Poemas neste tema
Vida e Existência
Goulart Gomes
Mariniello
agosto seis
havia um cogumelo na história
mega-tons de Hiroxima:
um talo, a rosa
caído de joelhos
e o corpo
numa curva
para traz
teus ais
tudo era tão justo
que o mais
nobre
dos mortais
se renderia
às tuas ancas
brancas
frias; quadris
chuva ácida asperjada
e um clarão
denovo
dia
no espírito
paz...
havia um cogumelo na história
mega-tons de Hiroxima:
um talo, a rosa
caído de joelhos
e o corpo
numa curva
para traz
teus ais
tudo era tão justo
que o mais
nobre
dos mortais
se renderia
às tuas ancas
brancas
frias; quadris
chuva ácida asperjada
e um clarão
denovo
dia
no espírito
paz...
893
Goulart Gomes
Mariniello
agosto seis
havia um cogumelo na história
mega-tons de Hiroxima:
um talo, a rosa
caído de joelhos
e o corpo
numa curva
para traz
teus ais
tudo era tão justo
que o mais
nobre
dos mortais
se renderia
às tuas ancas
brancas
frias; quadris
chuva ácida asperjada
e um clarão
denovo
dia
no espírito
paz...
havia um cogumelo na história
mega-tons de Hiroxima:
um talo, a rosa
caído de joelhos
e o corpo
numa curva
para traz
teus ais
tudo era tão justo
que o mais
nobre
dos mortais
se renderia
às tuas ancas
brancas
frias; quadris
chuva ácida asperjada
e um clarão
denovo
dia
no espírito
paz...
893
Gervásio de Pilares
Soneto
Ó triste mausoléu! Ó urna fria!
funesto monumento, sombra escura,
depósito fatal da formosura,
horroroso despojo da alegria.
Permite que te façam companhia,
as lágrimas que verto com ternura,
e sirva tanto mar de sepultura,
em que se oculte o Sol do melhor dia.
Mas se não tens da pedra a natureza,
quando pranto que é tão multiplicado,
não consegue abrandar tanta dureza:
deixa que nessa pira arda abrasado,
este meu coração logrando a empresa,
de ser em holocausto consagrado.
funesto monumento, sombra escura,
depósito fatal da formosura,
horroroso despojo da alegria.
Permite que te façam companhia,
as lágrimas que verto com ternura,
e sirva tanto mar de sepultura,
em que se oculte o Sol do melhor dia.
Mas se não tens da pedra a natureza,
quando pranto que é tão multiplicado,
não consegue abrandar tanta dureza:
deixa que nessa pira arda abrasado,
este meu coração logrando a empresa,
de ser em holocausto consagrado.
397
Gabriel Archanjo de Mendonça
Aclive
A montanha
é um convite obstinado
da consciência.
A antevisão da posse
compensa os sobressaltos
da escalada.
Oh, a vertigem do inusitado.
Os pés se ferem
na ferrugem de agulhas
regeladas.
Avalanchas de pranto
rolando estrepitosamente
entulham gargantas
escancaradas.
é um convite obstinado
da consciência.
A antevisão da posse
compensa os sobressaltos
da escalada.
Oh, a vertigem do inusitado.
Os pés se ferem
na ferrugem de agulhas
regeladas.
Avalanchas de pranto
rolando estrepitosamente
entulham gargantas
escancaradas.
879
Flávio Villa-Lobos
Sobressalto
Há de acontecer repentinamente
uma suburbana paixão.
Avassaladora e tênue, acordará corações ingênuos
rasgando-lhes o peito adormecido
igual a fúria voraz de um raio caindo
intrépido e certeiro
no ventre da terra incandescente.
Surgirá por todos os poros
a invencível emoção adolescente.
Assumirá com toda pompa pensamentos,
palavras e obras.
Tempos de recolhimento serão banidos
vigorosamente
do vil mosteiro insensato que perambula
dentro dos inocentes.
Assustará num primeiro momento
essa força inesgotável de sedução.
Por fim, exultar-se-á com a descoberta
valiosa e súbita:
sim, ainda vive e respira em cada âmago
aquele impetuoso amante febril,
vibrando igual a loucura única
que aflora
em todo amor juvenil.
uma suburbana paixão.
Avassaladora e tênue, acordará corações ingênuos
rasgando-lhes o peito adormecido
igual a fúria voraz de um raio caindo
intrépido e certeiro
no ventre da terra incandescente.
Surgirá por todos os poros
a invencível emoção adolescente.
Assumirá com toda pompa pensamentos,
palavras e obras.
Tempos de recolhimento serão banidos
vigorosamente
do vil mosteiro insensato que perambula
dentro dos inocentes.
Assustará num primeiro momento
essa força inesgotável de sedução.
Por fim, exultar-se-á com a descoberta
valiosa e súbita:
sim, ainda vive e respira em cada âmago
aquele impetuoso amante febril,
vibrando igual a loucura única
que aflora
em todo amor juvenil.
924
Gilberto Gil
Domingo no parque
O rei da brincadeira
Ê, José
O rei da confusão
Ê, João
Um trabalhava na feira
Ê, José
Outro na construção
Ê, João
A semana passada, no fim da semana João resolveu não
brigar
No domingo de tardem saiu apressado
E não foi pra ribeira jogar capoeira
Não foi prá lá
Pra ribeira foi namorar
O José como sempre no fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
Lá parto da boca do rio
Foi no parque que ele avistou Juliana foi que ele viu
Foi que ele viu Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão Juliana, seu sonho
Uma ilusão Juliana e o amigo João
O espinho da rosa feriu Zé
Feriu Zé, feriu Zé
E o sorvete gelou seu coração
O sorvete e a rosa
Oi, José
A rosa e o sorvete
Oi, José
Oi, dançando no peito
Oi, José
Do José brincalhão
Oi José
O sorvetee a rosa
Oi, José
A rosa e o sorvete
Oi, José
Oi, girando na mente
Oi, José
Do José brincalhão
Oi, José
Juliana girando
Oi, girando
Oi, na roda gigante
Oi, gorando
Oi, na roda gigante
Oi, girando
O amigo João João
O sorvete é morango
É vermelho
Oi, girando e a rosa
É vermelha
Oi, girando girando
É vermelha
Oi, girando girando
Olha a faca!
Olha a faca!
Olha o sangue na mão
Ê, José
Juliana no chão,
Ê, José
Outro corpo caído
Ê, José
Seu amigo João
Ê José
Amanhã não tem feira
Ê José
Não tem mais construção
Ê, João
Não tem mais brincadeira
Ê, José
Não tem mais confusão
Ê, João
Ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê,
ê...
Ê, José
O rei da confusão
Ê, João
Um trabalhava na feira
Ê, José
Outro na construção
Ê, João
A semana passada, no fim da semana João resolveu não
brigar
No domingo de tardem saiu apressado
E não foi pra ribeira jogar capoeira
Não foi prá lá
Pra ribeira foi namorar
O José como sempre no fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
Lá parto da boca do rio
Foi no parque que ele avistou Juliana foi que ele viu
Foi que ele viu Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão Juliana, seu sonho
Uma ilusão Juliana e o amigo João
O espinho da rosa feriu Zé
Feriu Zé, feriu Zé
E o sorvete gelou seu coração
O sorvete e a rosa
Oi, José
A rosa e o sorvete
Oi, José
Oi, dançando no peito
Oi, José
Do José brincalhão
Oi José
O sorvetee a rosa
Oi, José
A rosa e o sorvete
Oi, José
Oi, girando na mente
Oi, José
Do José brincalhão
Oi, José
Juliana girando
Oi, girando
Oi, na roda gigante
Oi, gorando
Oi, na roda gigante
Oi, girando
O amigo João João
O sorvete é morango
É vermelho
Oi, girando e a rosa
É vermelha
Oi, girando girando
É vermelha
Oi, girando girando
Olha a faca!
Olha a faca!
Olha o sangue na mão
Ê, José
Juliana no chão,
Ê, José
Outro corpo caído
Ê, José
Seu amigo João
Ê José
Amanhã não tem feira
Ê José
Não tem mais construção
Ê, João
Não tem mais brincadeira
Ê, José
Não tem mais confusão
Ê, João
Ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê,
ê...
2 205
Gabriel Archanjo de Mendonça
Fastio
Mais noites hão de vir
que as que se foram?
Os braços rejeitados
aguardam
o desmoronamento protelado.
A angústia do nada
não logra vencer a ampulheta.
As portas não são ainda
o assomo do consumado.
que as que se foram?
Os braços rejeitados
aguardam
o desmoronamento protelado.
A angústia do nada
não logra vencer a ampulheta.
As portas não são ainda
o assomo do consumado.
850
Gabriel Archanjo de Mendonça
Fastio
Mais noites hão de vir
que as que se foram?
Os braços rejeitados
aguardam
o desmoronamento protelado.
A angústia do nada
não logra vencer a ampulheta.
As portas não são ainda
o assomo do consumado.
que as que se foram?
Os braços rejeitados
aguardam
o desmoronamento protelado.
A angústia do nada
não logra vencer a ampulheta.
As portas não são ainda
o assomo do consumado.
850
Carlos Gondim
Maria
No Calvário, Jesus expira. A turbamulta
Desvaira. No estertor, Cristo ainda mais padece
Ante o néscio bramir da multidão, que o insulta,
E o seu magoado olhar, raso dágua, amortece.
Cai a sombra, e o terror gera na plebe inculta,
Que, agora, o árido cerro em muda fila desce.
Trágica, a mais e mais, a sombra cresce e avulta,
Soluça em derredor uma dorida prece,
Desgrenhada, vencendo o monte, na vertigem
Do ascenso, a horrenda cruz finalmente atingia
Aquela que a Jesus gerou no ventre virgem.
Chega, tomba e desmaia... E, de repente, pelas
Alturas, o ermo céu chora a dor de Maria,
Com as lágrimas de luz de todas estrelas!
(Poemas do cárcere, 1923)
Desvaira. No estertor, Cristo ainda mais padece
Ante o néscio bramir da multidão, que o insulta,
E o seu magoado olhar, raso dágua, amortece.
Cai a sombra, e o terror gera na plebe inculta,
Que, agora, o árido cerro em muda fila desce.
Trágica, a mais e mais, a sombra cresce e avulta,
Soluça em derredor uma dorida prece,
Desgrenhada, vencendo o monte, na vertigem
Do ascenso, a horrenda cruz finalmente atingia
Aquela que a Jesus gerou no ventre virgem.
Chega, tomba e desmaia... E, de repente, pelas
Alturas, o ermo céu chora a dor de Maria,
Com as lágrimas de luz de todas estrelas!
(Poemas do cárcere, 1923)
787
Carlos Gondim
Maria
No Calvário, Jesus expira. A turbamulta
Desvaira. No estertor, Cristo ainda mais padece
Ante o néscio bramir da multidão, que o insulta,
E o seu magoado olhar, raso dágua, amortece.
Cai a sombra, e o terror gera na plebe inculta,
Que, agora, o árido cerro em muda fila desce.
Trágica, a mais e mais, a sombra cresce e avulta,
Soluça em derredor uma dorida prece,
Desgrenhada, vencendo o monte, na vertigem
Do ascenso, a horrenda cruz finalmente atingia
Aquela que a Jesus gerou no ventre virgem.
Chega, tomba e desmaia... E, de repente, pelas
Alturas, o ermo céu chora a dor de Maria,
Com as lágrimas de luz de todas estrelas!
(Poemas do cárcere, 1923)
Desvaira. No estertor, Cristo ainda mais padece
Ante o néscio bramir da multidão, que o insulta,
E o seu magoado olhar, raso dágua, amortece.
Cai a sombra, e o terror gera na plebe inculta,
Que, agora, o árido cerro em muda fila desce.
Trágica, a mais e mais, a sombra cresce e avulta,
Soluça em derredor uma dorida prece,
Desgrenhada, vencendo o monte, na vertigem
Do ascenso, a horrenda cruz finalmente atingia
Aquela que a Jesus gerou no ventre virgem.
Chega, tomba e desmaia... E, de repente, pelas
Alturas, o ermo céu chora a dor de Maria,
Com as lágrimas de luz de todas estrelas!
(Poemas do cárcere, 1923)
787
Gilberto Diener
Introdução
Éramos meninos ainda,
quando minha mãe contava. Ao redor,
das madrugadas de negrumes,
das pesadas chuvas,
dos riachos e rios fazendo
transbordar Itajá.
Naquelas noites as mulheres pariam filhos,
gatos nasciam nas bananeiras,
cobras entravam
pelas casas e ranchos.
Os homens gemiam de febre,
a febre gelada da solidão.
Falava também das cidades,
de uma fulana Goianésia,
outra chamada Anápolis,
aldeia Brasília,
povoado Monte Carmelo.
De um país chamado Gerais, Minas, Goiás.
Éramos meninos vindo de um estreito,
escutando assustados
O apito do trem de ferro.
( Era um trem fantasma
passando sinistramente na noite).
Caçando frutas e codornas.
Arados, matas, bicas, corgos,
mergulho fundo,
acampamentos de madeiras.
Assim meninos ainda, aprendemos a sonhar,
sonho de olhos abertos.
Amor caipirano faz parte deste
sonho.
Bahia / 1982
quando minha mãe contava. Ao redor,
das madrugadas de negrumes,
das pesadas chuvas,
dos riachos e rios fazendo
transbordar Itajá.
Naquelas noites as mulheres pariam filhos,
gatos nasciam nas bananeiras,
cobras entravam
pelas casas e ranchos.
Os homens gemiam de febre,
a febre gelada da solidão.
Falava também das cidades,
de uma fulana Goianésia,
outra chamada Anápolis,
aldeia Brasília,
povoado Monte Carmelo.
De um país chamado Gerais, Minas, Goiás.
Éramos meninos vindo de um estreito,
escutando assustados
O apito do trem de ferro.
( Era um trem fantasma
passando sinistramente na noite).
Caçando frutas e codornas.
Arados, matas, bicas, corgos,
mergulho fundo,
acampamentos de madeiras.
Assim meninos ainda, aprendemos a sonhar,
sonho de olhos abertos.
Amor caipirano faz parte deste
sonho.
Bahia / 1982
996
Gilberto Diener
Introdução
Éramos meninos ainda,
quando minha mãe contava. Ao redor,
das madrugadas de negrumes,
das pesadas chuvas,
dos riachos e rios fazendo
transbordar Itajá.
Naquelas noites as mulheres pariam filhos,
gatos nasciam nas bananeiras,
cobras entravam
pelas casas e ranchos.
Os homens gemiam de febre,
a febre gelada da solidão.
Falava também das cidades,
de uma fulana Goianésia,
outra chamada Anápolis,
aldeia Brasília,
povoado Monte Carmelo.
De um país chamado Gerais, Minas, Goiás.
Éramos meninos vindo de um estreito,
escutando assustados
O apito do trem de ferro.
( Era um trem fantasma
passando sinistramente na noite).
Caçando frutas e codornas.
Arados, matas, bicas, corgos,
mergulho fundo,
acampamentos de madeiras.
Assim meninos ainda, aprendemos a sonhar,
sonho de olhos abertos.
Amor caipirano faz parte deste
sonho.
Bahia / 1982
quando minha mãe contava. Ao redor,
das madrugadas de negrumes,
das pesadas chuvas,
dos riachos e rios fazendo
transbordar Itajá.
Naquelas noites as mulheres pariam filhos,
gatos nasciam nas bananeiras,
cobras entravam
pelas casas e ranchos.
Os homens gemiam de febre,
a febre gelada da solidão.
Falava também das cidades,
de uma fulana Goianésia,
outra chamada Anápolis,
aldeia Brasília,
povoado Monte Carmelo.
De um país chamado Gerais, Minas, Goiás.
Éramos meninos vindo de um estreito,
escutando assustados
O apito do trem de ferro.
( Era um trem fantasma
passando sinistramente na noite).
Caçando frutas e codornas.
Arados, matas, bicas, corgos,
mergulho fundo,
acampamentos de madeiras.
Assim meninos ainda, aprendemos a sonhar,
sonho de olhos abertos.
Amor caipirano faz parte deste
sonho.
Bahia / 1982
996
Ana Garrett
Entre o ser ou o não ser
Entre o ser ou o não ser
escolho o ter
medo de te ver assim,
num sossego pálido
e tranquilo demais.
De entre todas as armas
escolho aquelas,
lindas rosas amarelas,
pintadas timidamente
nos teus imponentes vitrais.
escolho o ter
medo de te ver assim,
num sossego pálido
e tranquilo demais.
De entre todas as armas
escolho aquelas,
lindas rosas amarelas,
pintadas timidamente
nos teus imponentes vitrais.
936
Gilson Nascimento
Biête do sertão
Zé, meu fi, esse biête
É pra mode ti contá
Que eu tive ternantonte
No nosso amado sertão
E com a boca escancarada
Numa bruta gargaiada
Tudo se ria pra mim.
As prantação bem verdinha
Viçosa, já cricidinha
Os pé de pau fulorado
Os boi, lustroso e cevado
E o pasto cuma um tapete
Ispaiado pulo chão
Tudo se ria pra mim
As nuve, baixa e cinzenta
E o ri com a água barrenta
Com aquele gargulejá
Qui faiz gosto se iscutá
Curria brabo, avexado
Cuma quem faz um mandado
Pra no má si dispejá.
E os pés de mi bunecando
E os pendão balançando
Com o vento que da lonjura
A chuva ia assoprando
Tudo se ria pra mim.
E vendo os bicho e as coisa
Com tanta sastifação
Mi ri com a cara e com a alma
Confesso, num nego não
E a nutiça da alegria
De quando in vez eu iscutava
Num baticum arrastado
Que era vê um aboiado
Do meu véio coração
Me alembrei das pescaria
Que dô! Que arrecordação!
A lua, culara, cheinha
Varava a mata todinha
E feito uma tuáia de prata
Caía em riba do rio
Briava na escuridão.
Meu fi, nesse dia eu sube
Que nóis é que nem os pau
Tem raiz grossa e cumprida
Que margúia pulo chão
Lá se interra, lá se agruda
Não há home de sustança
Que arranque elas não.
Eles vem dum pé de pranta
Que tem uma bunita fulô
Cheia de viço e de cô
Nóis chama ela de amô
E veve no coração
É pra mode ti contá
Que eu tive ternantonte
No nosso amado sertão
E com a boca escancarada
Numa bruta gargaiada
Tudo se ria pra mim.
As prantação bem verdinha
Viçosa, já cricidinha
Os pé de pau fulorado
Os boi, lustroso e cevado
E o pasto cuma um tapete
Ispaiado pulo chão
Tudo se ria pra mim
As nuve, baixa e cinzenta
E o ri com a água barrenta
Com aquele gargulejá
Qui faiz gosto se iscutá
Curria brabo, avexado
Cuma quem faz um mandado
Pra no má si dispejá.
E os pés de mi bunecando
E os pendão balançando
Com o vento que da lonjura
A chuva ia assoprando
Tudo se ria pra mim.
E vendo os bicho e as coisa
Com tanta sastifação
Mi ri com a cara e com a alma
Confesso, num nego não
E a nutiça da alegria
De quando in vez eu iscutava
Num baticum arrastado
Que era vê um aboiado
Do meu véio coração
Me alembrei das pescaria
Que dô! Que arrecordação!
A lua, culara, cheinha
Varava a mata todinha
E feito uma tuáia de prata
Caía em riba do rio
Briava na escuridão.
Meu fi, nesse dia eu sube
Que nóis é que nem os pau
Tem raiz grossa e cumprida
Que margúia pulo chão
Lá se interra, lá se agruda
Não há home de sustança
Que arranque elas não.
Eles vem dum pé de pranta
Que tem uma bunita fulô
Cheia de viço e de cô
Nóis chama ela de amô
E veve no coração
975
Gabriela Cunha Melo Cavalcanti
Realidade
Realidade, por que és tão difícil de ser encarada?
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
1 097
Gabriela Cunha Melo Cavalcanti
Realidade
Realidade, por que és tão difícil de ser encarada?
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
1 097
Germano Machado
Castro Alves - A filosofia na poesia
in Jornal A Tarde, 15/03/97
Em todo movimento literário, dentro de diversas correntes de literatura, subsiste sempre uma filosofia. Se as ciências técnicas e humanas se interligam, por que não se ver a filosofia na literatura, a filosofia na poesia, a própria e intrínseca poesia na filosofia mesmo?
Evidentemente não se afirma que, poeta e gênio poético, em face da idade um fenômeno, seja Castro Alves filósofo, formal ou técnico. Combinaram-se sempre, mesmo quando a combatem, poesia e filosofia, seja em Platão ou Agostinho, um Plotino, um Spinoza, cuja maneira de expor sua filosofia vai a par da poesia. Afirma-se, antes, que a Filosofia perpassou sua poética e deu o sentido que apresenta.
Castro Alves, filósofo? Não. Filosofia na poética de Castro Alves? Sim. Por que não? Não existisse e seria mero copiador de estilos literários de sua época ou decalcador da poesia que dominou o tempo que lhe foi próprio. Ainda seria pior: um poemar sem finalidade. Seu talento poético moralista (no sentido filosófico e não apenas de dicionário), analisadas suas poesias articipantes com o especular pensamental, mostra a influência filosófica envolvendo-o por inteiro na sua dimensão de poetizar, confluindo na filosofia social, política, libertária, humanística.
Eugênio Gomes afirma: “Colocava-se, portanto, em plena e estrepitosa órbita do romantismo liberal, no qual o eco sonoro do verbo hugoano convocava adeptos, iniciando-os numa espécie de evangelização político-social, fortemente nutrida pela fraseologia filosófica do século: Justiça, Ideal, Liberdade, Humanidade, Progresso”.
Importa ver ainda Castro Alves como romântico, em duplo ou triplo sentido, e até por definição. Homem de seu tempo e de sua época e seus reflexos, ao contrário dos seus antecessores a se amarrarem ao passado e em suas nostalgias, ele, ao contrário, antes volta-se para o futuro, para o porvir, o amanhã com toda força de seu coração jovem e pelo íntimo e intrínseco sentir-sonhar-refletir que o que não permanece em um tipo de tendência literária há de ser superado.
Aí, a marca do gênio: saber transcender, pela ‘intuição’ mais do que pela ‘razão’ (e, então, filosofia atual, para o que há de vir), ‘superar’, embora ‘contendo’ o imediato. Era, assim, um místico, tanto quanto um sensual, conhecedor de Bocage e talentos poéticos iguais.
Se Victor Hugo era ‘Poeta Vidente’ (vê para adiante ou entremostra o que há de vir), Castro Alves, adolescente e jovem apenas, menino quase, apesar do tempo pouco de vivência, também o era. Demonstra-se igual ao velho Hugo, embora destinos desiguais, em parte. Igual ou superior, se notarmos as circunstâncias de idade, ambiente, vivências. Neste sentido pode-se afirmar ser o Poeta dos Escravos contemporâneo do futuro, companheiro do amanhã e inebriado da manhã, o hoje que não se torna passado, mas futuro, portanto, um poetar de permanência, o que constitui o substrato e a essência do filosofar.
Permanência do que o tempo deixa, pois, subsistir, pretérito destinado ao presente-futuro: finalidade da história e da filosofia. O permanente na poética castroalvina, sentido eterno do amor à mulher, à flor, à natureza, ao coração, ao próprio amor em si e de Deus (sua poesia toda posta em termos assim situa-o como homem de seu tempo e do que virá), a luta social humana.
Abolicionista, grita, clama, transforma-se em flama pelo negro, escravo explorado; nacionalista e patriota vê a tendência de liberdade dos povos coloniais e ainda também aqueles povos antigos agora subjugados; coração ferido de amor e de dor pelo ser humano, em sua existencialidade.
Particulariza o intuitivo mais do que o social e o humano, sabe-se que, quando cantou O Século, na Faculdade de Direito do Recife, as idéias que a embasavam, a política de redenção e libertação do homem, dentro, aliás, do espírito do liberalismo político das revoluções Francesa e Americana, foram vistas de viés. Um professor avesso às idéias das estrofes político-filosóficas, o reprovou no final do ano.
A filosofia sócio-política do seu século, vinda desde a Revolução de 1789, incomodava os privilegiados. Dificilmente as transformações sociais atingem o coração dos homens concretos do poder e das estruturas. Não querem esses ceder lugar ao novo, ao que muda e lhes tira os privilégios.
A poesia político-social sabe a nacionalismo, aquele que se alarga às fronteiras da terra, não o xenófobo, o que odeia outras pátrias e nações, a embasar os regimes totalitários da direita-e-da-esquerda. O mesmo nacionalismo patriota que o poeta reivindica em sua poética para que o Brasil se liberte de escravos e dê sentido à sua trajetória nacional. Castro Alves político, participante do drama do mundo, inserido na filosofia da época, portanto não alienado, não alheio, porque poeta, ao fator politicista.
Em Recife, devido ao contato com Tobias Barreto, se poeta mais filósofo, na sua Faculdade de Direito tem o senso universitário, apesar de, no tempo, não haver universidade, ficando Direito como um centro de pensamento e ação. Superemos os meros aconteceres amorosos poéticos conhecidos entre os dois e vejamos que o seu contacto mútuo enriqueceu e desprovincianizou ambos daquele sentido de aldeia ainda predominante. Em São Paulo e sua faculdade. No Rio. E pela sensibilidade poética, universaliza-se, a partir da Bahia. Eugênia Câmara, também, dá ao poeta amor, leva-o mais ainda ao teatro, arte por excelência participativa e transformadora.
Logo, em Castro, só neste exemplo de O Século, a política social e política existe em função da poesia participativa (o que implica filosofia com vistas ao humano redimido) dentro do panorama de filosofia liberal e libertária da trajetória do século XIX, com o antecedente dos séculos XVIII e XVII.
O Século é, deste modo, poema de filosofia política, a crença na história libertária. Termina o poema com um dos motivos-chaves de sua poemática, o amor à juventude, a juventude como idéia-força, a juventude do mundo (mundialização da idéia) e a juventude do Brasil (nacionalização e patriotismo da idéia).
Eugênio Gomes exprime com a competência peculiar: “Em suma, nesse poema (O Século) já estava o pensamento central, que Alves iria desenvolver de outras do mesmo teor humano e social, alguns em forma de odes ou de pequenas epopéias hugoanas...
Como era usual em tais composições, evidenciando a ascendência da sociologia sobre o Romantismo, o insólito poema traz abundante nomenclatura histórica... A idéia de que a morte seria o caminho certo à liberdade dominava então mais do que nunca o pensamento de Castro Alves e influiu sobre a concepção de A Cachoeira de Paulo Afonso, ultimada na mesma época, quando o poeta, embora menos combalido, tinha o pressentimento de um fim próximo...”
Sim, o viver de Castro, como lírico, romântico, condoreiro, social-político, humanista, envolve, logicamente, filosofia de existência onde os temas do tempo (e outros de todos os tempos) se deixam apresentar.
A idéia da morte (tão própria da dolência e sofrência românticas) agudiza no poeta, porque pressente que sua doença, a tuberculose, seria fatal e tinha a consciência, ainda aqui um pensador de profundidade apesar dos poucos anos de vivência e sofrência, embora intensos, de que somente a morte, apesar da juventude do poeta, vai a par das idéias de Deus, juventude, alma, amor, livro, mulher, natureza em geral, escravo e libertação, grandes nomes históricos, heróis, sentido bíblico (pois era biblista no significado de conhecer a Bíblia, talvez mais o Antigo Testamento do que o Novo, o que já é uma revelação de uma revolução, pois como católico de tradição, mais se tratava dos Evangelhos nas famílias religiosas da sua época).
Há em toda a poemática de Castro Alves a descida à interioridade, o que, em termos de literatura do século XX, chamaríamos de intimista. Ouso denominá-lo intimista, típico e próprio.
E, aqui chegand
Em todo movimento literário, dentro de diversas correntes de literatura, subsiste sempre uma filosofia. Se as ciências técnicas e humanas se interligam, por que não se ver a filosofia na literatura, a filosofia na poesia, a própria e intrínseca poesia na filosofia mesmo?
Evidentemente não se afirma que, poeta e gênio poético, em face da idade um fenômeno, seja Castro Alves filósofo, formal ou técnico. Combinaram-se sempre, mesmo quando a combatem, poesia e filosofia, seja em Platão ou Agostinho, um Plotino, um Spinoza, cuja maneira de expor sua filosofia vai a par da poesia. Afirma-se, antes, que a Filosofia perpassou sua poética e deu o sentido que apresenta.
Castro Alves, filósofo? Não. Filosofia na poética de Castro Alves? Sim. Por que não? Não existisse e seria mero copiador de estilos literários de sua época ou decalcador da poesia que dominou o tempo que lhe foi próprio. Ainda seria pior: um poemar sem finalidade. Seu talento poético moralista (no sentido filosófico e não apenas de dicionário), analisadas suas poesias articipantes com o especular pensamental, mostra a influência filosófica envolvendo-o por inteiro na sua dimensão de poetizar, confluindo na filosofia social, política, libertária, humanística.
Eugênio Gomes afirma: “Colocava-se, portanto, em plena e estrepitosa órbita do romantismo liberal, no qual o eco sonoro do verbo hugoano convocava adeptos, iniciando-os numa espécie de evangelização político-social, fortemente nutrida pela fraseologia filosófica do século: Justiça, Ideal, Liberdade, Humanidade, Progresso”.
Importa ver ainda Castro Alves como romântico, em duplo ou triplo sentido, e até por definição. Homem de seu tempo e de sua época e seus reflexos, ao contrário dos seus antecessores a se amarrarem ao passado e em suas nostalgias, ele, ao contrário, antes volta-se para o futuro, para o porvir, o amanhã com toda força de seu coração jovem e pelo íntimo e intrínseco sentir-sonhar-refletir que o que não permanece em um tipo de tendência literária há de ser superado.
Aí, a marca do gênio: saber transcender, pela ‘intuição’ mais do que pela ‘razão’ (e, então, filosofia atual, para o que há de vir), ‘superar’, embora ‘contendo’ o imediato. Era, assim, um místico, tanto quanto um sensual, conhecedor de Bocage e talentos poéticos iguais.
Se Victor Hugo era ‘Poeta Vidente’ (vê para adiante ou entremostra o que há de vir), Castro Alves, adolescente e jovem apenas, menino quase, apesar do tempo pouco de vivência, também o era. Demonstra-se igual ao velho Hugo, embora destinos desiguais, em parte. Igual ou superior, se notarmos as circunstâncias de idade, ambiente, vivências. Neste sentido pode-se afirmar ser o Poeta dos Escravos contemporâneo do futuro, companheiro do amanhã e inebriado da manhã, o hoje que não se torna passado, mas futuro, portanto, um poetar de permanência, o que constitui o substrato e a essência do filosofar.
Permanência do que o tempo deixa, pois, subsistir, pretérito destinado ao presente-futuro: finalidade da história e da filosofia. O permanente na poética castroalvina, sentido eterno do amor à mulher, à flor, à natureza, ao coração, ao próprio amor em si e de Deus (sua poesia toda posta em termos assim situa-o como homem de seu tempo e do que virá), a luta social humana.
Abolicionista, grita, clama, transforma-se em flama pelo negro, escravo explorado; nacionalista e patriota vê a tendência de liberdade dos povos coloniais e ainda também aqueles povos antigos agora subjugados; coração ferido de amor e de dor pelo ser humano, em sua existencialidade.
Particulariza o intuitivo mais do que o social e o humano, sabe-se que, quando cantou O Século, na Faculdade de Direito do Recife, as idéias que a embasavam, a política de redenção e libertação do homem, dentro, aliás, do espírito do liberalismo político das revoluções Francesa e Americana, foram vistas de viés. Um professor avesso às idéias das estrofes político-filosóficas, o reprovou no final do ano.
A filosofia sócio-política do seu século, vinda desde a Revolução de 1789, incomodava os privilegiados. Dificilmente as transformações sociais atingem o coração dos homens concretos do poder e das estruturas. Não querem esses ceder lugar ao novo, ao que muda e lhes tira os privilégios.
A poesia político-social sabe a nacionalismo, aquele que se alarga às fronteiras da terra, não o xenófobo, o que odeia outras pátrias e nações, a embasar os regimes totalitários da direita-e-da-esquerda. O mesmo nacionalismo patriota que o poeta reivindica em sua poética para que o Brasil se liberte de escravos e dê sentido à sua trajetória nacional. Castro Alves político, participante do drama do mundo, inserido na filosofia da época, portanto não alienado, não alheio, porque poeta, ao fator politicista.
Em Recife, devido ao contato com Tobias Barreto, se poeta mais filósofo, na sua Faculdade de Direito tem o senso universitário, apesar de, no tempo, não haver universidade, ficando Direito como um centro de pensamento e ação. Superemos os meros aconteceres amorosos poéticos conhecidos entre os dois e vejamos que o seu contacto mútuo enriqueceu e desprovincianizou ambos daquele sentido de aldeia ainda predominante. Em São Paulo e sua faculdade. No Rio. E pela sensibilidade poética, universaliza-se, a partir da Bahia. Eugênia Câmara, também, dá ao poeta amor, leva-o mais ainda ao teatro, arte por excelência participativa e transformadora.
Logo, em Castro, só neste exemplo de O Século, a política social e política existe em função da poesia participativa (o que implica filosofia com vistas ao humano redimido) dentro do panorama de filosofia liberal e libertária da trajetória do século XIX, com o antecedente dos séculos XVIII e XVII.
O Século é, deste modo, poema de filosofia política, a crença na história libertária. Termina o poema com um dos motivos-chaves de sua poemática, o amor à juventude, a juventude como idéia-força, a juventude do mundo (mundialização da idéia) e a juventude do Brasil (nacionalização e patriotismo da idéia).
Eugênio Gomes exprime com a competência peculiar: “Em suma, nesse poema (O Século) já estava o pensamento central, que Alves iria desenvolver de outras do mesmo teor humano e social, alguns em forma de odes ou de pequenas epopéias hugoanas...
Como era usual em tais composições, evidenciando a ascendência da sociologia sobre o Romantismo, o insólito poema traz abundante nomenclatura histórica... A idéia de que a morte seria o caminho certo à liberdade dominava então mais do que nunca o pensamento de Castro Alves e influiu sobre a concepção de A Cachoeira de Paulo Afonso, ultimada na mesma época, quando o poeta, embora menos combalido, tinha o pressentimento de um fim próximo...”
Sim, o viver de Castro, como lírico, romântico, condoreiro, social-político, humanista, envolve, logicamente, filosofia de existência onde os temas do tempo (e outros de todos os tempos) se deixam apresentar.
A idéia da morte (tão própria da dolência e sofrência românticas) agudiza no poeta, porque pressente que sua doença, a tuberculose, seria fatal e tinha a consciência, ainda aqui um pensador de profundidade apesar dos poucos anos de vivência e sofrência, embora intensos, de que somente a morte, apesar da juventude do poeta, vai a par das idéias de Deus, juventude, alma, amor, livro, mulher, natureza em geral, escravo e libertação, grandes nomes históricos, heróis, sentido bíblico (pois era biblista no significado de conhecer a Bíblia, talvez mais o Antigo Testamento do que o Novo, o que já é uma revelação de uma revolução, pois como católico de tradição, mais se tratava dos Evangelhos nas famílias religiosas da sua época).
Há em toda a poemática de Castro Alves a descida à interioridade, o que, em termos de literatura do século XX, chamaríamos de intimista. Ouso denominá-lo intimista, típico e próprio.
E, aqui chegand
1 354
Ana Garrett
Quem se esconde
Quem se esconde em meus
versos inacabados,
sou eu...
E nasceu uma flor
duma terra de cem anos.
Sem regá-la, cuidá-la, nasceu.
E as minhas sílabas continuam
no caule verde
dessas flores,
interditas a leituras ao amanhecer.
Quem se olha, assim, como vós,
uma para o outro, em contínuo desejo?
Quais avencas debruçando-se
para um último beijo.
E eu no meio,
sempre toda a vida no meio e permaneço,
escondida nas raízes,
num eterno e agitado sossego
versos inacabados,
sou eu...
E nasceu uma flor
duma terra de cem anos.
Sem regá-la, cuidá-la, nasceu.
E as minhas sílabas continuam
no caule verde
dessas flores,
interditas a leituras ao amanhecer.
Quem se olha, assim, como vós,
uma para o outro, em contínuo desejo?
Quais avencas debruçando-se
para um último beijo.
E eu no meio,
sempre toda a vida no meio e permaneço,
escondida nas raízes,
num eterno e agitado sossego
873
Geir Campos
Haicai
Vento da manhã
varre as folhas pelo chão
do dia que nasce.
Olhos de afogado:
são de ver coisas terríveis
no fundo do mar.
varre as folhas pelo chão
do dia que nasce.
Olhos de afogado:
são de ver coisas terríveis
no fundo do mar.
1 331
Ana Garrett
Converti-me num lago
Converti-me num lago
travessado por barqueiros sem destino,
e, como uma altiva ave de rapina,
solto-me em gritos e
lanço o meu último gemido.
Numa despedida efémera
cruzo o mundo, alheia, a voar
e das águas serenas que brotam dos meus olhos,
acrescento ao universo mais um mar,
onde iças as tuas velas
e prossegues uma história que foi minha,
a navegar.
travessado por barqueiros sem destino,
e, como uma altiva ave de rapina,
solto-me em gritos e
lanço o meu último gemido.
Numa despedida efémera
cruzo o mundo, alheia, a voar
e das águas serenas que brotam dos meus olhos,
acrescento ao universo mais um mar,
onde iças as tuas velas
e prossegues uma história que foi minha,
a navegar.
850
Geir Campos
Safra
Como um viticultor ocioso come
em pleno outono, uma por uma, as uvas
do cacho que ele viu nascer, pesar,
sob os olhos do sol e o próprio olhar;
e em que, mais demorando o paladar
na espera aberta entre o prazer e a fome,
já reconhece o gosto bom das chuvas
lavando os fornos do verão distante;
e, como uma saudade só, o sabor
da terra presa às mãos grossas de suor
— assim viver a vida, instante a instante.
em pleno outono, uma por uma, as uvas
do cacho que ele viu nascer, pesar,
sob os olhos do sol e o próprio olhar;
e em que, mais demorando o paladar
na espera aberta entre o prazer e a fome,
já reconhece o gosto bom das chuvas
lavando os fornos do verão distante;
e, como uma saudade só, o sabor
da terra presa às mãos grossas de suor
— assim viver a vida, instante a instante.
1 287
Geir Campos
Safra
Como um viticultor ocioso come
em pleno outono, uma por uma, as uvas
do cacho que ele viu nascer, pesar,
sob os olhos do sol e o próprio olhar;
e em que, mais demorando o paladar
na espera aberta entre o prazer e a fome,
já reconhece o gosto bom das chuvas
lavando os fornos do verão distante;
e, como uma saudade só, o sabor
da terra presa às mãos grossas de suor
— assim viver a vida, instante a instante.
em pleno outono, uma por uma, as uvas
do cacho que ele viu nascer, pesar,
sob os olhos do sol e o próprio olhar;
e em que, mais demorando o paladar
na espera aberta entre o prazer e a fome,
já reconhece o gosto bom das chuvas
lavando os fornos do verão distante;
e, como uma saudade só, o sabor
da terra presa às mãos grossas de suor
— assim viver a vida, instante a instante.
1 287
Geir Campos
Safra
Como um viticultor ocioso come
em pleno outono, uma por uma, as uvas
do cacho que ele viu nascer, pesar,
sob os olhos do sol e o próprio olhar;
e em que, mais demorando o paladar
na espera aberta entre o prazer e a fome,
já reconhece o gosto bom das chuvas
lavando os fornos do verão distante;
e, como uma saudade só, o sabor
da terra presa às mãos grossas de suor
— assim viver a vida, instante a instante.
em pleno outono, uma por uma, as uvas
do cacho que ele viu nascer, pesar,
sob os olhos do sol e o próprio olhar;
e em que, mais demorando o paladar
na espera aberta entre o prazer e a fome,
já reconhece o gosto bom das chuvas
lavando os fornos do verão distante;
e, como uma saudade só, o sabor
da terra presa às mãos grossas de suor
— assim viver a vida, instante a instante.
1 287
Gentil Braga
O Orvalho
Nas flores mimosas, nas folhas virentes
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.
Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.
A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.
E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.
Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?
Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.
Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.
E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.
Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.
E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.
Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.
A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.
E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.
Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?
Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.
Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.
E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.
Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.
E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
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