Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Armando Freitas Filho
Entre nós até o segredo
Entre nós até o segredo
mais cheio de dedos
é escrito
e escarrado
no olho da rua, nos muros — para todos —
sem temer que venha a furo
a dor do tumor
e o que era antes
de um inaudível vermelho
agora ruge
feito uma ferida
fora das grades.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
mais cheio de dedos
é escrito
e escarrado
no olho da rua, nos muros — para todos —
sem temer que venha a furo
a dor do tumor
e o que era antes
de um inaudível vermelho
agora ruge
feito uma ferida
fora das grades.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
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Cacaso
Há uma Gota de Sangue no Cartão Postal
eu sou manhoso eu sou brasileiro
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata
sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido
de medo e de amor
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.84.
NOTA: Referências ao livro HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA, de Mário de Andrade; às canções "Luar do Sertão", de Catullo da PaixãoCearense e "Tropicália", de Caetano Veloso; à "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias e ao poema "Amor e Medo", do livro AS PRIMAVERAS (1859), de Casimiro de Abre
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata
sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido
de medo e de amor
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.84.
NOTA: Referências ao livro HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA, de Mário de Andrade; às canções "Luar do Sertão", de Catullo da PaixãoCearense e "Tropicália", de Caetano Veloso; à "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias e ao poema "Amor e Medo", do livro AS PRIMAVERAS (1859), de Casimiro de Abre
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Armindo Trevisan
Via Sacra: Oitava Estação: O Convívio
Em Auschwitz os
crânios eram
serenos crânios
que não tiveram
no seu bulício
de coisas vivas
mas desvividas
a vã plumagem.
Cada cadáver
tinha um segredo
que não dissera.
E este segredo
Freud apalpara
no ventre ocluso
de cada fêmea.
Todos os crânios
de Auschwitz traziam
o odor intrínseco
de um grande início
que a quantidade
não conseguia
apequenar
com seu horror.
Perante os crânios
Deus estacou
dizendo um verbo
às que os pariram
e deste verbo
oval e duro
nasceram os
mil rouxinóis
da dor submissa.
In: TREVISAN, Armindo. O ferreiro harmonioso. Porto Alegre: Globo, 1978. (Estante de poesia Henrique Bertaso, 2). Poema integrante da série A Uva que Ficou na Vinha
crânios eram
serenos crânios
que não tiveram
no seu bulício
de coisas vivas
mas desvividas
a vã plumagem.
Cada cadáver
tinha um segredo
que não dissera.
E este segredo
Freud apalpara
no ventre ocluso
de cada fêmea.
Todos os crânios
de Auschwitz traziam
o odor intrínseco
de um grande início
que a quantidade
não conseguia
apequenar
com seu horror.
Perante os crânios
Deus estacou
dizendo um verbo
às que os pariram
e deste verbo
oval e duro
nasceram os
mil rouxinóis
da dor submissa.
In: TREVISAN, Armindo. O ferreiro harmonioso. Porto Alegre: Globo, 1978. (Estante de poesia Henrique Bertaso, 2). Poema integrante da série A Uva que Ficou na Vinha
906
Bento Teixeira
Cantem Poetas o poder Romano
Cantem Poetas o poder Romano,
Submetendo Nações ao jugo duro;
O Mantuano pinte o Rei Troiano,
Descendo à confusão do Reino escuro;
Que eu canto um Albuquerque soberano,
Da Fé, da cara Pátria firme muro,
Cujo valor a ser, que o Céu lhe inspira,
Pode estancar a Lácia e Grega lira.
As Délficas irmãs chamar não quero,
Que tal invocação é vão estudo;
Aquele chamo só, de quem espero
A vida que se espera em fim de tudo.
Ele fará meu Verso tão sincero,
Quanto fora sem ele tosco e rudo,
Que por razão negar não deve o menos
Quem deu o mais a míseros terrenos.
(...)
In: TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia. Introd. estabelecimento do texto e comentários Celso Cunha e Carlos Duval. Rio de Janeiro: INL, 1972. p.19. (Coleção de literatura brasileira, 6)
NOTA: O trecho inicial do poema até a "Narração" é composto de 6 oitava
Submetendo Nações ao jugo duro;
O Mantuano pinte o Rei Troiano,
Descendo à confusão do Reino escuro;
Que eu canto um Albuquerque soberano,
Da Fé, da cara Pátria firme muro,
Cujo valor a ser, que o Céu lhe inspira,
Pode estancar a Lácia e Grega lira.
As Délficas irmãs chamar não quero,
Que tal invocação é vão estudo;
Aquele chamo só, de quem espero
A vida que se espera em fim de tudo.
Ele fará meu Verso tão sincero,
Quanto fora sem ele tosco e rudo,
Que por razão negar não deve o menos
Quem deu o mais a míseros terrenos.
(...)
In: TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia. Introd. estabelecimento do texto e comentários Celso Cunha e Carlos Duval. Rio de Janeiro: INL, 1972. p.19. (Coleção de literatura brasileira, 6)
NOTA: O trecho inicial do poema até a "Narração" é composto de 6 oitava
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Ulisses Tavares
Conteúdo
No toque, a troca.
No ato, o salto.
No esfrega, a entrega.
Na mão, o coração.
No rir, o repartir.
No sangue, o bumerangue.
Na ida, a vida.
In: TAVARES, Ulisses. Pega gente. 2.ed. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1978. p.71. (Coleção PF
No ato, o salto.
No esfrega, a entrega.
Na mão, o coração.
No rir, o repartir.
No sangue, o bumerangue.
Na ida, a vida.
In: TAVARES, Ulisses. Pega gente. 2.ed. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1978. p.71. (Coleção PF
1 852
Lara de Lemos
Conta Corrente
Para Wanda Maria
CRÉDITO DÉBITO
O creditado de mim o que dei
não foi muito. foi pouco
Quatro sentidos o que nasce
e uma visão: a si se opondo:
além do visgo meu sim, meu não
do lucro minha sina
além do oco meu sangue aguado
do homem de medo.
além do soco A palavra e a
do mundo. mordaça.
SALDO
só o domado viver.
Mais nada.
Poema integrante da série Adaga Lavrada.
In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
CRÉDITO DÉBITO
O creditado de mim o que dei
não foi muito. foi pouco
Quatro sentidos o que nasce
e uma visão: a si se opondo:
além do visgo meu sim, meu não
do lucro minha sina
além do oco meu sangue aguado
do homem de medo.
além do soco A palavra e a
do mundo. mordaça.
SALDO
só o domado viver.
Mais nada.
Poema integrante da série Adaga Lavrada.
In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
1 570
Lara de Lemos
Conta Corrente
Para Wanda Maria
CRÉDITO DÉBITO
O creditado de mim o que dei
não foi muito. foi pouco
Quatro sentidos o que nasce
e uma visão: a si se opondo:
além do visgo meu sim, meu não
do lucro minha sina
além do oco meu sangue aguado
do homem de medo.
além do soco A palavra e a
do mundo. mordaça.
SALDO
só o domado viver.
Mais nada.
Poema integrante da série Adaga Lavrada.
In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
CRÉDITO DÉBITO
O creditado de mim o que dei
não foi muito. foi pouco
Quatro sentidos o que nasce
e uma visão: a si se opondo:
além do visgo meu sim, meu não
do lucro minha sina
além do oco meu sangue aguado
do homem de medo.
além do soco A palavra e a
do mundo. mordaça.
SALDO
só o domado viver.
Mais nada.
Poema integrante da série Adaga Lavrada.
In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
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Sílvio Romero
ABC do Vaqueiro em Tempo de Seca
(Ceará)
Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.
Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.
Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.
Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.
Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.
Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!
Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.
Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.
I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.
Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.
Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.
Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.
O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.
Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.
Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.
Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.
Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.
Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.
Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.
Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.
Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.
Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.
Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.
Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.
Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.
Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!
Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.
Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.
I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.
Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.
Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.
Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.
O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.
Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.
Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.
Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.
Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.
Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.
Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.
Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.
Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
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Sílvio Romero
ABC do Vaqueiro em Tempo de Seca
(Ceará)
Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.
Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.
Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.
Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.
Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.
Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!
Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.
Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.
I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.
Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.
Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.
Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.
O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.
Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.
Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.
Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.
Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.
Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.
Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.
Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.
Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.
Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.
Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.
Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.
Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.
Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!
Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.
Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.
I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.
Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.
Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.
Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.
O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.
Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.
Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.
Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.
Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.
Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.
Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.
Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.
Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
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Sílvio Romero
ABC do Vaqueiro em Tempo de Seca
(Ceará)
Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.
Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.
Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.
Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.
Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.
Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!
Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.
Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.
I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.
Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.
Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.
Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.
O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.
Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.
Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.
Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.
Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.
Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.
Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.
Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.
Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.
Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.
Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.
Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.
Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.
Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!
Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.
Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.
I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.
Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.
Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.
Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.
O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.
Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.
Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.
Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.
Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.
Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.
Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.
Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.
Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 663
Sílvio Romero
Fragmento do Cabeleira
(Pernambuco)
— Fecha a porta, gente,
Cabeleira aí vem,
Matando mulheres,
Meninos também.
Corram, minha gente,
Cabeleira aí vem,
Ele não vem só,
Vem seu pai também.
"Meu pai me pediu
Por sua benção
Que eu não fosse mole,
Fosse valentão.
Lá na minha terra,
Lá em Santo Antão,
Encontrei um homem
Feito um guaribão,
Pus-lhe o bacamarte,
Foi pá, pi, no chão.
Minha mãe me deu
Contas pra rezar,
Quem tiver seus filhos
Saiba-os ensinar,
Veja o Cabeleira
Que vai a enforcar.
........................
Meu pai me chamou:
— Zé Gomes, vem cá;
Como tens passado
No canavial?
"Mortinho de fome.
Sequinho de sede,
Só me sustentava
Em caninhas verdes,
— Vem cá, José Gomes,
Anda-me contar
Como te prenderam
No canavial?
"Eu me vi cercado.
De cabos, tenentes,
Cada pé de cana
Era um pé de gente."
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.94-95. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
— Fecha a porta, gente,
Cabeleira aí vem,
Matando mulheres,
Meninos também.
Corram, minha gente,
Cabeleira aí vem,
Ele não vem só,
Vem seu pai também.
"Meu pai me pediu
Por sua benção
Que eu não fosse mole,
Fosse valentão.
Lá na minha terra,
Lá em Santo Antão,
Encontrei um homem
Feito um guaribão,
Pus-lhe o bacamarte,
Foi pá, pi, no chão.
Minha mãe me deu
Contas pra rezar,
Quem tiver seus filhos
Saiba-os ensinar,
Veja o Cabeleira
Que vai a enforcar.
........................
Meu pai me chamou:
— Zé Gomes, vem cá;
Como tens passado
No canavial?
"Mortinho de fome.
Sequinho de sede,
Só me sustentava
Em caninhas verdes,
— Vem cá, José Gomes,
Anda-me contar
Como te prenderam
No canavial?
"Eu me vi cercado.
De cabos, tenentes,
Cada pé de cana
Era um pé de gente."
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.94-95. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
2 112
Santa Rita Durão
Canto II [Não era assim nas aves fugitivas
XLIII
Não era assim nas aves fugitivas,
Que umas frechava no ar, e outras em laços
Com arte o caçador tomava vivas;
Uma, porém, nos líquidos espaços
Faz com a pluma as setas pouco ativas,
Deixando a lisa pena os golpes laços,
Toma-a de mira Diogo e o ponto aguarda:
Dá-lhe um tiro e derriba-a coa espingarda.
XLIV
Estando a turba longe de cuidá-lo,
Fica o bárbaro ao golpe estremecido
E cai por terra no tremendo abalo
Da chama do fracasso e do estampido;
Qual do hórrido trovão com raio e estalo
Algum junto aquém cai, fica aturdido,
Tal Gupeva ficou, crendo formada
No arcabuz de Diogo uma trovoada.
(...)
XLVI
Desde esse dia, é fama que por nome
Do grão Caramuru foi celebrado
O forte Diogo; e que escutado dome
Este apelido o bárbaro espantado.
Indicava o Brasil no sobrenome,
Que era um dragão dos mares vomitado;
Nem doutra arte entre nós a antiga idade
Tem Jove, Apolo e Marte por deidade.
XLVII
Foram qual hoje o rude americano
O valente romano, o sábio argivo;
Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano,
Do que outro rei fizera em Creta altivo,
Nós que zombamos deste povo insano,
Se bem cavarmos no solar nativo,
Dos antigos heróis dentro às imagens
Não acharemos mais que outros selvagens.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.55-56. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
Não era assim nas aves fugitivas,
Que umas frechava no ar, e outras em laços
Com arte o caçador tomava vivas;
Uma, porém, nos líquidos espaços
Faz com a pluma as setas pouco ativas,
Deixando a lisa pena os golpes laços,
Toma-a de mira Diogo e o ponto aguarda:
Dá-lhe um tiro e derriba-a coa espingarda.
XLIV
Estando a turba longe de cuidá-lo,
Fica o bárbaro ao golpe estremecido
E cai por terra no tremendo abalo
Da chama do fracasso e do estampido;
Qual do hórrido trovão com raio e estalo
Algum junto aquém cai, fica aturdido,
Tal Gupeva ficou, crendo formada
No arcabuz de Diogo uma trovoada.
(...)
XLVI
Desde esse dia, é fama que por nome
Do grão Caramuru foi celebrado
O forte Diogo; e que escutado dome
Este apelido o bárbaro espantado.
Indicava o Brasil no sobrenome,
Que era um dragão dos mares vomitado;
Nem doutra arte entre nós a antiga idade
Tem Jove, Apolo e Marte por deidade.
XLVII
Foram qual hoje o rude americano
O valente romano, o sábio argivo;
Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano,
Do que outro rei fizera em Creta altivo,
Nós que zombamos deste povo insano,
Se bem cavarmos no solar nativo,
Dos antigos heróis dentro às imagens
Não acharemos mais que outros selvagens.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.55-56. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
2 928
Santa Rita Durão
Canto II [Não era assim nas aves fugitivas
XLIII
Não era assim nas aves fugitivas,
Que umas frechava no ar, e outras em laços
Com arte o caçador tomava vivas;
Uma, porém, nos líquidos espaços
Faz com a pluma as setas pouco ativas,
Deixando a lisa pena os golpes laços,
Toma-a de mira Diogo e o ponto aguarda:
Dá-lhe um tiro e derriba-a coa espingarda.
XLIV
Estando a turba longe de cuidá-lo,
Fica o bárbaro ao golpe estremecido
E cai por terra no tremendo abalo
Da chama do fracasso e do estampido;
Qual do hórrido trovão com raio e estalo
Algum junto aquém cai, fica aturdido,
Tal Gupeva ficou, crendo formada
No arcabuz de Diogo uma trovoada.
(...)
XLVI
Desde esse dia, é fama que por nome
Do grão Caramuru foi celebrado
O forte Diogo; e que escutado dome
Este apelido o bárbaro espantado.
Indicava o Brasil no sobrenome,
Que era um dragão dos mares vomitado;
Nem doutra arte entre nós a antiga idade
Tem Jove, Apolo e Marte por deidade.
XLVII
Foram qual hoje o rude americano
O valente romano, o sábio argivo;
Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano,
Do que outro rei fizera em Creta altivo,
Nós que zombamos deste povo insano,
Se bem cavarmos no solar nativo,
Dos antigos heróis dentro às imagens
Não acharemos mais que outros selvagens.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.55-56. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
Não era assim nas aves fugitivas,
Que umas frechava no ar, e outras em laços
Com arte o caçador tomava vivas;
Uma, porém, nos líquidos espaços
Faz com a pluma as setas pouco ativas,
Deixando a lisa pena os golpes laços,
Toma-a de mira Diogo e o ponto aguarda:
Dá-lhe um tiro e derriba-a coa espingarda.
XLIV
Estando a turba longe de cuidá-lo,
Fica o bárbaro ao golpe estremecido
E cai por terra no tremendo abalo
Da chama do fracasso e do estampido;
Qual do hórrido trovão com raio e estalo
Algum junto aquém cai, fica aturdido,
Tal Gupeva ficou, crendo formada
No arcabuz de Diogo uma trovoada.
(...)
XLVI
Desde esse dia, é fama que por nome
Do grão Caramuru foi celebrado
O forte Diogo; e que escutado dome
Este apelido o bárbaro espantado.
Indicava o Brasil no sobrenome,
Que era um dragão dos mares vomitado;
Nem doutra arte entre nós a antiga idade
Tem Jove, Apolo e Marte por deidade.
XLVII
Foram qual hoje o rude americano
O valente romano, o sábio argivo;
Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano,
Do que outro rei fizera em Creta altivo,
Nós que zombamos deste povo insano,
Se bem cavarmos no solar nativo,
Dos antigos heróis dentro às imagens
Não acharemos mais que outros selvagens.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.55-56. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
2 928
Neide Archanjo
A minha cidade é
A minha cidade é
sagrada
dura
casta.
Digo pouco.
Ela devora todas as falas.
A gente que aqui mora
vai se matar em cinco minutos
cercada de falos brancos
lentos cavalos
duplos edifícios.
Nas ruas o asfalto friíssimo
e a fundação dos esgostos.
Nas casas
os comedores
os roedores
os suicidas
os assassinos
os vampiros
todos absolutamente bons.
Aqui se morre de amor.
O mar é vazio
— abismo no vale —
e os rios soltos pelo interior.
Ai, a mágoa desta cidade
não se conta.
Por que escurecer o coração?
(...)
O halterofilista da praça da Sé
o bancário da rua XV
o moço do bilhar
a menina do som de cristal
o móvel corretor de imóveis
o vendedor de bilhetes
o vendedor de automóveis
— margem rio peixe água entulho flor —
e o artista
— homem coletivo —
têm o privilégio:
suportam te olhar sem filtros.
Com eles eu componho
a tua aura
— encantamento além da superfície —
e te assumo agudíssima canção
na garganta estreita
do meu grito.
Sei que meus juízos minhas ações
meus atos
comprometem a tua sacralidade áspera
a tua dureza espessa
a tua castidade casta.
Mas a cada hora gasta
— queda cegueira dor —
sonho a minha conversão exausta.
Saulo, Saulo, por que me persegues?
In: ARCHANJO, Neide. Poesia na praça. São Paulo: I.L.A. Palma, 1970
sagrada
dura
casta.
Digo pouco.
Ela devora todas as falas.
A gente que aqui mora
vai se matar em cinco minutos
cercada de falos brancos
lentos cavalos
duplos edifícios.
Nas ruas o asfalto friíssimo
e a fundação dos esgostos.
Nas casas
os comedores
os roedores
os suicidas
os assassinos
os vampiros
todos absolutamente bons.
Aqui se morre de amor.
O mar é vazio
— abismo no vale —
e os rios soltos pelo interior.
Ai, a mágoa desta cidade
não se conta.
Por que escurecer o coração?
(...)
O halterofilista da praça da Sé
o bancário da rua XV
o moço do bilhar
a menina do som de cristal
o móvel corretor de imóveis
o vendedor de bilhetes
o vendedor de automóveis
— margem rio peixe água entulho flor —
e o artista
— homem coletivo —
têm o privilégio:
suportam te olhar sem filtros.
Com eles eu componho
a tua aura
— encantamento além da superfície —
e te assumo agudíssima canção
na garganta estreita
do meu grito.
Sei que meus juízos minhas ações
meus atos
comprometem a tua sacralidade áspera
a tua dureza espessa
a tua castidade casta.
Mas a cada hora gasta
— queda cegueira dor —
sonho a minha conversão exausta.
Saulo, Saulo, por que me persegues?
In: ARCHANJO, Neide. Poesia na praça. São Paulo: I.L.A. Palma, 1970
916
Walmir Ayala
33 [Um grito nos porões
Um grito nos porões
lembra que somos outro;
que estamos no outro, na dor,
como a vara
na raiz dividida.
Livres manipulamos
uma rede invisível
onde dedos e nervos
debatem-se ofegantes.
Um grito nos desperta quando sequer dormíamos,
ou quando estremecida a pele celebrava
o orvalho e a aragem.
Grito
que nos dói, corrompido
de injustiçado jugo.
Alguém que já não canta ao nosso lado grita,
e o canto se perverte.
In: AYALA, Walmir. Os reinos e as vestes. Pref. Lélia Coelho Frota. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. (Poesia brasileira)
lembra que somos outro;
que estamos no outro, na dor,
como a vara
na raiz dividida.
Livres manipulamos
uma rede invisível
onde dedos e nervos
debatem-se ofegantes.
Um grito nos desperta quando sequer dormíamos,
ou quando estremecida a pele celebrava
o orvalho e a aragem.
Grito
que nos dói, corrompido
de injustiçado jugo.
Alguém que já não canta ao nosso lado grita,
e o canto se perverte.
In: AYALA, Walmir. Os reinos e as vestes. Pref. Lélia Coelho Frota. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. (Poesia brasileira)
1 149
Walmir Ayala
33 [Um grito nos porões
Um grito nos porões
lembra que somos outro;
que estamos no outro, na dor,
como a vara
na raiz dividida.
Livres manipulamos
uma rede invisível
onde dedos e nervos
debatem-se ofegantes.
Um grito nos desperta quando sequer dormíamos,
ou quando estremecida a pele celebrava
o orvalho e a aragem.
Grito
que nos dói, corrompido
de injustiçado jugo.
Alguém que já não canta ao nosso lado grita,
e o canto se perverte.
In: AYALA, Walmir. Os reinos e as vestes. Pref. Lélia Coelho Frota. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. (Poesia brasileira)
lembra que somos outro;
que estamos no outro, na dor,
como a vara
na raiz dividida.
Livres manipulamos
uma rede invisível
onde dedos e nervos
debatem-se ofegantes.
Um grito nos desperta quando sequer dormíamos,
ou quando estremecida a pele celebrava
o orvalho e a aragem.
Grito
que nos dói, corrompido
de injustiçado jugo.
Alguém que já não canta ao nosso lado grita,
e o canto se perverte.
In: AYALA, Walmir. Os reinos e as vestes. Pref. Lélia Coelho Frota. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. (Poesia brasileira)
1 149
Leila Mícollis
Diferença (Ciclo Infantil)
Meu mundo é violento e com razão:
na rua se eu apanho, é covardia,
em casa se eu apanho, é educação.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
na rua se eu apanho, é covardia,
em casa se eu apanho, é educação.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
974
Leila Mícollis
Diferença (Ciclo Infantil)
Meu mundo é violento e com razão:
na rua se eu apanho, é covardia,
em casa se eu apanho, é educação.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
na rua se eu apanho, é covardia,
em casa se eu apanho, é educação.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
974
Walmir Ayala
Pranto por Federico García
Disseram que a noite se alarmava
entre dois caules de aura
quando abateram o cristal profundo
da tua cara;
disseram que despertava o dia
Federico García.
Mas em tua carne anoitecia
uma urna letal de azufre,
e em teus cabelos despetalava
a fina flor de Andaluzia.
Disseram que o cão do horizonte
gemeu dolorosamente,
Federico,
E se ergueram lençóis de espinhos
à tua frente,
para amortalhar teu corpo
e sanar tua nostalgia,
para amansar tua boca
Federico García!
Tua boca que mais cantava
do que a morte jamais pensara,
tua boca como a bandeira
nos campos da tua cara,
campos de cravos e amêndoas,
de olivais e litanias,
onde os gitanos se abraçam
Federico García.
E teu canto, como uma pedra
fundia a fúria assassina,
e mais amargor havia
naquelas mãos delatoras,
do que na tua agonia,
ai, Federico García.
Teu canto quebrava espadas
nos ares de Andaluzia,
e as mães choravam os filhos
de Espanha, que em ti morriam;
mas morria mais que tudo
teu corpo de sol e azeite,
e eram em seios eternos
que então bebias teu leite!
Ai, Federico García!
E tudo eram rumos antigos
no espanto do teu sacrifício,
aqui estamos deplorados
neste doloroso vício
de viver, que era o teu gáudio;
aqui estamos com teu sangue,
com tua melancolia,
com tua guitarra heróica,
com teus touros de alegria,
e a paixão da liberdade.
Ai, FEDERICO GARCÍA!
Publicado no livro Poemas da Paixão (1967). Poema integrante da série Sangue na Boca.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.348-35
entre dois caules de aura
quando abateram o cristal profundo
da tua cara;
disseram que despertava o dia
Federico García.
Mas em tua carne anoitecia
uma urna letal de azufre,
e em teus cabelos despetalava
a fina flor de Andaluzia.
Disseram que o cão do horizonte
gemeu dolorosamente,
Federico,
E se ergueram lençóis de espinhos
à tua frente,
para amortalhar teu corpo
e sanar tua nostalgia,
para amansar tua boca
Federico García!
Tua boca que mais cantava
do que a morte jamais pensara,
tua boca como a bandeira
nos campos da tua cara,
campos de cravos e amêndoas,
de olivais e litanias,
onde os gitanos se abraçam
Federico García.
E teu canto, como uma pedra
fundia a fúria assassina,
e mais amargor havia
naquelas mãos delatoras,
do que na tua agonia,
ai, Federico García.
Teu canto quebrava espadas
nos ares de Andaluzia,
e as mães choravam os filhos
de Espanha, que em ti morriam;
mas morria mais que tudo
teu corpo de sol e azeite,
e eram em seios eternos
que então bebias teu leite!
Ai, Federico García!
E tudo eram rumos antigos
no espanto do teu sacrifício,
aqui estamos deplorados
neste doloroso vício
de viver, que era o teu gáudio;
aqui estamos com teu sangue,
com tua melancolia,
com tua guitarra heróica,
com teus touros de alegria,
e a paixão da liberdade.
Ai, FEDERICO GARCÍA!
Publicado no livro Poemas da Paixão (1967). Poema integrante da série Sangue na Boca.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.348-35
1 635
Walmir Ayala
Pranto por Federico García
Disseram que a noite se alarmava
entre dois caules de aura
quando abateram o cristal profundo
da tua cara;
disseram que despertava o dia
Federico García.
Mas em tua carne anoitecia
uma urna letal de azufre,
e em teus cabelos despetalava
a fina flor de Andaluzia.
Disseram que o cão do horizonte
gemeu dolorosamente,
Federico,
E se ergueram lençóis de espinhos
à tua frente,
para amortalhar teu corpo
e sanar tua nostalgia,
para amansar tua boca
Federico García!
Tua boca que mais cantava
do que a morte jamais pensara,
tua boca como a bandeira
nos campos da tua cara,
campos de cravos e amêndoas,
de olivais e litanias,
onde os gitanos se abraçam
Federico García.
E teu canto, como uma pedra
fundia a fúria assassina,
e mais amargor havia
naquelas mãos delatoras,
do que na tua agonia,
ai, Federico García.
Teu canto quebrava espadas
nos ares de Andaluzia,
e as mães choravam os filhos
de Espanha, que em ti morriam;
mas morria mais que tudo
teu corpo de sol e azeite,
e eram em seios eternos
que então bebias teu leite!
Ai, Federico García!
E tudo eram rumos antigos
no espanto do teu sacrifício,
aqui estamos deplorados
neste doloroso vício
de viver, que era o teu gáudio;
aqui estamos com teu sangue,
com tua melancolia,
com tua guitarra heróica,
com teus touros de alegria,
e a paixão da liberdade.
Ai, FEDERICO GARCÍA!
Publicado no livro Poemas da Paixão (1967). Poema integrante da série Sangue na Boca.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.348-35
entre dois caules de aura
quando abateram o cristal profundo
da tua cara;
disseram que despertava o dia
Federico García.
Mas em tua carne anoitecia
uma urna letal de azufre,
e em teus cabelos despetalava
a fina flor de Andaluzia.
Disseram que o cão do horizonte
gemeu dolorosamente,
Federico,
E se ergueram lençóis de espinhos
à tua frente,
para amortalhar teu corpo
e sanar tua nostalgia,
para amansar tua boca
Federico García!
Tua boca que mais cantava
do que a morte jamais pensara,
tua boca como a bandeira
nos campos da tua cara,
campos de cravos e amêndoas,
de olivais e litanias,
onde os gitanos se abraçam
Federico García.
E teu canto, como uma pedra
fundia a fúria assassina,
e mais amargor havia
naquelas mãos delatoras,
do que na tua agonia,
ai, Federico García.
Teu canto quebrava espadas
nos ares de Andaluzia,
e as mães choravam os filhos
de Espanha, que em ti morriam;
mas morria mais que tudo
teu corpo de sol e azeite,
e eram em seios eternos
que então bebias teu leite!
Ai, Federico García!
E tudo eram rumos antigos
no espanto do teu sacrifício,
aqui estamos deplorados
neste doloroso vício
de viver, que era o teu gáudio;
aqui estamos com teu sangue,
com tua melancolia,
com tua guitarra heróica,
com teus touros de alegria,
e a paixão da liberdade.
Ai, FEDERICO GARCÍA!
Publicado no livro Poemas da Paixão (1967). Poema integrante da série Sangue na Boca.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.348-35
1 635
Leila Mícollis
Arte Marajoara (II)
Salgado por chorar há tanto tempo
a morte de seus filhos mais amados
— peixes-bois e namorados,
muçuãs, atuns, baleias —,
o mar em extinção e em permanente vazante
entoa réquiem fúnebre e dissonante:
seu derradeiro canto da sereia.
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. Rio de Janeiro: Blocos, 1992. v.2, p.5
a morte de seus filhos mais amados
— peixes-bois e namorados,
muçuãs, atuns, baleias —,
o mar em extinção e em permanente vazante
entoa réquiem fúnebre e dissonante:
seu derradeiro canto da sereia.
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. Rio de Janeiro: Blocos, 1992. v.2, p.5
1 124
Nelson Ascher
Leminski's Wake
Wieger polak dwa bratanki
ido bytky ido szklanky.
Que o coro comportado
dos anjos fique à espera
de letras para a música
maçante das esferas,
pois, fígado blindado,
quem destilava ainda,
no cérebro, de um álcool
barato boa tinta
e cuja mão, de tanto
usar a pena, presto
voou, tornada pássaro,
levando junto o resto,
talvez depois do porre
final, quando o constrange
a lei seca da morte,
já na terceira margem
do riverrun, prefira
abstêmio que o recordem
mais como o agitador que
compõe palavras de ordem
p'ra o Solidariedade
do além-mundo. Celebre-o,
poema, erguendo um brinde
não fúnebre — funébrio.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993
ido bytky ido szklanky.
Que o coro comportado
dos anjos fique à espera
de letras para a música
maçante das esferas,
pois, fígado blindado,
quem destilava ainda,
no cérebro, de um álcool
barato boa tinta
e cuja mão, de tanto
usar a pena, presto
voou, tornada pássaro,
levando junto o resto,
talvez depois do porre
final, quando o constrange
a lei seca da morte,
já na terceira margem
do riverrun, prefira
abstêmio que o recordem
mais como o agitador que
compõe palavras de ordem
p'ra o Solidariedade
do além-mundo. Celebre-o,
poema, erguendo um brinde
não fúnebre — funébrio.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993
1 212
Neide Archanjo
41 [A cidade nunca me cansou, Quixote
A cidade nunca me cansou, Quixote,
apenas me confundiu
quando se espalhou pelas marginais,
empurrou o rio
e saiu do outro lado do mundo.
Gostaria que ela fosse
a cidade de Oswald de Andrade, o sátiro,
e as tardes limpas do rio Tietê
e os passeios de Cadillac pelo Paraíso.
Esta é a rua Mauá.
O trem ali embaixo
não dá vontade de partir,
porque sinto que nenhuma viagem,
nenhuma outra vida,
nenhuma outra forma de vida,
mudaria a vida,
este estado definitivo e morno
de todas as coisas.
Por isso vou, volto, reflito.
E tenho medo.
In: ARCHANJO, Neide. Quixote largo e foxtrote. São Paulo: Ed. do Escritor, 1975
apenas me confundiu
quando se espalhou pelas marginais,
empurrou o rio
e saiu do outro lado do mundo.
Gostaria que ela fosse
a cidade de Oswald de Andrade, o sátiro,
e as tardes limpas do rio Tietê
e os passeios de Cadillac pelo Paraíso.
Esta é a rua Mauá.
O trem ali embaixo
não dá vontade de partir,
porque sinto que nenhuma viagem,
nenhuma outra vida,
nenhuma outra forma de vida,
mudaria a vida,
este estado definitivo e morno
de todas as coisas.
Por isso vou, volto, reflito.
E tenho medo.
In: ARCHANJO, Neide. Quixote largo e foxtrote. São Paulo: Ed. do Escritor, 1975
1 094
Claudio Willer
Eros
viajantes inertes
imersos no silêncio dessas horas
quando o tempo não é mais tempo
porém lassidão
e nossos corpos arquejantes construções
envoltas em nudez
testemunhada apenas pelos objetos da casa,
os quadros na parede, os pesados móveis,
os livros e suas lombadas, vasos de plantas, espelhos
e mais a negra silhueta dos prédios recortados contra
a janela, rosto cego
da cidade agora adormecida a observar-nos fixamente,
eu bruxo, você sibila,
que deuses cultuamos?
ao escrevermos nossas biografias ocultas
que rituais refazemos?
agora parados na pausa dos sobressaltos
que alquimia inventamos?
o peso que nos paralisa e adormece
não é cansaço
porém outra coisa
sensação do profundo
o obscuro sentir
do mundo que respira
pelos poros da escuridão
e nós, manietados pelo prazer, apenas conscientes
da presença dos objetos da
casa, móveis, vasos de plantas, livros, os almofadões
espalhados pelo chão,
as roupas jogadas ao acaso e mais o negro recorte
dos prédios por trás da janela,
perfil da paisagem urbana, impassível testemunha,
mal sabemos quem somos
lembramo-nos apenas de nossos nomes
restam-nos o repouso e uma intuição
desperta para o morno mundo de nossos corpos
nunca havíamos sentido isso antes assim
In: WILLER, Claudio. ARTES e ofícios da poesia. Org. Augusto Massi. Apres. Leda Tenório da Motta. Porto Alegre: Artes e Ofícios; São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1991. p.110-11
imersos no silêncio dessas horas
quando o tempo não é mais tempo
porém lassidão
e nossos corpos arquejantes construções
envoltas em nudez
testemunhada apenas pelos objetos da casa,
os quadros na parede, os pesados móveis,
os livros e suas lombadas, vasos de plantas, espelhos
e mais a negra silhueta dos prédios recortados contra
a janela, rosto cego
da cidade agora adormecida a observar-nos fixamente,
eu bruxo, você sibila,
que deuses cultuamos?
ao escrevermos nossas biografias ocultas
que rituais refazemos?
agora parados na pausa dos sobressaltos
que alquimia inventamos?
o peso que nos paralisa e adormece
não é cansaço
porém outra coisa
sensação do profundo
o obscuro sentir
do mundo que respira
pelos poros da escuridão
e nós, manietados pelo prazer, apenas conscientes
da presença dos objetos da
casa, móveis, vasos de plantas, livros, os almofadões
espalhados pelo chão,
as roupas jogadas ao acaso e mais o negro recorte
dos prédios por trás da janela,
perfil da paisagem urbana, impassível testemunha,
mal sabemos quem somos
lembramo-nos apenas de nossos nomes
restam-nos o repouso e uma intuição
desperta para o morno mundo de nossos corpos
nunca havíamos sentido isso antes assim
In: WILLER, Claudio. ARTES e ofícios da poesia. Org. Augusto Massi. Apres. Leda Tenório da Motta. Porto Alegre: Artes e Ofícios; São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1991. p.110-11
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