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Sociedade e Mundo

Sílvio Romero

Sílvio Romero

ABC do Vaqueiro em Tempo de Seca

(Ceará)

Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.

Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.

Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.

Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.

Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.

Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!

Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.

Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.

I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.

Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.

Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.

Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.

O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.

Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.

Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.

Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.

Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.

Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.

Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.

Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.

Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.


In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 663
Sílvio Romero

Sílvio Romero

ABC do Vaqueiro em Tempo de Seca

(Ceará)

Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.

Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.

Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.

Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.

Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.

Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!

Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.

Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.

I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.

Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.

Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.

Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.

O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.

Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.

Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.

Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.

Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.

Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.

Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.

Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.

Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.


In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 663
Sílvio Romero

Sílvio Romero

ABC do Vaqueiro em Tempo de Seca

(Ceará)

Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.

Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.

Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.

Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.

Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.

Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!

Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.

Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.

I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.

Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.

Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.

Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.

O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.

Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.

Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.

Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.

Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.

Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.

Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.

Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.

Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.


In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 663
Santa Rita Durão

Santa Rita Durão

Canto II [Não era assim nas aves fugitivas

XLIII

Não era assim nas aves fugitivas,
Que umas frechava no ar, e outras em laços
Com arte o caçador tomava vivas;
Uma, porém, nos líquidos espaços
Faz com a pluma as setas pouco ativas,
Deixando a lisa pena os golpes laços,
Toma-a de mira Diogo e o ponto aguarda:
Dá-lhe um tiro e derriba-a coa espingarda.

XLIV

Estando a turba longe de cuidá-lo,
Fica o bárbaro ao golpe estremecido
E cai por terra no tremendo abalo
Da chama do fracasso e do estampido;
Qual do hórrido trovão com raio e estalo
Algum junto aquém cai, fica aturdido,
Tal Gupeva ficou, crendo formada
No arcabuz de Diogo uma trovoada.

(...)

XLVI

Desde esse dia, é fama que por nome
Do grão Caramuru foi celebrado
O forte Diogo; e que escutado dome
Este apelido o bárbaro espantado.
Indicava o Brasil no sobrenome,
Que era um dragão dos mares vomitado;
Nem doutra arte entre nós a antiga idade
Tem Jove, Apolo e Marte por deidade.

XLVII

Foram qual hoje o rude americano
O valente romano, o sábio argivo;
Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano,
Do que outro rei fizera em Creta altivo,
Nós que zombamos deste povo insano,
Se bem cavarmos no solar nativo,
Dos antigos heróis dentro às imagens
Não acharemos mais que outros selvagens.


In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.55-56. (Série brasileiro-portuguesa, 30)

NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
2 928
Santa Rita Durão

Santa Rita Durão

Canto II [Não era assim nas aves fugitivas

XLIII

Não era assim nas aves fugitivas,
Que umas frechava no ar, e outras em laços
Com arte o caçador tomava vivas;
Uma, porém, nos líquidos espaços
Faz com a pluma as setas pouco ativas,
Deixando a lisa pena os golpes laços,
Toma-a de mira Diogo e o ponto aguarda:
Dá-lhe um tiro e derriba-a coa espingarda.

XLIV

Estando a turba longe de cuidá-lo,
Fica o bárbaro ao golpe estremecido
E cai por terra no tremendo abalo
Da chama do fracasso e do estampido;
Qual do hórrido trovão com raio e estalo
Algum junto aquém cai, fica aturdido,
Tal Gupeva ficou, crendo formada
No arcabuz de Diogo uma trovoada.

(...)

XLVI

Desde esse dia, é fama que por nome
Do grão Caramuru foi celebrado
O forte Diogo; e que escutado dome
Este apelido o bárbaro espantado.
Indicava o Brasil no sobrenome,
Que era um dragão dos mares vomitado;
Nem doutra arte entre nós a antiga idade
Tem Jove, Apolo e Marte por deidade.

XLVII

Foram qual hoje o rude americano
O valente romano, o sábio argivo;
Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano,
Do que outro rei fizera em Creta altivo,
Nós que zombamos deste povo insano,
Se bem cavarmos no solar nativo,
Dos antigos heróis dentro às imagens
Não acharemos mais que outros selvagens.


In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.55-56. (Série brasileiro-portuguesa, 30)

NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
2 928
Walmir Ayala

Walmir Ayala

Pranto por Federico García

Disseram que a noite se alarmava
entre dois caules de aura
quando abateram o cristal profundo
da tua cara;
disseram que despertava o dia
Federico García.

Mas em tua carne anoitecia
uma urna letal de azufre,
e em teus cabelos despetalava
a fina flor de Andaluzia.

Disseram que o cão do horizonte
gemeu dolorosamente,
Federico,
E se ergueram lençóis de espinhos
à tua frente,
para amortalhar teu corpo
e sanar tua nostalgia,
para amansar tua boca
Federico García!

Tua boca que mais cantava
do que a morte jamais pensara,
tua boca como a bandeira
nos campos da tua cara,
campos de cravos e amêndoas,
de olivais e litanias,
onde os gitanos se abraçam
Federico García.
E teu canto, como uma pedra
fundia a fúria assassina,
e mais amargor havia
naquelas mãos delatoras,
do que na tua agonia,
ai, Federico García.

Teu canto quebrava espadas
nos ares de Andaluzia,
e as mães choravam os filhos
de Espanha, que em ti morriam;
mas morria mais que tudo
teu corpo de sol e azeite,
e eram em seios eternos
que então bebias teu leite!
Ai, Federico García!

E tudo eram rumos antigos
no espanto do teu sacrifício,
aqui estamos deplorados
neste doloroso vício
de viver, que era o teu gáudio;
aqui estamos com teu sangue,
com tua melancolia,
com tua guitarra heróica,
com teus touros de alegria,
e a paixão da liberdade.
Ai, FEDERICO GARCÍA!


Publicado no livro Poemas da Paixão (1967). Poema integrante da série Sangue na Boca.

In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.348-35
1 635
Walmir Ayala

Walmir Ayala

Pranto por Federico García

Disseram que a noite se alarmava
entre dois caules de aura
quando abateram o cristal profundo
da tua cara;
disseram que despertava o dia
Federico García.

Mas em tua carne anoitecia
uma urna letal de azufre,
e em teus cabelos despetalava
a fina flor de Andaluzia.

Disseram que o cão do horizonte
gemeu dolorosamente,
Federico,
E se ergueram lençóis de espinhos
à tua frente,
para amortalhar teu corpo
e sanar tua nostalgia,
para amansar tua boca
Federico García!

Tua boca que mais cantava
do que a morte jamais pensara,
tua boca como a bandeira
nos campos da tua cara,
campos de cravos e amêndoas,
de olivais e litanias,
onde os gitanos se abraçam
Federico García.
E teu canto, como uma pedra
fundia a fúria assassina,
e mais amargor havia
naquelas mãos delatoras,
do que na tua agonia,
ai, Federico García.

Teu canto quebrava espadas
nos ares de Andaluzia,
e as mães choravam os filhos
de Espanha, que em ti morriam;
mas morria mais que tudo
teu corpo de sol e azeite,
e eram em seios eternos
que então bebias teu leite!
Ai, Federico García!

E tudo eram rumos antigos
no espanto do teu sacrifício,
aqui estamos deplorados
neste doloroso vício
de viver, que era o teu gáudio;
aqui estamos com teu sangue,
com tua melancolia,
com tua guitarra heróica,
com teus touros de alegria,
e a paixão da liberdade.
Ai, FEDERICO GARCÍA!


Publicado no livro Poemas da Paixão (1967). Poema integrante da série Sangue na Boca.

In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.348-35
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