Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Domingos Caldas Barbosa
A Ternura Brasileira
Não posso negar, não posso,
Não posso por mais que queira,
Que o meu coração se abrasa
Da ternura Brasileira.
Uma alma singela, e rude
Sempre foi mais verdadeira,
A minha por isso é própria
Da ternura Brasileira.
Lembra na última idade
A paixão lá da primeira,
Tenho nos últimos dias
A ternura Brasileira.
Vejo a carrancuda morte
Ameigar sua viseira,
Por ver que ao matar-me estraga
A ternura Brasileira.
Caronte que chega à barca,
E que me chama à carreira,
Vê que o batel vai curvando
Co'a ternura Brasileira.
Mal piso sobre os Elísios,
Outra sombra companheira
Chega, pasma, e não conhece
A ternura Brasileira.
Eu vejo a infeliz Rainha
Que morre em ampla fogueira,
Por não achar em Enéias
A ternura Brasileira.
Do mundo a última parte
Não tem frase lisonjeira,
As três que a têm não conhecem
A ternura Brasileira.
Do mundo a última parte
Foi sempre em amar primeira,
Pode às três servir de exemplo
A ternura Brasileira.
Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).
In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15
Não posso por mais que queira,
Que o meu coração se abrasa
Da ternura Brasileira.
Uma alma singela, e rude
Sempre foi mais verdadeira,
A minha por isso é própria
Da ternura Brasileira.
Lembra na última idade
A paixão lá da primeira,
Tenho nos últimos dias
A ternura Brasileira.
Vejo a carrancuda morte
Ameigar sua viseira,
Por ver que ao matar-me estraga
A ternura Brasileira.
Caronte que chega à barca,
E que me chama à carreira,
Vê que o batel vai curvando
Co'a ternura Brasileira.
Mal piso sobre os Elísios,
Outra sombra companheira
Chega, pasma, e não conhece
A ternura Brasileira.
Eu vejo a infeliz Rainha
Que morre em ampla fogueira,
Por não achar em Enéias
A ternura Brasileira.
Do mundo a última parte
Não tem frase lisonjeira,
As três que a têm não conhecem
A ternura Brasileira.
Do mundo a última parte
Foi sempre em amar primeira,
Pode às três servir de exemplo
A ternura Brasileira.
Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).
In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15
2 350
Cora Coralina
Vida das Lavadeiras
Sombra da mata
sobre as águas quietas
onde as iaras
vêm dançar à noite...
Não. Mentira.
Façamos versos sem mentir.
— Onde batem roupa
as lavadeiras pobres.
Sombra verde dos morros
no poço fundo
da Carioca
onde as mulheres sem marido
carregadas de necessidades,
mães de muitos filhos
largados pelo mundo
batem roupa nas pedras
lavando a pobreza
sem cantiga, sem toada, sem alegria.
Quero escrever versos verdadeiros.
Por que será, Senhor
que a mentira se insinua
nos meus versos?
Onde vive você, poeta, meu irmão
que faz versos sem mentir?
In: CORALINA, Cora. Meu livro de cordel. 2. ed. São Paulo: Global, 198
sobre as águas quietas
onde as iaras
vêm dançar à noite...
Não. Mentira.
Façamos versos sem mentir.
— Onde batem roupa
as lavadeiras pobres.
Sombra verde dos morros
no poço fundo
da Carioca
onde as mulheres sem marido
carregadas de necessidades,
mães de muitos filhos
largados pelo mundo
batem roupa nas pedras
lavando a pobreza
sem cantiga, sem toada, sem alegria.
Quero escrever versos verdadeiros.
Por que será, Senhor
que a mentira se insinua
nos meus versos?
Onde vive você, poeta, meu irmão
que faz versos sem mentir?
In: CORALINA, Cora. Meu livro de cordel. 2. ed. São Paulo: Global, 198
5 338
Cora Coralina
Vida das Lavadeiras
Sombra da mata
sobre as águas quietas
onde as iaras
vêm dançar à noite...
Não. Mentira.
Façamos versos sem mentir.
— Onde batem roupa
as lavadeiras pobres.
Sombra verde dos morros
no poço fundo
da Carioca
onde as mulheres sem marido
carregadas de necessidades,
mães de muitos filhos
largados pelo mundo
batem roupa nas pedras
lavando a pobreza
sem cantiga, sem toada, sem alegria.
Quero escrever versos verdadeiros.
Por que será, Senhor
que a mentira se insinua
nos meus versos?
Onde vive você, poeta, meu irmão
que faz versos sem mentir?
In: CORALINA, Cora. Meu livro de cordel. 2. ed. São Paulo: Global, 198
sobre as águas quietas
onde as iaras
vêm dançar à noite...
Não. Mentira.
Façamos versos sem mentir.
— Onde batem roupa
as lavadeiras pobres.
Sombra verde dos morros
no poço fundo
da Carioca
onde as mulheres sem marido
carregadas de necessidades,
mães de muitos filhos
largados pelo mundo
batem roupa nas pedras
lavando a pobreza
sem cantiga, sem toada, sem alegria.
Quero escrever versos verdadeiros.
Por que será, Senhor
que a mentira se insinua
nos meus versos?
Onde vive você, poeta, meu irmão
que faz versos sem mentir?
In: CORALINA, Cora. Meu livro de cordel. 2. ed. São Paulo: Global, 198
5 338
Vicente de Carvalho
A Voz do Sino
I
Tarde triste e silenciosa
De vila de beira-mar:
Uma tarde cor-de-rosa
Que vai morrendo em luar...
(...)
De súbito, rumoreja
Violentamente o ar:
Na torrezinha da igreja
Rompe o sino a badalar.
Ponho-me atento, a escutá-lo:
Que diz, alto e repentino,
Esse bater de um badalo
Num sino?
Badalo que assim badalas
No sino que assim ressoa,
Aves, já nenhuma voa:
Dormem; e vais acordá-las
À-toa...
Vais espantar quanta moça
Aí pelos arredores
Depois de um dia de roça,
De enxada e de soalheira,
Dedica a tarde ligeira
A tarefas bem melhores:
Pelas discretas beiradas
De alguma fonte; fiadas
Na proteção pitoresca
De ramagens, folha, flores;
Que fazem elas? Coitadas,
Bebem, nas mãos, água fresca...
Lavam as caras tostadas...
Ou cuidam dos seus amores...
Badalo que assim badalas
No sino que assim ressoa,
Olha que vais espantá-las
À-toa...
Badalas... E eu que te falo
Não sei e nem imagino
Que pretendes tu, badalo,
A bater, bater no sino.
Talvez convoques à ceia
Pescadores que, lidando,
Nem viram que entardeceu;
Algum se estendeu na areia
A descansar; senão quando,
De cansado adormeceu...
(...)
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
Tarde triste e silenciosa
De vila de beira-mar:
Uma tarde cor-de-rosa
Que vai morrendo em luar...
(...)
De súbito, rumoreja
Violentamente o ar:
Na torrezinha da igreja
Rompe o sino a badalar.
Ponho-me atento, a escutá-lo:
Que diz, alto e repentino,
Esse bater de um badalo
Num sino?
Badalo que assim badalas
No sino que assim ressoa,
Aves, já nenhuma voa:
Dormem; e vais acordá-las
À-toa...
Vais espantar quanta moça
Aí pelos arredores
Depois de um dia de roça,
De enxada e de soalheira,
Dedica a tarde ligeira
A tarefas bem melhores:
Pelas discretas beiradas
De alguma fonte; fiadas
Na proteção pitoresca
De ramagens, folha, flores;
Que fazem elas? Coitadas,
Bebem, nas mãos, água fresca...
Lavam as caras tostadas...
Ou cuidam dos seus amores...
Badalo que assim badalas
No sino que assim ressoa,
Olha que vais espantá-las
À-toa...
Badalas... E eu que te falo
Não sei e nem imagino
Que pretendes tu, badalo,
A bater, bater no sino.
Talvez convoques à ceia
Pescadores que, lidando,
Nem viram que entardeceu;
Algum se estendeu na areia
A descansar; senão quando,
De cansado adormeceu...
(...)
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
3 699
Murillo Mendes
Guernica
Subsiste, Guernica, o exemplo macho,
Subsiste para sempre a honra castiça,
A jovem e antiga tradição do carvalho
Que descerra o pálio de diamante.
A força do teu coração desencadeado
Contactou os subterrâneos de Espanha.
E o mundo da lucidez a recebeu:
O ar voa incorporando-se teu nome.
Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).
In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
Subsiste para sempre a honra castiça,
A jovem e antiga tradição do carvalho
Que descerra o pálio de diamante.
A força do teu coração desencadeado
Contactou os subterrâneos de Espanha.
E o mundo da lucidez a recebeu:
O ar voa incorporando-se teu nome.
Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).
In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
2 657
Murillo Mendes
Guernica
Subsiste, Guernica, o exemplo macho,
Subsiste para sempre a honra castiça,
A jovem e antiga tradição do carvalho
Que descerra o pálio de diamante.
A força do teu coração desencadeado
Contactou os subterrâneos de Espanha.
E o mundo da lucidez a recebeu:
O ar voa incorporando-se teu nome.
Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).
In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
Subsiste para sempre a honra castiça,
A jovem e antiga tradição do carvalho
Que descerra o pálio de diamante.
A força do teu coração desencadeado
Contactou os subterrâneos de Espanha.
E o mundo da lucidez a recebeu:
O ar voa incorporando-se teu nome.
Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).
In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
2 657
Murillo Mendes
Grafito numa Cadeira
Cadeira operada dos braços
Fundamental que nem osso
Não poltrona com pés de metal
Knoll
Ou projetada por um sub-Moholy Nagy
Com nota didascálica
Antes cadeira no duro
Cadeira de madeira
Anônima
Inânime
Unânime
Cadeira quadrúpede
Não aguardas
Nenhuma "iluminação" particular
Nem assento e clavícula de nenhuma deusa
Que te percutisse — gong —
Nem de nenhum Van Gogh
Que súbito te tornasse
Eterna
Roma, 1964
Poema integrante da série Convergência.
In: MENDES, Murilo. Convergência, 1963/1966: 1 — convergência; 2 — sintaxe. São Paulo: Duas Cidades, 1970
Fundamental que nem osso
Não poltrona com pés de metal
Knoll
Ou projetada por um sub-Moholy Nagy
Com nota didascálica
Antes cadeira no duro
Cadeira de madeira
Anônima
Inânime
Unânime
Cadeira quadrúpede
Não aguardas
Nenhuma "iluminação" particular
Nem assento e clavícula de nenhuma deusa
Que te percutisse — gong —
Nem de nenhum Van Gogh
Que súbito te tornasse
Eterna
Roma, 1964
Poema integrante da série Convergência.
In: MENDES, Murilo. Convergência, 1963/1966: 1 — convergência; 2 — sintaxe. São Paulo: Duas Cidades, 1970
1 664
Vicente de Carvalho
Fugindo ao Cativeiro
III
(...)
A caravana trôpega e ansiosa
Chega ao tope da Serra...
O olhar dos fugitivos
Descansa enfim na terra milagrosa
Na abençoada terra
Onde não há cativos.
Embaixo da montanha, logo adiante,
Quase a seus pés, uma planície imensa,
Clara, risonha, aberta, verdejante:
E ao fundo do horizonte, ao fim da extensa
Macia várzea que se lhes depara
Ali, próxima, em frente,
Esfumadas na luz do sol nascente,
As colinas azuis do Jabaquara...
O dia de ser livre, tão sonhado
Lá do fundo do escuro cativeiro,
Amanhece por fim, leve e dourado,
Enchendo o céu inteiro.
Uma explosão de júbilo rebenta
Desses peitos que arquejam, dessas bocas
Famintas, dessa turba macilenta:
Um borborinho de palavras loucas,
De frases soltas que ninguém escuta
Na vasta solidão se ergue e se espalha,
E em pleno seio da floresta bruta
Canta vitória a meio da batalha.
(...)
Descem rindo, a cantar... Seguem, felizes,
Sem reparar que os pés lhes vão sangrando
Pelos espinhos e pelas raízes;
Sem reparar que atrás, pelo caminho
Por onde fogem como alegre bando
De passarinhos da gaiola escapo
— Fica um pouco de trapo em cada espinho
E uma gota de sangue em cada trapo.
Descem rindo e cantando, em vozeria
E em confusão. Toda a floresta, cheia
Do murmúrio das fontes, da alegria
Deles, da voz dos pássaros, gorjeia.
Tudo é festa. Severos e calados,
Os velhos troncos, plácidos ermitas,
Os próprios troncos velhos, remoçados,
Riem no riso em flor das parasitas.
Varando acaso às árvores a sombra
Da folhagem que à brisa arfa e revoa,
Na verde ondulação da úmida alfombra
O ouro leve do sol bubuia à-toa;
A água das cachoeiras, clara e pura,
Salta de pedra em pedra, aos solavancos;
E a flor de S. João se dependura
Festivamente à beira dos barrancos...
(...)
Imagem - 00160007
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 1965
NOTA: Poema composto de 4 parte
(...)
A caravana trôpega e ansiosa
Chega ao tope da Serra...
O olhar dos fugitivos
Descansa enfim na terra milagrosa
Na abençoada terra
Onde não há cativos.
Embaixo da montanha, logo adiante,
Quase a seus pés, uma planície imensa,
Clara, risonha, aberta, verdejante:
E ao fundo do horizonte, ao fim da extensa
Macia várzea que se lhes depara
Ali, próxima, em frente,
Esfumadas na luz do sol nascente,
As colinas azuis do Jabaquara...
O dia de ser livre, tão sonhado
Lá do fundo do escuro cativeiro,
Amanhece por fim, leve e dourado,
Enchendo o céu inteiro.
Uma explosão de júbilo rebenta
Desses peitos que arquejam, dessas bocas
Famintas, dessa turba macilenta:
Um borborinho de palavras loucas,
De frases soltas que ninguém escuta
Na vasta solidão se ergue e se espalha,
E em pleno seio da floresta bruta
Canta vitória a meio da batalha.
(...)
Descem rindo, a cantar... Seguem, felizes,
Sem reparar que os pés lhes vão sangrando
Pelos espinhos e pelas raízes;
Sem reparar que atrás, pelo caminho
Por onde fogem como alegre bando
De passarinhos da gaiola escapo
— Fica um pouco de trapo em cada espinho
E uma gota de sangue em cada trapo.
Descem rindo e cantando, em vozeria
E em confusão. Toda a floresta, cheia
Do murmúrio das fontes, da alegria
Deles, da voz dos pássaros, gorjeia.
Tudo é festa. Severos e calados,
Os velhos troncos, plácidos ermitas,
Os próprios troncos velhos, remoçados,
Riem no riso em flor das parasitas.
Varando acaso às árvores a sombra
Da folhagem que à brisa arfa e revoa,
Na verde ondulação da úmida alfombra
O ouro leve do sol bubuia à-toa;
A água das cachoeiras, clara e pura,
Salta de pedra em pedra, aos solavancos;
E a flor de S. João se dependura
Festivamente à beira dos barrancos...
(...)
Imagem - 00160007
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 1965
NOTA: Poema composto de 4 parte
1 916
Vicente de Carvalho
Fugindo ao Cativeiro
III
(...)
A caravana trôpega e ansiosa
Chega ao tope da Serra...
O olhar dos fugitivos
Descansa enfim na terra milagrosa
Na abençoada terra
Onde não há cativos.
Embaixo da montanha, logo adiante,
Quase a seus pés, uma planície imensa,
Clara, risonha, aberta, verdejante:
E ao fundo do horizonte, ao fim da extensa
Macia várzea que se lhes depara
Ali, próxima, em frente,
Esfumadas na luz do sol nascente,
As colinas azuis do Jabaquara...
O dia de ser livre, tão sonhado
Lá do fundo do escuro cativeiro,
Amanhece por fim, leve e dourado,
Enchendo o céu inteiro.
Uma explosão de júbilo rebenta
Desses peitos que arquejam, dessas bocas
Famintas, dessa turba macilenta:
Um borborinho de palavras loucas,
De frases soltas que ninguém escuta
Na vasta solidão se ergue e se espalha,
E em pleno seio da floresta bruta
Canta vitória a meio da batalha.
(...)
Descem rindo, a cantar... Seguem, felizes,
Sem reparar que os pés lhes vão sangrando
Pelos espinhos e pelas raízes;
Sem reparar que atrás, pelo caminho
Por onde fogem como alegre bando
De passarinhos da gaiola escapo
— Fica um pouco de trapo em cada espinho
E uma gota de sangue em cada trapo.
Descem rindo e cantando, em vozeria
E em confusão. Toda a floresta, cheia
Do murmúrio das fontes, da alegria
Deles, da voz dos pássaros, gorjeia.
Tudo é festa. Severos e calados,
Os velhos troncos, plácidos ermitas,
Os próprios troncos velhos, remoçados,
Riem no riso em flor das parasitas.
Varando acaso às árvores a sombra
Da folhagem que à brisa arfa e revoa,
Na verde ondulação da úmida alfombra
O ouro leve do sol bubuia à-toa;
A água das cachoeiras, clara e pura,
Salta de pedra em pedra, aos solavancos;
E a flor de S. João se dependura
Festivamente à beira dos barrancos...
(...)
Imagem - 00160007
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 1965
NOTA: Poema composto de 4 parte
(...)
A caravana trôpega e ansiosa
Chega ao tope da Serra...
O olhar dos fugitivos
Descansa enfim na terra milagrosa
Na abençoada terra
Onde não há cativos.
Embaixo da montanha, logo adiante,
Quase a seus pés, uma planície imensa,
Clara, risonha, aberta, verdejante:
E ao fundo do horizonte, ao fim da extensa
Macia várzea que se lhes depara
Ali, próxima, em frente,
Esfumadas na luz do sol nascente,
As colinas azuis do Jabaquara...
O dia de ser livre, tão sonhado
Lá do fundo do escuro cativeiro,
Amanhece por fim, leve e dourado,
Enchendo o céu inteiro.
Uma explosão de júbilo rebenta
Desses peitos que arquejam, dessas bocas
Famintas, dessa turba macilenta:
Um borborinho de palavras loucas,
De frases soltas que ninguém escuta
Na vasta solidão se ergue e se espalha,
E em pleno seio da floresta bruta
Canta vitória a meio da batalha.
(...)
Descem rindo, a cantar... Seguem, felizes,
Sem reparar que os pés lhes vão sangrando
Pelos espinhos e pelas raízes;
Sem reparar que atrás, pelo caminho
Por onde fogem como alegre bando
De passarinhos da gaiola escapo
— Fica um pouco de trapo em cada espinho
E uma gota de sangue em cada trapo.
Descem rindo e cantando, em vozeria
E em confusão. Toda a floresta, cheia
Do murmúrio das fontes, da alegria
Deles, da voz dos pássaros, gorjeia.
Tudo é festa. Severos e calados,
Os velhos troncos, plácidos ermitas,
Os próprios troncos velhos, remoçados,
Riem no riso em flor das parasitas.
Varando acaso às árvores a sombra
Da folhagem que à brisa arfa e revoa,
Na verde ondulação da úmida alfombra
O ouro leve do sol bubuia à-toa;
A água das cachoeiras, clara e pura,
Salta de pedra em pedra, aos solavancos;
E a flor de S. João se dependura
Festivamente à beira dos barrancos...
(...)
Imagem - 00160007
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 1965
NOTA: Poema composto de 4 parte
1 916
Murillo Mendes
Murilograma a Graciliano Ramos
1
Brabo. Olhofaca. Difícil.
Cacto já se humanizando,
Deriva de um solo sáfaro
Que não junta, antes retira,
Desacontece, desquer.
2
Funda o estilo à sua imagem:
Na tábua seca do livro
Nenhuma voluta inútil.
Rejeita qualquer lirismo.
Tachando a flor de feroz.
3
Tem desejos amarelos.
Quer amar, o sol ulula,
Leva o homem do deserto
(Graciliano-Fabiano)
Ao limite irrespirável.
4
Em dimensão de grandeza
Onde o conforto é vacante,
Seu passo trágico escreve
A épica real do BR
Que desintegrado explode.
Roma, 1963
Poema integrante da série Convergência.
In: MENDES, Murilo. Convergência, 1963/1966: 1 — convergência; 2 — sintaxe. São Paulo: Duas Cidades, 1970
Brabo. Olhofaca. Difícil.
Cacto já se humanizando,
Deriva de um solo sáfaro
Que não junta, antes retira,
Desacontece, desquer.
2
Funda o estilo à sua imagem:
Na tábua seca do livro
Nenhuma voluta inútil.
Rejeita qualquer lirismo.
Tachando a flor de feroz.
3
Tem desejos amarelos.
Quer amar, o sol ulula,
Leva o homem do deserto
(Graciliano-Fabiano)
Ao limite irrespirável.
4
Em dimensão de grandeza
Onde o conforto é vacante,
Seu passo trágico escreve
A épica real do BR
Que desintegrado explode.
Roma, 1963
Poema integrante da série Convergência.
In: MENDES, Murilo. Convergência, 1963/1966: 1 — convergência; 2 — sintaxe. São Paulo: Duas Cidades, 1970
3 259
Renata Pallottini
Saudade da Feira de
Saudade da feira de Casa Amarela:
entrava por uma rua, saía por outra rua,
e tinha peixe-agulha fritando e tinha pretá
e tinha refresco e menino de frete,
saudade do Mercado da Bahia, saía por uma porta
entrava por outra e tinha rede (de casal, moça!)
e tinha faca de ponta e vatapá com pimenta,
acarajé com pimenta, tinha cara de pimenta,
saudade do Mercado de Maceió, tinha sarapatel,
tinha fruta, uma fruta pequenina e amarela,
foi ver era tomate, mas não esse do sul,
saudade do Mercado de Caldas, entrava por uma porta
saía por um portão que era pra guardar cavalo,
tinha doce, tinha passarinho que nem por dois contos
[eu vendo,
tinha pinhão e sorvete de amendoim,
pra que ir tão longe? Saudade do Mercado de Moji
e pronto, entra por uma porta sai por outra
e é sempre a mesma coisa, tem fumo de Rio Comprido
[e de Rio Curto
e de Rio Preto e de Rio Branco, tem caipiras que só
mesmo em São Paulo, tem cachorrinho ensinado, tem
[pé no chão
e Deus me livre de ser bairrista, mas tem uma
[rapadura, oi.
Publicado no livro O Monólogo Vivo (1956).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.3
entrava por uma rua, saía por outra rua,
e tinha peixe-agulha fritando e tinha pretá
e tinha refresco e menino de frete,
saudade do Mercado da Bahia, saía por uma porta
entrava por outra e tinha rede (de casal, moça!)
e tinha faca de ponta e vatapá com pimenta,
acarajé com pimenta, tinha cara de pimenta,
saudade do Mercado de Maceió, tinha sarapatel,
tinha fruta, uma fruta pequenina e amarela,
foi ver era tomate, mas não esse do sul,
saudade do Mercado de Caldas, entrava por uma porta
saía por um portão que era pra guardar cavalo,
tinha doce, tinha passarinho que nem por dois contos
[eu vendo,
tinha pinhão e sorvete de amendoim,
pra que ir tão longe? Saudade do Mercado de Moji
e pronto, entra por uma porta sai por outra
e é sempre a mesma coisa, tem fumo de Rio Comprido
[e de Rio Curto
e de Rio Preto e de Rio Branco, tem caipiras que só
mesmo em São Paulo, tem cachorrinho ensinado, tem
[pé no chão
e Deus me livre de ser bairrista, mas tem uma
[rapadura, oi.
Publicado no livro O Monólogo Vivo (1956).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.3
1 656
Renata Pallottini
Saudade da Feira de
Saudade da feira de Casa Amarela:
entrava por uma rua, saía por outra rua,
e tinha peixe-agulha fritando e tinha pretá
e tinha refresco e menino de frete,
saudade do Mercado da Bahia, saía por uma porta
entrava por outra e tinha rede (de casal, moça!)
e tinha faca de ponta e vatapá com pimenta,
acarajé com pimenta, tinha cara de pimenta,
saudade do Mercado de Maceió, tinha sarapatel,
tinha fruta, uma fruta pequenina e amarela,
foi ver era tomate, mas não esse do sul,
saudade do Mercado de Caldas, entrava por uma porta
saía por um portão que era pra guardar cavalo,
tinha doce, tinha passarinho que nem por dois contos
[eu vendo,
tinha pinhão e sorvete de amendoim,
pra que ir tão longe? Saudade do Mercado de Moji
e pronto, entra por uma porta sai por outra
e é sempre a mesma coisa, tem fumo de Rio Comprido
[e de Rio Curto
e de Rio Preto e de Rio Branco, tem caipiras que só
mesmo em São Paulo, tem cachorrinho ensinado, tem
[pé no chão
e Deus me livre de ser bairrista, mas tem uma
[rapadura, oi.
Publicado no livro O Monólogo Vivo (1956).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.3
entrava por uma rua, saía por outra rua,
e tinha peixe-agulha fritando e tinha pretá
e tinha refresco e menino de frete,
saudade do Mercado da Bahia, saía por uma porta
entrava por outra e tinha rede (de casal, moça!)
e tinha faca de ponta e vatapá com pimenta,
acarajé com pimenta, tinha cara de pimenta,
saudade do Mercado de Maceió, tinha sarapatel,
tinha fruta, uma fruta pequenina e amarela,
foi ver era tomate, mas não esse do sul,
saudade do Mercado de Caldas, entrava por uma porta
saía por um portão que era pra guardar cavalo,
tinha doce, tinha passarinho que nem por dois contos
[eu vendo,
tinha pinhão e sorvete de amendoim,
pra que ir tão longe? Saudade do Mercado de Moji
e pronto, entra por uma porta sai por outra
e é sempre a mesma coisa, tem fumo de Rio Comprido
[e de Rio Curto
e de Rio Preto e de Rio Branco, tem caipiras que só
mesmo em São Paulo, tem cachorrinho ensinado, tem
[pé no chão
e Deus me livre de ser bairrista, mas tem uma
[rapadura, oi.
Publicado no livro O Monólogo Vivo (1956).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.3
1 656
Emiliano Perneta
Vencidos
Nós ficaremos, como os menestréis da rua,
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?
Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland?... E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e, mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?
Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço...
Hão de os grandes rolar dos palácios infectos!
E glória à fome dos vermes concupiscentes!
Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! inquietando as estrelas dormentes!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?
Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland?... E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e, mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?
Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço...
Hão de os grandes rolar dos palácios infectos!
E glória à fome dos vermes concupiscentes!
Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! inquietando as estrelas dormentes!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
2 708
Emiliano Perneta
Canção
Pára um negro cavaleiro
Ao pé de antigo solar:
O seu cavalo é de crina
Cor da lua, cor do luar.
Vem de longe o cavaleiro,
Vem das guerras de Além-mar...
Com a ponta da sua adaga
Bate à porta do solar.
— Quem bate na minha porta,
A esta hora de dormir? —
"É teu esposo, Guiomar,
A porta lhe vem abrir."
— O meu esposo morreu
Lá nas guerras d'El-rei,
Tenho o punhal que o feriu,
Gravado em ouro de lei. —
Com a ponta da sua adaga
Torna de novo a ferir:
— Quem bate na minha porta,
A esta hora de dormir?
— Se fores meu D. Rodrigo,
A porta te irei abrir,
Mas se não fores Rodrigo,
Dize: que queres de mim?
"Eu sou D. Rodrigo, a porta,
A porta me vem abrir"
— Perdão, senhor! piedade!
Tem piedade de mim!
..............................
Parte um negro cavaleiro
Para as guerras de Além-mar,
O seu cavalo é de crina
Cor de sangue, — cor de luar.
1897
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Ao pé de antigo solar:
O seu cavalo é de crina
Cor da lua, cor do luar.
Vem de longe o cavaleiro,
Vem das guerras de Além-mar...
Com a ponta da sua adaga
Bate à porta do solar.
— Quem bate na minha porta,
A esta hora de dormir? —
"É teu esposo, Guiomar,
A porta lhe vem abrir."
— O meu esposo morreu
Lá nas guerras d'El-rei,
Tenho o punhal que o feriu,
Gravado em ouro de lei. —
Com a ponta da sua adaga
Torna de novo a ferir:
— Quem bate na minha porta,
A esta hora de dormir?
— Se fores meu D. Rodrigo,
A porta te irei abrir,
Mas se não fores Rodrigo,
Dize: que queres de mim?
"Eu sou D. Rodrigo, a porta,
A porta me vem abrir"
— Perdão, senhor! piedade!
Tem piedade de mim!
..............................
Parte um negro cavaleiro
Para as guerras de Além-mar,
O seu cavalo é de crina
Cor de sangue, — cor de luar.
1897
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 984
Carlos Nejar
Mora Judicial
Demorou o processo
no armário do século.
Nenhum juiz sentenciava
esta causa
de perdas civis.
Aos poucos
o fogo do feito
extinguiu-se:
os interesses
mudaram os fechos,
as trancas da porta.
Mudaram
de casa e de horta.
Uma ninhada de codornizes
se alojou no processo
entre boninas e raízes.
Na justiça
só a flor do tempo
vinga.
Não há migrações de pássaros,
apesar de serem terras arrendadas
ao céu, ao sol, à chuva.
E o homem
obtém do litígio
a derrubada de árvores.
Nunca
a derrubada do mal
— sua guerra púnica.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
no armário do século.
Nenhum juiz sentenciava
esta causa
de perdas civis.
Aos poucos
o fogo do feito
extinguiu-se:
os interesses
mudaram os fechos,
as trancas da porta.
Mudaram
de casa e de horta.
Uma ninhada de codornizes
se alojou no processo
entre boninas e raízes.
Na justiça
só a flor do tempo
vinga.
Não há migrações de pássaros,
apesar de serem terras arrendadas
ao céu, ao sol, à chuva.
E o homem
obtém do litígio
a derrubada de árvores.
Nunca
a derrubada do mal
— sua guerra púnica.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
1 150
Carlos Nejar
Mora Judicial
Demorou o processo
no armário do século.
Nenhum juiz sentenciava
esta causa
de perdas civis.
Aos poucos
o fogo do feito
extinguiu-se:
os interesses
mudaram os fechos,
as trancas da porta.
Mudaram
de casa e de horta.
Uma ninhada de codornizes
se alojou no processo
entre boninas e raízes.
Na justiça
só a flor do tempo
vinga.
Não há migrações de pássaros,
apesar de serem terras arrendadas
ao céu, ao sol, à chuva.
E o homem
obtém do litígio
a derrubada de árvores.
Nunca
a derrubada do mal
— sua guerra púnica.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
no armário do século.
Nenhum juiz sentenciava
esta causa
de perdas civis.
Aos poucos
o fogo do feito
extinguiu-se:
os interesses
mudaram os fechos,
as trancas da porta.
Mudaram
de casa e de horta.
Uma ninhada de codornizes
se alojou no processo
entre boninas e raízes.
Na justiça
só a flor do tempo
vinga.
Não há migrações de pássaros,
apesar de serem terras arrendadas
ao céu, ao sol, à chuva.
E o homem
obtém do litígio
a derrubada de árvores.
Nunca
a derrubada do mal
— sua guerra púnica.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
1 150
Lindolf Bell
Exercício para Garcia Lorca
Quando o vento das primaveras anuncia as florações
anuncia os girassóis, os araçás, as madressilvas, teus
versos tuas granadas abrindo as veredas de meu país
livre quando não sei, tu és a lua clara obscura lua
clara, as noites que maduram o coração da terra, os
líricos olhos dos touros da saudade, o mar vejo as
estrelas os limões, és tessitura das manhãs, o amado
guia do reino no bosque das virgílias, floresces e
perduras onde o amor perdura, é frágil a terra do
esquecimento, os ventos da primavera voltam sempre
e as palavras tecem teu canto e teu corpo e tua viagem,
e os híbridos frutos de meu país livre quando não sei
esplendem nos olhos do pássaro teu irmão, para sempre
os cardos os pomos, os selvagens rosais dos invernos e
as novas estações dos povos da coragem, as embiras as
timboranas o vento sul as auroras, abriga-me em tua
paisagem onde tudo se anuncia, tu és o dia tu és o dia,
a fava, o fauno, a fala, a festa não fixa de viver e
conviver, o móvel calendário de amar para sempre, tu
és a samambaia nas varandas, o seixo dentro do rio de dentro
o sangue, o fuzil das guerrilhas interiores, e se nos
montes e nos pantanais e nos corações agitas as ervas e
os navios de verdades largas, tu Federico Garcia Lorca,
eu te chamo uma vez só, e isto basta para quem tem
antenas e ouvidos e sabe que o mundo está aqui dentro
mas está lá fora de meu país livre quando não sei, tu
és o gravatá do campo, a flor verde, a bravura de meu
país livre quando não sei, guarida onde me abrigo, rio
dos minérios das minas da manhã, argila das florescências,
espiga dos tempos claros, fruto aberto no esquema
silvestre dos corações, há um solução na garganta
de meu país livre quando não sei.
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
anuncia os girassóis, os araçás, as madressilvas, teus
versos tuas granadas abrindo as veredas de meu país
livre quando não sei, tu és a lua clara obscura lua
clara, as noites que maduram o coração da terra, os
líricos olhos dos touros da saudade, o mar vejo as
estrelas os limões, és tessitura das manhãs, o amado
guia do reino no bosque das virgílias, floresces e
perduras onde o amor perdura, é frágil a terra do
esquecimento, os ventos da primavera voltam sempre
e as palavras tecem teu canto e teu corpo e tua viagem,
e os híbridos frutos de meu país livre quando não sei
esplendem nos olhos do pássaro teu irmão, para sempre
os cardos os pomos, os selvagens rosais dos invernos e
as novas estações dos povos da coragem, as embiras as
timboranas o vento sul as auroras, abriga-me em tua
paisagem onde tudo se anuncia, tu és o dia tu és o dia,
a fava, o fauno, a fala, a festa não fixa de viver e
conviver, o móvel calendário de amar para sempre, tu
és a samambaia nas varandas, o seixo dentro do rio de dentro
o sangue, o fuzil das guerrilhas interiores, e se nos
montes e nos pantanais e nos corações agitas as ervas e
os navios de verdades largas, tu Federico Garcia Lorca,
eu te chamo uma vez só, e isto basta para quem tem
antenas e ouvidos e sabe que o mundo está aqui dentro
mas está lá fora de meu país livre quando não sei, tu
és o gravatá do campo, a flor verde, a bravura de meu
país livre quando não sei, guarida onde me abrigo, rio
dos minérios das minas da manhã, argila das florescências,
espiga dos tempos claros, fruto aberto no esquema
silvestre dos corações, há um solução na garganta
de meu país livre quando não sei.
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
1 990
Orides Fontela
Viagem
Viajar
mas não
para
viajar
mas sem
onde
sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.
Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.
Publicado no livro Rosácea (1986).
In: FONTELA, Orides. Trevo, 1969/1988. Il. Mira Schendel. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
mas não
para
viajar
mas sem
onde
sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.
Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.
Publicado no livro Rosácea (1986).
In: FONTELA, Orides. Trevo, 1969/1988. Il. Mira Schendel. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
2 004
Bernardino Lopes
XXXVIII [O casebre esburacado
O casebre esburacado
É pobre como senzala;
Tem mesmo o fogo na sala
E a picumã no telhado.
Habita-o o casal de pretos...
Vê-se no canto metido
Um oratório encardido
E atrás da porta uns gravetos.
Reina o silêncio. Anoitece.
Reza a mulher, de mãos postas
O dia a um santo oferece...
Entre as ingás bem dispostas
O proletário aparece
Com a ferramenta nas costas.
Publicado no livro Cromos (1881).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
É pobre como senzala;
Tem mesmo o fogo na sala
E a picumã no telhado.
Habita-o o casal de pretos...
Vê-se no canto metido
Um oratório encardido
E atrás da porta uns gravetos.
Reina o silêncio. Anoitece.
Reza a mulher, de mãos postas
O dia a um santo oferece...
Entre as ingás bem dispostas
O proletário aparece
Com a ferramenta nas costas.
Publicado no livro Cromos (1881).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 116
Bernardino Lopes
XXXVIII [O casebre esburacado
O casebre esburacado
É pobre como senzala;
Tem mesmo o fogo na sala
E a picumã no telhado.
Habita-o o casal de pretos...
Vê-se no canto metido
Um oratório encardido
E atrás da porta uns gravetos.
Reina o silêncio. Anoitece.
Reza a mulher, de mãos postas
O dia a um santo oferece...
Entre as ingás bem dispostas
O proletário aparece
Com a ferramenta nas costas.
Publicado no livro Cromos (1881).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
É pobre como senzala;
Tem mesmo o fogo na sala
E a picumã no telhado.
Habita-o o casal de pretos...
Vê-se no canto metido
Um oratório encardido
E atrás da porta uns gravetos.
Reina o silêncio. Anoitece.
Reza a mulher, de mãos postas
O dia a um santo oferece...
Entre as ingás bem dispostas
O proletário aparece
Com a ferramenta nas costas.
Publicado no livro Cromos (1881).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 116
Bernardino Lopes
XXXVIII [O casebre esburacado
O casebre esburacado
É pobre como senzala;
Tem mesmo o fogo na sala
E a picumã no telhado.
Habita-o o casal de pretos...
Vê-se no canto metido
Um oratório encardido
E atrás da porta uns gravetos.
Reina o silêncio. Anoitece.
Reza a mulher, de mãos postas
O dia a um santo oferece...
Entre as ingás bem dispostas
O proletário aparece
Com a ferramenta nas costas.
Publicado no livro Cromos (1881).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
É pobre como senzala;
Tem mesmo o fogo na sala
E a picumã no telhado.
Habita-o o casal de pretos...
Vê-se no canto metido
Um oratório encardido
E atrás da porta uns gravetos.
Reina o silêncio. Anoitece.
Reza a mulher, de mãos postas
O dia a um santo oferece...
Entre as ingás bem dispostas
O proletário aparece
Com a ferramenta nas costas.
Publicado no livro Cromos (1881).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 116
Renata Pallottini
Macunaíma
(...)
Meu filho, cresce ligeiro,
para ir pra São Paulo
e ganhar dinheiro.
Adeus mato cheiroso orvalho da manhã
adeus água de prata cascata
adeus ramo de arruda hortelã
a mata está a pique de acabar
jandaia buriti jussara aracuã
cresce depressa pra dandar
meu filho
pra ganhar
vintém
cresce depressa e entrega a mata
ao invasor
meu filho pra ganhar
vintém
Quanta floresta! É ouro verde na divisa
brasileiro vai ganhar
vintém
cresce depressa e sem caráter brasileiro
e vende a mata
pra ganhar
vintém
Na cidade das máquinas doente
Macunaíma sobrevive e pensa:
nas ruas, cipoal de muita gente,
só o ato de brincar
é que compensa.
Para a tristeza, o amor;
para a preguiça
o amor, e para a febre
mordidas de saúva da paixão.
Muita saudade
e muita pouca ação
os males do Brasil
são.
Macunaíma, audaz tumucumaque,
menino inventador, herói de araque,
lá vai ele, criador de boi-bumbá;
voltando para a terra antes que acabe,
para o seu galho em antes que desabe,
para as florestas
cada vez mais menos,
para as montanhas, já
montes de Vênus,
para os campos,
agora mais pequenos...
Macunaíma encolhe igual sanfona
na charanga brasílico-amazona.
(...)
In: PALLOTTINI, Renata. Cantar meu povo. São Paulo: Massao Ohno, 198
Meu filho, cresce ligeiro,
para ir pra São Paulo
e ganhar dinheiro.
Adeus mato cheiroso orvalho da manhã
adeus água de prata cascata
adeus ramo de arruda hortelã
a mata está a pique de acabar
jandaia buriti jussara aracuã
cresce depressa pra dandar
meu filho
pra ganhar
vintém
cresce depressa e entrega a mata
ao invasor
meu filho pra ganhar
vintém
Quanta floresta! É ouro verde na divisa
brasileiro vai ganhar
vintém
cresce depressa e sem caráter brasileiro
e vende a mata
pra ganhar
vintém
Na cidade das máquinas doente
Macunaíma sobrevive e pensa:
nas ruas, cipoal de muita gente,
só o ato de brincar
é que compensa.
Para a tristeza, o amor;
para a preguiça
o amor, e para a febre
mordidas de saúva da paixão.
Muita saudade
e muita pouca ação
os males do Brasil
são.
Macunaíma, audaz tumucumaque,
menino inventador, herói de araque,
lá vai ele, criador de boi-bumbá;
voltando para a terra antes que acabe,
para o seu galho em antes que desabe,
para as florestas
cada vez mais menos,
para as montanhas, já
montes de Vênus,
para os campos,
agora mais pequenos...
Macunaíma encolhe igual sanfona
na charanga brasílico-amazona.
(...)
In: PALLOTTINI, Renata. Cantar meu povo. São Paulo: Massao Ohno, 198
3 105
Renata Pallottini
Macunaíma
(...)
Meu filho, cresce ligeiro,
para ir pra São Paulo
e ganhar dinheiro.
Adeus mato cheiroso orvalho da manhã
adeus água de prata cascata
adeus ramo de arruda hortelã
a mata está a pique de acabar
jandaia buriti jussara aracuã
cresce depressa pra dandar
meu filho
pra ganhar
vintém
cresce depressa e entrega a mata
ao invasor
meu filho pra ganhar
vintém
Quanta floresta! É ouro verde na divisa
brasileiro vai ganhar
vintém
cresce depressa e sem caráter brasileiro
e vende a mata
pra ganhar
vintém
Na cidade das máquinas doente
Macunaíma sobrevive e pensa:
nas ruas, cipoal de muita gente,
só o ato de brincar
é que compensa.
Para a tristeza, o amor;
para a preguiça
o amor, e para a febre
mordidas de saúva da paixão.
Muita saudade
e muita pouca ação
os males do Brasil
são.
Macunaíma, audaz tumucumaque,
menino inventador, herói de araque,
lá vai ele, criador de boi-bumbá;
voltando para a terra antes que acabe,
para o seu galho em antes que desabe,
para as florestas
cada vez mais menos,
para as montanhas, já
montes de Vênus,
para os campos,
agora mais pequenos...
Macunaíma encolhe igual sanfona
na charanga brasílico-amazona.
(...)
In: PALLOTTINI, Renata. Cantar meu povo. São Paulo: Massao Ohno, 198
Meu filho, cresce ligeiro,
para ir pra São Paulo
e ganhar dinheiro.
Adeus mato cheiroso orvalho da manhã
adeus água de prata cascata
adeus ramo de arruda hortelã
a mata está a pique de acabar
jandaia buriti jussara aracuã
cresce depressa pra dandar
meu filho
pra ganhar
vintém
cresce depressa e entrega a mata
ao invasor
meu filho pra ganhar
vintém
Quanta floresta! É ouro verde na divisa
brasileiro vai ganhar
vintém
cresce depressa e sem caráter brasileiro
e vende a mata
pra ganhar
vintém
Na cidade das máquinas doente
Macunaíma sobrevive e pensa:
nas ruas, cipoal de muita gente,
só o ato de brincar
é que compensa.
Para a tristeza, o amor;
para a preguiça
o amor, e para a febre
mordidas de saúva da paixão.
Muita saudade
e muita pouca ação
os males do Brasil
são.
Macunaíma, audaz tumucumaque,
menino inventador, herói de araque,
lá vai ele, criador de boi-bumbá;
voltando para a terra antes que acabe,
para o seu galho em antes que desabe,
para as florestas
cada vez mais menos,
para as montanhas, já
montes de Vênus,
para os campos,
agora mais pequenos...
Macunaíma encolhe igual sanfona
na charanga brasílico-amazona.
(...)
In: PALLOTTINI, Renata. Cantar meu povo. São Paulo: Massao Ohno, 198
3 105
Renata Pallottini
Macunaíma
(...)
Meu filho, cresce ligeiro,
para ir pra São Paulo
e ganhar dinheiro.
Adeus mato cheiroso orvalho da manhã
adeus água de prata cascata
adeus ramo de arruda hortelã
a mata está a pique de acabar
jandaia buriti jussara aracuã
cresce depressa pra dandar
meu filho
pra ganhar
vintém
cresce depressa e entrega a mata
ao invasor
meu filho pra ganhar
vintém
Quanta floresta! É ouro verde na divisa
brasileiro vai ganhar
vintém
cresce depressa e sem caráter brasileiro
e vende a mata
pra ganhar
vintém
Na cidade das máquinas doente
Macunaíma sobrevive e pensa:
nas ruas, cipoal de muita gente,
só o ato de brincar
é que compensa.
Para a tristeza, o amor;
para a preguiça
o amor, e para a febre
mordidas de saúva da paixão.
Muita saudade
e muita pouca ação
os males do Brasil
são.
Macunaíma, audaz tumucumaque,
menino inventador, herói de araque,
lá vai ele, criador de boi-bumbá;
voltando para a terra antes que acabe,
para o seu galho em antes que desabe,
para as florestas
cada vez mais menos,
para as montanhas, já
montes de Vênus,
para os campos,
agora mais pequenos...
Macunaíma encolhe igual sanfona
na charanga brasílico-amazona.
(...)
In: PALLOTTINI, Renata. Cantar meu povo. São Paulo: Massao Ohno, 198
Meu filho, cresce ligeiro,
para ir pra São Paulo
e ganhar dinheiro.
Adeus mato cheiroso orvalho da manhã
adeus água de prata cascata
adeus ramo de arruda hortelã
a mata está a pique de acabar
jandaia buriti jussara aracuã
cresce depressa pra dandar
meu filho
pra ganhar
vintém
cresce depressa e entrega a mata
ao invasor
meu filho pra ganhar
vintém
Quanta floresta! É ouro verde na divisa
brasileiro vai ganhar
vintém
cresce depressa e sem caráter brasileiro
e vende a mata
pra ganhar
vintém
Na cidade das máquinas doente
Macunaíma sobrevive e pensa:
nas ruas, cipoal de muita gente,
só o ato de brincar
é que compensa.
Para a tristeza, o amor;
para a preguiça
o amor, e para a febre
mordidas de saúva da paixão.
Muita saudade
e muita pouca ação
os males do Brasil
são.
Macunaíma, audaz tumucumaque,
menino inventador, herói de araque,
lá vai ele, criador de boi-bumbá;
voltando para a terra antes que acabe,
para o seu galho em antes que desabe,
para as florestas
cada vez mais menos,
para as montanhas, já
montes de Vênus,
para os campos,
agora mais pequenos...
Macunaíma encolhe igual sanfona
na charanga brasílico-amazona.
(...)
In: PALLOTTINI, Renata. Cantar meu povo. São Paulo: Massao Ohno, 198
3 105