Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Joseph Brodsky
Odisseu a Telêmaco
Caro Telêmaco,
encerrou-se a Guerra
de Tróia. Quem venceu, não lembro. Gregos,
sem dúvida: só gregos deixariam
tantos defuntos longe de seu lar.
Mesmo assim, o caminho para casa
mostrou-se demasiado longo, como
se Posseidon, enquanto ali perdíamos
nosso tempo, tivesse ampliado o espaço.
Não sei nem onde estou nem o que tenho
diante de mim, que suja ilhota é esta,
que moitas, casas, porcos a grunhir,
jardins abandonados, que rainha,
capim, raízes, pedras. Meu Telêmaco,
as ilhas todas se parecem quando
já se viaja há tanto tempo, o cérebro
confunde-se contando as ondas, o olho
chora entulhado de horizonte e a carne
das águas nos entope enfim o ouvido.
Não lembro como terminou a guerra
e quantos anos tens, tampouco lembro.
Cresce, Telêmaco meu filho, os deuses,
só eles sabem se nos reveremos.
Não és mais o garoto em frente a quem
contive touros bravos. Viveríamos
juntos os dois, não fosse Palamedes,*
que estava, talvez, certo, pois, sem mim,
podes, liberto das paixões de Édipo,
ter sonhos, meu Telêmaco, impolutos.
Tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher. Quase uma elegia (Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996).
encerrou-se a Guerra
de Tróia. Quem venceu, não lembro. Gregos,
sem dúvida: só gregos deixariam
tantos defuntos longe de seu lar.
Mesmo assim, o caminho para casa
mostrou-se demasiado longo, como
se Posseidon, enquanto ali perdíamos
nosso tempo, tivesse ampliado o espaço.
Não sei nem onde estou nem o que tenho
diante de mim, que suja ilhota é esta,
que moitas, casas, porcos a grunhir,
jardins abandonados, que rainha,
capim, raízes, pedras. Meu Telêmaco,
as ilhas todas se parecem quando
já se viaja há tanto tempo, o cérebro
confunde-se contando as ondas, o olho
chora entulhado de horizonte e a carne
das águas nos entope enfim o ouvido.
Não lembro como terminou a guerra
e quantos anos tens, tampouco lembro.
Cresce, Telêmaco meu filho, os deuses,
só eles sabem se nos reveremos.
Não és mais o garoto em frente a quem
contive touros bravos. Viveríamos
juntos os dois, não fosse Palamedes,*
que estava, talvez, certo, pois, sem mim,
podes, liberto das paixões de Édipo,
ter sonhos, meu Telêmaco, impolutos.
Tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher. Quase uma elegia (Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996).
1 266
Abul ʿAla Al-Maʿarri
teus sonhos de grande empresa
Vãos, teus sonhos de grande empresa,
De forma vã, tu velejas espaços novos,
Vão, ancorar nesse mundo só de rostos
Se é outro fim que o mundo te reserva.
De forma vã, tu velejas espaços novos,
Vão, ancorar nesse mundo só de rostos
Se é outro fim que o mundo te reserva.
654
Abul ʿAla Al-Maʿarri
Agora imperam esta fé e esta crença
Agora imperam esta fé e esta crença
Até que por outras sejam vencidas.
Homem, temes só com homens vivas,
Dessarte escolhes viver com lendas.
631
Abul ʿAla Al-Maʿarri
Agora imperam esta fé e esta crença
Agora imperam esta fé e esta crença
Até que por outras sejam vencidas.
Homem, temes só com homens vivas,
Dessarte escolhes viver com lendas.
631
Bronisława Wajs
Água, que corre
Já há muito passou o tempo
dos ciganos, que vagavam.
E eu os vi:
são ágeis como a água,
forte, clara,
quando flui.
E adivinho que talvez
ela deseje falar.
Pobre, não sabe nenhuma língua,
para ela falar, para cantar.
A cada vez apenas goteja a prata,
sussurra como o coração
a fala da água.
Apenas o cavalo que pasta na grama
permanece próximo
a escuta e entende os murmúrios.
Mas ela não olha para ele,
foge, nada para mais longe,
pois os olhos não podiam ver
o rio, que corre.
975
Manuel António Pina
A um Jovem Poeta
Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.
1 945
Lorine Niedecker
Quando o êxtase é inoportuno
Finja uma grande calma;
todo enlevo logo termina.
Cante: quem sabe -
se fim ou início do vôo
para a gaivota em pouso?
Coração, aquiete-se.
Diga: dinheiro há, mas com ferrugem;
diga: luar não é propício para fugas.
É a cor no baixo firmamento
espargindo cores largas
ou, em minha gravata, o vento.
Saiba em espanto como
se toma a própria loucura
nas mãos
e a guarda.
(tradução de Ricardo Domeneck)
///
When ecstasy is inconvenient
Lorine Niedecker
Feign a great calm;
all gay transport soon ends.
Chant: who knows—
flight's end or flight's beginning
for the resting gull?
Heart, be still.
Say there is money but it rusted;
say the time of moon is not right for escape.
It's the color in the lower sky
too broadly suffused,
or the wind in my tie.
Know amazedly how
often one takes his madness
into his own hands
and keeps it.
todo enlevo logo termina.
Cante: quem sabe -
se fim ou início do vôo
para a gaivota em pouso?
Coração, aquiete-se.
Diga: dinheiro há, mas com ferrugem;
diga: luar não é propício para fugas.
É a cor no baixo firmamento
espargindo cores largas
ou, em minha gravata, o vento.
Saiba em espanto como
se toma a própria loucura
nas mãos
e a guarda.
(tradução de Ricardo Domeneck)
///
When ecstasy is inconvenient
Lorine Niedecker
Feign a great calm;
all gay transport soon ends.
Chant: who knows—
flight's end or flight's beginning
for the resting gull?
Heart, be still.
Say there is money but it rusted;
say the time of moon is not right for escape.
It's the color in the lower sky
too broadly suffused,
or the wind in my tie.
Know amazedly how
often one takes his madness
into his own hands
and keeps it.
811
Boris Vian
Sou esnobe
(Paulo Ferraz)
Sou esnobe... sou esnobe
É de nascença e não por hobby
Isso exige um esforço bravo
É uma vida de escravo
Mas quando saio com Magnólia
É só pra mim que se olha
Sou esnobe... um puta esnobe
Meu mundo é a classe A
Ser esnobe é o que há.
Eu tenho estilo, me visto em Paris
Sapato de crocodilo e um ofuscante risca de giz
Um rubi no dedinho... do pé, pois sou fino
As unhas em alinho e um lindo e leve lencinho
Eu vou ao cinema ver filmes-problema
E janto no bistrô num porre de Château Margaux
Meu fígado é foda, ah, cirrose está fora de moda
Sou é depressivo, que é mais chique e exclusivo.
Sou esnobe... sou esnobe
Me chamo José e todos dizem Bob
Cavalgo assim que o sol raia
Porque adoro o odor de baia
Só frequento os importantes
Com passado bandeirante
Sou esnobe... excessivamente esnobe
E se respondo ao “me ama?”
Estou pelado na cama.
A gente se irmana, só entra bacana,
Todo fim de semana, pra jogar no ralo nossa grana
Filas de coca, a gente nem toca
E há camembert, comido com o devido talher.
Moro num apart que é uma obra de arte
Mulheres à la carte, igual nem mesmo em Montmartre
Já tive TV, um tédio de ver
Mandei devolver... mas pra gostar bastava o start.
Sou esnobe... sou esnobe
Essa é uma febre que só sobe
Quando me arrebento é de Jaguar
Se me encho de tudo vou prum spa
É nos detalhes... e no talão
Que se é esnobe ou não
Sou esnobe... Agora mais esnobe do que antes
E quando eu entrar em pane
Que me enterrem de Armani.
:
J'suis snob... J'suis snob
C'est vraiment l'seul défaut que j'gobe
Ça demande des mois d'turbin
C'est une vie de galérien
Mais quand je sors avec Hildegarde
C'est toujours moi qu'on r'garde
J'suis snob... Foutrement snob
Tous mes amis le sont
On est snobs et c'est bon
Chemises d'organdi, chaussures de zébu
Cravate d'Italie et méchant complet vermoulu
Un rubis au doigt... de pied, pas çui-là
Les ongles tout noirs et un tres joli p'tit mouchoir
J'vais au cinéma voir des films suédois
Et j'entre au bistro pour boire du whisky à gogo
J'ai pas mal au foie, personne fait plus ça
J'ai un ulcère, c'est moins banal et plus cher
J'suis snob... J'suis snob
J'm'appelle Patrick, mais on dit Bob
Je fais du ch'val tous les matins
Car j'ador' l'odeur du crottin
Je ne fréquente que des baronnes
Aux noms comme des trombones
J'suis snob... Excessivement snob
Et quand j'parle d'amour
C'est tout nu dans la cour
On se réunit avec les amis
Tous les vendredis, pour faire des snobisme-parties
Il y a du coca, on deteste ça
Et du camembert qu'on mange à la petite cuiller
Mon appartement est vraiment charmant
J'me chauffe au diamant, on n'peut rien rêver d'plus fumant
J'avais la télé, mais ça m'ennuyait
Je l'ai r'tournée... d'l'aut' côté c'est passionnant
J'suis snob... J'suis snob
J'suis ravagé par ce microbe
J'ai des accidents en Jaguar
Je passe le mois d'août au plumard
C'est dans les p'tits détails comme ça
Que l'on est snob ou pas
J'suis snob... Encor plus snob que tout à l'heure
Et quand je serai mort
J'veux un suaire de chez Dior!
Sou esnobe... sou esnobe
É de nascença e não por hobby
Isso exige um esforço bravo
É uma vida de escravo
Mas quando saio com Magnólia
É só pra mim que se olha
Sou esnobe... um puta esnobe
Meu mundo é a classe A
Ser esnobe é o que há.
Eu tenho estilo, me visto em Paris
Sapato de crocodilo e um ofuscante risca de giz
Um rubi no dedinho... do pé, pois sou fino
As unhas em alinho e um lindo e leve lencinho
Eu vou ao cinema ver filmes-problema
E janto no bistrô num porre de Château Margaux
Meu fígado é foda, ah, cirrose está fora de moda
Sou é depressivo, que é mais chique e exclusivo.
Sou esnobe... sou esnobe
Me chamo José e todos dizem Bob
Cavalgo assim que o sol raia
Porque adoro o odor de baia
Só frequento os importantes
Com passado bandeirante
Sou esnobe... excessivamente esnobe
E se respondo ao “me ama?”
Estou pelado na cama.
A gente se irmana, só entra bacana,
Todo fim de semana, pra jogar no ralo nossa grana
Filas de coca, a gente nem toca
E há camembert, comido com o devido talher.
Moro num apart que é uma obra de arte
Mulheres à la carte, igual nem mesmo em Montmartre
Já tive TV, um tédio de ver
Mandei devolver... mas pra gostar bastava o start.
Sou esnobe... sou esnobe
Essa é uma febre que só sobe
Quando me arrebento é de Jaguar
Se me encho de tudo vou prum spa
É nos detalhes... e no talão
Que se é esnobe ou não
Sou esnobe... Agora mais esnobe do que antes
E quando eu entrar em pane
Que me enterrem de Armani.
:
J´suis snob
Boris VianC'est vraiment l'seul défaut que j'gobe
Ça demande des mois d'turbin
C'est une vie de galérien
Mais quand je sors avec Hildegarde
C'est toujours moi qu'on r'garde
J'suis snob... Foutrement snob
Tous mes amis le sont
On est snobs et c'est bon
Chemises d'organdi, chaussures de zébu
Cravate d'Italie et méchant complet vermoulu
Un rubis au doigt... de pied, pas çui-là
Les ongles tout noirs et un tres joli p'tit mouchoir
J'vais au cinéma voir des films suédois
Et j'entre au bistro pour boire du whisky à gogo
J'ai pas mal au foie, personne fait plus ça
J'ai un ulcère, c'est moins banal et plus cher
J'suis snob... J'suis snob
J'm'appelle Patrick, mais on dit Bob
Je fais du ch'val tous les matins
Car j'ador' l'odeur du crottin
Je ne fréquente que des baronnes
Aux noms comme des trombones
J'suis snob... Excessivement snob
Et quand j'parle d'amour
C'est tout nu dans la cour
On se réunit avec les amis
Tous les vendredis, pour faire des snobisme-parties
Il y a du coca, on deteste ça
Et du camembert qu'on mange à la petite cuiller
Mon appartement est vraiment charmant
J'me chauffe au diamant, on n'peut rien rêver d'plus fumant
J'avais la télé, mais ça m'ennuyait
Je l'ai r'tournée... d'l'aut' côté c'est passionnant
J'suis snob... J'suis snob
J'suis ravagé par ce microbe
J'ai des accidents en Jaguar
Je passe le mois d'août au plumard
C'est dans les p'tits détails comme ça
Que l'on est snob ou pas
J'suis snob... Encor plus snob que tout à l'heure
Et quand je serai mort
J'veux un suaire de chez Dior!
1 767
Boris Vian
Sou esnobe
(Paulo Ferraz)
Sou esnobe... sou esnobe
É de nascença e não por hobby
Isso exige um esforço bravo
É uma vida de escravo
Mas quando saio com Magnólia
É só pra mim que se olha
Sou esnobe... um puta esnobe
Meu mundo é a classe A
Ser esnobe é o que há.
Eu tenho estilo, me visto em Paris
Sapato de crocodilo e um ofuscante risca de giz
Um rubi no dedinho... do pé, pois sou fino
As unhas em alinho e um lindo e leve lencinho
Eu vou ao cinema ver filmes-problema
E janto no bistrô num porre de Château Margaux
Meu fígado é foda, ah, cirrose está fora de moda
Sou é depressivo, que é mais chique e exclusivo.
Sou esnobe... sou esnobe
Me chamo José e todos dizem Bob
Cavalgo assim que o sol raia
Porque adoro o odor de baia
Só frequento os importantes
Com passado bandeirante
Sou esnobe... excessivamente esnobe
E se respondo ao “me ama?”
Estou pelado na cama.
A gente se irmana, só entra bacana,
Todo fim de semana, pra jogar no ralo nossa grana
Filas de coca, a gente nem toca
E há camembert, comido com o devido talher.
Moro num apart que é uma obra de arte
Mulheres à la carte, igual nem mesmo em Montmartre
Já tive TV, um tédio de ver
Mandei devolver... mas pra gostar bastava o start.
Sou esnobe... sou esnobe
Essa é uma febre que só sobe
Quando me arrebento é de Jaguar
Se me encho de tudo vou prum spa
É nos detalhes... e no talão
Que se é esnobe ou não
Sou esnobe... Agora mais esnobe do que antes
E quando eu entrar em pane
Que me enterrem de Armani.
:
J'suis snob... J'suis snob
C'est vraiment l'seul défaut que j'gobe
Ça demande des mois d'turbin
C'est une vie de galérien
Mais quand je sors avec Hildegarde
C'est toujours moi qu'on r'garde
J'suis snob... Foutrement snob
Tous mes amis le sont
On est snobs et c'est bon
Chemises d'organdi, chaussures de zébu
Cravate d'Italie et méchant complet vermoulu
Un rubis au doigt... de pied, pas çui-là
Les ongles tout noirs et un tres joli p'tit mouchoir
J'vais au cinéma voir des films suédois
Et j'entre au bistro pour boire du whisky à gogo
J'ai pas mal au foie, personne fait plus ça
J'ai un ulcère, c'est moins banal et plus cher
J'suis snob... J'suis snob
J'm'appelle Patrick, mais on dit Bob
Je fais du ch'val tous les matins
Car j'ador' l'odeur du crottin
Je ne fréquente que des baronnes
Aux noms comme des trombones
J'suis snob... Excessivement snob
Et quand j'parle d'amour
C'est tout nu dans la cour
On se réunit avec les amis
Tous les vendredis, pour faire des snobisme-parties
Il y a du coca, on deteste ça
Et du camembert qu'on mange à la petite cuiller
Mon appartement est vraiment charmant
J'me chauffe au diamant, on n'peut rien rêver d'plus fumant
J'avais la télé, mais ça m'ennuyait
Je l'ai r'tournée... d'l'aut' côté c'est passionnant
J'suis snob... J'suis snob
J'suis ravagé par ce microbe
J'ai des accidents en Jaguar
Je passe le mois d'août au plumard
C'est dans les p'tits détails comme ça
Que l'on est snob ou pas
J'suis snob... Encor plus snob que tout à l'heure
Et quand je serai mort
J'veux un suaire de chez Dior!
Sou esnobe... sou esnobe
É de nascença e não por hobby
Isso exige um esforço bravo
É uma vida de escravo
Mas quando saio com Magnólia
É só pra mim que se olha
Sou esnobe... um puta esnobe
Meu mundo é a classe A
Ser esnobe é o que há.
Eu tenho estilo, me visto em Paris
Sapato de crocodilo e um ofuscante risca de giz
Um rubi no dedinho... do pé, pois sou fino
As unhas em alinho e um lindo e leve lencinho
Eu vou ao cinema ver filmes-problema
E janto no bistrô num porre de Château Margaux
Meu fígado é foda, ah, cirrose está fora de moda
Sou é depressivo, que é mais chique e exclusivo.
Sou esnobe... sou esnobe
Me chamo José e todos dizem Bob
Cavalgo assim que o sol raia
Porque adoro o odor de baia
Só frequento os importantes
Com passado bandeirante
Sou esnobe... excessivamente esnobe
E se respondo ao “me ama?”
Estou pelado na cama.
A gente se irmana, só entra bacana,
Todo fim de semana, pra jogar no ralo nossa grana
Filas de coca, a gente nem toca
E há camembert, comido com o devido talher.
Moro num apart que é uma obra de arte
Mulheres à la carte, igual nem mesmo em Montmartre
Já tive TV, um tédio de ver
Mandei devolver... mas pra gostar bastava o start.
Sou esnobe... sou esnobe
Essa é uma febre que só sobe
Quando me arrebento é de Jaguar
Se me encho de tudo vou prum spa
É nos detalhes... e no talão
Que se é esnobe ou não
Sou esnobe... Agora mais esnobe do que antes
E quando eu entrar em pane
Que me enterrem de Armani.
:
J´suis snob
Boris VianC'est vraiment l'seul défaut que j'gobe
Ça demande des mois d'turbin
C'est une vie de galérien
Mais quand je sors avec Hildegarde
C'est toujours moi qu'on r'garde
J'suis snob... Foutrement snob
Tous mes amis le sont
On est snobs et c'est bon
Chemises d'organdi, chaussures de zébu
Cravate d'Italie et méchant complet vermoulu
Un rubis au doigt... de pied, pas çui-là
Les ongles tout noirs et un tres joli p'tit mouchoir
J'vais au cinéma voir des films suédois
Et j'entre au bistro pour boire du whisky à gogo
J'ai pas mal au foie, personne fait plus ça
J'ai un ulcère, c'est moins banal et plus cher
J'suis snob... J'suis snob
J'm'appelle Patrick, mais on dit Bob
Je fais du ch'val tous les matins
Car j'ador' l'odeur du crottin
Je ne fréquente que des baronnes
Aux noms comme des trombones
J'suis snob... Excessivement snob
Et quand j'parle d'amour
C'est tout nu dans la cour
On se réunit avec les amis
Tous les vendredis, pour faire des snobisme-parties
Il y a du coca, on deteste ça
Et du camembert qu'on mange à la petite cuiller
Mon appartement est vraiment charmant
J'me chauffe au diamant, on n'peut rien rêver d'plus fumant
J'avais la télé, mais ça m'ennuyait
Je l'ai r'tournée... d'l'aut' côté c'est passionnant
J'suis snob... J'suis snob
J'suis ravagé par ce microbe
J'ai des accidents en Jaguar
Je passe le mois d'août au plumard
C'est dans les p'tits détails comme ça
Que l'on est snob ou pas
J'suis snob... Encor plus snob que tout à l'heure
Et quand je serai mort
J'veux un suaire de chez Dior!
1 767
Ghérasim Luca
18 de novembro de 19..
18 de novembro de 19..
Prezado,
O desmoronamento de certos sólidos, ainda que enganador, permite-lhe planar. Aquilo que lhe parecia um abismo torna-se o próprio espaço da sua espessura.
Graças a você, tomo meu impulso...
Mas parece que toda relação com o próximo não passa de vias de aproximação; no momento decisivo, e por uma exigência recíproca, cada um coloca ao outro as questões essenciais.
Ainda hoje bebemos desses ursos.
:
18 novembre 19..
Monsieur,
L’éffondrement de certains solides, bien que trompeur, vous permet de planer. Ce qui vous paraissait un abîme devient l’espace même de votre épaisseur.
Grace à vous, je prends mon élan...
Mais il paraît que tous les rapports avec le prochain ne sont que voies d’approche; au moment décisif, et par une exigence réciproque, chacun pose à l’autre les questions essentielles.
Nous nous abreuvons encore aujourd’hui à ces ours.
644
Torquato Neto
Literato cantabile
agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto pode ser o fim
do seu início
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em minha orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:
a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde quer que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício
e não se sabe nunca mais do mim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim. a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.
21-10
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto pode ser o fim
do seu início
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em minha orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:
a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde quer que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício
e não se sabe nunca mais do mim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim. a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.
21-10
3 680
Torquato Neto
Literato cantabile
agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto pode ser o fim
do seu início
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em minha orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:
a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde quer que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício
e não se sabe nunca mais do mim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim. a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.
21-10
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto pode ser o fim
do seu início
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em minha orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:
a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde quer que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício
e não se sabe nunca mais do mim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim. a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.
21-10
3 680
Paulo Leminski
Primeiras páginas
ergo sum, aliás, Ego sum Renatus Cartesius, cá perdido, aqui presente, neste labirinto de enganos deleitáveis, — vejo o mar, vejo a baía e vejo as naus. Vejo mais. Já lá vão anos III me destaquei de Europa e a gente civil, lá morituro. Isso de “barbarus — non intellegor ulli” — dos exercícios de exílio de Ovídio é comigo. Do parque do príncipe, a lentes de luneta, CONTEMPLO A CONSIDERAR O CAIS, O MAR, AS NUVENS, OS ENIGMAS E OS PRODÍGIOS DE BRASÍLIA. Desde verdes anos, via de regra, medito horizontal manhã cedo, só vindo à luz já sol meiodia. Estar, mister de deuses, na atual circunstância, presença no estanque dessa Vrijburg , gaza de mapas, taba rasa de humores, orto e zôo, oca de feras e casa de flores. Plantas sarcófagas e carnívoras atrapalham-se, um lugar ao sol e um tempo na sombra. Chacoalham, cintila a água gota a gota, efêmeros chocam enxames. Cocos fecham-se em copas, mamas ampliam: MAMÕES. O vapor umedece o bolor, abafa o mofo, asfixia e fermenta fragmentos de fragrâncias. Cheiro um palmo à frente do nariz, mim, imenso e imerso, bom. Bestas, feras entre flores festas circulam em jaula tripla — as piores, dupla as maiores; em gaiolas, as menores, à ventura — as melhores. Animais anormais engendra o equinócio, desleixo no eixo da terra, desvio das linhas de fato. Pouco mais que o nome o toupinambaoults lhes signou, suspensos apenas pelo nó do apelo. De longe, três pontos... Em foco, Tatu, esferas rolando de outras eras, escarafuncham mundos e fundos. Saem da mãe com setenta e um dentes, dos quais dez caem aí mesmo, vinte e cinco ao primeiro bocado de terra, vinte o vento leva, quatorze a água, e um desaparece num acidente. Um, na algaravia geral, por nome, Tamanduá, esparrama língua no pó de incerto inseto, fica de pé, zarolho de tão perto, cara a cara, ali, aí, esdruxula num acúmulo e se desfaz eclipsado em formigas. Pela ou na rama, voce mettalica longisonans, a araponga malha ferro frio, bentevi no mal-me-quer-bem-me-quer. A dois lances de pedra daqui, volta e meia, dois giros; meia volta, vultos a três por dois. De onde em onde, vão e vêm; de quando em vez, vêem o que tem. Perante o segundo elemento, a manada anda e desanda, papa e bebe, mama e baba. Depois da laguna, enchem a anterior lacuna. Anta, nunca a vi tão gorda. Nuvens que o gambá fede empalidecem o nariz das pacas. Capivara, estômago a sair pelas órbitas, ou, porque fartas se estatelam arrotando capinzais ou, como são sabem senão comer, jogam o gargalo para o alto, arreganhando a dentadura, tiriricas de estar sem fome. Ensy, joão chamado bobo, não tuge nem muge, não foge tiro, brilho nem barulho — gálbula, brachyptera, insectívora, taciturna, non scansoria, stupida — , para jogar sério a esmo. Monos se penteando espelham-se no banho das piranhas, cara quase rosto no quasequase das águas: agulhas fazem boa boca, botam mau olhado anulando-lhes a estampa, símios para sempre. Na aguada, o corpanzil réptil entretece lagartos e lagostas. Monstros da natura desvairada nestes ares, à tona, boquiaberta, à toa, cabisbaixa, o mesmo nenhum afã. Tira pestana ao sol uma jibóia que é só borboletas. Tucanos atrás dos canos, máscara sefardim, arcanos no tutano. Jibóia, no local do crime, desamarram espirais englobando cabras, ovelhas, bois. Chifres da boca para fora — esfinges bucefálicas entre aspas — decompõem pelos mangues o conteúdo: cospem cornos o dobro. Exorbitantes, duram contos de séculos, estabelece Marcgravf, na qualidade de profeta. Vegetam eternidades. Crias? Mudas? Cruzam e descruzam entre si? Não, esse pensamento, não, — é sístole dos climas e sintoma do calor em minha cabeça. Penso mas não compensa: a sibila me belisca, a pitonisa me hipnotiza, me obelisco, essa python medusa e visa, eu paro, viro paupau, pedrapedra. Dédalos de espelho de Elísio, torre babéu, hortus urbis diaboli, furores de Thule, delícias de Menrod, curral do pasmo, cada bicho silencia e seleciona andamentos e paramentos. Bichos bichando, comigo que se passa? Abrir meu coração a Artyczewski. Virá Artyczewski. Nossas manhãs de fala me faltam. Um papagaio pegou meu pensamento, amola palavras em polaco, imitando Articzewski (Cartepanie! Cartepanie!). Bestas geradas no mais aceso fogo do dia... Comer esses animais há de perturbar singularmente as coisas do pensar. Palmilho os dias entre essas bestas estranhas, meus sonhos se populam da estranha fauna e flora: o estalo de coisas, o estalido dos bichos, o estar interessante: a flora fagulha e a fauna floresce... Singulares excessos... In primis cogitationibus circa generationem animalium, de his omnibus non cogitavi. Na boca da espera, Articzewski demora como se o parisse, possesso desta erva de negros que me ministrou, — riamba, pemba, gingongó, chibaba, jererê, monofa, charula, ou pango, tabaqueação de toupinambaoults, gês e negros minas, segundo Marcgravf. Aspirar estes fumos de ervas, encher os peitos nos hálitos deste mato, a essência, a cabeça quieta, ofício de ofídio.
1 491
Gertrude Stein
Homens
Às vezes os homens estão beijando. Os homens estão às vezes beijando e às vezes bebendo. Os homens estão às vezes beijando uns aos outros e às vezes então há três deles e um deles está falando e dois deles estão beijando e ambos, ambos os dois que estão beijando, têm seus olhos cheios então de lágrimas neles.
Às vezes os homens estão bebendo e estão amando e um deles está falando e dois estão brigando e um dos dois está tão à frente que então eles estão se amando e estão dizendo todas as coisas um ao outro. Todos os três estão dizendo um ao outro qualquer coisa. Todos os três estão dizendo um ao outro qualquer coisa. Um deles está escutando um outro um. Um deles está escutando dois deles. Um não está escutando eles e ele tem lágrimas então lágrimas de torpor e eles estão todos os três bebendo e dizendo uns aos outros todas as coisas.
Um deles está então cheio dessa coisa muito cheio de lágrimas nele. Ele está muito cheio então e está ganhando tendo o outro derrubado no chão. Ele está cheio então e beijando o outro então certo então de que o outro é um que ouve todas as coisas. Ele está cheio então e o terceiro deles então é um que ele então não chegaria perto. Ele era um cheio então e o terceiro então está ocupando alguma coisa. O um que então é um cheio é um que está precisando então que o terceiro não ocupe coisa alguma. O terceiro está ocupando alguma coisa. O cheio era um cheio e estava partindo quando nem um sabia coisa alguma sabia que ele estava partindo.
Os três se amaram. Dois deles estavam amando.Um deles não estava amando e lembrava de todas as coisas e ocupava alguma coisa. Um deles estava amando e tinha derrubado um outro no chão e estava precisando de que o outro outro não ocupasse coisa alguma. O outro o que foi derrubado no chão estava então amando e estava então sabendo que o cheio estava então amando. Ele estava amando então e o cheio estava amando então e eles eram então os que estavam amando. Eles tinham estado se beijando e o que estava derrubado no chão era um que poderia ter derrubado o cheio no chão.
Outra vez, bem mais tarde cada um deles encontrou um dos três. O um que era um cheio de lágrimas vindo dele enquanto ele estava amando e beijando não encontrou o um que estava então ocupando alguma coisa. Ele encontrou o outro e não o encontrou outra vez. Ele era um cheio então e estava assim por não querer encontrar o um que estava então ocupando alguma coisa. Ele era sempre um cheio de alguma coisa. Ele era agora um cheio por não querer encontrar o um que estava então ocupando alguma coisa. Ele não o encontrou. Ele ficou bem cheio por uma vez tê-lo quase encontrado. Ele era um bem cheio então. Ele não foi então encontrá-lo, àquele que estava então ocupando alguma coisa.
Um dos três encontrou um deles e queria encontrá-lo de novo e estar amando de novo mesmo que eles não chegassem de novo a se beijar e a chorar. Ele encontrou o um que estava então cheio de ser o que não precisa estar amando qualquer um que ele tenha conhecido; o um que quis ser o que não gosta de beijar, que não gosta de qualquer um que tenha sido um. Ele não estava gostando daquele que era então um cheio de ser um a não gostar de qualquer um que tinha sido um. O um que estava encontrando com ele o um que era então um cheio não estava gostando dele, não estava gostando daquele cheio. Ele perdeu algo perdeu ser um gostando do outro ser um cheio de beijar e chorar. Ele perdeu algo, o um que encontrou o outro que então era um cheio perdeu gostar daquele, perdeu o outro sendo um cheio de amar e chorar.
O um que era um cheio por ser então um que não quer encontrar o que estava então ocupando alguma coisa, era então um cheio por não querer conhecer qualquer um que tivesse sido. Ele não estava querendo então encontrar o que estava então ocupando alguma coisa. Ele era um cheio então por ter este sentimento então nele. Ele estava chorando um tanto então por estar cheio.
Cada um dos três era um tal, tal eles eram então. Cada um deles, os três deles, queria dizer alguma coisa sendo um tal. Cada um dos três era um tal bebendo e amando e falando. Cada um deles, cada um dos três era um que bebia com o outro amava um dos três, amava dois dos três amava todos os três, beijava um deles, chorava um tanto então. Cada um dos três era um tal. Cada um dos três queria dizer alguma coisa sendo um tal.
O um que estava ocupando alguma coisa era um tal sendo um a beber e a falar e a ouvir e a ocupar então alguma coisa, ocupar sendo um tal, um a beber e a ouvir e a falar, a ocupar completamente sendo um tal.
Ele era um a ocupar alguma coisa. Ele era um a ocupar sendo um tal, um a beber e a amar por escutar e por falar. Ele era um a ocupar sendo um tal a ocupar completamente sendo um tal, a beber e a amar por estar escutando e por estar falando.
Ele era um tencionando essa coisa por ser um tal tencionando ser um a ocupar completamente sendo um tal, amando por escutar, amando por falar, amando por beber. Ele estava ocupando plenamente sendo um tal e estava plenamente tencionando essa coisa por ser um tal, tencionando ser um a amar por ser um a escutar, por ser um a falar, por ser um a beber.
Ele era um tal, ele estava ocupando completamente sendo um tal, ele estava plenamente tencionando ser um tal. Ele estava completamente ocupando um tal e ele estava então ocupando alguma coisa, ele estava então ocupando alguma coisa e ele era então para o cheio, o que então precisava não estar encontrando ele, ele era para aquele um a ocupar alguma coisa onde ele o então cheio precisava ter todas as coisas em volta dele para que pudesse ser um a deixá-las para trás. Ele estava então ocupando alguma coisa o que poderia estar encontrando o que era então o cheio por ser o que precisava não estar encontrando ele, ele estava então ocupando alguma coisa e sendo um então a amar por beber, a amar por escutar, a amar por falar. Ele poderia então estar ocupando alguma coisa e tendo então o que era o cheio por precisar não estar encontrando ele, tendo o cheio então ser o que ele era ao ter um como aquele com quem ele poderia estar se encontrando outra vez, sendo um tencionando ocupar alguma coisa.
Ele era um completamente sendo um tal. Ele era um a tencionar completamente por ser um tal. Ele era um a ocupar alguma coisa por ser um amando por beber, amando por ouvir, amando por falar. Ele estava tencionando sendo um tal. Ele estava tencionando ao ser um tal. Ele era um tal.
O que foi derrubado no chão por ser um que vem amando e beijando e bebendo poderia ter derrubado no chão o que tinha então derrubado ele no chão. Ele poderia ter derrubado no chão o que derrubou ele no chão, e então ele o amou e ele o beijou, e eles então disseram que ambos então sabiam todas as coisas. Ele poderia ter derrubado no chão o que derrubou ele no chão e ele então não estaria amando e beijando e sabendo então todas as coisas. Às vezes, ele era um a derrubar alguém no chão e sendo um então a deixar alguém cair e sendo um então a saber alguma coisa. Ele estava então quando foi derrubado no chão pelo que ele poderia ter derrubado no chão ele estava então amando e beijando e eles estavam então sabendo de todas as coisas. Ele era um tal e era um que estava tencionando ao ser um sendo um tal. Ele era um que vinha sendo um tal e sendo um tal e sendo um a lembrar que se tornou um tal, e sendo um tal, e estando bebendo e beijando e amando ao estar tencionando ao ser um tal e ser então um tal, e ser então um que poderia ter derrubado no chão o outro e ser então o que foi derrubado no chão pelo que ele estava beijando então e amando então e eles estavam então sabendo todas as coisas, ele estava se lembrando que ele era o que era um tal. Eles estavam então sabendo todas as coisas e ele estava então se lembrando de todas as coisas e o outro depois estava cheio então por ser o que não se lembra de coisa alguma por ser o que não precisa estar lembrando de qualquer um ao ser um que tenha sido. Ele era o que tinha derrubado no chão o outro e o outro poderia ter derrubado ele no chão. Ele tinha derrubado no chão o outro e eles estavam então se beijando e amando e sabendo de todas as coisas.
Ele era um cheio e tinha derrubado no chão o outro. Ele era um cheio e era um tal. Ele era um tal e estava se lembrando de ter tencionado ao ser um tal. Ele não estava se lembrando de todas as coisas.
Ele tinha sido um tal um tal a amar. Ele tinha estado beijando então e bebendo então com lágrimas então surgindo nele. Ele tinha lágrimas ocupando ele quando ele estava se lembrando, quando ele não estava se lembrando sendo um tal. Ele era um cheio por ser um com lágrimas transbordando dele. Ele era um cheio por estar se lembrando, ele era um cheio por não estar se lembrando de ser um tal. Ele era um cheio de lágrimas inchando ele. Ele era um cheio de lágrimas escapando dele. Ele era um cheio de lágrimas sobrando nele. Ele era um que poderia ser um cheio por querer ter derrubado alguém no chão e ser um a chorar então. Ele poderia se lembrar de alguma coisa. Ele se lembrou de alguma coisa. Ele não se lembraria de todas as coisas. Ele seria um tal e seria um cheio estando completo então por ser um tal. Ele era um cheio por ser um a derrubar no chão o outro e admirar então o que tinha sido derrubado por ele. Ele estava sendo um tal. Ele estava tencionando alguma coisa ao ser um tal. Intencionava-se ao ser um tal .
Intencionava-se ao ser um tal e tantos se lembraram daquilo, se lembraram de que ele era um tal e de que se intencionava aquela coisa, intencionava-se ao ser um tal.
Ele era um tal e tinha tencionado ao ser um tal, intencionado ser um tal ao ser um tal. Ele estava se lembrando dessa coisa se lembrando de que ele era um tal. Ele se lembrou dessa coisa, ele se lembrou de que ele tinha tencionado ao ser um tal.
Ele estava tencionando outra vez ao ser um tal e estava se lembrando de que ele tinha mencionado outra vez que ele era um tal. Ele estava se lembrando outra vez de que ele era um tal e ele estava se lembrando outra vez de que ele estava tencionando. Ele era um tal.
Ele era um tal e estava se lembrando daquela coisa sendo um cheio. Ele era um cheio sendo um tal. Ele era um cheio se lembrando de ser um tal.
Ele era um cheio se lembrando de que ele não estava encontrando qualquer um que tenha sido. Ele era um cheio se lembrando de que ele poderia encontrar qualquer um que tenha ocupado alguma coisa. Ele era um cheio por estar chorando. Ele era um cheio. Ele estava se lembrando de alguma coisa ao ser um cheio. Ele estava se lembrando de ser um tal.
Ele estava se lembrando de ser um tal. Ele estava se lembrando de alguma coisa. Ele estava se lembrando de ter tencionando ao ser um tal. Ele era um tal. Qualquer um era um não se esquecendo outra vez de que ele era um tal. Ele era um não se esquecendo outra vez de que ele era um tal. Ele era um não derrubando um outro no chão e sendo então o cheio por não se tornar um a jamais fazer uma tal coisa. Ele era um cheio sendo um outra vez então não encontrando qualquer um que ele não tenha derrubado no chão. Ele era um cheio sendo um então encontrando outra vez o um que ele não chegou a derrubar no chão e sendo um não encontrando aquele outra vez. Ele era um tal. Ele estava se lembrando de alguma coisa.
Nem um dos três encontrou coisa algum de nem um outro deles. Qualquer um deles era um encontrando um outro. Qualquer um dos três era um tal.
Qualquer um dos três estava tencionando ser um tal. Qualquer um dos três era um tencionando alguma coisa sendo um tal. Qualquer um dos três estava sendo um a ser um tal. Cada um dos três era um sendo um do seu jeito. Cada um dos três era de um jeito diferente dos outros três. Cada um dos três era um tal.
.
.
.
Sobre as tradutoras:
Marília Garcia é coeditora daModo de Usar & Co. Nasceu no Rio de Janeiro, em 1979. Publicou os livrosEncontro às cegas (Rio de Janeiro: Moby Dick, 2001) e20 poemas para o seu walkman (SP/RJ: Cosac Naify/7Letras, 2007). Participou do Festival de Poesia Latino-americanaSalida al Mar, em Buenos Aires, e está entre os poetas convidados para o Festival Europalia na Bélgica, dedicado este ano ao Brasil. A poeta, tradutora e editora vive e trabalha no Rio de Janeiro.
1 563
Barbara Guest
Perdendo pessoas
para Ira Morris
Os dias em que você tenta recompor
as ideias são dias perdidos
porém simples como sanduíche
de três camadas a mordida
isto é fácil
Perda
"pura" perda
você comparece à sua reconstrução
na qual você é três pessoas e também
um sanduíche
Perda
não ouvir uma voz
outra vez como trenodia
Perda
você começa a rimá-la com paredes
ou graxa de sapato
Perda
da sua presença com um trote
e matizes
a superfície de pessoas
em restaurantes comendo sanduíches
elas sabem que há um carro estacionado lá fora
Ó imagens viscosas e audazes com o apertão
de um garfo dentro de suas coxas que se deleitam
de atmosfera e clima real
missões
por sobre as curvas contrárias bem como a água
que passa este dia
por debaixo da ponte:
você resolveu
a pedra
não mais sustenta a ponte
bom. Ira morreu.
:
Losing people (in Moscow Mansions, 1973)
for Ira Morris
The days when you try to recover
your wits are lost days
yet simple as sandwich
of three layers the crunch
that’s easy
Loss
“pure” loss
you attend its reconstruction
where you are three persons also
a sandwich
Loss
not hearing a voice
again as threnody
Loss
you begin to rhyme it with walls
or shoeshine
Loss
of your presence with a gait
and hues
the surface of persons
in restaurants eating sandwiches
they know there is a car parked outside
O images viscous and daring with the squeeze
of a fork inside your thighs that are delighted
with atmosphere and real weather
missions
over the backward curves rather like water
that moves this day
under the bridge:
you decided
the stone
no longer supports the bridge
well. Ira died.
Os dias em que você tenta recompor
as ideias são dias perdidos
porém simples como sanduíche
de três camadas a mordida
isto é fácil
Perda
"pura" perda
você comparece à sua reconstrução
na qual você é três pessoas e também
um sanduíche
Perda
não ouvir uma voz
outra vez como trenodia
Perda
você começa a rimá-la com paredes
ou graxa de sapato
Perda
da sua presença com um trote
e matizes
a superfície de pessoas
em restaurantes comendo sanduíches
elas sabem que há um carro estacionado lá fora
Ó imagens viscosas e audazes com o apertão
de um garfo dentro de suas coxas que se deleitam
de atmosfera e clima real
missões
por sobre as curvas contrárias bem como a água
que passa este dia
por debaixo da ponte:
você resolveu
a pedra
não mais sustenta a ponte
bom. Ira morreu.
:
Losing people (in Moscow Mansions, 1973)
for Ira Morris
The days when you try to recover
your wits are lost days
yet simple as sandwich
of three layers the crunch
that’s easy
Loss
“pure” loss
you attend its reconstruction
where you are three persons also
a sandwich
Loss
not hearing a voice
again as threnody
Loss
you begin to rhyme it with walls
or shoeshine
Loss
of your presence with a gait
and hues
the surface of persons
in restaurants eating sandwiches
they know there is a car parked outside
O images viscous and daring with the squeeze
of a fork inside your thighs that are delighted
with atmosphere and real weather
missions
over the backward curves rather like water
that moves this day
under the bridge:
you decided
the stone
no longer supports the bridge
well. Ira died.
763
Kenneth Rexroth
Perdidos Etc.
Os expatriados dos anos
Vinte e seu líder Pound
Foram aqueles que, em tempos de
Revolta mundial, não acharam nada
Melhor pra combater
Que a lei seca.
LOST ETC.
The expatriates of the
Twenties and their leader Pound
Were those who, in an age of
World revolt, found nothing more
Important to revolt against
Than the Eighteenth Amendment.
Vinte e seu líder Pound
Foram aqueles que, em tempos de
Revolta mundial, não acharam nada
Melhor pra combater
Que a lei seca.
LOST ETC.
The expatriates of the
Twenties and their leader Pound
Were those who, in an age of
World revolt, found nothing more
Important to revolt against
Than the Eighteenth Amendment.
1 044
Kenneth Rexroth
Perdidos Etc.
Os expatriados dos anos
Vinte e seu líder Pound
Foram aqueles que, em tempos de
Revolta mundial, não acharam nada
Melhor pra combater
Que a lei seca.
LOST ETC.
The expatriates of the
Twenties and their leader Pound
Were those who, in an age of
World revolt, found nothing more
Important to revolt against
Than the Eighteenth Amendment.
Vinte e seu líder Pound
Foram aqueles que, em tempos de
Revolta mundial, não acharam nada
Melhor pra combater
Que a lei seca.
LOST ETC.
The expatriates of the
Twenties and their leader Pound
Were those who, in an age of
World revolt, found nothing more
Important to revolt against
Than the Eighteenth Amendment.
1 044
Paulo Leminski
a gente ia ser homero
um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
3 759
Yannis Ritsos
Os Modelos
Não esqueçamos nunca - disse - as boas lições, aquelas
da arte dos Gregos. Sempre o celeste lado a lado
com o quotidiano. Ao lado do homem, o animal e a coisa —
uma pulseira no braço da deusa nua; uma flor
caída no chão. Recordai as formosas representações
nos nossos vasos de barro — os deuses com os pássaros e com outros animais,
e juntamente a lira, um martelo, uma maçã, a arca, as tenazes;
ah! e aquele poema em que o deus, ao terminar o trabalho,
retira o fole de junto do fogo, recolhe uma a uma as ferramentas
dentro da arca de prata; depois, com uma esponja, limpa
o rosto, as mãos, o pescoço nervudo, o peito peludo.
Assim, limpo, bem arranjado, sai à tardinha, apoiado
nos ombros de efebos todos de oiro — trabalhos de suas mãos
que têm força, e pensamento, e voz; — sai para a rua,
mais magnífico que todos, o deus coxo, o deus operário.
(tradução de Custódio Magueijo)
1 128
Kenneth Rexroth
Num Cemitério Militar
Estranho, quando vier a Washington
Diga a eles que aqui deitados
Aguardamos suas ordens.
c/ Simônides
ON A MILITARY GRAVEYARD
Stranger, when you come to Washington
Tell them that we lie here
Obedient to their orders.
after Simonides
658
Kenneth Rexroth
Num Cemitério Militar
Estranho, quando vier a Washington
Diga a eles que aqui deitados
Aguardamos suas ordens.
c/ Simônides
ON A MILITARY GRAVEYARD
Stranger, when you come to Washington
Tell them that we lie here
Obedient to their orders.
after Simonides
658
Barbara Guest
Uma razão
É por isso que estou aqui
não entre os íbis. Por que
a perene sombrinha da cidade
cobre até a mim.
Foram as chuvas
na estação oculta. Foram as neves
nas escarpas inferiores. Foi água
e neve na minha boca.
Uma falta de sapatos
sobre o que pareciam ser pedrinhas
que eram ainda antiguidade
Bom brava brava qualquer coisa
em bruto mais silente azul
o vaso prende os caules
pétalas caem o crisântemo escurece
Por vezes esta sensação mostarda
apanha a mim também. Meu sono se calcula
aos canudos
Contudo acordo
e me seguem pela rua.
A reason (in The Blue Stairs, 1968)
That is why I am here
not among the ibises. Why
the permanent city parasol
covers even me.
It was the rains
in the occult season. It was the snows
on the lower slopes. It was water
and cold in my mouth.
A lack of shoes
on what appeared to be cobbles
which were still antique
Well wild wild whatever
in wild more silent blue
the vase grips the stems
petals fall the chrysanthemum darkens
Sometimes this mustard feeling
clutches me also. My sleep is reckoned
in straws
Yet I wake up
and am followed into the street.
não entre os íbis. Por que
a perene sombrinha da cidade
cobre até a mim.
Foram as chuvas
na estação oculta. Foram as neves
nas escarpas inferiores. Foi água
e neve na minha boca.
Uma falta de sapatos
sobre o que pareciam ser pedrinhas
que eram ainda antiguidade
Bom brava brava qualquer coisa
em bruto mais silente azul
o vaso prende os caules
pétalas caem o crisântemo escurece
Por vezes esta sensação mostarda
apanha a mim também. Meu sono se calcula
aos canudos
Contudo acordo
e me seguem pela rua.
:
A reason (in The Blue Stairs, 1968)
That is why I am here
not among the ibises. Why
the permanent city parasol
covers even me.
It was the rains
in the occult season. It was the snows
on the lower slopes. It was water
and cold in my mouth.
A lack of shoes
on what appeared to be cobbles
which were still antique
Well wild wild whatever
in wild more silent blue
the vase grips the stems
petals fall the chrysanthemum darkens
Sometimes this mustard feeling
clutches me also. My sleep is reckoned
in straws
Yet I wake up
and am followed into the street.
716
Isabel Câmara
Light-cock-song
só para gênios, tímidos
e alguns porcos chauvinistas
desses que o padre vem me
benzer todo dia, e que quando
não vem ele cá vou eu lá:
Leva este caralho compra-me um maço
de cigarros Continental, umas cem
gramas de alho e o tempero, que te der na cuca.
E se o dinheiro render, um lacinho de fita
de seda ou crepom. Depois, na saída do cinema,
vem cedo pra casa, me leva pra cama, sem se
esquecer que o alho é para um aglio-olio.
e alguns porcos chauvinistas
desses que o padre vem me
benzer todo dia, e que quando
não vem ele cá vou eu lá:
Leva este caralho compra-me um maço
de cigarros Continental, umas cem
gramas de alho e o tempero, que te der na cuca.
E se o dinheiro render, um lacinho de fita
de seda ou crepom. Depois, na saída do cinema,
vem cedo pra casa, me leva pra cama, sem se
esquecer que o alho é para um aglio-olio.
870
Isabel Câmara
Lençóis
Aos domingos se vai ao longe. . .
Lavam-se panos brancos e os
denominamos roupas de cama:
Roupas de baixo
Roupas de cima –
Coisas da Casa
Aos Domingos todos se cansam cedo:
há enlaces matutinos
e muitos hinos.
Aos domingos há missa, música
entreveros. Há quem chore
nalguma hora e há também
possibilidades novas:
Há pares, bares, porres.
Aos domingos semeiam
as lavadeiras
seus azuis/brancos lençóis
lúcidos dos dias de semana.
Para elas lençóis
Prata da Casa
Lençóis louça de Porcelana
Lavam-se panos brancos e os
denominamos roupas de cama:
Roupas de baixo
Roupas de cima –
Coisas da Casa
Aos Domingos todos se cansam cedo:
há enlaces matutinos
e muitos hinos.
Aos domingos há missa, música
entreveros. Há quem chore
nalguma hora e há também
possibilidades novas:
Há pares, bares, porres.
Aos domingos semeiam
as lavadeiras
seus azuis/brancos lençóis
lúcidos dos dias de semana.
Para elas lençóis
Prata da Casa
Lençóis louça de Porcelana
930