Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Isabella Motadinyane
Quieta bebê
Quieta bebê
anda alta
assovios aqui e ali
sorrindo feito estrela
com o rosto redondo
bebê de covinhas na bochecha
que prendem os olhos
nós vimos seu trabalho aqui
no campo
aqueles que dizem
que você é feia
são uns tolos
deixe-os no equívoco deles
brilha bela e ensolara
ho ha
quieta bebê
ho ha
a propósito
você é a número 1
anda alta bebê
brilha bela e ensolara
quieta bebê
ho ha
donde você se vai
ficam para trás estrelas
fala clã de Mohlakwana
fala clã de Mofokeng
nós vimos seu trabalho
presentes de núpcias
estão a caminho
vai irmã deixe-os zonzos
deixe-os tontos boneca
eles chegaram agora
os que tocarão sax para você
(paráfrase de Ricardo Domeneck)
:
Hoshe ngwana
Isabella Motadinyane
Hoshe ngwana
qata o qatoge
melodi kafa le fa
ngwana dikoti marameng
pososelo eka naledi
sefahlelo sone
botjhitja bo kgatlang mahlo
re bone mesebetsi ya hao
naheng mona
ba reng
o sekobo
ke baikaketsi
ba lese ba iphore jaalo
shine bright sunbeam
hoha
kana wena o motswa mantlha
qata o qatoge thope
shine bright sunbeam
hoshe thope
hoha
moo o fetileng
ho sala dinaledi
thebetha Mohlakwana
thebetha Mofokeng
re bone mesebetse ya hao
digaboi di dizzie ousie
slaat hulle giddy poppy
ba fehlile jwale
ba ho bapallang
.
.
.
anda alta
assovios aqui e ali
sorrindo feito estrela
com o rosto redondo
bebê de covinhas na bochecha
que prendem os olhos
nós vimos seu trabalho aqui
no campo
aqueles que dizem
que você é feia
são uns tolos
deixe-os no equívoco deles
brilha bela e ensolara
ho ha
quieta bebê
ho ha
a propósito
você é a número 1
anda alta bebê
brilha bela e ensolara
quieta bebê
ho ha
donde você se vai
ficam para trás estrelas
fala clã de Mohlakwana
fala clã de Mofokeng
nós vimos seu trabalho
presentes de núpcias
estão a caminho
vai irmã deixe-os zonzos
deixe-os tontos boneca
eles chegaram agora
os que tocarão sax para você
(paráfrase de Ricardo Domeneck)
:
Hoshe ngwana
Isabella Motadinyane
qata o qatoge
melodi kafa le fa
ngwana dikoti marameng
pososelo eka naledi
sefahlelo sone
botjhitja bo kgatlang mahlo
re bone mesebetsi ya hao
naheng mona
ba reng
o sekobo
ke baikaketsi
ba lese ba iphore jaalo
shine bright sunbeam
hoha
kana wena o motswa mantlha
qata o qatoge thope
shine bright sunbeam
hoshe thope
hoha
moo o fetileng
ho sala dinaledi
thebetha Mohlakwana
thebetha Mofokeng
re bone mesebetse ya hao
digaboi di dizzie ousie
slaat hulle giddy poppy
ba fehlile jwale
ba ho bapallang
.
.
.
923
Thomas Brasch
Seis sentenças sobre Sofia
1.
Em Hamburgo vive a filha de um milionário em um quarto minúsculo e de seu ventre quente ainda me lembro.
2.
Ele era macio sob a blusa branca.
3.
Houvesse me casado com ela e com o dinheiro de seu pai, não escreveria poemas sobre ela, mas em vez disso estaria meditando sobre as formas poéticas do século XXI.
4.
Melhor: eu me lembro de seu ventre quente.
5.
Sofia, eu havia, Sofia, menina rica, Sofia, te imaginado mais fria.
6.
Em Hamburgo vive a filha de um milionário com um engenheiro de som em seu quarto minúsculo e de seu ventre e de sua conta bancária ainda me lembro.
Em Hamburgo vive a filha de um milionário em um quarto minúsculo e de seu ventre quente ainda me lembro.
2.
Ele era macio sob a blusa branca.
3.
Houvesse me casado com ela e com o dinheiro de seu pai, não escreveria poemas sobre ela, mas em vez disso estaria meditando sobre as formas poéticas do século XXI.
4.
Melhor: eu me lembro de seu ventre quente.
5.
Sofia, eu havia, Sofia, menina rica, Sofia, te imaginado mais fria.
6.
Em Hamburgo vive a filha de um milionário com um engenheiro de som em seu quarto minúsculo e de seu ventre e de sua conta bancária ainda me lembro.
1 103
Raymond Federman
Diga-lhes
Diga-lhes
àqueles de viagem
com você agora
milhas a-
dentro
do imperdoável
como fomos nós
(que sempre os
acompanhamos)
que com força
os afundamos
ainda mais longe
nas funduras
onde encontraram
nossos amaríssimos
sonhos
e também os
dulcíssimos
e como mais tarde
mais tarde
de um lado a outro
de um lado a outro
no oco de nossos
nomes inextinguíveis
aprendemos juntos
a voar de novo
juntos
em nosso nome
(tradução de Ricardo Domeneck)
àqueles de viagem
com você agora
milhas a-
dentro
do imperdoável
como fomos nós
(que sempre os
acompanhamos)
que com força
os afundamos
ainda mais longe
nas funduras
onde encontraram
nossos amaríssimos
sonhos
e também os
dulcíssimos
e como mais tarde
mais tarde
de um lado a outro
de um lado a outro
no oco de nossos
nomes inextinguíveis
aprendemos juntos
a voar de novo
juntos
em nosso nome
(tradução de Ricardo Domeneck)
949
Dantas Motta
Noturno paulistano n° 1
No Madrugada's Bar ou no Bar Madrugada.
Entre a noite que veio e ela que não vem
E esta lua negra, de papelão, à parede,
As garrafas, sobre a mesa,
Formam um campo de petróleo.
A triste mulher da vida — Nilda —
Esculacha, bem em frente a mim,
O tango argentino intitulado A media luz.
As considerações, cada vez mais sábias,
E sombrias, à medida que a bebida
Vai aumentando o poder de certas dores,
Secretas e violáveis, contudo impublicáveis,
Provam apenas que o mundo continua,
E que as desgraças, como as despesas,
Inevitáveis, são sempre inúteis e iguais.
Entre a noite que veio e ela que não vem
E esta lua negra, de papelão, à parede,
As garrafas, sobre a mesa,
Formam um campo de petróleo.
A triste mulher da vida — Nilda —
Esculacha, bem em frente a mim,
O tango argentino intitulado A media luz.
As considerações, cada vez mais sábias,
E sombrias, à medida que a bebida
Vai aumentando o poder de certas dores,
Secretas e violáveis, contudo impublicáveis,
Provam apenas que o mundo continua,
E que as desgraças, como as despesas,
Inevitáveis, são sempre inúteis e iguais.
807
Vasko Popa
Dente de leão
Na beira do passeio
No fim do mundo
Olho amarelo da solidão
Cegos pés
Apertam-lhe o pescoço
No abdômen de pedra
Cotovelos subterrâneos
Empurram suas raízes
Para o húmus do céu
Pata canina ereta
Faz-lhe troça
Com o aguaceiro recozido
Contenta-o apenas
O olhar sem dono do passante
Que em sua coroa
Pernoita
E assim
A ponta de cigarro vai queimando
No lábio inferior da impotência
No fim do mundo
No fim do mundo
Olho amarelo da solidão
Cegos pés
Apertam-lhe o pescoço
No abdômen de pedra
Cotovelos subterrâneos
Empurram suas raízes
Para o húmus do céu
Pata canina ereta
Faz-lhe troça
Com o aguaceiro recozido
Contenta-o apenas
O olhar sem dono do passante
Que em sua coroa
Pernoita
E assim
A ponta de cigarro vai queimando
No lábio inferior da impotência
No fim do mundo
1 085
Konstantínos Kaváfis
Nos Arrabaldes de Antióquia
Ficámos siderados em Antióquia
com as últimas façanhas de Juliano.
Apolo "pessoalmente" em Dafne lhe dissera
que mais não proferia (forte pena!)
oráculo nenhum, enquanto o templo
não fosse, em Dafne, purificado.
Os mortos em redor incomodavam-no.
Em Dafne havia numerosos túmulos.
E um dos que lá estavam sepultados
era o magnífico – de nossa fé a glória -
Babilas, santo e triunfante mártir.
O falso deus a ele se referia, a ele é que temia,
enquanto ao pé o sentisse, não proferiria
oráculos: ficava mudo e quedo.
(Que os falsos deuses temem nossos mártires!)
O Apóstata Juliano arregaçou as mangas…
Todo irritado, vocifera: "Levem-no,
tirem daqui, quanto antes, o Babilas.
Não me ouvem? O grande Apolo está inquieto.
Levem-no sem demora, tirem-no daqui.
Desenterrem-no e levem-no para onde queiram.
Que é brincadeira julgam? Façam o que eu mando.
Apolo quer purificado o templo."
E assim exumámos as santas relíquias,
com honras devotas nós as transladámos.
O que afinal aproveitou ao templo!…
Não tardou um instante, e um fogo começou,
um grande incêndio que alastrou terrível:
e o templo ardeu e Apolo ardeu também.
A imagem? – cinza p'ra varrer no lixo.
Juliano esteve a ponto de estourar, e fez correr -
- que havia ele de fazer? – que o fogo fora posto
por nós, Cristãos, é claro. Deixem-no falar.
De resto, nada se provou. Que fale…
O caso é que por pouco não estourou de raiva.
[1933]
com as últimas façanhas de Juliano.
Apolo "pessoalmente" em Dafne lhe dissera
que mais não proferia (forte pena!)
oráculo nenhum, enquanto o templo
não fosse, em Dafne, purificado.
Os mortos em redor incomodavam-no.
Em Dafne havia numerosos túmulos.
E um dos que lá estavam sepultados
era o magnífico – de nossa fé a glória -
Babilas, santo e triunfante mártir.
O falso deus a ele se referia, a ele é que temia,
enquanto ao pé o sentisse, não proferiria
oráculos: ficava mudo e quedo.
(Que os falsos deuses temem nossos mártires!)
O Apóstata Juliano arregaçou as mangas…
Todo irritado, vocifera: "Levem-no,
tirem daqui, quanto antes, o Babilas.
Não me ouvem? O grande Apolo está inquieto.
Levem-no sem demora, tirem-no daqui.
Desenterrem-no e levem-no para onde queiram.
Que é brincadeira julgam? Façam o que eu mando.
Apolo quer purificado o templo."
E assim exumámos as santas relíquias,
com honras devotas nós as transladámos.
O que afinal aproveitou ao templo!…
Não tardou um instante, e um fogo começou,
um grande incêndio que alastrou terrível:
e o templo ardeu e Apolo ardeu também.
A imagem? – cinza p'ra varrer no lixo.
Juliano esteve a ponto de estourar, e fez correr -
- que havia ele de fazer? – que o fogo fora posto
por nós, Cristãos, é claro. Deixem-no falar.
De resto, nada se provou. Que fale…
O caso é que por pouco não estourou de raiva.
[1933]
1 317
Konstantínos Kaváfis
Nos Arrabaldes de Antióquia
Ficámos siderados em Antióquia
com as últimas façanhas de Juliano.
Apolo "pessoalmente" em Dafne lhe dissera
que mais não proferia (forte pena!)
oráculo nenhum, enquanto o templo
não fosse, em Dafne, purificado.
Os mortos em redor incomodavam-no.
Em Dafne havia numerosos túmulos.
E um dos que lá estavam sepultados
era o magnífico – de nossa fé a glória -
Babilas, santo e triunfante mártir.
O falso deus a ele se referia, a ele é que temia,
enquanto ao pé o sentisse, não proferiria
oráculos: ficava mudo e quedo.
(Que os falsos deuses temem nossos mártires!)
O Apóstata Juliano arregaçou as mangas…
Todo irritado, vocifera: "Levem-no,
tirem daqui, quanto antes, o Babilas.
Não me ouvem? O grande Apolo está inquieto.
Levem-no sem demora, tirem-no daqui.
Desenterrem-no e levem-no para onde queiram.
Que é brincadeira julgam? Façam o que eu mando.
Apolo quer purificado o templo."
E assim exumámos as santas relíquias,
com honras devotas nós as transladámos.
O que afinal aproveitou ao templo!…
Não tardou um instante, e um fogo começou,
um grande incêndio que alastrou terrível:
e o templo ardeu e Apolo ardeu também.
A imagem? – cinza p'ra varrer no lixo.
Juliano esteve a ponto de estourar, e fez correr -
- que havia ele de fazer? – que o fogo fora posto
por nós, Cristãos, é claro. Deixem-no falar.
De resto, nada se provou. Que fale…
O caso é que por pouco não estourou de raiva.
[1933]
com as últimas façanhas de Juliano.
Apolo "pessoalmente" em Dafne lhe dissera
que mais não proferia (forte pena!)
oráculo nenhum, enquanto o templo
não fosse, em Dafne, purificado.
Os mortos em redor incomodavam-no.
Em Dafne havia numerosos túmulos.
E um dos que lá estavam sepultados
era o magnífico – de nossa fé a glória -
Babilas, santo e triunfante mártir.
O falso deus a ele se referia, a ele é que temia,
enquanto ao pé o sentisse, não proferiria
oráculos: ficava mudo e quedo.
(Que os falsos deuses temem nossos mártires!)
O Apóstata Juliano arregaçou as mangas…
Todo irritado, vocifera: "Levem-no,
tirem daqui, quanto antes, o Babilas.
Não me ouvem? O grande Apolo está inquieto.
Levem-no sem demora, tirem-no daqui.
Desenterrem-no e levem-no para onde queiram.
Que é brincadeira julgam? Façam o que eu mando.
Apolo quer purificado o templo."
E assim exumámos as santas relíquias,
com honras devotas nós as transladámos.
O que afinal aproveitou ao templo!…
Não tardou um instante, e um fogo começou,
um grande incêndio que alastrou terrível:
e o templo ardeu e Apolo ardeu também.
A imagem? – cinza p'ra varrer no lixo.
Juliano esteve a ponto de estourar, e fez correr -
- que havia ele de fazer? – que o fogo fora posto
por nós, Cristãos, é claro. Deixem-no falar.
De resto, nada se provou. Que fale…
O caso é que por pouco não estourou de raiva.
[1933]
1 317
Pedro Casariego Córdoba
16de julho
mãe
arranque a partir de hoje a coroa
de rainha da insônia
porque é uma coroa falsa
nem uma única pedra preciosa
e mesmo assim
quando não pode dormir
você se converte na enfermeira do céu
médico de cabeceira dos cometas
nuvens sensíveis
estrelas que têm febre
como se compadece o sonho
aquele que congela suas mãos
suas mãos fundas de beleza
de rastelo
de tesouras de duas luas
dois jardins suas mãos quando regam
dez flores seus dedos quando plantam
algo um bulbo?
que parece uma toupeira
tão fechada em si
como uma noz
e que
com certeza
se abrirá amanhã
para soltar um pássaro de pétalas
o pássaro há de tossir um pouco
pedirá um cigarro
e dirá
que lhe observa quando você não pode dormir
e que
bem no momento em que consegue domir
aparece no calor do céu de verão
uma estrela nova e fraquíssima
talvez por isso lhe custe tanto dormir
iluminar uma estrela ferida
fazer curativos na perna quebrada de uma estrela acrobata demais
não está ao alcance dos que dormem como pedras
dos que se esquecem das pernas alheias
as penas alheias
as próprias penas
mãe
creio em sua coragem
creio
:
16DE JULIO // madre / quítate desde hoy la corona / de reina delinsomnio / porque es una corona falsa / ni una sola piedra preciosa /y sin embargo / cuando no puedes dormirte / te conviertes en laenfermera del cielo / médico de cabecera de los cometas / nubesdelicadas / estrellas que tienen fiebre // qué compasivo es el sueño/ el que congela tus manos / tus manos hondas de belleza / derastrillo / de tijeras de dos lunas // dos jardines tus manos cuandoriegan / diez flores tus dedos cuando plantam / algo ¿un bulbo? /que parece un topo / tan encerrado en sí mismo / como una nuez / yque / seguro / mañana se abrirá / para soltar un pájaro de pétalos/ el pájaro toserá un poco / te pedirá un cigarrillo / y te dirá/ que te mira cuando no puedes dormir / y que / justo cuandoconsigues dormirte / aparece entre el calor del cielo de verano / unaestrella nueva y debilísima // quizá por eso te cueste tantodormirte / alumbrar una estrella herida / vendar la pierna rota deuna estrella demasiado saltimbanqui / no está al alcance de los queduermen a pierna suelta / de los que olvidan las piernas de los otros/ las penas de los otros / sus propias penas / madre / creo en tucoraje / creo
.
.
.
697
Heiner Müller
A sós com estes corpos
Governos utopias
Cresce a grama
Entre os trilhos
As palavras apodrecem
No papel
Os olhos das mulheres
Ficam frios
Adeus amanhã
STATUS QUO
:
ALLEIN MIT DIESEN LEIBERN
Staaten Utopien
Gras wächst
Auf den Gleisen
Die Wörter verfaulen
Auf den Papier
Die Augen der Frauen
Werden kälter
Abschied von morgen
STATUS QUO
831
Rose Ausländer
Ainda estás aqui
Lança teu medo
aos ares
Em breve
acaba teu tempo
em breve
cresce o céu
sob a grama
despencam teus sonhos
nenhures
Ainda
cheira o cravo
canta o melro
ainda tens um amante
e palavras para doar
ainda estás aqui
Sê o que és
Dá o que tens
Noch bist du da
Wirf deine Angst
in die Luft
Bald
ist deine Zeit um
bald
wächst der Himmel
unter dem Gras
fallen deine Träume
ins Nirgends
Noch
duftet die Nelke
singt die Drossel
noch darfst du lieben
Worte verschenken
noch bist du da
Sei was du bist
Gib was du hast
874
Vasko Popa
Trepadeira
Filha mais doce
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos
908
Vasko Popa
Trepadeira
Filha mais doce
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos
908
Giorgio Caproni
Despedida do viajante cerimonioso
Amigos, creio que para
mim seja melhor começar
a descer a bagagem.
Embora não saiba a hora
da chegada, nem
conheça que estações
antecedem a minha,
seguros sinais me dizem,
pelo que me chegou aos ouvidos
desses lugares, que em
breve deverei deixá-los.
Queiram-me perdoar
qualquer incômodo que causo.
Com vocês fui feliz
desde a partida, e muito
lhes sou grato, acreditem,
pela boa companhia.
Queria ainda conversar
bastante com vocês. Mas seja.
O local da transferência
eu desconheço. Sinto,
porém, que me lembrarei
de todos na nova sede,
enquanto meu olho já vê
pela janela, além do vapor
úmido da neblina
que nos envolve, o disco
vermelho de minha estação.
Me despeço de todos
sem poder ocultar-lhes,
leve, uma consternação.
Era tão bom conversar
juntos, sentados de frente:
e tão bom confundir
os rostos (fumar,
trocando nossos cigarros),
e todo aquele falar
de nós (aquele inventar
fácil, ao dizer dos outros),
até poder confessar
o que, mesmo postos nas cordas,
jamais teríamos ousado
(por engano) confiar.
(Me desculpem. A mala é pesada
embora não guarde grande coisa:
tanto que me pergunto por que
a trouxe comigo e qual
ajuda me possa dar
depois, quando desembarcar.
Contudo devo levá-la,
nem que seja pelo costume.
Por favor, me deixem passar.
Pronto. Agora que está
no corredor, me sinto
mais solto. Queiram desculpar.)
Como disse, era bom estarmos
juntos. Conversar.
Tivemos, sim, algumas
rusgas, é natural.
Inclusive _e é normal
isso também_ nos odiamos
em mais de um ponto, e só
paramos por cortesia.
Mas o que importa? Seja
como for, torno
a agradecer, de coração,
pela boa companhia.
Me despeço do senhor, doutor,
e de sua facunda doutrina.
Me despeço de você, menina
franzina, e de seu leve fedor
de recreio e de campo
no rosto, cuja tinta
branda, de tão leve, incita.
Me despeço, ó militar
(ó marinheiro! Tanto em terra
quanto em céu e mar),
à paz e à guerra.
E também do senhor, sacerdote,
me despeço, que me indagou se eu
(me zombava!) tive em dote
a crença no vero Deus.
Me despeço da sapiência
e também do amor.
Me despeço até da religião.
Já cheguei à destinação.
Agora que sinto intenso
ranger o freio, os deixo
de fato, amigos. Adeus.
De uma coisa estou certo: eu
alcancei um desespero
calmo, e sem tormento.
Desço. Bom prosseguimento.
(tradução de Maurício Santana Dias)
351
Frank O'Hara
São Paulo e tudo mais
Totalmente sem graça e sorridente
eu entro
me sento e
encaro a geladeira
é abril
não maio
é maio
coisas tão pequenas precisam ser definidas pela manhã
depois das coisas grandes da noite
você quer que eu vá? quando
penso em tudo que tenho pensado fico maluco
apenas “viver em Birmingham é um inferno”
apenas “você vai sentir minha falta
mas isso é bom”
quando as lágrimas de toda uma geração forem reunidas
caberão todas numa xícara
e se elas evaporam
nem por isso a vida tem calor
“esse variado sonho, viver”
eu estou vivo com você
cheio de prazeres ansiosos e ansiedades prazerosas
dureza e maciez
ouvindo enquanto você fala e falando enquanto você lê
eu leio o que você lê
você não lê o que eu leio
e tudo bem, o curioso sou eu
você lê por alguma razão misteriosa
eu leio só porque sou escritor
o sol não necessariamente se põe, às vezes só desaparece
quando você não está aqui alguém entra e fala
“ei,
cadê o dançarino dessa cama?”
Ah os verões poloneses! aquelas brisas!
aqueles dentes pretos e brancos!
você nunca vem quando diz que vem por outro lado você vem sim
:
St.Paul and all that
Totally abashed and smiling
I walk in
sit down
face the frigidaire
it’s April
no May
it’s May
such little things have to be established in the morning
after the big things of night
do you want me to come? when
I think of all the things I’ve been thinking of I feel insane
simply “life in Birmingham is hell”
simply “you will miss me
but that’s good”
when the tears of a whole generation are assembled
they will only fill a coffee cup
just because they evaporate
doesn’t mean life has heat
“this various dream of living”
I am alive with you
full of anxious pleasures and pleasurable anxiety
hardness and softness
listening while you talk and talking while you read
I read what you read
you do not read what I read
which is right, I am the one with the curiosity
you read for some mysterious reason
I read simply because I am a writer
the sun doesn’t necessarily set, sometimes it just disappears
when you’re not here someone walks in says
“hey,
there’s no dancer in that bed”
O the Polish summers! those drafts!
those black and white teeth!
You never come when you say you’ll come but on the other hand you do come
2 162
André Pieyre de Mandiargues
Meridiana
O menu de roteiros vale que nos sentemos?
Gosto de alho no verão mas cebola me indispõe,
Antes vamos à cama se a rádio se calar,
A tarde é pesada como um boi no balcão
Atiremos sobre nós o pano desta tripa espessa
Brindemos com sangue novo nas horas lassas
À noite escutaremos os antigos hinos
Quando a população voltar do meeting,
Estaremos cansados como fortes lutadores
Prestes a abaixarem o rosto sob a rubra roseta,
E deixaremos a porta aberta ao que vier.
(tradução de William Zeytounlian)
:
Méridienne
Le menu des routiers vaut-il que l'on s'asseye ?
J'aime l'ail en été mais l'oignon m'indispose,
Allons au lit plutôt si la radio se tait,
L'après-midi est lourd comme un boeuf à l'étal
Tirons sur nous le drap de ce gras-double épais
Trinquons de sang nouveau pendant les heures lâches,
Le soir nous entendrons les hymnes anciens
Quand la population reviendra du meeting,
Nous serons las ainsi que de puissants lutteurs
Prêts à baisser le front sous la cocarde rouge,
Et nous tiendrons la porte ouverte à tout venant.
810
André Pieyre de Mandiargues
Meridiana
O menu de roteiros vale que nos sentemos?
Gosto de alho no verão mas cebola me indispõe,
Antes vamos à cama se a rádio se calar,
A tarde é pesada como um boi no balcão
Atiremos sobre nós o pano desta tripa espessa
Brindemos com sangue novo nas horas lassas
À noite escutaremos os antigos hinos
Quando a população voltar do meeting,
Estaremos cansados como fortes lutadores
Prestes a abaixarem o rosto sob a rubra roseta,
E deixaremos a porta aberta ao que vier.
(tradução de William Zeytounlian)
:
Méridienne
Le menu des routiers vaut-il que l'on s'asseye ?
J'aime l'ail en été mais l'oignon m'indispose,
Allons au lit plutôt si la radio se tait,
L'après-midi est lourd comme un boeuf à l'étal
Tirons sur nous le drap de ce gras-double épais
Trinquons de sang nouveau pendant les heures lâches,
Le soir nous entendrons les hymnes anciens
Quand la population reviendra du meeting,
Nous serons las ainsi que de puissants lutteurs
Prêts à baisser le front sous la cocarde rouge,
Et nous tiendrons la porte ouverte à tout venant.
810
Rose Ausländer
Não te contenhas
Que
a cada instante
Deus viva e morra
sabe
o que o inspira
Por toda parte
cresce uma árvore
na qual
a bela serpente
enrosca-se
Tu conheces
a maçã-palavra
Sejamos mortais
façamos o proibido
Não
te contenhas
Verweile nicht
Dass
jeden Augenblick
Gott stirbt und lebt
weiss
der ihn einatmet
Überall
wächst ein Baum
um den
die schöne Schlange
sich windet
Du kennst
das Apfelwort
Lass uns tödlich sein
Verbotenes tun
Verweile nicht
a cada instante
Deus viva e morra
sabe
o que o inspira
Por toda parte
cresce uma árvore
na qual
a bela serpente
enrosca-se
Tu conheces
a maçã-palavra
Sejamos mortais
façamos o proibido
Não
te contenhas
Verweile nicht
Dass
jeden Augenblick
Gott stirbt und lebt
weiss
der ihn einatmet
Überall
wächst ein Baum
um den
die schöne Schlange
sich windet
Du kennst
das Apfelwort
Lass uns tödlich sein
Verbotenes tun
Verweile nicht
900
Heiner Müller
Olhar estranho: despedida de Berlim
De minha cela perante a folha em branco
Na cabeça um drama para plateia nenhuma
Surdos os vencedores os vencidos mudos
Sobre a cidade estranha um olhar estranho
Cinza-amarelas passam as nuvens sobre mim
Branco-cinza cagam as pombas sobre Berlim
:
Fremder Blick: Abschied von Berlin
Aus meiner Zelle vor dem leeren Blatt
Im Kopf ein Drama für kein Publikum
Taub sind die Sieger die Besiegten stumm
Ein fremder Blick auf eine fremde Stadt
Graugelb die Wolken ziehn am Fenster hin
Weißgrau die Tauben scheißen auf Berlin
Na cabeça um drama para plateia nenhuma
Surdos os vencedores os vencidos mudos
Sobre a cidade estranha um olhar estranho
Cinza-amarelas passam as nuvens sobre mim
Branco-cinza cagam as pombas sobre Berlim
:
Fremder Blick: Abschied von Berlin
Aus meiner Zelle vor dem leeren Blatt
Im Kopf ein Drama für kein Publikum
Taub sind die Sieger die Besiegten stumm
Ein fremder Blick auf eine fremde Stadt
Graugelb die Wolken ziehn am Fenster hin
Weißgrau die Tauben scheißen auf Berlin
1 060
Pedro Casariego Córdoba
Esta solidão
esta solidão é filha de uma altura equivocada
eu tenho o vício dos céus
sou o único proprietário
do ar ossudo e dos pássaros fáceis
os ossos azuis do céu
formam um espaço grande e delicado
e se partem em tormenta
e descem em água
para acabar em lápide sem nome
o vermelho das minhas mãos é um mistério
porque brota de rios brancos que se inclinam como lápides
através da tela metálica
cabisbaixa a erva daninha rouba o início do outono
no outono os ladrões de céu
carregam silêncio no bico e tumba nas asas
agarro-me à tela metálica
e não tenho dinheiro
as mulheres redondas sempre têm dinheiro
mas quando olham para o alto a celebrar uma cama nova
alguém obstrui o céu com uma navalha de ar
agarro-me à tela metálica
e não tenho mulher redonda
eu tenho o vício do céu porque tenho medo
porque sou covarde
mulher inteira nada tenho a oferecer desamarrote minha tormenta
AJANTA É ÀS 6.
EUSOU O GARÇOM.
:
ESTASOLEDAD / esta soledad es hija de una altura equivocada / yo tengo elvicio del cielo / soy el único propietario / del aire huesudo y delos pájaros fáciles // los huesos azules del cielo / forman unespacio largo y delgado / y se quiebran en tormenta / y bajan en agua/ para acabar en lápida sin nombre // el rojo de mis manos es unmisterio / porque brota de ríos blancos que se inclinan como lápidas// a través de la tela metálica / cabizbaja la mala hierba roba elprincipio del otoño // en otoño los ladrones del cielo / llevansilencio en el pico y tumba en las alas // me agarro a la telametálica / y no tengo dinero / las mujeres redondas siempre tienendinero / pero cuando miran hacia lo alto para celebrar una cama nueva/ alguien impide el cielo con una navaja de aire // me agarro a latela metálica / y no tengo mujer redonda // yo tengo el vicio delcielo porque tengo miedo / porque soy cobarde // mujer entera nopuedo darte nada plancha mi tormenta / LA CENA ES A LAS 6. / YO SOYEL CAMARERO.
733
Heiner Müller
O pai
I.
Um pai morto teria sido talvez
Melhor pai. Ainda melhor
é um pai nado-morto.
Sempre nova cresce a grama sobre a fronteira.
A grama tem que ser arrancada
De novo e de novo que sobre a fronteira cresce.
II.
Eu queria que meu pai tivesse sido um tubarão
Que estraçalhara quarenta baleeiros
(E eu aprendido a nadar neste sangue)
Minha mãe uma baleia-azul meu nome Lautréamont
Morto em Paris
Em 1871 desconhecido
:
Der Vater
I.
Ein toter Vater wäre vielleicht
Ein besserer Vater gewesen. Am besten
Ist ein totgeborener Vater.
Immer neu wächst Gras über die Grenze.
Das Gras muß ausgerissen werden
Wieder und wieder das über die Grenze wächst.
II.
Ich wünschte mein Vater wäre ein Hai gewesen
Der vierzig Walfänger zerrissen hätte
(Und ich hätte schwimmen gelernt in ihrem Blut)
Meine Mutter ein Blauwal mein Name Lautréamont
Gestorben in Paris
1871 unbekannt
Um pai morto teria sido talvez
Melhor pai. Ainda melhor
é um pai nado-morto.
Sempre nova cresce a grama sobre a fronteira.
A grama tem que ser arrancada
De novo e de novo que sobre a fronteira cresce.
II.
Eu queria que meu pai tivesse sido um tubarão
Que estraçalhara quarenta baleeiros
(E eu aprendido a nadar neste sangue)
Minha mãe uma baleia-azul meu nome Lautréamont
Morto em Paris
Em 1871 desconhecido
:
Der Vater
I.
Ein toter Vater wäre vielleicht
Ein besserer Vater gewesen. Am besten
Ist ein totgeborener Vater.
Immer neu wächst Gras über die Grenze.
Das Gras muß ausgerissen werden
Wieder und wieder das über die Grenze wächst.
II.
Ich wünschte mein Vater wäre ein Hai gewesen
Der vierzig Walfänger zerrissen hätte
(Und ich hätte schwimmen gelernt in ihrem Blut)
Meine Mutter ein Blauwal mein Name Lautréamont
Gestorben in Paris
1871 unbekannt
1 422
Antidio Cabal
Epitáfio de Tomás Elías, vulgo O Doutor
Aqui jaz um acadêmico cuja saberdoria
o levou a cultivar a ignorância
baseando-se no conhecimento.
Passante, não ponhas flores em seu túmulo,
ele não as entenderia.
o levou a cultivar a ignorância
baseando-se no conhecimento.
Passante, não ponhas flores em seu túmulo,
ele não as entenderia.
759
Antidio Cabal
Epitáfio de Tomás Elías, vulgo O Doutor
Aqui jaz um acadêmico cuja saberdoria
o levou a cultivar a ignorância
baseando-se no conhecimento.
Passante, não ponhas flores em seu túmulo,
ele não as entenderia.
o levou a cultivar a ignorância
baseando-se no conhecimento.
Passante, não ponhas flores em seu túmulo,
ele não as entenderia.
759
Pierre Albert-Birot
Décimo-Terceiro Poema
Huh huh huh ha e então as palavras com seu ar de ser alguém
O verbo ele tudo e todos
Ama e presta-se à pessoa
Ela ama
Ruas casas cidades céu o verbo doou tudo
A pessoa caminha pelas cidades e olha o céu
Minha casa meu rosto as árvores ele e vós
O primeiro dia e o último
A pessoa trancada em pequenos quadrados de tempo
Presta atenção nos carros cura suas mãos e faz bebês
Paula ama sua mãe
Meu pai está em São Paulo
Ele retornará amanhã
Sem a bondade do verbo ficávamos no infinitivo
Este maravilhoso tudo e todos
Que a ninguém conhece
Mesmo assim melhor o tédio de nascer e morrer
Como fazemos o sol erguer-se ao dizer é dia
(tradução de Ricardo Domeneck, publicada no número impresso de estréia daModo de Usar & Co.)
:
Treizième Poème
Pierre Albert-Birot
Heu heu heu ha et puis des mots qui ont l´air d´être quelqu´un
Le verbe lui le tout et le toujours
Aime et se prête à la personne
Elle aime
Rues maisons villes ciel le verbe a tout donné
La personne marche dans les villes et regarde le ciel
Ma maison mon visage les arbres lui et vous
Le premier jour et le dernier
La personne enfermée dans les petits carrés du temps
Prend garde aux voitures soigne ses mains et fait des enfants
Paul aime sa mère
Mon père est à Paris
Il reviendra demain
Sans la bonté du verbe nous restions à l´infinitif
Ce merveilleux tout et toujours
Qui ne connaît personne
Pourtant mieux vaut l´ennui de naître et de mourir
Puisqu´on fait lever le soleil en disant it fait jour
747
André Pieyre de Mandiargues
O incêndio
O que vais então buscar no incêndio
Atrás dos vapores de esplendor barroco
Pelo segredo de um escadario roto
Estrangulado de heras escarlates?
Que voto fez-te empurrar porta ardente
Face santa de fogo e cinzas
Ao limite de mundo triste
Silêncio deterioração fingimento?
Diante de ti agora só há
Diamantes e rubis que brincam na poeira
Só gesso recaído sobre o chão de mármore
Com estátuas brancas as armas
As mãos de vidro os vasos cheios de lágrimas
O preto de velório e as rosas passadas
Embaixo de muros caducos
Vem uma dama deslumbrante e fúnebre
Logo aparecida logo desaparecida logo reaparecida
Logo mais nua ainda
Que é como a sombra de um desolar.
Nua em sangue e negra
Uma faísca em seu cabelo desfeito
Rubra como um craveiro que encravava a fuligem.
Calcando aos pés as pedras
O ouro e a prata o fragor do cristal
Indiferente à opulência ou à ruína
Na beleza de uma hora catastrófica.
E vais achá-la talvez boa atriz
A gigante que se estende com tranquilidade
Sobre a calçada como sobre navalha
Enquanto em volta explode e se dispersa
O louco luxo de seu teatro de sempre
Que mil línguas engolem.
(tradução de William Zeytounlian)
:
L'incendie
Qu'allais-tu donc chercher à travers l'incendie
Derrière des vapeurs à la splendeur baroque
Par le secret d'un escalier en loques
Etranglé de lierres écarlates ?
Quel voeu te fit pousser une porte brûlante
Sainte face de feu et de cendre
A la limite d'un monde morne
Sournoieserie silence délabrement ?
Devant toi ce n'est plus maintenant
Que diamants et rubis qui jouent dans la poussière
Que plâtres retombés sur de carreaux de marbre
Avec des statues blanches des armes
Des mains de verre des vases pleins de larmes
Des nègres de velours et des roses passées
Au bas de murs caducs.
Il vient une dame éclatante et funèbre
Tôt apparue tôt disparue tôt reparue
Plus tôt encore nue
Qui est comme l'ombre d'une désolation.
Nue saignante et noire
Une flammèche en ses cheveux défaits
Rouge comme un oeillet qui crèverait la suie.
Foulant aux pieds les pierres
L'or et l'argent le fracas du cristal
Indifférente à l'opulance ou à la ruine
Dans la beauté d'une heure catastrophique.
Et tu la trouveras peut-être bonne actrice
La géante qui s'étend avec tranquillité
Sur le pavement comme sous un couteau
Tandis qu'alentour explose et se disperse
Le luxe fou de son théâtre de toujours
Que mille langues engloutissent.
Atrás dos vapores de esplendor barroco
Pelo segredo de um escadario roto
Estrangulado de heras escarlates?
Que voto fez-te empurrar porta ardente
Face santa de fogo e cinzas
Ao limite de mundo triste
Silêncio deterioração fingimento?
Diante de ti agora só há
Diamantes e rubis que brincam na poeira
Só gesso recaído sobre o chão de mármore
Com estátuas brancas as armas
As mãos de vidro os vasos cheios de lágrimas
O preto de velório e as rosas passadas
Embaixo de muros caducos
Vem uma dama deslumbrante e fúnebre
Logo aparecida logo desaparecida logo reaparecida
Logo mais nua ainda
Que é como a sombra de um desolar.
Nua em sangue e negra
Uma faísca em seu cabelo desfeito
Rubra como um craveiro que encravava a fuligem.
Calcando aos pés as pedras
O ouro e a prata o fragor do cristal
Indiferente à opulência ou à ruína
Na beleza de uma hora catastrófica.
E vais achá-la talvez boa atriz
A gigante que se estende com tranquilidade
Sobre a calçada como sobre navalha
Enquanto em volta explode e se dispersa
O louco luxo de seu teatro de sempre
Que mil línguas engolem.
(tradução de William Zeytounlian)
:
L'incendie
Qu'allais-tu donc chercher à travers l'incendie
Derrière des vapeurs à la splendeur baroque
Par le secret d'un escalier en loques
Etranglé de lierres écarlates ?
Quel voeu te fit pousser une porte brûlante
Sainte face de feu et de cendre
A la limite d'un monde morne
Sournoieserie silence délabrement ?
Devant toi ce n'est plus maintenant
Que diamants et rubis qui jouent dans la poussière
Que plâtres retombés sur de carreaux de marbre
Avec des statues blanches des armes
Des mains de verre des vases pleins de larmes
Des nègres de velours et des roses passées
Au bas de murs caducs.
Il vient une dame éclatante et funèbre
Tôt apparue tôt disparue tôt reparue
Plus tôt encore nue
Qui est comme l'ombre d'une désolation.
Nue saignante et noire
Une flammèche en ses cheveux défaits
Rouge comme un oeillet qui crèverait la suie.
Foulant aux pieds les pierres
L'or et l'argent le fracas du cristal
Indifférente à l'opulance ou à la ruine
Dans la beauté d'une heure catastrophique.
Et tu la trouveras peut-être bonne actrice
La géante qui s'étend avec tranquillité
Sur le pavement comme sous un couteau
Tandis qu'alentour explose et se disperse
Le luxe fou de son théâtre de toujours
Que mille langues engloutissent.
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