Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Jacques Brel
O último jantar
Em meu último jantar
Quero ver meus irmãos
Meus cachorros e gatos
E a beira do mar
No meu último jantar
Quero ver meus vizinhos
E os chineses vindo
Como se fossem primos
Também quero tomar
Da missa o vinho
Esse vinho divino
Que eu bebia em Arbois
E quero devorar
Depois da batina
Um frango faisão
Vindo de Perigord
E quero ser levado
Para o alto da colina
Ver as árvores que dormem
De braços cruzados
Depois quero ainda
Jogar pedras pra cima
E gritar Deus está morto
Pela última vez
No meu último jantar
Com meu burrinho quero estar
Com os frangos e gansos
Mulheres e vacas
No meu último jantar
Quero ver as meninas
Das quais fui o mestre
Ou que foram amantes
E quando de barriga cheia
Pronto para o enterro
Vou quebrar meu copo
Pedindo silêncio
Vou cantar aos brados
À morte que vem
Os amores que de tão devassos
Chegam a amedrontar
E quero ser levado
Para o alto da colina
Ver o sol que caminha
A se pôr lentamente
E ainda de pé
Vou insultar os burgueses
Sem remorso e sem medo
Pela última vez.
Após meu último jantar
Quero que a gente vá
Satisfeito e farto
Para algum outro lugar
Após meu último jantar
Quero me sentar
A sós como um rei
Recebendo as vestais
Em meu cachimbo vou queimar
Lembranças da infância
Sonhos inacabados
Restos de esperança
E vou guardar
Para vestir a alma
A ideia de roseira
E um nome de mulher
Depois vou olhar
Para o alto da colina
Que dança que pressente
Que acaba por afundar
E no cheiro das flores
Que em breve sumirá
Sei o medo que terei
Pela última vez
(tradução de Marília Garcia)
:
Le dernier repas
A mon dernier repas
Je veux voir mes frères
Et mes chiens et mes chats
Et le bord de la mer
A mon dernier repas
Je veux voir mes voisins
Et puis quelques Chinois
En guise de cousins
Et je veux qu'on y boive
En plus du vin de messe
De ce vin si joli
Qu'on buvait en Arbois
Je veux qu'on y dévore
Après quelques soutanes
Une poule faisane
Venue du Périgord
Puis je veux qu'on m'emmène
En haut de ma colline
Voir les arbres dormir
En refermant leurs bras
Et puis je veux encore
Lancer des pierres au ciel
En criant Dieu est mort
Une dernière fois
A mon dernier repas
Je veux voir mon âne
Mes poules et mes oies
Mes vaches et mes femmes
A mon dernier repas
Je veux voir ces drôlesses
Dont je fus maître et roi
Ou qui furent mes maîtresses
Quand j'aurai dans la panse
De quoi noyer la terre
Je briserai mon verre
Pour faire le silence
Et chanterai à tue-tête
A la mort qui s'avance
Les paillardes romances
Qui font peur aux nonnettes
Puis je veux qu'on m'emmène
En haut de ma colline
Voir le soir qui chemine
Lentement vers la plaine
Et là debout encore
J'insulterai les bourgeois
Sans crainte et sans remords
Une dernière fois
Après mon dernier repas
Je veux que l'on s'en aille
Qu'on finisse ripaille
Ailleurs que sous mon toit
Après mon dernier repas
Je veux que l'on m'installe
Assis seul comme un roi
Accueillant ses vestales
Dans ma pipe je brûlerai
Mes souvenirs d'enfance
Mes rêves inachevés
Mes restes d'espérance
Et je ne garderai
Pour habiller mon âme
Que l'idée d'un rosier
Et qu'un prénom de femme
Puis je regarderai
Le haut de ma colline
Qui danse qui se devine
Qui finit par sombrer
Et dans l'odeur des fleurs
Qui bientôt s'éteindra
Je sais que j'aurai peur
Une dernière fois.
.
.
.
1 103
al-Khansa
28.
Se não és capaz de controlar tua emoção, nem de
te consolares
Eis inúmeras viagens noturnas de Yalban até al-Uqda,
em lombos jovens de camelas magras
Disse eu a um companheiro assustado: presta atenção
nos cavalos
E chama por um dos grandes quando tiveres alcançado
o ponto mais alto do mirante, então observa:
Verás de imediato, logo abaixo, um cavaleiro vagando.
Enfia então os açoites nos flancos arredondados desse
puro-sangue, tal uma camurça de cor cinza;
E corre; e afunda nele as pernas até que a água brote e
transborde, como da vasilha carregada pela
mão esquerda.
372
Abul ʿAla Al-Maʿarri
Agora imperam esta fé e esta crença
Agora imperam esta fé e esta crença
Até que por outras sejam vencidas.
Homem, temes só com homens vivas,
Dessarte escolhes viver com lendas.
638
Abul ʿAla Al-Maʿarri
Agora imperam esta fé e esta crença
Agora imperam esta fé e esta crença
Até que por outras sejam vencidas.
Homem, temes só com homens vivas,
Dessarte escolhes viver com lendas.
638
Abul ʿAla Al-Maʿarri
Erram todos – judeus, cristãos,
Erram todos – judeus, cristãos,
muçulmanos e masdeístas:
A humanidade segue duas seitas:
Uma: pensadores sem religião,
Outra: religiosos sem cabeça.
739
Abul ʿAla Al-Maʿarri
Erram todos – judeus, cristãos,
Erram todos – judeus, cristãos,
muçulmanos e masdeístas:
A humanidade segue duas seitas:
Uma: pensadores sem religião,
Outra: religiosos sem cabeça.
739
Frank O'Hara
Para Lígia, após uma festa
Você nem sempre sabe o que estou sentindo.
Ontem à noite no ar morno de setembro enquanto
eu brandia uma invectiva contra alguém que não me interessa
era amor por você que me inflamava,
e não é esquisito? pois em salas cheias de
estranhos minhas emoções mais tenras
contorcem-se e
dão à luz o grito.
Estenda sua mão, não há
um cinzeiro, de repente, ali? Ao lado
da cama? E alguém que você ama adentra o quarto
e diz você não
quer os ovos um pouco
diferentes hoje? E quando eles chegam são
apenas ovos mexidos comuns e o ar morno
permanece.
905
Helmut Heissenbüttel
Manchas de tinta fogem céleres
manchas de tinta fogem céleres sobre o conceito
.......da tarde de setembro
um Miró de 1931 com o título Silence
o poço dos pássaros migratórios está em movimento
a lâmpada da escrivaninha resolve enigma nenhum
em vão Miró estica seus braços de Heidegger
.......a Wittgenstein
a amarelada luz pluvial da tarde de setembro cola-se
.......ao vidro da janela
os braços amarelados da tarde de setembro aconchegam
.......-me a si
a amarelada luz de setembro da tarde chuvosa golpeia
.......como um projétil de silêncio
Tintenflecke fliehen rasch über das Konzept des Septemberabends
ein Miró von 1931 mit dem Titel Silence
der Springbrunnen der Schwalben ist unterwegs
die Schreibtischlampe löst keine Rätsel
vergeblich streckt der Miró seine Arme von Heidegger
.......bis Wittgenstein
das gelbe Regenlicht des Septemberabends klebt
.......an der Fensterscheibe
die gelben Arme des Septemberabends pressen mich an sich
das gelbe Septemberlicht des Regenabends schlägt lautlos ein
.......wie ein Geschoss aus Schweigen
.......da tarde de setembro
um Miró de 1931 com o título Silence
o poço dos pássaros migratórios está em movimento
a lâmpada da escrivaninha resolve enigma nenhum
em vão Miró estica seus braços de Heidegger
.......a Wittgenstein
a amarelada luz pluvial da tarde de setembro cola-se
.......ao vidro da janela
os braços amarelados da tarde de setembro aconchegam
.......-me a si
a amarelada luz de setembro da tarde chuvosa golpeia
.......como um projétil de silêncio
Tintenflecke fliehen rasch über das Konzept des Septemberabends
ein Miró von 1931 mit dem Titel Silence
der Springbrunnen der Schwalben ist unterwegs
die Schreibtischlampe löst keine Rätsel
vergeblich streckt der Miró seine Arme von Heidegger
.......bis Wittgenstein
das gelbe Regenlicht des Septemberabends klebt
.......an der Fensterscheibe
die gelben Arme des Septemberabends pressen mich an sich
das gelbe Septemberlicht des Regenabends schlägt lautlos ein
.......wie ein Geschoss aus Schweigen
800
Inge Müller
Quem ajuda a mim
Quem ajuda a mim
Ajudo eu a quem?
Assim e de novo assim.
Eu nós
A vida
Nossos rostos
Solo fezes sol
:
Wer hilft mir
Wem helf ich?
So und immer wieder so.
Ich wir
Das Leben
Unser Gesicht
Erde Kot Licht
.
.
.
Ajudo eu a quem?
Assim e de novo assim.
Eu nós
A vida
Nossos rostos
Solo fezes sol
:
Wer hilft mir
Wem helf ich?
So und immer wieder so.
Ich wir
Das Leben
Unser Gesicht
Erde Kot Licht
.
.
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845
Abul ʿAla Al-Maʿarri
teus sonhos de grande empresa
Vãos, teus sonhos de grande empresa,
De forma vã, tu velejas espaços novos,
Vão, ancorar nesse mundo só de rostos
Se é outro fim que o mundo te reserva.
De forma vã, tu velejas espaços novos,
Vão, ancorar nesse mundo só de rostos
Se é outro fim que o mundo te reserva.
663
al-Khansa
31.
Filhos de Sulaym! Quando deparardes os homens de Faqas
num lugar estreito e de difícil acesso
Cumprimentai-os com vossos sabres, vossas lanças e uma
saraivada de golpes, na noite negra de alcatrão.
Fazei deles hordas debandadas, à memória de Sakhr, cuja
morte ainda não foi vingada,
E à de nossos cavaleiros, mortos lá embaixo, numa batalha
decidida apenas pelo destino.
Ele enfrentou Rabia no combate, e este lhe mergulhou no
peito
Uma lança reta, de nós flexíveis, de ferro aguçado como a
cabeça de um abutre.
E Rabia, neste mesmo instante, salvou-se, não interrom-
pendo a corrida desvairada.
Um cavalo esbelto e delgado levou-o para longe das lanças
de ferro cortante, como uma águia que abando-
na o ninho
De Khalid nos apoderamos, mas Awf o protegeu e libertou,
por sua própria conta.
Se em relação a Khalid houvessem seguido nosso conselho,
não continuaria ele a infligir tão duro tratamento
aos cavalos, até o fim dos tempos.
336
Pedro Xisto
abro após as sombras
abro após as sombras
de par em par as vidraças:
alçam vôo as pombas
862
Leopoldo María Panero
O Anticristo
No metrô vi um homem imensamente belo
que mirava aos homens como se mira um peido
na rua vi um homem de atroz beleza
tinha na testa o sinal da justiça,
o branco 5, o branco número
que dividiu os céus.
No espelho noturno
de um bar onde creram
alguns que lá estavam, havia já um Desperto
que olhava a cena como se existira.
:
EL ANTICRISTO (SEBASTIÁN EN EL SUEÑO)
En el Metro vi a un hombre inmensamente bello
que miraba a los hombres como se mira a un pedo
en la calle vi a un hombre atrozmente hermoso
que tenía em la frente la cifra de justicia,
el Blanco 5, el Blanco número
que dividió a los cielos.
En el espejo oscuro
de un bar donde creían
algunos que vivían, había ya un Despierto
que miraba la escena como si existiera.
883
Helmut Heissenbüttel
cansado da bocarra
cansado da bocarra do presentar-se a si
inalcançável no carrossel das ocasiões recorrentes
avizinhado aos ruídos das ferrovias
além dos adeuses possíveis
irreconhecível na conectividade das relações humanas
passageiro na esperança do rever
de existência hipotética
porque a tentativa é a única garantia
porque a tentativa é a única prova
müde von der Grimasse des Sichvorzeigens
unerreichbar im Karussell der wiederkehrenden Gelegenheiten
benachbart dem Geräusch der Bahnhöfe
jenseits der möglichen Abschiede
unerkannt in der Verbindlichkeit menschlichen Verkehrs
vergänglich in der Hoffnung des Wiedersehens
hypothetisch vorhanden
weil der Versuch die einzige Gewähr ist
weil der Versuch die einzige Beweis ist
.
.
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inalcançável no carrossel das ocasiões recorrentes
avizinhado aos ruídos das ferrovias
além dos adeuses possíveis
irreconhecível na conectividade das relações humanas
passageiro na esperança do rever
de existência hipotética
porque a tentativa é a única garantia
porque a tentativa é a única prova
müde von der Grimasse des Sichvorzeigens
unerreichbar im Karussell der wiederkehrenden Gelegenheiten
benachbart dem Geräusch der Bahnhöfe
jenseits der möglichen Abschiede
unerkannt in der Verbindlichkeit menschlichen Verkehrs
vergänglich in der Hoffnung des Wiedersehens
hypothetisch vorhanden
weil der Versuch die einzige Gewähr ist
weil der Versuch die einzige Beweis ist
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755
Abd al-Wahhab Al-Bayati
Sobre a felicidade
mentiram: a felicidade,
Mohammad,
não se vende.
e então os jornais
escreveram que do céu
choveram rãs ontem à noite.
amigo, roubaram-te a felicidade
enganaram-te
torturaram-te
crucificaram-te
nos laços das palavras
para dizerem de ti: morreu
para te venderem um lugar no céu.
ai como é inútil chorar.
eu tenho vergonha, Mohammad
e então as rãs
roubaram-nos a felicidade.
e eu apesar do sofrimento
continuo a caminho do Sol.
plantaram a noite com adagas
e cães
o céu da noite desaba sobre eles.
então revolta-te!
Mohammad!
então revolta-te!
e cuidado, não sejas traidor.
(tradução de André Simões)
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703
Abd al-Wahhab Al-Bayati
Sobre a felicidade
mentiram: a felicidade,
Mohammad,
não se vende.
e então os jornais
escreveram que do céu
choveram rãs ontem à noite.
amigo, roubaram-te a felicidade
enganaram-te
torturaram-te
crucificaram-te
nos laços das palavras
para dizerem de ti: morreu
para te venderem um lugar no céu.
ai como é inútil chorar.
eu tenho vergonha, Mohammad
e então as rãs
roubaram-nos a felicidade.
e eu apesar do sofrimento
continuo a caminho do Sol.
plantaram a noite com adagas
e cães
o céu da noite desaba sobre eles.
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Mohammad!
então revolta-te!
e cuidado, não sejas traidor.
(tradução de André Simões)
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703
Frank O'Hara
Canção (Estará sujo)
Estará sujo
como se parece sujo
é o que você pensa na cidade
será que só parece sujo
é o que você pensa na cidade
você não se recusa a respirar recusa
alguém chega com um belo dum mau caráter
parece atraente. será mesmo. sim muito
ele é tão atraente quanto mau caráter. será. sim
é o que você pensa na cidade
passe seus dedos por sua mente sem musgo
isto não é um pensamento é fuligem
e você tira muita sujeira das pessoas
será menos mau o caráter. não. melhora constantemente.
você não se recusa a respirar recusa
Is it dirty
does it look dirty
that's what you think of in the city
does it just seem dirty
that's what you think of in the city
you don't refuse to breathe do you
someone comes along with a very bad character
he seems attractive. is he really. yes very
he's attractive as his character is bad. is it. yes
that's what you think of in the city
run your finger along your no-moss mind
that's not a thought that's soot
and you take a lot of dirt off someone
is the character less bad. no. it improves constantly
you don't refuse to breathe do you
(tradução de Ricardo Domeneck)
866
Frank O'Hara
Canção (Estará sujo)
Estará sujo
como se parece sujo
é o que você pensa na cidade
será que só parece sujo
é o que você pensa na cidade
você não se recusa a respirar recusa
alguém chega com um belo dum mau caráter
parece atraente. será mesmo. sim muito
ele é tão atraente quanto mau caráter. será. sim
é o que você pensa na cidade
passe seus dedos por sua mente sem musgo
isto não é um pensamento é fuligem
e você tira muita sujeira das pessoas
será menos mau o caráter. não. melhora constantemente.
você não se recusa a respirar recusa
Is it dirty
does it look dirty
that's what you think of in the city
does it just seem dirty
that's what you think of in the city
you don't refuse to breathe do you
someone comes along with a very bad character
he seems attractive. is he really. yes very
he's attractive as his character is bad. is it. yes
that's what you think of in the city
run your finger along your no-moss mind
that's not a thought that's soot
and you take a lot of dirt off someone
is the character less bad. no. it improves constantly
you don't refuse to breathe do you
(tradução de Ricardo Domeneck)
866
Ghérasim Luca
18 de novembro de 19..
18 de novembro de 19..
Prezado,
O desmoronamento de certos sólidos, ainda que enganador, permite-lhe planar. Aquilo que lhe parecia um abismo torna-se o próprio espaço da sua espessura.
Graças a você, tomo meu impulso...
Mas parece que toda relação com o próximo não passa de vias de aproximação; no momento decisivo, e por uma exigência recíproca, cada um coloca ao outro as questões essenciais.
Ainda hoje bebemos desses ursos.
:
18 novembre 19..
Monsieur,
L’éffondrement de certains solides, bien que trompeur, vous permet de planer. Ce qui vous paraissait un abîme devient l’espace même de votre épaisseur.
Grace à vous, je prends mon élan...
Mais il paraît que tous les rapports avec le prochain ne sont que voies d’approche; au moment décisif, et par une exigence réciproque, chacun pose à l’autre les questions essentielles.
Nous nous abreuvons encore aujourd’hui à ces ours.
658
Manuel António Pina
O livro
E quando chegares à dura
pedra de mármore não digas: «Água, água!»,
porque se encontraste o que procuravas
perdeste-o e não começou ainda a tua procura;
e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras
pois é tudo o que tens: literatura,
nem sequer mistério, nem sequer sentido,
apenas uma coisa hipócrita e escura, o livro.
Não tenhas contra ele o coração endurecido,
aquilo que podes saber está noutro sítio.
O que o livro diz é não dito,
como uma paisagem entrando pela janela de um quarto vazio.
pedra de mármore não digas: «Água, água!»,
porque se encontraste o que procuravas
perdeste-o e não começou ainda a tua procura;
e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras
pois é tudo o que tens: literatura,
nem sequer mistério, nem sequer sentido,
apenas uma coisa hipócrita e escura, o livro.
Não tenhas contra ele o coração endurecido,
aquilo que podes saber está noutro sítio.
O que o livro diz é não dito,
como uma paisagem entrando pela janela de um quarto vazio.
1 751
Manuel António Pina
A um Jovem Poeta
Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.
1 957
Bronisława Wajs
Água, que corre
Já há muito passou o tempo
dos ciganos, que vagavam.
E eu os vi:
são ágeis como a água,
forte, clara,
quando flui.
E adivinho que talvez
ela deseje falar.
Pobre, não sabe nenhuma língua,
para ela falar, para cantar.
A cada vez apenas goteja a prata,
sussurra como o coração
a fala da água.
Apenas o cavalo que pasta na grama
permanece próximo
a escuta e entende os murmúrios.
Mas ela não olha para ele,
foge, nada para mais longe,
pois os olhos não podiam ver
o rio, que corre.
1 002
Lorine Niedecker
Poema
O varal está posto
mas totem nenhum diferencia a tribo Niedecker
das outras; a cada sete dias vão às águas:
veneram o sol; temem a chuva e, dos vizinhos, os olhos;
erguem aos céus as mãos desde o solo
e penduram ou despencam pela brancura de seu todo.
(tradução de Ricardo Domeneck)
///
Poem
Lorine Niedecker
The clothesline post is set
yet no totem-carvings distinguish the Niedecker tribe
from the rest; every seventh day they wash:
worship sun; fear rain, their neighbors' eyes;
raise their hands from ground to sky,
and hang or fall by the whiteness of their all.
mas totem nenhum diferencia a tribo Niedecker
das outras; a cada sete dias vão às águas:
veneram o sol; temem a chuva e, dos vizinhos, os olhos;
erguem aos céus as mãos desde o solo
e penduram ou despencam pela brancura de seu todo.
(tradução de Ricardo Domeneck)
///
Poem
Lorine Niedecker
The clothesline post is set
yet no totem-carvings distinguish the Niedecker tribe
from the rest; every seventh day they wash:
worship sun; fear rain, their neighbors' eyes;
raise their hands from ground to sky,
and hang or fall by the whiteness of their all.
842
Kenneth Rexroth
Perdidos Etc.
Os expatriados dos anos
Vinte e seu líder Pound
Foram aqueles que, em tempos de
Revolta mundial, não acharam nada
Melhor pra combater
Que a lei seca.
LOST ETC.
The expatriates of the
Twenties and their leader Pound
Were those who, in an age of
World revolt, found nothing more
Important to revolt against
Than the Eighteenth Amendment.
Vinte e seu líder Pound
Foram aqueles que, em tempos de
Revolta mundial, não acharam nada
Melhor pra combater
Que a lei seca.
LOST ETC.
The expatriates of the
Twenties and their leader Pound
Were those who, in an age of
World revolt, found nothing more
Important to revolt against
Than the Eighteenth Amendment.
1 055