Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Ribeiro Couto
Cantiga do Avô Português
O meu avô foi à caça
Na serra do Cubatão.
Mas, ano vem, ano passa,
Nunca volta do sertão.
Dizem que os índios são bravos.
Nem sempre as índias também!
Meu avô levou escravos
Com redes que embalam bem.
O bafo das noites quentes
Faz pensar noutros Brasis
Em que andam nossos parentes
Com outras índias gentis.
"A caça, que tempo dura?",
A minha mãe perguntei.
"Vai até a sepultura,
Porque é serviço de El-Rei."
Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Neto de Emigrante.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.38
Na serra do Cubatão.
Mas, ano vem, ano passa,
Nunca volta do sertão.
Dizem que os índios são bravos.
Nem sempre as índias também!
Meu avô levou escravos
Com redes que embalam bem.
O bafo das noites quentes
Faz pensar noutros Brasis
Em que andam nossos parentes
Com outras índias gentis.
"A caça, que tempo dura?",
A minha mãe perguntei.
"Vai até a sepultura,
Porque é serviço de El-Rei."
Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Neto de Emigrante.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.38
1 152
Gilka Machado
Aos Heróis do Futebol Brasileiro
Eu vos saúdo
heróis do dia
que vos fizestes compreender
numa linguagem muda,
escrevendo com os pés
magnéticos e alados
uma epopéia internacional!
As almas dos brasileiros
distantes
vencem os espaços,
misturam-se com as vossas,
caminham nos vossos passos
para o arremesso da pelota
para o chute decisivo
da glória da Pátria.
Que obra de arte ou de ciência,
de sentimento ou de imaginação
teve a penetração
dos gols de Leônidas
que, transpondo balizas
e antipatias,
souberam se insinuar
no coração
do Mundo!
Que obra de arte ou de ciência
conteve a idéia e a emotividade
de vossos improvisos
em vôos e saltos,
ó bailarinos espontâneos
ó poetas repentistas
que sorrindo oferecestes vosso sangue
à sede de glória
de um povo
novo?
Ha milhões de pensamentos
impulsionando vossos movimentos.
Na esportiva expressão
que qualquer raça entende
longe de nossa decantada natureza
os Leônidas e os Domingos
fixaram na retina do estrangeiro
a milagrosa realidade
que é o homem do Brasil.
Eia
atletas franzinos
gigantes débeis
que com astúcia e audácia,
tenacidade e energia
transfigurai-vos,
traçando aos olhos surpresos
da Europa
um debuxo maravilhoso
do nosso desconhecido país.
Publicado no livro Sublimação (1938).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 199
heróis do dia
que vos fizestes compreender
numa linguagem muda,
escrevendo com os pés
magnéticos e alados
uma epopéia internacional!
As almas dos brasileiros
distantes
vencem os espaços,
misturam-se com as vossas,
caminham nos vossos passos
para o arremesso da pelota
para o chute decisivo
da glória da Pátria.
Que obra de arte ou de ciência,
de sentimento ou de imaginação
teve a penetração
dos gols de Leônidas
que, transpondo balizas
e antipatias,
souberam se insinuar
no coração
do Mundo!
Que obra de arte ou de ciência
conteve a idéia e a emotividade
de vossos improvisos
em vôos e saltos,
ó bailarinos espontâneos
ó poetas repentistas
que sorrindo oferecestes vosso sangue
à sede de glória
de um povo
novo?
Ha milhões de pensamentos
impulsionando vossos movimentos.
Na esportiva expressão
que qualquer raça entende
longe de nossa decantada natureza
os Leônidas e os Domingos
fixaram na retina do estrangeiro
a milagrosa realidade
que é o homem do Brasil.
Eia
atletas franzinos
gigantes débeis
que com astúcia e audácia,
tenacidade e energia
transfigurai-vos,
traçando aos olhos surpresos
da Europa
um debuxo maravilhoso
do nosso desconhecido país.
Publicado no livro Sublimação (1938).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 199
2 179
Glauco Mattoso
Cor Local, 1978
(trova semi(patri)ótica)
Minha terra tem mais terra
minha fome tem mais cores
minha cor que menos berra
é que sente minhas dores
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982.
NOTA: Citação do poema "Canto do Regresso à Pátria", do livro PAU-BRASIL (1925), de Oswald de Andrade. Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
Minha terra tem mais terra
minha fome tem mais cores
minha cor que menos berra
é que sente minhas dores
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982.
NOTA: Citação do poema "Canto do Regresso à Pátria", do livro PAU-BRASIL (1925), de Oswald de Andrade. Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
1 584
Glauco Mattoso
Cor Local, 1978
(trova semi(patri)ótica)
Minha terra tem mais terra
minha fome tem mais cores
minha cor que menos berra
é que sente minhas dores
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982.
NOTA: Citação do poema "Canto do Regresso à Pátria", do livro PAU-BRASIL (1925), de Oswald de Andrade. Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
Minha terra tem mais terra
minha fome tem mais cores
minha cor que menos berra
é que sente minhas dores
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982.
NOTA: Citação do poema "Canto do Regresso à Pátria", do livro PAU-BRASIL (1925), de Oswald de Andrade. Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
1 584
Menotti del Picchia
I - Torre de Babel
Eles ergueram a torre de Babel
bem na Praça Antônio Prado.
O esqueleto de aço cobriu-se de carne de cimento
e as vigas e guindastes
eram braços agarrando estrelas
para industrializá-las em anúncios comerciais.
Italianos joviais,
húngaros de olhos de leopardo,
caboclos de Tietê arrastando o caipira,
bolchevistas da Ucrânia,
polacos de Wrangel,
nipões jaldes como gnomos nanicos talhados em âmbar
entre as pragas dos contramestres,
os rangidos das tábuas do andaime,
o estridor metálico
das vigas de aço e dos martelos sonoros,
no céu libérrimo de S. Paulo,
fizeram a confusão das línguas,
sem perturbar a geometria rigorosa
do ciclópico arranha-céu!
Lá do alto, o paulista,
bandeirante das nuvens,
mirou o prodígio da Cidade alucinada:
uma casa de três andares
pôs-se a crescer bruscamente
como nos romances de Wells;
outra apontou a cabeça arrepelada de caibros
acima do viaduto do Chá;
e começou a desabalada carreira
do páreo do azul.
O formidável arranha-céu
com a cabeça nas nuvens
abrigou no seu ventre de concreto
o drama da nova civilização.
Onde estás meu seráfico Anchieta,
erguendo com o barro de Piratininga,
pelo milagre da tua persuasão,
as paredes rasteiras do Colégio?
Publicado no livro República dos Estados Unidos do Brasil: poema (1928). Poema integrante da série Babel.
In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.195-196. (Obras de Menotti del Picchia
bem na Praça Antônio Prado.
O esqueleto de aço cobriu-se de carne de cimento
e as vigas e guindastes
eram braços agarrando estrelas
para industrializá-las em anúncios comerciais.
Italianos joviais,
húngaros de olhos de leopardo,
caboclos de Tietê arrastando o caipira,
bolchevistas da Ucrânia,
polacos de Wrangel,
nipões jaldes como gnomos nanicos talhados em âmbar
entre as pragas dos contramestres,
os rangidos das tábuas do andaime,
o estridor metálico
das vigas de aço e dos martelos sonoros,
no céu libérrimo de S. Paulo,
fizeram a confusão das línguas,
sem perturbar a geometria rigorosa
do ciclópico arranha-céu!
Lá do alto, o paulista,
bandeirante das nuvens,
mirou o prodígio da Cidade alucinada:
uma casa de três andares
pôs-se a crescer bruscamente
como nos romances de Wells;
outra apontou a cabeça arrepelada de caibros
acima do viaduto do Chá;
e começou a desabalada carreira
do páreo do azul.
O formidável arranha-céu
com a cabeça nas nuvens
abrigou no seu ventre de concreto
o drama da nova civilização.
Onde estás meu seráfico Anchieta,
erguendo com o barro de Piratininga,
pelo milagre da tua persuasão,
as paredes rasteiras do Colégio?
Publicado no livro República dos Estados Unidos do Brasil: poema (1928). Poema integrante da série Babel.
In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.195-196. (Obras de Menotti del Picchia
2 565
Menotti del Picchia
I - Torre de Babel
Eles ergueram a torre de Babel
bem na Praça Antônio Prado.
O esqueleto de aço cobriu-se de carne de cimento
e as vigas e guindastes
eram braços agarrando estrelas
para industrializá-las em anúncios comerciais.
Italianos joviais,
húngaros de olhos de leopardo,
caboclos de Tietê arrastando o caipira,
bolchevistas da Ucrânia,
polacos de Wrangel,
nipões jaldes como gnomos nanicos talhados em âmbar
entre as pragas dos contramestres,
os rangidos das tábuas do andaime,
o estridor metálico
das vigas de aço e dos martelos sonoros,
no céu libérrimo de S. Paulo,
fizeram a confusão das línguas,
sem perturbar a geometria rigorosa
do ciclópico arranha-céu!
Lá do alto, o paulista,
bandeirante das nuvens,
mirou o prodígio da Cidade alucinada:
uma casa de três andares
pôs-se a crescer bruscamente
como nos romances de Wells;
outra apontou a cabeça arrepelada de caibros
acima do viaduto do Chá;
e começou a desabalada carreira
do páreo do azul.
O formidável arranha-céu
com a cabeça nas nuvens
abrigou no seu ventre de concreto
o drama da nova civilização.
Onde estás meu seráfico Anchieta,
erguendo com o barro de Piratininga,
pelo milagre da tua persuasão,
as paredes rasteiras do Colégio?
Publicado no livro República dos Estados Unidos do Brasil: poema (1928). Poema integrante da série Babel.
In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.195-196. (Obras de Menotti del Picchia
bem na Praça Antônio Prado.
O esqueleto de aço cobriu-se de carne de cimento
e as vigas e guindastes
eram braços agarrando estrelas
para industrializá-las em anúncios comerciais.
Italianos joviais,
húngaros de olhos de leopardo,
caboclos de Tietê arrastando o caipira,
bolchevistas da Ucrânia,
polacos de Wrangel,
nipões jaldes como gnomos nanicos talhados em âmbar
entre as pragas dos contramestres,
os rangidos das tábuas do andaime,
o estridor metálico
das vigas de aço e dos martelos sonoros,
no céu libérrimo de S. Paulo,
fizeram a confusão das línguas,
sem perturbar a geometria rigorosa
do ciclópico arranha-céu!
Lá do alto, o paulista,
bandeirante das nuvens,
mirou o prodígio da Cidade alucinada:
uma casa de três andares
pôs-se a crescer bruscamente
como nos romances de Wells;
outra apontou a cabeça arrepelada de caibros
acima do viaduto do Chá;
e começou a desabalada carreira
do páreo do azul.
O formidável arranha-céu
com a cabeça nas nuvens
abrigou no seu ventre de concreto
o drama da nova civilização.
Onde estás meu seráfico Anchieta,
erguendo com o barro de Piratininga,
pelo milagre da tua persuasão,
as paredes rasteiras do Colégio?
Publicado no livro República dos Estados Unidos do Brasil: poema (1928). Poema integrante da série Babel.
In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.195-196. (Obras de Menotti del Picchia
2 565
Menotti del Picchia
I - Torre de Babel
Eles ergueram a torre de Babel
bem na Praça Antônio Prado.
O esqueleto de aço cobriu-se de carne de cimento
e as vigas e guindastes
eram braços agarrando estrelas
para industrializá-las em anúncios comerciais.
Italianos joviais,
húngaros de olhos de leopardo,
caboclos de Tietê arrastando o caipira,
bolchevistas da Ucrânia,
polacos de Wrangel,
nipões jaldes como gnomos nanicos talhados em âmbar
entre as pragas dos contramestres,
os rangidos das tábuas do andaime,
o estridor metálico
das vigas de aço e dos martelos sonoros,
no céu libérrimo de S. Paulo,
fizeram a confusão das línguas,
sem perturbar a geometria rigorosa
do ciclópico arranha-céu!
Lá do alto, o paulista,
bandeirante das nuvens,
mirou o prodígio da Cidade alucinada:
uma casa de três andares
pôs-se a crescer bruscamente
como nos romances de Wells;
outra apontou a cabeça arrepelada de caibros
acima do viaduto do Chá;
e começou a desabalada carreira
do páreo do azul.
O formidável arranha-céu
com a cabeça nas nuvens
abrigou no seu ventre de concreto
o drama da nova civilização.
Onde estás meu seráfico Anchieta,
erguendo com o barro de Piratininga,
pelo milagre da tua persuasão,
as paredes rasteiras do Colégio?
Publicado no livro República dos Estados Unidos do Brasil: poema (1928). Poema integrante da série Babel.
In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.195-196. (Obras de Menotti del Picchia
bem na Praça Antônio Prado.
O esqueleto de aço cobriu-se de carne de cimento
e as vigas e guindastes
eram braços agarrando estrelas
para industrializá-las em anúncios comerciais.
Italianos joviais,
húngaros de olhos de leopardo,
caboclos de Tietê arrastando o caipira,
bolchevistas da Ucrânia,
polacos de Wrangel,
nipões jaldes como gnomos nanicos talhados em âmbar
entre as pragas dos contramestres,
os rangidos das tábuas do andaime,
o estridor metálico
das vigas de aço e dos martelos sonoros,
no céu libérrimo de S. Paulo,
fizeram a confusão das línguas,
sem perturbar a geometria rigorosa
do ciclópico arranha-céu!
Lá do alto, o paulista,
bandeirante das nuvens,
mirou o prodígio da Cidade alucinada:
uma casa de três andares
pôs-se a crescer bruscamente
como nos romances de Wells;
outra apontou a cabeça arrepelada de caibros
acima do viaduto do Chá;
e começou a desabalada carreira
do páreo do azul.
O formidável arranha-céu
com a cabeça nas nuvens
abrigou no seu ventre de concreto
o drama da nova civilização.
Onde estás meu seráfico Anchieta,
erguendo com o barro de Piratininga,
pelo milagre da tua persuasão,
as paredes rasteiras do Colégio?
Publicado no livro República dos Estados Unidos do Brasil: poema (1928). Poema integrante da série Babel.
In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.195-196. (Obras de Menotti del Picchia
2 565
Paulo Setúbal
Volta ao Arraial
Pascoal Moreira torna ao arraial onde deixara a bagagem. Vinha amuado; vinha sucumbido. "Com este infeliz successo se encheu de grande dissabor o cabo da tropa Paschoal Moreira". A derrota lancetara fundo a vaidade do sertanista. Que fazer agora? Voltar? E voltar sem índios? Não! O orgulho caboclo de Pascoal Moreira não sofrerá jamais que ele volte a São Paulo de mãos vazias. E não voltará de fato. Os deuses fadaram o paulista para destinos magníficos. Que sina curiosa a do desbravador! Vêde:
Os bandeirantes, derrotados e murchos, têm, ao penetrarem no arraial, esta inesperada e vivíssima surpresa: são festivamente recebidos com gritos, estrondos de mosquete, ronqueiras, grossa barulhada! Que é aquilo? Que significam tão quentes júbilos? A boa-nova espalha-se instantaneamente:
— Ouro!
A peonada grita, e arremessa os chapéus, e baila, e está toda num ébrio fanfarreio de alegria.
— Ouro! Ouro!
Mas como? Onde? Pascoal Moreira, desta vez, quer saber os detalhes do acontecido. Manda buscar os peões para inteirar-se do que houve. Sabe então que os peões — "os que haviam ficado na bagage" — haviam resolvido, para matar o tempo, explorar as barrancas do Coxipó.
Eram as mesmas barrancas onde os dois moleques haviam dado com as primeiras oitavas. Principiaram eles o trabalho de manhãzinha. Mas não trabalharam muito tempo: duas horas após, com gritos de júbilo, toparam aqueles homens com riquíssima pinta de ouro. Que pinta soberba! Foi uma das maiores que já se achou no Brasil. Do chão bruto, como por milagre, jorrou logo, às mãos dos caboclos, larga manancial de ouro. Os bagageiros, por entre alegrias infrenes, atiraram-se então a um cavocar furioso: "huns achavam cem oitavas, outros meia libra, outros cincoenta oitavas, conforme o que cada um fez em cavar com as maons, que outros instrumentos de minerar não havia. . ."
Pascoal Moreira ouve e vê. O ouro — aquele ouro real, tangível, que ali reluz às mãos da peonada — esbraseia, afinal, o ânimo frio do povoador. Pascoal, tocado de súbito entusiasmo, sai também a mineirar. E logo, ao esbrugar os primeiros torrões, irrompe entre os bandeirantes o mesmo grito mágico:
— Ouro!
Que surpreendente colheita! Grãos e folhetas faíscam a rodo no cascalho. Basta dizer que "os que haviam acompanhado o Capitão Paschoal Moreira, mais aproveitados, assim como o mesmo Capitão, acharam cada um libra e meia de ouro..." Não podia haver, para a derrota sofrida com os Coxiponés, epílogo mais fascinante. O retorno ao arraial das bagagens, aquele doloroso retorno de vencidos, foi o lustre e a glória da bandeira.
Por isso, no sertão bravo do Coxipó, nessa noite, lá naquele humilde arraial improvisado, tão longe dos homens e do mundo, viveram aqueles toscos sertanejos a sua grande noite de sonho e febre. Não podiam dormir. E com razão! Todos eles, tontos de gozo, "cantavam victoria contra as fadigas da pobreza, davam-se huns aos outros parabens de suas fortunas, e, reciprocamente, offereciam-se laudencias de alegria".
Pascoal Moreira, no seu mísero rancho de sapé, podia enfim, bem merecidamente, descansar das suas longas e rudes fadigas de bandeirante. O paulista, é verdade, não conquistara o ambicionado Coxiponé: conquistara, o que é bem mais, as ruidosas minas do sertão.
Estava descoberto o ouro de Cuiabá.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 38-40. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
Os bandeirantes, derrotados e murchos, têm, ao penetrarem no arraial, esta inesperada e vivíssima surpresa: são festivamente recebidos com gritos, estrondos de mosquete, ronqueiras, grossa barulhada! Que é aquilo? Que significam tão quentes júbilos? A boa-nova espalha-se instantaneamente:
— Ouro!
A peonada grita, e arremessa os chapéus, e baila, e está toda num ébrio fanfarreio de alegria.
— Ouro! Ouro!
Mas como? Onde? Pascoal Moreira, desta vez, quer saber os detalhes do acontecido. Manda buscar os peões para inteirar-se do que houve. Sabe então que os peões — "os que haviam ficado na bagage" — haviam resolvido, para matar o tempo, explorar as barrancas do Coxipó.
Eram as mesmas barrancas onde os dois moleques haviam dado com as primeiras oitavas. Principiaram eles o trabalho de manhãzinha. Mas não trabalharam muito tempo: duas horas após, com gritos de júbilo, toparam aqueles homens com riquíssima pinta de ouro. Que pinta soberba! Foi uma das maiores que já se achou no Brasil. Do chão bruto, como por milagre, jorrou logo, às mãos dos caboclos, larga manancial de ouro. Os bagageiros, por entre alegrias infrenes, atiraram-se então a um cavocar furioso: "huns achavam cem oitavas, outros meia libra, outros cincoenta oitavas, conforme o que cada um fez em cavar com as maons, que outros instrumentos de minerar não havia. . ."
Pascoal Moreira ouve e vê. O ouro — aquele ouro real, tangível, que ali reluz às mãos da peonada — esbraseia, afinal, o ânimo frio do povoador. Pascoal, tocado de súbito entusiasmo, sai também a mineirar. E logo, ao esbrugar os primeiros torrões, irrompe entre os bandeirantes o mesmo grito mágico:
— Ouro!
Que surpreendente colheita! Grãos e folhetas faíscam a rodo no cascalho. Basta dizer que "os que haviam acompanhado o Capitão Paschoal Moreira, mais aproveitados, assim como o mesmo Capitão, acharam cada um libra e meia de ouro..." Não podia haver, para a derrota sofrida com os Coxiponés, epílogo mais fascinante. O retorno ao arraial das bagagens, aquele doloroso retorno de vencidos, foi o lustre e a glória da bandeira.
Por isso, no sertão bravo do Coxipó, nessa noite, lá naquele humilde arraial improvisado, tão longe dos homens e do mundo, viveram aqueles toscos sertanejos a sua grande noite de sonho e febre. Não podiam dormir. E com razão! Todos eles, tontos de gozo, "cantavam victoria contra as fadigas da pobreza, davam-se huns aos outros parabens de suas fortunas, e, reciprocamente, offereciam-se laudencias de alegria".
Pascoal Moreira, no seu mísero rancho de sapé, podia enfim, bem merecidamente, descansar das suas longas e rudes fadigas de bandeirante. O paulista, é verdade, não conquistara o ambicionado Coxiponé: conquistara, o que é bem mais, as ruidosas minas do sertão.
Estava descoberto o ouro de Cuiabá.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 38-40. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 256
Paulo Setúbal
Volta ao Arraial
Pascoal Moreira torna ao arraial onde deixara a bagagem. Vinha amuado; vinha sucumbido. "Com este infeliz successo se encheu de grande dissabor o cabo da tropa Paschoal Moreira". A derrota lancetara fundo a vaidade do sertanista. Que fazer agora? Voltar? E voltar sem índios? Não! O orgulho caboclo de Pascoal Moreira não sofrerá jamais que ele volte a São Paulo de mãos vazias. E não voltará de fato. Os deuses fadaram o paulista para destinos magníficos. Que sina curiosa a do desbravador! Vêde:
Os bandeirantes, derrotados e murchos, têm, ao penetrarem no arraial, esta inesperada e vivíssima surpresa: são festivamente recebidos com gritos, estrondos de mosquete, ronqueiras, grossa barulhada! Que é aquilo? Que significam tão quentes júbilos? A boa-nova espalha-se instantaneamente:
— Ouro!
A peonada grita, e arremessa os chapéus, e baila, e está toda num ébrio fanfarreio de alegria.
— Ouro! Ouro!
Mas como? Onde? Pascoal Moreira, desta vez, quer saber os detalhes do acontecido. Manda buscar os peões para inteirar-se do que houve. Sabe então que os peões — "os que haviam ficado na bagage" — haviam resolvido, para matar o tempo, explorar as barrancas do Coxipó.
Eram as mesmas barrancas onde os dois moleques haviam dado com as primeiras oitavas. Principiaram eles o trabalho de manhãzinha. Mas não trabalharam muito tempo: duas horas após, com gritos de júbilo, toparam aqueles homens com riquíssima pinta de ouro. Que pinta soberba! Foi uma das maiores que já se achou no Brasil. Do chão bruto, como por milagre, jorrou logo, às mãos dos caboclos, larga manancial de ouro. Os bagageiros, por entre alegrias infrenes, atiraram-se então a um cavocar furioso: "huns achavam cem oitavas, outros meia libra, outros cincoenta oitavas, conforme o que cada um fez em cavar com as maons, que outros instrumentos de minerar não havia. . ."
Pascoal Moreira ouve e vê. O ouro — aquele ouro real, tangível, que ali reluz às mãos da peonada — esbraseia, afinal, o ânimo frio do povoador. Pascoal, tocado de súbito entusiasmo, sai também a mineirar. E logo, ao esbrugar os primeiros torrões, irrompe entre os bandeirantes o mesmo grito mágico:
— Ouro!
Que surpreendente colheita! Grãos e folhetas faíscam a rodo no cascalho. Basta dizer que "os que haviam acompanhado o Capitão Paschoal Moreira, mais aproveitados, assim como o mesmo Capitão, acharam cada um libra e meia de ouro..." Não podia haver, para a derrota sofrida com os Coxiponés, epílogo mais fascinante. O retorno ao arraial das bagagens, aquele doloroso retorno de vencidos, foi o lustre e a glória da bandeira.
Por isso, no sertão bravo do Coxipó, nessa noite, lá naquele humilde arraial improvisado, tão longe dos homens e do mundo, viveram aqueles toscos sertanejos a sua grande noite de sonho e febre. Não podiam dormir. E com razão! Todos eles, tontos de gozo, "cantavam victoria contra as fadigas da pobreza, davam-se huns aos outros parabens de suas fortunas, e, reciprocamente, offereciam-se laudencias de alegria".
Pascoal Moreira, no seu mísero rancho de sapé, podia enfim, bem merecidamente, descansar das suas longas e rudes fadigas de bandeirante. O paulista, é verdade, não conquistara o ambicionado Coxiponé: conquistara, o que é bem mais, as ruidosas minas do sertão.
Estava descoberto o ouro de Cuiabá.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 38-40. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
Os bandeirantes, derrotados e murchos, têm, ao penetrarem no arraial, esta inesperada e vivíssima surpresa: são festivamente recebidos com gritos, estrondos de mosquete, ronqueiras, grossa barulhada! Que é aquilo? Que significam tão quentes júbilos? A boa-nova espalha-se instantaneamente:
— Ouro!
A peonada grita, e arremessa os chapéus, e baila, e está toda num ébrio fanfarreio de alegria.
— Ouro! Ouro!
Mas como? Onde? Pascoal Moreira, desta vez, quer saber os detalhes do acontecido. Manda buscar os peões para inteirar-se do que houve. Sabe então que os peões — "os que haviam ficado na bagage" — haviam resolvido, para matar o tempo, explorar as barrancas do Coxipó.
Eram as mesmas barrancas onde os dois moleques haviam dado com as primeiras oitavas. Principiaram eles o trabalho de manhãzinha. Mas não trabalharam muito tempo: duas horas após, com gritos de júbilo, toparam aqueles homens com riquíssima pinta de ouro. Que pinta soberba! Foi uma das maiores que já se achou no Brasil. Do chão bruto, como por milagre, jorrou logo, às mãos dos caboclos, larga manancial de ouro. Os bagageiros, por entre alegrias infrenes, atiraram-se então a um cavocar furioso: "huns achavam cem oitavas, outros meia libra, outros cincoenta oitavas, conforme o que cada um fez em cavar com as maons, que outros instrumentos de minerar não havia. . ."
Pascoal Moreira ouve e vê. O ouro — aquele ouro real, tangível, que ali reluz às mãos da peonada — esbraseia, afinal, o ânimo frio do povoador. Pascoal, tocado de súbito entusiasmo, sai também a mineirar. E logo, ao esbrugar os primeiros torrões, irrompe entre os bandeirantes o mesmo grito mágico:
— Ouro!
Que surpreendente colheita! Grãos e folhetas faíscam a rodo no cascalho. Basta dizer que "os que haviam acompanhado o Capitão Paschoal Moreira, mais aproveitados, assim como o mesmo Capitão, acharam cada um libra e meia de ouro..." Não podia haver, para a derrota sofrida com os Coxiponés, epílogo mais fascinante. O retorno ao arraial das bagagens, aquele doloroso retorno de vencidos, foi o lustre e a glória da bandeira.
Por isso, no sertão bravo do Coxipó, nessa noite, lá naquele humilde arraial improvisado, tão longe dos homens e do mundo, viveram aqueles toscos sertanejos a sua grande noite de sonho e febre. Não podiam dormir. E com razão! Todos eles, tontos de gozo, "cantavam victoria contra as fadigas da pobreza, davam-se huns aos outros parabens de suas fortunas, e, reciprocamente, offereciam-se laudencias de alegria".
Pascoal Moreira, no seu mísero rancho de sapé, podia enfim, bem merecidamente, descansar das suas longas e rudes fadigas de bandeirante. O paulista, é verdade, não conquistara o ambicionado Coxiponé: conquistara, o que é bem mais, as ruidosas minas do sertão.
Estava descoberto o ouro de Cuiabá.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 38-40. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 256
Paulo Setúbal
Volta ao Arraial
Pascoal Moreira torna ao arraial onde deixara a bagagem. Vinha amuado; vinha sucumbido. "Com este infeliz successo se encheu de grande dissabor o cabo da tropa Paschoal Moreira". A derrota lancetara fundo a vaidade do sertanista. Que fazer agora? Voltar? E voltar sem índios? Não! O orgulho caboclo de Pascoal Moreira não sofrerá jamais que ele volte a São Paulo de mãos vazias. E não voltará de fato. Os deuses fadaram o paulista para destinos magníficos. Que sina curiosa a do desbravador! Vêde:
Os bandeirantes, derrotados e murchos, têm, ao penetrarem no arraial, esta inesperada e vivíssima surpresa: são festivamente recebidos com gritos, estrondos de mosquete, ronqueiras, grossa barulhada! Que é aquilo? Que significam tão quentes júbilos? A boa-nova espalha-se instantaneamente:
— Ouro!
A peonada grita, e arremessa os chapéus, e baila, e está toda num ébrio fanfarreio de alegria.
— Ouro! Ouro!
Mas como? Onde? Pascoal Moreira, desta vez, quer saber os detalhes do acontecido. Manda buscar os peões para inteirar-se do que houve. Sabe então que os peões — "os que haviam ficado na bagage" — haviam resolvido, para matar o tempo, explorar as barrancas do Coxipó.
Eram as mesmas barrancas onde os dois moleques haviam dado com as primeiras oitavas. Principiaram eles o trabalho de manhãzinha. Mas não trabalharam muito tempo: duas horas após, com gritos de júbilo, toparam aqueles homens com riquíssima pinta de ouro. Que pinta soberba! Foi uma das maiores que já se achou no Brasil. Do chão bruto, como por milagre, jorrou logo, às mãos dos caboclos, larga manancial de ouro. Os bagageiros, por entre alegrias infrenes, atiraram-se então a um cavocar furioso: "huns achavam cem oitavas, outros meia libra, outros cincoenta oitavas, conforme o que cada um fez em cavar com as maons, que outros instrumentos de minerar não havia. . ."
Pascoal Moreira ouve e vê. O ouro — aquele ouro real, tangível, que ali reluz às mãos da peonada — esbraseia, afinal, o ânimo frio do povoador. Pascoal, tocado de súbito entusiasmo, sai também a mineirar. E logo, ao esbrugar os primeiros torrões, irrompe entre os bandeirantes o mesmo grito mágico:
— Ouro!
Que surpreendente colheita! Grãos e folhetas faíscam a rodo no cascalho. Basta dizer que "os que haviam acompanhado o Capitão Paschoal Moreira, mais aproveitados, assim como o mesmo Capitão, acharam cada um libra e meia de ouro..." Não podia haver, para a derrota sofrida com os Coxiponés, epílogo mais fascinante. O retorno ao arraial das bagagens, aquele doloroso retorno de vencidos, foi o lustre e a glória da bandeira.
Por isso, no sertão bravo do Coxipó, nessa noite, lá naquele humilde arraial improvisado, tão longe dos homens e do mundo, viveram aqueles toscos sertanejos a sua grande noite de sonho e febre. Não podiam dormir. E com razão! Todos eles, tontos de gozo, "cantavam victoria contra as fadigas da pobreza, davam-se huns aos outros parabens de suas fortunas, e, reciprocamente, offereciam-se laudencias de alegria".
Pascoal Moreira, no seu mísero rancho de sapé, podia enfim, bem merecidamente, descansar das suas longas e rudes fadigas de bandeirante. O paulista, é verdade, não conquistara o ambicionado Coxiponé: conquistara, o que é bem mais, as ruidosas minas do sertão.
Estava descoberto o ouro de Cuiabá.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 38-40. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
Os bandeirantes, derrotados e murchos, têm, ao penetrarem no arraial, esta inesperada e vivíssima surpresa: são festivamente recebidos com gritos, estrondos de mosquete, ronqueiras, grossa barulhada! Que é aquilo? Que significam tão quentes júbilos? A boa-nova espalha-se instantaneamente:
— Ouro!
A peonada grita, e arremessa os chapéus, e baila, e está toda num ébrio fanfarreio de alegria.
— Ouro! Ouro!
Mas como? Onde? Pascoal Moreira, desta vez, quer saber os detalhes do acontecido. Manda buscar os peões para inteirar-se do que houve. Sabe então que os peões — "os que haviam ficado na bagage" — haviam resolvido, para matar o tempo, explorar as barrancas do Coxipó.
Eram as mesmas barrancas onde os dois moleques haviam dado com as primeiras oitavas. Principiaram eles o trabalho de manhãzinha. Mas não trabalharam muito tempo: duas horas após, com gritos de júbilo, toparam aqueles homens com riquíssima pinta de ouro. Que pinta soberba! Foi uma das maiores que já se achou no Brasil. Do chão bruto, como por milagre, jorrou logo, às mãos dos caboclos, larga manancial de ouro. Os bagageiros, por entre alegrias infrenes, atiraram-se então a um cavocar furioso: "huns achavam cem oitavas, outros meia libra, outros cincoenta oitavas, conforme o que cada um fez em cavar com as maons, que outros instrumentos de minerar não havia. . ."
Pascoal Moreira ouve e vê. O ouro — aquele ouro real, tangível, que ali reluz às mãos da peonada — esbraseia, afinal, o ânimo frio do povoador. Pascoal, tocado de súbito entusiasmo, sai também a mineirar. E logo, ao esbrugar os primeiros torrões, irrompe entre os bandeirantes o mesmo grito mágico:
— Ouro!
Que surpreendente colheita! Grãos e folhetas faíscam a rodo no cascalho. Basta dizer que "os que haviam acompanhado o Capitão Paschoal Moreira, mais aproveitados, assim como o mesmo Capitão, acharam cada um libra e meia de ouro..." Não podia haver, para a derrota sofrida com os Coxiponés, epílogo mais fascinante. O retorno ao arraial das bagagens, aquele doloroso retorno de vencidos, foi o lustre e a glória da bandeira.
Por isso, no sertão bravo do Coxipó, nessa noite, lá naquele humilde arraial improvisado, tão longe dos homens e do mundo, viveram aqueles toscos sertanejos a sua grande noite de sonho e febre. Não podiam dormir. E com razão! Todos eles, tontos de gozo, "cantavam victoria contra as fadigas da pobreza, davam-se huns aos outros parabens de suas fortunas, e, reciprocamente, offereciam-se laudencias de alegria".
Pascoal Moreira, no seu mísero rancho de sapé, podia enfim, bem merecidamente, descansar das suas longas e rudes fadigas de bandeirante. O paulista, é verdade, não conquistara o ambicionado Coxiponé: conquistara, o que é bem mais, as ruidosas minas do sertão.
Estava descoberto o ouro de Cuiabá.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 38-40. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
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Capinan
Bandeira de Brasil
Terra
Vê a cana verde,
o nascer do céu, ô.
Verde mar,
Maracanã,
onde há progresso
fica o mato em paz.
Campo
Verde, bananeira,
amarela fruta
do Brasil azul, ô.
Ouro
Vê em cada estrela
brilha a nossa terra,
terra brasileira.
In: RÁ TIM BUM. São Paulo: Estúdio Eldorado, s.d. 1 CD
NOTA: Letra tirada do encarte que acompanha o C
Vê a cana verde,
o nascer do céu, ô.
Verde mar,
Maracanã,
onde há progresso
fica o mato em paz.
Campo
Verde, bananeira,
amarela fruta
do Brasil azul, ô.
Ouro
Vê em cada estrela
brilha a nossa terra,
terra brasileira.
In: RÁ TIM BUM. São Paulo: Estúdio Eldorado, s.d. 1 CD
NOTA: Letra tirada do encarte que acompanha o C
1 407
Carlos Frydman
Mocambo
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
não é macumba do destino,
é teimosia de pobre,
é maldade de rico.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo".
Mocambo,
semente brava
rolando do sertão
— flor ardente e ativa
brotando em lameirão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga,
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
tem menino barrigudo,
tem velho indolente
dos tempos coloniais,
que a civilização mocambeou,
pois, de novo,
o estrangeiro se aproveitou.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo" —
Mocambo
tem mãe de prenhez fácil,
de amor sem preconceito,
onde tudo cresce
sem urbanização,
sem asfalto, sem livro,
sem jardim, sem timão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
de amor bem agarrado,
de família comprimida,
com fácil união
de pele jambo e preta,
sob desembestado sol de tição.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo".
Mocambo,
casa de anão,
cabendo brasileiro grande,
mulata de corpo bom,
que, sem charque, sem feijão,
tem busto bonito e oco pulmão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
não é macumba do destino,
é teimosia de pobre,
é maldade de rico.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo".
Mocambo,
semente brava
rolando do sertão
— flor ardente e ativa
brotando em lameirão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga,
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
tem menino barrigudo,
tem velho indolente
dos tempos coloniais,
que a civilização mocambeou,
pois, de novo,
o estrangeiro se aproveitou.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo" —
Mocambo
tem mãe de prenhez fácil,
de amor sem preconceito,
onde tudo cresce
sem urbanização,
sem asfalto, sem livro,
sem jardim, sem timão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
de amor bem agarrado,
de família comprimida,
com fácil união
de pele jambo e preta,
sob desembestado sol de tição.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo".
Mocambo,
casa de anão,
cabendo brasileiro grande,
mulata de corpo bom,
que, sem charque, sem feijão,
tem busto bonito e oco pulmão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
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Carlos Frydman
Mocambo
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
não é macumba do destino,
é teimosia de pobre,
é maldade de rico.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo".
Mocambo,
semente brava
rolando do sertão
— flor ardente e ativa
brotando em lameirão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga,
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
tem menino barrigudo,
tem velho indolente
dos tempos coloniais,
que a civilização mocambeou,
pois, de novo,
o estrangeiro se aproveitou.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo" —
Mocambo
tem mãe de prenhez fácil,
de amor sem preconceito,
onde tudo cresce
sem urbanização,
sem asfalto, sem livro,
sem jardim, sem timão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
de amor bem agarrado,
de família comprimida,
com fácil união
de pele jambo e preta,
sob desembestado sol de tição.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo".
Mocambo,
casa de anão,
cabendo brasileiro grande,
mulata de corpo bom,
que, sem charque, sem feijão,
tem busto bonito e oco pulmão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
não é macumba do destino,
é teimosia de pobre,
é maldade de rico.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo".
Mocambo,
semente brava
rolando do sertão
— flor ardente e ativa
brotando em lameirão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga,
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
tem menino barrigudo,
tem velho indolente
dos tempos coloniais,
que a civilização mocambeou,
pois, de novo,
o estrangeiro se aproveitou.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo" —
Mocambo
tem mãe de prenhez fácil,
de amor sem preconceito,
onde tudo cresce
sem urbanização,
sem asfalto, sem livro,
sem jardim, sem timão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
de amor bem agarrado,
de família comprimida,
com fácil união
de pele jambo e preta,
sob desembestado sol de tição.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo".
Mocambo,
casa de anão,
cabendo brasileiro grande,
mulata de corpo bom,
que, sem charque, sem feijão,
tem busto bonito e oco pulmão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
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Olavo Bilac
O Bond
NÃO ME FALTARIAM ASSUNTOS com que atulhar o bojo de uma larga crônica, bem nutrida e bem variada, neste sábado em que escrevo — um sábado alegre e quente, um sol que cobre de tons de ouro e topázio os nossos feios telhados do século atrasado. Mas não quero outro assunto senão este: o bond, — o bond amável e modesto, veículo da democracia, igualador de castas, nivelador de fortunas, — o bond despretensioso, de que, anteontem, festejamos o 35° aniversário natalício.
Natalício sim, — porque, para o Rio de janeiro, o bond nasceu há trinta e cinco anos, somente. E a cidade ainda está cheia de gente que se lembra das gôndolas pesadas e oscilantes, que se arrastavam aos trancos, morosas e feias como grandes hipopótamos.
O bond, assim que nasceu, matou a "gôndola", e a "diligência", limitou despoticamente a esfera da ação das caleças e dos coupés, tomou conta de toda da cidade, — e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tilbury. Em trinta e cinco anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbs o aranhol dos seus trilhos metálicos, e senhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colméia. São dele as ruas, são dele as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao ronrom da corrente elétrica, ou ao rumoroso patear dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador, — o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade.
Haja sol ou chova, labute ou durma a cidade, o trabalho metódico do bond não cessa: e alta noite, ou alta madrugada, quando já os mais terríveis notívagos se meteram no vale dos lençóis, ainda ele está cumprindo o seu fadário, deslizando sobre os trilhos, abrindo clareiras na treva com as suas lanternas vermelhas ou azuis, acordando os ecos das ruas desertas, velando incansável pela comodidade, pelo conforto, pelo serviço da população. Cheio ou vazio, com passageiros suspensos em pencas das balaustradas ou abrigando apenas dois ou três viajantes sonolentos, — a sua marcha é a mesma, certa e pausada, num ritmo regular que é a expressão perfeita de regularidade da sua missão na terra...
Trinta e cinco anos... Para celebrar esse aniversário, a Jardim Botânico, que se orgulha da sua decania, da sua dignidade de primaz das companhias de bonds, organizou festas alegres, com muita música e muita luz, — e com muita satisfação dos empregados, que tiveram lunch, relevações de penas, pequenos favores amáveis, e até uma proclamação do gerente, falando em "vestais", em "fogo sagrado", e em outras cousas igualmente lindas e retóricas.
No largo do Machado, vi ontem um bond, encostado ao jardim, fulgurante e garrido, emergindo de entre tufos de folhagens, constelado de lâmpadas elétricas, apendoado de flâmulas, e ressoante de músicas festivas. Confesso que gostei imensamente dessa apoteose do Bond. Era bem justo que o glorificassem, — a esse belo companheiro e servidor da nossa atividade. Naquela apoteose, vibrava a alma agradecida de toda a população.
Por mim, não me lembro das "gôndolas", nem do dia em que os primeiros bonds partiram da rua do Ouvidor. Nesse tempo, eu ainda era um pirralho de dois anos e tanto, mais ocupado em ensaiar a língua tatibitate do que em tomar conhecimento de progressos. Mas o Jornal do Commercio, esse venerando ancestral (que, se me não engano, em fins de abril de 1500, já dava minuciosa notícia da ancoragem da esquadra de Cabral em Porto Seguro), contou em 10 de outubro de 1868 o que foi a festa da inauguração.
O trajeto (disse o velho Jornal) fez-se entre alas de povo, achando-se também as janelas guarnecidas de espectadores; os carros são cômodos e largos, sem por isso ocuparem mais espaço da rua do que as gôndolas, porque as rodas giram debaixo da caixa, e uma só parelha de bestas puxa aquela pesada máquina suavemente sobre os trilhos, sem abalo para o passageiro, que quase não sente o movimento.
Essas palavras podem parecer hoje frias e secas: mas, naquele tempo, e Gritas pela gente do Jornal, deviam ser o cúmulo do entusiasmo... Daquele reduto da Circunspecção, daquele templo da Prudência, só podia sair louvores bem calculados e medidos. Tanto assim que o final da notícia revelava uma reserva cautelosa:
Cumpre deixar que a experiência fale por si, mas, tanto quanto desde já pode conjecturar-se, o que devemos desejar é que a mesma facilidade da locomoção se estenda a outros arrabaldes da cidade.
Vejam só o que é o hábito! Naqueles primeiros dias da existência dos bonds tudo parecia bem: era um espanto ver que as rodas giravam debaixo das caixas, e que os carros não ocupavam mais espaço do que as gôndolas, e que uma só parelha de bestas bastava para puxar a pesada máquina, e que o passageiro quase não sentia o movimento!
Cotejem-se esses elogios com as queixas de hoje, — e ter-se-á, mas uma vez, a confirmação desta grande lei, que é tão verdadeira para as cousas do espírito como para as cousas do corpo: "as exigências aumentam na razão direta das concessões." Se naquele tempo tudo parecia bom, hoje tudo parece mau: o movimento é moroso, os solavancos são terríveis, luz é escassa, os condutores só merecem censura, os horários nunca são cumpridos, e tudo anda à matroca...
Tudo isso é natural: depois da luz do azeite, já a luz do querosene não nos satisfez, como depois da luz do querosene não nos satisfez a luz do gás, e a mesma luz da eletricidade já nos está parecendo insuficiente...
Mas que te importa que digamos mal de ti, condescendente e impassível bond? Tu não dás ouvidos às nossas recriminações, e vais alargando o teu domínio, dilatando o teu aranhol, suprimindo as distâncias, confraternizando pela aproximação o saco do Alferes e Botafogo, a Vila Guarani e o Cosme Velho, e reinando como senhor absoluto e indispensável sobre a nossa vida.
E deixa-me dizer-te aqui, nesta coluna repousada, que não te amo apenas pelos serviços materiais que nos prestas, senão também pelos teus grandes serviços morais.
Tu és o Karl Marx dos veículos, o Benoit Malon dos transportes. Sem dar mostras do que fazes, tu vais passando a rasoura nos preconceitos, e pondo todas as classes no mesmo nível. Tu és um grande Socialista, ó bond amável!
Os ricos, atendendo à tua comodidade e apreciando a tua barateza, abandonam por ti as carruagens de luxo, e preferem ao trote dos cavalos de raça o trote das tuas bestas ou a suave carreira da tua corrente elétrica. Assim, nos teus bancos, acotovelam-se as classes, ombreiam as castas, flanqueiam-se a opulência e a penúria; sobre os teus assentos esfregam-se igualmente os impecáveis fundilhos das calças dos janotas e os fundilhos remendados das calças dos operários; e, nessa vizinhança igualadora, roçam-se as sedas das grandes damas nas chitas desbotadas, das criadas de servir. Aí, ao lado do capitalista gotoso, senta-se o trabalhador esfomeado; a costureirinha humilde, que nem sempre janta, acha lugar ao lado da matrona opulenta, carregada de banhas e de apólices; o estudante brejeiro encosta-se ao estadista grave; o poeta, que tem a alma cheia de rimas, toca com o joelho o joelho do banqueiro, que tem a carteira cheia de notas de quinhentos mil-réis; aí a miséria respira com a riqueza, e ambas se expõem aos mesmos solavancos, e arreliam-se com as mesmas demoras, e sufocam-se com a mesma poeira... Tu és um grande apóstolo do Socialismo, ó bond modesto! tu destruíste os preconceitos de raça e de cor, tu baralhaste na mesma expansão de vida o orgulho dos fortes e a humildade dos fracos, as ambições e os desinteresses, a beleza e a fealdade, a saúde e a invalidez...
E, além disso, amo-te porque és, juntam
Natalício sim, — porque, para o Rio de janeiro, o bond nasceu há trinta e cinco anos, somente. E a cidade ainda está cheia de gente que se lembra das gôndolas pesadas e oscilantes, que se arrastavam aos trancos, morosas e feias como grandes hipopótamos.
O bond, assim que nasceu, matou a "gôndola", e a "diligência", limitou despoticamente a esfera da ação das caleças e dos coupés, tomou conta de toda da cidade, — e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tilbury. Em trinta e cinco anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbs o aranhol dos seus trilhos metálicos, e senhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colméia. São dele as ruas, são dele as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao ronrom da corrente elétrica, ou ao rumoroso patear dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador, — o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade.
Haja sol ou chova, labute ou durma a cidade, o trabalho metódico do bond não cessa: e alta noite, ou alta madrugada, quando já os mais terríveis notívagos se meteram no vale dos lençóis, ainda ele está cumprindo o seu fadário, deslizando sobre os trilhos, abrindo clareiras na treva com as suas lanternas vermelhas ou azuis, acordando os ecos das ruas desertas, velando incansável pela comodidade, pelo conforto, pelo serviço da população. Cheio ou vazio, com passageiros suspensos em pencas das balaustradas ou abrigando apenas dois ou três viajantes sonolentos, — a sua marcha é a mesma, certa e pausada, num ritmo regular que é a expressão perfeita de regularidade da sua missão na terra...
Trinta e cinco anos... Para celebrar esse aniversário, a Jardim Botânico, que se orgulha da sua decania, da sua dignidade de primaz das companhias de bonds, organizou festas alegres, com muita música e muita luz, — e com muita satisfação dos empregados, que tiveram lunch, relevações de penas, pequenos favores amáveis, e até uma proclamação do gerente, falando em "vestais", em "fogo sagrado", e em outras cousas igualmente lindas e retóricas.
No largo do Machado, vi ontem um bond, encostado ao jardim, fulgurante e garrido, emergindo de entre tufos de folhagens, constelado de lâmpadas elétricas, apendoado de flâmulas, e ressoante de músicas festivas. Confesso que gostei imensamente dessa apoteose do Bond. Era bem justo que o glorificassem, — a esse belo companheiro e servidor da nossa atividade. Naquela apoteose, vibrava a alma agradecida de toda a população.
Por mim, não me lembro das "gôndolas", nem do dia em que os primeiros bonds partiram da rua do Ouvidor. Nesse tempo, eu ainda era um pirralho de dois anos e tanto, mais ocupado em ensaiar a língua tatibitate do que em tomar conhecimento de progressos. Mas o Jornal do Commercio, esse venerando ancestral (que, se me não engano, em fins de abril de 1500, já dava minuciosa notícia da ancoragem da esquadra de Cabral em Porto Seguro), contou em 10 de outubro de 1868 o que foi a festa da inauguração.
O trajeto (disse o velho Jornal) fez-se entre alas de povo, achando-se também as janelas guarnecidas de espectadores; os carros são cômodos e largos, sem por isso ocuparem mais espaço da rua do que as gôndolas, porque as rodas giram debaixo da caixa, e uma só parelha de bestas puxa aquela pesada máquina suavemente sobre os trilhos, sem abalo para o passageiro, que quase não sente o movimento.
Essas palavras podem parecer hoje frias e secas: mas, naquele tempo, e Gritas pela gente do Jornal, deviam ser o cúmulo do entusiasmo... Daquele reduto da Circunspecção, daquele templo da Prudência, só podia sair louvores bem calculados e medidos. Tanto assim que o final da notícia revelava uma reserva cautelosa:
Cumpre deixar que a experiência fale por si, mas, tanto quanto desde já pode conjecturar-se, o que devemos desejar é que a mesma facilidade da locomoção se estenda a outros arrabaldes da cidade.
Vejam só o que é o hábito! Naqueles primeiros dias da existência dos bonds tudo parecia bem: era um espanto ver que as rodas giravam debaixo das caixas, e que os carros não ocupavam mais espaço do que as gôndolas, e que uma só parelha de bestas bastava para puxar a pesada máquina, e que o passageiro quase não sentia o movimento!
Cotejem-se esses elogios com as queixas de hoje, — e ter-se-á, mas uma vez, a confirmação desta grande lei, que é tão verdadeira para as cousas do espírito como para as cousas do corpo: "as exigências aumentam na razão direta das concessões." Se naquele tempo tudo parecia bom, hoje tudo parece mau: o movimento é moroso, os solavancos são terríveis, luz é escassa, os condutores só merecem censura, os horários nunca são cumpridos, e tudo anda à matroca...
Tudo isso é natural: depois da luz do azeite, já a luz do querosene não nos satisfez, como depois da luz do querosene não nos satisfez a luz do gás, e a mesma luz da eletricidade já nos está parecendo insuficiente...
Mas que te importa que digamos mal de ti, condescendente e impassível bond? Tu não dás ouvidos às nossas recriminações, e vais alargando o teu domínio, dilatando o teu aranhol, suprimindo as distâncias, confraternizando pela aproximação o saco do Alferes e Botafogo, a Vila Guarani e o Cosme Velho, e reinando como senhor absoluto e indispensável sobre a nossa vida.
E deixa-me dizer-te aqui, nesta coluna repousada, que não te amo apenas pelos serviços materiais que nos prestas, senão também pelos teus grandes serviços morais.
Tu és o Karl Marx dos veículos, o Benoit Malon dos transportes. Sem dar mostras do que fazes, tu vais passando a rasoura nos preconceitos, e pondo todas as classes no mesmo nível. Tu és um grande Socialista, ó bond amável!
Os ricos, atendendo à tua comodidade e apreciando a tua barateza, abandonam por ti as carruagens de luxo, e preferem ao trote dos cavalos de raça o trote das tuas bestas ou a suave carreira da tua corrente elétrica. Assim, nos teus bancos, acotovelam-se as classes, ombreiam as castas, flanqueiam-se a opulência e a penúria; sobre os teus assentos esfregam-se igualmente os impecáveis fundilhos das calças dos janotas e os fundilhos remendados das calças dos operários; e, nessa vizinhança igualadora, roçam-se as sedas das grandes damas nas chitas desbotadas, das criadas de servir. Aí, ao lado do capitalista gotoso, senta-se o trabalhador esfomeado; a costureirinha humilde, que nem sempre janta, acha lugar ao lado da matrona opulenta, carregada de banhas e de apólices; o estudante brejeiro encosta-se ao estadista grave; o poeta, que tem a alma cheia de rimas, toca com o joelho o joelho do banqueiro, que tem a carteira cheia de notas de quinhentos mil-réis; aí a miséria respira com a riqueza, e ambas se expõem aos mesmos solavancos, e arreliam-se com as mesmas demoras, e sufocam-se com a mesma poeira... Tu és um grande apóstolo do Socialismo, ó bond modesto! tu destruíste os preconceitos de raça e de cor, tu baralhaste na mesma expansão de vida o orgulho dos fortes e a humildade dos fracos, as ambições e os desinteresses, a beleza e a fealdade, a saúde e a invalidez...
E, além disso, amo-te porque és, juntam
3 168
Olavo Bilac
O Bond
NÃO ME FALTARIAM ASSUNTOS com que atulhar o bojo de uma larga crônica, bem nutrida e bem variada, neste sábado em que escrevo — um sábado alegre e quente, um sol que cobre de tons de ouro e topázio os nossos feios telhados do século atrasado. Mas não quero outro assunto senão este: o bond, — o bond amável e modesto, veículo da democracia, igualador de castas, nivelador de fortunas, — o bond despretensioso, de que, anteontem, festejamos o 35° aniversário natalício.
Natalício sim, — porque, para o Rio de janeiro, o bond nasceu há trinta e cinco anos, somente. E a cidade ainda está cheia de gente que se lembra das gôndolas pesadas e oscilantes, que se arrastavam aos trancos, morosas e feias como grandes hipopótamos.
O bond, assim que nasceu, matou a "gôndola", e a "diligência", limitou despoticamente a esfera da ação das caleças e dos coupés, tomou conta de toda da cidade, — e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tilbury. Em trinta e cinco anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbs o aranhol dos seus trilhos metálicos, e senhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colméia. São dele as ruas, são dele as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao ronrom da corrente elétrica, ou ao rumoroso patear dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador, — o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade.
Haja sol ou chova, labute ou durma a cidade, o trabalho metódico do bond não cessa: e alta noite, ou alta madrugada, quando já os mais terríveis notívagos se meteram no vale dos lençóis, ainda ele está cumprindo o seu fadário, deslizando sobre os trilhos, abrindo clareiras na treva com as suas lanternas vermelhas ou azuis, acordando os ecos das ruas desertas, velando incansável pela comodidade, pelo conforto, pelo serviço da população. Cheio ou vazio, com passageiros suspensos em pencas das balaustradas ou abrigando apenas dois ou três viajantes sonolentos, — a sua marcha é a mesma, certa e pausada, num ritmo regular que é a expressão perfeita de regularidade da sua missão na terra...
Trinta e cinco anos... Para celebrar esse aniversário, a Jardim Botânico, que se orgulha da sua decania, da sua dignidade de primaz das companhias de bonds, organizou festas alegres, com muita música e muita luz, — e com muita satisfação dos empregados, que tiveram lunch, relevações de penas, pequenos favores amáveis, e até uma proclamação do gerente, falando em "vestais", em "fogo sagrado", e em outras cousas igualmente lindas e retóricas.
No largo do Machado, vi ontem um bond, encostado ao jardim, fulgurante e garrido, emergindo de entre tufos de folhagens, constelado de lâmpadas elétricas, apendoado de flâmulas, e ressoante de músicas festivas. Confesso que gostei imensamente dessa apoteose do Bond. Era bem justo que o glorificassem, — a esse belo companheiro e servidor da nossa atividade. Naquela apoteose, vibrava a alma agradecida de toda a população.
Por mim, não me lembro das "gôndolas", nem do dia em que os primeiros bonds partiram da rua do Ouvidor. Nesse tempo, eu ainda era um pirralho de dois anos e tanto, mais ocupado em ensaiar a língua tatibitate do que em tomar conhecimento de progressos. Mas o Jornal do Commercio, esse venerando ancestral (que, se me não engano, em fins de abril de 1500, já dava minuciosa notícia da ancoragem da esquadra de Cabral em Porto Seguro), contou em 10 de outubro de 1868 o que foi a festa da inauguração.
O trajeto (disse o velho Jornal) fez-se entre alas de povo, achando-se também as janelas guarnecidas de espectadores; os carros são cômodos e largos, sem por isso ocuparem mais espaço da rua do que as gôndolas, porque as rodas giram debaixo da caixa, e uma só parelha de bestas puxa aquela pesada máquina suavemente sobre os trilhos, sem abalo para o passageiro, que quase não sente o movimento.
Essas palavras podem parecer hoje frias e secas: mas, naquele tempo, e Gritas pela gente do Jornal, deviam ser o cúmulo do entusiasmo... Daquele reduto da Circunspecção, daquele templo da Prudência, só podia sair louvores bem calculados e medidos. Tanto assim que o final da notícia revelava uma reserva cautelosa:
Cumpre deixar que a experiência fale por si, mas, tanto quanto desde já pode conjecturar-se, o que devemos desejar é que a mesma facilidade da locomoção se estenda a outros arrabaldes da cidade.
Vejam só o que é o hábito! Naqueles primeiros dias da existência dos bonds tudo parecia bem: era um espanto ver que as rodas giravam debaixo das caixas, e que os carros não ocupavam mais espaço do que as gôndolas, e que uma só parelha de bestas bastava para puxar a pesada máquina, e que o passageiro quase não sentia o movimento!
Cotejem-se esses elogios com as queixas de hoje, — e ter-se-á, mas uma vez, a confirmação desta grande lei, que é tão verdadeira para as cousas do espírito como para as cousas do corpo: "as exigências aumentam na razão direta das concessões." Se naquele tempo tudo parecia bom, hoje tudo parece mau: o movimento é moroso, os solavancos são terríveis, luz é escassa, os condutores só merecem censura, os horários nunca são cumpridos, e tudo anda à matroca...
Tudo isso é natural: depois da luz do azeite, já a luz do querosene não nos satisfez, como depois da luz do querosene não nos satisfez a luz do gás, e a mesma luz da eletricidade já nos está parecendo insuficiente...
Mas que te importa que digamos mal de ti, condescendente e impassível bond? Tu não dás ouvidos às nossas recriminações, e vais alargando o teu domínio, dilatando o teu aranhol, suprimindo as distâncias, confraternizando pela aproximação o saco do Alferes e Botafogo, a Vila Guarani e o Cosme Velho, e reinando como senhor absoluto e indispensável sobre a nossa vida.
E deixa-me dizer-te aqui, nesta coluna repousada, que não te amo apenas pelos serviços materiais que nos prestas, senão também pelos teus grandes serviços morais.
Tu és o Karl Marx dos veículos, o Benoit Malon dos transportes. Sem dar mostras do que fazes, tu vais passando a rasoura nos preconceitos, e pondo todas as classes no mesmo nível. Tu és um grande Socialista, ó bond amável!
Os ricos, atendendo à tua comodidade e apreciando a tua barateza, abandonam por ti as carruagens de luxo, e preferem ao trote dos cavalos de raça o trote das tuas bestas ou a suave carreira da tua corrente elétrica. Assim, nos teus bancos, acotovelam-se as classes, ombreiam as castas, flanqueiam-se a opulência e a penúria; sobre os teus assentos esfregam-se igualmente os impecáveis fundilhos das calças dos janotas e os fundilhos remendados das calças dos operários; e, nessa vizinhança igualadora, roçam-se as sedas das grandes damas nas chitas desbotadas, das criadas de servir. Aí, ao lado do capitalista gotoso, senta-se o trabalhador esfomeado; a costureirinha humilde, que nem sempre janta, acha lugar ao lado da matrona opulenta, carregada de banhas e de apólices; o estudante brejeiro encosta-se ao estadista grave; o poeta, que tem a alma cheia de rimas, toca com o joelho o joelho do banqueiro, que tem a carteira cheia de notas de quinhentos mil-réis; aí a miséria respira com a riqueza, e ambas se expõem aos mesmos solavancos, e arreliam-se com as mesmas demoras, e sufocam-se com a mesma poeira... Tu és um grande apóstolo do Socialismo, ó bond modesto! tu destruíste os preconceitos de raça e de cor, tu baralhaste na mesma expansão de vida o orgulho dos fortes e a humildade dos fracos, as ambições e os desinteresses, a beleza e a fealdade, a saúde e a invalidez...
E, além disso, amo-te porque és, juntam
Natalício sim, — porque, para o Rio de janeiro, o bond nasceu há trinta e cinco anos, somente. E a cidade ainda está cheia de gente que se lembra das gôndolas pesadas e oscilantes, que se arrastavam aos trancos, morosas e feias como grandes hipopótamos.
O bond, assim que nasceu, matou a "gôndola", e a "diligência", limitou despoticamente a esfera da ação das caleças e dos coupés, tomou conta de toda da cidade, — e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tilbury. Em trinta e cinco anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbs o aranhol dos seus trilhos metálicos, e senhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colméia. São dele as ruas, são dele as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao ronrom da corrente elétrica, ou ao rumoroso patear dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador, — o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade.
Haja sol ou chova, labute ou durma a cidade, o trabalho metódico do bond não cessa: e alta noite, ou alta madrugada, quando já os mais terríveis notívagos se meteram no vale dos lençóis, ainda ele está cumprindo o seu fadário, deslizando sobre os trilhos, abrindo clareiras na treva com as suas lanternas vermelhas ou azuis, acordando os ecos das ruas desertas, velando incansável pela comodidade, pelo conforto, pelo serviço da população. Cheio ou vazio, com passageiros suspensos em pencas das balaustradas ou abrigando apenas dois ou três viajantes sonolentos, — a sua marcha é a mesma, certa e pausada, num ritmo regular que é a expressão perfeita de regularidade da sua missão na terra...
Trinta e cinco anos... Para celebrar esse aniversário, a Jardim Botânico, que se orgulha da sua decania, da sua dignidade de primaz das companhias de bonds, organizou festas alegres, com muita música e muita luz, — e com muita satisfação dos empregados, que tiveram lunch, relevações de penas, pequenos favores amáveis, e até uma proclamação do gerente, falando em "vestais", em "fogo sagrado", e em outras cousas igualmente lindas e retóricas.
No largo do Machado, vi ontem um bond, encostado ao jardim, fulgurante e garrido, emergindo de entre tufos de folhagens, constelado de lâmpadas elétricas, apendoado de flâmulas, e ressoante de músicas festivas. Confesso que gostei imensamente dessa apoteose do Bond. Era bem justo que o glorificassem, — a esse belo companheiro e servidor da nossa atividade. Naquela apoteose, vibrava a alma agradecida de toda a população.
Por mim, não me lembro das "gôndolas", nem do dia em que os primeiros bonds partiram da rua do Ouvidor. Nesse tempo, eu ainda era um pirralho de dois anos e tanto, mais ocupado em ensaiar a língua tatibitate do que em tomar conhecimento de progressos. Mas o Jornal do Commercio, esse venerando ancestral (que, se me não engano, em fins de abril de 1500, já dava minuciosa notícia da ancoragem da esquadra de Cabral em Porto Seguro), contou em 10 de outubro de 1868 o que foi a festa da inauguração.
O trajeto (disse o velho Jornal) fez-se entre alas de povo, achando-se também as janelas guarnecidas de espectadores; os carros são cômodos e largos, sem por isso ocuparem mais espaço da rua do que as gôndolas, porque as rodas giram debaixo da caixa, e uma só parelha de bestas puxa aquela pesada máquina suavemente sobre os trilhos, sem abalo para o passageiro, que quase não sente o movimento.
Essas palavras podem parecer hoje frias e secas: mas, naquele tempo, e Gritas pela gente do Jornal, deviam ser o cúmulo do entusiasmo... Daquele reduto da Circunspecção, daquele templo da Prudência, só podia sair louvores bem calculados e medidos. Tanto assim que o final da notícia revelava uma reserva cautelosa:
Cumpre deixar que a experiência fale por si, mas, tanto quanto desde já pode conjecturar-se, o que devemos desejar é que a mesma facilidade da locomoção se estenda a outros arrabaldes da cidade.
Vejam só o que é o hábito! Naqueles primeiros dias da existência dos bonds tudo parecia bem: era um espanto ver que as rodas giravam debaixo das caixas, e que os carros não ocupavam mais espaço do que as gôndolas, e que uma só parelha de bestas bastava para puxar a pesada máquina, e que o passageiro quase não sentia o movimento!
Cotejem-se esses elogios com as queixas de hoje, — e ter-se-á, mas uma vez, a confirmação desta grande lei, que é tão verdadeira para as cousas do espírito como para as cousas do corpo: "as exigências aumentam na razão direta das concessões." Se naquele tempo tudo parecia bom, hoje tudo parece mau: o movimento é moroso, os solavancos são terríveis, luz é escassa, os condutores só merecem censura, os horários nunca são cumpridos, e tudo anda à matroca...
Tudo isso é natural: depois da luz do azeite, já a luz do querosene não nos satisfez, como depois da luz do querosene não nos satisfez a luz do gás, e a mesma luz da eletricidade já nos está parecendo insuficiente...
Mas que te importa que digamos mal de ti, condescendente e impassível bond? Tu não dás ouvidos às nossas recriminações, e vais alargando o teu domínio, dilatando o teu aranhol, suprimindo as distâncias, confraternizando pela aproximação o saco do Alferes e Botafogo, a Vila Guarani e o Cosme Velho, e reinando como senhor absoluto e indispensável sobre a nossa vida.
E deixa-me dizer-te aqui, nesta coluna repousada, que não te amo apenas pelos serviços materiais que nos prestas, senão também pelos teus grandes serviços morais.
Tu és o Karl Marx dos veículos, o Benoit Malon dos transportes. Sem dar mostras do que fazes, tu vais passando a rasoura nos preconceitos, e pondo todas as classes no mesmo nível. Tu és um grande Socialista, ó bond amável!
Os ricos, atendendo à tua comodidade e apreciando a tua barateza, abandonam por ti as carruagens de luxo, e preferem ao trote dos cavalos de raça o trote das tuas bestas ou a suave carreira da tua corrente elétrica. Assim, nos teus bancos, acotovelam-se as classes, ombreiam as castas, flanqueiam-se a opulência e a penúria; sobre os teus assentos esfregam-se igualmente os impecáveis fundilhos das calças dos janotas e os fundilhos remendados das calças dos operários; e, nessa vizinhança igualadora, roçam-se as sedas das grandes damas nas chitas desbotadas, das criadas de servir. Aí, ao lado do capitalista gotoso, senta-se o trabalhador esfomeado; a costureirinha humilde, que nem sempre janta, acha lugar ao lado da matrona opulenta, carregada de banhas e de apólices; o estudante brejeiro encosta-se ao estadista grave; o poeta, que tem a alma cheia de rimas, toca com o joelho o joelho do banqueiro, que tem a carteira cheia de notas de quinhentos mil-réis; aí a miséria respira com a riqueza, e ambas se expõem aos mesmos solavancos, e arreliam-se com as mesmas demoras, e sufocam-se com a mesma poeira... Tu és um grande apóstolo do Socialismo, ó bond modesto! tu destruíste os preconceitos de raça e de cor, tu baralhaste na mesma expansão de vida o orgulho dos fortes e a humildade dos fracos, as ambições e os desinteresses, a beleza e a fealdade, a saúde e a invalidez...
E, além disso, amo-te porque és, juntam
3 168
Evaristo da Veiga
Bilhete em Verso ao Thomaz
Bonjour Mr. Thomaz, comment se porte:
Je suis ravi de voir que o seu visage
Dá de bonne santé toda a apparencia:
Moi pour votre service; aqui lhe trago
Mon paquet poetique, que he composto,
D'un rang, ou rango de versinhos soltos,
E d'um Ode; oh que Ode! coisa boa!
Quatorze estrophes tem todas inteiras,
Sem que lhe falte ao menos um só verso:
As sílabas também (ou je me trompe)
Não tem falta nenhua, nem sobejo;
Contei-as duas vezes pelos dedos,
Duas vezes me deo a conta certa.
Não arrepare nesta Francezia,
Que e'est l'usage cá da nova escola,
Que se moquant do ranço dos antigos,
Já banirão das suas livrarias
Andrade, Coito, Barros, e Lucena,
Que serião peut être bons Authores,
Se soubessem Francez; se que dois dedos;
Mas assim fazem dó, Je vous demande
Pardon da secatura; e como finda
Aqui o meu papel, também eu findo.
6 de julho de 1821.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.6
Je suis ravi de voir que o seu visage
Dá de bonne santé toda a apparencia:
Moi pour votre service; aqui lhe trago
Mon paquet poetique, que he composto,
D'un rang, ou rango de versinhos soltos,
E d'um Ode; oh que Ode! coisa boa!
Quatorze estrophes tem todas inteiras,
Sem que lhe falte ao menos um só verso:
As sílabas também (ou je me trompe)
Não tem falta nenhua, nem sobejo;
Contei-as duas vezes pelos dedos,
Duas vezes me deo a conta certa.
Não arrepare nesta Francezia,
Que e'est l'usage cá da nova escola,
Que se moquant do ranço dos antigos,
Já banirão das suas livrarias
Andrade, Coito, Barros, e Lucena,
Que serião peut être bons Authores,
Se soubessem Francez; se que dois dedos;
Mas assim fazem dó, Je vous demande
Pardon da secatura; e como finda
Aqui o meu papel, também eu findo.
6 de julho de 1821.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.6
1 177
Joaquim Cardozo
As Janelas, as Escadas, as Pontes e as Estradas
II
(As estradas e as pontes)
As estradas não param. Para longe, que vão,
Vão, sem se mover/cansar. Permanentemente vão;
Quem quiser vai com elas, usa tudo o que é delas
Porque são boas, tão boas, tão amigas
Que ajudam a quem quiser correr,
A quem quiser simplesmente andar,
Ou, tropegamente, caminhar apenas...
Vão para o fim do olhar, em todas as direções desse fim;
— Rugosas, em rodeiras de lama, filmando um movimento
— Lisas, escorrendo ao seu leito, líquido-pastoso
Contêm as rodas, os pés acertam, amparam, as muletas.
Dirigem
A velocidade-serpente, de anéis sucessivos,
Sempre desiguais, serpente de que amortecem o veneno...
As estradas saltam sobre os rios e os vales profundos
Em seus saltos de pontes, com distensões de músculos
Estáticos; imobilizam a vertigem dos abismos.
Pontes que são saltos de vara
Sobre os profundos paralisados;
E o rumor que por elas vai
Não consegue despertá-las do equilíbrio:
Seu sono-silêncio, seu sono-limite.
Os rios, embaixo caminham: estradas moventes
Com agitações de animal, às vezes mansas
às vezes selvagens
Caminham, escadas rolantes sempre descendo;
Colubreiam, coleiam...
As pontes são partes da estrada, são apertos de mãos
Que transportam de um lado para outro lado
— São São Cristóvão de cimento e ferro.
Mãos de duros nervos, de veias metálicas
Onde corre um sangue de quase eterna
Origem; são pulsos que vibram
No mesmo ritmo das estradas
No mesmo ritmo dos que passam
— Talvez, como eu, nunca para mais passar...
As estradas são cordas de um instrumento
Vibrando à passagem dos motores,
Deixando no ar nova música
Onde há ritmos de horizontes
margeantes
Entre os sons das árvores marginantes.
Os rios às vezes se revoltam
Reúnem todas as suas águas
E investem sobre as pontes-algemas
Contra as estradas — muralhas de cárcere —
E se espalham felizes na planície
Em inundações gloriosas.
Imagem - 00100003
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.181-182. Poema integrante da série Mundos Paralelos.
NOTA: Poema composto de 2 parte
(As estradas e as pontes)
As estradas não param. Para longe, que vão,
Vão, sem se mover/cansar. Permanentemente vão;
Quem quiser vai com elas, usa tudo o que é delas
Porque são boas, tão boas, tão amigas
Que ajudam a quem quiser correr,
A quem quiser simplesmente andar,
Ou, tropegamente, caminhar apenas...
Vão para o fim do olhar, em todas as direções desse fim;
— Rugosas, em rodeiras de lama, filmando um movimento
— Lisas, escorrendo ao seu leito, líquido-pastoso
Contêm as rodas, os pés acertam, amparam, as muletas.
Dirigem
A velocidade-serpente, de anéis sucessivos,
Sempre desiguais, serpente de que amortecem o veneno...
As estradas saltam sobre os rios e os vales profundos
Em seus saltos de pontes, com distensões de músculos
Estáticos; imobilizam a vertigem dos abismos.
Pontes que são saltos de vara
Sobre os profundos paralisados;
E o rumor que por elas vai
Não consegue despertá-las do equilíbrio:
Seu sono-silêncio, seu sono-limite.
Os rios, embaixo caminham: estradas moventes
Com agitações de animal, às vezes mansas
às vezes selvagens
Caminham, escadas rolantes sempre descendo;
Colubreiam, coleiam...
As pontes são partes da estrada, são apertos de mãos
Que transportam de um lado para outro lado
— São São Cristóvão de cimento e ferro.
Mãos de duros nervos, de veias metálicas
Onde corre um sangue de quase eterna
Origem; são pulsos que vibram
No mesmo ritmo das estradas
No mesmo ritmo dos que passam
— Talvez, como eu, nunca para mais passar...
As estradas são cordas de um instrumento
Vibrando à passagem dos motores,
Deixando no ar nova música
Onde há ritmos de horizontes
margeantes
Entre os sons das árvores marginantes.
Os rios às vezes se revoltam
Reúnem todas as suas águas
E investem sobre as pontes-algemas
Contra as estradas — muralhas de cárcere —
E se espalham felizes na planície
Em inundações gloriosas.
Imagem - 00100003
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.181-182. Poema integrante da série Mundos Paralelos.
NOTA: Poema composto de 2 parte
1 449
Raul Pompéia
As Greves
Depois, não carecemos de culpas reprováveis para ter a agitação popular no Rio de Janeiro. Aí estão as grèves.
Supunha-se que era privilégio das populações operárias da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital fluminense.
É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que, longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las diante daquelas contra quem representam.
Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.
A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando, entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de azedume.
Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem, folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.
E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência é profícua; e adiar é instituir a reclamação perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.
Reparem bem no que é a grève.
A grève é a transformação moderna da guerra.
Ë mais do que a transformação: é a própria guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa das forças da natureza, a celebrada força da inércia. Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem, por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas, a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais morreria paralítico.
Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro uma aurora evidente de paz.
Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar. Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo... como diremos? arma de guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios de tática que a guerra é principalmente a mobilização, recorreu-se ao princípio contrário da imobilização, para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio da hostilidade é atacar; o novo princípio é não atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico — Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau; com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes pior.
Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação lhes pode reservar a teoria da resistência.
Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana, ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das absurdas coações brutais e mortíferas.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 17 ago. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 87-88
Supunha-se que era privilégio das populações operárias da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital fluminense.
É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que, longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las diante daquelas contra quem representam.
Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.
A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando, entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de azedume.
Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem, folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.
E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência é profícua; e adiar é instituir a reclamação perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.
Reparem bem no que é a grève.
A grève é a transformação moderna da guerra.
Ë mais do que a transformação: é a própria guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa das forças da natureza, a celebrada força da inércia. Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem, por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas, a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais morreria paralítico.
Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro uma aurora evidente de paz.
Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar. Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo... como diremos? arma de guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios de tática que a guerra é principalmente a mobilização, recorreu-se ao princípio contrário da imobilização, para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio da hostilidade é atacar; o novo princípio é não atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico — Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau; com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes pior.
Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação lhes pode reservar a teoria da resistência.
Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana, ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das absurdas coações brutais e mortíferas.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 17 ago. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 87-88
1 813
Raul Pompéia
As Greves
Depois, não carecemos de culpas reprováveis para ter a agitação popular no Rio de Janeiro. Aí estão as grèves.
Supunha-se que era privilégio das populações operárias da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital fluminense.
É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que, longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las diante daquelas contra quem representam.
Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.
A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando, entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de azedume.
Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem, folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.
E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência é profícua; e adiar é instituir a reclamação perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.
Reparem bem no que é a grève.
A grève é a transformação moderna da guerra.
Ë mais do que a transformação: é a própria guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa das forças da natureza, a celebrada força da inércia. Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem, por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas, a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais morreria paralítico.
Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro uma aurora evidente de paz.
Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar. Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo... como diremos? arma de guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios de tática que a guerra é principalmente a mobilização, recorreu-se ao princípio contrário da imobilização, para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio da hostilidade é atacar; o novo princípio é não atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico — Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau; com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes pior.
Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação lhes pode reservar a teoria da resistência.
Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana, ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das absurdas coações brutais e mortíferas.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 17 ago. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 87-88
Supunha-se que era privilégio das populações operárias da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital fluminense.
É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que, longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las diante daquelas contra quem representam.
Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.
A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando, entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de azedume.
Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem, folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.
E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência é profícua; e adiar é instituir a reclamação perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.
Reparem bem no que é a grève.
A grève é a transformação moderna da guerra.
Ë mais do que a transformação: é a própria guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa das forças da natureza, a celebrada força da inércia. Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem, por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas, a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais morreria paralítico.
Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro uma aurora evidente de paz.
Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar. Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo... como diremos? arma de guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios de tática que a guerra é principalmente a mobilização, recorreu-se ao princípio contrário da imobilização, para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio da hostilidade é atacar; o novo princípio é não atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico — Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau; com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes pior.
Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação lhes pode reservar a teoria da resistência.
Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana, ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das absurdas coações brutais e mortíferas.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 17 ago. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 87-88
1 813
Raul Pompéia
As Greves
Depois, não carecemos de culpas reprováveis para ter a agitação popular no Rio de Janeiro. Aí estão as grèves.
Supunha-se que era privilégio das populações operárias da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital fluminense.
É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que, longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las diante daquelas contra quem representam.
Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.
A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando, entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de azedume.
Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem, folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.
E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência é profícua; e adiar é instituir a reclamação perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.
Reparem bem no que é a grève.
A grève é a transformação moderna da guerra.
Ë mais do que a transformação: é a própria guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa das forças da natureza, a celebrada força da inércia. Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem, por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas, a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais morreria paralítico.
Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro uma aurora evidente de paz.
Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar. Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo... como diremos? arma de guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios de tática que a guerra é principalmente a mobilização, recorreu-se ao princípio contrário da imobilização, para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio da hostilidade é atacar; o novo princípio é não atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico — Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau; com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes pior.
Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação lhes pode reservar a teoria da resistência.
Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana, ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das absurdas coações brutais e mortíferas.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 17 ago. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 87-88
Supunha-se que era privilégio das populações operárias da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital fluminense.
É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que, longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las diante daquelas contra quem representam.
Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.
A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando, entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de azedume.
Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem, folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.
E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência é profícua; e adiar é instituir a reclamação perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.
Reparem bem no que é a grève.
A grève é a transformação moderna da guerra.
Ë mais do que a transformação: é a própria guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa das forças da natureza, a celebrada força da inércia. Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem, por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas, a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais morreria paralítico.
Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro uma aurora evidente de paz.
Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar. Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo... como diremos? arma de guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios de tática que a guerra é principalmente a mobilização, recorreu-se ao princípio contrário da imobilização, para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio da hostilidade é atacar; o novo princípio é não atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico — Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau; com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes pior.
Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação lhes pode reservar a teoria da resistência.
Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana, ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das absurdas coações brutais e mortíferas.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 17 ago. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 87-88
1 813
Bruno de Menezes
Os Esponsais das Icamiabas - Lenda Amazônica, 1952
Vai ser a Grande Noite...
No lago Jaci-uaruá,
a lua reflete sortilégios de esplendor,
que, para as Icamiabas, é um rito de amor...
Quando a hora chegar
de seus breves esponsais,
querem estar purificadas
e serem desposadas
no mistério da selva,
enquanto a Lua brilhar...
Mergulhando os corpos ágeis,
de amorosas guerreiras,
no capitoso banho lustral,
que a "Mãe das Pedras Verdes"
lhes traga do seio das águas
os símbolos nupciais
no adeus do ante-manhã...
Lendários esponsais...
O esposo de uma noite irá voltar...
E, para que em seus anelos,
lembrança desse amor possa guardar,
num longo trancelim de seus cabelos,
a esposa Icamiaba dá-lhe o Muiraquitã...
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.495. (Lendo o Pará, 14
No lago Jaci-uaruá,
a lua reflete sortilégios de esplendor,
que, para as Icamiabas, é um rito de amor...
Quando a hora chegar
de seus breves esponsais,
querem estar purificadas
e serem desposadas
no mistério da selva,
enquanto a Lua brilhar...
Mergulhando os corpos ágeis,
de amorosas guerreiras,
no capitoso banho lustral,
que a "Mãe das Pedras Verdes"
lhes traga do seio das águas
os símbolos nupciais
no adeus do ante-manhã...
Lendários esponsais...
O esposo de uma noite irá voltar...
E, para que em seus anelos,
lembrança desse amor possa guardar,
num longo trancelim de seus cabelos,
a esposa Icamiaba dá-lhe o Muiraquitã...
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.495. (Lendo o Pará, 14
3 332
Carlos Frydman
Asfalto
Quando andares cabisbaixo
com a carga de um dia... de dois dias...
de não sei quantos dias...
ou com a carga de uma vida,
vê o asfalto como fala
e compartilha...
Fala claro seu negrume
calado, mas premente,
de ecléticos vestígios
passados e presentes,
civilizados e degradantes,
rolando ao vento,
deleitando os fatalistas,
os retardatários e fatigados,
os impelidos, os submissos e os contrafeitos
pelo impacto compacto;
enquanto,
ao mesmo compasso
descompassado do tempo,
nas mesmas ruas
com itinerários diferentes,
marcham seres em seus caminhos,
amando, acreditando,
na escolha emaranhada
de seus destinos,
embora para todos
o asfalto é negro,
submisso e prestadio.
Quando tiveres sede de paisagens
e te faltar a gênese do horizonte,
especialmente num dia chuvoso,
vê como o asfalto apanha e enriquece
os sensacionalistas clarões dos fosforescentes,
e faz numa só sequência
um guache trêmulo, refletido,
deixando as lágrimas da chuva
arrastarem a lama;
e a vida prevalece
em seu elaborado destino.
Solidão... vazio...
quanta esperança... quanto estio
em teu negrume
— asfalto amigo,
que Mário soube tragar
da "Paulicéia Desvairada"
e onde muito me apaixonei.
(...)
Minha Paulicéia novaiorquina, moscovita,
plagiadora londrina,
colmeia universal,
expressão nítida do advento,
rosário de alegria e de luto,
que me fizeste amante
e companheiro consequente.
Asfalto,
amo tua noite onde rondam
desolações e aconchegos
em teu negro seio.
Incansavelmente te perpassam
mágoas na agitação afogadas,
multidões nostálgicas,
alegrias ilusórias em correntezas diluídas,
homens cavalgando semelhantes
e calafetados contra a verdade;
e homens destemidos no prisma da esperança,
mesmo quando a bruma
parece fechar o caminho em cada esquina.
(...)
Imagem - 00700004
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
com a carga de um dia... de dois dias...
de não sei quantos dias...
ou com a carga de uma vida,
vê o asfalto como fala
e compartilha...
Fala claro seu negrume
calado, mas premente,
de ecléticos vestígios
passados e presentes,
civilizados e degradantes,
rolando ao vento,
deleitando os fatalistas,
os retardatários e fatigados,
os impelidos, os submissos e os contrafeitos
pelo impacto compacto;
enquanto,
ao mesmo compasso
descompassado do tempo,
nas mesmas ruas
com itinerários diferentes,
marcham seres em seus caminhos,
amando, acreditando,
na escolha emaranhada
de seus destinos,
embora para todos
o asfalto é negro,
submisso e prestadio.
Quando tiveres sede de paisagens
e te faltar a gênese do horizonte,
especialmente num dia chuvoso,
vê como o asfalto apanha e enriquece
os sensacionalistas clarões dos fosforescentes,
e faz numa só sequência
um guache trêmulo, refletido,
deixando as lágrimas da chuva
arrastarem a lama;
e a vida prevalece
em seu elaborado destino.
Solidão... vazio...
quanta esperança... quanto estio
em teu negrume
— asfalto amigo,
que Mário soube tragar
da "Paulicéia Desvairada"
e onde muito me apaixonei.
(...)
Minha Paulicéia novaiorquina, moscovita,
plagiadora londrina,
colmeia universal,
expressão nítida do advento,
rosário de alegria e de luto,
que me fizeste amante
e companheiro consequente.
Asfalto,
amo tua noite onde rondam
desolações e aconchegos
em teu negro seio.
Incansavelmente te perpassam
mágoas na agitação afogadas,
multidões nostálgicas,
alegrias ilusórias em correntezas diluídas,
homens cavalgando semelhantes
e calafetados contra a verdade;
e homens destemidos no prisma da esperança,
mesmo quando a bruma
parece fechar o caminho em cada esquina.
(...)
Imagem - 00700004
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 054
Raul Pompéia
Viação Urbana
Sem sair do assunto de viação urbana.
Os carros do Rio de Janeiro fazem a sua vida e a sua sociedade a par da população humana, infelizmente algumas vezes por cima dela; uma vida interessante cheia de episódios, de animação, de variedade.
Os veículos têm o seu caráter e vive cada um a seu modo; uns são aristocráticos, outros são plebeus; uns são ativos, outros são lerdos; há ricos e pobres, modestos e arrogantes, honrados e perversos. Têm suas paixões: o caminhão odeia o bond, o bond odeia a vitória. Brigam freqüentemente, sempre tal qual a sociedade dos homens, o mais forte, mesmo o mais injusto, tomando-lhe o lugar, ou esmagando o mais fraco. Através dessas intrigas rodantes, passa a honrada carroça, séria, com a sua carga de granito talhado a balançar de cadeias de ferro, rude e válida como o trabalho. Ninguém lhe toque, ela vai séria e grave o seu caminho: O bond bate-lhe tanto pior: perde a plataforma. O landau brazonado roça-lhe insolente, com o pára-lama mete-lhe a lanterna à cara: perde o pára-lama, perde a lanterna.
Fora da intriga geral, passa também o carrinho do pão, madrugador e ativo, como que a gritar com o estrépito das rodas que a atividade é que dá o pão; passa o tílburi leviano e célere, salvando-se da sua fraqueza pela celeridade, como os veados esquivando-se, fugindo, passando sempre adiante; esperto como um bom arranjador da vida, furtando aqui e ali um pouco de trilho ao bond, como a mostrar que a esperteza e a consciência não são geralmente predicadas complementares. Mas o que mais interessa da vida dos veículos é a hipótese referida em que eles, que fazem a vida ao lado da vida da população humana, dão muita vez para fazê-la por cima. ..
Mais interessante porque mais gravemente nos afeta, e porque é um ponto de discussão.
É a questão da responsabilidade dos cocheiros.
Ainda esta semana, no Campo da Aclamação, deu-se um horrível desastre. A vítima foi uma mulher. Contundida por um carro da Companhia de São Cristóvão, teve o coração varado por um fragmento das costelas, que se lhe quebraram com a pancada do veículo, e sucumbiu imediatamente. A crônica dos desastres de rua nesta cidade exagera-se, salvas as proporções, sobre qualquer estatística congênere dos centros mais populosos, registrando todos os dias tristes incidentes resultados da imprudência dos cocheiros.
Reclamam-se providências, inventam-se e adotam-se salva-vidas, mas a epidemia dos sinistros de rua não cessa.
Indagando-se as causas de semelhante mal, considerando que já se tem atendido a alguma coisa a esse respeito e o mal não decresce, pode-se com quase certeza o descobrir-lhe a principal origem na impunidade dos cocheiros.
Glosando o tema da imprudência dos transeuntes, a imprensa tem concorrido para esse regime de injustiça que a favorece aos culpados dos sinistros de rua, com revoltante violação do princípio da segurança pública.
O transeunte, dizem, tem obrigação de ver por onde passa, de ser atento e prudente. Porventura entenderá quem assim diz, que os conselheiros gratuitos têm mais interesse em que um desastre não se dê do que quem pode ser vítima dele? E a atenção porventura é coisa que imponha como um dever? E não é patente que aquele que segue, preocupado com os seus graves negócios, absorvido por qualquer preocupação de sentimento ou de interesse, tem direito a que a sociedade vele por ele, proteja-lhe os imprudentes descuidos da sua preocupação.
Porventura poupa ele despesas de segurança, pagas pelos impostos que o estado a seu favor aplica e aproveita?
Ao condutor de um veículo, entretanto, que é remunerado para estar atento, que faz profissão da sua habilidade em guiar, livre de solavancos e desvios, o seu carro, inocenta-se, a pretexto de que o público deve ter cuidado em não se meter embaixo das rodas.
A respeito disto de prudência do transeunte, é de notar que as vítimas dos desastres de rua produzido pelos veículos são em maior número mulheres e crianças, exatamente criaturas às quais chega a assistir o direito da imprudência.
A opinião seria outra, se para a crítica desta espécie de crimes desculpados, cuja arma é o peso de uma carruagem, se recordasse um costume, apenas, dos cocheiros, o que eles têm de "espantar" para abrir caminho ao seu carro, de espantar precipitando a carreira dos seus animais sobre o transeunte que lhe passa um tanto demorado por diante das parelhas.
Assustado efetivamente o pobre, muitas vezes uma velha, um mendigo, um miserável semi-ébrio, ameaçado literalmente de morte, escapa-se o mais depressa que pode e o desastre às vezes se evita. Não seria, contudo, muito mais natural que os cocheiros procedessem por outra manobra, refreando a carreira do seu carro, estacando o belo galope de seus cavalos, e esperando, com a paciência de quem faz por salvar a vida de um homem, que se lhe tenha desfeito em caminho toda a probabilidade do mais horrível homicídio?
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 jun. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 2. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 6. p. 365-366
Os carros do Rio de Janeiro fazem a sua vida e a sua sociedade a par da população humana, infelizmente algumas vezes por cima dela; uma vida interessante cheia de episódios, de animação, de variedade.
Os veículos têm o seu caráter e vive cada um a seu modo; uns são aristocráticos, outros são plebeus; uns são ativos, outros são lerdos; há ricos e pobres, modestos e arrogantes, honrados e perversos. Têm suas paixões: o caminhão odeia o bond, o bond odeia a vitória. Brigam freqüentemente, sempre tal qual a sociedade dos homens, o mais forte, mesmo o mais injusto, tomando-lhe o lugar, ou esmagando o mais fraco. Através dessas intrigas rodantes, passa a honrada carroça, séria, com a sua carga de granito talhado a balançar de cadeias de ferro, rude e válida como o trabalho. Ninguém lhe toque, ela vai séria e grave o seu caminho: O bond bate-lhe tanto pior: perde a plataforma. O landau brazonado roça-lhe insolente, com o pára-lama mete-lhe a lanterna à cara: perde o pára-lama, perde a lanterna.
Fora da intriga geral, passa também o carrinho do pão, madrugador e ativo, como que a gritar com o estrépito das rodas que a atividade é que dá o pão; passa o tílburi leviano e célere, salvando-se da sua fraqueza pela celeridade, como os veados esquivando-se, fugindo, passando sempre adiante; esperto como um bom arranjador da vida, furtando aqui e ali um pouco de trilho ao bond, como a mostrar que a esperteza e a consciência não são geralmente predicadas complementares. Mas o que mais interessa da vida dos veículos é a hipótese referida em que eles, que fazem a vida ao lado da vida da população humana, dão muita vez para fazê-la por cima. ..
Mais interessante porque mais gravemente nos afeta, e porque é um ponto de discussão.
É a questão da responsabilidade dos cocheiros.
Ainda esta semana, no Campo da Aclamação, deu-se um horrível desastre. A vítima foi uma mulher. Contundida por um carro da Companhia de São Cristóvão, teve o coração varado por um fragmento das costelas, que se lhe quebraram com a pancada do veículo, e sucumbiu imediatamente. A crônica dos desastres de rua nesta cidade exagera-se, salvas as proporções, sobre qualquer estatística congênere dos centros mais populosos, registrando todos os dias tristes incidentes resultados da imprudência dos cocheiros.
Reclamam-se providências, inventam-se e adotam-se salva-vidas, mas a epidemia dos sinistros de rua não cessa.
Indagando-se as causas de semelhante mal, considerando que já se tem atendido a alguma coisa a esse respeito e o mal não decresce, pode-se com quase certeza o descobrir-lhe a principal origem na impunidade dos cocheiros.
Glosando o tema da imprudência dos transeuntes, a imprensa tem concorrido para esse regime de injustiça que a favorece aos culpados dos sinistros de rua, com revoltante violação do princípio da segurança pública.
O transeunte, dizem, tem obrigação de ver por onde passa, de ser atento e prudente. Porventura entenderá quem assim diz, que os conselheiros gratuitos têm mais interesse em que um desastre não se dê do que quem pode ser vítima dele? E a atenção porventura é coisa que imponha como um dever? E não é patente que aquele que segue, preocupado com os seus graves negócios, absorvido por qualquer preocupação de sentimento ou de interesse, tem direito a que a sociedade vele por ele, proteja-lhe os imprudentes descuidos da sua preocupação.
Porventura poupa ele despesas de segurança, pagas pelos impostos que o estado a seu favor aplica e aproveita?
Ao condutor de um veículo, entretanto, que é remunerado para estar atento, que faz profissão da sua habilidade em guiar, livre de solavancos e desvios, o seu carro, inocenta-se, a pretexto de que o público deve ter cuidado em não se meter embaixo das rodas.
A respeito disto de prudência do transeunte, é de notar que as vítimas dos desastres de rua produzido pelos veículos são em maior número mulheres e crianças, exatamente criaturas às quais chega a assistir o direito da imprudência.
A opinião seria outra, se para a crítica desta espécie de crimes desculpados, cuja arma é o peso de uma carruagem, se recordasse um costume, apenas, dos cocheiros, o que eles têm de "espantar" para abrir caminho ao seu carro, de espantar precipitando a carreira dos seus animais sobre o transeunte que lhe passa um tanto demorado por diante das parelhas.
Assustado efetivamente o pobre, muitas vezes uma velha, um mendigo, um miserável semi-ébrio, ameaçado literalmente de morte, escapa-se o mais depressa que pode e o desastre às vezes se evita. Não seria, contudo, muito mais natural que os cocheiros procedessem por outra manobra, refreando a carreira do seu carro, estacando o belo galope de seus cavalos, e esperando, com a paciência de quem faz por salvar a vida de um homem, que se lhe tenha desfeito em caminho toda a probabilidade do mais horrível homicídio?
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 jun. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 2. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 6. p. 365-366
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Raul Pompéia
Viação Urbana
Sem sair do assunto de viação urbana.
Os carros do Rio de Janeiro fazem a sua vida e a sua sociedade a par da população humana, infelizmente algumas vezes por cima dela; uma vida interessante cheia de episódios, de animação, de variedade.
Os veículos têm o seu caráter e vive cada um a seu modo; uns são aristocráticos, outros são plebeus; uns são ativos, outros são lerdos; há ricos e pobres, modestos e arrogantes, honrados e perversos. Têm suas paixões: o caminhão odeia o bond, o bond odeia a vitória. Brigam freqüentemente, sempre tal qual a sociedade dos homens, o mais forte, mesmo o mais injusto, tomando-lhe o lugar, ou esmagando o mais fraco. Através dessas intrigas rodantes, passa a honrada carroça, séria, com a sua carga de granito talhado a balançar de cadeias de ferro, rude e válida como o trabalho. Ninguém lhe toque, ela vai séria e grave o seu caminho: O bond bate-lhe tanto pior: perde a plataforma. O landau brazonado roça-lhe insolente, com o pára-lama mete-lhe a lanterna à cara: perde o pára-lama, perde a lanterna.
Fora da intriga geral, passa também o carrinho do pão, madrugador e ativo, como que a gritar com o estrépito das rodas que a atividade é que dá o pão; passa o tílburi leviano e célere, salvando-se da sua fraqueza pela celeridade, como os veados esquivando-se, fugindo, passando sempre adiante; esperto como um bom arranjador da vida, furtando aqui e ali um pouco de trilho ao bond, como a mostrar que a esperteza e a consciência não são geralmente predicadas complementares. Mas o que mais interessa da vida dos veículos é a hipótese referida em que eles, que fazem a vida ao lado da vida da população humana, dão muita vez para fazê-la por cima. ..
Mais interessante porque mais gravemente nos afeta, e porque é um ponto de discussão.
É a questão da responsabilidade dos cocheiros.
Ainda esta semana, no Campo da Aclamação, deu-se um horrível desastre. A vítima foi uma mulher. Contundida por um carro da Companhia de São Cristóvão, teve o coração varado por um fragmento das costelas, que se lhe quebraram com a pancada do veículo, e sucumbiu imediatamente. A crônica dos desastres de rua nesta cidade exagera-se, salvas as proporções, sobre qualquer estatística congênere dos centros mais populosos, registrando todos os dias tristes incidentes resultados da imprudência dos cocheiros.
Reclamam-se providências, inventam-se e adotam-se salva-vidas, mas a epidemia dos sinistros de rua não cessa.
Indagando-se as causas de semelhante mal, considerando que já se tem atendido a alguma coisa a esse respeito e o mal não decresce, pode-se com quase certeza o descobrir-lhe a principal origem na impunidade dos cocheiros.
Glosando o tema da imprudência dos transeuntes, a imprensa tem concorrido para esse regime de injustiça que a favorece aos culpados dos sinistros de rua, com revoltante violação do princípio da segurança pública.
O transeunte, dizem, tem obrigação de ver por onde passa, de ser atento e prudente. Porventura entenderá quem assim diz, que os conselheiros gratuitos têm mais interesse em que um desastre não se dê do que quem pode ser vítima dele? E a atenção porventura é coisa que imponha como um dever? E não é patente que aquele que segue, preocupado com os seus graves negócios, absorvido por qualquer preocupação de sentimento ou de interesse, tem direito a que a sociedade vele por ele, proteja-lhe os imprudentes descuidos da sua preocupação.
Porventura poupa ele despesas de segurança, pagas pelos impostos que o estado a seu favor aplica e aproveita?
Ao condutor de um veículo, entretanto, que é remunerado para estar atento, que faz profissão da sua habilidade em guiar, livre de solavancos e desvios, o seu carro, inocenta-se, a pretexto de que o público deve ter cuidado em não se meter embaixo das rodas.
A respeito disto de prudência do transeunte, é de notar que as vítimas dos desastres de rua produzido pelos veículos são em maior número mulheres e crianças, exatamente criaturas às quais chega a assistir o direito da imprudência.
A opinião seria outra, se para a crítica desta espécie de crimes desculpados, cuja arma é o peso de uma carruagem, se recordasse um costume, apenas, dos cocheiros, o que eles têm de "espantar" para abrir caminho ao seu carro, de espantar precipitando a carreira dos seus animais sobre o transeunte que lhe passa um tanto demorado por diante das parelhas.
Assustado efetivamente o pobre, muitas vezes uma velha, um mendigo, um miserável semi-ébrio, ameaçado literalmente de morte, escapa-se o mais depressa que pode e o desastre às vezes se evita. Não seria, contudo, muito mais natural que os cocheiros procedessem por outra manobra, refreando a carreira do seu carro, estacando o belo galope de seus cavalos, e esperando, com a paciência de quem faz por salvar a vida de um homem, que se lhe tenha desfeito em caminho toda a probabilidade do mais horrível homicídio?
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 jun. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 2. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 6. p. 365-366
Os carros do Rio de Janeiro fazem a sua vida e a sua sociedade a par da população humana, infelizmente algumas vezes por cima dela; uma vida interessante cheia de episódios, de animação, de variedade.
Os veículos têm o seu caráter e vive cada um a seu modo; uns são aristocráticos, outros são plebeus; uns são ativos, outros são lerdos; há ricos e pobres, modestos e arrogantes, honrados e perversos. Têm suas paixões: o caminhão odeia o bond, o bond odeia a vitória. Brigam freqüentemente, sempre tal qual a sociedade dos homens, o mais forte, mesmo o mais injusto, tomando-lhe o lugar, ou esmagando o mais fraco. Através dessas intrigas rodantes, passa a honrada carroça, séria, com a sua carga de granito talhado a balançar de cadeias de ferro, rude e válida como o trabalho. Ninguém lhe toque, ela vai séria e grave o seu caminho: O bond bate-lhe tanto pior: perde a plataforma. O landau brazonado roça-lhe insolente, com o pára-lama mete-lhe a lanterna à cara: perde o pára-lama, perde a lanterna.
Fora da intriga geral, passa também o carrinho do pão, madrugador e ativo, como que a gritar com o estrépito das rodas que a atividade é que dá o pão; passa o tílburi leviano e célere, salvando-se da sua fraqueza pela celeridade, como os veados esquivando-se, fugindo, passando sempre adiante; esperto como um bom arranjador da vida, furtando aqui e ali um pouco de trilho ao bond, como a mostrar que a esperteza e a consciência não são geralmente predicadas complementares. Mas o que mais interessa da vida dos veículos é a hipótese referida em que eles, que fazem a vida ao lado da vida da população humana, dão muita vez para fazê-la por cima. ..
Mais interessante porque mais gravemente nos afeta, e porque é um ponto de discussão.
É a questão da responsabilidade dos cocheiros.
Ainda esta semana, no Campo da Aclamação, deu-se um horrível desastre. A vítima foi uma mulher. Contundida por um carro da Companhia de São Cristóvão, teve o coração varado por um fragmento das costelas, que se lhe quebraram com a pancada do veículo, e sucumbiu imediatamente. A crônica dos desastres de rua nesta cidade exagera-se, salvas as proporções, sobre qualquer estatística congênere dos centros mais populosos, registrando todos os dias tristes incidentes resultados da imprudência dos cocheiros.
Reclamam-se providências, inventam-se e adotam-se salva-vidas, mas a epidemia dos sinistros de rua não cessa.
Indagando-se as causas de semelhante mal, considerando que já se tem atendido a alguma coisa a esse respeito e o mal não decresce, pode-se com quase certeza o descobrir-lhe a principal origem na impunidade dos cocheiros.
Glosando o tema da imprudência dos transeuntes, a imprensa tem concorrido para esse regime de injustiça que a favorece aos culpados dos sinistros de rua, com revoltante violação do princípio da segurança pública.
O transeunte, dizem, tem obrigação de ver por onde passa, de ser atento e prudente. Porventura entenderá quem assim diz, que os conselheiros gratuitos têm mais interesse em que um desastre não se dê do que quem pode ser vítima dele? E a atenção porventura é coisa que imponha como um dever? E não é patente que aquele que segue, preocupado com os seus graves negócios, absorvido por qualquer preocupação de sentimento ou de interesse, tem direito a que a sociedade vele por ele, proteja-lhe os imprudentes descuidos da sua preocupação.
Porventura poupa ele despesas de segurança, pagas pelos impostos que o estado a seu favor aplica e aproveita?
Ao condutor de um veículo, entretanto, que é remunerado para estar atento, que faz profissão da sua habilidade em guiar, livre de solavancos e desvios, o seu carro, inocenta-se, a pretexto de que o público deve ter cuidado em não se meter embaixo das rodas.
A respeito disto de prudência do transeunte, é de notar que as vítimas dos desastres de rua produzido pelos veículos são em maior número mulheres e crianças, exatamente criaturas às quais chega a assistir o direito da imprudência.
A opinião seria outra, se para a crítica desta espécie de crimes desculpados, cuja arma é o peso de uma carruagem, se recordasse um costume, apenas, dos cocheiros, o que eles têm de "espantar" para abrir caminho ao seu carro, de espantar precipitando a carreira dos seus animais sobre o transeunte que lhe passa um tanto demorado por diante das parelhas.
Assustado efetivamente o pobre, muitas vezes uma velha, um mendigo, um miserável semi-ébrio, ameaçado literalmente de morte, escapa-se o mais depressa que pode e o desastre às vezes se evita. Não seria, contudo, muito mais natural que os cocheiros procedessem por outra manobra, refreando a carreira do seu carro, estacando o belo galope de seus cavalos, e esperando, com a paciência de quem faz por salvar a vida de um homem, que se lhe tenha desfeito em caminho toda a probabilidade do mais horrível homicídio?
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 jun. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 2. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 6. p. 365-366
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