Poemas neste tema
Vida e Existência
João Cabral de Melo Neto
Meu Álcool
Marques Rabelo garantia
que bêbado era quem bebia
por se inventar duplo motivo:
sentir-se invivo ou sobrevivo.
Querer-se lúcido, acordar,
ser todo o agudo que nele há,
ser quando está de todo aceso,
tem o ser na ponta dos dedos.
Ou estar num ser tão extreme
que ser é insuportavelmente,
que ser é estar-se num incêndio
e sentir-se esse incêndio sendo.
Por isso, é que o bêbado bebe:
porque triste quer ser alegre,
e bebe porque chega a demais
a alegria de que ele é capaz.
2
Um pôde achar álcool melhor,
não tóxico, sem qualquer depois,
um álcool que não tem veneno
nem contém amanhãs de inferno.
Que, se é preciso, apaga o incêndio
e se é preciso, vem e acende-o;
um álcool que possui duas pontas,
que age a favor como age contra,
nem precisa que alguém lhe diga
quando dar mais ou menos vida
(como lâmpada do escritor russo,
põe o quarto aceso ou escuro).
Mais: que não se bebe, contempla;
é um álcool para a convivência,
álcool que dá a chama e o sopro
com tê-lo ao alcance do corpo.
3
Esse álcool não é de vender:
ninguém engarrafou um ser.
É álcool sem quandos, sem ondes,
de perto, ou pelo telefone.
Vê-lo e usá-lo foi de imediato:
depois de álcoois mais variados,
da familiar cana de cana
de suas várzeas pernambucanas,
viajou por outros tão diversos
(os de Appolinaire, o dos versos)
que até empregou como bebida
o fluido ambíguo de Sevilha.
E de nenhum deles renega:
nem das úlceras que eles legam
nem da intestina homorragia
em hospitais ao fio da vida.
3
Se a um novo álcool se entregou,
se o vê como álcool superior,
não foi por causa de conselho,
prescrição de médico, ou medo.
É que no novo álccol de agora
pode alcançar mais alta quota
de álcool na vida, e é mais contínua
a vida que acende, e seu clima:
um clima mais claro, e tão limpo
como toalha ou lençol de linho,
e ao mesmo tempo tão intenso
de um ser vivo vivendo pleno.
(E isso, só, com a convivência
de mulher, com a nua presença
de mulher, que como Sevilha
é interna-externa, é noitedia.)
que bêbado era quem bebia
por se inventar duplo motivo:
sentir-se invivo ou sobrevivo.
Querer-se lúcido, acordar,
ser todo o agudo que nele há,
ser quando está de todo aceso,
tem o ser na ponta dos dedos.
Ou estar num ser tão extreme
que ser é insuportavelmente,
que ser é estar-se num incêndio
e sentir-se esse incêndio sendo.
Por isso, é que o bêbado bebe:
porque triste quer ser alegre,
e bebe porque chega a demais
a alegria de que ele é capaz.
2
Um pôde achar álcool melhor,
não tóxico, sem qualquer depois,
um álcool que não tem veneno
nem contém amanhãs de inferno.
Que, se é preciso, apaga o incêndio
e se é preciso, vem e acende-o;
um álcool que possui duas pontas,
que age a favor como age contra,
nem precisa que alguém lhe diga
quando dar mais ou menos vida
(como lâmpada do escritor russo,
põe o quarto aceso ou escuro).
Mais: que não se bebe, contempla;
é um álcool para a convivência,
álcool que dá a chama e o sopro
com tê-lo ao alcance do corpo.
3
Esse álcool não é de vender:
ninguém engarrafou um ser.
É álcool sem quandos, sem ondes,
de perto, ou pelo telefone.
Vê-lo e usá-lo foi de imediato:
depois de álcoois mais variados,
da familiar cana de cana
de suas várzeas pernambucanas,
viajou por outros tão diversos
(os de Appolinaire, o dos versos)
que até empregou como bebida
o fluido ambíguo de Sevilha.
E de nenhum deles renega:
nem das úlceras que eles legam
nem da intestina homorragia
em hospitais ao fio da vida.
3
Se a um novo álcool se entregou,
se o vê como álcool superior,
não foi por causa de conselho,
prescrição de médico, ou medo.
É que no novo álccol de agora
pode alcançar mais alta quota
de álcool na vida, e é mais contínua
a vida que acende, e seu clima:
um clima mais claro, e tão limpo
como toalha ou lençol de linho,
e ao mesmo tempo tão intenso
de um ser vivo vivendo pleno.
(E isso, só, com a convivência
de mulher, com a nua presença
de mulher, que como Sevilha
é interna-externa, é noitedia.)
4 455
1
Paul Groussac Mendes
Sua vulva freme
(para Maria Teresa)
Sua vulva freme
de desejo
pois vejo
que treme
Sentindo o cheiro
de minha pele que enlaço
pois faço
de teu corpo faceiro
o meu porto
que me deixa
com teu olhar de gueixa
de tesão quase morto...
Sua vulva freme
de desejo
pois vejo
que treme
Sentindo o cheiro
de minha pele que enlaço
pois faço
de teu corpo faceiro
o meu porto
que me deixa
com teu olhar de gueixa
de tesão quase morto...
1 002
1
Manuela Amaral
Posse intemporal
Fazer amor contigo
não é espelhar teu corpo nu
no vítreo do meu espaço
não é sentir-me possuída
ou possuir-te
É ir buscar-te
ao abismo de milénios de existência
e trazer-te livre.
não é espelhar teu corpo nu
no vítreo do meu espaço
não é sentir-me possuída
ou possuir-te
É ir buscar-te
ao abismo de milénios de existência
e trazer-te livre.
1 710
1
Jorge Lúcio de Campos
A grande fachada
(a Wols)
Um passo à frente
algo simples – não
que procure algo –
apenas me esqueço
de que no raso da
nuca a espinha se
eriça – o velcro
do cu se abre no
afã de sempre –
hoje bem cedo
por toda parte
ou apenas isso
Um passo à frente
algo simples – não
que procure algo –
apenas me esqueço
de que no raso da
nuca a espinha se
eriça – o velcro
do cu se abre no
afã de sempre –
hoje bem cedo
por toda parte
ou apenas isso
926
1
Antônio Mariano Lima
Buceta
Doce a palavra
buceta
doce o sal
de seu formato
doce se dócil
o seu cheiro
doce tão doce
o falá-la
doce o só
poder vê-la
doce melhor
o tocá-la
doce o mágico
realejo
doce o som
que dele arranca-se
doce a palavra
buceta
doce o sal
de seu formato.
buceta
doce o sal
de seu formato
doce se dócil
o seu cheiro
doce tão doce
o falá-la
doce o só
poder vê-la
doce melhor
o tocá-la
doce o mágico
realejo
doce o som
que dele arranca-se
doce a palavra
buceta
doce o sal
de seu formato.
2 158
1
J. G. de Araújo Jorge
Razões de amor
I
Gosto desse teu ar tristonho,
desse olhar de melancolia,
mesmo nos momentos de prazer e de sonho,
ou nos instantes de amor e de alegria...
Gosto dessa tua expressão de ternura
tão suave e feminina,
desse olhar de ventura
com um brilho úmido a luzir num profundo langor...
Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,
tu que dás sempre a impressão de quem precisa
de proteção e amor...
Desse teu ar de menina, desse teu ar
que te faz mais mulher
ao meu olhar...
Gosto de tua voz, tranqüila, do tom manso
com que falas, como se acariciasses
até as palavras que dizes;
de tua presença, que é assim como um quieto remanso,
um pedaço de sombra onde me abrigo
quando somos felizes...
Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,
com que te encostas em meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente, parado,
e teu mundo pudesse ser delimitado
pelos meus braços...
Gosto de ti assim, pequenina, macia,
quando te aperto contra mim e te sinto
minha
(inteiramente nua)
e tens um ar abandonado, como quem caminha
sonâmbula, por um estranho caminho
feito de céu e de lua...
II
Gosto de ti
desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde
onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso
onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrósias,
brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos
para as minhas alegrias;
de teu ventre – uma enseada
– porto sem cais e sem mar –
branca areia à espera da onda
que em vaivém vai se espraiar;
de teus quadris, instrumento
de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram
as brancas asas do sexo;
– do teu corpo só de alvuras
– das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos
de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem
que só de carícias tecem
esses desejos da gente...
Gosto de ti
desesperadamente;
gosto de ti, toda, inteira
nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde
aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos
em teus pequeninos pés)
– gosto de ti, feiticeira,
tal como tu és...
Gosto desse teu ar tristonho,
desse olhar de melancolia,
mesmo nos momentos de prazer e de sonho,
ou nos instantes de amor e de alegria...
Gosto dessa tua expressão de ternura
tão suave e feminina,
desse olhar de ventura
com um brilho úmido a luzir num profundo langor...
Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,
tu que dás sempre a impressão de quem precisa
de proteção e amor...
Desse teu ar de menina, desse teu ar
que te faz mais mulher
ao meu olhar...
Gosto de tua voz, tranqüila, do tom manso
com que falas, como se acariciasses
até as palavras que dizes;
de tua presença, que é assim como um quieto remanso,
um pedaço de sombra onde me abrigo
quando somos felizes...
Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,
com que te encostas em meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente, parado,
e teu mundo pudesse ser delimitado
pelos meus braços...
Gosto de ti assim, pequenina, macia,
quando te aperto contra mim e te sinto
minha
(inteiramente nua)
e tens um ar abandonado, como quem caminha
sonâmbula, por um estranho caminho
feito de céu e de lua...
II
Gosto de ti
desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde
onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso
onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrósias,
brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos
para as minhas alegrias;
de teu ventre – uma enseada
– porto sem cais e sem mar –
branca areia à espera da onda
que em vaivém vai se espraiar;
de teus quadris, instrumento
de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram
as brancas asas do sexo;
– do teu corpo só de alvuras
– das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos
de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem
que só de carícias tecem
esses desejos da gente...
Gosto de ti
desesperadamente;
gosto de ti, toda, inteira
nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde
aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos
em teus pequeninos pés)
– gosto de ti, feiticeira,
tal como tu és...
2 707
1
Paul Verlaine
Moral abreviada
Uma nuca de loura e de graça inclinada,
Um colo que arrulha, belos, lascivos seios,
Com medalhões escuros na mama afogueada,
Esse busto se assenta em baixas almofadas
Enquanto entre duas pernas para o ar, vibrantes,
Uma mulher se ajoelha - ocupada com quê?
Amor o sabe - expondo aos deuses a epopéia
Singela de seu cu magnífico, um espelho
Límpido da beleza, que ali quer se ver
Pra crer. Cu feminino, que vence o viril
Serenamente - o de efebo e o infantil.
Ao cu feminino, supremo, culto e glória!
Um colo que arrulha, belos, lascivos seios,
Com medalhões escuros na mama afogueada,
Esse busto se assenta em baixas almofadas
Enquanto entre duas pernas para o ar, vibrantes,
Uma mulher se ajoelha - ocupada com quê?
Amor o sabe - expondo aos deuses a epopéia
Singela de seu cu magnífico, um espelho
Límpido da beleza, que ali quer se ver
Pra crer. Cu feminino, que vence o viril
Serenamente - o de efebo e o infantil.
Ao cu feminino, supremo, culto e glória!
1 280
1
Paul Groussac Mendes
Naquele apartamento
(Para Darci Quinha Castro)
À noite tarde, tarde noite,
Em transe de açoite
Naquele apartamento,
Eu te amei em tormento
Teus seios sob blusa carmesim
Pontudos me diziam sim;
Tua boca ávida, seca de prazer
Engoliu-me a ponto de jazer
Tuas gostosas coxas quentes
Enlaçavam-me em frementes
Amarras do trepar,
Já na iminência de gozar...
Arranquei tua calcinha, quinha
Senti a delícia de tua castanhinha
Quando em frenesi meu falo
Adentrou tuas entranhas em calo
Renasci e acalmei o teu desejo,
Que mesmo agora ainda vejo
E sinto o ardor, o sugar, o morder,
O mamar, o beijar, o penetrar, o foder...
À noite tarde, tarde noite,
Em transe de açoite
Naquele apartamento,
Eu te amei em tormento
Teus seios sob blusa carmesim
Pontudos me diziam sim;
Tua boca ávida, seca de prazer
Engoliu-me a ponto de jazer
Tuas gostosas coxas quentes
Enlaçavam-me em frementes
Amarras do trepar,
Já na iminência de gozar...
Arranquei tua calcinha, quinha
Senti a delícia de tua castanhinha
Quando em frenesi meu falo
Adentrou tuas entranhas em calo
Renasci e acalmei o teu desejo,
Que mesmo agora ainda vejo
E sinto o ardor, o sugar, o morder,
O mamar, o beijar, o penetrar, o foder...
852
1
Luís Caeiro
Escondido entre o arvoredo
Vejo escondido entre o arvoredo,
Mulheres banhando-se no rio.
Vestidas de nada, nuas, sem medo,
Aquece-as o sol, esquece-lhes o frio.
Invejo o rio que numa carícia,
Afaga todos os seus recantos.
Cresce em mim uma malícia,
Perco-me a fitar os seus encantos.
Banham-se, brincam e gracejam,
Cantam melodias de encantar.
Ainda sinto que ali estejam,
Mesmo depois de acordar.
Mulheres banhando-se no rio.
Vestidas de nada, nuas, sem medo,
Aquece-as o sol, esquece-lhes o frio.
Invejo o rio que numa carícia,
Afaga todos os seus recantos.
Cresce em mim uma malícia,
Perco-me a fitar os seus encantos.
Banham-se, brincam e gracejam,
Cantam melodias de encantar.
Ainda sinto que ali estejam,
Mesmo depois de acordar.
958
1
Julieta Lima
Ele
Ele
Agarra-me os cabelos
Morde-me os braços
Beija-me os dedos
E não me diz nada
Não me toca sequer.
Mas para eu me sentir amada
E me sentir mulher
Bastam-me os seus olhos...
Até que eu solte de mim
O cio da fera
Que ando a mascarar de branca asa
E o arraste por fim
Sem pudor sem roupa
Para a minha casa!
Agarra-me os cabelos
Morde-me os braços
Beija-me os dedos
E não me diz nada
Não me toca sequer.
Mas para eu me sentir amada
E me sentir mulher
Bastam-me os seus olhos...
Até que eu solte de mim
O cio da fera
Que ando a mascarar de branca asa
E o arraste por fim
Sem pudor sem roupa
Para a minha casa!
871
1
Fernando Correia Pina
O affair Clinton – moral da história
Se um dia, menina, fores achada
chupando o duro membro masculino
e se alguém exclamar – grande mamada!
não cores nem lamentes teu destino.
Cita antes a doutrina dimanada
do Congresso americano, como um hino -
não há o sexo oral, o broche é nada,
um contacto, talvez, mas pequenino...
E deixa-os lá dizer – olha a brochista!
ou olhar-te de soslaio com ar trocista
ou fingir que não te vêem, por maldade
porque a lusa moral é uma pindérica
comparada com a verdade da América
onde tudo é questão de oralidade.
chupando o duro membro masculino
e se alguém exclamar – grande mamada!
não cores nem lamentes teu destino.
Cita antes a doutrina dimanada
do Congresso americano, como um hino -
não há o sexo oral, o broche é nada,
um contacto, talvez, mas pequenino...
E deixa-os lá dizer – olha a brochista!
ou olhar-te de soslaio com ar trocista
ou fingir que não te vêem, por maldade
porque a lusa moral é uma pindérica
comparada com a verdade da América
onde tudo é questão de oralidade.
1 112
1
António Aragão
A virgem
um avião em teus seios desocupados
um guindaste em tua boca alerta
um passo de arco-íris corre
teu pulso – dá-me teu bilhete
oh como voo te gosto de viajar!
um motor faz entre tuas coxas
hossana! é sangue o côncavo do teu lugar
um guindaste em tua boca alerta
um passo de arco-íris corre
teu pulso – dá-me teu bilhete
oh como voo te gosto de viajar!
um motor faz entre tuas coxas
hossana! é sangue o côncavo do teu lugar
1 435
1
Lília Chaves
Vem morrer vivendo nos meus braços
Vem morrer vivendo nos meus braços
Preenche com meu colo teus espaços
Do avesso do meu não, faz o teu sim
Vem poetar de amor dentro de mim
Grita o aroma rubro do desejo em flor
Perde teu gosto fulvo desta pele em cor
Pensa nas sombras de gemidos vãos
E faze de meus lábios tuas mãos
Sente meu toque no teu toque exangue
Vive meu gozo em teu próprio sangue
Dá-me teu beijo para que eu afague
Dá-me teus olhos para que eu me afogue
Teu pensamento onde minhalma cabe
E que meu corpo no teu corpo acabe
Preenche com meu colo teus espaços
Do avesso do meu não, faz o teu sim
Vem poetar de amor dentro de mim
Grita o aroma rubro do desejo em flor
Perde teu gosto fulvo desta pele em cor
Pensa nas sombras de gemidos vãos
E faze de meus lábios tuas mãos
Sente meu toque no teu toque exangue
Vive meu gozo em teu próprio sangue
Dá-me teu beijo para que eu afague
Dá-me teus olhos para que eu me afogue
Teu pensamento onde minhalma cabe
E que meu corpo no teu corpo acabe
866
1
Virgínia Schall
Amor em azul e branco
Nuvens brancas
espumas flutuando os andes
Brancas geleiras
pinceladas impressionistas
descendo sobre os cimos
do Ozorno
Branco em flor
campo de margaridas
ondulando ao vento
Branco-amor
esvoaça em lençois e cortinas
desnudando os corpos no quarto
róseos, ardentes, úmidos e ungidos
Branco enevoado do ar
em cheiro de sêmen-vida
do encontro que exala
e enche a casa
perfuma a brisa e se espalha
por entre as ondas suaves
do marinho Pacífico,
ornando a cena, túrgido e cingido
ao azul celeste da Terra em cio.
espumas flutuando os andes
Brancas geleiras
pinceladas impressionistas
descendo sobre os cimos
do Ozorno
Branco em flor
campo de margaridas
ondulando ao vento
Branco-amor
esvoaça em lençois e cortinas
desnudando os corpos no quarto
róseos, ardentes, úmidos e ungidos
Branco enevoado do ar
em cheiro de sêmen-vida
do encontro que exala
e enche a casa
perfuma a brisa e se espalha
por entre as ondas suaves
do marinho Pacífico,
ornando a cena, túrgido e cingido
ao azul celeste da Terra em cio.
1 123
1
Joachim Du Bellay
SE AO PÉ DA ETERNIDADE NOSSA VIDA
Se ao pé da eternidade nossa vida
É quase nada e os anos que se vão
Arrastam nossos dias sem perdão,
E se o que vem à luz vai de vencida,
O que esperas ainda, alma sofrida?
Por que te apraz da vida a escuridão,
Se pra alcançar mais lúcida mansão,
Uma asa tens às costas estendida?
É lá que existe o bem que a alma deseja,
Lá, toda paz por quem o mundo almeja,
O verdadeiro amor, delícia tanta!
E lá, minha alma, te elevando ao céu,
Hás de reconhecer, então, sem véu,
A Idéia da beleza que me encanta.
É quase nada e os anos que se vão
Arrastam nossos dias sem perdão,
E se o que vem à luz vai de vencida,
O que esperas ainda, alma sofrida?
Por que te apraz da vida a escuridão,
Se pra alcançar mais lúcida mansão,
Uma asa tens às costas estendida?
É lá que existe o bem que a alma deseja,
Lá, toda paz por quem o mundo almeja,
O verdadeiro amor, delícia tanta!
E lá, minha alma, te elevando ao céu,
Hás de reconhecer, então, sem véu,
A Idéia da beleza que me encanta.
969
1
Joachim Du Bellay
SE AO PÉ DA ETERNIDADE NOSSA VIDA
Se ao pé da eternidade nossa vida
É quase nada e os anos que se vão
Arrastam nossos dias sem perdão,
E se o que vem à luz vai de vencida,
O que esperas ainda, alma sofrida?
Por que te apraz da vida a escuridão,
Se pra alcançar mais lúcida mansão,
Uma asa tens às costas estendida?
É lá que existe o bem que a alma deseja,
Lá, toda paz por quem o mundo almeja,
O verdadeiro amor, delícia tanta!
E lá, minha alma, te elevando ao céu,
Hás de reconhecer, então, sem véu,
A Idéia da beleza que me encanta.
É quase nada e os anos que se vão
Arrastam nossos dias sem perdão,
E se o que vem à luz vai de vencida,
O que esperas ainda, alma sofrida?
Por que te apraz da vida a escuridão,
Se pra alcançar mais lúcida mansão,
Uma asa tens às costas estendida?
É lá que existe o bem que a alma deseja,
Lá, toda paz por quem o mundo almeja,
O verdadeiro amor, delícia tanta!
E lá, minha alma, te elevando ao céu,
Hás de reconhecer, então, sem véu,
A Idéia da beleza que me encanta.
969
1
Joachim Du Bellay
SE AO PÉ DA ETERNIDADE NOSSA VIDA
Se ao pé da eternidade nossa vida
É quase nada e os anos que se vão
Arrastam nossos dias sem perdão,
E se o que vem à luz vai de vencida,
O que esperas ainda, alma sofrida?
Por que te apraz da vida a escuridão,
Se pra alcançar mais lúcida mansão,
Uma asa tens às costas estendida?
É lá que existe o bem que a alma deseja,
Lá, toda paz por quem o mundo almeja,
O verdadeiro amor, delícia tanta!
E lá, minha alma, te elevando ao céu,
Hás de reconhecer, então, sem véu,
A Idéia da beleza que me encanta.
É quase nada e os anos que se vão
Arrastam nossos dias sem perdão,
E se o que vem à luz vai de vencida,
O que esperas ainda, alma sofrida?
Por que te apraz da vida a escuridão,
Se pra alcançar mais lúcida mansão,
Uma asa tens às costas estendida?
É lá que existe o bem que a alma deseja,
Lá, toda paz por quem o mundo almeja,
O verdadeiro amor, delícia tanta!
E lá, minha alma, te elevando ao céu,
Hás de reconhecer, então, sem véu,
A Idéia da beleza que me encanta.
969
1
Rosy Feros
Dedos do silêncio
Vem...
Me toma à beira da noite,
caminha por mim
com seus passos molhados,
despeja seu rio no meu cálice
– pois minha emoção é só água.
Vem...
Que eu lhe dou um trago
deste meu vinho guardado,
destas minhas uvas
frescas de inverno...
Que eu derramo em gotas meu perfume
pelos quatro cantos do seu corpo,
vestindo sua pele com a camurça
da nudez e do silêncio.
Vem...
Deita e me canta,
sente meu desejo
se esgueirando pelos seus dedos,
veleja sem bússola
pelos meus sentidos,
me olha como quem pede lua...
Deixa eu sussurrar minhas folhas,
soprar minhas pétalas
pelo seu peito de relva,
pelo seu solo macio.
Vem... Não volta,
esquece a hora morta
do cotidiano de sempre.
Me toca feito música
e deixa eu cantar meu bolero
pelas suas curvas de carne...
Sinto-me inocência
passeando por suas alturas,
por seus andares cheios
da mais noturna noite densa.
Desvenda essa face molhada
e me mostra a sua vertente original
de emoção-fêmea pura...
Que eu o espero na branca paz
do meu ventre adormecido,
dos meus braços plenos
de fogueiras e cantigas.
Vem...
Que eu desfolho
toda essa sua vontade nua,
que eu desperto
todo esse seu lado cigano...
pois o meu leite é morno
e é rosa franca meu sorriso.
Deixa seu barco
navegar pelo meu leito,
que eu carrego no peito a ânsia
de hastear a bandeira do infinito...
Vem...
Deita... Me namora...
Me afoga no espelho de luz
dessa madrugada afora,
me diz que no nosso tempo
não há tempo nem hora,
que eu não agüento
a flor do sexo que arde
nas entranhas de mim...
Deixa que eu amanheça
na espuma dessa sua onda quente,
deixa sua emoção fluir
da garganta num repente...
Que eu carrego nos olhos de relento
a voz que lhe pede a terra
e que lhe entrega o mar.
Me toma à beira da noite,
caminha por mim
com seus passos molhados,
despeja seu rio no meu cálice
– pois minha emoção é só água.
Vem...
Que eu lhe dou um trago
deste meu vinho guardado,
destas minhas uvas
frescas de inverno...
Que eu derramo em gotas meu perfume
pelos quatro cantos do seu corpo,
vestindo sua pele com a camurça
da nudez e do silêncio.
Vem...
Deita e me canta,
sente meu desejo
se esgueirando pelos seus dedos,
veleja sem bússola
pelos meus sentidos,
me olha como quem pede lua...
Deixa eu sussurrar minhas folhas,
soprar minhas pétalas
pelo seu peito de relva,
pelo seu solo macio.
Vem... Não volta,
esquece a hora morta
do cotidiano de sempre.
Me toca feito música
e deixa eu cantar meu bolero
pelas suas curvas de carne...
Sinto-me inocência
passeando por suas alturas,
por seus andares cheios
da mais noturna noite densa.
Desvenda essa face molhada
e me mostra a sua vertente original
de emoção-fêmea pura...
Que eu o espero na branca paz
do meu ventre adormecido,
dos meus braços plenos
de fogueiras e cantigas.
Vem...
Que eu desfolho
toda essa sua vontade nua,
que eu desperto
todo esse seu lado cigano...
pois o meu leite é morno
e é rosa franca meu sorriso.
Deixa seu barco
navegar pelo meu leito,
que eu carrego no peito a ânsia
de hastear a bandeira do infinito...
Vem...
Deita... Me namora...
Me afoga no espelho de luz
dessa madrugada afora,
me diz que no nosso tempo
não há tempo nem hora,
que eu não agüento
a flor do sexo que arde
nas entranhas de mim...
Deixa que eu amanheça
na espuma dessa sua onda quente,
deixa sua emoção fluir
da garganta num repente...
Que eu carrego nos olhos de relento
a voz que lhe pede a terra
e que lhe entrega o mar.
1 623
1
Kátia Cerbino
Um olhar
Um olhar...
tudo foi fotografado.
Trago ainda na pele
o rastro do teu afago.
Meu seio,
qual monte de feno,
onde deitavas
a sonhar sereno.
Guardo nas entranhas
tuas impressões digitais.
Esquecê-las? Jamais...
Nos lábios,
o calor de uma febre terçã,
como o derradeiro beijo
de Camille em seu Rodin.
tudo foi fotografado.
Trago ainda na pele
o rastro do teu afago.
Meu seio,
qual monte de feno,
onde deitavas
a sonhar sereno.
Guardo nas entranhas
tuas impressões digitais.
Esquecê-las? Jamais...
Nos lábios,
o calor de uma febre terçã,
como o derradeiro beijo
de Camille em seu Rodin.
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Kátia Cerbino
Um olhar
Um olhar...
tudo foi fotografado.
Trago ainda na pele
o rastro do teu afago.
Meu seio,
qual monte de feno,
onde deitavas
a sonhar sereno.
Guardo nas entranhas
tuas impressões digitais.
Esquecê-las? Jamais...
Nos lábios,
o calor de uma febre terçã,
como o derradeiro beijo
de Camille em seu Rodin.
tudo foi fotografado.
Trago ainda na pele
o rastro do teu afago.
Meu seio,
qual monte de feno,
onde deitavas
a sonhar sereno.
Guardo nas entranhas
tuas impressões digitais.
Esquecê-las? Jamais...
Nos lábios,
o calor de uma febre terçã,
como o derradeiro beijo
de Camille em seu Rodin.
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Chico Buarque
O que será (à flor da pele)
O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita
O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita
O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo
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Fernando Correia Pina
Talvez por ler demais filosofia
Talvez por ler demais filosofia
aquela adolescente graciosa
ficou feia, ficou triste, ficou fria,
perdeu o fresco encanto de uma rosa.
Afundou-se-lhe o peito em agonia
na arca das costelas de onde a prosa
deu ordem de despejo à poesia
para viver da fama palavrosa.
A vagina se cobriu de estéreis teias,
secamente fodida por ideias,
rejeitando do Amor as ternas artes
e hoje ao vê-la sombria quando passa,
sem cu nem mamas, eu maldigo a raça
dos Kants, Lockes, Hobbes e Descartes.
aquela adolescente graciosa
ficou feia, ficou triste, ficou fria,
perdeu o fresco encanto de uma rosa.
Afundou-se-lhe o peito em agonia
na arca das costelas de onde a prosa
deu ordem de despejo à poesia
para viver da fama palavrosa.
A vagina se cobriu de estéreis teias,
secamente fodida por ideias,
rejeitando do Amor as ternas artes
e hoje ao vê-la sombria quando passa,
sem cu nem mamas, eu maldigo a raça
dos Kants, Lockes, Hobbes e Descartes.
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Jaci Bezerra
Para te ver é longa toda espera
Há uma serra no teu peito
feita de sonho e de distância.
É nessa serra que me deito
com tua luminosa infância.
Ao te esfolhar, na tarde branca,
me extravio nas tuas ancas.
Habitando a paisagem branca
na curva dessa serra deito.
Assim, montando as tuas ancas,
cavalgo os sonhos do teu peito.
Depois, retido na distância,
na cama acendo a tua infância.
Nos veludos da tua infância
qualquer montanha é pura e branca,
claro verão que, na distância,
cintila sobre tuas ancas.
É minha a serra do teu peito
quando à sombra do teu corpo deito.
Sobre os lençóis, quando me deito,
meu coração é a tua infância.
Eu, pelas serras do teu peito,
sou um menino na distância,
cavalgando, na tarde branca,
os girassóis das tuas ancas.
Nos extremos das tuas ancas
cavalgo as serras do teu peito.
O teu corpo, na tarde branca,
é o meu lençol quando me deito.
Uma criança, na distância,
sou a serra da tua infância.
Quero galgar serra e distância
nas tuas mãos de nuvens brancas,
do mesmo modo quero a infância
e os girassóis das tuas ancas.
A mim me basta, se me deito,
morrer nas serras do teu peito.
feita de sonho e de distância.
É nessa serra que me deito
com tua luminosa infância.
Ao te esfolhar, na tarde branca,
me extravio nas tuas ancas.
Habitando a paisagem branca
na curva dessa serra deito.
Assim, montando as tuas ancas,
cavalgo os sonhos do teu peito.
Depois, retido na distância,
na cama acendo a tua infância.
Nos veludos da tua infância
qualquer montanha é pura e branca,
claro verão que, na distância,
cintila sobre tuas ancas.
É minha a serra do teu peito
quando à sombra do teu corpo deito.
Sobre os lençóis, quando me deito,
meu coração é a tua infância.
Eu, pelas serras do teu peito,
sou um menino na distância,
cavalgando, na tarde branca,
os girassóis das tuas ancas.
Nos extremos das tuas ancas
cavalgo as serras do teu peito.
O teu corpo, na tarde branca,
é o meu lençol quando me deito.
Uma criança, na distância,
sou a serra da tua infância.
Quero galgar serra e distância
nas tuas mãos de nuvens brancas,
do mesmo modo quero a infância
e os girassóis das tuas ancas.
A mim me basta, se me deito,
morrer nas serras do teu peito.
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