Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Odylo Costa Filho
São Roque e os Cachorros
Caminhou São Roque
a pé, pelos morros
e várzeas da Terra,
juntando os cachorros
já velhos ou doentes,
sem osso e sem lar,
para oferecer-lhes
um grande jantar.
São Pedro zangou-se:
— "Isso não se faz!
Jantar de cachorro
no Céu? É demais!"
Jesus disse: — "Roque
é quem tem razão."
Pedro riu-se, e logo
deu-lhes vinho e pão.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
a pé, pelos morros
e várzeas da Terra,
juntando os cachorros
já velhos ou doentes,
sem osso e sem lar,
para oferecer-lhes
um grande jantar.
São Pedro zangou-se:
— "Isso não se faz!
Jantar de cachorro
no Céu? É demais!"
Jesus disse: — "Roque
é quem tem razão."
Pedro riu-se, e logo
deu-lhes vinho e pão.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
1 386
Régis Bonvicino
Dias em Seguida
estoit il lors temps de moy taire?
françois villon
vida — a que me convidas?
aos becos sem saída,
às noites mal dormidas,
à esperança perdida,
ao dano dos inseticidas,
à brasília podrida,
à fé de n. s. aparecida,
às idéias traídas,
às poesias reunidas,
às migalhas do rei midas,
às verdades não vividas,
aos dias em seguida?
vida — a que me condenas?
à retribuição das penas,
ao riso das hienas,
aos banqueiros da onzena,
ao assassino de viena,
à boa alma de mecenas,
ao remorso de madalena,
ao socorro da sirena,
ao torpor das cantilenas,
à calvície de melena,
ao destino das antenas,
a morrer apenas?
In: BONVICINO, Régis. 33 poemas. São Paulo: Iluminuras: Secretaria de Estado da Cultura, 1990.
NOTA: Publicado no Folhetim de 01 jan. 1988; Este poema foi escrito no dia do 88o. aniversário da Repúblic
françois villon
vida — a que me convidas?
aos becos sem saída,
às noites mal dormidas,
à esperança perdida,
ao dano dos inseticidas,
à brasília podrida,
à fé de n. s. aparecida,
às idéias traídas,
às poesias reunidas,
às migalhas do rei midas,
às verdades não vividas,
aos dias em seguida?
vida — a que me condenas?
à retribuição das penas,
ao riso das hienas,
aos banqueiros da onzena,
ao assassino de viena,
à boa alma de mecenas,
ao remorso de madalena,
ao socorro da sirena,
ao torpor das cantilenas,
à calvície de melena,
ao destino das antenas,
a morrer apenas?
In: BONVICINO, Régis. 33 poemas. São Paulo: Iluminuras: Secretaria de Estado da Cultura, 1990.
NOTA: Publicado no Folhetim de 01 jan. 1988; Este poema foi escrito no dia do 88o. aniversário da Repúblic
1 443
Frei Francisco de São Carlos
Soneto [Entre férreos grilhões preso, e seguro
Entre férreos grilhões preso, e seguro
Suspira o delinquente desvalido
Aguçando o punhal do seu gemido
A estreiteza cruel do cárcere escuro.
Sentistes bom Lorena, e o sangue puro
Que o peito vos inflama esclarecido
Determinou da mágoa condoído
Dar ao réu novo asilo, menos duro.
Remata-se a estrutura; e o triste passa
A sentir no pesar menor violência
E a lograr na prisão mais larga praça.
E para vossa glória alta Excelência
Beijando está nas aras da alegria
Os troféus que erigiu vossa clemência.
In: POETAS da Academia do Senado da Câmara de S. Paulo. Pref. Antônio Soares Amora. Notas Domingos Carvalho da Silva. São Paulo: Clube de Poesia, 1956. p.53-60. (Documentos, 3).
NOTA: Referência à cadeia mandada construir pelo governador Bernardo José de Loren
Suspira o delinquente desvalido
Aguçando o punhal do seu gemido
A estreiteza cruel do cárcere escuro.
Sentistes bom Lorena, e o sangue puro
Que o peito vos inflama esclarecido
Determinou da mágoa condoído
Dar ao réu novo asilo, menos duro.
Remata-se a estrutura; e o triste passa
A sentir no pesar menor violência
E a lograr na prisão mais larga praça.
E para vossa glória alta Excelência
Beijando está nas aras da alegria
Os troféus que erigiu vossa clemência.
In: POETAS da Academia do Senado da Câmara de S. Paulo. Pref. Antônio Soares Amora. Notas Domingos Carvalho da Silva. São Paulo: Clube de Poesia, 1956. p.53-60. (Documentos, 3).
NOTA: Referência à cadeia mandada construir pelo governador Bernardo José de Loren
1 255
Pedro Nava
Noturno de Chopin
Eu fico todo bestificado olhando a lua
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin
Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim...
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim...
Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.
Os olhos de você, amor...
O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor...)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin
Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim...
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim...
Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.
Os olhos de você, amor...
O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor...)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
1 570
Frei Francisco de São Carlos
Canto VIII [Trabalha a mole enfim: giram as rodas
(...)
Trabalha a mole enfim: giram as rodas,
Gemem com grão fragor as peças todas:
Cai com ruído a água, que se encana:
Volteia o rolo, estala a doce cana:
Ferve a gente, parece uma anarquia:
Mas toda esta moção causa alegria.
Na grão fornalha já se a flama agita,
Cuja boca do Averno à boca imita.
E nos vasos enormes borbulhando
Ferve o nectáreo sumo, evaporando
Grato aroma sutil, e tão ingente,
Que perfuma dos campos o ambiente.
Corre o áureo licor, qual o tesoiro
Melífluo, que correu na idade d'oiro
Das colméias na terra, e açucarado,
Ou em níveos pedaços coagulado,
E no rico déser, festim altivo,
Em várias confeições grato incentivo.
Soam longe as agrestes cantilenas
Nas madrugadas mortas, e serenas.
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.24
Trabalha a mole enfim: giram as rodas,
Gemem com grão fragor as peças todas:
Cai com ruído a água, que se encana:
Volteia o rolo, estala a doce cana:
Ferve a gente, parece uma anarquia:
Mas toda esta moção causa alegria.
Na grão fornalha já se a flama agita,
Cuja boca do Averno à boca imita.
E nos vasos enormes borbulhando
Ferve o nectáreo sumo, evaporando
Grato aroma sutil, e tão ingente,
Que perfuma dos campos o ambiente.
Corre o áureo licor, qual o tesoiro
Melífluo, que correu na idade d'oiro
Das colméias na terra, e açucarado,
Ou em níveos pedaços coagulado,
E no rico déser, festim altivo,
Em várias confeições grato incentivo.
Soam longe as agrestes cantilenas
Nas madrugadas mortas, e serenas.
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.24
1 182
Frei Francisco de São Carlos
Canto VIII [Trabalha a mole enfim: giram as rodas
(...)
Trabalha a mole enfim: giram as rodas,
Gemem com grão fragor as peças todas:
Cai com ruído a água, que se encana:
Volteia o rolo, estala a doce cana:
Ferve a gente, parece uma anarquia:
Mas toda esta moção causa alegria.
Na grão fornalha já se a flama agita,
Cuja boca do Averno à boca imita.
E nos vasos enormes borbulhando
Ferve o nectáreo sumo, evaporando
Grato aroma sutil, e tão ingente,
Que perfuma dos campos o ambiente.
Corre o áureo licor, qual o tesoiro
Melífluo, que correu na idade d'oiro
Das colméias na terra, e açucarado,
Ou em níveos pedaços coagulado,
E no rico déser, festim altivo,
Em várias confeições grato incentivo.
Soam longe as agrestes cantilenas
Nas madrugadas mortas, e serenas.
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.24
Trabalha a mole enfim: giram as rodas,
Gemem com grão fragor as peças todas:
Cai com ruído a água, que se encana:
Volteia o rolo, estala a doce cana:
Ferve a gente, parece uma anarquia:
Mas toda esta moção causa alegria.
Na grão fornalha já se a flama agita,
Cuja boca do Averno à boca imita.
E nos vasos enormes borbulhando
Ferve o nectáreo sumo, evaporando
Grato aroma sutil, e tão ingente,
Que perfuma dos campos o ambiente.
Corre o áureo licor, qual o tesoiro
Melífluo, que correu na idade d'oiro
Das colméias na terra, e açucarado,
Ou em níveos pedaços coagulado,
E no rico déser, festim altivo,
Em várias confeições grato incentivo.
Soam longe as agrestes cantilenas
Nas madrugadas mortas, e serenas.
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.24
1 182
Capinan
Canção de Minha Descoberta
Eis-me resignado.
Fugi de tudo que fui
E pelo caminho de minha renúncia
Venho buscar banceiras novas.
Agora persigo a palavra nova
Por eles que esperam com o coração amargo
E o grito dentro do coração.
Não poderei aceitar o silêncio
E ficar em paz com a morte dos desgraçados
Caídos sem voz em nossa porta.
As crianças minhas morreram todas.
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
Agitados de dor pela mão dos homens.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 8
Fugi de tudo que fui
E pelo caminho de minha renúncia
Venho buscar banceiras novas.
Agora persigo a palavra nova
Por eles que esperam com o coração amargo
E o grito dentro do coração.
Não poderei aceitar o silêncio
E ficar em paz com a morte dos desgraçados
Caídos sem voz em nossa porta.
As crianças minhas morreram todas.
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
Agitados de dor pela mão dos homens.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 8
1 235
Pedro Nava
Noite de São João
A Mário de Andrade
São João São João
o sol quebrando em mil pedaços
caiu na terra
mil fogueiras pondo na noite
chios
e chispas
fiáus
e rechinos
Noite de São Joões-balões
noite cheia de fogueiras
e vem-cá-bitus
Noite lanhada de fogo
noite cristã
como sacis unhando panças pretas
cachimbando na barriga dos balões
saltitando no fogo vivo dos tições
Noite de buscapé
(do buscapé-pé-PÉ
que corre tanto
e como tonto
volta
e vira
em viravoltas rentes raspando o chão)
e o vento agudo
e uma navalha zás-trás
recortando bandeiras em tiras
em faixas finas
serpentes serpentinas
(um novelo assanhado de serpentes
acorda nas fogueiras
e elas se espicham tesas
e suas línguas acesas
lambem as folhas frescas
largas langues das bananeiras)
São João São João
e o frio tão frio
que a própria lua nua tem frio
e devagar a vagarosa
escorrega pelos cipós
e se esgueira
na pontinha dos pés
— Psiu!
pra quentar na minha fogueira
São João São João
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
São João São João
o sol quebrando em mil pedaços
caiu na terra
mil fogueiras pondo na noite
chios
e chispas
fiáus
e rechinos
Noite de São Joões-balões
noite cheia de fogueiras
e vem-cá-bitus
Noite lanhada de fogo
noite cristã
como sacis unhando panças pretas
cachimbando na barriga dos balões
saltitando no fogo vivo dos tições
Noite de buscapé
(do buscapé-pé-PÉ
que corre tanto
e como tonto
volta
e vira
em viravoltas rentes raspando o chão)
e o vento agudo
e uma navalha zás-trás
recortando bandeiras em tiras
em faixas finas
serpentes serpentinas
(um novelo assanhado de serpentes
acorda nas fogueiras
e elas se espicham tesas
e suas línguas acesas
lambem as folhas frescas
largas langues das bananeiras)
São João São João
e o frio tão frio
que a própria lua nua tem frio
e devagar a vagarosa
escorrega pelos cipós
e se esgueira
na pontinha dos pés
— Psiu!
pra quentar na minha fogueira
São João São João
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
2 312
Frei Francisco de São Carlos
Soneto [Nova forma, Senhor, nova figura
Nova forma, Senhor, nova figura
Estais à Paulicéia dando altiva
Já a vereda de escolhos mil nociva
Na planície oferece a formosura
Ali o triste templo da amargura
É dos olhos soberba perspectiva
Aqui marmórea fonte arroja esquiva
Em líquidos cristais a linfa pura
A gente de Mavorte que à defesa
Se destina, já tem terreno grato
De cômodo espaçoso na largueza
Mas quando não encante o aparato
Desses padrões perpétuos da grandeza
Em vós tem a cidade todo o ornato.
In: POETAS da Academia do Senado da Câmara de S. Paulo. Pref. Antônio Soares Amora. Notas Domingos Carvalho da Silva. São Paulo: Clube de Poesia, 1956. p.53-60. (Documentos, 3).
NOTA: Os versos "Aqui marmórea fonte arroja esquiva/Em líquidos cristais a linfa pura" são provavelmente uma referência ao Chafariz do Piques, mandado construir pelo governador Bernardo José de Loren
Estais à Paulicéia dando altiva
Já a vereda de escolhos mil nociva
Na planície oferece a formosura
Ali o triste templo da amargura
É dos olhos soberba perspectiva
Aqui marmórea fonte arroja esquiva
Em líquidos cristais a linfa pura
A gente de Mavorte que à defesa
Se destina, já tem terreno grato
De cômodo espaçoso na largueza
Mas quando não encante o aparato
Desses padrões perpétuos da grandeza
Em vós tem a cidade todo o ornato.
In: POETAS da Academia do Senado da Câmara de S. Paulo. Pref. Antônio Soares Amora. Notas Domingos Carvalho da Silva. São Paulo: Clube de Poesia, 1956. p.53-60. (Documentos, 3).
NOTA: Os versos "Aqui marmórea fonte arroja esquiva/Em líquidos cristais a linfa pura" são provavelmente uma referência ao Chafariz do Piques, mandado construir pelo governador Bernardo José de Loren
1 251
Pedro Nava
Toadas Pra Meu Irmão
Esse homem é brasileiro que nem eu.
(Mário de Andrade - DESCOBRIMENTO)
Nem eu posso conceder
que esta noite fina assim
seja a mesma noite assu
que assobra Taquarassu!
Que seja a mesma noite densa
soturno enorme abajada
escondendo o sofrimento
dos brasileiros calados!
Mas fosse a noite maior
mais densa, mais abajada
mesmo assim seria fraca
e se deixaria varar
pela ternura que eu mando
voando com a força do vento
— Meu pensamento rasgando
o assombro da noite assu
vai velar sono cansado
dos brasileiros calados...
O sono tão sossegado
de um brasileiro cansado
dormindo na noite assu
que esmaga Taquarassu!
Da cidade outro poeta
quer a distância varar
pra ver o sono do irmão
seu descanso proteger!
Dorme teu sono José...
(...)
Meu pensamento voando
nesta noite fina assim
vai fugindo da cidade
desgarra sertão afora
pra vigiar bem de perto
o doce sono sossegado
dum brasileiro calado!
Te beijo de leve nos olhos
te beijo de leve na face
te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Brasileiro sossegado
dorme teu sono calado...
Dorme teu sono José...
E me perdoa, meu Mano
se eu não posso cantar
cantos mansos pro teu sono!
Quem me dera, mas não posso!
Pois na noite da cidade
Só de pensar no teu sono,
as veias ficaram doendo
O corpo todo sem jeito
fiquei esquisito, palavra!
Coração no peito calado...
Que dor nos nervos senti
de não ter voz pra falar
(o coração no peito calado)
de não ter choro pra chorar
de palavra não achar,
dor(i)da boa sincera
como aquela comovida
achada por Mário de Andrade
(aquela tão comovida)
que acalantou de São Paulo
o brasileiro do Acre...
Te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Descansa na noite mansa
descansa, Mano, descansa...
1928
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 25 fev. 1928: "Gosto. Talvez um pouco possam ser sintetizadas, a idéia vai repetindo muito. Quanto a ser imitação, não é. É o mesmo ritmo de inspiração porém a citação inicial e o final justificam isso. (...) Quem acusasse você de plágio ou de aluno mostrava bobagem. O que tem de parecido nos dois poemas é consciente, sem pasticho nem plágio". Referência aos "Dois Poemas Acreanos" (I - Descobrimento; II - Acalanto do Seringueiro), do livro CLÃ DO JABUTI (1927), de Mário de Andrad
(Mário de Andrade - DESCOBRIMENTO)
Nem eu posso conceder
que esta noite fina assim
seja a mesma noite assu
que assobra Taquarassu!
Que seja a mesma noite densa
soturno enorme abajada
escondendo o sofrimento
dos brasileiros calados!
Mas fosse a noite maior
mais densa, mais abajada
mesmo assim seria fraca
e se deixaria varar
pela ternura que eu mando
voando com a força do vento
— Meu pensamento rasgando
o assombro da noite assu
vai velar sono cansado
dos brasileiros calados...
O sono tão sossegado
de um brasileiro cansado
dormindo na noite assu
que esmaga Taquarassu!
Da cidade outro poeta
quer a distância varar
pra ver o sono do irmão
seu descanso proteger!
Dorme teu sono José...
(...)
Meu pensamento voando
nesta noite fina assim
vai fugindo da cidade
desgarra sertão afora
pra vigiar bem de perto
o doce sono sossegado
dum brasileiro calado!
Te beijo de leve nos olhos
te beijo de leve na face
te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Brasileiro sossegado
dorme teu sono calado...
Dorme teu sono José...
E me perdoa, meu Mano
se eu não posso cantar
cantos mansos pro teu sono!
Quem me dera, mas não posso!
Pois na noite da cidade
Só de pensar no teu sono,
as veias ficaram doendo
O corpo todo sem jeito
fiquei esquisito, palavra!
Coração no peito calado...
Que dor nos nervos senti
de não ter voz pra falar
(o coração no peito calado)
de não ter choro pra chorar
de palavra não achar,
dor(i)da boa sincera
como aquela comovida
achada por Mário de Andrade
(aquela tão comovida)
que acalantou de São Paulo
o brasileiro do Acre...
Te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Descansa na noite mansa
descansa, Mano, descansa...
1928
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 25 fev. 1928: "Gosto. Talvez um pouco possam ser sintetizadas, a idéia vai repetindo muito. Quanto a ser imitação, não é. É o mesmo ritmo de inspiração porém a citação inicial e o final justificam isso. (...) Quem acusasse você de plágio ou de aluno mostrava bobagem. O que tem de parecido nos dois poemas é consciente, sem pasticho nem plágio". Referência aos "Dois Poemas Acreanos" (I - Descobrimento; II - Acalanto do Seringueiro), do livro CLÃ DO JABUTI (1927), de Mário de Andrad
1 799
Pedro Nava
Toadas Pra Meu Irmão
Esse homem é brasileiro que nem eu.
(Mário de Andrade - DESCOBRIMENTO)
Nem eu posso conceder
que esta noite fina assim
seja a mesma noite assu
que assobra Taquarassu!
Que seja a mesma noite densa
soturno enorme abajada
escondendo o sofrimento
dos brasileiros calados!
Mas fosse a noite maior
mais densa, mais abajada
mesmo assim seria fraca
e se deixaria varar
pela ternura que eu mando
voando com a força do vento
— Meu pensamento rasgando
o assombro da noite assu
vai velar sono cansado
dos brasileiros calados...
O sono tão sossegado
de um brasileiro cansado
dormindo na noite assu
que esmaga Taquarassu!
Da cidade outro poeta
quer a distância varar
pra ver o sono do irmão
seu descanso proteger!
Dorme teu sono José...
(...)
Meu pensamento voando
nesta noite fina assim
vai fugindo da cidade
desgarra sertão afora
pra vigiar bem de perto
o doce sono sossegado
dum brasileiro calado!
Te beijo de leve nos olhos
te beijo de leve na face
te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Brasileiro sossegado
dorme teu sono calado...
Dorme teu sono José...
E me perdoa, meu Mano
se eu não posso cantar
cantos mansos pro teu sono!
Quem me dera, mas não posso!
Pois na noite da cidade
Só de pensar no teu sono,
as veias ficaram doendo
O corpo todo sem jeito
fiquei esquisito, palavra!
Coração no peito calado...
Que dor nos nervos senti
de não ter voz pra falar
(o coração no peito calado)
de não ter choro pra chorar
de palavra não achar,
dor(i)da boa sincera
como aquela comovida
achada por Mário de Andrade
(aquela tão comovida)
que acalantou de São Paulo
o brasileiro do Acre...
Te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Descansa na noite mansa
descansa, Mano, descansa...
1928
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 25 fev. 1928: "Gosto. Talvez um pouco possam ser sintetizadas, a idéia vai repetindo muito. Quanto a ser imitação, não é. É o mesmo ritmo de inspiração porém a citação inicial e o final justificam isso. (...) Quem acusasse você de plágio ou de aluno mostrava bobagem. O que tem de parecido nos dois poemas é consciente, sem pasticho nem plágio". Referência aos "Dois Poemas Acreanos" (I - Descobrimento; II - Acalanto do Seringueiro), do livro CLÃ DO JABUTI (1927), de Mário de Andrad
(Mário de Andrade - DESCOBRIMENTO)
Nem eu posso conceder
que esta noite fina assim
seja a mesma noite assu
que assobra Taquarassu!
Que seja a mesma noite densa
soturno enorme abajada
escondendo o sofrimento
dos brasileiros calados!
Mas fosse a noite maior
mais densa, mais abajada
mesmo assim seria fraca
e se deixaria varar
pela ternura que eu mando
voando com a força do vento
— Meu pensamento rasgando
o assombro da noite assu
vai velar sono cansado
dos brasileiros calados...
O sono tão sossegado
de um brasileiro cansado
dormindo na noite assu
que esmaga Taquarassu!
Da cidade outro poeta
quer a distância varar
pra ver o sono do irmão
seu descanso proteger!
Dorme teu sono José...
(...)
Meu pensamento voando
nesta noite fina assim
vai fugindo da cidade
desgarra sertão afora
pra vigiar bem de perto
o doce sono sossegado
dum brasileiro calado!
Te beijo de leve nos olhos
te beijo de leve na face
te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Brasileiro sossegado
dorme teu sono calado...
Dorme teu sono José...
E me perdoa, meu Mano
se eu não posso cantar
cantos mansos pro teu sono!
Quem me dera, mas não posso!
Pois na noite da cidade
Só de pensar no teu sono,
as veias ficaram doendo
O corpo todo sem jeito
fiquei esquisito, palavra!
Coração no peito calado...
Que dor nos nervos senti
de não ter voz pra falar
(o coração no peito calado)
de não ter choro pra chorar
de palavra não achar,
dor(i)da boa sincera
como aquela comovida
achada por Mário de Andrade
(aquela tão comovida)
que acalantou de São Paulo
o brasileiro do Acre...
Te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Descansa na noite mansa
descansa, Mano, descansa...
1928
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 25 fev. 1928: "Gosto. Talvez um pouco possam ser sintetizadas, a idéia vai repetindo muito. Quanto a ser imitação, não é. É o mesmo ritmo de inspiração porém a citação inicial e o final justificam isso. (...) Quem acusasse você de plágio ou de aluno mostrava bobagem. O que tem de parecido nos dois poemas é consciente, sem pasticho nem plágio". Referência aos "Dois Poemas Acreanos" (I - Descobrimento; II - Acalanto do Seringueiro), do livro CLÃ DO JABUTI (1927), de Mário de Andrad
1 799
Frei Francisco de São Carlos
Canto VI [Vedes na foz aquele, que aparece
(...)
Vedes na foz aquele, que aparece
Pontiagudo, e escarpado? Pois parece,
Que deu-lhe a providente natureza,
(Além das obras d'arte,) por defesa,
Na derrocada penha transformado
Nubígena membrudo, sempre armado
De face negra, e torva; e mais se o croa
Neve, e trovões, e raios, com que atroa.
Que co'a frente no Céu, no mar os rastros
Atrevido ameaça o pego, e os astros.
Se os delírios da vã mitologia
Na terra inda vagassem, dir-se-ia;
Que era um desses Aloidas, gigante,
Que intentou escalar o Céu brilhante.
Que das deusas do Olimpo namorado
Foi no mar por audaz precipitado.
E as deusas por acinte lá da altura
Lhe enxovalham de neve a catadura.
Do seio pois das nuvens, onde a fronte
Enconde, vendo o mar até o horizonte;
Mal que espreita surgir lenho inimigo,
Pronto avisa, e previne-se o perigo.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.185-186
NOTA: Descrição do Pão-de-Açúcar inspirada no episódio do gigante Adamastor, d'OS LUSÍADAS (Canto V, estrofes 37 a 61
Vedes na foz aquele, que aparece
Pontiagudo, e escarpado? Pois parece,
Que deu-lhe a providente natureza,
(Além das obras d'arte,) por defesa,
Na derrocada penha transformado
Nubígena membrudo, sempre armado
De face negra, e torva; e mais se o croa
Neve, e trovões, e raios, com que atroa.
Que co'a frente no Céu, no mar os rastros
Atrevido ameaça o pego, e os astros.
Se os delírios da vã mitologia
Na terra inda vagassem, dir-se-ia;
Que era um desses Aloidas, gigante,
Que intentou escalar o Céu brilhante.
Que das deusas do Olimpo namorado
Foi no mar por audaz precipitado.
E as deusas por acinte lá da altura
Lhe enxovalham de neve a catadura.
Do seio pois das nuvens, onde a fronte
Enconde, vendo o mar até o horizonte;
Mal que espreita surgir lenho inimigo,
Pronto avisa, e previne-se o perigo.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.185-186
NOTA: Descrição do Pão-de-Açúcar inspirada no episódio do gigante Adamastor, d'OS LUSÍADAS (Canto V, estrofes 37 a 61
1 267
Pedro Nava
Poema para Rodrigo Melo Franco de Andrade
Os elevadores estacaram unanimemente
e sem transição vibraram todos os tímpanos.
Depois um choro desmedido
derramou-se pelo edifício.
Mas foi parando aos poucos,
até perder-se em soluços abafados
um a um.
E houve o silêncio.
Eu suspeitei sem a menor malícia
a presença terrível dos arcanjos...
Mas onde?
Todos tinham medo de se fitar,
tanto a verdade fazia esforços
para se manifestar nas fisionomias cor de cinza.
O momento era de uma gravidade infinita
e devia haver uma lucidez inusitada nos homens,
porque todos pressentiram a decepção irremediável...
— enorme como o sentido oculto das coisas inertes
[(seu sentido poético!)
E a presença de Deus foi tão absoluta
nas almas retransidas de horror,
que os poetas se sumiram na noite,
tornados de repente inúteis.
1933
In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.182-18
e sem transição vibraram todos os tímpanos.
Depois um choro desmedido
derramou-se pelo edifício.
Mas foi parando aos poucos,
até perder-se em soluços abafados
um a um.
E houve o silêncio.
Eu suspeitei sem a menor malícia
a presença terrível dos arcanjos...
Mas onde?
Todos tinham medo de se fitar,
tanto a verdade fazia esforços
para se manifestar nas fisionomias cor de cinza.
O momento era de uma gravidade infinita
e devia haver uma lucidez inusitada nos homens,
porque todos pressentiram a decepção irremediável...
— enorme como o sentido oculto das coisas inertes
[(seu sentido poético!)
E a presença de Deus foi tão absoluta
nas almas retransidas de horror,
que os poetas se sumiram na noite,
tornados de repente inúteis.
1933
In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.182-18
1 435
Odylo Costa Filho
Os Guarás
Cada evangelista
com seu bicho foi
— um só! — para o Céu:
leão, águia ou boi.
Mas com outros santos
— Luís e Damião,
Vicente e Francisco —
veio a multidão
de pobres e doentes
por entre os joelhos:
e com o santo Anchieta
os guarás vermelhos
que o Sol lhe taparam
na canoa um dia:
contra a brasa ardente
foram brasa fria...
In: COSTA, Filho, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
com seu bicho foi
— um só! — para o Céu:
leão, águia ou boi.
Mas com outros santos
— Luís e Damião,
Vicente e Francisco —
veio a multidão
de pobres e doentes
por entre os joelhos:
e com o santo Anchieta
os guarás vermelhos
que o Sol lhe taparam
na canoa um dia:
contra a brasa ardente
foram brasa fria...
In: COSTA, Filho, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
1 313
Zuca Sardan
Crepúsculo
O Sol ia afundando,
pouco a pouco,
no oceano ...
Não se deixou, porém,
impressionar ...
porque sabia
que a Terra
era redonda ...
e ele não estava assim
propriamente afundando,
mas rolando
pro lado de lá ...
( Pelo menos,
foi o que lhe contaram ... )
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
pouco a pouco,
no oceano ...
Não se deixou, porém,
impressionar ...
porque sabia
que a Terra
era redonda ...
e ele não estava assim
propriamente afundando,
mas rolando
pro lado de lá ...
( Pelo menos,
foi o que lhe contaram ... )
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
1 516
D. Pedro II
III - A Idéia Consoladora
Vendo as ondas correr para o ocidente,
Corre mais do que elas a saudade,
Mas espero que a minha enfermidade
O mesmo me consinta brevemente.
Com saúde mais lustre dar à mente
É cousa que enobrece a humanidade;
Contudo agora o paga a amizade
Da pátria, e da família, cruelmente;
Mas consola-me a idéia, — que mais forte
Lhes voltarei para melhor amá-los,
Pois mais anos assim até a morte
Eu mostrarei que sempre quis ligá-los
Na feliz, e também na infeliz sorte
Para, amando-os, ainda consolá-los.
Bordo do Gironde, 4 de Julho de 1887.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
Corre mais do que elas a saudade,
Mas espero que a minha enfermidade
O mesmo me consinta brevemente.
Com saúde mais lustre dar à mente
É cousa que enobrece a humanidade;
Contudo agora o paga a amizade
Da pátria, e da família, cruelmente;
Mas consola-me a idéia, — que mais forte
Lhes voltarei para melhor amá-los,
Pois mais anos assim até a morte
Eu mostrarei que sempre quis ligá-los
Na feliz, e também na infeliz sorte
Para, amando-os, ainda consolá-los.
Bordo do Gironde, 4 de Julho de 1887.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
1 514
Régis Bonvicino
O Tempo
O tempo foi de encontro
ao galho da quaresmeira
podre, no chão,
depois da chuva
Folhas murchas
de outra árvore
encurvadas pelo calor
como mãos fechadas
Menos vivas,
agora, as cores da estrelitzia
O portão da casa,
não lembra seu primeiro dia
Um buraco
exauriu
um pedaço de asfalto
O vermelho,
do automóvel na esquina
Os azuis em tons,
na fachada do edifício,
quase invisíveis
Grafites coloridos nos muros,
tampouco
poupados pelo tempo,
tornaram-se ilegíveis
Poema integrante da série Um.
In: BONVICINO, Régis. Outros poemas, 1990/1992. São Paulo: Iluminuras, 1993
ao galho da quaresmeira
podre, no chão,
depois da chuva
Folhas murchas
de outra árvore
encurvadas pelo calor
como mãos fechadas
Menos vivas,
agora, as cores da estrelitzia
O portão da casa,
não lembra seu primeiro dia
Um buraco
exauriu
um pedaço de asfalto
O vermelho,
do automóvel na esquina
Os azuis em tons,
na fachada do edifício,
quase invisíveis
Grafites coloridos nos muros,
tampouco
poupados pelo tempo,
tornaram-se ilegíveis
Poema integrante da série Um.
In: BONVICINO, Régis. Outros poemas, 1990/1992. São Paulo: Iluminuras, 1993
1 353
Pedro Nava
Ventania
Pro Mário
O vento veio maluco lá do alto do Bonfim
e veio chorando da tristura do cemitério.
Zuniu na praça do mercado
assuviou as mulatas avenida do comércio
e mexeu na saia delas.
Arrancou folha das árvores
poeira sungou do chão
depois virou
soprou
correu
danou
e entrou feito uma carga na avenida Afonso Pena,
O obelisco cortou ele pelo meio
mas ele foi avuando
e os fios da C.E.V.U. como cordas de viola
vibraram dum som longo
que cobriu Belo Horizonte feito um lamento.
O vento passou desmandado no Cruzeiro
saiu pro campo dobrou a mata
mas de repente
sua disparada pára na parede Serra do Curral
e o bicho stopa mas sapeca no morro um sopapo
que estrala que nem ginipapo
que mão raivosa
chispasse num muro curo..
Co-nhe-ceu papudo?
1926
In: REVISTA VERDE, Cataguases, ano 1, n.3, p.23, nov. 1927
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 19 mar. 1926: "Essa poesia me entusiasmou de verdade. Acho linda e das milhores coisas que você tem me mandado. Além da boniteza real da poesia acho que você está empregando com um talento firme o abrasileiramento da sua expressão. Discordo de certos processos, principalmente 'O obelisco cortou ele pelo meio'. Acho que você deve matutar mais sobre isso
O vento veio maluco lá do alto do Bonfim
e veio chorando da tristura do cemitério.
Zuniu na praça do mercado
assuviou as mulatas avenida do comércio
e mexeu na saia delas.
Arrancou folha das árvores
poeira sungou do chão
depois virou
soprou
correu
danou
e entrou feito uma carga na avenida Afonso Pena,
O obelisco cortou ele pelo meio
mas ele foi avuando
e os fios da C.E.V.U. como cordas de viola
vibraram dum som longo
que cobriu Belo Horizonte feito um lamento.
O vento passou desmandado no Cruzeiro
saiu pro campo dobrou a mata
mas de repente
sua disparada pára na parede Serra do Curral
e o bicho stopa mas sapeca no morro um sopapo
que estrala que nem ginipapo
que mão raivosa
chispasse num muro curo..
Co-nhe-ceu papudo?
1926
In: REVISTA VERDE, Cataguases, ano 1, n.3, p.23, nov. 1927
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 19 mar. 1926: "Essa poesia me entusiasmou de verdade. Acho linda e das milhores coisas que você tem me mandado. Além da boniteza real da poesia acho que você está empregando com um talento firme o abrasileiramento da sua expressão. Discordo de certos processos, principalmente 'O obelisco cortou ele pelo meio'. Acho que você deve matutar mais sobre isso
1 891
Claudio Willer
Viagens 4
recuperação / liquefação
a planta dos pés afundada na paisagem
o sol atravessado na garganta
será você um astro
ou uma serpente engastada no vidro
um reflexo da noite
a distância povoa-se de espaços novos
enquanto esperamos e tentamos alcançar
tensa hora da proximidade
densa de profecias e pedras musgosas
a plumagem das aves sacrificiais é estendida
araras faisões colibris pavões
cobrindo o caminho
o barco constrói sua própria nuvem
dentro da qual nos encerramos
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
a planta dos pés afundada na paisagem
o sol atravessado na garganta
será você um astro
ou uma serpente engastada no vidro
um reflexo da noite
a distância povoa-se de espaços novos
enquanto esperamos e tentamos alcançar
tensa hora da proximidade
densa de profecias e pedras musgosas
a plumagem das aves sacrificiais é estendida
araras faisões colibris pavões
cobrindo o caminho
o barco constrói sua própria nuvem
dentro da qual nos encerramos
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
991
Edgard Braga
máquina como se fosse fazer costura
máquina como se fosse fazer costura
nada mais fazer do que signos
)p-preto o-preto e-preto
um-m
um-a
tudo diferente de um coser qualquer
que se fechasse em pontilhado branco
máquina como quem quer desfazer
costura de coisas no papel branco
entre um hífen ponte de meditação
dedos-dados dados em lanço de pontos pretos
um lenço um cachimbo
em preto-branco espaço
remate do poema
branco
In: BRAGA, Edgard. Desbragada. Org. Régis Bonvicino. São Paulo: M. Limonad, 1984
nada mais fazer do que signos
)p-preto o-preto e-preto
um-m
um-a
tudo diferente de um coser qualquer
que se fechasse em pontilhado branco
máquina como quem quer desfazer
costura de coisas no papel branco
entre um hífen ponte de meditação
dedos-dados dados em lanço de pontos pretos
um lenço um cachimbo
em preto-branco espaço
remate do poema
branco
In: BRAGA, Edgard. Desbragada. Org. Régis Bonvicino. São Paulo: M. Limonad, 1984
1 247
Fontoura Xavier
XI - Toledo
Toledo, a mística imperial Toledo.
Têmpera de aço e fé, cujo segredo
Guarda consigo, avulta no horizonte,
esbatida no píncaro de um monte.
Afigura-se, vendo-a, ver defronte
A agonia de morte de um rochedo
Que o Tejo enlaça violento e tredo
Como a serpente de Laocoonte.
Santos e sombras são-lhe os habitantes,
Santos de Greco, sombras de Cervantes:
Ao Conde d'Orgaz luz um resplendor.
Cristo depõe perante um tribunal,
O cavalo de Cid El Campeador
Ajoelha à porta de uma catedral!...
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
Têmpera de aço e fé, cujo segredo
Guarda consigo, avulta no horizonte,
esbatida no píncaro de um monte.
Afigura-se, vendo-a, ver defronte
A agonia de morte de um rochedo
Que o Tejo enlaça violento e tredo
Como a serpente de Laocoonte.
Santos e sombras são-lhe os habitantes,
Santos de Greco, sombras de Cervantes:
Ao Conde d'Orgaz luz um resplendor.
Cristo depõe perante um tribunal,
O cavalo de Cid El Campeador
Ajoelha à porta de uma catedral!...
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
1 110
Fontoura Xavier
XI - Toledo
Toledo, a mística imperial Toledo.
Têmpera de aço e fé, cujo segredo
Guarda consigo, avulta no horizonte,
esbatida no píncaro de um monte.
Afigura-se, vendo-a, ver defronte
A agonia de morte de um rochedo
Que o Tejo enlaça violento e tredo
Como a serpente de Laocoonte.
Santos e sombras são-lhe os habitantes,
Santos de Greco, sombras de Cervantes:
Ao Conde d'Orgaz luz um resplendor.
Cristo depõe perante um tribunal,
O cavalo de Cid El Campeador
Ajoelha à porta de uma catedral!...
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
Têmpera de aço e fé, cujo segredo
Guarda consigo, avulta no horizonte,
esbatida no píncaro de um monte.
Afigura-se, vendo-a, ver defronte
A agonia de morte de um rochedo
Que o Tejo enlaça violento e tredo
Como a serpente de Laocoonte.
Santos e sombras são-lhe os habitantes,
Santos de Greco, sombras de Cervantes:
Ao Conde d'Orgaz luz um resplendor.
Cristo depõe perante um tribunal,
O cavalo de Cid El Campeador
Ajoelha à porta de uma catedral!...
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
1 110
Claudio Willer
As Palavras da Tribo
poema coletivo em parceria com Roberto Piva,
Juan e Cristina Hernandez
"Então, era isto a vida?
Pois bem: repita-se!"
Nietzsche
(...)
a espécie humana agride os verdes campos da memória a civilização
como passaporte para o próximo verão verdades cuspidas
pelas palavras da história a história atapetada de jasmins
[e
estercos noturnos dentaduras feito bandeiras atômicas mãos
sonâmbulas abismos sedosos feitos à intempérie daqueles que
choram pelos oceanos sem nome aqueles que dormem e se
suicidam sem culpa formada
amaldiçoo tua vez teu orgasmo pequeno e voraz tuas omoplatas
crepusculares chamando cordilheiras e sendeiros lunares
amores e ódios encapuçados num crucifixo opalino de olhos
matizados pela essência do teu nascimento austral gênio
hiperbóreo feito ao acaso de um fusil de asfaltos e
[pederastas
carcomidos pelos relógios de areias nucleares salvo-conduto
para uma eternidade comprada nas quitandas carboníferas de
deuses falsos
agora Fernando Pessoa flagra a espécie humana lombo de onça
africana que lambeu a esfera da carne rumo à veia jugular
sapateando no topo do prédio do bar Jeca onde eu e meu
amor um dia tomamos uma canja histórica fonte de orgasmos
cabeludos corações da noite constelações de ursas doidas
pondo ovos de celofane
vontade de transformar meu amor em toda espécie humana para dar o
beijo que nos transportará pela fenda da galáxia caindo no
prato de amêndoas do outro lado ou numa mesa branca de
Sto. Agostinho ou numa raça de hipopótamos longínqua e
delicada à espera da maluca união que não conhece limites
nem sul nem norte nem o doce naufrágio onde viramos do
avesso e dizemos Sim
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
Juan e Cristina Hernandez
"Então, era isto a vida?
Pois bem: repita-se!"
Nietzsche
(...)
a espécie humana agride os verdes campos da memória a civilização
como passaporte para o próximo verão verdades cuspidas
pelas palavras da história a história atapetada de jasmins
[e
estercos noturnos dentaduras feito bandeiras atômicas mãos
sonâmbulas abismos sedosos feitos à intempérie daqueles que
choram pelos oceanos sem nome aqueles que dormem e se
suicidam sem culpa formada
amaldiçoo tua vez teu orgasmo pequeno e voraz tuas omoplatas
crepusculares chamando cordilheiras e sendeiros lunares
amores e ódios encapuçados num crucifixo opalino de olhos
matizados pela essência do teu nascimento austral gênio
hiperbóreo feito ao acaso de um fusil de asfaltos e
[pederastas
carcomidos pelos relógios de areias nucleares salvo-conduto
para uma eternidade comprada nas quitandas carboníferas de
deuses falsos
agora Fernando Pessoa flagra a espécie humana lombo de onça
africana que lambeu a esfera da carne rumo à veia jugular
sapateando no topo do prédio do bar Jeca onde eu e meu
amor um dia tomamos uma canja histórica fonte de orgasmos
cabeludos corações da noite constelações de ursas doidas
pondo ovos de celofane
vontade de transformar meu amor em toda espécie humana para dar o
beijo que nos transportará pela fenda da galáxia caindo no
prato de amêndoas do outro lado ou numa mesa branca de
Sto. Agostinho ou numa raça de hipopótamos longínqua e
delicada à espera da maluca união que não conhece limites
nem sul nem norte nem o doce naufrágio onde viramos do
avesso e dizemos Sim
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
1 358
Claudio Willer
As Palavras da Tribo
poema coletivo em parceria com Roberto Piva,
Juan e Cristina Hernandez
"Então, era isto a vida?
Pois bem: repita-se!"
Nietzsche
(...)
a espécie humana agride os verdes campos da memória a civilização
como passaporte para o próximo verão verdades cuspidas
pelas palavras da história a história atapetada de jasmins
[e
estercos noturnos dentaduras feito bandeiras atômicas mãos
sonâmbulas abismos sedosos feitos à intempérie daqueles que
choram pelos oceanos sem nome aqueles que dormem e se
suicidam sem culpa formada
amaldiçoo tua vez teu orgasmo pequeno e voraz tuas omoplatas
crepusculares chamando cordilheiras e sendeiros lunares
amores e ódios encapuçados num crucifixo opalino de olhos
matizados pela essência do teu nascimento austral gênio
hiperbóreo feito ao acaso de um fusil de asfaltos e
[pederastas
carcomidos pelos relógios de areias nucleares salvo-conduto
para uma eternidade comprada nas quitandas carboníferas de
deuses falsos
agora Fernando Pessoa flagra a espécie humana lombo de onça
africana que lambeu a esfera da carne rumo à veia jugular
sapateando no topo do prédio do bar Jeca onde eu e meu
amor um dia tomamos uma canja histórica fonte de orgasmos
cabeludos corações da noite constelações de ursas doidas
pondo ovos de celofane
vontade de transformar meu amor em toda espécie humana para dar o
beijo que nos transportará pela fenda da galáxia caindo no
prato de amêndoas do outro lado ou numa mesa branca de
Sto. Agostinho ou numa raça de hipopótamos longínqua e
delicada à espera da maluca união que não conhece limites
nem sul nem norte nem o doce naufrágio onde viramos do
avesso e dizemos Sim
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
Juan e Cristina Hernandez
"Então, era isto a vida?
Pois bem: repita-se!"
Nietzsche
(...)
a espécie humana agride os verdes campos da memória a civilização
como passaporte para o próximo verão verdades cuspidas
pelas palavras da história a história atapetada de jasmins
[e
estercos noturnos dentaduras feito bandeiras atômicas mãos
sonâmbulas abismos sedosos feitos à intempérie daqueles que
choram pelos oceanos sem nome aqueles que dormem e se
suicidam sem culpa formada
amaldiçoo tua vez teu orgasmo pequeno e voraz tuas omoplatas
crepusculares chamando cordilheiras e sendeiros lunares
amores e ódios encapuçados num crucifixo opalino de olhos
matizados pela essência do teu nascimento austral gênio
hiperbóreo feito ao acaso de um fusil de asfaltos e
[pederastas
carcomidos pelos relógios de areias nucleares salvo-conduto
para uma eternidade comprada nas quitandas carboníferas de
deuses falsos
agora Fernando Pessoa flagra a espécie humana lombo de onça
africana que lambeu a esfera da carne rumo à veia jugular
sapateando no topo do prédio do bar Jeca onde eu e meu
amor um dia tomamos uma canja histórica fonte de orgasmos
cabeludos corações da noite constelações de ursas doidas
pondo ovos de celofane
vontade de transformar meu amor em toda espécie humana para dar o
beijo que nos transportará pela fenda da galáxia caindo no
prato de amêndoas do outro lado ou numa mesa branca de
Sto. Agostinho ou numa raça de hipopótamos longínqua e
delicada à espera da maluca união que não conhece limites
nem sul nem norte nem o doce naufrágio onde viramos do
avesso e dizemos Sim
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
1 358