Poemas neste tema
Vida e Existência
Dambudzo Marechera
Camarada Drácula junta-se à Revolução: uma união de mentes
Para ter o que fazer, vamos andar para sempre neste
Círculo chamado casamento (para sempre presume
Nem fim nem começo). Foi-se a lengalenga dos votos.
Lembre-se que deus permite-se a liberdade de ser o centro
De um círculo cuja circunferência está em toda parte (Que
Cinismo!) Com cuidado e sorte nós também podemos ser
Sua imagem. O amor e a História são bestas. Dessarte
deixe suas atrações pastarem
Livres – Nem chego a ter tais planos com humanos.
Você há por gula de vadiar nesse mundo
Enquanto eu e mortos cujas covas são meus prostíbulos
Lufrificaremos da paixão as juntas duras. Não se alarme:
Já que eles dizem THE FIGHT GOES ON até do além
das covas abarrotadas.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Comrade Dracula joins the Revolution: a wedding of minds
Dambudzo Marechera
For something to do let’s forever walk this
Circle they call marriage (forever presumes neither
Beginning nor end) The rigmarole of vows is over.
Remember god allows himself the freedom to be the
centre
Of a circle whose circumference is everywhere (What
Cynicism!) With caution & luck we too can be the image
Of him. Love like history is bunk. Hence let your
attractions range
Free – I have no such intentions with humans at least.
You in this world will dally to surfeit
While I with the dead whose tombs are my brothels
Will oil passion’s stiff joints. Do not be alarmed:
As they say A LUTA CONTINUA even beyond the
serried graves.
623
Henriqueta Lisboa
Calendário
Calada floração
fictícia
caindo da árvore
dos dias
de Reverberações (1976)
fictícia
caindo da árvore
dos dias
de Reverberações (1976)
1 330
John Berryman
22
Eu sou o homem pequenino que fuma & fuma.
Eu sou a garota que, apesar de sabida.
Eu sou o rei da piscina.
Eu sou tão sábio que pedi costurassem minha boca.
Eu sou um oficial do governo & um maldito idiota.
Eu sou uma dama que leva na esportiva.
Eu sou o inimigo da mente.
Eu sou o vendedor de automóveis e te amo.
Eu sou um câncer adolescente, com um plano.
Eu sou o homem desmaiado.
Eu sou a mulher poderosa como um zôo.
Eu sou dois olhos parafusados ao aparelho, cuja cega –
É Independência.
A cobrar: enquanto o moribundo,
abandonado por teu criador, que perdoa,
vai arfando “Thomas Jefferson ainda vive”
em vão, em vão, em vão.
Eu sou Henry Gatinho! Meus bigodes voam.
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
Dream Song 22
John Berryman
I am the little man who smokes & smokes.
I am the girl who does know better but.
I am the king of the pool.
I am so wise I had my mouth sewn shut.
I am a government official & a goddamned fool.
I am a lady who takes jokes.
I am the enemy of the mind.
I am the autosalesman and lóve you.
I am a teenage cancer, with a plan.
I am the blackt-out man.
I am the woman powerful as a zoo.
I am two eyes screwed to my set, whose blind –
It is the Fourth of July.
Collect: while the dying man,
forgone by your creator, who forgives,
is gasping “Thomas Jefferson still lives”
in vain, in vain, in vain.
I am Henry Pussy-cat! My whiskers fly.
Eu sou a garota que, apesar de sabida.
Eu sou o rei da piscina.
Eu sou tão sábio que pedi costurassem minha boca.
Eu sou um oficial do governo & um maldito idiota.
Eu sou uma dama que leva na esportiva.
Eu sou o inimigo da mente.
Eu sou o vendedor de automóveis e te amo.
Eu sou um câncer adolescente, com um plano.
Eu sou o homem desmaiado.
Eu sou a mulher poderosa como um zôo.
Eu sou dois olhos parafusados ao aparelho, cuja cega –
É Independência.
A cobrar: enquanto o moribundo,
abandonado por teu criador, que perdoa,
vai arfando “Thomas Jefferson ainda vive”
em vão, em vão, em vão.
Eu sou Henry Gatinho! Meus bigodes voam.
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
Dream Song 22
John Berryman
I am the little man who smokes & smokes.
I am the girl who does know better but.
I am the king of the pool.
I am so wise I had my mouth sewn shut.
I am a government official & a goddamned fool.
I am a lady who takes jokes.
I am the enemy of the mind.
I am the autosalesman and lóve you.
I am a teenage cancer, with a plan.
I am the blackt-out man.
I am the woman powerful as a zoo.
I am two eyes screwed to my set, whose blind –
It is the Fourth of July.
Collect: while the dying man,
forgone by your creator, who forgives,
is gasping “Thomas Jefferson still lives”
in vain, in vain, in vain.
I am Henry Pussy-cat! My whiskers fly.
823
Leónidas Lamborghini
Falando sozinho
Como aquele que vai falando
sozinho
pela rua
tratando de se entender
a cidade em seu hospício.
Como aquele que está
confessando
sua angústia a outro
e esse outro
é ele mesmo
andando pela rua.
a cidade em seu hospício.
Como aquele que sem saber
vai caminhando
entre as pessoas
e faz estranhos gestos
a este outro
que é ele mesmo
a cidade em seu hospício.
Como aquele que vai de uma esquina
à outra
caminha e fala sozinho
porque trata de se entender
com este outro
que é ele mesmo
como esse
como esse
a cidade em seu hospício.
sozinho
pela rua
tratando de se entender
a cidade em seu hospício.
Como aquele que está
confessando
sua angústia a outro
e esse outro
é ele mesmo
andando pela rua.
a cidade em seu hospício.
Como aquele que sem saber
vai caminhando
entre as pessoas
e faz estranhos gestos
a este outro
que é ele mesmo
a cidade em seu hospício.
Como aquele que vai de uma esquina
à outra
caminha e fala sozinho
porque trata de se entender
com este outro
que é ele mesmo
como esse
como esse
a cidade em seu hospício.
749
Daniel Faria
Ando um pouco acima do chão
Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo
Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito
Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo
Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema
Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim
E bebe
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo
Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito
Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo
Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema
Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim
E bebe
2 775
Daniel Faria
Ando um pouco acima do chão
Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo
Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito
Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo
Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema
Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim
E bebe
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo
Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito
Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo
Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema
Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim
E bebe
2 775
Gonzalo Rojas
Contra a morte
Arranco-me as visões e os olhos a cada dia que passa.
Não quero – não posso! – ver morrerem os homens a cada dia.
Prefiro ser pedra, ser treva,
a suportar o asco de abrandar-me por dentro e sorrir
a torto e a direito para prosperar em meu negócio.
Não tenho outro negócio senão estar aqui dizendo a verdade
no meio da rua e a todos os ventos:
a verdade de estar vivo, unicamente vivo,
com o pés na terra e o esqueleto livre neste mundo.
O que queremos disso de saltar de até o sol com nossas máquinas
à velocidade do pensamento. Demônios! O que queremos
com o voar além do infinito
se continuamos morrendo sem esperança alguma de viver
fora do tempo das trevas?
Deus não me serve. Ninguém me serve para nada.
Porém respiro. E como. E até durmo
pensando que faltam uns dez ou vinte anos para ir-me
de bruços, como todos, a dormir sob dois metros de cimento.
Não choro – não mesmo! Tudo há de ser como deve ser,
porém, não posso ver caixões e mais caixões
passarem, passarem, passarem, a cada minuto
cheios de algo, recheados de algo, não posso ver
ainda quente o sangue nos caixões.
Toco esta rosa, beijo as pétalas, adoro
a vida, não me canso de amar as mulheres – alimento-me
de gerar o mundo nelas. Porém, tudo é inútil!
Pois eu mesmo sou uma cabeça inútil
pronta para ser cortada por não entender o que é isso
de esperar outro mundo deste mundo.
Falam-me do Deus ou da História. Rio-me
de irem buscar tão longe a explicação da fome
que me devora, a fome de viver como o sol
na graça do ar, eternamente.
(tradução de Fabiano Calixto)
:
CONTRA LA MUERTE: Me arranco las visiones y me arranco los ojos cada día que pasa. / No quiero ver ¡no puedo! ver morir a los hombres cada día. / Prefiero ser de piedra, estar oscuro, / a soportar el asco de ablandarme por dentro y sonreír. / a diestra y a siniestra con tal de prosperar en mi negocio. // No tengo otro negocio que estar
aquí diciendo la verdad / en mitad de la calle y hacia todos los vientos: / la verdad de estar vivo, únicamente vivo, / con los pies en la tierra y el esqueleto libre en este mundo. // ¿Qué sacamos con eso de saltar hasta el sol con nuestras máquinas / a la velocidad del pensamiento, demonios: qué sacamos / con volar más allá del infinito / si seguimos muriendo sin esperanza alguna de vivir / fuera del tiempo oscuro? // Dios no me sirve. Nadie me sirve para nada. / Pero respiro, y como, y hasta duermo / pensando que me faltan unos diez o veinte años para irme / de bruces, como todos, a dormir en dos metros de cemento allá abajo. // No lloro, no me lloro. Todo ha de ser así como ha de ser, / pero no puedo ver cajones y cajones / pasar, pasar, pasar, pasar cada minuto / llenos de algo, rellenos de algo, no puedo ver / todavía caliente la sangre en los cajones. / Toco esta rosa, beso sus pétalos, adoro / la vida, no me canso de amar a las mujeres: me alimento / de abrir el mundo en ellas. Pero todo es inútil, / porque yo mismo soy una cabeza inútil / lista para cortar, por no entender qué es eso / de esperar otro mundo de este mundo. // Me hablan del Dios o me hablan de la Historia. Me río / de ir a buscar tan lejos la explicación del hambre / que me devora, el hambre de vivir como el sol / en la gracia del aire, eternamente.
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Não quero – não posso! – ver morrerem os homens a cada dia.
Prefiro ser pedra, ser treva,
a suportar o asco de abrandar-me por dentro e sorrir
a torto e a direito para prosperar em meu negócio.
Não tenho outro negócio senão estar aqui dizendo a verdade
no meio da rua e a todos os ventos:
a verdade de estar vivo, unicamente vivo,
com o pés na terra e o esqueleto livre neste mundo.
O que queremos disso de saltar de até o sol com nossas máquinas
à velocidade do pensamento. Demônios! O que queremos
com o voar além do infinito
se continuamos morrendo sem esperança alguma de viver
fora do tempo das trevas?
Deus não me serve. Ninguém me serve para nada.
Porém respiro. E como. E até durmo
pensando que faltam uns dez ou vinte anos para ir-me
de bruços, como todos, a dormir sob dois metros de cimento.
Não choro – não mesmo! Tudo há de ser como deve ser,
porém, não posso ver caixões e mais caixões
passarem, passarem, passarem, a cada minuto
cheios de algo, recheados de algo, não posso ver
ainda quente o sangue nos caixões.
Toco esta rosa, beijo as pétalas, adoro
a vida, não me canso de amar as mulheres – alimento-me
de gerar o mundo nelas. Porém, tudo é inútil!
Pois eu mesmo sou uma cabeça inútil
pronta para ser cortada por não entender o que é isso
de esperar outro mundo deste mundo.
Falam-me do Deus ou da História. Rio-me
de irem buscar tão longe a explicação da fome
que me devora, a fome de viver como o sol
na graça do ar, eternamente.
(tradução de Fabiano Calixto)
:
CONTRA LA MUERTE: Me arranco las visiones y me arranco los ojos cada día que pasa. / No quiero ver ¡no puedo! ver morir a los hombres cada día. / Prefiero ser de piedra, estar oscuro, / a soportar el asco de ablandarme por dentro y sonreír. / a diestra y a siniestra con tal de prosperar en mi negocio. // No tengo otro negocio que estar
aquí diciendo la verdad / en mitad de la calle y hacia todos los vientos: / la verdad de estar vivo, únicamente vivo, / con los pies en la tierra y el esqueleto libre en este mundo. // ¿Qué sacamos con eso de saltar hasta el sol con nuestras máquinas / a la velocidad del pensamiento, demonios: qué sacamos / con volar más allá del infinito / si seguimos muriendo sin esperanza alguna de vivir / fuera del tiempo oscuro? // Dios no me sirve. Nadie me sirve para nada. / Pero respiro, y como, y hasta duermo / pensando que me faltan unos diez o veinte años para irme / de bruces, como todos, a dormir en dos metros de cemento allá abajo. // No lloro, no me lloro. Todo ha de ser así como ha de ser, / pero no puedo ver cajones y cajones / pasar, pasar, pasar, pasar cada minuto / llenos de algo, rellenos de algo, no puedo ver / todavía caliente la sangre en los cajones. / Toco esta rosa, beso sus pétalos, adoro / la vida, no me canso de amar a las mujeres: me alimento / de abrir el mundo en ellas. Pero todo es inútil, / porque yo mismo soy una cabeza inútil / lista para cortar, por no entender qué es eso / de esperar otro mundo de este mundo. // Me hablan del Dios o me hablan de la Historia. Me río / de ir a buscar tan lejos la explicación del hambre / que me devora, el hambre de vivir como el sol / en la gracia del aire, eternamente.
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Gonzalo Rojas
Contra a morte
Arranco-me as visões e os olhos a cada dia que passa.
Não quero – não posso! – ver morrerem os homens a cada dia.
Prefiro ser pedra, ser treva,
a suportar o asco de abrandar-me por dentro e sorrir
a torto e a direito para prosperar em meu negócio.
Não tenho outro negócio senão estar aqui dizendo a verdade
no meio da rua e a todos os ventos:
a verdade de estar vivo, unicamente vivo,
com o pés na terra e o esqueleto livre neste mundo.
O que queremos disso de saltar de até o sol com nossas máquinas
à velocidade do pensamento. Demônios! O que queremos
com o voar além do infinito
se continuamos morrendo sem esperança alguma de viver
fora do tempo das trevas?
Deus não me serve. Ninguém me serve para nada.
Porém respiro. E como. E até durmo
pensando que faltam uns dez ou vinte anos para ir-me
de bruços, como todos, a dormir sob dois metros de cimento.
Não choro – não mesmo! Tudo há de ser como deve ser,
porém, não posso ver caixões e mais caixões
passarem, passarem, passarem, a cada minuto
cheios de algo, recheados de algo, não posso ver
ainda quente o sangue nos caixões.
Toco esta rosa, beijo as pétalas, adoro
a vida, não me canso de amar as mulheres – alimento-me
de gerar o mundo nelas. Porém, tudo é inútil!
Pois eu mesmo sou uma cabeça inútil
pronta para ser cortada por não entender o que é isso
de esperar outro mundo deste mundo.
Falam-me do Deus ou da História. Rio-me
de irem buscar tão longe a explicação da fome
que me devora, a fome de viver como o sol
na graça do ar, eternamente.
(tradução de Fabiano Calixto)
:
CONTRA LA MUERTE: Me arranco las visiones y me arranco los ojos cada día que pasa. / No quiero ver ¡no puedo! ver morir a los hombres cada día. / Prefiero ser de piedra, estar oscuro, / a soportar el asco de ablandarme por dentro y sonreír. / a diestra y a siniestra con tal de prosperar en mi negocio. // No tengo otro negocio que estar
aquí diciendo la verdad / en mitad de la calle y hacia todos los vientos: / la verdad de estar vivo, únicamente vivo, / con los pies en la tierra y el esqueleto libre en este mundo. // ¿Qué sacamos con eso de saltar hasta el sol con nuestras máquinas / a la velocidad del pensamiento, demonios: qué sacamos / con volar más allá del infinito / si seguimos muriendo sin esperanza alguna de vivir / fuera del tiempo oscuro? // Dios no me sirve. Nadie me sirve para nada. / Pero respiro, y como, y hasta duermo / pensando que me faltan unos diez o veinte años para irme / de bruces, como todos, a dormir en dos metros de cemento allá abajo. // No lloro, no me lloro. Todo ha de ser así como ha de ser, / pero no puedo ver cajones y cajones / pasar, pasar, pasar, pasar cada minuto / llenos de algo, rellenos de algo, no puedo ver / todavía caliente la sangre en los cajones. / Toco esta rosa, beso sus pétalos, adoro / la vida, no me canso de amar a las mujeres: me alimento / de abrir el mundo en ellas. Pero todo es inútil, / porque yo mismo soy una cabeza inútil / lista para cortar, por no entender qué es eso / de esperar otro mundo de este mundo. // Me hablan del Dios o me hablan de la Historia. Me río / de ir a buscar tan lejos la explicación del hambre / que me devora, el hambre de vivir como el sol / en la gracia del aire, eternamente.
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Não quero – não posso! – ver morrerem os homens a cada dia.
Prefiro ser pedra, ser treva,
a suportar o asco de abrandar-me por dentro e sorrir
a torto e a direito para prosperar em meu negócio.
Não tenho outro negócio senão estar aqui dizendo a verdade
no meio da rua e a todos os ventos:
a verdade de estar vivo, unicamente vivo,
com o pés na terra e o esqueleto livre neste mundo.
O que queremos disso de saltar de até o sol com nossas máquinas
à velocidade do pensamento. Demônios! O que queremos
com o voar além do infinito
se continuamos morrendo sem esperança alguma de viver
fora do tempo das trevas?
Deus não me serve. Ninguém me serve para nada.
Porém respiro. E como. E até durmo
pensando que faltam uns dez ou vinte anos para ir-me
de bruços, como todos, a dormir sob dois metros de cimento.
Não choro – não mesmo! Tudo há de ser como deve ser,
porém, não posso ver caixões e mais caixões
passarem, passarem, passarem, a cada minuto
cheios de algo, recheados de algo, não posso ver
ainda quente o sangue nos caixões.
Toco esta rosa, beijo as pétalas, adoro
a vida, não me canso de amar as mulheres – alimento-me
de gerar o mundo nelas. Porém, tudo é inútil!
Pois eu mesmo sou uma cabeça inútil
pronta para ser cortada por não entender o que é isso
de esperar outro mundo deste mundo.
Falam-me do Deus ou da História. Rio-me
de irem buscar tão longe a explicação da fome
que me devora, a fome de viver como o sol
na graça do ar, eternamente.
(tradução de Fabiano Calixto)
:
CONTRA LA MUERTE: Me arranco las visiones y me arranco los ojos cada día que pasa. / No quiero ver ¡no puedo! ver morir a los hombres cada día. / Prefiero ser de piedra, estar oscuro, / a soportar el asco de ablandarme por dentro y sonreír. / a diestra y a siniestra con tal de prosperar en mi negocio. // No tengo otro negocio que estar
aquí diciendo la verdad / en mitad de la calle y hacia todos los vientos: / la verdad de estar vivo, únicamente vivo, / con los pies en la tierra y el esqueleto libre en este mundo. // ¿Qué sacamos con eso de saltar hasta el sol con nuestras máquinas / a la velocidad del pensamiento, demonios: qué sacamos / con volar más allá del infinito / si seguimos muriendo sin esperanza alguna de vivir / fuera del tiempo oscuro? // Dios no me sirve. Nadie me sirve para nada. / Pero respiro, y como, y hasta duermo / pensando que me faltan unos diez o veinte años para irme / de bruces, como todos, a dormir en dos metros de cemento allá abajo. // No lloro, no me lloro. Todo ha de ser así como ha de ser, / pero no puedo ver cajones y cajones / pasar, pasar, pasar, pasar cada minuto / llenos de algo, rellenos de algo, no puedo ver / todavía caliente la sangre en los cajones. / Toco esta rosa, beso sus pétalos, adoro / la vida, no me canso de amar a las mujeres: me alimento / de abrir el mundo en ellas. Pero todo es inútil, / porque yo mismo soy una cabeza inútil / lista para cortar, por no entender qué es eso / de esperar otro mundo de este mundo. // Me hablan del Dios o me hablan de la Historia. Me río / de ir a buscar tan lejos la explicación del hambre / que me devora, el hambre de vivir como el sol / en la gracia del aire, eternamente.
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1 029
Gonzalo Rojas
Contra a morte
Arranco-me as visões e os olhos a cada dia que passa.
Não quero – não posso! – ver morrerem os homens a cada dia.
Prefiro ser pedra, ser treva,
a suportar o asco de abrandar-me por dentro e sorrir
a torto e a direito para prosperar em meu negócio.
Não tenho outro negócio senão estar aqui dizendo a verdade
no meio da rua e a todos os ventos:
a verdade de estar vivo, unicamente vivo,
com o pés na terra e o esqueleto livre neste mundo.
O que queremos disso de saltar de até o sol com nossas máquinas
à velocidade do pensamento. Demônios! O que queremos
com o voar além do infinito
se continuamos morrendo sem esperança alguma de viver
fora do tempo das trevas?
Deus não me serve. Ninguém me serve para nada.
Porém respiro. E como. E até durmo
pensando que faltam uns dez ou vinte anos para ir-me
de bruços, como todos, a dormir sob dois metros de cimento.
Não choro – não mesmo! Tudo há de ser como deve ser,
porém, não posso ver caixões e mais caixões
passarem, passarem, passarem, a cada minuto
cheios de algo, recheados de algo, não posso ver
ainda quente o sangue nos caixões.
Toco esta rosa, beijo as pétalas, adoro
a vida, não me canso de amar as mulheres – alimento-me
de gerar o mundo nelas. Porém, tudo é inútil!
Pois eu mesmo sou uma cabeça inútil
pronta para ser cortada por não entender o que é isso
de esperar outro mundo deste mundo.
Falam-me do Deus ou da História. Rio-me
de irem buscar tão longe a explicação da fome
que me devora, a fome de viver como o sol
na graça do ar, eternamente.
(tradução de Fabiano Calixto)
:
CONTRA LA MUERTE: Me arranco las visiones y me arranco los ojos cada día que pasa. / No quiero ver ¡no puedo! ver morir a los hombres cada día. / Prefiero ser de piedra, estar oscuro, / a soportar el asco de ablandarme por dentro y sonreír. / a diestra y a siniestra con tal de prosperar en mi negocio. // No tengo otro negocio que estar
aquí diciendo la verdad / en mitad de la calle y hacia todos los vientos: / la verdad de estar vivo, únicamente vivo, / con los pies en la tierra y el esqueleto libre en este mundo. // ¿Qué sacamos con eso de saltar hasta el sol con nuestras máquinas / a la velocidad del pensamiento, demonios: qué sacamos / con volar más allá del infinito / si seguimos muriendo sin esperanza alguna de vivir / fuera del tiempo oscuro? // Dios no me sirve. Nadie me sirve para nada. / Pero respiro, y como, y hasta duermo / pensando que me faltan unos diez o veinte años para irme / de bruces, como todos, a dormir en dos metros de cemento allá abajo. // No lloro, no me lloro. Todo ha de ser así como ha de ser, / pero no puedo ver cajones y cajones / pasar, pasar, pasar, pasar cada minuto / llenos de algo, rellenos de algo, no puedo ver / todavía caliente la sangre en los cajones. / Toco esta rosa, beso sus pétalos, adoro / la vida, no me canso de amar a las mujeres: me alimento / de abrir el mundo en ellas. Pero todo es inútil, / porque yo mismo soy una cabeza inútil / lista para cortar, por no entender qué es eso / de esperar otro mundo de este mundo. // Me hablan del Dios o me hablan de la Historia. Me río / de ir a buscar tan lejos la explicación del hambre / que me devora, el hambre de vivir como el sol / en la gracia del aire, eternamente.
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Não quero – não posso! – ver morrerem os homens a cada dia.
Prefiro ser pedra, ser treva,
a suportar o asco de abrandar-me por dentro e sorrir
a torto e a direito para prosperar em meu negócio.
Não tenho outro negócio senão estar aqui dizendo a verdade
no meio da rua e a todos os ventos:
a verdade de estar vivo, unicamente vivo,
com o pés na terra e o esqueleto livre neste mundo.
O que queremos disso de saltar de até o sol com nossas máquinas
à velocidade do pensamento. Demônios! O que queremos
com o voar além do infinito
se continuamos morrendo sem esperança alguma de viver
fora do tempo das trevas?
Deus não me serve. Ninguém me serve para nada.
Porém respiro. E como. E até durmo
pensando que faltam uns dez ou vinte anos para ir-me
de bruços, como todos, a dormir sob dois metros de cimento.
Não choro – não mesmo! Tudo há de ser como deve ser,
porém, não posso ver caixões e mais caixões
passarem, passarem, passarem, a cada minuto
cheios de algo, recheados de algo, não posso ver
ainda quente o sangue nos caixões.
Toco esta rosa, beijo as pétalas, adoro
a vida, não me canso de amar as mulheres – alimento-me
de gerar o mundo nelas. Porém, tudo é inútil!
Pois eu mesmo sou uma cabeça inútil
pronta para ser cortada por não entender o que é isso
de esperar outro mundo deste mundo.
Falam-me do Deus ou da História. Rio-me
de irem buscar tão longe a explicação da fome
que me devora, a fome de viver como o sol
na graça do ar, eternamente.
(tradução de Fabiano Calixto)
:
CONTRA LA MUERTE: Me arranco las visiones y me arranco los ojos cada día que pasa. / No quiero ver ¡no puedo! ver morir a los hombres cada día. / Prefiero ser de piedra, estar oscuro, / a soportar el asco de ablandarme por dentro y sonreír. / a diestra y a siniestra con tal de prosperar en mi negocio. // No tengo otro negocio que estar
aquí diciendo la verdad / en mitad de la calle y hacia todos los vientos: / la verdad de estar vivo, únicamente vivo, / con los pies en la tierra y el esqueleto libre en este mundo. // ¿Qué sacamos con eso de saltar hasta el sol con nuestras máquinas / a la velocidad del pensamiento, demonios: qué sacamos / con volar más allá del infinito / si seguimos muriendo sin esperanza alguna de vivir / fuera del tiempo oscuro? // Dios no me sirve. Nadie me sirve para nada. / Pero respiro, y como, y hasta duermo / pensando que me faltan unos diez o veinte años para irme / de bruces, como todos, a dormir en dos metros de cemento allá abajo. // No lloro, no me lloro. Todo ha de ser así como ha de ser, / pero no puedo ver cajones y cajones / pasar, pasar, pasar, pasar cada minuto / llenos de algo, rellenos de algo, no puedo ver / todavía caliente la sangre en los cajones. / Toco esta rosa, beso sus pétalos, adoro / la vida, no me canso de amar a las mujeres: me alimento / de abrir el mundo en ellas. Pero todo es inútil, / porque yo mismo soy una cabeza inútil / lista para cortar, por no entender qué es eso / de esperar otro mundo de este mundo. // Me hablan del Dios o me hablan de la Historia. Me río / de ir a buscar tan lejos la explicación del hambre / que me devora, el hambre de vivir como el sol / en la gracia del aire, eternamente.
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1 029
Giuseppe Ungaretti
Hino à morte
Amor, meu emblema de jovem,
Que volta a dourar a terra,
Difuso no dia rupestre,
É a última vez que contemplo
(Ao pé deste barranco, de impetuosas
águas, suntuoso, funesto
De antros) o rastro de luz
Que, como a lastimosa rolinha
Inquieta, meandra no gramado.
Amor, salvação fulgurosa,
Pesam-me os anos do porvir.
Largado o bastão fiel,
Resvalarei para a água sombria
Sem um queixume.
Morte, árido rio ...
Imêmore irmã, morte,
Igual ao sonho me farás
Beijando-me.
Terei teu mesmo passo,
Irei sem deixar traço.
Tu me darás o coração indiferente
De um deus, serei inocente,
Sem pensamentos, nem cuidados.
Com a mente murada,
Com os olhos caídos em esquecimento,
Far-me-ei guia da felicidade.
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Inno alla morte
Giuseppe Ungaretti
Amore, mio giovine emblema,
Tornato a dorare la terra,
Diffuso entro il giorno rupestre,
É l'ultima volta che miro
(Appiè del botro, d'irruenti
Acque sontuoso, d'antri
Funesto) la scia di luce
Che pari alla tortora lamentosa
Sull'erba svagata si turba.
Amore, salute lucente,
Mi pesano gli anni venturi.
Abbandonata la mazza fedele,
Scivolerò nell'acqua buia
Senza rimpianto.
Morte, arido fiume...
Immemore sorella, morte,
L'uguale mi farai del sogno
Baciandomi.
Avrò il tuo passo,
Andrò senza lasciare impronta.
Mi darai il cuore immobile
D'un iddio, sarò innocente,
Non avrò più pensieri nè bontà.
Colla mente murata,
Cogli occhi caduti in oblio,
Farò da guida alla felicità.
(1925)
1 537
Henriqueta Lisboa
É estranho que, após o pranto
É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares,
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilhas, ó náufrago.
É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.
É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.
deA flor da morte (1949).
1 027
Henriqueta Lisboa
É estranho que, após o pranto
É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares,
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilhas, ó náufrago.
É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.
É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.
deA flor da morte (1949).
1 027
Dambudzo Marechera
Costumava gostar de tomates
Eu me canso do sangue
E da tosse
e mais sangue
Saio bem rápido daquele apê
para algum bar fresco de arruaceiros
e banco o macho com camaradas mais machos
lavando o sangue goela abaixo com Caninha 51
apertando mãos sobre Tsitsi que foi aos ares aos céus
tentando esquecer que não gosto de cozinhar nas panelas
dos mortos
Não gosto de vestir e ficar com cara de idiota metido
em calças e camisas dos mortos
(Eles disseram aí tua mãe e mano passaram aí
disseram que esta é tua herança)
Dali a pouco duro feito pandeiro nem beber consigo
De volta pro apê estirado de costas
engolindo tudo vermelho goela abaixo de volta
Acordei cansado demais pra estourar bolha tão rubra
:
I used to like tomatoes
I get tired of the blood
And the coughing
and more blood
I get out of that flat real fast
to some cool quarrelling bar
and talk big to bigger comrades
washing down the blood with Castle an’ Label
shaking hands about Tsitsi bombed to heaven
trying to forget I don’t like cooking in dead people’s
pots and pans
I don’t like wearing and looking smart-arse in dead
people’s shirts an’ pants
(They said yoh mama an’ bra been for you
said these are your inheritance)
I’m soon tight as a drum can’t drink no more
It’s back at the flat on my back
swallowing it all red back hard down
I woke up too tired to break out so bright red a bubble.
E da tosse
e mais sangue
Saio bem rápido daquele apê
para algum bar fresco de arruaceiros
e banco o macho com camaradas mais machos
lavando o sangue goela abaixo com Caninha 51
apertando mãos sobre Tsitsi que foi aos ares aos céus
tentando esquecer que não gosto de cozinhar nas panelas
dos mortos
Não gosto de vestir e ficar com cara de idiota metido
em calças e camisas dos mortos
(Eles disseram aí tua mãe e mano passaram aí
disseram que esta é tua herança)
Dali a pouco duro feito pandeiro nem beber consigo
De volta pro apê estirado de costas
engolindo tudo vermelho goela abaixo de volta
Acordei cansado demais pra estourar bolha tão rubra
:
I used to like tomatoes
I get tired of the blood
And the coughing
and more blood
I get out of that flat real fast
to some cool quarrelling bar
and talk big to bigger comrades
washing down the blood with Castle an’ Label
shaking hands about Tsitsi bombed to heaven
trying to forget I don’t like cooking in dead people’s
pots and pans
I don’t like wearing and looking smart-arse in dead
people’s shirts an’ pants
(They said yoh mama an’ bra been for you
said these are your inheritance)
I’m soon tight as a drum can’t drink no more
It’s back at the flat on my back
swallowing it all red back hard down
I woke up too tired to break out so bright red a bubble.
1 111
János Pilinszky
Paixão de Ravensbrück
Sai das fileiras e detém-
-se no silêncio carregado.
Vibram, como no écran, seu crânio
raspado e as roupas de forçado.
Está medonhamente só.
Podem-se ver seus poros. Tudo
de seu parece tão imenso.
Tudo de seu – tão diminuto.
Apenas isto. Quanto ao resto,
o resto, nada singular,
foi, antes de cair por terra,
ter se esquecido de gritar.
(tradução de Nelson Ascher)
:
Ravensbrücki passió
Kilép a többiek közul,
megáll a kockacsendben,
mint vetitett kép hunyorog
rabruha és fegyencfej.
Félelmetesen maga van,
a pórusait látni,
mindene olyan óriás,
mindene oly parányi.
És nincs tovább. A többi már,
a többi annyi volt csak,
elfelejtett kiáltani
mielott földre roskadt.
408
Pentti Saarikoski
XXXV
eu nunca estarei à altura dos meus poemas
eu tusso eu ofego
enquanto eles respiram livremente
eu caminho por aí de olhar fixo
eles conhecem seu próprio valor
me ridicularizam
à noite eles saem aos berros às ruas
mas de dia sentam-se comportados no escritório
batendo à mesa com um lápis dizendo
qual o seu número?
eu me decepcionei com todos eles
eu não os criei à minha imagem e semelhança?
eles deviam fazer propaganda de mim mesmo
e o que eles estão fazendo?
sorrindo com desdém
enquanto uma delegação de poetas europeus os aplaude
eu desmaio num banco de parque a cagar nas calças
quando estou doente eles vêm me ver? não
quando estiver morto
trarão flores ao meu túmulo? oh não
eles não têm órgãos internos
eles não envelhecem
eu encolho enquanto crescem
eu morro
e eles vivem com a bunda virada pra lua
619
Pentti Saarikoski
XXXV
eu nunca estarei à altura dos meus poemas
eu tusso eu ofego
enquanto eles respiram livremente
eu caminho por aí de olhar fixo
eles conhecem seu próprio valor
me ridicularizam
à noite eles saem aos berros às ruas
mas de dia sentam-se comportados no escritório
batendo à mesa com um lápis dizendo
qual o seu número?
eu me decepcionei com todos eles
eu não os criei à minha imagem e semelhança?
eles deviam fazer propaganda de mim mesmo
e o que eles estão fazendo?
sorrindo com desdém
enquanto uma delegação de poetas europeus os aplaude
eu desmaio num banco de parque a cagar nas calças
quando estou doente eles vêm me ver? não
quando estiver morto
trarão flores ao meu túmulo? oh não
eles não têm órgãos internos
eles não envelhecem
eu encolho enquanto crescem
eu morro
e eles vivem com a bunda virada pra lua
619
Pentti Saarikoski
Fragmentos de Convite para a dança
V
Não retornes
Quetzalcoatl
aqui agora adoram-se outros deuses
as penas do teu pássaro
à venda em lojas para turistas
teus lagos congelados
as pontes de ilha a ilha
escapamentos para as ansiedades do povo
das janelas de edifícios
olhos cansados contemplam a praça
rubra com o sangue dos inocentes
não retornes
Quetzalcoatl
fica com a fé dos teus pais
675
John Berryman
14
A vida, amigos, é um tédio. Não devemos dizê-lo.
Afinal, o céu se acende, o verde mar anseia,
nós mesmos acendemos e ansiamos,
e ademais disse-me a mãe em pequeno
(repetidamente) 'Confessar-se entendiado
significa que não tens
Recursos Interiores´. Concluo agora que não tenho
recursos interiores, pois estou entediado às profundas.
As gentes me entediam,
a literatura me entedia, especialmente a grande literatura,
Henry me entendia, com seus apertos& apuros
tão graves quanto os de Aquiles,
que ama as gentes e a arte valorosa, que me entendiam.
E as plácidas colinas,& o gim, parecem uma chatice
e de algum modo um cachorro
levou-se a si próprio& ao rabo consideravelmente embora
para as montanhas ou o mar ou o céu, deixando
para trás: a mim, balanço.
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
Dream Song 14
John Berryman
Life, friends, is boring. We must not say so.
After all, the sky flashes, the green sea yearns,
we ourselves flash and yearn,
and moreover my mother told me as a boy
(repeatingly) 'Ever to confess you're bored
means you have no
Inner Resources.' I conclude now I have no
inner resources, because I am heavy bored.
Peoples bore me,
literature bores me, especially great literature,
Henry bores me, with his plights& gripes
as bad as achilles,
who loves people and valiant art, which bores me.
And the tranquil hills,& gin, look like a drag
and somehow a dog
has taken itself& his tail considerably away
into mountains or sea or sky, leaving
behind: me, wag.
748
John Berryman
14
A vida, amigos, é um tédio. Não devemos dizê-lo.
Afinal, o céu se acende, o verde mar anseia,
nós mesmos acendemos e ansiamos,
e ademais disse-me a mãe em pequeno
(repetidamente) 'Confessar-se entendiado
significa que não tens
Recursos Interiores´. Concluo agora que não tenho
recursos interiores, pois estou entediado às profundas.
As gentes me entediam,
a literatura me entedia, especialmente a grande literatura,
Henry me entendia, com seus apertos& apuros
tão graves quanto os de Aquiles,
que ama as gentes e a arte valorosa, que me entendiam.
E as plácidas colinas,& o gim, parecem uma chatice
e de algum modo um cachorro
levou-se a si próprio& ao rabo consideravelmente embora
para as montanhas ou o mar ou o céu, deixando
para trás: a mim, balanço.
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
Dream Song 14
John Berryman
Life, friends, is boring. We must not say so.
After all, the sky flashes, the green sea yearns,
we ourselves flash and yearn,
and moreover my mother told me as a boy
(repeatingly) 'Ever to confess you're bored
means you have no
Inner Resources.' I conclude now I have no
inner resources, because I am heavy bored.
Peoples bore me,
literature bores me, especially great literature,
Henry bores me, with his plights& gripes
as bad as achilles,
who loves people and valiant art, which bores me.
And the tranquil hills,& gin, look like a drag
and somehow a dog
has taken itself& his tail considerably away
into mountains or sea or sky, leaving
behind: me, wag.
748
Giuseppe Ungaretti
San Martino del Carso
Valloncello dell'Albero Isolato, 27 de agosto de 1916
Destas casas
nada sobrou
senão alguns
pedaços de muro
De quantos
me foram próximos
nada sobrou
nem tanto
No coração porém
nenhuma cruz me falta
É o meu coração
a região mais destroçada
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Valloncello dell'Albero Isolato il 27 agosto 1916
Di queste case
non è rimasto
che qualche
brandello di muro
Di tanti
che mi corrispondevano
non è rimasto
neppure tanto
Ma nel cuore
nessuna croce manca
È il mio cuore
il paese più straziato
Destas casas
nada sobrou
senão alguns
pedaços de muro
De quantos
me foram próximos
nada sobrou
nem tanto
No coração porém
nenhuma cruz me falta
É o meu coração
a região mais destroçada
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Valloncello dell'Albero Isolato il 27 agosto 1916
Di queste case
non è rimasto
che qualche
brandello di muro
Di tanti
che mi corrispondevano
non è rimasto
neppure tanto
Ma nel cuore
nessuna croce manca
È il mio cuore
il paese più straziato
1 660
Sebastião Alba
A palhota
Espanta não ver nada
que se coma e caçarolas
As aranhas debandaram
não há moscas
até o humor secou
nas espinhas largadas
Vive-se como?
Donde a modeladora energia
que põe a carne?
Ladino um rato
como na infância o quereríamos
rói os bambus a viga
as horas urdem
e um opaco cisco indizível
aduz as proporções laqueia
a quietação à roda.
1 003
Sebastião Alba
A palhota
Espanta não ver nada
que se coma e caçarolas
As aranhas debandaram
não há moscas
até o humor secou
nas espinhas largadas
Vive-se como?
Donde a modeladora energia
que põe a carne?
Ladino um rato
como na infância o quereríamos
rói os bambus a viga
as horas urdem
e um opaco cisco indizível
aduz as proporções laqueia
a quietação à roda.
1 003
Sebastião Alba
A palhota
Espanta não ver nada
que se coma e caçarolas
As aranhas debandaram
não há moscas
até o humor secou
nas espinhas largadas
Vive-se como?
Donde a modeladora energia
que põe a carne?
Ladino um rato
como na infância o quereríamos
rói os bambus a viga
as horas urdem
e um opaco cisco indizível
aduz as proporções laqueia
a quietação à roda.
1 003
Leónidas Lamborghini
Dados
Como aquele que no café
gira com fúria
os dados
no escuro do copo
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que concentra
todo o esforço
ali no alto
fazendo rugir os dados
no escuro
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que do alto
vai descarregar
os dados
e vocifera com fúria
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que com todas
as forças
agita os dados no alto
e dali
descarrega com fúria
na mesa
o copo
como esse
como esse
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
772