Poemas neste tema
Vida e Existência
Abul ʿAla Al-Maʿarri
Abandona a mesquita e evita louvor
Abandona a mesquita e evita louvor,
Preces inúteis, sacrifício de ovelhas,
Pois o Destino trará cálice de sono
Ou cálice de insônia. O que vier, beba.
Preces inúteis, sacrifício de ovelhas,
Pois o Destino trará cálice de sono
Ou cálice de insônia. O que vier, beba.
736
Affonso Ávila
insólito
contato é impudicícia ou carência de tato
gesto que sai do corpo como um salto de gato
suave rude ardil ou busca de gozo
rei dos sentidos empós do amor ou do afeto
sondagem de quem sonhou e argui de fato
a empáfia escondida entre haustos do só
não temer o impacto da astúcia
colher a rosa no ramo propício enquanto é vermelha
e saborear o odor a cor o íntimo calor
é tarde é breve mas intensa de brilho
signo de infinito clamor
que não calou no estamento do tempo
e rói fundo o apetite que resta
via possível na corrosão do palor
e usá-la a furto oculto
imponderada lapela
fim ou princípio
sorte lançada
defasado cupido
gesto que sai do corpo como um salto de gato
suave rude ardil ou busca de gozo
rei dos sentidos empós do amor ou do afeto
sondagem de quem sonhou e argui de fato
a empáfia escondida entre haustos do só
não temer o impacto da astúcia
colher a rosa no ramo propício enquanto é vermelha
e saborear o odor a cor o íntimo calor
é tarde é breve mas intensa de brilho
signo de infinito clamor
que não calou no estamento do tempo
e rói fundo o apetite que resta
via possível na corrosão do palor
e usá-la a furto oculto
imponderada lapela
fim ou princípio
sorte lançada
defasado cupido
1 015
Affonso Ávila
insólito
contato é impudicícia ou carência de tato
gesto que sai do corpo como um salto de gato
suave rude ardil ou busca de gozo
rei dos sentidos empós do amor ou do afeto
sondagem de quem sonhou e argui de fato
a empáfia escondida entre haustos do só
não temer o impacto da astúcia
colher a rosa no ramo propício enquanto é vermelha
e saborear o odor a cor o íntimo calor
é tarde é breve mas intensa de brilho
signo de infinito clamor
que não calou no estamento do tempo
e rói fundo o apetite que resta
via possível na corrosão do palor
e usá-la a furto oculto
imponderada lapela
fim ou princípio
sorte lançada
defasado cupido
gesto que sai do corpo como um salto de gato
suave rude ardil ou busca de gozo
rei dos sentidos empós do amor ou do afeto
sondagem de quem sonhou e argui de fato
a empáfia escondida entre haustos do só
não temer o impacto da astúcia
colher a rosa no ramo propício enquanto é vermelha
e saborear o odor a cor o íntimo calor
é tarde é breve mas intensa de brilho
signo de infinito clamor
que não calou no estamento do tempo
e rói fundo o apetite que resta
via possível na corrosão do palor
e usá-la a furto oculto
imponderada lapela
fim ou princípio
sorte lançada
defasado cupido
1 015
Richard Minne
Gogol
Leio Gogol. É grande, forte.
Ele fala de vida e morte,
e diz que os homens valem pouco
e são veneno uns para os outros,
mas que esta vida, não obstante,
lhes é muitíssimo importante.
(tradução de José Paulo Paes)
:
Ik lees Gogol. Hij is groot.
Hij spreekt van liefde en dood,
en dat de mensen klein zijn
en voor elkaar venijn zijn
en dat, trots alles, dit leven
nog hoog staat aangeschreven.
.
.
.
719
Richard Minne
Gogol
Leio Gogol. É grande, forte.
Ele fala de vida e morte,
e diz que os homens valem pouco
e são veneno uns para os outros,
mas que esta vida, não obstante,
lhes é muitíssimo importante.
(tradução de José Paulo Paes)
:
Ik lees Gogol. Hij is groot.
Hij spreekt van liefde en dood,
en dat de mensen klein zijn
en voor elkaar venijn zijn
en dat, trots alles, dit leven
nog hoog staat aangeschreven.
.
.
.
719
Frank O'Hara
Poema
Há dias em que sinto exalar uma fina poeira
como aquela atribuída a Pilades na famosa
Chronica nera areopagitica ao ser descoberta
e é porque um arqueólogo
adentrou a câmara secreta do meu peito
e chacoalhou o papel que carrega seu nome
Não gosto deste estranho espirrando sobre nosso amor.
como aquela atribuída a Pilades na famosa
Chronica nera areopagitica ao ser descoberta
e é porque um arqueólogo
adentrou a câmara secreta do meu peito
e chacoalhou o papel que carrega seu nome
Não gosto deste estranho espirrando sobre nosso amor.
994
Jorge de Sena
Glosa à chegada do outono
O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera: este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
.
.
.
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera: este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
.
.
.
1 602
Affonso Ávila
Apartação
Com suas rações
de clareira e frondes
rompe o latifúndio
com seus horizontes
— Com suas savanas
de relva e flagelo
demanda os retiros
com seus céus de inverno
— Com sua aventura
de surpresa e faina
deslumbra as nascentes
com seus sais de lama
— Com suas ciladas
de febre e malogro
caminha as vazantes
com seus bebedouros
— Com sua forragem
de perda e silêncio
remorde a distância
com seus nós de tempo.
de clareira e frondes
rompe o latifúndio
com seus horizontes
— Com suas savanas
de relva e flagelo
demanda os retiros
com seus céus de inverno
— Com sua aventura
de surpresa e faina
deslumbra as nascentes
com seus sais de lama
— Com suas ciladas
de febre e malogro
caminha as vazantes
com seus bebedouros
— Com sua forragem
de perda e silêncio
remorde a distância
com seus nós de tempo.
1 022
Abul ʿAla Al-Maʿarri
Agora imperam esta fé e esta crença
Agora imperam esta fé e esta crença
Até que por outras sejam vencidas.
Homem, temes só com homens vivas,
Dessarte escolhes viver com lendas.
635
Inge Müller
se fechasse a boca
A ti, querido, mais querida
Seria eu se fechasse a boca
Onde não há bocas
Nem fechaduras
Dos velhos fazes inimigos
E és mais velho que eles ainda
Te escondes nas tuas rugas.
Que sabes tu
E como saberias?
:
Dir Lieber wär ich lieber
Wenn ich den Mund halten würde
Wo kein Mund ist
Und kein Halten
Den Alten tust du feind
Und bist älter noch als sie
Versteckst dich in den Falten.
Was weißt du
Und wie?
Seria eu se fechasse a boca
Onde não há bocas
Nem fechaduras
Dos velhos fazes inimigos
E és mais velho que eles ainda
Te escondes nas tuas rugas.
Que sabes tu
E como saberias?
:
Dir Lieber wär ich lieber
Wenn ich den Mund halten würde
Wo kein Mund ist
Und kein Halten
Den Alten tust du feind
Und bist älter noch als sie
Versteckst dich in den Falten.
Was weißt du
Und wie?
767
Inge Müller
Quem ajuda a mim
Quem ajuda a mim
Ajudo eu a quem?
Assim e de novo assim.
Eu nós
A vida
Nossos rostos
Solo fezes sol
:
Wer hilft mir
Wem helf ich?
So und immer wieder so.
Ich wir
Das Leben
Unser Gesicht
Erde Kot Licht
.
.
.
Ajudo eu a quem?
Assim e de novo assim.
Eu nós
A vida
Nossos rostos
Solo fezes sol
:
Wer hilft mir
Wem helf ich?
So und immer wieder so.
Ich wir
Das Leben
Unser Gesicht
Erde Kot Licht
.
.
.
838
Inge Müller
Quem ajuda a mim
Quem ajuda a mim
Ajudo eu a quem?
Assim e de novo assim.
Eu nós
A vida
Nossos rostos
Solo fezes sol
:
Wer hilft mir
Wem helf ich?
So und immer wieder so.
Ich wir
Das Leben
Unser Gesicht
Erde Kot Licht
.
.
.
Ajudo eu a quem?
Assim e de novo assim.
Eu nós
A vida
Nossos rostos
Solo fezes sol
:
Wer hilft mir
Wem helf ich?
So und immer wieder so.
Ich wir
Das Leben
Unser Gesicht
Erde Kot Licht
.
.
.
838
Abul ʿAla Al-Maʿarri
Erram todos – judeus, cristãos,
Erram todos – judeus, cristãos,
muçulmanos e masdeístas:
A humanidade segue duas seitas:
Uma: pensadores sem religião,
Outra: religiosos sem cabeça.
735
Juan Gelman
Limites
Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?
Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?
Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?
Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?
Somente a esperança tem joelhos nítidos.
Sangram.
(tradução de Antonio Miranda)
:
Límites
¿Quién dijo alguna vez: hasa aquí la sed,
hasta aquí el agua?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el aire,
hasta aquí el fuego?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el amor,
hasta aquí el odio?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el hombre,
hasta aquí no?
Sólo la esperanza tiene las rodillas nítidas.
Sangran.
até aqui a água?
Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?
Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?
Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?
Somente a esperança tem joelhos nítidos.
Sangram.
(tradução de Antonio Miranda)
:
Límites
¿Quién dijo alguna vez: hasa aquí la sed,
hasta aquí el agua?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el aire,
hasta aquí el fuego?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el amor,
hasta aquí el odio?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el hombre,
hasta aquí no?
Sólo la esperanza tiene las rodillas nítidas.
Sangran.
1 953
Juan Gelman
Limites
Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?
Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?
Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?
Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?
Somente a esperança tem joelhos nítidos.
Sangram.
(tradução de Antonio Miranda)
:
Límites
¿Quién dijo alguna vez: hasa aquí la sed,
hasta aquí el agua?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el aire,
hasta aquí el fuego?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el amor,
hasta aquí el odio?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el hombre,
hasta aquí no?
Sólo la esperanza tiene las rodillas nítidas.
Sangran.
até aqui a água?
Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?
Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?
Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?
Somente a esperança tem joelhos nítidos.
Sangram.
(tradução de Antonio Miranda)
:
Límites
¿Quién dijo alguna vez: hasa aquí la sed,
hasta aquí el agua?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el aire,
hasta aquí el fuego?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el amor,
hasta aquí el odio?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el hombre,
hasta aquí no?
Sólo la esperanza tiene las rodillas nítidas.
Sangran.
1 953
Kenneth Rexroth
Num Cemitério Militar
Estranho, quando vier a Washington
Diga a eles que aqui deitados
Aguardamos suas ordens.
c/ Simônides
ON A MILITARY GRAVEYARD
Stranger, when you come to Washington
Tell them that we lie here
Obedient to their orders.
after Simonides
660
Boris Vian
Morrerei de um câncer na coluna vertebral
Morrerei de um câncer na coluna vertebral
Será numa noite horrível
Clara, quente, perfumada, sensual
Morrerei de um apodrecimento
De certas células pouco conhecidas
Morrerei de uma perna arrancada
Por um rato gigante surgido de um buraco gigante
Morrerei de cem cortes
O céu terá desabado sobre mim
Estilhaçando-se como um vidro espesso
Morrerei de uma explosão de voz
Perfurando minhas orelhas
Morrerei de feridas silenciosas
Infligidas às duas da madrugada
Por assassinos indecisos e calvos
Morrerei sem perceber
Que morro, morrerei
Sepultado sob as ruínas secas
De mil metros de algodão tombado
Morrerei afogado em óleo de cárter
Espezinhado por imbecis indiferentes
E, logo a seguir, por imbecis diferentes
Morrerei nu, ou vestido com tecido vermelho
Ou costurado num saco com lâminas de barbear
Morrerei quem sabe sem me importar
Com o esmalte nos dedos do pé
E com as mãos cheias de lágrimas
E com as mãos cheias de lágrimas
Morrerei quando descolarem
Minhas pálpebras sob um sol raivoso
Quando me disserem lentamente
Maldades ao ouvido
Morrerei de ver torturar crianças
E homens pasmos e pálidos
Morrerei roído vivo
Por vermes, morrerei as
Mãos amarradas sob uma cascata
Morrerei queimado num incêndio triste
Morrerei um pouco, muito,
Sem paixão, mas com interesse
E quando tudo estiver acabado
Morrerei.
:
Je mourrai d´un cancer de la colonne vertébrale
Je mourrai d’un cancer de la colonne vertébrale
Ça sera par un soir horrible
Clair, chaud, parfumé, sensuel
Je mourrai d’un pourrissement
De certaines cellules peu connues
Je mourrai d’une jambe arrachée
Par un rat géant jailli d’un trou géant
Je mourrai de cent coupures
Le ciel sera tombé sur moi
Ça se brise comme une vitre lourde
Je mourrai d’un éclat de voix
Crevant mes oreilles
Je mourrai de blessures sourdes
Infligées à deux heures du matin
Par des tueurs indécis et chauves
Je mourrai sans m’apercevoir
Que je meurs, je mourrai
Enseveli sous les ruines sèches
De mille mètres de coton écroulé
Je mourrai noyé dans l’huille de vidange
Foulé aux pieds par des bêtes indifférentes
Et, juste après, par des bêtes différentes
Je mourrai nu, ou vêtu de toile rouge
Ou cousu dans un sac avec des lames de rasoir
Je mourrai peut-être sans m’en faire
Du vernis à ongles aux doigts de pied
Et des larmes plein les mains
Et des larmes plein les mains
Je mourrai quand on décollera
Mes paupières sous un soleil enragé
Quand on me dira lentement
Des méchancetés à l’oreille
Je mourrai de voir torturer des enfants
Et des hommes étonnés et blêmes
Je mourrai rongé vivant
Par des vers, je mourrai les
Mains attachées sous une cascade
Je mourrai brûlé dans un incendie triste
Je mourrai un peu, beaucoup,
Sans passion, mais avec intérêt
Et puis quand tout sera fini
Je mourrai.
Será numa noite horrível
Clara, quente, perfumada, sensual
Morrerei de um apodrecimento
De certas células pouco conhecidas
Morrerei de uma perna arrancada
Por um rato gigante surgido de um buraco gigante
Morrerei de cem cortes
O céu terá desabado sobre mim
Estilhaçando-se como um vidro espesso
Morrerei de uma explosão de voz
Perfurando minhas orelhas
Morrerei de feridas silenciosas
Infligidas às duas da madrugada
Por assassinos indecisos e calvos
Morrerei sem perceber
Que morro, morrerei
Sepultado sob as ruínas secas
De mil metros de algodão tombado
Morrerei afogado em óleo de cárter
Espezinhado por imbecis indiferentes
E, logo a seguir, por imbecis diferentes
Morrerei nu, ou vestido com tecido vermelho
Ou costurado num saco com lâminas de barbear
Morrerei quem sabe sem me importar
Com o esmalte nos dedos do pé
E com as mãos cheias de lágrimas
E com as mãos cheias de lágrimas
Morrerei quando descolarem
Minhas pálpebras sob um sol raivoso
Quando me disserem lentamente
Maldades ao ouvido
Morrerei de ver torturar crianças
E homens pasmos e pálidos
Morrerei roído vivo
Por vermes, morrerei as
Mãos amarradas sob uma cascata
Morrerei queimado num incêndio triste
Morrerei um pouco, muito,
Sem paixão, mas com interesse
E quando tudo estiver acabado
Morrerei.
:
Je mourrai d´un cancer de la colonne vertébrale
Je mourrai d’un cancer de la colonne vertébrale
Ça sera par un soir horrible
Clair, chaud, parfumé, sensuel
Je mourrai d’un pourrissement
De certaines cellules peu connues
Je mourrai d’une jambe arrachée
Par un rat géant jailli d’un trou géant
Je mourrai de cent coupures
Le ciel sera tombé sur moi
Ça se brise comme une vitre lourde
Je mourrai d’un éclat de voix
Crevant mes oreilles
Je mourrai de blessures sourdes
Infligées à deux heures du matin
Par des tueurs indécis et chauves
Je mourrai sans m’apercevoir
Que je meurs, je mourrai
Enseveli sous les ruines sèches
De mille mètres de coton écroulé
Je mourrai noyé dans l’huille de vidange
Foulé aux pieds par des bêtes indifférentes
Et, juste après, par des bêtes différentes
Je mourrai nu, ou vêtu de toile rouge
Ou cousu dans un sac avec des lames de rasoir
Je mourrai peut-être sans m’en faire
Du vernis à ongles aux doigts de pied
Et des larmes plein les mains
Et des larmes plein les mains
Je mourrai quand on décollera
Mes paupières sous un soleil enragé
Quand on me dira lentement
Des méchancetés à l’oreille
Je mourrai de voir torturer des enfants
Et des hommes étonnés et blêmes
Je mourrai rongé vivant
Par des vers, je mourrai les
Mains attachées sous une cascade
Je mourrai brûlé dans un incendie triste
Je mourrai un peu, beaucoup,
Sans passion, mais avec intérêt
Et puis quand tout sera fini
Je mourrai.
2 785
Torquato Neto
Let’s Play That
quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let"s play that
4 321
Torquato Neto
Let’s Play That
quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let"s play that
4 321
Kenneth Rexroth
Carta do pão com manteiga
Embora não fosse minha a casa
As primeiras frutas florescendo na
Janela tinham o mesmo cheiro.
A BREAD AND BUTTER LETTER
Although it was not my home
The first cold plum blossom by
The window smelled just the same.
As primeiras frutas florescendo na
Janela tinham o mesmo cheiro.
A BREAD AND BUTTER LETTER
Although it was not my home
The first cold plum blossom by
The window smelled just the same.
967
Hilda Hilst
Mula de Deus
I
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.
Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.
II
Há nojosos olhares sobre mim.
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.
Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.
Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.
III
Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?
Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?
E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores
Alegrou-se de mim o coração.
IV
Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).
Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.
Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos
Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.
V
Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.
Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula
Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.
VI
Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.
Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...
Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.
VII
Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.
Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.
VIII
Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada
Essa sou eu.
Poeta e mula
(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura).
2 028
Hilda Hilst
Mula de Deus
I
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.
Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.
II
Há nojosos olhares sobre mim.
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.
Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.
Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.
III
Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?
Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?
E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores
Alegrou-se de mim o coração.
IV
Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).
Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.
Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos
Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.
V
Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.
Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula
Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.
VI
Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.
Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...
Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.
VII
Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.
Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.
VIII
Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada
Essa sou eu.
Poeta e mula
(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura).
2 028
Pat Lowther
Antes que chegue o demolidor
Antes que cheguem os demolidores
Arranque pela raiz o lírio
No ângulo duro de terra
Ao lado da casa.
Agache-se sobre o lixo e os despojos
Contra a escada gradeada do porão
(O relâmpago repentino
De sol
Nas suas costas
Por entre o abrir
E fechar
Do varal aos sopros de março,
Ascensão e queda de luz ágil
Como a golpes.)
Aqui o ensaboar em mucos
De uma vida inteira
Azeda a terra,
Neste canto
Sob a escada,
Mas não matou
Os bichos-de-conta
Nem as pupas das mariposas
Que roçam seus dedos
Ao cavar
Em busca da raiz robusta, redonda,
A raiz do lírio
Que de alguma forma, sem sentido,
Tampouco foi morta
Mas cresceu a cada ano
Uma assombrada infância,
Uma arregalada Páscoa.
Encaixote-a entre as fotos,
O polidor da prataria,
E as últimas roupas por lavar
Que não mais
Hão de subir e tremular
Ao sol que destroça.
Marque sua caixa: X
Duas linhas que se cruzam,
Um ponto em grade
Do tempo
E das estações do ano.
Antes que cheguem os demolidores,
Carregue para longe
O bulbo-relâmpago do sol.
(tradução de Ricardo Domeneck)
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Pat Lowther
Antes que chegue o demolidor
Antes que cheguem os demolidores
Arranque pela raiz o lírio
No ângulo duro de terra
Ao lado da casa.
Agache-se sobre o lixo e os despojos
Contra a escada gradeada do porão
(O relâmpago repentino
De sol
Nas suas costas
Por entre o abrir
E fechar
Do varal aos sopros de março,
Ascensão e queda de luz ágil
Como a golpes.)
Aqui o ensaboar em mucos
De uma vida inteira
Azeda a terra,
Neste canto
Sob a escada,
Mas não matou
Os bichos-de-conta
Nem as pupas das mariposas
Que roçam seus dedos
Ao cavar
Em busca da raiz robusta, redonda,
A raiz do lírio
Que de alguma forma, sem sentido,
Tampouco foi morta
Mas cresceu a cada ano
Uma assombrada infância,
Uma arregalada Páscoa.
Encaixote-a entre as fotos,
O polidor da prataria,
E as últimas roupas por lavar
Que não mais
Hão de subir e tremular
Ao sol que destroça.
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Duas linhas que se cruzam,
Um ponto em grade
Do tempo
E das estações do ano.
Antes que cheguem os demolidores,
Carregue para longe
O bulbo-relâmpago do sol.
(tradução de Ricardo Domeneck)
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