Poemas neste tema
Vida e Existência
Erich Fried
Canta-se
Canta-se
de medo
contra o medo.
Canta-se
de fome
contra a fome.
Canta-se
do tempo
contra o tempo.
Canta-se
do pó
contra o pó.
Canta-se
sobre os nomes
a fazer dos nomes o inominável.
:
Einer singt
Einer singt
aus Angst
gegen Angst
Einer singt
aus Not
gegen Not
Einer singt
aus der Zeit
gegen die Zeit
Einer singt
aus dem Staub
gegen die Staub
Einer singt
von den Namen
die Namen namenlos machen
Nota: A palavra alemã Not seria o equivalente a necessidade ou emergência, mas usei fome para manter a concisão.
de medo
contra o medo.
Canta-se
de fome
contra a fome.
Canta-se
do tempo
contra o tempo.
Canta-se
do pó
contra o pó.
Canta-se
sobre os nomes
a fazer dos nomes o inominável.
:
Einer singt
Einer singt
aus Angst
gegen Angst
Einer singt
aus Not
gegen Not
Einer singt
aus der Zeit
gegen die Zeit
Einer singt
aus dem Staub
gegen die Staub
Einer singt
von den Namen
die Namen namenlos machen
Nota: A palavra alemã Not seria o equivalente a necessidade ou emergência, mas usei fome para manter a concisão.
1 017
Maria Ângela Alvim
Inteira me deixo aqui
Inteira me deixo aqui,
inteira, posto que ausente,
- neste corpo que nasci
fez-me a vida ou minha mente?
De ninguém sobrevivi.
Ah! vida, me fiz consciente,
mestiça de mim, de ti ,
em morte - quase semente.
E em terra desejo estar
e sempre, enquanto me alerto
nas vozes de vento e mar.
Sem jamais me resolver
a conter-me num deserto
ou saciar-me de morrer.
inteira, posto que ausente,
- neste corpo que nasci
fez-me a vida ou minha mente?
De ninguém sobrevivi.
Ah! vida, me fiz consciente,
mestiça de mim, de ti ,
em morte - quase semente.
E em terra desejo estar
e sempre, enquanto me alerto
nas vozes de vento e mar.
Sem jamais me resolver
a conter-me num deserto
ou saciar-me de morrer.
882
Maria Ângela Alvim
Inteira me deixo aqui
Inteira me deixo aqui,
inteira, posto que ausente,
- neste corpo que nasci
fez-me a vida ou minha mente?
De ninguém sobrevivi.
Ah! vida, me fiz consciente,
mestiça de mim, de ti ,
em morte - quase semente.
E em terra desejo estar
e sempre, enquanto me alerto
nas vozes de vento e mar.
Sem jamais me resolver
a conter-me num deserto
ou saciar-me de morrer.
inteira, posto que ausente,
- neste corpo que nasci
fez-me a vida ou minha mente?
De ninguém sobrevivi.
Ah! vida, me fiz consciente,
mestiça de mim, de ti ,
em morte - quase semente.
E em terra desejo estar
e sempre, enquanto me alerto
nas vozes de vento e mar.
Sem jamais me resolver
a conter-me num deserto
ou saciar-me de morrer.
882
Maria Ângela Alvim
Inteira me deixo aqui
Inteira me deixo aqui,
inteira, posto que ausente,
- neste corpo que nasci
fez-me a vida ou minha mente?
De ninguém sobrevivi.
Ah! vida, me fiz consciente,
mestiça de mim, de ti ,
em morte - quase semente.
E em terra desejo estar
e sempre, enquanto me alerto
nas vozes de vento e mar.
Sem jamais me resolver
a conter-me num deserto
ou saciar-me de morrer.
inteira, posto que ausente,
- neste corpo que nasci
fez-me a vida ou minha mente?
De ninguém sobrevivi.
Ah! vida, me fiz consciente,
mestiça de mim, de ti ,
em morte - quase semente.
E em terra desejo estar
e sempre, enquanto me alerto
nas vozes de vento e mar.
Sem jamais me resolver
a conter-me num deserto
ou saciar-me de morrer.
882
Noémia de Sousa
Te Deum
Opressiva
a inquietude
no carrilar dos bronzes.
Libreto
de mil cactos
em mudo refrão dos desertos.
Dobre
de sinos
em solene Te Deum
de graças pela Maria.
a inquietude
no carrilar dos bronzes.
Libreto
de mil cactos
em mudo refrão dos desertos.
Dobre
de sinos
em solene Te Deum
de graças pela Maria.
2 486
Noémia de Sousa
Te Deum
Opressiva
a inquietude
no carrilar dos bronzes.
Libreto
de mil cactos
em mudo refrão dos desertos.
Dobre
de sinos
em solene Te Deum
de graças pela Maria.
a inquietude
no carrilar dos bronzes.
Libreto
de mil cactos
em mudo refrão dos desertos.
Dobre
de sinos
em solene Te Deum
de graças pela Maria.
2 486
Akiko Yosano
Tanka III
“Kyoto é um lugar
de dolorosas recordações...”
escrevi até aí
quando olhei para baixo
e notei a brancura do rio Kamo
853
Erich Fried
Falta de humor
Os moleques
jogam
de brincadeira
pedras
nos sapos
Os sapos
morrem
de verdade
:
Humorlos
Die Jungen
werfen
zum Spass
mit Steinen
nach Fröschen
Die Frösche
sterben
im Ernst
jogam
de brincadeira
pedras
nos sapos
Os sapos
morrem
de verdade
:
Humorlos
Die Jungen
werfen
zum Spass
mit Steinen
nach Fröschen
Die Frösche
sterben
im Ernst
890
Erich Fried
Falta de humor
Os moleques
jogam
de brincadeira
pedras
nos sapos
Os sapos
morrem
de verdade
:
Humorlos
Die Jungen
werfen
zum Spass
mit Steinen
nach Fröschen
Die Frösche
sterben
im Ernst
jogam
de brincadeira
pedras
nos sapos
Os sapos
morrem
de verdade
:
Humorlos
Die Jungen
werfen
zum Spass
mit Steinen
nach Fröschen
Die Frösche
sterben
im Ernst
890
Lois Pereiro
Somentes
Somentes
intentaba conseguir
deixar na terra
algo de min que me sobrevivise
sabendo que deberia ter sabido
impedirme a min mesmo
descubrir que só fun un interludio
atroz entre dous muros de silencio
só puiden evitar vivindo á sombra
inocularlle para sempre a quen amaba
doses letais do amor que envelenaba
a súa alma cunha dor eterna
sustituíndo o desexo polo exilio
iniciei a viaxe sen retorno
deixándome levar sen resistencia
ó fondo dunha interna
aniquilación chea de nostalxia.
intentaba conseguir
deixar na terra
algo de min que me sobrevivise
sabendo que deberia ter sabido
impedirme a min mesmo
descubrir que só fun un interludio
atroz entre dous muros de silencio
só puiden evitar vivindo á sombra
inocularlle para sempre a quen amaba
doses letais do amor que envelenaba
a súa alma cunha dor eterna
sustituíndo o desexo polo exilio
iniciei a viaxe sen retorno
deixándome levar sen resistencia
ó fondo dunha interna
aniquilación chea de nostalxia.
1 245
Erich Fried
Limite do desespero
Eu tenho tanto amor por você
que já nem sei mais
se tenho por você tanto amor
ou se tenho mesmo é medo
se tenho mesmo é medo de ver
o que sem você
sobraria de minha vida
ainda em vida
Para que ainda me lavar
para que desejar a saúde
para que ter curiosidades
para que escrever
para que ainda querer ajudar
para que da corrente de mentiras
e horrores ainda irradiar a verdade
sem você
Talvez sim porque você existe
e outros seres ainda
como você haverá
e isso tudo também sem mim
:
Grenze der Verzweiflung
Ich habe Dich so lieb
daß ich nicht mehr weiß
ob ich Dich so lieb habe
oder ob ich mich fürchte
ob ich mich fürchte zu sehen
was ohne Dich
von meinem Leben
noch am Leben bliebe
Wozu mich noch waschen
wozu noch gesund werden wollen
wozu noch neugierig sein
wozu noch schreiben
wozu noch helfen wollen
wozu aus den Strähnen von Lügen
und Greueln noch Wahrheit ausstrählen
ohne Dich
Vielleicht doch weil es Dich gibt
und weil es noch Menschen
wie Du geben wird
und das auch ohne mich
que já nem sei mais
se tenho por você tanto amor
ou se tenho mesmo é medo
se tenho mesmo é medo de ver
o que sem você
sobraria de minha vida
ainda em vida
Para que ainda me lavar
para que desejar a saúde
para que ter curiosidades
para que escrever
para que ainda querer ajudar
para que da corrente de mentiras
e horrores ainda irradiar a verdade
sem você
Talvez sim porque você existe
e outros seres ainda
como você haverá
e isso tudo também sem mim
:
Grenze der Verzweiflung
Ich habe Dich so lieb
daß ich nicht mehr weiß
ob ich Dich so lieb habe
oder ob ich mich fürchte
ob ich mich fürchte zu sehen
was ohne Dich
von meinem Leben
noch am Leben bliebe
Wozu mich noch waschen
wozu noch gesund werden wollen
wozu noch neugierig sein
wozu noch schreiben
wozu noch helfen wollen
wozu aus den Strähnen von Lügen
und Greueln noch Wahrheit ausstrählen
ohne Dich
Vielleicht doch weil es Dich gibt
und weil es noch Menschen
wie Du geben wird
und das auch ohne mich
878
Pedro Oom
O coelhinho que nasceu numa couve
Era uma vez um coelhinho que nasceu numa couve. Como os pais do coelhinho nunca mais aparecessem, a couve passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse.
Com ervinhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando o coelhinho dentro do seu seio até que ele passou a procurar a sua própria alimentação.
O coelhinho, que tinha um coração muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava considerava-a como sua verdadeira mãe.
A mãe couve e o seu filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras.
O coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam tudo o que era verde cobriu com o seu próprio corpo o corpo da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco dano lhe fizessem.
Quando aqueles insectos daninhos levantaram voo os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de areias e pedra.
O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas proximidades da sua mãe couve, teve de se deslocar para muitos quilómetros de distância a fim de procurar comida.
Mas já nada havia que se pudesse mastigar sobre aquelas terras.
Passaram muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro e faminto.
Então a mãe couve disse-lhe assim:
– Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar o lugar aos novos, por isso só vejo uma solução; assim como tu viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu quero dizer?
O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande tristeza na alma, não teve outro remédio, comeu a mãe.
Pedro Oom
.
Sylvia Beirute é uma poeta portuguesa, nascida em 1984 no Porto, e residente no Algarve, sul de Portugal. Escreve regularmente para o seu espaço Uma Casa em Beirute.
.
.
.
1 371
Pedro Oom
O coelhinho que nasceu numa couve
Era uma vez um coelhinho que nasceu numa couve. Como os pais do coelhinho nunca mais aparecessem, a couve passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse.
Com ervinhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando o coelhinho dentro do seu seio até que ele passou a procurar a sua própria alimentação.
O coelhinho, que tinha um coração muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava considerava-a como sua verdadeira mãe.
A mãe couve e o seu filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras.
O coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam tudo o que era verde cobriu com o seu próprio corpo o corpo da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco dano lhe fizessem.
Quando aqueles insectos daninhos levantaram voo os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de areias e pedra.
O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas proximidades da sua mãe couve, teve de se deslocar para muitos quilómetros de distância a fim de procurar comida.
Mas já nada havia que se pudesse mastigar sobre aquelas terras.
Passaram muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro e faminto.
Então a mãe couve disse-lhe assim:
– Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar o lugar aos novos, por isso só vejo uma solução; assim como tu viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu quero dizer?
O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande tristeza na alma, não teve outro remédio, comeu a mãe.
Pedro Oom
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Sylvia Beirute é uma poeta portuguesa, nascida em 1984 no Porto, e residente no Algarve, sul de Portugal. Escreve regularmente para o seu espaço Uma Casa em Beirute.
.
.
.
1 371
Audre Lorde
Encarando
chove há cinco dias
sem parar
o mundo é
uma poça redonda
de água nublada
onde pequenas ilhas
estão só começando
a encarar
um menino pequeno
está liberando água
do seu canteiro
quando eu pergunto por quê
ele me diz
que sementes novas que nunca viram o sol
esquecem-se
e afogam-se fácil
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Coping
Audre Lorde
It has rained for five days
running
the world is
a round puddle
of sunless water
where small islands
are only beginning
to cope
a young boy
in my garden
is bailing out water
from his flower patch
when I ask him why
he tells me
young seeds that have not seen sun
forget
and drown easily.
.
.
.
sem parar
o mundo é
uma poça redonda
de água nublada
onde pequenas ilhas
estão só começando
a encarar
um menino pequeno
está liberando água
do seu canteiro
quando eu pergunto por quê
ele me diz
que sementes novas que nunca viram o sol
esquecem-se
e afogam-se fácil
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Coping
Audre Lorde
It has rained for five days
running
the world is
a round puddle
of sunless water
where small islands
are only beginning
to cope
a young boy
in my garden
is bailing out water
from his flower patch
when I ask him why
he tells me
young seeds that have not seen sun
forget
and drown easily.
.
.
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1 055
Audre Lorde
Uma mulher fala
A lua marcada e tocada pelo sol
minha mágica é ágrafa
mas quando o mar der as costas,
deixará para trás meu formato.
Não busco favor
intocado pelo sangue
implacável como a praga do amor
permanente como meus equívocos
ou meu orgulho
Eu não misturo
amor com piedade
nem ódio com desdém
e se você me conhecesse
olhe dentro das entranhas de Urano
onde os oceanos sem sossego calcam
Eu não habito
em meu nascimento nem em minhas divindades
que sou sem idade e meio-formada
e ainda em busca
de minhas irmãs
bruxas em Daomé
me vestem em seus tecidos em camadas
como nossa mãe fazia
de luto.
Eu sou mulher
há muito tempo
cuidado com meu sorriso
Eu sou dissimulada, mágica velha
e a fúria nova do meio-dia
com todos os teus futuros largos
em promessa
Eu sou
mulher
e não branca
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
A Woman Speaks
Audre Lorde
Moon marked and touched by sun
my magic is unwritten
but when the sea turns back
it will leave my shape behind.
I seek no favor
untouched by blood
unrelenting as the curse of love
permanent as my errors
or my pride
I do not mix
love with pity
nor hate with scorn
and if you would know me
look into the entrails of Uranus
where the restless oceans pound.
I do not dwell
within my birth nor my divinities
who am ageless and half-grown
and still seeking
my sisters
witches in Dahomey
wear me inside their coiled cloths
as our mother did
mourning.
I have been woman
for a long time
beware my smile
I am treacherous with old magic
and the noon's new fury
with all your wide futures
promised
I am
woman
and not white.
minha mágica é ágrafa
mas quando o mar der as costas,
deixará para trás meu formato.
Não busco favor
intocado pelo sangue
implacável como a praga do amor
permanente como meus equívocos
ou meu orgulho
Eu não misturo
amor com piedade
nem ódio com desdém
e se você me conhecesse
olhe dentro das entranhas de Urano
onde os oceanos sem sossego calcam
Eu não habito
em meu nascimento nem em minhas divindades
que sou sem idade e meio-formada
e ainda em busca
de minhas irmãs
bruxas em Daomé
me vestem em seus tecidos em camadas
como nossa mãe fazia
de luto.
Eu sou mulher
há muito tempo
cuidado com meu sorriso
Eu sou dissimulada, mágica velha
e a fúria nova do meio-dia
com todos os teus futuros largos
em promessa
Eu sou
mulher
e não branca
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
A Woman Speaks
Audre Lorde
Moon marked and touched by sun
my magic is unwritten
but when the sea turns back
it will leave my shape behind.
I seek no favor
untouched by blood
unrelenting as the curse of love
permanent as my errors
or my pride
I do not mix
love with pity
nor hate with scorn
and if you would know me
look into the entrails of Uranus
where the restless oceans pound.
I do not dwell
within my birth nor my divinities
who am ageless and half-grown
and still seeking
my sisters
witches in Dahomey
wear me inside their coiled cloths
as our mother did
mourning.
I have been woman
for a long time
beware my smile
I am treacherous with old magic
and the noon's new fury
with all your wide futures
promised
I am
woman
and not white.
5 236
Jaime Gil de Biedma
Valsa do Aniversário
Não há nada tão doce como um quarto
para dois, quando já não nos queremos demasiado,
nos arredores da cidade, num hotel calmo,
e casais duvidosos e uma criança com gânglios,
se não é esta leve sensação
de irrealidade. Algo como o estio
em casa de meus pais, há algum tempo,
como viagens nocturnas de comboio. Chamo-te
para dizer que não te digo nada
que já não saibas, ou talvez
para beijar-te vagamente
mesmo nos lábios.
Saíste da varanda.
O quarto escureceu
enquanto nos olhamos, contrafeitos
por não sentirmos o peso de três anos.
Tudo é igual, parece
que não foi ontem. E este sabor nostálgico,
que os silêncios nos põem na boca,
possivelmente leva-nos ao equívoco
de nossos sentimentos. Mas não
sem alguma reserva, pois sob isto
algo mais forte vence e é (para dizê-lo
talvez de um modo menos impreciso)
difícil recordar que nos queremos,
se não for com certa imprecisão, e o sábado,
que é hoje, fica tão próximo
de ontem ao fim do dia e de depois
de amanhã
pela manhã...
(de Companheiros de Viagem)
903
Max Martins
No lugar do medo
Todos os dias aqui tu te observas
E ainda está oculta (aqui) a tua semente
Comum será a tua raiz
.....................comum
ao olor da fêmea que atua no teu leito
Sê criativo o dia todo
Te empenha o dia todo cauteloso
..........................voa
mesmo hesitante sobre o teu malogro
Quer sigas o fogo, quer sigas a água
sê só do fogo ou só da água
(pois que não há caminho
e a lei
é o inesperado)
Ainda oculta (aqui) a tua semente
.....................está
E ainda está oculta (aqui) a tua semente
Comum será a tua raiz
.....................comum
ao olor da fêmea que atua no teu leito
Sê criativo o dia todo
Te empenha o dia todo cauteloso
..........................voa
mesmo hesitante sobre o teu malogro
Quer sigas o fogo, quer sigas a água
sê só do fogo ou só da água
(pois que não há caminho
e a lei
é o inesperado)
Ainda oculta (aqui) a tua semente
.....................está
1 317
Max Martins
No lugar do medo
Todos os dias aqui tu te observas
E ainda está oculta (aqui) a tua semente
Comum será a tua raiz
.....................comum
ao olor da fêmea que atua no teu leito
Sê criativo o dia todo
Te empenha o dia todo cauteloso
..........................voa
mesmo hesitante sobre o teu malogro
Quer sigas o fogo, quer sigas a água
sê só do fogo ou só da água
(pois que não há caminho
e a lei
é o inesperado)
Ainda oculta (aqui) a tua semente
.....................está
E ainda está oculta (aqui) a tua semente
Comum será a tua raiz
.....................comum
ao olor da fêmea que atua no teu leito
Sê criativo o dia todo
Te empenha o dia todo cauteloso
..........................voa
mesmo hesitante sobre o teu malogro
Quer sigas o fogo, quer sigas a água
sê só do fogo ou só da água
(pois que não há caminho
e a lei
é o inesperado)
Ainda oculta (aqui) a tua semente
.....................está
1 317
Marcial
A Musa Puerilis de Marcial
1, 23
Ninguém convidas, só com quem te lavas, Cota,
...e só os banhos dão o teu conviva.
Admirava-me, Cota, o nunca me chamares:
...agora sei que, nu, não te agradei.
Inuitas nullum nisi cum quo, Cotta, lauaris
...et dant conuiuam balnea sola tibi.
Mirabar, quare numquam me, Cotta, uocasses:
...iam scio, me nudum displicuisse tibi.
Ninguém convidas, só com quem te lavas, Cota,
...e só os banhos dão o teu conviva.
Admirava-me, Cota, o nunca me chamares:
...agora sei que, nu, não te agradei.
Inuitas nullum nisi cum quo, Cotta, lauaris
...et dant conuiuam balnea sola tibi.
Mirabar, quare numquam me, Cotta, uocasses:
...iam scio, me nudum displicuisse tibi.
926
Vitorino Nemésio
Arte poética
A poesia do abstracto?
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento.
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor!
Uma ideia,
Só como sangue de problema;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa,
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura.
Perde,
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia.
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
são propriamente poesia.
Poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.
in A Perspectiva da Morte: 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX, seleção e prefácio de Manuel de Freitas.
1 894
Abū al-Qāsim ash-Shābbī
A estranha narrativa
Nós: rimo-nos do passado.
Amanhã o futuro rir-se-á
de nós.
Assim é o mundo, uma história urdida
por algum grande feiticeiro.
Os vivos desempenham o seu maravilhoso papel
como se já estivessem mortos.
O palco é triste
com a sua cortina de nevoeiro.
E por detrás do pano
os espectadores do futuro observam-nos, rindo.
Não se dão conta de que o argumento
vai tombando sobre as suas próprias mãos.
(Versão de Luís Filipe Parrado, a partir da tradução inglesa de Lena Jayyuri e Naomi Shihab Nye reproduzida em "The flag of childhood - poems from the middle east"; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, 2002, p. 32).
838
Abū al-Qāsim ash-Shābbī
A estranha narrativa
Nós: rimo-nos do passado.
Amanhã o futuro rir-se-á
de nós.
Assim é o mundo, uma história urdida
por algum grande feiticeiro.
Os vivos desempenham o seu maravilhoso papel
como se já estivessem mortos.
O palco é triste
com a sua cortina de nevoeiro.
E por detrás do pano
os espectadores do futuro observam-nos, rindo.
Não se dão conta de que o argumento
vai tombando sobre as suas próprias mãos.
(Versão de Luís Filipe Parrado, a partir da tradução inglesa de Lena Jayyuri e Naomi Shihab Nye reproduzida em "The flag of childhood - poems from the middle east"; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, 2002, p. 32).
838
Abū al-Qāsim ash-Shābbī
A estranha narrativa
Nós: rimo-nos do passado.
Amanhã o futuro rir-se-á
de nós.
Assim é o mundo, uma história urdida
por algum grande feiticeiro.
Os vivos desempenham o seu maravilhoso papel
como se já estivessem mortos.
O palco é triste
com a sua cortina de nevoeiro.
E por detrás do pano
os espectadores do futuro observam-nos, rindo.
Não se dão conta de que o argumento
vai tombando sobre as suas próprias mãos.
(Versão de Luís Filipe Parrado, a partir da tradução inglesa de Lena Jayyuri e Naomi Shihab Nye reproduzida em "The flag of childhood - poems from the middle east"; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, 2002, p. 32).
838
Abū al-Qāsim ash-Shābbī
A estranha narrativa
Nós: rimo-nos do passado.
Amanhã o futuro rir-se-á
de nós.
Assim é o mundo, uma história urdida
por algum grande feiticeiro.
Os vivos desempenham o seu maravilhoso papel
como se já estivessem mortos.
O palco é triste
com a sua cortina de nevoeiro.
E por detrás do pano
os espectadores do futuro observam-nos, rindo.
Não se dão conta de que o argumento
vai tombando sobre as suas próprias mãos.
(Versão de Luís Filipe Parrado, a partir da tradução inglesa de Lena Jayyuri e Naomi Shihab Nye reproduzida em "The flag of childhood - poems from the middle east"; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, 2002, p. 32).
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