Poemas neste tema
Vida e Existência
Asta Vonzodas
Sinto em meu corpo
Sinto em meu corpo
sua língua.
Que me arde
Como se fosse
um chicote
de
fogo.
E mesmo que
eu não queira
me induz
a jogar
o seu
jogo.
Me entorpece
os sentidos,
abafa-me
os gemidos
até provocar
o meu
gozo.
Que poder
é esse?
Que sedução
devassa,
é essa
que sinto
sempre
que você
me abraça?
Só de lhe ver
me arrepia
a pele, em
choques
térmicos.
E me rendo
pacífica
aos seus
desejos
hipotéticos.
Me excita e
me choca
a sua ousadia.
Mas sempre
mais e mais,
como num
crescendo,
embarco
na sua
fantasia.
E quando
entregue
aos nossos
devaneios
sentindo
em meu
corpo
os seus
meneios,
nada mais
importa.
Abrimos do desejo
as portas,
simplesmente
porque
você é
meu homem
e eu...
sou sua
mulher...
sua língua.
Que me arde
Como se fosse
um chicote
de
fogo.
E mesmo que
eu não queira
me induz
a jogar
o seu
jogo.
Me entorpece
os sentidos,
abafa-me
os gemidos
até provocar
o meu
gozo.
Que poder
é esse?
Que sedução
devassa,
é essa
que sinto
sempre
que você
me abraça?
Só de lhe ver
me arrepia
a pele, em
choques
térmicos.
E me rendo
pacífica
aos seus
desejos
hipotéticos.
Me excita e
me choca
a sua ousadia.
Mas sempre
mais e mais,
como num
crescendo,
embarco
na sua
fantasia.
E quando
entregue
aos nossos
devaneios
sentindo
em meu
corpo
os seus
meneios,
nada mais
importa.
Abrimos do desejo
as portas,
simplesmente
porque
você é
meu homem
e eu...
sou sua
mulher...
1 267
1
António Botto
Ouve, meu anjo
Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?
Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assasssino
É como a do virtuoso.
Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.
Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...
Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar -
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?
Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assasssino
É como a do virtuoso.
Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.
Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...
Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar -
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!
3 199
1
Liz Christine
Passional
Seu olhar me desconcerta
Penetrante Inquietante
O prazer que em mim desperta
Inquietante Deslumbrante
Ter você sob as cobertas
Deslumbrante Fascinante
O fascínio do teu corpo
Me perco em suas curvas
Em cada esquina deste corpo
Você é minha perdição
Ao mesmo tempo é a razão
Da escrita com paixão
Observo contemplando
Esperando
Sua ação
Faça comigo o que desejar
Sei que vou gostar
Não quer escrever?
Não. Quero apenas você
Linda envolvente
Eterna adolescente
De beleza incandescente
Sua sensualidade latejando
Seus olhos convidam
Todo meu corpo desejando
Você me acariciando
Acabo por escrever
sobre a intensidade
De te querer
Inteligência provocante
A libido reclama
sufocante
Presença fascinante
Em minha cama
Ou banheiro, cozinha, chão
Só importa nossa paixão
Penetrante Inquietante
O prazer que em mim desperta
Inquietante Deslumbrante
Ter você sob as cobertas
Deslumbrante Fascinante
O fascínio do teu corpo
Me perco em suas curvas
Em cada esquina deste corpo
Você é minha perdição
Ao mesmo tempo é a razão
Da escrita com paixão
Observo contemplando
Esperando
Sua ação
Faça comigo o que desejar
Sei que vou gostar
Não quer escrever?
Não. Quero apenas você
Linda envolvente
Eterna adolescente
De beleza incandescente
Sua sensualidade latejando
Seus olhos convidam
Todo meu corpo desejando
Você me acariciando
Acabo por escrever
sobre a intensidade
De te querer
Inteligência provocante
A libido reclama
sufocante
Presença fascinante
Em minha cama
Ou banheiro, cozinha, chão
Só importa nossa paixão
1 059
1
Bruna Lombardi
Moto-contínuo
Eu não sabia o que fazer e abri a blusa
mais tarde eu ia dizer foi sem pensar
ele me achou desnorteada, confusa
como acharia qualquer mulher que abre a blusa
e faz tudo que fiz só pra agradar
Minha cabeça não era mesmo muito certa
mulher esperta eu nunca fui, mas deveria
saber me colocar no meu lugar
não adiantava nada, eu era assim desatinada
o tipo de mulher que faz as coisas sem pensar
Você agora, me ouvindo contar essas histórias
talvez me ache, também, um pouco confusa
e eu, que faço tudo para agradar
já sem saber o que fazer abro minha blusa
como faria qualquer mulher confusa no meu lugar.
mais tarde eu ia dizer foi sem pensar
ele me achou desnorteada, confusa
como acharia qualquer mulher que abre a blusa
e faz tudo que fiz só pra agradar
Minha cabeça não era mesmo muito certa
mulher esperta eu nunca fui, mas deveria
saber me colocar no meu lugar
não adiantava nada, eu era assim desatinada
o tipo de mulher que faz as coisas sem pensar
Você agora, me ouvindo contar essas histórias
talvez me ache, também, um pouco confusa
e eu, que faço tudo para agradar
já sem saber o que fazer abro minha blusa
como faria qualquer mulher confusa no meu lugar.
1 977
1
Kátia Cerbino
Um olhar
Um olhar...
tudo foi fotografado.
Trago ainda na pele
o rastro do teu afago.
Meu seio,
qual monte de feno,
onde deitavas
a sonhar sereno.
Guardo nas entranhas
tuas impressões digitais.
Esquecê-las? Jamais...
Nos lábios,
o calor de uma febre terçã,
como o derradeiro beijo
de Camille em seu Rodin.
tudo foi fotografado.
Trago ainda na pele
o rastro do teu afago.
Meu seio,
qual monte de feno,
onde deitavas
a sonhar sereno.
Guardo nas entranhas
tuas impressões digitais.
Esquecê-las? Jamais...
Nos lábios,
o calor de uma febre terçã,
como o derradeiro beijo
de Camille em seu Rodin.
876
1
Kátia Cerbino
Um olhar
Um olhar...
tudo foi fotografado.
Trago ainda na pele
o rastro do teu afago.
Meu seio,
qual monte de feno,
onde deitavas
a sonhar sereno.
Guardo nas entranhas
tuas impressões digitais.
Esquecê-las? Jamais...
Nos lábios,
o calor de uma febre terçã,
como o derradeiro beijo
de Camille em seu Rodin.
tudo foi fotografado.
Trago ainda na pele
o rastro do teu afago.
Meu seio,
qual monte de feno,
onde deitavas
a sonhar sereno.
Guardo nas entranhas
tuas impressões digitais.
Esquecê-las? Jamais...
Nos lábios,
o calor de uma febre terçã,
como o derradeiro beijo
de Camille em seu Rodin.
876
1
Adélia Prado
Moça Na Sua Cama
Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba-do-campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixezinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça sem ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros têm seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba-do-campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixezinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça sem ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros têm seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.
2 526
1
Adélia Prado
Moça Na Sua Cama
Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba-do-campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixezinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça sem ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros têm seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba-do-campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixezinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça sem ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros têm seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.
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1
Leila Mícollis
Poema para o namorado
Teu lado feminino me erotiza:
são belos, sensuais e muito caros
certos instantes gostosos, em que te encaro
menos como homem e mais como menina:
quando passas teus cremes para a pele,
ou pões o avental pra cozinhar,
ou quando em mim te esfregas
até gozar os teus gozos sem fim,
ou quando tuas mãos, leves e lésbicas,
desabam como plumas sobre mim.
são belos, sensuais e muito caros
certos instantes gostosos, em que te encaro
menos como homem e mais como menina:
quando passas teus cremes para a pele,
ou pões o avental pra cozinhar,
ou quando em mim te esfregas
até gozar os teus gozos sem fim,
ou quando tuas mãos, leves e lésbicas,
desabam como plumas sobre mim.
1 518
1
Liz Christine
Hímem
Era uma vez um hímem...
Que não sangrou
Ao ser rompido
Inocência perdida
Adorei ser corrompida
Era uma vez um hímem...
Um hímem rompido
Seu desejo atendido
Em mim nada mudou
Meu hímem que se foi
E nada levou
Foi uma dorzinha desagradável
(mas não insuportável)
Fortalecendo a relação
Ficando intacta nossa paixão
Que não sangrou
Ao ser rompido
Inocência perdida
Adorei ser corrompida
Era uma vez um hímem...
Um hímem rompido
Seu desejo atendido
Em mim nada mudou
Meu hímem que se foi
E nada levou
Foi uma dorzinha desagradável
(mas não insuportável)
Fortalecendo a relação
Ficando intacta nossa paixão
1 093
1
Liz Christine
Orgasmo
Sexo
adorável
palavra
Ato
delicioso
incansável
Corpo
curvas derrapantes
maravilhoso
Você
estou condenada
você é a culpada
De desejos ardentes
Noite gelada
Inverno na madrugada
Parece verão
Corpo febril
Culpa da paixão
Seu rosto infantil
Sorrindo
Não pare...
Estou quase atingindo.
adorável
palavra
Ato
delicioso
incansável
Corpo
curvas derrapantes
maravilhoso
Você
estou condenada
você é a culpada
De desejos ardentes
Noite gelada
Inverno na madrugada
Parece verão
Corpo febril
Culpa da paixão
Seu rosto infantil
Sorrindo
Não pare...
Estou quase atingindo.
1 199
1
Patrícia Clemente
Seios
Sofia, eu no teu rosto busco espelho,
Enquanto beijo os nós dos teus artelhos,
Enquanto tocas com teus pés meus seios.
E o corpo sabe: sou-te assemelhada,
E leva o pé à tua coxa amada,
Sou presa seduzida por teus cheiros.
E o corpo sabe o quanto é aquecido
Meu pé que sobe dentro do vestido,
Sorrindo do macio dos teus pentelhos.
E o corpo sabe: sou-te parecida,
Toco a mim mesma ao te tocar, amiga,
Se pouso, enfim, os dedos nos teus seios.
E o corpo sabe bem que sou-te gêmea
Me fazes louca, lúcida ou boêmia,
No gesto em que se unem nossos seios.
Sofia, no meu rosto tens espelho,
De quanto bem me faz amar teus seios
Enquanto beijo os nós dos teus artelhos,
Enquanto tocas com teus pés meus seios.
E o corpo sabe: sou-te assemelhada,
E leva o pé à tua coxa amada,
Sou presa seduzida por teus cheiros.
E o corpo sabe o quanto é aquecido
Meu pé que sobe dentro do vestido,
Sorrindo do macio dos teus pentelhos.
E o corpo sabe: sou-te parecida,
Toco a mim mesma ao te tocar, amiga,
Se pouso, enfim, os dedos nos teus seios.
E o corpo sabe bem que sou-te gêmea
Me fazes louca, lúcida ou boêmia,
No gesto em que se unem nossos seios.
Sofia, no meu rosto tens espelho,
De quanto bem me faz amar teus seios
1 398
1
José Tolentino Mendonça
Caminho do forte, machico
No caminho onde aprendi o outono
sob o azul magoado
os pescadores cruzavam ainda linhas
províncias clareiras
e esse gesto masculino de apagar a dor
chegava pelos percalços da terra
o carro do gelo
e os miúdos tiravam bocados para comer às dentadas
em retrato selvagem mas,juro-vos,havia encanto
havia qualquer coisa,outra coisa
nesse instante em perda
as mulheres sentavam-se à porta com os bordados
quando passavam estrangeiros
ficavam sempre a sorrir nas suas fotografias
sob o azul magoado
os pescadores cruzavam ainda linhas
províncias clareiras
e esse gesto masculino de apagar a dor
chegava pelos percalços da terra
o carro do gelo
e os miúdos tiravam bocados para comer às dentadas
em retrato selvagem mas,juro-vos,havia encanto
havia qualquer coisa,outra coisa
nesse instante em perda
as mulheres sentavam-se à porta com os bordados
quando passavam estrangeiros
ficavam sempre a sorrir nas suas fotografias
2 429
1
João Miguel Fernandes Jorge
Abrimos as portas sorrindo
ou a lata de bolos de infância.
Era uma criança pela fadiga
dos olhos, pela idade das excursões
pelas praças da cidade.
demoradas visitas de indiferença
e receio.
Um tímido sinal descendo levemente
o corpo, depois a face, os lábios
trémulos e um balbuciado “não
volto mais”.
“Está bem. Eis-me aqui ao teu lado”.
Esquecera a segunda cor do mar.
De um segundo fizera horas, mesmo que,
de ti, não tenha conseguido enumerar
senão as chaves na porta do quarto.
A próxima explosão.
Tudo é tão verdadeiro, tão claro,
neste canto de sonho.
Era uma criança pela fadiga
dos olhos, pela idade das excursões
pelas praças da cidade.
demoradas visitas de indiferença
e receio.
Um tímido sinal descendo levemente
o corpo, depois a face, os lábios
trémulos e um balbuciado “não
volto mais”.
“Está bem. Eis-me aqui ao teu lado”.
Esquecera a segunda cor do mar.
De um segundo fizera horas, mesmo que,
de ti, não tenha conseguido enumerar
senão as chaves na porta do quarto.
A próxima explosão.
Tudo é tão verdadeiro, tão claro,
neste canto de sonho.
2 425
1
João Miguel Fernandes Jorge
Abrimos as portas sorrindo
ou a lata de bolos de infância.
Era uma criança pela fadiga
dos olhos, pela idade das excursões
pelas praças da cidade.
demoradas visitas de indiferença
e receio.
Um tímido sinal descendo levemente
o corpo, depois a face, os lábios
trémulos e um balbuciado “não
volto mais”.
“Está bem. Eis-me aqui ao teu lado”.
Esquecera a segunda cor do mar.
De um segundo fizera horas, mesmo que,
de ti, não tenha conseguido enumerar
senão as chaves na porta do quarto.
A próxima explosão.
Tudo é tão verdadeiro, tão claro,
neste canto de sonho.
Era uma criança pela fadiga
dos olhos, pela idade das excursões
pelas praças da cidade.
demoradas visitas de indiferença
e receio.
Um tímido sinal descendo levemente
o corpo, depois a face, os lábios
trémulos e um balbuciado “não
volto mais”.
“Está bem. Eis-me aqui ao teu lado”.
Esquecera a segunda cor do mar.
De um segundo fizera horas, mesmo que,
de ti, não tenha conseguido enumerar
senão as chaves na porta do quarto.
A próxima explosão.
Tudo é tão verdadeiro, tão claro,
neste canto de sonho.
2 425
1
Anna Akhmatova
A sentença
A sentença
A palavra
caiu pétrea
no meu seio ainda vivo.
Não importa, eu já esperava,
de certo modo eu sabia.
Tenho muito
a fazer hoje:
matar memórias de vez,
para a alma ser de pedra
a viver mais aprender.
Ou ... o estralejar
do ardente Estio
como, além da janela, um feriado.
Há muito tempo já que vinham vindo
o luminoso dia e a vazia casa.
E não
me consentirá
que leve nada comigo
(por mais que eu peça e suplique,
por mais que a moa a rezar):
não
os olhos do meu filho,
sofrimento como pedra,
o dia de tempestade,
nem a hora da visita,
o suave frio
das mãos,
o rugir de sombras de árvore,
nem o distante som leve -
consolação das últimas palavras.
A palavra
caiu pétrea
no meu seio ainda vivo.
Não importa, eu já esperava,
de certo modo eu sabia.
Tenho muito
a fazer hoje:
matar memórias de vez,
para a alma ser de pedra
a viver mais aprender.
Ou ... o estralejar
do ardente Estio
como, além da janela, um feriado.
Há muito tempo já que vinham vindo
o luminoso dia e a vazia casa.
E não
me consentirá
que leve nada comigo
(por mais que eu peça e suplique,
por mais que a moa a rezar):
não
os olhos do meu filho,
sofrimento como pedra,
o dia de tempestade,
nem a hora da visita,
o suave frio
das mãos,
o rugir de sombras de árvore,
nem o distante som leve -
consolação das últimas palavras.
2 706
1
António Botto
Inédito
Nunca te foram ao cu
Nem nas perninhas, aposto!
Mas um homem como tu,
Lavadinho , todo nu, gosto!
Sem ter pentelho nenhum
com certeza, não desgosto,
Até gosto!
Mas... gosto mais de fedelhos.
Vou-lhes ao cu
Dou-lhes conselhos,
Enfim... gosto!
Nem nas perninhas, aposto!
Mas um homem como tu,
Lavadinho , todo nu, gosto!
Sem ter pentelho nenhum
com certeza, não desgosto,
Até gosto!
Mas... gosto mais de fedelhos.
Vou-lhes ao cu
Dou-lhes conselhos,
Enfim... gosto!
11 924
1
Ossip Mandelstam
Esquece o pássaro agreste,
A prisão,a velha triste-
A tudo o que viste,esquece,
Quando não serás possesso
-mal tua boca se abra-
Pelas agulhas trementes
De abertos ao romper dalba.
Lembrarás-a vespa e a quinta,
Lápis de cor e o silvestre
Mirtilo que em tua vida
Nunca no bosque colheste.
(tradução de Nina Guerra e Filipa Guerra)
A tudo o que viste,esquece,
Quando não serás possesso
-mal tua boca se abra-
Pelas agulhas trementes
De abertos ao romper dalba.
Lembrarás-a vespa e a quinta,
Lápis de cor e o silvestre
Mirtilo que em tua vida
Nunca no bosque colheste.
(tradução de Nina Guerra e Filipa Guerra)
1 491
1
Marina Tsvetaeva
Poetas
Poetas
O poeta – começa a falar de longe.
Ao poeta – a fala leva-o longe.
Por planetas,agoiros, buracos de fábulas
Sinuosas… Entre sim e não, mesmo
Ao lançar-se do campanário fará
Um rodeio… Porque a roda dos cometas –
É a rota dos poetas. Com os elos dispersos
Da causalidade– se liga! Com a fronte
Virada ao alto – te desespera! Não constam
Do calendário os eclipses do poeta.
É aquele que baralha as cartas, ilude
O peso e a medida, o que faz perguntas
Interrompendo a professora, é aquele
Que desbarata o Kant.
É ele quem, no pétreo caixão das Bastilhas,
Se ergue como árvore em toda a sua beleza.
Aquele de quem se perdem sempre as pegadas,
É aquele comboio que toda a gente
Perde…-
Porque a rota dos cometas
É a rota dos poetas: queimando sem calor,
Arrancando sem semear – explodir, romper –
O teu rumo, a tua curva de crinas,
Não consta do calendário!
8 de
Abril de 1923
(tradução
de Nina Guerra e Filipe Guerra)
O poeta – começa a falar de longe.
Ao poeta – a fala leva-o longe.
Por planetas,agoiros, buracos de fábulas
Sinuosas… Entre sim e não, mesmo
Ao lançar-se do campanário fará
Um rodeio… Porque a roda dos cometas –
É a rota dos poetas. Com os elos dispersos
Da causalidade– se liga! Com a fronte
Virada ao alto – te desespera! Não constam
Do calendário os eclipses do poeta.
É aquele que baralha as cartas, ilude
O peso e a medida, o que faz perguntas
Interrompendo a professora, é aquele
Que desbarata o Kant.
É ele quem, no pétreo caixão das Bastilhas,
Se ergue como árvore em toda a sua beleza.
Aquele de quem se perdem sempre as pegadas,
É aquele comboio que toda a gente
Perde…-
Porque a rota dos cometas
É a rota dos poetas: queimando sem calor,
Arrancando sem semear – explodir, romper –
O teu rumo, a tua curva de crinas,
Não consta do calendário!
8 de
Abril de 1923
(tradução
de Nina Guerra e Filipe Guerra)
1 955
1
José Tolentino Mendonça
Murmúrios do mar
"Paga-me um café e
conto-te a minha vida" o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos de uma criança
muito assustada que corria o vento batia-lhe no
rosto com violência a infância inteira disso me
lembro outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo apagavas cigarros nas palmas das
mãos e os que te viam choravam mas tu
,não,nunca choraste por amores que se perdem os
naufrágios são belos sentimo-nos tão vivos entre as
ilhas ,acreditas? E temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo tudo o que
seremos depois "pago-te um café se me contares
o teu amor"
conto-te a minha vida" o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos de uma criança
muito assustada que corria o vento batia-lhe no
rosto com violência a infância inteira disso me
lembro outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo apagavas cigarros nas palmas das
mãos e os que te viam choravam mas tu
,não,nunca choraste por amores que se perdem os
naufrágios são belos sentimo-nos tão vivos entre as
ilhas ,acreditas? E temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo tudo o que
seremos depois "pago-te um café se me contares
o teu amor"
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Ernesto de Melo e Castro
Enquanto um dedo esmaga
enquanto um dedo esmaga
uma curva ou um aro
outros dedos distendem
os tendões que entendem
no súbito na água
a luz vértice faro
os membros que se fendem
lábios que dizem rendem
quem diz cu diz a cona
em masculino estilo
as procuradas fendas afluentes
que no homem se excluem
na fêmea se completam
delta logo de lagos mijo nilo
uma curva ou um aro
outros dedos distendem
os tendões que entendem
no súbito na água
a luz vértice faro
os membros que se fendem
lábios que dizem rendem
quem diz cu diz a cona
em masculino estilo
as procuradas fendas afluentes
que no homem se excluem
na fêmea se completam
delta logo de lagos mijo nilo
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Georges Brassens
O malandro arrependido
Ela tinha uma cintura bem torneada
cadeiras cheias
e caçava os machos nos arredores da Madeleine.
pelo seu jeito de me dizer: Meu anjo
te apeteço?
eu vi logo que se tratava de uma debutante.
Ela tinha talento, é verdade, eu o confesso.
Ela tinha gênio,
mas sem técnica um dom não é nada.
Certamente não é tão fácil ser puta como ser freira,
pelo menos é o que se reza em latim na Sorbonne.
Sentindo-me cheio de piedade pela donzela
ensinei-lhe os pequenos truques de sua profissão
e ensinei-lhe os meios para fazer logo fortuna
rebolando o lugar onde as costas se assemelham à lua,
Porque na arte de fazer o trottoir, confesso,
o difícil é saber mexer bem a bunda.
Não se mexe a bunda da mesma maneira
para um farmacêutico, um sacristão, um funcionário.
Rapidamente instruída por meus bons ofícios
ela cedeu-me uma parte de seus benefícios.
Ajudavamo-nos mutuamente, como diz o poeta:
ela era o corpo, naturalmente, e eu a cabeça.
Quando a coitada voltava para casa sem nada
dava-lhe umas porradas mais do que com razão.
Será que ela se lembra ainda do bidê com
que lhe rachei o crânio?
Uma noite, por causa de manobras duvidosas
ela caiu vítima de uma doença vergonhosa,
então, amigavelmente, como uma moça honesta
passou-me a metade de seus micróbios.
Depois de dolorosas injeções de antibióticos
desisti da profissão de cornudo sistemático.
Não adiantou que ela chorasse e gritasse feita louca
e, como eu era apenas um canalha, fiz-me honesto.
Privado logo de minha tutela, minha pobre amiga,
correu a suportar as infâmias do bordel.
Dizem que ela se vendeu até aos tiras!
Que decadência!
Já não existe mais moralidade pública
na nossa França!
cadeiras cheias
e caçava os machos nos arredores da Madeleine.
pelo seu jeito de me dizer: Meu anjo
te apeteço?
eu vi logo que se tratava de uma debutante.
Ela tinha talento, é verdade, eu o confesso.
Ela tinha gênio,
mas sem técnica um dom não é nada.
Certamente não é tão fácil ser puta como ser freira,
pelo menos é o que se reza em latim na Sorbonne.
Sentindo-me cheio de piedade pela donzela
ensinei-lhe os pequenos truques de sua profissão
e ensinei-lhe os meios para fazer logo fortuna
rebolando o lugar onde as costas se assemelham à lua,
Porque na arte de fazer o trottoir, confesso,
o difícil é saber mexer bem a bunda.
Não se mexe a bunda da mesma maneira
para um farmacêutico, um sacristão, um funcionário.
Rapidamente instruída por meus bons ofícios
ela cedeu-me uma parte de seus benefícios.
Ajudavamo-nos mutuamente, como diz o poeta:
ela era o corpo, naturalmente, e eu a cabeça.
Quando a coitada voltava para casa sem nada
dava-lhe umas porradas mais do que com razão.
Será que ela se lembra ainda do bidê com
que lhe rachei o crânio?
Uma noite, por causa de manobras duvidosas
ela caiu vítima de uma doença vergonhosa,
então, amigavelmente, como uma moça honesta
passou-me a metade de seus micróbios.
Depois de dolorosas injeções de antibióticos
desisti da profissão de cornudo sistemático.
Não adiantou que ela chorasse e gritasse feita louca
e, como eu era apenas um canalha, fiz-me honesto.
Privado logo de minha tutela, minha pobre amiga,
correu a suportar as infâmias do bordel.
Dizem que ela se vendeu até aos tiras!
Que decadência!
Já não existe mais moralidade pública
na nossa França!
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José Tolentino Mendonça
Compaixão
Vi pela primeira vez o mar
era muito difícil frente a mim
compreender esse território absoluto
falámos só de coisas inúteis
e o mundo inteiro se escondia
somos novos. Lemos nos olhos fechados
precauções,derrotas,recusas
quando a intimidade sugere
a maior compaixão
era muito difícil frente a mim
compreender esse território absoluto
falámos só de coisas inúteis
e o mundo inteiro se escondia
somos novos. Lemos nos olhos fechados
precauções,derrotas,recusas
quando a intimidade sugere
a maior compaixão
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Bruna Lombardi
Elogio do pecado
Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza
você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa
Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza
você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa
Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.
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