Poemas neste tema
Vida e Existência
Nana Corrêa de Lima
Sonhos de Baú
Sonhos de Baú
Janeiro floresce.
Os galhos dos dias abrem-se um a um
em melodia preguiçosa e sonolenta.
Os sonhos de dezembro
são relíquias cuidadosamente guardadas
em um velho baú.
Utopias do florir do ano....
Janeiro floresce.
Os galhos dos dias abrem-se um a um
em melodia preguiçosa e sonolenta.
Os sonhos de dezembro
são relíquias cuidadosamente guardadas
em um velho baú.
Utopias do florir do ano....
918
1
Virgílio Maia
Fotos
Deste antigo retrato, com firmeza,
meu avô me interroga bem de perto,
com aquela usual branda aspereza
que, criança, me punha em desconcerto.
(Na lapela, uma flor, que ele por certo
deixou emurchecida sobre a mesa
e do alto colarinho o branco aperto
incomodava-o um pouco, com certeza).
Tendo ao lado meu pai, que é filho seu,
certamente renovam velhos planos
de terra e gado, açudes e destino.
No fervor de seus vinte e tantos anos,
miram-me assim, mais novos do que eu:
assim mesmo, para eles sou menino.
meu avô me interroga bem de perto,
com aquela usual branda aspereza
que, criança, me punha em desconcerto.
(Na lapela, uma flor, que ele por certo
deixou emurchecida sobre a mesa
e do alto colarinho o branco aperto
incomodava-o um pouco, com certeza).
Tendo ao lado meu pai, que é filho seu,
certamente renovam velhos planos
de terra e gado, açudes e destino.
No fervor de seus vinte e tantos anos,
miram-me assim, mais novos do que eu:
assim mesmo, para eles sou menino.
956
1
Francisco Tribuzi
Momento-interno
No ar o sentido do mistério
Em mim essa dor sem remédio
No vago um momento sério
Na vida esse inconfundível tédio.
Qual de mim já foi quem em outras era(s)
Um navegar de azul me influiu quimera(s)
Que em ser outra vida talvez dessa invertida
Hoje a sinto perdida.
Se sinto a impressão que já vi outro céu que não esse:
Manchado, escurecido
Que andei por ruas-rosas distâncias formosas me hei
Esquecido?...
Onde estão meus antigos pensares?
Noutros céus? Noutros mares?
Que hoje só guardo pesares
A que distância de mim me encontro?
... (?) Sinto as canções do meu caminho
Por que essa tristeza de eu ser outro
Perdido no vácuo, sozinho
Que madrugada guardou o meu perfume?
Que a manhã sempre me esconde
Existência gastando o que o ser assume
No ar sem resposta, onde?
Em mim essa dor sem remédio
No vago um momento sério
Na vida esse inconfundível tédio.
Qual de mim já foi quem em outras era(s)
Um navegar de azul me influiu quimera(s)
Que em ser outra vida talvez dessa invertida
Hoje a sinto perdida.
Se sinto a impressão que já vi outro céu que não esse:
Manchado, escurecido
Que andei por ruas-rosas distâncias formosas me hei
Esquecido?...
Onde estão meus antigos pensares?
Noutros céus? Noutros mares?
Que hoje só guardo pesares
A que distância de mim me encontro?
... (?) Sinto as canções do meu caminho
Por que essa tristeza de eu ser outro
Perdido no vácuo, sozinho
Que madrugada guardou o meu perfume?
Que a manhã sempre me esconde
Existência gastando o que o ser assume
No ar sem resposta, onde?
856
1
Paulo Mendes Campos
Translúcido
Rosas rara se alçavam puras.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.
Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.
Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.
Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,
Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.
A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.
Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.
Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.
Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.
Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,
Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.
A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.
Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.
1 458
1
Paulo Mendes Campos
Translúcido
Rosas rara se alçavam puras.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.
Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.
Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.
Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,
Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.
A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.
Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.
Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.
Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.
Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,
Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.
A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.
Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.
1 458
1
Paulo Mendes Campos
Translúcido
Rosas rara se alçavam puras.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.
Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.
Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.
Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,
Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.
A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.
Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.
Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.
Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.
Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,
Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.
A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.
Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.
1 458
1
R. Petit
Deixem!
Deixem que eu viva ao léu como um rochedo
Sobre a praia sem fim: ermo, esquecido,
Frio, imóvel, tristonho, adormecido,
Como se fosse a imagem de um segredo.
Deixem que viva assim como o arvoredo
Da margem de uma estrada, aos céus erguido,
Que o viandante ao passar, fere, sem medo,
Rouba um galho! e se afasta distraído.
Que eu seja a sombra humilde dos ascetas.
Deixem que eu sofra!... A dor em que me inundo,
Trila na voz da lira dos Poetas.
Se eu vivo entre emoções e fantasias,
Pois deixem que eu me acabe pelo mundo,
Em soluços, em preces e harmonias...
Sobre a praia sem fim: ermo, esquecido,
Frio, imóvel, tristonho, adormecido,
Como se fosse a imagem de um segredo.
Deixem que viva assim como o arvoredo
Da margem de uma estrada, aos céus erguido,
Que o viandante ao passar, fere, sem medo,
Rouba um galho! e se afasta distraído.
Que eu seja a sombra humilde dos ascetas.
Deixem que eu sofra!... A dor em que me inundo,
Trila na voz da lira dos Poetas.
Se eu vivo entre emoções e fantasias,
Pois deixem que eu me acabe pelo mundo,
Em soluços, em preces e harmonias...
933
1
Tobias Pinheiro
Inconformismo
Fui cair nos teus braços, Poesia,
apenas como um anjo inconformado,
que anda no ócio do sonho noite e dia,
para a doce tortura do pecado.
Quem me viu pelos campos não diria
que o destino da criança foi traçado
e eu plasmaria a dor e a fantasia,
sendo por elas próprias torturado.
Não pensei nestas ânsias de infinito
e hoje, crente de que ninguém me escuta,
ignoro as causas por que vivo aflito.
Sou descrente de tudo a que me apego,
menos de fé, que me impulsiona à luta,
embora eu seja vacilante e cego.
apenas como um anjo inconformado,
que anda no ócio do sonho noite e dia,
para a doce tortura do pecado.
Quem me viu pelos campos não diria
que o destino da criança foi traçado
e eu plasmaria a dor e a fantasia,
sendo por elas próprias torturado.
Não pensei nestas ânsias de infinito
e hoje, crente de que ninguém me escuta,
ignoro as causas por que vivo aflito.
Sou descrente de tudo a que me apego,
menos de fé, que me impulsiona à luta,
embora eu seja vacilante e cego.
1 043
1
Tobias Pinheiro
Inconformismo
Fui cair nos teus braços, Poesia,
apenas como um anjo inconformado,
que anda no ócio do sonho noite e dia,
para a doce tortura do pecado.
Quem me viu pelos campos não diria
que o destino da criança foi traçado
e eu plasmaria a dor e a fantasia,
sendo por elas próprias torturado.
Não pensei nestas ânsias de infinito
e hoje, crente de que ninguém me escuta,
ignoro as causas por que vivo aflito.
Sou descrente de tudo a que me apego,
menos de fé, que me impulsiona à luta,
embora eu seja vacilante e cego.
apenas como um anjo inconformado,
que anda no ócio do sonho noite e dia,
para a doce tortura do pecado.
Quem me viu pelos campos não diria
que o destino da criança foi traçado
e eu plasmaria a dor e a fantasia,
sendo por elas próprias torturado.
Não pensei nestas ânsias de infinito
e hoje, crente de que ninguém me escuta,
ignoro as causas por que vivo aflito.
Sou descrente de tudo a que me apego,
menos de fé, que me impulsiona à luta,
embora eu seja vacilante e cego.
1 043
1
Rogaciano Leite Filho
Relógio
No tic-tac do tempo
o mundo passa.
Presa entre cordas
e correntes,
a mente se cala.
E a vida passa.
Sofrendo e morrendo
entre canhões e balas
o sangue se coalha.
E o tempo vai.
Correndo com fome
entre muros altos e duros
o homem se perde.
Mas, a vida passa.
o mundo passa.
Presa entre cordas
e correntes,
a mente se cala.
E a vida passa.
Sofrendo e morrendo
entre canhões e balas
o sangue se coalha.
E o tempo vai.
Correndo com fome
entre muros altos e duros
o homem se perde.
Mas, a vida passa.
1 219
1
Paulo Mendes Campos
Amor Condusse Noi Ad Nada
Quando o olhar adivinhando a vida
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida
As mãos que se procuram ficam presas
Os dedos estreitados lembram garras
Da ave de rapina quando agarra
A carne de outras aves indefesas
A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece
O rosto a outro rosto desafia
A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece
E triste volta a si com sede e fome.
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida
As mãos que se procuram ficam presas
Os dedos estreitados lembram garras
Da ave de rapina quando agarra
A carne de outras aves indefesas
A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece
O rosto a outro rosto desafia
A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece
E triste volta a si com sede e fome.
1 109
1
Caetano Ximenes Aragão
Poema
João vivia no precisado
de pertences só os penduricalhos
Maria vivia no acontecido
de emprenhar todos os anos
Seus filhos viviam de morrer
sem saber, antes do tempo.
de pertences só os penduricalhos
Maria vivia no acontecido
de emprenhar todos os anos
Seus filhos viviam de morrer
sem saber, antes do tempo.
945
1
Herberto Sales
Bruma Rubra
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome da indermida nudez de tuas formas,
que em seus túmidos relevos
são meu repasto e minha bilha.
Na bruma rubra,
buscando teu corpo
em ti me encontro.
E contigo parto em noturna cavalgada,
num dorcel de linho e plumas.
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome de tua alma.
busco teu corpo,
na fome da indermida nudez de tuas formas,
que em seus túmidos relevos
são meu repasto e minha bilha.
Na bruma rubra,
buscando teu corpo
em ti me encontro.
E contigo parto em noturna cavalgada,
num dorcel de linho e plumas.
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome de tua alma.
1 408
1
Reinaldo Ferreira
Feliz do que é levado a enterrar
Feliz do que é levado a enterrar,
Tão indiferente como quem nasceu!
Feliz do que não soube desejar,
Feliz, bem mais feliz do que sou eu!
Feliz do que não riu para não chorar,
Feliz do que não teve e não perdeu!
Feliz do que não sofre se ficar,
Feliz do que partiu e não sofreu!
Feliz do que acha bela e vasta a terra!
Feliz do que acredita a fome, a guerra,
Terrores imaginários de crianças!
Feliz do que não ouve o mundo aos gritos,
Feliz! Felizes todos e benditos
Os que Deus fez iguais às pombas mansas
Tão indiferente como quem nasceu!
Feliz do que não soube desejar,
Feliz, bem mais feliz do que sou eu!
Feliz do que não riu para não chorar,
Feliz do que não teve e não perdeu!
Feliz do que não sofre se ficar,
Feliz do que partiu e não sofreu!
Feliz do que acha bela e vasta a terra!
Feliz do que acredita a fome, a guerra,
Terrores imaginários de crianças!
Feliz do que não ouve o mundo aos gritos,
Feliz! Felizes todos e benditos
Os que Deus fez iguais às pombas mansas
1 869
1
Reinaldo Ferreira
Que de nós dois
Que de nós dois
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
1 972
1
Reinaldo Ferreira
Que de nós dois
Que de nós dois
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
1 972
1
Nelson Motta
barato zen
louco de fumo diante da tv
contemplo a tela iluminada e penso
na ânsia de criar, de ir adiante
que tantome consome e angustia
e sinto que a vida não se faz
somente pela ação e movimento
enquantome abrigo em meu silêncio
e deixo que a tv me hipnotize
nesse momento tonto e inativo
nada é urgente, nada é necessário
além de aceitar serenamente
a hora de não ser
e de ser nada.
não tendo mais
tempo nem saco
para tanto papo
o príncipe de saudades
do tempo em que era sapo.
contemplo a tela iluminada e penso
na ânsia de criar, de ir adiante
que tantome consome e angustia
e sinto que a vida não se faz
somente pela ação e movimento
enquantome abrigo em meu silêncio
e deixo que a tv me hipnotize
nesse momento tonto e inativo
nada é urgente, nada é necessário
além de aceitar serenamente
a hora de não ser
e de ser nada.
não tendo mais
tempo nem saco
para tanto papo
o príncipe de saudades
do tempo em que era sapo.
1 037
1
Fábio Montenegro
A Árvore
Hirta, negra, espectral, chora talvez. Responde
Seu próprio choro, à voz do vento que a fustiga,
Ela que ao sol floriu, floriu às chuvas, onde
A paz é santa, o campo é doce, a noite é amiga ...
Essa que esconde a chaga, essa que a história esconde,
Que conhece a bonança e a borrasca inimiga,
já foi flor, foi semente, e, sendo arbusto, a fronde
Ergueu para a amplidão às aves e à cantiga.
Que infinita tristeza o fim da vida encerra
A quem já pompeou do Sol na própria luz.
As flores para o céu e a sombra para a terra!
Foi semente, brotou... Árvore transformada,
Sorriu em cada flor; e hoje, de galhos nus,
Velha, aguarda a tortura estúpida do nada!
Seu próprio choro, à voz do vento que a fustiga,
Ela que ao sol floriu, floriu às chuvas, onde
A paz é santa, o campo é doce, a noite é amiga ...
Essa que esconde a chaga, essa que a história esconde,
Que conhece a bonança e a borrasca inimiga,
já foi flor, foi semente, e, sendo arbusto, a fronde
Ergueu para a amplidão às aves e à cantiga.
Que infinita tristeza o fim da vida encerra
A quem já pompeou do Sol na própria luz.
As flores para o céu e a sombra para a terra!
Foi semente, brotou... Árvore transformada,
Sorriu em cada flor; e hoje, de galhos nus,
Velha, aguarda a tortura estúpida do nada!
956
1
Fábio Montenegro
A Árvore
Hirta, negra, espectral, chora talvez. Responde
Seu próprio choro, à voz do vento que a fustiga,
Ela que ao sol floriu, floriu às chuvas, onde
A paz é santa, o campo é doce, a noite é amiga ...
Essa que esconde a chaga, essa que a história esconde,
Que conhece a bonança e a borrasca inimiga,
já foi flor, foi semente, e, sendo arbusto, a fronde
Ergueu para a amplidão às aves e à cantiga.
Que infinita tristeza o fim da vida encerra
A quem já pompeou do Sol na própria luz.
As flores para o céu e a sombra para a terra!
Foi semente, brotou... Árvore transformada,
Sorriu em cada flor; e hoje, de galhos nus,
Velha, aguarda a tortura estúpida do nada!
Seu próprio choro, à voz do vento que a fustiga,
Ela que ao sol floriu, floriu às chuvas, onde
A paz é santa, o campo é doce, a noite é amiga ...
Essa que esconde a chaga, essa que a história esconde,
Que conhece a bonança e a borrasca inimiga,
já foi flor, foi semente, e, sendo arbusto, a fronde
Ergueu para a amplidão às aves e à cantiga.
Que infinita tristeza o fim da vida encerra
A quem já pompeou do Sol na própria luz.
As flores para o céu e a sombra para a terra!
Foi semente, brotou... Árvore transformada,
Sorriu em cada flor; e hoje, de galhos nus,
Velha, aguarda a tortura estúpida do nada!
956
1
Reinaldo Ferreira
Que culpa terão as ondas
...Que culpa terão as ondas
Dos movimentos que façam?
São os ventos que as impelem
E sulcos profundos traçam.
Aos ventos quem lhes ordena
Que rasguem rugas no mar?
São as nuvens inquietas
Que os não deixam sossegar.
E as nuvens, almas de névoa,
Porque não param, coitadas?
É que as asas das gaivotas
As trazem desafiadas.
Mas as asas das gaivotas
O cansaço há-de detê-las!
Juraram buscar descanso
Nas pupilas das estrelas.
E como as estrelas estão altas
E não tombam nem se alcançam,
As asas das pobrezinhas
Baldamente se cansam
Baldamente se cansam,
Baldamente palpitam!
As nuvens, por fatalismo,
Logo com elas se agitam;
Os impulsos que elas dão
Arrastam as ventanias;
As vagas arfam nos mares
Em macabras fantasias
Assim as almas inquietas
Prisioneiras de ansiedades,
Mal que se erguem da terra,
Naufragam nas tempestades!
Dos movimentos que façam?
São os ventos que as impelem
E sulcos profundos traçam.
Aos ventos quem lhes ordena
Que rasguem rugas no mar?
São as nuvens inquietas
Que os não deixam sossegar.
E as nuvens, almas de névoa,
Porque não param, coitadas?
É que as asas das gaivotas
As trazem desafiadas.
Mas as asas das gaivotas
O cansaço há-de detê-las!
Juraram buscar descanso
Nas pupilas das estrelas.
E como as estrelas estão altas
E não tombam nem se alcançam,
As asas das pobrezinhas
Baldamente se cansam
Baldamente se cansam,
Baldamente palpitam!
As nuvens, por fatalismo,
Logo com elas se agitam;
Os impulsos que elas dão
Arrastam as ventanias;
As vagas arfam nos mares
Em macabras fantasias
Assim as almas inquietas
Prisioneiras de ansiedades,
Mal que se erguem da terra,
Naufragam nas tempestades!
1 831
1
Rogério Bessa
Do Canto X:
Pós-Legômenos
lúcida, a procura, mas não há cura,
meus olhos cansaram desses desvairas,
em meu rosto, marcas de descaminhos,
procura não-achada e gran pesar,
na saída do poema, a saída,
mais saída que a cura procurada;
a saída não será volta ao poema,
mas retorno ao ponto de retirada.
e assim, não haverá saída até
desfazer-se este périplo terrestre,
que é um circulo estabelecido,
por que dele não haja como sair.
lúcida, a procura, mas não há cura,
meus olhos cansaram desses desvairas,
em meu rosto, marcas de descaminhos,
procura não-achada e gran pesar,
na saída do poema, a saída,
mais saída que a cura procurada;
a saída não será volta ao poema,
mas retorno ao ponto de retirada.
e assim, não haverá saída até
desfazer-se este périplo terrestre,
que é um circulo estabelecido,
por que dele não haja como sair.
995
1
Rogério Bessa
Do Canto X:
Pós-Legômenos
lúcida, a procura, mas não há cura,
meus olhos cansaram desses desvairas,
em meu rosto, marcas de descaminhos,
procura não-achada e gran pesar,
na saída do poema, a saída,
mais saída que a cura procurada;
a saída não será volta ao poema,
mas retorno ao ponto de retirada.
e assim, não haverá saída até
desfazer-se este périplo terrestre,
que é um circulo estabelecido,
por que dele não haja como sair.
lúcida, a procura, mas não há cura,
meus olhos cansaram desses desvairas,
em meu rosto, marcas de descaminhos,
procura não-achada e gran pesar,
na saída do poema, a saída,
mais saída que a cura procurada;
a saída não será volta ao poema,
mas retorno ao ponto de retirada.
e assim, não haverá saída até
desfazer-se este périplo terrestre,
que é um circulo estabelecido,
por que dele não haja como sair.
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Rogério Bessa
Do Canto X:
Pós-Legômenos
lúcida, a procura, mas não há cura,
meus olhos cansaram desses desvairas,
em meu rosto, marcas de descaminhos,
procura não-achada e gran pesar,
na saída do poema, a saída,
mais saída que a cura procurada;
a saída não será volta ao poema,
mas retorno ao ponto de retirada.
e assim, não haverá saída até
desfazer-se este périplo terrestre,
que é um circulo estabelecido,
por que dele não haja como sair.
lúcida, a procura, mas não há cura,
meus olhos cansaram desses desvairas,
em meu rosto, marcas de descaminhos,
procura não-achada e gran pesar,
na saída do poema, a saída,
mais saída que a cura procurada;
a saída não será volta ao poema,
mas retorno ao ponto de retirada.
e assim, não haverá saída até
desfazer-se este périplo terrestre,
que é um circulo estabelecido,
por que dele não haja como sair.
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Honório Armond
Palavras a Um Crente
— "Que vem a ser o Bem?" — perguntas. Digo
que nunca, até hoje, francamente, eu pude
entre o joio do mal achar o trigo.
O pecado é irmão-gêmeo da virtude...
Chamas a todos - Meu fraterno amigo!
A tua alma ingênua, meu irmão, se ilude...
Faze como eu que, há muito, já não sigo
fogos-fátuos brilhando na palude...
Leva este mundo tal como é... Mascara
as tuas emoções, o ódio, a alegria,
cerra o teu coração, aguça o olhar,
que hás de ver entre a turba ingrata e ignara
o Mal, que de virtude se fazia,
rir-se de gozo ao ver alguém chorar...
que nunca, até hoje, francamente, eu pude
entre o joio do mal achar o trigo.
O pecado é irmão-gêmeo da virtude...
Chamas a todos - Meu fraterno amigo!
A tua alma ingênua, meu irmão, se ilude...
Faze como eu que, há muito, já não sigo
fogos-fátuos brilhando na palude...
Leva este mundo tal como é... Mascara
as tuas emoções, o ódio, a alegria,
cerra o teu coração, aguça o olhar,
que hás de ver entre a turba ingrata e ignara
o Mal, que de virtude se fazia,
rir-se de gozo ao ver alguém chorar...
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