Poemas neste tema
Vida e Existência
Carlos Frydman
Metamorfose de Minha Anatomia
Na espiral heterogênea da vida,
onde vasculho e me determino,
não invento inspirações
nem ensaio sentimentos.
Na vida — mar irrequieto —
intervenho partindo dela
e ajudo a limpá-la
da poeira dos segredos.
Muitos homens
ainda são bigorna
e a vida lhes é um martelo.
Eu me insubordino
ante as pancadas que me impingiram.
Sou um par de punhos do incomensurável coletivo
martelando na bigorna da História,
moldando minha vida e as vidas
em brasas vivas.
Meu coração é uma ponte
unindo sentimentos.
Meus braços, um arco-íris
de gestos puros nas carícias
num convite claro e evidente,
buscando os deslocados, os inconsequentes,
presenteando o que me dão de ensinamentos.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
onde vasculho e me determino,
não invento inspirações
nem ensaio sentimentos.
Na vida — mar irrequieto —
intervenho partindo dela
e ajudo a limpá-la
da poeira dos segredos.
Muitos homens
ainda são bigorna
e a vida lhes é um martelo.
Eu me insubordino
ante as pancadas que me impingiram.
Sou um par de punhos do incomensurável coletivo
martelando na bigorna da História,
moldando minha vida e as vidas
em brasas vivas.
Meu coração é uma ponte
unindo sentimentos.
Meus braços, um arco-íris
de gestos puros nas carícias
num convite claro e evidente,
buscando os deslocados, os inconsequentes,
presenteando o que me dão de ensinamentos.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
990
Carlos Frydman
Metamorfose de Minha Anatomia
Na espiral heterogênea da vida,
onde vasculho e me determino,
não invento inspirações
nem ensaio sentimentos.
Na vida — mar irrequieto —
intervenho partindo dela
e ajudo a limpá-la
da poeira dos segredos.
Muitos homens
ainda são bigorna
e a vida lhes é um martelo.
Eu me insubordino
ante as pancadas que me impingiram.
Sou um par de punhos do incomensurável coletivo
martelando na bigorna da História,
moldando minha vida e as vidas
em brasas vivas.
Meu coração é uma ponte
unindo sentimentos.
Meus braços, um arco-íris
de gestos puros nas carícias
num convite claro e evidente,
buscando os deslocados, os inconsequentes,
presenteando o que me dão de ensinamentos.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
onde vasculho e me determino,
não invento inspirações
nem ensaio sentimentos.
Na vida — mar irrequieto —
intervenho partindo dela
e ajudo a limpá-la
da poeira dos segredos.
Muitos homens
ainda são bigorna
e a vida lhes é um martelo.
Eu me insubordino
ante as pancadas que me impingiram.
Sou um par de punhos do incomensurável coletivo
martelando na bigorna da História,
moldando minha vida e as vidas
em brasas vivas.
Meu coração é uma ponte
unindo sentimentos.
Meus braços, um arco-íris
de gestos puros nas carícias
num convite claro e evidente,
buscando os deslocados, os inconsequentes,
presenteando o que me dão de ensinamentos.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
990
Glauco Mattoso
Credo Progressista, 1977
para Murilo Mendes & Chico Buarque
Creio em Deus Pátria,
plenipotenciário,
criador do espaço aéreo
e das águas territoriais,
do Mal e do Bem,
do Visível e do Invisível.
E em Creso Justo,
Seu único Filho,
nosso Senhor feudal,
Que é filho procedente de Pai,
Peixinho de Peixe,
Nadador de Natação,
Sangue do Húmus.
O Qual foi concebido do 'Espírito das Leis';
nasceu da Mata Virgem;
padeceu sob o Poder Moderador;
foi seviciado, chacinado
e Seu cadáver abandonado em local ermo;
desceu ao proletariado,
ao terceiro Dia do Trabalho ressurgiu dos pobres,
segundo as Escrituras Definitivas
de Compra e Venda
devidamente inscritas no Cartório
de Registro de Imóveis da Capital;
subiu ao Planalto,
está sentado à mão direitista de Deus Pátria,
donde há de vir e julgar os ricos e os pobres;
e o Seu império não terá fim.
Creio no 'Espírito das Leis';
na Santa Aliança, no Santo Ofício,
na Família, na Propriedade
e na Traição, digo, na Tradição;
na mancomunação, perdão,
na comunhão dos santos cassados;
na cassação dos mandatos;
na ressurreição da carne de primeira;
na puxa vida eterna,
Amém.
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
Creio em Deus Pátria,
plenipotenciário,
criador do espaço aéreo
e das águas territoriais,
do Mal e do Bem,
do Visível e do Invisível.
E em Creso Justo,
Seu único Filho,
nosso Senhor feudal,
Que é filho procedente de Pai,
Peixinho de Peixe,
Nadador de Natação,
Sangue do Húmus.
O Qual foi concebido do 'Espírito das Leis';
nasceu da Mata Virgem;
padeceu sob o Poder Moderador;
foi seviciado, chacinado
e Seu cadáver abandonado em local ermo;
desceu ao proletariado,
ao terceiro Dia do Trabalho ressurgiu dos pobres,
segundo as Escrituras Definitivas
de Compra e Venda
devidamente inscritas no Cartório
de Registro de Imóveis da Capital;
subiu ao Planalto,
está sentado à mão direitista de Deus Pátria,
donde há de vir e julgar os ricos e os pobres;
e o Seu império não terá fim.
Creio no 'Espírito das Leis';
na Santa Aliança, no Santo Ofício,
na Família, na Propriedade
e na Traição, digo, na Tradição;
na mancomunação, perdão,
na comunhão dos santos cassados;
na cassação dos mandatos;
na ressurreição da carne de primeira;
na puxa vida eterna,
Amém.
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
1 586
Joaquim Cardozo
Não tenho pátria, nem glória
(...)
O RETIRANTE
Não tenho pátria, nem glória...
Embora — sinal da fome —
Nas páginas secas da história
Haja o meu nome e renome.
Mateus, Bastião e Catirina entrando outra vez em cena,
encontram o retirante e a ele se dirigem.
MATEUS
Como é que vens acabado
Velho amigo, meu irmão
Há tanto tempo largado
Pelas sendas do sertão.
RETIRANTE
Sou, de acabado, tão pouco...
A pouco estou reduzido,
Ouve cantar galo rouco
Meu coração comovido...
(pausa)
RETIRANTE
(continuando):
Sou uma sombra sem corpo,
Sou um rosto sem pessoa,
Um vento sem ar soprando,
Sem som, um canto, uma loa.
Nem as palavras definem
O meu tão grande vazio,
Todo o gesto que me exprime
Todo o meu gesto é baldio.
Todo o ardor que em mim renasce
Se extingue com um assovio...
Em mim não há claridades
Sou, apagado, um pavio.
O tecido que me veste
Não tem trama, nem cadeia.
Meus passos são muito leves
Não deixam marca na areia.
Meu andar é curto e breve
Mas contém a vastidão
Como é leve o que me pesa
Meu ausente matolão.
Perto vou, mas vou por longe
Vou junto, mas vou sozinho
Em sombra: burel de monge
Caminho meu descaminho.
(...)
In: CARDOZO, Joaquim. O coronel de Macambira: bumba-meu-boi em dois quadros. Introd. Osmar Barbosa. Il. Poty. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.68-69. (Prestígio). Poema integrante da série 2o. quadro.
O RETIRANTE
Não tenho pátria, nem glória...
Embora — sinal da fome —
Nas páginas secas da história
Haja o meu nome e renome.
Mateus, Bastião e Catirina entrando outra vez em cena,
encontram o retirante e a ele se dirigem.
MATEUS
Como é que vens acabado
Velho amigo, meu irmão
Há tanto tempo largado
Pelas sendas do sertão.
RETIRANTE
Sou, de acabado, tão pouco...
A pouco estou reduzido,
Ouve cantar galo rouco
Meu coração comovido...
(pausa)
RETIRANTE
(continuando):
Sou uma sombra sem corpo,
Sou um rosto sem pessoa,
Um vento sem ar soprando,
Sem som, um canto, uma loa.
Nem as palavras definem
O meu tão grande vazio,
Todo o gesto que me exprime
Todo o meu gesto é baldio.
Todo o ardor que em mim renasce
Se extingue com um assovio...
Em mim não há claridades
Sou, apagado, um pavio.
O tecido que me veste
Não tem trama, nem cadeia.
Meus passos são muito leves
Não deixam marca na areia.
Meu andar é curto e breve
Mas contém a vastidão
Como é leve o que me pesa
Meu ausente matolão.
Perto vou, mas vou por longe
Vou junto, mas vou sozinho
Em sombra: burel de monge
Caminho meu descaminho.
(...)
In: CARDOZO, Joaquim. O coronel de Macambira: bumba-meu-boi em dois quadros. Introd. Osmar Barbosa. Il. Poty. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.68-69. (Prestígio). Poema integrante da série 2o. quadro.
1 236
Edimilson de Almeida Pereira
Cuidado
"Terra-mãe, água das lagoas e das fontes,
Nanã é também deusa da fertilidade do
solo, do grão que morre e renasce.
... é a deusa dos mistérios."
A terra de tudo, jamais serei outra. Conheço
meus segredos, mas há sempre o nome da flor
nascente que me escapa. São nomes futuros,
sementes e grãos que me entontecem. Ah, a
toda criação me asila em gestos de quase
infinita espera. Sou terra úmida, fonte perdida
entre as folhas. Estimo as raízes que me saem
destino ou flor espetalada.
Publicado no livro O livro de falas ou Kalunbungu: achados da emoção inicial (1987).
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.20
Nanã é também deusa da fertilidade do
solo, do grão que morre e renasce.
... é a deusa dos mistérios."
A terra de tudo, jamais serei outra. Conheço
meus segredos, mas há sempre o nome da flor
nascente que me escapa. São nomes futuros,
sementes e grãos que me entontecem. Ah, a
toda criação me asila em gestos de quase
infinita espera. Sou terra úmida, fonte perdida
entre as folhas. Estimo as raízes que me saem
destino ou flor espetalada.
Publicado no livro O livro de falas ou Kalunbungu: achados da emoção inicial (1987).
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.20
1 266
Edimilson de Almeida Pereira
Cuidado
"Terra-mãe, água das lagoas e das fontes,
Nanã é também deusa da fertilidade do
solo, do grão que morre e renasce.
... é a deusa dos mistérios."
A terra de tudo, jamais serei outra. Conheço
meus segredos, mas há sempre o nome da flor
nascente que me escapa. São nomes futuros,
sementes e grãos que me entontecem. Ah, a
toda criação me asila em gestos de quase
infinita espera. Sou terra úmida, fonte perdida
entre as folhas. Estimo as raízes que me saem
destino ou flor espetalada.
Publicado no livro O livro de falas ou Kalunbungu: achados da emoção inicial (1987).
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.20
Nanã é também deusa da fertilidade do
solo, do grão que morre e renasce.
... é a deusa dos mistérios."
A terra de tudo, jamais serei outra. Conheço
meus segredos, mas há sempre o nome da flor
nascente que me escapa. São nomes futuros,
sementes e grãos que me entontecem. Ah, a
toda criação me asila em gestos de quase
infinita espera. Sou terra úmida, fonte perdida
entre as folhas. Estimo as raízes que me saem
destino ou flor espetalada.
Publicado no livro O livro de falas ou Kalunbungu: achados da emoção inicial (1987).
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.20
1 266
Edimilson de Almeida Pereira
Cuidado
"Terra-mãe, água das lagoas e das fontes,
Nanã é também deusa da fertilidade do
solo, do grão que morre e renasce.
... é a deusa dos mistérios."
A terra de tudo, jamais serei outra. Conheço
meus segredos, mas há sempre o nome da flor
nascente que me escapa. São nomes futuros,
sementes e grãos que me entontecem. Ah, a
toda criação me asila em gestos de quase
infinita espera. Sou terra úmida, fonte perdida
entre as folhas. Estimo as raízes que me saem
destino ou flor espetalada.
Publicado no livro O livro de falas ou Kalunbungu: achados da emoção inicial (1987).
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.20
Nanã é também deusa da fertilidade do
solo, do grão que morre e renasce.
... é a deusa dos mistérios."
A terra de tudo, jamais serei outra. Conheço
meus segredos, mas há sempre o nome da flor
nascente que me escapa. São nomes futuros,
sementes e grãos que me entontecem. Ah, a
toda criação me asila em gestos de quase
infinita espera. Sou terra úmida, fonte perdida
entre as folhas. Estimo as raízes que me saem
destino ou flor espetalada.
Publicado no livro O livro de falas ou Kalunbungu: achados da emoção inicial (1987).
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.20
1 266
Odylo Costa Filho
São Roque e os Cachorros
Caminhou São Roque
a pé, pelos morros
e várzeas da Terra,
juntando os cachorros
já velhos ou doentes,
sem osso e sem lar,
para oferecer-lhes
um grande jantar.
São Pedro zangou-se:
— "Isso não se faz!
Jantar de cachorro
no Céu? É demais!"
Jesus disse: — "Roque
é quem tem razão."
Pedro riu-se, e logo
deu-lhes vinho e pão.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
a pé, pelos morros
e várzeas da Terra,
juntando os cachorros
já velhos ou doentes,
sem osso e sem lar,
para oferecer-lhes
um grande jantar.
São Pedro zangou-se:
— "Isso não se faz!
Jantar de cachorro
no Céu? É demais!"
Jesus disse: — "Roque
é quem tem razão."
Pedro riu-se, e logo
deu-lhes vinho e pão.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
1 387
Frei Francisco de São Carlos
Canto I [Cantem alguns da ilustre Mãe do Eterno
Cantem alguns da ilustre Mãe do Eterno
A ventura de ser: outros do Averno
Os troféus, que alcançou, mal que animada.
Aqueles a virgínea flor nevada,
E outros dons, que a fizeram na carreira
Mortal única ser, ou ser primeira;
Que eu canto, por nutrir minha ternura,
Sua Assunção ditosa à etérea altura.
(...)
E tu, Igreja, tu nunca invocada,
Musa do Céu, de estrelas coroada;
Nesta via escabrosa, e tão confusa
Ah! digna-te de seres minha musa.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.1-
A ventura de ser: outros do Averno
Os troféus, que alcançou, mal que animada.
Aqueles a virgínea flor nevada,
E outros dons, que a fizeram na carreira
Mortal única ser, ou ser primeira;
Que eu canto, por nutrir minha ternura,
Sua Assunção ditosa à etérea altura.
(...)
E tu, Igreja, tu nunca invocada,
Musa do Céu, de estrelas coroada;
Nesta via escabrosa, e tão confusa
Ah! digna-te de seres minha musa.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.1-
1 411
Pedro Nava
Educação Sentimental
P/Alberto Deodato
Mariquita fechou o Escrich
e teve vontade dum espanhol
com seu punhal
para matá-la...
In: REVISTA DE ANTROPOFAGIA, São Paulo, ano 1, n.9, p.2, jan. 192
Mariquita fechou o Escrich
e teve vontade dum espanhol
com seu punhal
para matá-la...
In: REVISTA DE ANTROPOFAGIA, São Paulo, ano 1, n.9, p.2, jan. 192
1 646
Raul Pompéia
Indústria
Que la fournaise flambe, et que les lourds marteaux,
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!
A. BRIZEUX.
O homem bate-se contra o mundo. Cada força viva é um inimigo.
À parte a luta das paixões, trava-se na sociedade a batalha
perene das indústrias.
Combate-se contra o tempo que atrasa e contra a distância que
afasta.
A locomotiva atravessa as planícies como um turbilhão de ferro; a
rede nervosa da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade
na face do globo; o steamer suprime o oceano; o milagre de
Guttemberg precipita em tempestade as idéias, reduzindo o esforço
cerebral; exacerbam-se os ímpetos produtores do solo, com a energia
vertiginosa das máquinas. Vibram as cidades ao rumor homérico das
caldeiras. Cada dia, o combate ganha uma nova feição e o ventre
fecundo, o ventre inexaurível das forjas, para as novas pugnas,
produz novas armas.
Bendita febre industrial!
Bendito o operário, mártir das indústrias!
Estenda-se por todo o firmamento o fumo que paira sobre as
cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplidão e os signos
impenetráveis das esferas.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. .4, p.69. (Vera Cruz, 324c
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!
A. BRIZEUX.
O homem bate-se contra o mundo. Cada força viva é um inimigo.
À parte a luta das paixões, trava-se na sociedade a batalha
perene das indústrias.
Combate-se contra o tempo que atrasa e contra a distância que
afasta.
A locomotiva atravessa as planícies como um turbilhão de ferro; a
rede nervosa da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade
na face do globo; o steamer suprime o oceano; o milagre de
Guttemberg precipita em tempestade as idéias, reduzindo o esforço
cerebral; exacerbam-se os ímpetos produtores do solo, com a energia
vertiginosa das máquinas. Vibram as cidades ao rumor homérico das
caldeiras. Cada dia, o combate ganha uma nova feição e o ventre
fecundo, o ventre inexaurível das forjas, para as novas pugnas,
produz novas armas.
Bendita febre industrial!
Bendito o operário, mártir das indústrias!
Estenda-se por todo o firmamento o fumo que paira sobre as
cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplidão e os signos
impenetráveis das esferas.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. .4, p.69. (Vera Cruz, 324c
2 310
Edimilson de Almeida Pereira
O Decifrar Constante
O passar na tarde
apanha o tempo
no infinito recortado.
Um frete oferece
Coco de Cabo Frio
ontem Abacaxi de Marataízes.
As meninas pulam amarelinha
sem nenhum velar profundo
Meninas de Cabo Frio
Meninas de Cabo Frio
Disseram a tristeza passaria
quem o disse passou passou.
Publicado no livro Dormundo (1985).
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.26
apanha o tempo
no infinito recortado.
Um frete oferece
Coco de Cabo Frio
ontem Abacaxi de Marataízes.
As meninas pulam amarelinha
sem nenhum velar profundo
Meninas de Cabo Frio
Meninas de Cabo Frio
Disseram a tristeza passaria
quem o disse passou passou.
Publicado no livro Dormundo (1985).
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.26
1 348
Edimilson de Almeida Pereira
O Decifrar Constante
O passar na tarde
apanha o tempo
no infinito recortado.
Um frete oferece
Coco de Cabo Frio
ontem Abacaxi de Marataízes.
As meninas pulam amarelinha
sem nenhum velar profundo
Meninas de Cabo Frio
Meninas de Cabo Frio
Disseram a tristeza passaria
quem o disse passou passou.
Publicado no livro Dormundo (1985).
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.26
apanha o tempo
no infinito recortado.
Um frete oferece
Coco de Cabo Frio
ontem Abacaxi de Marataízes.
As meninas pulam amarelinha
sem nenhum velar profundo
Meninas de Cabo Frio
Meninas de Cabo Frio
Disseram a tristeza passaria
quem o disse passou passou.
Publicado no livro Dormundo (1985).
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.26
1 348
Frei Francisco de São Carlos
Canto VI [Não vedes acolá como apartada
(...)
Não vedes acolá como apartada
Colina, ora de silvas erriçada,
Ninho de serpes, plácida guarida
De feras? Será então no cume erguida
Casa à Virgem, medíocre na altura,
Mas no risco primor de arquitetura.
Que ostentará por timbre de memória,
O título pomposo desta Glória.
(...)
Por marmóreas escadas a subida
Conduz ao alto, e ao pórtico da ermida.
Sobre lajedos de granito em quadro
Descansa a base, que ali tem um adro.
Dos lados peitoris; descanso, e meio
Dos olhos pastearem seu recreio,
Situação risonha, sobranceira
Ao mar, entre a vaidosa cordilheira
De rochas e de serras mil erguidas,
De palmas e arvoredo abastecidas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.19
Não vedes acolá como apartada
Colina, ora de silvas erriçada,
Ninho de serpes, plácida guarida
De feras? Será então no cume erguida
Casa à Virgem, medíocre na altura,
Mas no risco primor de arquitetura.
Que ostentará por timbre de memória,
O título pomposo desta Glória.
(...)
Por marmóreas escadas a subida
Conduz ao alto, e ao pórtico da ermida.
Sobre lajedos de granito em quadro
Descansa a base, que ali tem um adro.
Dos lados peitoris; descanso, e meio
Dos olhos pastearem seu recreio,
Situação risonha, sobranceira
Ao mar, entre a vaidosa cordilheira
De rochas e de serras mil erguidas,
De palmas e arvoredo abastecidas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.19
1 295
Capinan
O Poeta
O poeta não mente. Dificulta.
Como ser falso o caminho?
A mensagem é luminosa, flui, a mensagem é líquida.
Mentira que o poema sublime
O medo e o sofrimento.
O poema é trabalhado, dói, o poema é amargo.
O poeta não fugiu ao poema.
O verso amadurece como fruto:
Revela-se a semente quando a fome o parte.
O poeta não idealiza.
Seu caminho é humano
(Mas que pode o poeta se não lhe alcançam o símbolo?)
O poeta é gago.
Se não o amam, se não o esperam,
Não se elucida a palavra e o vôo cai.
A ponte ou às vezes o rio:
O poeta não está sobre as coisas,
O poeta depende, o poeta as sofre.
É homem o poeta.
Sofre o tempo, a fome e o corpo
Da mulher amada, como chora e morre e chora.
O poeta é livre para danificar a ave.
O poeta não danifica a ave,
Executa sem matar, porque o poema é propriamente e não ave.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 44-4
Como ser falso o caminho?
A mensagem é luminosa, flui, a mensagem é líquida.
Mentira que o poema sublime
O medo e o sofrimento.
O poema é trabalhado, dói, o poema é amargo.
O poeta não fugiu ao poema.
O verso amadurece como fruto:
Revela-se a semente quando a fome o parte.
O poeta não idealiza.
Seu caminho é humano
(Mas que pode o poeta se não lhe alcançam o símbolo?)
O poeta é gago.
Se não o amam, se não o esperam,
Não se elucida a palavra e o vôo cai.
A ponte ou às vezes o rio:
O poeta não está sobre as coisas,
O poeta depende, o poeta as sofre.
É homem o poeta.
Sofre o tempo, a fome e o corpo
Da mulher amada, como chora e morre e chora.
O poeta é livre para danificar a ave.
O poeta não danifica a ave,
Executa sem matar, porque o poema é propriamente e não ave.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 44-4
1 252
Frei Francisco de São Carlos
Em Assis Belém se mostra
Em Assis Belém se mostra
Com assombrosos sinais:
Qual Jesus, Francisco nasce
Entre brutos animais.
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garnier, 1991. p.94
NOTA: Esse poema foi pintado no retábulo da capela do Nascimento de São Francisco de Assis, no claustro do convento de Santo Antônio, no Rio de Janeir
Com assombrosos sinais:
Qual Jesus, Francisco nasce
Entre brutos animais.
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garnier, 1991. p.94
NOTA: Esse poema foi pintado no retábulo da capela do Nascimento de São Francisco de Assis, no claustro do convento de Santo Antônio, no Rio de Janeir
1 368
Frei Francisco de São Carlos
Em Assis Belém se mostra
Em Assis Belém se mostra
Com assombrosos sinais:
Qual Jesus, Francisco nasce
Entre brutos animais.
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garnier, 1991. p.94
NOTA: Esse poema foi pintado no retábulo da capela do Nascimento de São Francisco de Assis, no claustro do convento de Santo Antônio, no Rio de Janeir
Com assombrosos sinais:
Qual Jesus, Francisco nasce
Entre brutos animais.
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garnier, 1991. p.94
NOTA: Esse poema foi pintado no retábulo da capela do Nascimento de São Francisco de Assis, no claustro do convento de Santo Antônio, no Rio de Janeir
1 368
Odylo Costa Filho
Os Objetos
No fechado silêncio dos objetos
mais simples mora um toque de magia.
De um só tijolo nasce a casa: afetos,
barro, sol, água, mesa, moradia,
e a presença tenaz das mãos humanas,
afeiçoando o mistério da existência
e dando às coisas mais quotidianas
senso de vida — e de sobrevivência.
Chardin, quando há dois séculos viveu,
uma arraia pintou, disforme, aberta
em sangue e dentes, agressiva e forte.
Veio o tempo e com ele emudeceu
muita glória que a moda julgou certa.
Aquela arraia sobrevive à morte.
Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
mais simples mora um toque de magia.
De um só tijolo nasce a casa: afetos,
barro, sol, água, mesa, moradia,
e a presença tenaz das mãos humanas,
afeiçoando o mistério da existência
e dando às coisas mais quotidianas
senso de vida — e de sobrevivência.
Chardin, quando há dois séculos viveu,
uma arraia pintou, disforme, aberta
em sangue e dentes, agressiva e forte.
Veio o tempo e com ele emudeceu
muita glória que a moda julgou certa.
Aquela arraia sobrevive à morte.
Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
1 332
Pedro Nava
Noite de São João
A Mário de Andrade
São João São João
o sol quebrando em mil pedaços
caiu na terra
mil fogueiras pondo na noite
chios
e chispas
fiáus
e rechinos
Noite de São Joões-balões
noite cheia de fogueiras
e vem-cá-bitus
Noite lanhada de fogo
noite cristã
como sacis unhando panças pretas
cachimbando na barriga dos balões
saltitando no fogo vivo dos tições
Noite de buscapé
(do buscapé-pé-PÉ
que corre tanto
e como tonto
volta
e vira
em viravoltas rentes raspando o chão)
e o vento agudo
e uma navalha zás-trás
recortando bandeiras em tiras
em faixas finas
serpentes serpentinas
(um novelo assanhado de serpentes
acorda nas fogueiras
e elas se espicham tesas
e suas línguas acesas
lambem as folhas frescas
largas langues das bananeiras)
São João São João
e o frio tão frio
que a própria lua nua tem frio
e devagar a vagarosa
escorrega pelos cipós
e se esgueira
na pontinha dos pés
— Psiu!
pra quentar na minha fogueira
São João São João
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
São João São João
o sol quebrando em mil pedaços
caiu na terra
mil fogueiras pondo na noite
chios
e chispas
fiáus
e rechinos
Noite de São Joões-balões
noite cheia de fogueiras
e vem-cá-bitus
Noite lanhada de fogo
noite cristã
como sacis unhando panças pretas
cachimbando na barriga dos balões
saltitando no fogo vivo dos tições
Noite de buscapé
(do buscapé-pé-PÉ
que corre tanto
e como tonto
volta
e vira
em viravoltas rentes raspando o chão)
e o vento agudo
e uma navalha zás-trás
recortando bandeiras em tiras
em faixas finas
serpentes serpentinas
(um novelo assanhado de serpentes
acorda nas fogueiras
e elas se espicham tesas
e suas línguas acesas
lambem as folhas frescas
largas langues das bananeiras)
São João São João
e o frio tão frio
que a própria lua nua tem frio
e devagar a vagarosa
escorrega pelos cipós
e se esgueira
na pontinha dos pés
— Psiu!
pra quentar na minha fogueira
São João São João
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
2 327
Odylo Costa Filho
A Onça
Um dia... Eu lhes conto?
Não lhes conto nada...
Quis subir ao Céu
uma onça-pintada.
Estava morrendo
de arrependimento?
Ou queria apenas
ver o firmamento?
Todos os bichinhos
tinham medo dela.
Onça? Nem pintada,
nem preta ou amarela.
Vai Jesus menino,
deu-a a São Francisco.
Virou num gatinho
chamado Corisco.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
Não lhes conto nada...
Quis subir ao Céu
uma onça-pintada.
Estava morrendo
de arrependimento?
Ou queria apenas
ver o firmamento?
Todos os bichinhos
tinham medo dela.
Onça? Nem pintada,
nem preta ou amarela.
Vai Jesus menino,
deu-a a São Francisco.
Virou num gatinho
chamado Corisco.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
2 013
Odylo Costa Filho
Os Guarás
Cada evangelista
com seu bicho foi
— um só! — para o Céu:
leão, águia ou boi.
Mas com outros santos
— Luís e Damião,
Vicente e Francisco —
veio a multidão
de pobres e doentes
por entre os joelhos:
e com o santo Anchieta
os guarás vermelhos
que o Sol lhe taparam
na canoa um dia:
contra a brasa ardente
foram brasa fria...
In: COSTA, Filho, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
com seu bicho foi
— um só! — para o Céu:
leão, águia ou boi.
Mas com outros santos
— Luís e Damião,
Vicente e Francisco —
veio a multidão
de pobres e doentes
por entre os joelhos:
e com o santo Anchieta
os guarás vermelhos
que o Sol lhe taparam
na canoa um dia:
contra a brasa ardente
foram brasa fria...
In: COSTA, Filho, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
1 315
Odylo Costa Filho
As Aquarelas
Não penso azul, nem verde, nem vermelho,
nenhuma cor vejo isoladamente:
quero a vida total, como um espelho
a que não falte flor, folha ou semente.
A natureza, neste abril redondo,
esconde formas, seres, linhas, cores,
aqui e ali bizarramente pondo
manchas involuntárias, multicores.
Recuso-me a adotar bandeira ou marca.
Nada escolho. O mistério natural
me envolve inteiro. Em tuas aquarelas
tudo renasce — como quem da barca
do dilúvio, depois do temporal,
visse de novo a terra das janelas...
Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
nenhuma cor vejo isoladamente:
quero a vida total, como um espelho
a que não falte flor, folha ou semente.
A natureza, neste abril redondo,
esconde formas, seres, linhas, cores,
aqui e ali bizarramente pondo
manchas involuntárias, multicores.
Recuso-me a adotar bandeira ou marca.
Nada escolho. O mistério natural
me envolve inteiro. Em tuas aquarelas
tudo renasce — como quem da barca
do dilúvio, depois do temporal,
visse de novo a terra das janelas...
Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
1 353
Odylo Costa Filho
As Aquarelas
Não penso azul, nem verde, nem vermelho,
nenhuma cor vejo isoladamente:
quero a vida total, como um espelho
a que não falte flor, folha ou semente.
A natureza, neste abril redondo,
esconde formas, seres, linhas, cores,
aqui e ali bizarramente pondo
manchas involuntárias, multicores.
Recuso-me a adotar bandeira ou marca.
Nada escolho. O mistério natural
me envolve inteiro. Em tuas aquarelas
tudo renasce — como quem da barca
do dilúvio, depois do temporal,
visse de novo a terra das janelas...
Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
nenhuma cor vejo isoladamente:
quero a vida total, como um espelho
a que não falte flor, folha ou semente.
A natureza, neste abril redondo,
esconde formas, seres, linhas, cores,
aqui e ali bizarramente pondo
manchas involuntárias, multicores.
Recuso-me a adotar bandeira ou marca.
Nada escolho. O mistério natural
me envolve inteiro. Em tuas aquarelas
tudo renasce — como quem da barca
do dilúvio, depois do temporal,
visse de novo a terra das janelas...
Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
1 353
Frei Francisco de São Carlos
Este que vês, cadáver animado
I
Este que vês, cadáver animado,
Que sobre a dura terra jaz despido,
É da Itália o assombro venerado,
É o crédito de Assis esclarecido:
O Serafim Francisco, que o costado,
As mãos e pés o fazem conhecido,
Servindo de inscrição (de amor efeito)
Chagas nas mãos e pés, chagas no peito.
(...)
V
Ó seráfico espírito que amante
De Cristo intentas imitar os passos!
Pois vendo a Cristo padecer constante
Na cruz em que rompeu da vida os laços,
Para seres a Cristo semelhante,
A cruz para morrer formas os braços!
De amor invento foi, pra seres visto
Na vida e morte imitador de Cristo.
VI
Quem não dirá, de assombro suspendido,
Ao ver-vos, serafim crucificado,
Que ou em vós está Cristo convertido,
Ou estás vós em Cristo transformado!
Se Cristo em cruz por nós morreu ferido,
Por Cristo em cruz morreis também chagado.
Se em Cristo chagas fez o amor mais fino,
Em vós, chagas abriu o amor divino.
(...)
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garnier, 1991. p.101-102
NOTA: Poema composto de 12 oitavas, figura abaixo de um quadro representando a morte de São Francisco de Assis, atribuído a Frei Solano, no salão da portaria do convento de Santo Antônio, no Rio de Janeir
Este que vês, cadáver animado,
Que sobre a dura terra jaz despido,
É da Itália o assombro venerado,
É o crédito de Assis esclarecido:
O Serafim Francisco, que o costado,
As mãos e pés o fazem conhecido,
Servindo de inscrição (de amor efeito)
Chagas nas mãos e pés, chagas no peito.
(...)
V
Ó seráfico espírito que amante
De Cristo intentas imitar os passos!
Pois vendo a Cristo padecer constante
Na cruz em que rompeu da vida os laços,
Para seres a Cristo semelhante,
A cruz para morrer formas os braços!
De amor invento foi, pra seres visto
Na vida e morte imitador de Cristo.
VI
Quem não dirá, de assombro suspendido,
Ao ver-vos, serafim crucificado,
Que ou em vós está Cristo convertido,
Ou estás vós em Cristo transformado!
Se Cristo em cruz por nós morreu ferido,
Por Cristo em cruz morreis também chagado.
Se em Cristo chagas fez o amor mais fino,
Em vós, chagas abriu o amor divino.
(...)
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garnier, 1991. p.101-102
NOTA: Poema composto de 12 oitavas, figura abaixo de um quadro representando a morte de São Francisco de Assis, atribuído a Frei Solano, no salão da portaria do convento de Santo Antônio, no Rio de Janeir
1 455