Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Henriqueta Lisboa
Séquito
Seguir o rei
por toda parte
antes que a coroa
lhe caia
de Reverberações (1976)
por toda parte
antes que a coroa
lhe caia
de Reverberações (1976)
1 075
Dambudzo Marechera
Você perguntou o que há de errado com a guerra?
Não há palavras erradas, certo?
Não há árvores erradas, certo?
Não há areia errada, certo?
Eu dormi o mundo de cuecas livres
Sonhei que trepava com todos os menininhos
que são futuros líderes
Fodi todas as menininhas engraçadas feitas
de palha e algodão
Meu rabo anarquista cagou na sociedade
E OLHEM como milhões de moscas
ora voam rumo a seus lábios arreganhados.
:
Did you ask what´s wrong with war?
There are no wrong words, right?
There are no wrong trees, right?
There is no wrong sand, right?
I’ve slept the world in freely
underwear
Dreamed I buggered all the little boys
who are future leaders
Fucked all the funny little girls made of
thatch and ghandy
My anarchist arse has shat on society
And LOOK millions of open flies
are homing in on your wide-open lips.
Não há árvores erradas, certo?
Não há areia errada, certo?
Eu dormi o mundo de cuecas livres
Sonhei que trepava com todos os menininhos
que são futuros líderes
Fodi todas as menininhas engraçadas feitas
de palha e algodão
Meu rabo anarquista cagou na sociedade
E OLHEM como milhões de moscas
ora voam rumo a seus lábios arreganhados.
* Nota do tradutor: não consegui encontrar referências para a palavra "ghandy". Pensei na possibilidade de ser uma referência ao tecido indiano khadi, e optei pela tradução como "algodão". Sugestões são bem-vindas.
:
Did you ask what´s wrong with war?
There are no wrong words, right?
There are no wrong trees, right?
There is no wrong sand, right?
I’ve slept the world in freely
underwear
Dreamed I buggered all the little boys
who are future leaders
Fucked all the funny little girls made of
thatch and ghandy
My anarchist arse has shat on society
And LOOK millions of open flies
are homing in on your wide-open lips.
701
Dambudzo Marechera
Você perguntou o que há de errado com a guerra?
Não há palavras erradas, certo?
Não há árvores erradas, certo?
Não há areia errada, certo?
Eu dormi o mundo de cuecas livres
Sonhei que trepava com todos os menininhos
que são futuros líderes
Fodi todas as menininhas engraçadas feitas
de palha e algodão
Meu rabo anarquista cagou na sociedade
E OLHEM como milhões de moscas
ora voam rumo a seus lábios arreganhados.
:
Did you ask what´s wrong with war?
There are no wrong words, right?
There are no wrong trees, right?
There is no wrong sand, right?
I’ve slept the world in freely
underwear
Dreamed I buggered all the little boys
who are future leaders
Fucked all the funny little girls made of
thatch and ghandy
My anarchist arse has shat on society
And LOOK millions of open flies
are homing in on your wide-open lips.
Não há árvores erradas, certo?
Não há areia errada, certo?
Eu dormi o mundo de cuecas livres
Sonhei que trepava com todos os menininhos
que são futuros líderes
Fodi todas as menininhas engraçadas feitas
de palha e algodão
Meu rabo anarquista cagou na sociedade
E OLHEM como milhões de moscas
ora voam rumo a seus lábios arreganhados.
* Nota do tradutor: não consegui encontrar referências para a palavra "ghandy". Pensei na possibilidade de ser uma referência ao tecido indiano khadi, e optei pela tradução como "algodão". Sugestões são bem-vindas.
:
Did you ask what´s wrong with war?
There are no wrong words, right?
There are no wrong trees, right?
There is no wrong sand, right?
I’ve slept the world in freely
underwear
Dreamed I buggered all the little boys
who are future leaders
Fucked all the funny little girls made of
thatch and ghandy
My anarchist arse has shat on society
And LOOK millions of open flies
are homing in on your wide-open lips.
701
Dambudzo Marechera
Você perguntou o que há de errado com a guerra?
Não há palavras erradas, certo?
Não há árvores erradas, certo?
Não há areia errada, certo?
Eu dormi o mundo de cuecas livres
Sonhei que trepava com todos os menininhos
que são futuros líderes
Fodi todas as menininhas engraçadas feitas
de palha e algodão
Meu rabo anarquista cagou na sociedade
E OLHEM como milhões de moscas
ora voam rumo a seus lábios arreganhados.
:
Did you ask what´s wrong with war?
There are no wrong words, right?
There are no wrong trees, right?
There is no wrong sand, right?
I’ve slept the world in freely
underwear
Dreamed I buggered all the little boys
who are future leaders
Fucked all the funny little girls made of
thatch and ghandy
My anarchist arse has shat on society
And LOOK millions of open flies
are homing in on your wide-open lips.
Não há árvores erradas, certo?
Não há areia errada, certo?
Eu dormi o mundo de cuecas livres
Sonhei que trepava com todos os menininhos
que são futuros líderes
Fodi todas as menininhas engraçadas feitas
de palha e algodão
Meu rabo anarquista cagou na sociedade
E OLHEM como milhões de moscas
ora voam rumo a seus lábios arreganhados.
* Nota do tradutor: não consegui encontrar referências para a palavra "ghandy". Pensei na possibilidade de ser uma referência ao tecido indiano khadi, e optei pela tradução como "algodão". Sugestões são bem-vindas.
:
Did you ask what´s wrong with war?
There are no wrong words, right?
There are no wrong trees, right?
There is no wrong sand, right?
I’ve slept the world in freely
underwear
Dreamed I buggered all the little boys
who are future leaders
Fucked all the funny little girls made of
thatch and ghandy
My anarchist arse has shat on society
And LOOK millions of open flies
are homing in on your wide-open lips.
701
Hashem Shaabani
Sete razões pelas quais eu deveria morrer
Por sete dias eles gritaram comigo:
Você trava uma guerra contra Alá!
Sábado, porque você é árabe!
Domingo, bem, você vem de Ahvaz
Segunda, lembre-se que você é iraniano
Terça: você zomba da revolução sagrada
Quarta, você não ergue sua voz pelos outros?
Quinta, você é um poeta e um bardo
Sexta: você é um homem, não basta para morrer?
(tradução de Eduardo Sterzi, a partir da tradução inglesa)
649
Hashem Shaabani
Sete razões pelas quais eu deveria morrer
Por sete dias eles gritaram comigo:
Você trava uma guerra contra Alá!
Sábado, porque você é árabe!
Domingo, bem, você vem de Ahvaz
Segunda, lembre-se que você é iraniano
Terça: você zomba da revolução sagrada
Quarta, você não ergue sua voz pelos outros?
Quinta, você é um poeta e um bardo
Sexta: você é um homem, não basta para morrer?
(tradução de Eduardo Sterzi, a partir da tradução inglesa)
649
Hashem Shaabani
Sete razões pelas quais eu deveria morrer
Por sete dias eles gritaram comigo:
Você trava uma guerra contra Alá!
Sábado, porque você é árabe!
Domingo, bem, você vem de Ahvaz
Segunda, lembre-se que você é iraniano
Terça: você zomba da revolução sagrada
Quarta, você não ergue sua voz pelos outros?
Quinta, você é um poeta e um bardo
Sexta: você é um homem, não basta para morrer?
(tradução de Eduardo Sterzi, a partir da tradução inglesa)
649
Henriqueta Lisboa
Não a face dos mortos
Não a face dos mortos.
Nem a face
dos que não coram
aos açoites
da vida.
Porém a face
lívida
dos que resistem
pelo espanto.
Não a face da madrugada
na exaustão
dos soluços.
Mas a face do lago
sem reflexos
quando as águas
entranha.
Não a face da estátua
fria de lua e zéfiro.
Mas a face do círio
que se consome
lívida
no ardor.
de A face lívida (1945)
Nem a face
dos que não coram
aos açoites
da vida.
Porém a face
lívida
dos que resistem
pelo espanto.
Não a face da madrugada
na exaustão
dos soluços.
Mas a face do lago
sem reflexos
quando as águas
entranha.
Não a face da estátua
fria de lua e zéfiro.
Mas a face do círio
que se consome
lívida
no ardor.
de A face lívida (1945)
1 033
Jean Follain
Pensamentos de outubro
Como amamos
esse ótimo vinho
que bebemos sozinhos
quando a noite ilumina as colinas com cobre
nenhum caçador mira
as aves de caça na planície
as irmãs de nossos amigos
parecem mais bonitas
há no entanto ameaça de guerra
um inseto pausa
depois segue
:
Pensées d´Octubre
Jean Follain
On aime bien
ce grand vin
que l’on boit solitaire
quand le soir illumine les collines cuivrées
plus un chasseur n’ajuste
les gibiers de la plaine
les soeurs de nos amis
apparaissent les plus belles
il y a pourtant menace de guerre
un insecte s’arrête
puis repart.
esse ótimo vinho
que bebemos sozinhos
quando a noite ilumina as colinas com cobre
nenhum caçador mira
as aves de caça na planície
as irmãs de nossos amigos
parecem mais bonitas
há no entanto ameaça de guerra
um inseto pausa
depois segue
:
Pensées d´Octubre
Jean Follain
On aime bien
ce grand vin
que l’on boit solitaire
quand le soir illumine les collines cuivrées
plus un chasseur n’ajuste
les gibiers de la plaine
les soeurs de nos amis
apparaissent les plus belles
il y a pourtant menace de guerre
un insecte s’arrête
puis repart.
733
Christine Lavant
Eu quero partir com os loucos o pão,
Eu quero partir com os loucos o pão,
migalhas diárias do desespero grande,
também o sino em meio ao peito,
ali onde o pombo aninha-se
e tem seu refúgio minúsculo
no ermo sobre as águas.
Residi por anos como pedra
no chão das coisas.
Eu ouvi, porém, o sino
sussurrar teu segredo
nos peixes com asas.
Hei-de aprender a voar e nadar,
deixar o pedregoso sob as pedras,
aconchegar em madrepérola
a melancolia, elevar aflição, ira.
Minhas asas são mais velhas
que tua paciência, minhas asas
vão à frente da coragem
que tomou sobre os ombros o louco.
Eu quero partir com os loucos o pão,
ali no ermo assustador do pombo,
onde o sino triparte o maior desespero
ao som tríplice do teu nome.
708
Dambudzo Marechera
Camarada Drácula junta-se à Revolução: uma união de mentes
Para ter o que fazer, vamos andar para sempre neste
Círculo chamado casamento (para sempre presume
Nem fim nem começo). Foi-se a lengalenga dos votos.
Lembre-se que deus permite-se a liberdade de ser o centro
De um círculo cuja circunferência está em toda parte (Que
Cinismo!) Com cuidado e sorte nós também podemos ser
Sua imagem. O amor e a História são bestas. Dessarte
deixe suas atrações pastarem
Livres – Nem chego a ter tais planos com humanos.
Você há por gula de vadiar nesse mundo
Enquanto eu e mortos cujas covas são meus prostíbulos
Lufrificaremos da paixão as juntas duras. Não se alarme:
Já que eles dizem THE FIGHT GOES ON até do além
das covas abarrotadas.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Comrade Dracula joins the Revolution: a wedding of minds
Dambudzo Marechera
For something to do let’s forever walk this
Circle they call marriage (forever presumes neither
Beginning nor end) The rigmarole of vows is over.
Remember god allows himself the freedom to be the
centre
Of a circle whose circumference is everywhere (What
Cynicism!) With caution & luck we too can be the image
Of him. Love like history is bunk. Hence let your
attractions range
Free – I have no such intentions with humans at least.
You in this world will dally to surfeit
While I with the dead whose tombs are my brothels
Will oil passion’s stiff joints. Do not be alarmed:
As they say A LUTA CONTINUA even beyond the
serried graves.
619
Sebastião Alba
Como os outros
Como os outros discipulo da noite
frente ao seu quadro negro que é
exterior à música dispo o reflexo
sou um e baço
dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si
As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com suas grutas sinfónicas
no mar.
frente ao seu quadro negro que é
exterior à música dispo o reflexo
sou um e baço
dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si
As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com suas grutas sinfónicas
no mar.
1 151
Gonzalo Rojas
A lepra
Ainda lembro a minha aula de Retórica.
Cerimônia do Juízo Final. Um grande silêncio
até que o Professor irrompia: “Sentem-se”.
“Trago-lhes carne fresca”. E esvaziava um pacote
de algo mole e viscoso
envolto em jornais velhos como um peixe cru
sobre a mesa em que celebrava sua missa.
“Capítulo Primeiro”. “O estilo do homem
corresponde a um defeito em sua língua”. E mostrava
uma língua comida por moscas de ataúde
para ilustrar sua tese com a luz do exemplo.
“Olhem: a língua inglesa não é a língua espanhola”.
“Aqui tenho a língua de Cervantes. Sua forma
de espada não coincide com o eco do paladar”. O Professor falava
de condições, traços, influências,
metáforas, estrofes. E cada afirmação
era provada pela Crítica.
Ora, os pontos de vista da Crítica
– pobres vasilhas vazias –
eram toda essa carne palpitante
saqueada dos mais diferentes cemitérios:
línguas, dentes, narizes, pulmões, ventres, mãos,
que um dia foram órgãos dos grandes autores,
hoje, tumores malignos servidos em bandejas
por professores-asnos a discípulos-asnos
dentro de uma sala-esgoto.
Garotos e garotas extasiados
copiavam em “papéis” todas as proporções
de uma obra-prima: as leis da lírica,
da épica e do dramática, causas e conseqüências,
a decadência, o desenvolver
das literaturas.
Ante tal entusiasmo,
o cheiro dos restos dos grandes autores
mesclava-se ao cheiro desses belos defuntos
sentados na cadeira do seu próprio excremento,
e a corrente de ar era uma imundície só,
enquanto a admiração chegava ao descomedido
quando esse Professor: “Se aprenderem – dizia-nos –
os requisitos da criação,
serão fortes rivais de Goethe. E superiores.”
E encerrava sua aula.
Guardava todos os despojos nojentos
em seu pacote e, com a cabeça erguida,
coroado com louros pelo bom êxito,
virava-nos as costas como um Deus do Olimpo
que regressa à sua concha.
Ainda recordo minha aula de Retórica
em que a vida e a beleza
eram um prato de carne podre.
Tive que cortar a língua na raiz
para livrar-me da lepra.
(tradução de Fabiano Calixto, publicada originalmente no primeiro número impresso da Modo de Usar & Co., novembro de 2007.)
:
LA LEPRA: Todavía recuerdo mi clase de Retórica. / Ceremonia del Juicio Final. Un gran silencio / hasta que el Profesor irrumpía: “Sentaos”. / “Os traigo carne fresca”. Y vaciaba un paquete / de algo blando y viscoso / envuelto en diarios viejos como un pescado crudo, / sobre la mesa en que él oficiaba su misa. // “Capítulo Primero”. / “El estilo del hombre / corresponde a un defecto de su lengua”. Y mostraba / una lengua comida por moscas de ataúd / para ilustrar su tesis con la luz del ejemplo. // “Mirad: la lengua inglesa no es la lengua española” / “Aquí tengo la lengua de Cervantes. Su forma / de espada no coincide con el hueco del paladar”. El Profesor hablaba / de condiciones, rasgos, influencias, / metáforas, estrofas. Y cada afirmación / era probada por la Crítica // Ahora bien, los puntos de vistas de la Crítica / – pobres cuencas vacías – / eran toda esa carne palpitante / saqueada a los distintos cementerios: / lenguas, dientes, narices, pulmones, vientres, manos / que un día fueron órganos de los grandes autores, / hoy tumores malignos servidos en bandejas / por profesores-asnos a discípulos-asnos / adentro de una sala-alcantarilla. // Donceles y doncellas extasiados / copiaban en “papeles” todas las proporciones / de una obra maestra: las leyes de la lírica / la épica u dramática, causas y consecuencias, / la decadencia, el desarrollo / de las literaturas. // Ante tal entusiasmo, / el olor de los restos de los grandes autores / se mezclaba al olor de esos bellos difuntos / sentados en la silla de su propio excremento, / y una sola corriente de inmundicia era el aire, / mientras la admiración llegaba a al desenfreno / cuando ese Profesor: “Si aprendéis – nos decía – / los requisitos de la creación, / seréis fieros rivales de Goethe, y superiores.” // Y cerraba su clase. / Guardaba todos los despojos nauseabundos / en su paquete, y con la frente en alto, / coronado en laurel por su buen éxito / nos volvía la espalda como un Dios del Olimpo / que regresa a su concha. // Todavía recuerdo mi clase de Retórica / en que la vida y la belleza / eran un plato de carne podrida. // Yo tuve que cortarme la lengua en la raíz / para librarme de la lepra.
Cerimônia do Juízo Final. Um grande silêncio
até que o Professor irrompia: “Sentem-se”.
“Trago-lhes carne fresca”. E esvaziava um pacote
de algo mole e viscoso
envolto em jornais velhos como um peixe cru
sobre a mesa em que celebrava sua missa.
“Capítulo Primeiro”. “O estilo do homem
corresponde a um defeito em sua língua”. E mostrava
uma língua comida por moscas de ataúde
para ilustrar sua tese com a luz do exemplo.
“Olhem: a língua inglesa não é a língua espanhola”.
“Aqui tenho a língua de Cervantes. Sua forma
de espada não coincide com o eco do paladar”. O Professor falava
de condições, traços, influências,
metáforas, estrofes. E cada afirmação
era provada pela Crítica.
Ora, os pontos de vista da Crítica
– pobres vasilhas vazias –
eram toda essa carne palpitante
saqueada dos mais diferentes cemitérios:
línguas, dentes, narizes, pulmões, ventres, mãos,
que um dia foram órgãos dos grandes autores,
hoje, tumores malignos servidos em bandejas
por professores-asnos a discípulos-asnos
dentro de uma sala-esgoto.
Garotos e garotas extasiados
copiavam em “papéis” todas as proporções
de uma obra-prima: as leis da lírica,
da épica e do dramática, causas e conseqüências,
a decadência, o desenvolver
das literaturas.
Ante tal entusiasmo,
o cheiro dos restos dos grandes autores
mesclava-se ao cheiro desses belos defuntos
sentados na cadeira do seu próprio excremento,
e a corrente de ar era uma imundície só,
enquanto a admiração chegava ao descomedido
quando esse Professor: “Se aprenderem – dizia-nos –
os requisitos da criação,
serão fortes rivais de Goethe. E superiores.”
E encerrava sua aula.
Guardava todos os despojos nojentos
em seu pacote e, com a cabeça erguida,
coroado com louros pelo bom êxito,
virava-nos as costas como um Deus do Olimpo
que regressa à sua concha.
Ainda recordo minha aula de Retórica
em que a vida e a beleza
eram um prato de carne podre.
Tive que cortar a língua na raiz
para livrar-me da lepra.
(tradução de Fabiano Calixto, publicada originalmente no primeiro número impresso da Modo de Usar & Co., novembro de 2007.)
:
LA LEPRA: Todavía recuerdo mi clase de Retórica. / Ceremonia del Juicio Final. Un gran silencio / hasta que el Profesor irrumpía: “Sentaos”. / “Os traigo carne fresca”. Y vaciaba un paquete / de algo blando y viscoso / envuelto en diarios viejos como un pescado crudo, / sobre la mesa en que él oficiaba su misa. // “Capítulo Primero”. / “El estilo del hombre / corresponde a un defecto de su lengua”. Y mostraba / una lengua comida por moscas de ataúd / para ilustrar su tesis con la luz del ejemplo. // “Mirad: la lengua inglesa no es la lengua española” / “Aquí tengo la lengua de Cervantes. Su forma / de espada no coincide con el hueco del paladar”. El Profesor hablaba / de condiciones, rasgos, influencias, / metáforas, estrofas. Y cada afirmación / era probada por la Crítica // Ahora bien, los puntos de vistas de la Crítica / – pobres cuencas vacías – / eran toda esa carne palpitante / saqueada a los distintos cementerios: / lenguas, dientes, narices, pulmones, vientres, manos / que un día fueron órganos de los grandes autores, / hoy tumores malignos servidos en bandejas / por profesores-asnos a discípulos-asnos / adentro de una sala-alcantarilla. // Donceles y doncellas extasiados / copiaban en “papeles” todas las proporciones / de una obra maestra: las leyes de la lírica / la épica u dramática, causas y consecuencias, / la decadencia, el desarrollo / de las literaturas. // Ante tal entusiasmo, / el olor de los restos de los grandes autores / se mezclaba al olor de esos bellos difuntos / sentados en la silla de su propio excremento, / y una sola corriente de inmundicia era el aire, / mientras la admiración llegaba a al desenfreno / cuando ese Profesor: “Si aprendéis – nos decía – / los requisitos de la creación, / seréis fieros rivales de Goethe, y superiores.” // Y cerraba su clase. / Guardaba todos los despojos nauseabundos / en su paquete, y con la frente en alto, / coronado en laurel por su buen éxito / nos volvía la espalda como un Dios del Olimpo / que regresa a su concha. // Todavía recuerdo mi clase de Retórica / en que la vida y la belleza / eran un plato de carne podrida. // Yo tuve que cortarme la lengua en la raíz / para librarme de la lepra.
1 349
John Berryman
26
As glórias do mundo me bateram, fizeram-me ária, certa vez.
- Que então, Mr. Bones?
se tu num se incomoda.
- Henry. Henry tomou interesse pelo corpo das mulheres,
suas virilhas foram & foram palco de feitos estupendos.
Estupor. De joelhos, meu bem. Ore.
Todos as saliências & suavidades de, Deus meu,
o agachar-se & a confusão isto enxameava em Henry,
certa vez.
- Que então, Mr. Bones?
tu parece como que excitado.
Descaiu Henry, as costas no crime que origina: arte, rima
além dum sentimento do alheio, Deus meu, Deus meu,
e inveja da honra (vivente) de sua terra.
o que haveria de mais estranho?
e desgosto das gangues prosperantes & de heróis.
- Que então, Mr. Bones?
Tive uma sorte veramente fabulosa. Morri.
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
Dream Song 26
John Berryman
The glories of the world struck me, made me aria, once.
-- What happen then, Mr. Bones?
if be you cares to say.
-- Henry. Henry became interested in women's bodies,
his loins were & were the scene of stupendous achievement.
Stupor. Knees, dear. Pray.
All the knobs & softnesses of, my God,
the ducking & trouble it swarm on Henry,
at one time.
-- What happen then, Mr. Bones?
you seems excited-like.
-- Fell Henry back into the original crime: art, rime
besides a sense of others, my God, my God,
and jealousy for the honour (alive) of his country,
what can get more odd?
and discontent with the thriving gangs & pride.
-- What happen then, Mr. Bones?
-- I had a most marvellous piece of luck. I died.
- Que então, Mr. Bones?
se tu num se incomoda.
- Henry. Henry tomou interesse pelo corpo das mulheres,
suas virilhas foram & foram palco de feitos estupendos.
Estupor. De joelhos, meu bem. Ore.
Todos as saliências & suavidades de, Deus meu,
o agachar-se & a confusão isto enxameava em Henry,
certa vez.
- Que então, Mr. Bones?
tu parece como que excitado.
Descaiu Henry, as costas no crime que origina: arte, rima
além dum sentimento do alheio, Deus meu, Deus meu,
e inveja da honra (vivente) de sua terra.
o que haveria de mais estranho?
e desgosto das gangues prosperantes & de heróis.
- Que então, Mr. Bones?
Tive uma sorte veramente fabulosa. Morri.
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
Dream Song 26
John Berryman
The glories of the world struck me, made me aria, once.
-- What happen then, Mr. Bones?
if be you cares to say.
-- Henry. Henry became interested in women's bodies,
his loins were & were the scene of stupendous achievement.
Stupor. Knees, dear. Pray.
All the knobs & softnesses of, my God,
the ducking & trouble it swarm on Henry,
at one time.
-- What happen then, Mr. Bones?
you seems excited-like.
-- Fell Henry back into the original crime: art, rime
besides a sense of others, my God, my God,
and jealousy for the honour (alive) of his country,
what can get more odd?
and discontent with the thriving gangs & pride.
-- What happen then, Mr. Bones?
-- I had a most marvellous piece of luck. I died.
847
Giuseppe Ungaretti
San Martino del Carso
Valloncello dell'Albero Isolato, 27 de agosto de 1916
Destas casas
nada sobrou
senão alguns
pedaços de muro
De quantos
me foram próximos
nada sobrou
nem tanto
No coração porém
nenhuma cruz me falta
É o meu coração
a região mais destroçada
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Valloncello dell'Albero Isolato il 27 agosto 1916
Di queste case
non è rimasto
che qualche
brandello di muro
Di tanti
che mi corrispondevano
non è rimasto
neppure tanto
Ma nel cuore
nessuna croce manca
È il mio cuore
il paese più straziato
Destas casas
nada sobrou
senão alguns
pedaços de muro
De quantos
me foram próximos
nada sobrou
nem tanto
No coração porém
nenhuma cruz me falta
É o meu coração
a região mais destroçada
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Valloncello dell'Albero Isolato il 27 agosto 1916
Di queste case
non è rimasto
che qualche
brandello di muro
Di tanti
che mi corrispondevano
non è rimasto
neppure tanto
Ma nel cuore
nessuna croce manca
È il mio cuore
il paese più straziato
1 642
Sebastião Alba
No meu país
No meu país
dardejado do sol e da caca dos gaios
só há estâncias
(de veraneio) na poesia.
Nossos lábios
a um metro e sessenta e tal
do chão amarelecido
dos símbolos
abrem para fora
por dois gomos de frio.
Nossos lábios outonais, digo,
outonais doze meses.
No entanto
o equilíbrio jacente
faz florir as acácias;
a terra incha;
na derme da possível
geografia,
um frémito cinde
as estações do ano.
dardejado do sol e da caca dos gaios
só há estâncias
(de veraneio) na poesia.
Nossos lábios
a um metro e sessenta e tal
do chão amarelecido
dos símbolos
abrem para fora
por dois gomos de frio.
Nossos lábios outonais, digo,
outonais doze meses.
No entanto
o equilíbrio jacente
faz florir as acácias;
a terra incha;
na derme da possível
geografia,
um frémito cinde
as estações do ano.
1 262
Maria Ângela Alvim
Quero crer-me este sentido
Quero crer-me este sentido
de longa memória branca.
Sobre ele não lembrar,
- ficar, ficar,
no encontro de tudo em pouco:
o tempo se refez no instante
deste espaço, superfície,
chão que nem me sustenta
(dura sou, eu, e dura amargura é a minha).
Não, não me lembrarei,
seria pensar começos
e outros fins - ó lunares
lembranças, doridos passos
(muitos fui acompanhando
de longe e mais me pisaram
aqui, ali, onde sei).
Estou? Se estou me consentem
os gestos e os movimentos?
Nenhum ruído se atenta
que dentro não fosse ouvido.
E tudo em mim se repete
enquanto durante e sempre
a lembrança vai baixando
a seu leito mais dormente.
Os pensamentos seriam
roteiros menos sofridos?
Deixá-los que se solveram
nestes noturnos tormentos
da mente se procurando,
da idéia, refluindo
sobre dúvida, distância
e certeza, aéreo marco
de um repouso em si medido.
Deixá-los. Deixar-me enquanto
existe um consenso oculto.
Pensarei que desvivi
num limite-lucidez
lá e, no entanto, aqui.
de longa memória branca.
Sobre ele não lembrar,
- ficar, ficar,
no encontro de tudo em pouco:
o tempo se refez no instante
deste espaço, superfície,
chão que nem me sustenta
(dura sou, eu, e dura amargura é a minha).
Não, não me lembrarei,
seria pensar começos
e outros fins - ó lunares
lembranças, doridos passos
(muitos fui acompanhando
de longe e mais me pisaram
aqui, ali, onde sei).
Estou? Se estou me consentem
os gestos e os movimentos?
Nenhum ruído se atenta
que dentro não fosse ouvido.
E tudo em mim se repete
enquanto durante e sempre
a lembrança vai baixando
a seu leito mais dormente.
Os pensamentos seriam
roteiros menos sofridos?
Deixá-los que se solveram
nestes noturnos tormentos
da mente se procurando,
da idéia, refluindo
sobre dúvida, distância
e certeza, aéreo marco
de um repouso em si medido.
Deixá-los. Deixar-me enquanto
existe um consenso oculto.
Pensarei que desvivi
num limite-lucidez
lá e, no entanto, aqui.
845
Erich Fried
Conflitos entre únicos herdeiros
Meu Marx arrancará as barbas
do teu Marx
Meu Engels quebrará os dentes
do teu Engels
Meu Lênin partirá os ossos
do teu Lênin
Nosso Stálin fuzilará a nuca
do vosso Stálin
Nosso Trótski rachará o crânio
do vosso Trótski
Nosso Mao afogará no Iansequião
vosso Mao
para que ele saia do caminho
da vitória
:
Konflikte zwischen Alleinerben
Mein Marx wird deinem Marx
den Bart ausreißen
Mein Engels wird deinem Engels
die Zähne einschlagen
Mein Lenin wird deinem Lenin
alle Knochen zerbrechen
Unser Stalin wird eurem Stalin
den Genickschuss geben
Unser Trotzki wird eurem Trotzki
den Schädel spalten
Unser Mao wird euren Mao
im Jangtse ertränken
damit er dem Sieg
nicht mehr im Wege steht
do teu Marx
Meu Engels quebrará os dentes
do teu Engels
Meu Lênin partirá os ossos
do teu Lênin
Nosso Stálin fuzilará a nuca
do vosso Stálin
Nosso Trótski rachará o crânio
do vosso Trótski
Nosso Mao afogará no Iansequião
vosso Mao
para que ele saia do caminho
da vitória
:
Konflikte zwischen Alleinerben
Mein Marx wird deinem Marx
den Bart ausreißen
Mein Engels wird deinem Engels
die Zähne einschlagen
Mein Lenin wird deinem Lenin
alle Knochen zerbrechen
Unser Stalin wird eurem Stalin
den Genickschuss geben
Unser Trotzki wird eurem Trotzki
den Schädel spalten
Unser Mao wird euren Mao
im Jangtse ertränken
damit er dem Sieg
nicht mehr im Wege steht
855
Erich Fried
Conflitos entre únicos herdeiros
Meu Marx arrancará as barbas
do teu Marx
Meu Engels quebrará os dentes
do teu Engels
Meu Lênin partirá os ossos
do teu Lênin
Nosso Stálin fuzilará a nuca
do vosso Stálin
Nosso Trótski rachará o crânio
do vosso Trótski
Nosso Mao afogará no Iansequião
vosso Mao
para que ele saia do caminho
da vitória
:
Konflikte zwischen Alleinerben
Mein Marx wird deinem Marx
den Bart ausreißen
Mein Engels wird deinem Engels
die Zähne einschlagen
Mein Lenin wird deinem Lenin
alle Knochen zerbrechen
Unser Stalin wird eurem Stalin
den Genickschuss geben
Unser Trotzki wird eurem Trotzki
den Schädel spalten
Unser Mao wird euren Mao
im Jangtse ertränken
damit er dem Sieg
nicht mehr im Wege steht
do teu Marx
Meu Engels quebrará os dentes
do teu Engels
Meu Lênin partirá os ossos
do teu Lênin
Nosso Stálin fuzilará a nuca
do vosso Stálin
Nosso Trótski rachará o crânio
do vosso Trótski
Nosso Mao afogará no Iansequião
vosso Mao
para que ele saia do caminho
da vitória
:
Konflikte zwischen Alleinerben
Mein Marx wird deinem Marx
den Bart ausreißen
Mein Engels wird deinem Engels
die Zähne einschlagen
Mein Lenin wird deinem Lenin
alle Knochen zerbrechen
Unser Stalin wird eurem Stalin
den Genickschuss geben
Unser Trotzki wird eurem Trotzki
den Schädel spalten
Unser Mao wird euren Mao
im Jangtse ertränken
damit er dem Sieg
nicht mehr im Wege steht
855
Leónidas Lamborghini
O sabotador arrependido
No meu rosto está escrita a aceita
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita
Eu era o braço direito agora não sou nada
Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita
Eu era o braço direito agora não sou nada
Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.
794
Leónidas Lamborghini
O sabotador arrependido
No meu rosto está escrita a aceita
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita
Eu era o braço direito agora não sou nada
Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita
Eu era o braço direito agora não sou nada
Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.
794
Maria Ângela Alvim
Carta a Maria Clea
Embora faça sol, a dor oprime a altura.
Converso com você, mas sei que é conjetura.
E sendo aqui montanha, verdade aprofundo:
Por quê? Por que nos nutrirmos deste mundo?
Deste mundo, exilio, — porta de nossas perdas
onde o tempo nos soma pelas horas esquerdas.
Não sabemos talvez, ou em saber não bastamos
que o mundo é sedento e nós o desalteramos.
Secam rios de pranto onde a sede se apura
e desagua o labirinto de uma carne obscura.
É preciso nos nutrirmos deste mundo, — quantos
somos, sirvamos à sua fome, — fome de tantos.
Converso com você, mas sei que é conjetura.
E sendo aqui montanha, verdade aprofundo:
Por quê? Por que nos nutrirmos deste mundo?
Deste mundo, exilio, — porta de nossas perdas
onde o tempo nos soma pelas horas esquerdas.
Não sabemos talvez, ou em saber não bastamos
que o mundo é sedento e nós o desalteramos.
Secam rios de pranto onde a sede se apura
e desagua o labirinto de uma carne obscura.
É preciso nos nutrirmos deste mundo, — quantos
somos, sirvamos à sua fome, — fome de tantos.
810
Lois Pereiro
Cero a la izquierda
O corredor de fondo perde o alento
fuxindo dunha vida inzada de renuncias
da súa liturxia obesa e oleosa,
mediocre nos seus comunais fracasos,
bágoas de xelo, indignación contida
non deu chegado a tempo de exercer
a súa rebelión,
nin de levar a cabo
a súa vinganza definitiva
contra un mundo inxusto, homicida, e cruel,
pola inutilidade da súa propia vida
solitario, enfermo e fatigado,
a morte anticipouse e chegou antes.
939
Lois Pereiro
Cero a la izquierda
O corredor de fondo perde o alento
fuxindo dunha vida inzada de renuncias
da súa liturxia obesa e oleosa,
mediocre nos seus comunais fracasos,
bágoas de xelo, indignación contida
non deu chegado a tempo de exercer
a súa rebelión,
nin de levar a cabo
a súa vinganza definitiva
contra un mundo inxusto, homicida, e cruel,
pola inutilidade da súa propia vida
solitario, enfermo e fatigado,
a morte anticipouse e chegou antes.
939