Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Dambudzo Marechera
Costumava gostar de tomates
Eu me canso do sangue
E da tosse
e mais sangue
Saio bem rápido daquele apê
para algum bar fresco de arruaceiros
e banco o macho com camaradas mais machos
lavando o sangue goela abaixo com Caninha 51
apertando mãos sobre Tsitsi que foi aos ares aos céus
tentando esquecer que não gosto de cozinhar nas panelas
dos mortos
Não gosto de vestir e ficar com cara de idiota metido
em calças e camisas dos mortos
(Eles disseram aí tua mãe e mano passaram aí
disseram que esta é tua herança)
Dali a pouco duro feito pandeiro nem beber consigo
De volta pro apê estirado de costas
engolindo tudo vermelho goela abaixo de volta
Acordei cansado demais pra estourar bolha tão rubra
:
I used to like tomatoes
I get tired of the blood
And the coughing
and more blood
I get out of that flat real fast
to some cool quarrelling bar
and talk big to bigger comrades
washing down the blood with Castle an’ Label
shaking hands about Tsitsi bombed to heaven
trying to forget I don’t like cooking in dead people’s
pots and pans
I don’t like wearing and looking smart-arse in dead
people’s shirts an’ pants
(They said yoh mama an’ bra been for you
said these are your inheritance)
I’m soon tight as a drum can’t drink no more
It’s back at the flat on my back
swallowing it all red back hard down
I woke up too tired to break out so bright red a bubble.
E da tosse
e mais sangue
Saio bem rápido daquele apê
para algum bar fresco de arruaceiros
e banco o macho com camaradas mais machos
lavando o sangue goela abaixo com Caninha 51
apertando mãos sobre Tsitsi que foi aos ares aos céus
tentando esquecer que não gosto de cozinhar nas panelas
dos mortos
Não gosto de vestir e ficar com cara de idiota metido
em calças e camisas dos mortos
(Eles disseram aí tua mãe e mano passaram aí
disseram que esta é tua herança)
Dali a pouco duro feito pandeiro nem beber consigo
De volta pro apê estirado de costas
engolindo tudo vermelho goela abaixo de volta
Acordei cansado demais pra estourar bolha tão rubra
:
I used to like tomatoes
I get tired of the blood
And the coughing
and more blood
I get out of that flat real fast
to some cool quarrelling bar
and talk big to bigger comrades
washing down the blood with Castle an’ Label
shaking hands about Tsitsi bombed to heaven
trying to forget I don’t like cooking in dead people’s
pots and pans
I don’t like wearing and looking smart-arse in dead
people’s shirts an’ pants
(They said yoh mama an’ bra been for you
said these are your inheritance)
I’m soon tight as a drum can’t drink no more
It’s back at the flat on my back
swallowing it all red back hard down
I woke up too tired to break out so bright red a bubble.
1 112
Bessie Head
Coisas de que não gosto
Eu sou negra.
Tá bem?
Sol forte e disposição geográfica
Fizeram-me negra;
E através de minha pele
Muita coisa acontece comigo
DE QUE NÃO GOSTO
E acordo toda manhã
Com sangue homicida nos olhos
Porque um malandro me roubou de novo,
Levando o pouco que tinha nas mãos
Com todo o mundo assistindo
E fazendo nada
Tá bem?
Ah, não.
Hoje é meu dia.
Vou recuperar tintim por tintim,
Tudo o que me roubaste.
Vou à briga até que tu e eu
Estejamos no chão esvaindo-nos em sangue,
E não me importa quem morra, tu ou eu,
Mas vou para a briga -
Tá bem?
:
Things I Don't Like
I am Black.
Okay?
Hot sun and the geographical set-up
Made me Black;
And through my skin
A lot of things happen to me
THAT I DON'T LIKE
And I wake each morning
Red murder in my eyes
'Cause some crook's robbed me again,
Taken what little I had right out of my hands
With the whole world standing by
And doing nothing
Okay?
Oh no.
Today is my day.
Going to get back tit-for-tat,
All you stole.
Going to fight you till you or I
Lie smashed and bleeding dead
And don't care who dies, You or I,
But going to fight -
Okay?
733
Bessie Head
Coisas de que não gosto
Eu sou negra.
Tá bem?
Sol forte e disposição geográfica
Fizeram-me negra;
E através de minha pele
Muita coisa acontece comigo
DE QUE NÃO GOSTO
E acordo toda manhã
Com sangue homicida nos olhos
Porque um malandro me roubou de novo,
Levando o pouco que tinha nas mãos
Com todo o mundo assistindo
E fazendo nada
Tá bem?
Ah, não.
Hoje é meu dia.
Vou recuperar tintim por tintim,
Tudo o que me roubaste.
Vou à briga até que tu e eu
Estejamos no chão esvaindo-nos em sangue,
E não me importa quem morra, tu ou eu,
Mas vou para a briga -
Tá bem?
:
Things I Don't Like
I am Black.
Okay?
Hot sun and the geographical set-up
Made me Black;
And through my skin
A lot of things happen to me
THAT I DON'T LIKE
And I wake each morning
Red murder in my eyes
'Cause some crook's robbed me again,
Taken what little I had right out of my hands
With the whole world standing by
And doing nothing
Okay?
Oh no.
Today is my day.
Going to get back tit-for-tat,
All you stole.
Going to fight you till you or I
Lie smashed and bleeding dead
And don't care who dies, You or I,
But going to fight -
Okay?
733
Bessie Head
Coisas de que não gosto
Eu sou negra.
Tá bem?
Sol forte e disposição geográfica
Fizeram-me negra;
E através de minha pele
Muita coisa acontece comigo
DE QUE NÃO GOSTO
E acordo toda manhã
Com sangue homicida nos olhos
Porque um malandro me roubou de novo,
Levando o pouco que tinha nas mãos
Com todo o mundo assistindo
E fazendo nada
Tá bem?
Ah, não.
Hoje é meu dia.
Vou recuperar tintim por tintim,
Tudo o que me roubaste.
Vou à briga até que tu e eu
Estejamos no chão esvaindo-nos em sangue,
E não me importa quem morra, tu ou eu,
Mas vou para a briga -
Tá bem?
:
Things I Don't Like
I am Black.
Okay?
Hot sun and the geographical set-up
Made me Black;
And through my skin
A lot of things happen to me
THAT I DON'T LIKE
And I wake each morning
Red murder in my eyes
'Cause some crook's robbed me again,
Taken what little I had right out of my hands
With the whole world standing by
And doing nothing
Okay?
Oh no.
Today is my day.
Going to get back tit-for-tat,
All you stole.
Going to fight you till you or I
Lie smashed and bleeding dead
And don't care who dies, You or I,
But going to fight -
Okay?
733
Paulo Colina
Espreita noturna
Tem sempre algo
de porre
na caída de sono
das pálpebras cansadas
da tarde,
e um dedo de raiva
na fuga do cimento
das colmeias
(raiva e medo),
e o princípio cego
das peregrinações
ao tudo e ao nada.
Há pontas de desespero
nas brasas insensíveis
dos cigarros
e um fio minguado
de esperança
para atiçar
o impossível calor
dos quartos vazios.
Tem sempre um rosto,
um corpo de mulher,
no fundo dos copos.
Há sempre uma tocaia
da morte
no seio insone da noite
e um sorriso de criança
rasgando o ventre virgem
das manhãs.
de porre
na caída de sono
das pálpebras cansadas
da tarde,
e um dedo de raiva
na fuga do cimento
das colmeias
(raiva e medo),
e o princípio cego
das peregrinações
ao tudo e ao nada.
Há pontas de desespero
nas brasas insensíveis
dos cigarros
e um fio minguado
de esperança
para atiçar
o impossível calor
dos quartos vazios.
Tem sempre um rosto,
um corpo de mulher,
no fundo dos copos.
Há sempre uma tocaia
da morte
no seio insone da noite
e um sorriso de criança
rasgando o ventre virgem
das manhãs.
1 056
Ted Berrigan
Soneto 2
Querida Margie, alô. São 5:15 da manhã.
querido Berrigan. Ele morreu
De volta aos livros. Leio
São 8:30 da noite em Nova Iorque e estive numa correria o dia todo
velhos vinde-ver-quens vadiam pelas ruas. Sim, é agora
Quanto Mais Tempo Serei Capaz de Habitar o Divino
e o dia é cinza claro ficando verde
feminino esplendoroso e durão
vendo o sol se levantar sobre o Pátio da Marinha
para escrever corpo de durex no caderno
tomei 17 miligramas e meio
Querida Margie, alô. São 5:15 da manhã
fodi até às 7 agora ela está atrasada para o trabalho e eu tenho
18 anos então por que minhas mãos estão tremendo eu devia ser mais esperto
937
Paulo Colina
Forja
entre uma calmaria
e outra
do mar de nossas peles
me bastaria amor cantar o fogo
que somos na nascente
de suas coxas
mas há essa dor de outros tempos
e corpos
essa rosa dos ventos sem norte
na memória sitiada da noite
embora o gesto possa ser
no mais todo ternura
o poema continua um quilombo
no coração
1 358
Jean Follain
Pensamentos de outubro
Como amamos
esse ótimo vinho
que bebemos sozinhos
quando a noite ilumina as colinas com cobre
nenhum caçador mira
as aves de caça na planície
as irmãs de nossos amigos
parecem mais bonitas
há no entanto ameaça de guerra
um inseto pausa
depois segue
:
Pensées d´Octubre
Jean Follain
On aime bien
ce grand vin
que l’on boit solitaire
quand le soir illumine les collines cuivrées
plus un chasseur n’ajuste
les gibiers de la plaine
les soeurs de nos amis
apparaissent les plus belles
il y a pourtant menace de guerre
un insecte s’arrête
puis repart.
esse ótimo vinho
que bebemos sozinhos
quando a noite ilumina as colinas com cobre
nenhum caçador mira
as aves de caça na planície
as irmãs de nossos amigos
parecem mais bonitas
há no entanto ameaça de guerra
um inseto pausa
depois segue
:
Pensées d´Octubre
Jean Follain
On aime bien
ce grand vin
que l’on boit solitaire
quand le soir illumine les collines cuivrées
plus un chasseur n’ajuste
les gibiers de la plaine
les soeurs de nos amis
apparaissent les plus belles
il y a pourtant menace de guerre
un insecte s’arrête
puis repart.
735
Paulo Colina
Pressentimento
Maio,
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
1 507
Paulo Colina
Pressentimento
Maio,
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
1 507
Paulo Colina
Pressentimento
Maio,
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
1 507
Gonzalo Rojas
A lepra
Ainda lembro a minha aula de Retórica.
Cerimônia do Juízo Final. Um grande silêncio
até que o Professor irrompia: “Sentem-se”.
“Trago-lhes carne fresca”. E esvaziava um pacote
de algo mole e viscoso
envolto em jornais velhos como um peixe cru
sobre a mesa em que celebrava sua missa.
“Capítulo Primeiro”. “O estilo do homem
corresponde a um defeito em sua língua”. E mostrava
uma língua comida por moscas de ataúde
para ilustrar sua tese com a luz do exemplo.
“Olhem: a língua inglesa não é a língua espanhola”.
“Aqui tenho a língua de Cervantes. Sua forma
de espada não coincide com o eco do paladar”. O Professor falava
de condições, traços, influências,
metáforas, estrofes. E cada afirmação
era provada pela Crítica.
Ora, os pontos de vista da Crítica
– pobres vasilhas vazias –
eram toda essa carne palpitante
saqueada dos mais diferentes cemitérios:
línguas, dentes, narizes, pulmões, ventres, mãos,
que um dia foram órgãos dos grandes autores,
hoje, tumores malignos servidos em bandejas
por professores-asnos a discípulos-asnos
dentro de uma sala-esgoto.
Garotos e garotas extasiados
copiavam em “papéis” todas as proporções
de uma obra-prima: as leis da lírica,
da épica e do dramática, causas e conseqüências,
a decadência, o desenvolver
das literaturas.
Ante tal entusiasmo,
o cheiro dos restos dos grandes autores
mesclava-se ao cheiro desses belos defuntos
sentados na cadeira do seu próprio excremento,
e a corrente de ar era uma imundície só,
enquanto a admiração chegava ao descomedido
quando esse Professor: “Se aprenderem – dizia-nos –
os requisitos da criação,
serão fortes rivais de Goethe. E superiores.”
E encerrava sua aula.
Guardava todos os despojos nojentos
em seu pacote e, com a cabeça erguida,
coroado com louros pelo bom êxito,
virava-nos as costas como um Deus do Olimpo
que regressa à sua concha.
Ainda recordo minha aula de Retórica
em que a vida e a beleza
eram um prato de carne podre.
Tive que cortar a língua na raiz
para livrar-me da lepra.
(tradução de Fabiano Calixto, publicada originalmente no primeiro número impresso da Modo de Usar & Co., novembro de 2007.)
:
LA LEPRA: Todavía recuerdo mi clase de Retórica. / Ceremonia del Juicio Final. Un gran silencio / hasta que el Profesor irrumpía: “Sentaos”. / “Os traigo carne fresca”. Y vaciaba un paquete / de algo blando y viscoso / envuelto en diarios viejos como un pescado crudo, / sobre la mesa en que él oficiaba su misa. // “Capítulo Primero”. / “El estilo del hombre / corresponde a un defecto de su lengua”. Y mostraba / una lengua comida por moscas de ataúd / para ilustrar su tesis con la luz del ejemplo. // “Mirad: la lengua inglesa no es la lengua española” / “Aquí tengo la lengua de Cervantes. Su forma / de espada no coincide con el hueco del paladar”. El Profesor hablaba / de condiciones, rasgos, influencias, / metáforas, estrofas. Y cada afirmación / era probada por la Crítica // Ahora bien, los puntos de vistas de la Crítica / – pobres cuencas vacías – / eran toda esa carne palpitante / saqueada a los distintos cementerios: / lenguas, dientes, narices, pulmones, vientres, manos / que un día fueron órganos de los grandes autores, / hoy tumores malignos servidos en bandejas / por profesores-asnos a discípulos-asnos / adentro de una sala-alcantarilla. // Donceles y doncellas extasiados / copiaban en “papeles” todas las proporciones / de una obra maestra: las leyes de la lírica / la épica u dramática, causas y consecuencias, / la decadencia, el desarrollo / de las literaturas. // Ante tal entusiasmo, / el olor de los restos de los grandes autores / se mezclaba al olor de esos bellos difuntos / sentados en la silla de su propio excremento, / y una sola corriente de inmundicia era el aire, / mientras la admiración llegaba a al desenfreno / cuando ese Profesor: “Si aprendéis – nos decía – / los requisitos de la creación, / seréis fieros rivales de Goethe, y superiores.” // Y cerraba su clase. / Guardaba todos los despojos nauseabundos / en su paquete, y con la frente en alto, / coronado en laurel por su buen éxito / nos volvía la espalda como un Dios del Olimpo / que regresa a su concha. // Todavía recuerdo mi clase de Retórica / en que la vida y la belleza / eran un plato de carne podrida. // Yo tuve que cortarme la lengua en la raíz / para librarme de la lepra.
Cerimônia do Juízo Final. Um grande silêncio
até que o Professor irrompia: “Sentem-se”.
“Trago-lhes carne fresca”. E esvaziava um pacote
de algo mole e viscoso
envolto em jornais velhos como um peixe cru
sobre a mesa em que celebrava sua missa.
“Capítulo Primeiro”. “O estilo do homem
corresponde a um defeito em sua língua”. E mostrava
uma língua comida por moscas de ataúde
para ilustrar sua tese com a luz do exemplo.
“Olhem: a língua inglesa não é a língua espanhola”.
“Aqui tenho a língua de Cervantes. Sua forma
de espada não coincide com o eco do paladar”. O Professor falava
de condições, traços, influências,
metáforas, estrofes. E cada afirmação
era provada pela Crítica.
Ora, os pontos de vista da Crítica
– pobres vasilhas vazias –
eram toda essa carne palpitante
saqueada dos mais diferentes cemitérios:
línguas, dentes, narizes, pulmões, ventres, mãos,
que um dia foram órgãos dos grandes autores,
hoje, tumores malignos servidos em bandejas
por professores-asnos a discípulos-asnos
dentro de uma sala-esgoto.
Garotos e garotas extasiados
copiavam em “papéis” todas as proporções
de uma obra-prima: as leis da lírica,
da épica e do dramática, causas e conseqüências,
a decadência, o desenvolver
das literaturas.
Ante tal entusiasmo,
o cheiro dos restos dos grandes autores
mesclava-se ao cheiro desses belos defuntos
sentados na cadeira do seu próprio excremento,
e a corrente de ar era uma imundície só,
enquanto a admiração chegava ao descomedido
quando esse Professor: “Se aprenderem – dizia-nos –
os requisitos da criação,
serão fortes rivais de Goethe. E superiores.”
E encerrava sua aula.
Guardava todos os despojos nojentos
em seu pacote e, com a cabeça erguida,
coroado com louros pelo bom êxito,
virava-nos as costas como um Deus do Olimpo
que regressa à sua concha.
Ainda recordo minha aula de Retórica
em que a vida e a beleza
eram um prato de carne podre.
Tive que cortar a língua na raiz
para livrar-me da lepra.
(tradução de Fabiano Calixto, publicada originalmente no primeiro número impresso da Modo de Usar & Co., novembro de 2007.)
:
LA LEPRA: Todavía recuerdo mi clase de Retórica. / Ceremonia del Juicio Final. Un gran silencio / hasta que el Profesor irrumpía: “Sentaos”. / “Os traigo carne fresca”. Y vaciaba un paquete / de algo blando y viscoso / envuelto en diarios viejos como un pescado crudo, / sobre la mesa en que él oficiaba su misa. // “Capítulo Primero”. / “El estilo del hombre / corresponde a un defecto de su lengua”. Y mostraba / una lengua comida por moscas de ataúd / para ilustrar su tesis con la luz del ejemplo. // “Mirad: la lengua inglesa no es la lengua española” / “Aquí tengo la lengua de Cervantes. Su forma / de espada no coincide con el hueco del paladar”. El Profesor hablaba / de condiciones, rasgos, influencias, / metáforas, estrofas. Y cada afirmación / era probada por la Crítica // Ahora bien, los puntos de vistas de la Crítica / – pobres cuencas vacías – / eran toda esa carne palpitante / saqueada a los distintos cementerios: / lenguas, dientes, narices, pulmones, vientres, manos / que un día fueron órganos de los grandes autores, / hoy tumores malignos servidos en bandejas / por profesores-asnos a discípulos-asnos / adentro de una sala-alcantarilla. // Donceles y doncellas extasiados / copiaban en “papeles” todas las proporciones / de una obra maestra: las leyes de la lírica / la épica u dramática, causas y consecuencias, / la decadencia, el desarrollo / de las literaturas. // Ante tal entusiasmo, / el olor de los restos de los grandes autores / se mezclaba al olor de esos bellos difuntos / sentados en la silla de su propio excremento, / y una sola corriente de inmundicia era el aire, / mientras la admiración llegaba a al desenfreno / cuando ese Profesor: “Si aprendéis – nos decía – / los requisitos de la creación, / seréis fieros rivales de Goethe, y superiores.” // Y cerraba su clase. / Guardaba todos los despojos nauseabundos / en su paquete, y con la frente en alto, / coronado en laurel por su buen éxito / nos volvía la espalda como un Dios del Olimpo / que regresa a su concha. // Todavía recuerdo mi clase de Retórica / en que la vida y la belleza / eran un plato de carne podrida. // Yo tuve que cortarme la lengua en la raíz / para librarme de la lepra.
1 361
Maura Lopes Cançado
permitam-me destruir o livro do Sagan
1
pausa:
permitam-me destruir o livro do Sagan.
É a seda pura que deve nos envolver; ter
música, no momento do beijo.
Inclinada, a rosa lembrará a brisa,
as grades rendadas, o jardim.
Além do mar, outros casais existem.
A noite nos destrói pelas esquinas (repetindo-se
e envelhecendo como almas.
2
Vim do sonho: um monge louco,
olímpico, acordou-me.
Homem de vestes alvas, onde chegará meu braço,
alongando-se, misturando-se às algas:
Sou leve, sílfide talvez, e no voo,
pareço rosa recuada.
Ninguém me salvará
da mentira que sou.
Senhor de vestes sombrias, quantos mundos visitei?
Minh'alma, nua, ela se permuta com a rocha.
Se alguém me procurar,
não pertenço a ninguém.
Senhor, quero um breviário
de contos infantis: carochinha (para ler no pátio
cinzento, prisão da rainha)
Senhor, falo coisas da vida, vim do sonho
ou da loucura?
Senhor, que dor é essa
abrigando meu amor?
3
Fizeram muros altos cinzentos,
esconderam a terra; mas o quadrado azul está presente -
sempre.
Senhora rainha do Egito, dai-me pálpebras pesadas
de mistérios piramidais.
Quantas são? Onde a bola ou sou bola?
Santos coroados cantam, que vestidos rasgados não são
nódoas.
Senhora rainha do Egito, meus versos falam de areia quente,
e faraós, onde Cleópatra dançava,
Por que falar de calor
se vitrais já cintilavam no pátio?
Vidro
é saudade de louco
casado com grades.
4.
Cimento armado e é bezerro de ouro
pedindo pausas.
Esta cidade tem meus olhos,
sabem por que perdi-me?
Quando a cidade cresceu
morei no terceiro andar.
O dia brigou com a luz, eu,
incoerente, juntei-me às palavras,
subindo de elevador
1 095
Ted Berrigan
Soneto 55
“Graça de nascer
e viver tão vário
quanto possível for”
-- Frank O`Hara
Graça de nascer e viver tão vário quanto possível for
Barcos brancos..... margens verdes.....poeira preta..... num tremor
Enormes como as coxas de Anne sobre a página
Enfureço-me numa camisa azul contra uma escrivaninha marrom num
Cômodo claro sustido por uma barrigacheia de comprimidos
“Os Poemas” não são um sonho por todas as coisas que lhes chegaram
Gratuitamente..... na rápida Nova Iorque imaginamos o Charles azul
Patsy desperta no cio e pronta pra briga
Nada de Poemas ela exige num comando de cobertas..... barriga
Com barriga quente nos deitamos..... serenamente brancos
De verdade, só meus poros suarentos na noite vazia
Estranhas combustões por toda a parte!..... temos fome e provamos
E vamos ao cinema..... depois corremos para casa encharcados de chama
À graça da cama de faz-de-conta
tradução de Ismar Tirelli Neto
802
Dambudzo Marechera
Camarada Drácula junta-se à Revolução: uma união de mentes
Para ter o que fazer, vamos andar para sempre neste
Círculo chamado casamento (para sempre presume
Nem fim nem começo). Foi-se a lengalenga dos votos.
Lembre-se que deus permite-se a liberdade de ser o centro
De um círculo cuja circunferência está em toda parte (Que
Cinismo!) Com cuidado e sorte nós também podemos ser
Sua imagem. O amor e a História são bestas. Dessarte
deixe suas atrações pastarem
Livres – Nem chego a ter tais planos com humanos.
Você há por gula de vadiar nesse mundo
Enquanto eu e mortos cujas covas são meus prostíbulos
Lufrificaremos da paixão as juntas duras. Não se alarme:
Já que eles dizem THE FIGHT GOES ON até do além
das covas abarrotadas.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Comrade Dracula joins the Revolution: a wedding of minds
Dambudzo Marechera
For something to do let’s forever walk this
Circle they call marriage (forever presumes neither
Beginning nor end) The rigmarole of vows is over.
Remember god allows himself the freedom to be the
centre
Of a circle whose circumference is everywhere (What
Cynicism!) With caution & luck we too can be the image
Of him. Love like history is bunk. Hence let your
attractions range
Free – I have no such intentions with humans at least.
You in this world will dally to surfeit
While I with the dead whose tombs are my brothels
Will oil passion’s stiff joints. Do not be alarmed:
As they say A LUTA CONTINUA even beyond the
serried graves.
624
Paulo Colina
Solitude
Dentro desta noite cúmplice
tudo se funde
em meus ouvidos:
o assobio plano do vento
e as ondas pontuais das vozes
e gargalhadas
no interior dos bares.
Já estive em três deles. E até agora,
nenhuma cadeira me aqueceu direito;
nada do que bebi me caiu bem.
As horas se arrastam ao rés dos edifícios
do centro capital,
alheios à soturna clausura das palavras
dentro de mim.
Pelas ruas,
cada ponto de ônibus
é um cão vadio roendo silêncios.
Meu peito é um vão
por onde toda a cidade transita.
954
Dambudzo Marechera
Você perguntou o que há de errado com a guerra?
Não há palavras erradas, certo?
Não há árvores erradas, certo?
Não há areia errada, certo?
Eu dormi o mundo de cuecas livres
Sonhei que trepava com todos os menininhos
que são futuros líderes
Fodi todas as menininhas engraçadas feitas
de palha e algodão
Meu rabo anarquista cagou na sociedade
E OLHEM como milhões de moscas
ora voam rumo a seus lábios arreganhados.
:
Did you ask what´s wrong with war?
There are no wrong words, right?
There are no wrong trees, right?
There is no wrong sand, right?
I’ve slept the world in freely
underwear
Dreamed I buggered all the little boys
who are future leaders
Fucked all the funny little girls made of
thatch and ghandy
My anarchist arse has shat on society
And LOOK millions of open flies
are homing in on your wide-open lips.
Não há árvores erradas, certo?
Não há areia errada, certo?
Eu dormi o mundo de cuecas livres
Sonhei que trepava com todos os menininhos
que são futuros líderes
Fodi todas as menininhas engraçadas feitas
de palha e algodão
Meu rabo anarquista cagou na sociedade
E OLHEM como milhões de moscas
ora voam rumo a seus lábios arreganhados.
* Nota do tradutor: não consegui encontrar referências para a palavra "ghandy". Pensei na possibilidade de ser uma referência ao tecido indiano khadi, e optei pela tradução como "algodão". Sugestões são bem-vindas.
:
Did you ask what´s wrong with war?
There are no wrong words, right?
There are no wrong trees, right?
There is no wrong sand, right?
I’ve slept the world in freely
underwear
Dreamed I buggered all the little boys
who are future leaders
Fucked all the funny little girls made of
thatch and ghandy
My anarchist arse has shat on society
And LOOK millions of open flies
are homing in on your wide-open lips.
714
Dambudzo Marechera
Você perguntou o que há de errado com a guerra?
Não há palavras erradas, certo?
Não há árvores erradas, certo?
Não há areia errada, certo?
Eu dormi o mundo de cuecas livres
Sonhei que trepava com todos os menininhos
que são futuros líderes
Fodi todas as menininhas engraçadas feitas
de palha e algodão
Meu rabo anarquista cagou na sociedade
E OLHEM como milhões de moscas
ora voam rumo a seus lábios arreganhados.
:
Did you ask what´s wrong with war?
There are no wrong words, right?
There are no wrong trees, right?
There is no wrong sand, right?
I’ve slept the world in freely
underwear
Dreamed I buggered all the little boys
who are future leaders
Fucked all the funny little girls made of
thatch and ghandy
My anarchist arse has shat on society
And LOOK millions of open flies
are homing in on your wide-open lips.
Não há árvores erradas, certo?
Não há areia errada, certo?
Eu dormi o mundo de cuecas livres
Sonhei que trepava com todos os menininhos
que são futuros líderes
Fodi todas as menininhas engraçadas feitas
de palha e algodão
Meu rabo anarquista cagou na sociedade
E OLHEM como milhões de moscas
ora voam rumo a seus lábios arreganhados.
* Nota do tradutor: não consegui encontrar referências para a palavra "ghandy". Pensei na possibilidade de ser uma referência ao tecido indiano khadi, e optei pela tradução como "algodão". Sugestões são bem-vindas.
:
Did you ask what´s wrong with war?
There are no wrong words, right?
There are no wrong trees, right?
There is no wrong sand, right?
I’ve slept the world in freely
underwear
Dreamed I buggered all the little boys
who are future leaders
Fucked all the funny little girls made of
thatch and ghandy
My anarchist arse has shat on society
And LOOK millions of open flies
are homing in on your wide-open lips.
714
Dambudzo Marechera
Você perguntou o que há de errado com a guerra?
Não há palavras erradas, certo?
Não há árvores erradas, certo?
Não há areia errada, certo?
Eu dormi o mundo de cuecas livres
Sonhei que trepava com todos os menininhos
que são futuros líderes
Fodi todas as menininhas engraçadas feitas
de palha e algodão
Meu rabo anarquista cagou na sociedade
E OLHEM como milhões de moscas
ora voam rumo a seus lábios arreganhados.
:
Did you ask what´s wrong with war?
There are no wrong words, right?
There are no wrong trees, right?
There is no wrong sand, right?
I’ve slept the world in freely
underwear
Dreamed I buggered all the little boys
who are future leaders
Fucked all the funny little girls made of
thatch and ghandy
My anarchist arse has shat on society
And LOOK millions of open flies
are homing in on your wide-open lips.
Não há árvores erradas, certo?
Não há areia errada, certo?
Eu dormi o mundo de cuecas livres
Sonhei que trepava com todos os menininhos
que são futuros líderes
Fodi todas as menininhas engraçadas feitas
de palha e algodão
Meu rabo anarquista cagou na sociedade
E OLHEM como milhões de moscas
ora voam rumo a seus lábios arreganhados.
* Nota do tradutor: não consegui encontrar referências para a palavra "ghandy". Pensei na possibilidade de ser uma referência ao tecido indiano khadi, e optei pela tradução como "algodão". Sugestões são bem-vindas.
:
Did you ask what´s wrong with war?
There are no wrong words, right?
There are no wrong trees, right?
There is no wrong sand, right?
I’ve slept the world in freely
underwear
Dreamed I buggered all the little boys
who are future leaders
Fucked all the funny little girls made of
thatch and ghandy
My anarchist arse has shat on society
And LOOK millions of open flies
are homing in on your wide-open lips.
714
Giuseppe Ungaretti
San Martino del Carso
Valloncello dell'Albero Isolato, 27 de agosto de 1916
Destas casas
nada sobrou
senão alguns
pedaços de muro
De quantos
me foram próximos
nada sobrou
nem tanto
No coração porém
nenhuma cruz me falta
É o meu coração
a região mais destroçada
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Valloncello dell'Albero Isolato il 27 agosto 1916
Di queste case
non è rimasto
che qualche
brandello di muro
Di tanti
che mi corrispondevano
non è rimasto
neppure tanto
Ma nel cuore
nessuna croce manca
È il mio cuore
il paese più straziato
Destas casas
nada sobrou
senão alguns
pedaços de muro
De quantos
me foram próximos
nada sobrou
nem tanto
No coração porém
nenhuma cruz me falta
É o meu coração
a região mais destroçada
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Valloncello dell'Albero Isolato il 27 agosto 1916
Di queste case
non è rimasto
che qualche
brandello di muro
Di tanti
che mi corrispondevano
non è rimasto
neppure tanto
Ma nel cuore
nessuna croce manca
È il mio cuore
il paese più straziato
1 666
Christine Lavant
Eu quero partir com os loucos o pão,
Eu quero partir com os loucos o pão,
migalhas diárias do desespero grande,
também o sino em meio ao peito,
ali onde o pombo aninha-se
e tem seu refúgio minúsculo
no ermo sobre as águas.
Residi por anos como pedra
no chão das coisas.
Eu ouvi, porém, o sino
sussurrar teu segredo
nos peixes com asas.
Hei-de aprender a voar e nadar,
deixar o pedregoso sob as pedras,
aconchegar em madrepérola
a melancolia, elevar aflição, ira.
Minhas asas são mais velhas
que tua paciência, minhas asas
vão à frente da coragem
que tomou sobre os ombros o louco.
Eu quero partir com os loucos o pão,
ali no ermo assustador do pombo,
onde o sino triparte o maior desespero
ao som tríplice do teu nome.
718
Maria Ângela Alvim
Quero crer-me este sentido
Quero crer-me este sentido
de longa memória branca.
Sobre ele não lembrar,
- ficar, ficar,
no encontro de tudo em pouco:
o tempo se refez no instante
deste espaço, superfície,
chão que nem me sustenta
(dura sou, eu, e dura amargura é a minha).
Não, não me lembrarei,
seria pensar começos
e outros fins - ó lunares
lembranças, doridos passos
(muitos fui acompanhando
de longe e mais me pisaram
aqui, ali, onde sei).
Estou? Se estou me consentem
os gestos e os movimentos?
Nenhum ruído se atenta
que dentro não fosse ouvido.
E tudo em mim se repete
enquanto durante e sempre
a lembrança vai baixando
a seu leito mais dormente.
Os pensamentos seriam
roteiros menos sofridos?
Deixá-los que se solveram
nestes noturnos tormentos
da mente se procurando,
da idéia, refluindo
sobre dúvida, distância
e certeza, aéreo marco
de um repouso em si medido.
Deixá-los. Deixar-me enquanto
existe um consenso oculto.
Pensarei que desvivi
num limite-lucidez
lá e, no entanto, aqui.
de longa memória branca.
Sobre ele não lembrar,
- ficar, ficar,
no encontro de tudo em pouco:
o tempo se refez no instante
deste espaço, superfície,
chão que nem me sustenta
(dura sou, eu, e dura amargura é a minha).
Não, não me lembrarei,
seria pensar começos
e outros fins - ó lunares
lembranças, doridos passos
(muitos fui acompanhando
de longe e mais me pisaram
aqui, ali, onde sei).
Estou? Se estou me consentem
os gestos e os movimentos?
Nenhum ruído se atenta
que dentro não fosse ouvido.
E tudo em mim se repete
enquanto durante e sempre
a lembrança vai baixando
a seu leito mais dormente.
Os pensamentos seriam
roteiros menos sofridos?
Deixá-los que se solveram
nestes noturnos tormentos
da mente se procurando,
da idéia, refluindo
sobre dúvida, distância
e certeza, aéreo marco
de um repouso em si medido.
Deixá-los. Deixar-me enquanto
existe um consenso oculto.
Pensarei que desvivi
num limite-lucidez
lá e, no entanto, aqui.
854
Pentti Saarikoski
Fragmentos de Convite para a dança
V
Não retornes
Quetzalcoatl
aqui agora adoram-se outros deuses
as penas do teu pássaro
à venda em lojas para turistas
teus lagos congelados
as pontes de ilha a ilha
escapamentos para as ansiedades do povo
das janelas de edifícios
olhos cansados contemplam a praça
rubra com o sangue dos inocentes
não retornes
Quetzalcoatl
fica com a fé dos teus pais
677