ser, essa pureza
Que faz a vida leve mesmo ao mais
Sério, que nunca nos de todo afasta
Da criança em nós, essa simplicidade
Perdi-a e só me resta um vácuo imenso
Que o pensamento friamente ocupa.
Medo da morte não; horror da morte.
Horror por ela ser, pelo que é
E pelo inevitável (...)
Possuída não só dos inocentes
Mas até dos viciosos, criminosos
De ter uma (...)
Sem constantemente analisar
O que vai no seu ser, essa pureza
Que faz a vida leve mesmo ao mais
Sério, que nunca nos de todo afasta
Da criança em nós, essa simplicidade
Perdi-a e só me resta um vácuo imenso
Que o pensamento friamente ocupa.
Medo da morte não; horror da morte.
Horror por ela ser, pelo que é
E pelo inevitável (...)
2 162
1
Fernando Pessoa
Essa simplicidade d'alma
Essa simplicidade d'alma
Possuída não só dos inocentes
Mas até dos viciosos, criminosos
De ter uma (...)
Sem constantemente analisar
O que vai no seu ser, essa pureza
Que faz a vida leve mesmo ao mais
Sério, que nunca nos de todo afasta
Da criança em nós, essa simplicidade
Perdi-a e só me resta um vácuo imenso
Que o pensamento friamente ocupa.
Medo da morte não; horror da morte.
Horror por ela ser, pelo que é
E pelo inevitável (...)
Possuída não só dos inocentes
Mas até dos viciosos, criminosos
De ter uma (...)
Sem constantemente analisar
O que vai no seu ser, essa pureza
Que faz a vida leve mesmo ao mais
Sério, que nunca nos de todo afasta
Da criança em nós, essa simplicidade
Perdi-a e só me resta um vácuo imenso
Que o pensamento friamente ocupa.
Medo da morte não; horror da morte.
Horror por ela ser, pelo que é
E pelo inevitável (...)
2 162
1
Fernando Pessoa
Essa simplicidade d'alma
Essa simplicidade d'alma
Possuída não só dos inocentes
Mas até dos viciosos, criminosos
De ter uma (...)
Sem constantemente analisar
O que vai no seu ser, essa pureza
Que faz a vida leve mesmo ao mais
Sério, que nunca nos de todo afasta
Da criança em nós, essa simplicidade
Perdi-a e só me resta um vácuo imenso
Que o pensamento friamente ocupa.
Medo da morte não; horror da morte.
Horror por ela ser, pelo que é
E pelo inevitável (...)
Possuída não só dos inocentes
Mas até dos viciosos, criminosos
De ter uma (...)
Sem constantemente analisar
O que vai no seu ser, essa pureza
Que faz a vida leve mesmo ao mais
Sério, que nunca nos de todo afasta
Da criança em nós, essa simplicidade
Perdi-a e só me resta um vácuo imenso
Que o pensamento friamente ocupa.
Medo da morte não; horror da morte.
Horror por ela ser, pelo que é
E pelo inevitável (...)
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1
Fernando Pessoa
II - Há um poeta em mim que Deus me disse...
II
Há um poeta em mim que Deus me disse...
A Primavera esquece nos barrancos
As grinaldas que trouxe dos arrancos
Da sua efémera e espectral ledice...
Pelo prado orvalhado a meninice
Faz soar a alegria os seus tamancos...
Pobre de anseios teu ficar nos bancos
Olhando a hora como quem sorrisse...
Florir do dia a capitéis de Luz...
Violinos do silêncio enternecidos...
Tédio onde o só ter tédio nos seduz...
Minha alma beija o quadro que pintou...
Sento-me ao pé dos séculos perdidos
E cismo o seu perfil de inércia e voo...
Há um poeta em mim que Deus me disse...
A Primavera esquece nos barrancos
As grinaldas que trouxe dos arrancos
Da sua efémera e espectral ledice...
Pelo prado orvalhado a meninice
Faz soar a alegria os seus tamancos...
Pobre de anseios teu ficar nos bancos
Olhando a hora como quem sorrisse...
Florir do dia a capitéis de Luz...
Violinos do silêncio enternecidos...
Tédio onde o só ter tédio nos seduz...
Minha alma beija o quadro que pintou...
Sento-me ao pé dos séculos perdidos
E cismo o seu perfil de inércia e voo...
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1
Fernando Pessoa
II - Há um poeta em mim que Deus me disse...
II
Há um poeta em mim que Deus me disse...
A Primavera esquece nos barrancos
As grinaldas que trouxe dos arrancos
Da sua efémera e espectral ledice...
Pelo prado orvalhado a meninice
Faz soar a alegria os seus tamancos...
Pobre de anseios teu ficar nos bancos
Olhando a hora como quem sorrisse...
Florir do dia a capitéis de Luz...
Violinos do silêncio enternecidos...
Tédio onde o só ter tédio nos seduz...
Minha alma beija o quadro que pintou...
Sento-me ao pé dos séculos perdidos
E cismo o seu perfil de inércia e voo...
Há um poeta em mim que Deus me disse...
A Primavera esquece nos barrancos
As grinaldas que trouxe dos arrancos
Da sua efémera e espectral ledice...
Pelo prado orvalhado a meninice
Faz soar a alegria os seus tamancos...
Pobre de anseios teu ficar nos bancos
Olhando a hora como quem sorrisse...
Florir do dia a capitéis de Luz...
Violinos do silêncio enternecidos...
Tédio onde o só ter tédio nos seduz...
Minha alma beija o quadro que pintou...
Sento-me ao pé dos séculos perdidos
E cismo o seu perfil de inércia e voo...
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1
Fernando Pessoa
Quero, terei —
Quero, terei —
Se não aqui,
Noutro lugar que inda não sei.
Nada perdi.
Tudo serei.
Se não aqui,
Noutro lugar que inda não sei.
Nada perdi.
Tudo serei.
5 133
1
Fernando Pessoa
O nosso mundo é real e o Deus que tem
O nosso mundo é real e o Deus que tem
— O Deus das fés, das crenças, com seu céu (
É absolutamente verdadeiro,
É a realidade, é o criador,
É a Vida e a fonte da Eterna Vida...
Mas nada disso é a Verdade real...
E o próprio Deus não sabe qual é ela...
Ele próprio tem o seu mistério, e pesa
Sobre o que nele seja o Pensamento
O mesmo Górgona que sobre nós pesa...
Ele é sim, infinito e verdadeiro,
Ele sim o eterno criador
Que está além do tempo, e o espaço, e o (...)
Mas não é mais que um sol porque girando
Em torno ao Ser absoluto... e este é apenas
O sol centro dum sistema dos
Inúmeros sistemas
De que a Verdade Essencial é feita!
Sim, iremos, seres imortais
Sim, iremos a Deus e eternamente
Aí estaremos... E tudo isso é certo...
E tudo isso é falso, é tudo falso.
Outra e fechada sempre é a Verdade...
Outro é Deus do que Deus... e antes são reais
Outros seres do que o ser [...]
— O Deus das fés, das crenças, com seu céu (
É absolutamente verdadeiro,
É a realidade, é o criador,
É a Vida e a fonte da Eterna Vida...
Mas nada disso é a Verdade real...
E o próprio Deus não sabe qual é ela...
Ele próprio tem o seu mistério, e pesa
Sobre o que nele seja o Pensamento
O mesmo Górgona que sobre nós pesa...
Ele é sim, infinito e verdadeiro,
Ele sim o eterno criador
Que está além do tempo, e o espaço, e o (...)
Mas não é mais que um sol porque girando
Em torno ao Ser absoluto... e este é apenas
O sol centro dum sistema dos
Inúmeros sistemas
De que a Verdade Essencial é feita!
Sim, iremos, seres imortais
Sim, iremos a Deus e eternamente
Aí estaremos... E tudo isso é certo...
E tudo isso é falso, é tudo falso.
Outra e fechada sempre é a Verdade...
Outro é Deus do que Deus... e antes são reais
Outros seres do que o ser [...]
1 417
1
Fernando Pessoa
O nosso mundo é real e o Deus que tem
O nosso mundo é real e o Deus que tem
— O Deus das fés, das crenças, com seu céu (
É absolutamente verdadeiro,
É a realidade, é o criador,
É a Vida e a fonte da Eterna Vida...
Mas nada disso é a Verdade real...
E o próprio Deus não sabe qual é ela...
Ele próprio tem o seu mistério, e pesa
Sobre o que nele seja o Pensamento
O mesmo Górgona que sobre nós pesa...
Ele é sim, infinito e verdadeiro,
Ele sim o eterno criador
Que está além do tempo, e o espaço, e o (...)
Mas não é mais que um sol porque girando
Em torno ao Ser absoluto... e este é apenas
O sol centro dum sistema dos
Inúmeros sistemas
De que a Verdade Essencial é feita!
Sim, iremos, seres imortais
Sim, iremos a Deus e eternamente
Aí estaremos... E tudo isso é certo...
E tudo isso é falso, é tudo falso.
Outra e fechada sempre é a Verdade...
Outro é Deus do que Deus... e antes são reais
Outros seres do que o ser [...]
— O Deus das fés, das crenças, com seu céu (
É absolutamente verdadeiro,
É a realidade, é o criador,
É a Vida e a fonte da Eterna Vida...
Mas nada disso é a Verdade real...
E o próprio Deus não sabe qual é ela...
Ele próprio tem o seu mistério, e pesa
Sobre o que nele seja o Pensamento
O mesmo Górgona que sobre nós pesa...
Ele é sim, infinito e verdadeiro,
Ele sim o eterno criador
Que está além do tempo, e o espaço, e o (...)
Mas não é mais que um sol porque girando
Em torno ao Ser absoluto... e este é apenas
O sol centro dum sistema dos
Inúmeros sistemas
De que a Verdade Essencial é feita!
Sim, iremos, seres imortais
Sim, iremos a Deus e eternamente
Aí estaremos... E tudo isso é certo...
E tudo isso é falso, é tudo falso.
Outra e fechada sempre é a Verdade...
Outro é Deus do que Deus... e antes são reais
Outros seres do que o ser [...]
1 417
1
Fernando Pessoa
Estou cansado da inteligência.
Estou cansado da inteligência.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande reacção aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Pára. meu coração!
Sossega, minha esperança factícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui...
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!
Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam internas
Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande reacção aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Pára. meu coração!
Sossega, minha esperança factícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui...
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!
Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam internas
Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.
3 812
1
Fernando Pessoa
Estou cansado da inteligência.
Estou cansado da inteligência.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande reacção aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Pára. meu coração!
Sossega, minha esperança factícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui...
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!
Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam internas
Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande reacção aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Pára. meu coração!
Sossega, minha esperança factícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui...
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!
Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam internas
Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.
3 812
1
Fernando Pessoa
SÁ CARNEIRO
Nesse número do Orpheu que há-de ser feito
Com rosas e estrelas em um mundo novo.
Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,
Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.
Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.
Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.
Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.
Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.
É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]
Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».
Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.
[...]
Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.
Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.
Com rosas e estrelas em um mundo novo.
Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,
Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.
Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.
Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.
Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.
Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.
É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]
Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».
Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.
[...]
Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.
Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.
1 625
1
Fernando Pessoa
SÁ CARNEIRO
Nesse número do Orpheu que há-de ser feito
Com rosas e estrelas em um mundo novo.
Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,
Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.
Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.
Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.
Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.
Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.
É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]
Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».
Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.
[...]
Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.
Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.
Com rosas e estrelas em um mundo novo.
Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,
Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.
Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.
Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.
Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.
Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.
É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]
Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».
Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.
[...]
Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.
Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.
1 625
1
Fernando Pessoa
Teus olhos contas escuras,
Teus olhos contas escuras,
São duas, Avé Marias
Dum rosário d’amarguras
Que eu rezo todos os dias.
GLOSA
Quando a dor me amargurar,
Quando sentir penas duras,
Só me podem consolar
Teus olhos, contas escuras.
Deles só brotam amores;
Não há sombras d’ironias;
Esses olhos sedutores
São duas Avé Marias.
Mas se a ira os vem turvar
Fazem-me sofrer torturas
E as contas todas rezar
Dum rosário d’amarguras.
Ou se os alaga a aflição
Peço p’ra ti alegrias
Numa fervente oração
Que rezo todos os dias!
São duas, Avé Marias
Dum rosário d’amarguras
Que eu rezo todos os dias.
GLOSA
Quando a dor me amargurar,
Quando sentir penas duras,
Só me podem consolar
Teus olhos, contas escuras.
Deles só brotam amores;
Não há sombras d’ironias;
Esses olhos sedutores
São duas Avé Marias.
Mas se a ira os vem turvar
Fazem-me sofrer torturas
E as contas todas rezar
Dum rosário d’amarguras.
Ou se os alaga a aflição
Peço p’ra ti alegrias
Numa fervente oração
Que rezo todos os dias!
1 514
1
Fernando Pessoa
Ah! Ser indiferente!
Ah! Ser indiferente!
É do alto do poder da sua indiferença
Que os chefes dos chefes dominam o mundo.
Ser alheio até a si mesmo!
É do alto do sentir desse alheamento
Que os mestres dos santos dominam o mundo.
Ser esquecido de que se existe!
É do alto do pensar desse esquecer
Que os deuses dos deuses dominam o mundo.
(Não ouvi o que dizias...
ouvi só a musica, e nem a essa ouvi...
Tocavas e falavas ao mesmo tempo?
Sim, creio que tocavas e falavas ao mesmo tempo...
Com quem?
Com alguém em quem tudo acabava no dormir do mundo...
É do alto do poder da sua indiferença
Que os chefes dos chefes dominam o mundo.
Ser alheio até a si mesmo!
É do alto do sentir desse alheamento
Que os mestres dos santos dominam o mundo.
Ser esquecido de que se existe!
É do alto do pensar desse esquecer
Que os deuses dos deuses dominam o mundo.
(Não ouvi o que dizias...
ouvi só a musica, e nem a essa ouvi...
Tocavas e falavas ao mesmo tempo?
Sim, creio que tocavas e falavas ao mesmo tempo...
Com quem?
Com alguém em quem tudo acabava no dormir do mundo...
2 199
1
Fernando Pessoa
Ah, de que serve
Ah, de que serve
A arte que quer ser vida, sem a vida que quer ser?
De que serve a arte se não é a arte que queremos?
De que nos serve a vida se a queremos e não a buscamos,
Se nunca é para nós a vida?
Ah, p'ra saudar-te
Era preciso o coração
Da terra toda...
O corpo-espírito das coisas,
A arte que quer ser vida, sem a vida que quer ser?
De que serve a arte se não é a arte que queremos?
De que nos serve a vida se a queremos e não a buscamos,
Se nunca é para nós a vida?
Ah, p'ra saudar-te
Era preciso o coração
Da terra toda...
O corpo-espírito das coisas,
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Fernando Pessoa
Olhos de veludo falso
Olhos de veludo falso
E que fitam a entender,
Vós sois o meu cadafalso
A que subo com prazer.
E que fitam a entender,
Vós sois o meu cadafalso
A que subo com prazer.
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Fernando Pessoa
ANTÍGONA
Como te amo? Não sei de quantos modos vários
Eu te adoro, mulher de olhos azuis e castos;
Amo-te co'o fervor dos meus sentidos gastos;
Amo-te co'o fervor dos meus preitos diários.
É puro o meu amor, como os puros sacrários;
É nobre o meu amor, como os mais nobres fastos;
É grande como os mares altíssonos e vastos;
É suave como o odor de lírios solitários.
Amor que rompe enfim os laços crus do Ser;
Um tão singelo amor, que aumenta na ventura;
Um amor tão leal que aumenta no sofrer;
Amor de tal feição que se na vida escura
É tão grande e nas mais vis ânsias do viver,
Muito maior será na paz da sepultura!
Ilha Terceira
Eu te adoro, mulher de olhos azuis e castos;
Amo-te co'o fervor dos meus sentidos gastos;
Amo-te co'o fervor dos meus preitos diários.
É puro o meu amor, como os puros sacrários;
É nobre o meu amor, como os mais nobres fastos;
É grande como os mares altíssonos e vastos;
É suave como o odor de lírios solitários.
Amor que rompe enfim os laços crus do Ser;
Um tão singelo amor, que aumenta na ventura;
Um amor tão leal que aumenta no sofrer;
Amor de tal feição que se na vida escura
É tão grande e nas mais vis ânsias do viver,
Muito maior será na paz da sepultura!
Ilha Terceira
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Fernando Pessoa
ANTÍGONA
Como te amo? Não sei de quantos modos vários
Eu te adoro, mulher de olhos azuis e castos;
Amo-te co'o fervor dos meus sentidos gastos;
Amo-te co'o fervor dos meus preitos diários.
É puro o meu amor, como os puros sacrários;
É nobre o meu amor, como os mais nobres fastos;
É grande como os mares altíssonos e vastos;
É suave como o odor de lírios solitários.
Amor que rompe enfim os laços crus do Ser;
Um tão singelo amor, que aumenta na ventura;
Um amor tão leal que aumenta no sofrer;
Amor de tal feição que se na vida escura
É tão grande e nas mais vis ânsias do viver,
Muito maior será na paz da sepultura!
Ilha Terceira
Eu te adoro, mulher de olhos azuis e castos;
Amo-te co'o fervor dos meus sentidos gastos;
Amo-te co'o fervor dos meus preitos diários.
É puro o meu amor, como os puros sacrários;
É nobre o meu amor, como os mais nobres fastos;
É grande como os mares altíssonos e vastos;
É suave como o odor de lírios solitários.
Amor que rompe enfim os laços crus do Ser;
Um tão singelo amor, que aumenta na ventura;
Um amor tão leal que aumenta no sofrer;
Amor de tal feição que se na vida escura
É tão grande e nas mais vis ânsias do viver,
Muito maior será na paz da sepultura!
Ilha Terceira
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Fernando Pessoa
Em Mim
Paro à beira de mim e me debruço...
Abismo... E nesse abismo o Universo
Com seu Tempo e seu Espaço é um astro e nesse
Abismo há outros universos, outras
Formas de Ser com outros Tempos, Espaços
E outras vidas diversas desta vida...
O espírito é antes estrela... O Deus pensado
É um sol... E há mais Deuses, mais espíritos
Doutras maneiras de Realidade...
E eu precipito-me no abismo, e fico
Em mim... E nunca desço... E fecho os olhos
E sonho — e acordo para a Natureza...
Assim eu volto a Mim e à Vida...
Inclino o meu ouvido para mim
E escuto... Um Deus Real e Verdadeiro
Criou nosso universo em sua dupla
Unidade divina de corpo e alma... E esse
Deus, com seu Universo real e eterno,
É um átomo num mundo de universos.
Inextricavelmente
Há outras realidades.
É saber isto que me faz alheio
À vida e pálido entre a humanidade...
Deus a si próprio não se compreende.
Sua origem é mais divina que ele,
E ele não tem origem que as palavras
Possam fazer pensar...
Fecha as portas da Alma! Faze ruído!
Agita, grito, o teu externo Ser,
Encobre-me a Presença do Mistério!
Pode ser que mundo possuamos
Um paraíso eterno, e vida divina
Seja (ó relâmpago do pensamento!)
A realidade! A ilusão talvez
Dure pra sempre... Quem criou um átomo
Ainda por criar
Pode criar uma ilusão eterna...
Altitude! Altitude! Não respiro!
Passei além da Realidade, ergui-me
Acima da Verdade... Deus... O Ser
O abstracto ser em sua abstracta ideia
Esse próprio, o mesmo sonho divino (?(
Apagou-se e eu fiquei na noite eterna
Eu e o Mistério face a face...
Abismo... E nesse abismo o Universo
Com seu Tempo e seu Espaço é um astro e nesse
Abismo há outros universos, outras
Formas de Ser com outros Tempos, Espaços
E outras vidas diversas desta vida...
O espírito é antes estrela... O Deus pensado
É um sol... E há mais Deuses, mais espíritos
Doutras maneiras de Realidade...
E eu precipito-me no abismo, e fico
Em mim... E nunca desço... E fecho os olhos
E sonho — e acordo para a Natureza...
Assim eu volto a Mim e à Vida...
Inclino o meu ouvido para mim
E escuto... Um Deus Real e Verdadeiro
Criou nosso universo em sua dupla
Unidade divina de corpo e alma... E esse
Deus, com seu Universo real e eterno,
É um átomo num mundo de universos.
Inextricavelmente
Há outras realidades.
É saber isto que me faz alheio
À vida e pálido entre a humanidade...
Deus a si próprio não se compreende.
Sua origem é mais divina que ele,
E ele não tem origem que as palavras
Possam fazer pensar...
Fecha as portas da Alma! Faze ruído!
Agita, grito, o teu externo Ser,
Encobre-me a Presença do Mistério!
Pode ser que mundo possuamos
Um paraíso eterno, e vida divina
Seja (ó relâmpago do pensamento!)
A realidade! A ilusão talvez
Dure pra sempre... Quem criou um átomo
Ainda por criar
Pode criar uma ilusão eterna...
Altitude! Altitude! Não respiro!
Passei além da Realidade, ergui-me
Acima da Verdade... Deus... O Ser
O abstracto ser em sua abstracta ideia
Esse próprio, o mesmo sonho divino (?(
Apagou-se e eu fiquei na noite eterna
Eu e o Mistério face a face...
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