Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Leão Júnior
Tempo Tempo
certifique-se de que o tempo
não goza, em seu cabedal,
o saber de um tempo argüido:
seu irônico juízo
no que investiga retorna
e o que investiga é retorno
do que então se parodia
do que então potencializa
um saber examinar-se
no outro que está do outro
sem imagem conferida
mas que pressupõe ao pôr
radicais inexistências
sob metódico senso
de crítica e de raciocínio
para então comprometer
a base — seu fundamento —
do círculo que vira dia
que se vive sem teoria
o que lhe permite ser tempo
é não contar sua história
é não ter sequer história
é ser o avesso da história
a própria falta — seu ser
de insuportável sentido —
satura de perdas a vida
e a explode como história
aí é preciso viver
de sobrevida aparente
nas sobras do apalavrado
reconduzido ao vazio
e nesta sede excluída
do homem desprende-se o tempo
demolindo o quê de si
sobrevive em seus sistemas
que permanecem percursos
de quebras fendas rupturas
são como um não-rio
os afluentes do tempo
(faz flutuar periódicas
minas de água parada)
que cai por brutas clivagens
como evidências sem fala
ou conflui estimulando
econômicas miragens
que precipitam o invisível
nas influências do visto
e trazem a forma adiante
das margens que nos espiam
sem olhar antecipando
múltiplos fluxos sem rio
é de poesia que
o tempo se alimenta
de sua força estratégica
sua premente ameaça
pois quanto mais fortifica
com mais defesas desata
e obriga ao tempo o adiante
de formas desmoronadas
obriga a viagem das horas
às suas fronteiras perdidas
a descobrir demasiados
possíveis de não rendição
mal começada a jornada
chegam arquitetos do não
tem o passado uma fome
do retomo do que falta
fome de raiz-além
desse longo ignorado
e rumina arruinando
a forma não digerida
tem a fome de uma espera
por horizonte não vindo
se morde o passo do onde
se gera a fome do tempo
enquanto rumina o presente
escape por entre os dentes
quando céu e terra se fizeram uno
o grande tempo moldou todas as coisas
de uma só vez
aos homens transmitiu a técnica
de não esperar
nenhum posterior, absoluto ou relativo
se pressupôs:
a consciência das clepisidras e das ampulhetas
desapareceu
perderam-se as sucessões e os recortes
irreversivelmente
o grande tempo fundiu os homens
na geografia do outro
e já não houve marcas de propriedade
e já não houve Estados
quando céu e terra se fizeram uno
o presente pôde ser lembrado
os configurados do tempo
marinheiros e megáricos
na volta não viram a margem
fazer porto no outro lado
fazer com poucos relógios
este contorno marinho
por lençóis curvos de água
canais de vida ou de linho
(mil canais de travessia
não chegam ao tempo visado
se o ângulo em que se projetam
não vaga em tua memória
se não te apreendem no agora
rasgos de incertos indícios)
a paciência da tribo
faz que dorme
faz que sonhem seus conceitos vagos
com cristais
quase nada extrai da falta
de origem ou fim
a paciência da tribo
retira-se do tempo com malas e bagagens
e põe-se a salvo
como duração e morte
quase nada deixa
de sua imprópria matéria
sem horizonte indagado
a paciência da tribo não se acaba
talvez porque seu puro escape
dispense o eterno
como os cristais às datas
no instante do bote
o tempo masca
não marcha
como os cadetes do colégio militar
a cobra-macha do tempo
não bate os calcanhares que não tem
nem se perfila ou bate continência
a cobra-marcha do tempo apenas rumina
o seu azul pairado
sobre alas, sobre balas.
no instante exato do bote
a cobra do tempo fuma
e o verde desfile dos passos para sempre
passa
como uma falta de ser
se imagina desejada
ou quanto a letra se quer
mais lida se mais apagada
a consciência propaga
sua força de abafada
que mal ultrapassa a falha
escandaliza o que falta
e perturba porque gasta
a razão da ultrapassagem
ao propagar o querer
doutras forças sufocadas
que mais apagadas se avivam
como letras desejadas
de uma escrita em que falta
tua imagem recortada
tua vida recordada
Por um apagado de charge
o único tempo é o tempo
que fora de si inexiste
como existe o que expulsa
de sua reserva incontente
expulsa do homem o ganho
ou pior, contabiliza
sua fome de um ser tempo
de ter no tempo o seu prumo
e este homem sem divisas
quer do tempo seu insumo
cobra incentivos e lucros
por vida a mais de consumo
mas o tempo acerta o trato
desconhecendo o rumo
quem rói de ti os fantasmas
de que se cobre a razão
lendo o antes da memória
que escapa à imaginação
que examina pela falta
as marcas da contradição
que ousa escritos vazios
sobre raspas predatórias
quem desconcentra a razão
para firmá-la no instável
como solta resistência
que se faz tão maleável
que nenhuma norma nova
fixa a ferida da margem
a tinta encarnada do teu
manuscrito sem história
se entranha na letra como
palavra arrancada à traça
se entranha em calar dobrado
como história dos silêncios
que a letra arranca aos pedaços
desta carne de azurado
a tinta dos manuscritos
come a tua mão pesada
com gratos garfos que vexam
o menos papel do prato
para abrir com suas chaves
o trauma de novos achados
escrevo palavras que calam
o meu objeto é o tempo
não fala
mas guarda em si monumentos
que sem vestígios
abalam
e o seu mudo testamento
fende infinito o fragmento
que age
escrevo à margem do efeito
leitor da ávida ausência
que apaga
e não consulto memórias
meu dicionário é o átimo
que indaga
deixa se possível um oco
para que o tempo arrebente
tuas mordaças sem corpo
o teu silêncio de ovo
teu fio sem interior
que tece os teus desenlaces
com mordidas ou amarras
famintas da tua nudez
derrama o rigor do silêncio
na veia oblíqua do novo
os tempos geraram os tempos
que geram de si os tempos
que geram os tempos de novo
como uma trama bastarda
os laços de parentesco
perdido no que se ligam
tecem o mito e a fenda
saber de que é feito o tempo
desses tempos sem história
é ter por familiares
homônimos desconhecidos
que no entanto evoluem
no seu poder de expurgar
incógnitas biografias
nos interiores das bibliotecas
o teu vizinho vive os anos vinte
um de meia-idade atrás de ti
parte uma galáxia
nos interiores da rua
cada palavra circula
com reais multiplicados
pelos becos mais dispersos
das páginas e
não goza, em seu cabedal,
o saber de um tempo argüido:
seu irônico juízo
no que investiga retorna
e o que investiga é retorno
do que então se parodia
do que então potencializa
um saber examinar-se
no outro que está do outro
sem imagem conferida
mas que pressupõe ao pôr
radicais inexistências
sob metódico senso
de crítica e de raciocínio
para então comprometer
a base — seu fundamento —
do círculo que vira dia
que se vive sem teoria
o que lhe permite ser tempo
é não contar sua história
é não ter sequer história
é ser o avesso da história
a própria falta — seu ser
de insuportável sentido —
satura de perdas a vida
e a explode como história
aí é preciso viver
de sobrevida aparente
nas sobras do apalavrado
reconduzido ao vazio
e nesta sede excluída
do homem desprende-se o tempo
demolindo o quê de si
sobrevive em seus sistemas
que permanecem percursos
de quebras fendas rupturas
são como um não-rio
os afluentes do tempo
(faz flutuar periódicas
minas de água parada)
que cai por brutas clivagens
como evidências sem fala
ou conflui estimulando
econômicas miragens
que precipitam o invisível
nas influências do visto
e trazem a forma adiante
das margens que nos espiam
sem olhar antecipando
múltiplos fluxos sem rio
é de poesia que
o tempo se alimenta
de sua força estratégica
sua premente ameaça
pois quanto mais fortifica
com mais defesas desata
e obriga ao tempo o adiante
de formas desmoronadas
obriga a viagem das horas
às suas fronteiras perdidas
a descobrir demasiados
possíveis de não rendição
mal começada a jornada
chegam arquitetos do não
tem o passado uma fome
do retomo do que falta
fome de raiz-além
desse longo ignorado
e rumina arruinando
a forma não digerida
tem a fome de uma espera
por horizonte não vindo
se morde o passo do onde
se gera a fome do tempo
enquanto rumina o presente
escape por entre os dentes
quando céu e terra se fizeram uno
o grande tempo moldou todas as coisas
de uma só vez
aos homens transmitiu a técnica
de não esperar
nenhum posterior, absoluto ou relativo
se pressupôs:
a consciência das clepisidras e das ampulhetas
desapareceu
perderam-se as sucessões e os recortes
irreversivelmente
o grande tempo fundiu os homens
na geografia do outro
e já não houve marcas de propriedade
e já não houve Estados
quando céu e terra se fizeram uno
o presente pôde ser lembrado
os configurados do tempo
marinheiros e megáricos
na volta não viram a margem
fazer porto no outro lado
fazer com poucos relógios
este contorno marinho
por lençóis curvos de água
canais de vida ou de linho
(mil canais de travessia
não chegam ao tempo visado
se o ângulo em que se projetam
não vaga em tua memória
se não te apreendem no agora
rasgos de incertos indícios)
a paciência da tribo
faz que dorme
faz que sonhem seus conceitos vagos
com cristais
quase nada extrai da falta
de origem ou fim
a paciência da tribo
retira-se do tempo com malas e bagagens
e põe-se a salvo
como duração e morte
quase nada deixa
de sua imprópria matéria
sem horizonte indagado
a paciência da tribo não se acaba
talvez porque seu puro escape
dispense o eterno
como os cristais às datas
no instante do bote
o tempo masca
não marcha
como os cadetes do colégio militar
a cobra-macha do tempo
não bate os calcanhares que não tem
nem se perfila ou bate continência
a cobra-marcha do tempo apenas rumina
o seu azul pairado
sobre alas, sobre balas.
no instante exato do bote
a cobra do tempo fuma
e o verde desfile dos passos para sempre
passa
como uma falta de ser
se imagina desejada
ou quanto a letra se quer
mais lida se mais apagada
a consciência propaga
sua força de abafada
que mal ultrapassa a falha
escandaliza o que falta
e perturba porque gasta
a razão da ultrapassagem
ao propagar o querer
doutras forças sufocadas
que mais apagadas se avivam
como letras desejadas
de uma escrita em que falta
tua imagem recortada
tua vida recordada
Por um apagado de charge
o único tempo é o tempo
que fora de si inexiste
como existe o que expulsa
de sua reserva incontente
expulsa do homem o ganho
ou pior, contabiliza
sua fome de um ser tempo
de ter no tempo o seu prumo
e este homem sem divisas
quer do tempo seu insumo
cobra incentivos e lucros
por vida a mais de consumo
mas o tempo acerta o trato
desconhecendo o rumo
quem rói de ti os fantasmas
de que se cobre a razão
lendo o antes da memória
que escapa à imaginação
que examina pela falta
as marcas da contradição
que ousa escritos vazios
sobre raspas predatórias
quem desconcentra a razão
para firmá-la no instável
como solta resistência
que se faz tão maleável
que nenhuma norma nova
fixa a ferida da margem
a tinta encarnada do teu
manuscrito sem história
se entranha na letra como
palavra arrancada à traça
se entranha em calar dobrado
como história dos silêncios
que a letra arranca aos pedaços
desta carne de azurado
a tinta dos manuscritos
come a tua mão pesada
com gratos garfos que vexam
o menos papel do prato
para abrir com suas chaves
o trauma de novos achados
escrevo palavras que calam
o meu objeto é o tempo
não fala
mas guarda em si monumentos
que sem vestígios
abalam
e o seu mudo testamento
fende infinito o fragmento
que age
escrevo à margem do efeito
leitor da ávida ausência
que apaga
e não consulto memórias
meu dicionário é o átimo
que indaga
deixa se possível um oco
para que o tempo arrebente
tuas mordaças sem corpo
o teu silêncio de ovo
teu fio sem interior
que tece os teus desenlaces
com mordidas ou amarras
famintas da tua nudez
derrama o rigor do silêncio
na veia oblíqua do novo
os tempos geraram os tempos
que geram de si os tempos
que geram os tempos de novo
como uma trama bastarda
os laços de parentesco
perdido no que se ligam
tecem o mito e a fenda
saber de que é feito o tempo
desses tempos sem história
é ter por familiares
homônimos desconhecidos
que no entanto evoluem
no seu poder de expurgar
incógnitas biografias
nos interiores das bibliotecas
o teu vizinho vive os anos vinte
um de meia-idade atrás de ti
parte uma galáxia
nos interiores da rua
cada palavra circula
com reais multiplicados
pelos becos mais dispersos
das páginas e
432
Valéry Larbaud
Noite de Verão
As horas, uma a uma, tempo adentro,
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.
O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.
Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas
Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.
O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.
Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas
Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.
979
Luiz Augusto Kehl
Tintim
Entre a noite e a aurora, nalguma hora em que vaga a mente
e vê o que foi sem ter sido,
noutras noites, a bordo daquele cargueiro rangente,
na Filipina distante, ou nalgum porto, no Pacífico imenso,
pedras do calçamento molhado rebrilhantes à luz da lua,
meandros de ruas e casas à fraca vela dos postes,
ninhos de putas às portas dos bares em que nunca estivemos,
sombras e luzes e o girar lento das palmeiras e das pás de vento
pendentes no teto descansando, banhando-se nas fímbrias e nas
réstias
de luz por entre cortinados de bambu, e a fumaça
de milhares de cigarros vagabundos misturando-se
aos perfumes molhados da selva e das veredas tropicais sob as
estrelas;
e embarcávamos resolutos
nalgum navio de ferro e homens suados em que não fomos
tatuados de amor e morte entre calados sábios papagaios,
sinais de rádio e de telégrafo, carcaça balouçante entre as ondas
e o praguejar do cozinheiro, relâmpagos e trovões oceânicos
rugentes
sobre os lamentos cavos das vagas a nos tragar
e a nos vomitar um dia nas calmarias e no sal do mar, a nós
inebriados do sal lambido dos sovacos das cadelas das bairas dos
cais
a naufragar-nos dentro da goela macia da baleia, entranhas
de mobydick e matahari, sexo dos contrabandistas e dos piratas
e nada além de uma página de pergaminho virada encharcada
coberta de nada, e significando tudo.
e vê o que foi sem ter sido,
noutras noites, a bordo daquele cargueiro rangente,
na Filipina distante, ou nalgum porto, no Pacífico imenso,
pedras do calçamento molhado rebrilhantes à luz da lua,
meandros de ruas e casas à fraca vela dos postes,
ninhos de putas às portas dos bares em que nunca estivemos,
sombras e luzes e o girar lento das palmeiras e das pás de vento
pendentes no teto descansando, banhando-se nas fímbrias e nas
réstias
de luz por entre cortinados de bambu, e a fumaça
de milhares de cigarros vagabundos misturando-se
aos perfumes molhados da selva e das veredas tropicais sob as
estrelas;
e embarcávamos resolutos
nalgum navio de ferro e homens suados em que não fomos
tatuados de amor e morte entre calados sábios papagaios,
sinais de rádio e de telégrafo, carcaça balouçante entre as ondas
e o praguejar do cozinheiro, relâmpagos e trovões oceânicos
rugentes
sobre os lamentos cavos das vagas a nos tragar
e a nos vomitar um dia nas calmarias e no sal do mar, a nós
inebriados do sal lambido dos sovacos das cadelas das bairas dos
cais
a naufragar-nos dentro da goela macia da baleia, entranhas
de mobydick e matahari, sexo dos contrabandistas e dos piratas
e nada além de uma página de pergaminho virada encharcada
coberta de nada, e significando tudo.
513
Lêdo Ivo
Canto Grande
Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.
Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.
Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.
De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.
Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.
Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.
Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.
Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.
Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.
De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.
Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.
Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.
Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.
1 587
Laura Amélia Damous
Cartão-Postal
e havia uma luz dourada
no vento, nos telhados, nas pedras
do casarão em ruínas. E pombos
dourados voavam e se abrigavam
nos santuários escavados pelo tempo
Havia pombos brancos, róseos,
à luz do sol
Navegávamos então impossível Veneza
em busca de improvável porto
no vento, nos telhados, nas pedras
do casarão em ruínas. E pombos
dourados voavam e se abrigavam
nos santuários escavados pelo tempo
Havia pombos brancos, róseos,
à luz do sol
Navegávamos então impossível Veneza
em busca de improvável porto
1 038
Luís Canelo de Noronha
Décimas
Nascer o Sol no Ocidente,
quem jamais tal coisa viu,
se na oposição caiu
ser Sol posto, e Sol oriente?
Mas bem caiu, que um luzente
e mais gigante farol,
mostrando novo arrebol
quando aquele Sol caía,
Sol mais claro então se erguia
para ser o Sol do Sol.
Pôr o Oriente no Ocaso,
fazer do morrer nascer,
inui maior poder,
e faz assombroso o caso;
faz divina e não acaso
esta empresa, pois que assombra,
que se um Sol ao Sol assombra,
e o Sol uma Sombra fica,
em que seja sombra rica
é do Sol o Sol a Sombra.
quem jamais tal coisa viu,
se na oposição caiu
ser Sol posto, e Sol oriente?
Mas bem caiu, que um luzente
e mais gigante farol,
mostrando novo arrebol
quando aquele Sol caía,
Sol mais claro então se erguia
para ser o Sol do Sol.
Pôr o Oriente no Ocaso,
fazer do morrer nascer,
inui maior poder,
e faz assombroso o caso;
faz divina e não acaso
esta empresa, pois que assombra,
que se um Sol ao Sol assombra,
e o Sol uma Sombra fica,
em que seja sombra rica
é do Sol o Sol a Sombra.
1 002
Luís Canelo de Noronha
Soneto
Esta, que habitação foi algum dia
das trevas superiores da ignorância
sendo Assento silvestre, rude Estância
Lugar inculto, bruta Monarquia;
hoje, que já brilhante Estrela a guia,
que já um Astro lhe dá luz de abundância,
que um Planeta lhe dá toda a prestância,
que um Sol a faz luzir, brilha a Bahia.
Bem assim, porque um sumo Apolo nela
consagra por divino e alto intento
um Coro celestial, Morada bela:
ficando, por lugar da Terra isento,
para o Sol, o Planeta, o Astro, a Estrela,
Monarquia, Lugar, Estância, Assento.
das trevas superiores da ignorância
sendo Assento silvestre, rude Estância
Lugar inculto, bruta Monarquia;
hoje, que já brilhante Estrela a guia,
que já um Astro lhe dá luz de abundância,
que um Planeta lhe dá toda a prestância,
que um Sol a faz luzir, brilha a Bahia.
Bem assim, porque um sumo Apolo nela
consagra por divino e alto intento
um Coro celestial, Morada bela:
ficando, por lugar da Terra isento,
para o Sol, o Planeta, o Astro, a Estrela,
Monarquia, Lugar, Estância, Assento.
992
Luís Canelo de Noronha
Soneto
Esta, que habitação foi algum dia
das trevas superiores da ignorância
sendo Assento silvestre, rude Estância
Lugar inculto, bruta Monarquia;
hoje, que já brilhante Estrela a guia,
que já um Astro lhe dá luz de abundância,
que um Planeta lhe dá toda a prestância,
que um Sol a faz luzir, brilha a Bahia.
Bem assim, porque um sumo Apolo nela
consagra por divino e alto intento
um Coro celestial, Morada bela:
ficando, por lugar da Terra isento,
para o Sol, o Planeta, o Astro, a Estrela,
Monarquia, Lugar, Estância, Assento.
das trevas superiores da ignorância
sendo Assento silvestre, rude Estância
Lugar inculto, bruta Monarquia;
hoje, que já brilhante Estrela a guia,
que já um Astro lhe dá luz de abundância,
que um Planeta lhe dá toda a prestância,
que um Sol a faz luzir, brilha a Bahia.
Bem assim, porque um sumo Apolo nela
consagra por divino e alto intento
um Coro celestial, Morada bela:
ficando, por lugar da Terra isento,
para o Sol, o Planeta, o Astro, a Estrela,
Monarquia, Lugar, Estância, Assento.
992
Luís Canelo de Noronha
Soneto
Esta, que habitação foi algum dia
das trevas superiores da ignorância
sendo Assento silvestre, rude Estância
Lugar inculto, bruta Monarquia;
hoje, que já brilhante Estrela a guia,
que já um Astro lhe dá luz de abundância,
que um Planeta lhe dá toda a prestância,
que um Sol a faz luzir, brilha a Bahia.
Bem assim, porque um sumo Apolo nela
consagra por divino e alto intento
um Coro celestial, Morada bela:
ficando, por lugar da Terra isento,
para o Sol, o Planeta, o Astro, a Estrela,
Monarquia, Lugar, Estância, Assento.
das trevas superiores da ignorância
sendo Assento silvestre, rude Estância
Lugar inculto, bruta Monarquia;
hoje, que já brilhante Estrela a guia,
que já um Astro lhe dá luz de abundância,
que um Planeta lhe dá toda a prestância,
que um Sol a faz luzir, brilha a Bahia.
Bem assim, porque um sumo Apolo nela
consagra por divino e alto intento
um Coro celestial, Morada bela:
ficando, por lugar da Terra isento,
para o Sol, o Planeta, o Astro, a Estrela,
Monarquia, Lugar, Estância, Assento.
992
Valéry Larbaud
Trignometria
Entre muitos aplausos e vivas,
ela se fez triângulo
e voltou às páginas de Euclides.
ela se fez triângulo
e voltou às páginas de Euclides.
984
Luís António Cajazeira Ramos
Fiat Breu
Há pouco, fui brilhante.
Agora, brilho escapante,
ou escapadamente lusco
e fusco, ou busco um instante
qualquer, tropegamente.
Tão-somente, já não brilho
intensamente, como há poucos
instantes atrás.
Escapou-me o brilho reluzente
do primeiro instantâneo flash
de verídicas meta-observações,
que me conduziam a conclusões
deveras geniais, tal como eu
fosse capaz, um tanto mais
perceptivo para os tempos atuais.
Mas sou por demais insistente
e escrevo, sofregamente,
tentando segurar aquele flash,
capaz de dar-me luz de iluminação,
capaz de trazer-me compreensão
de densos organismos universais
e de mim mesmo, principalmente.
Mas é tudo um delírio,
ao final do que se escreve,
já sem brilho, tão breve...
mas já sem grilo, já leve,
até capaz de fazer-me sorrir.
Agora, brilho escapante,
ou escapadamente lusco
e fusco, ou busco um instante
qualquer, tropegamente.
Tão-somente, já não brilho
intensamente, como há poucos
instantes atrás.
Escapou-me o brilho reluzente
do primeiro instantâneo flash
de verídicas meta-observações,
que me conduziam a conclusões
deveras geniais, tal como eu
fosse capaz, um tanto mais
perceptivo para os tempos atuais.
Mas sou por demais insistente
e escrevo, sofregamente,
tentando segurar aquele flash,
capaz de dar-me luz de iluminação,
capaz de trazer-me compreensão
de densos organismos universais
e de mim mesmo, principalmente.
Mas é tudo um delírio,
ao final do que se escreve,
já sem brilho, tão breve...
mas já sem grilo, já leve,
até capaz de fazer-me sorrir.
818
José de Oliveira Falcon
Prelúdio
os galos na madrugada
cobrindo as éguas do alerta
os atalaias do alarme
na grande praça deserta
os galos rubros de guerra
espora crista e fanfarra
rasgando ao quebrar da barra
a gema de sol na serra
o heroísmo dos galos
com o levante na garganta
o galopar dos seus gritos
na luz que livre alevanta
madruga aurora madura
rompe a fanfarra na serra
brasão triunfo e estandarte
dos galos rubros de guerra
cobrindo as éguas do alerta
os atalaias do alarme
na grande praça deserta
os galos rubros de guerra
espora crista e fanfarra
rasgando ao quebrar da barra
a gema de sol na serra
o heroísmo dos galos
com o levante na garganta
o galopar dos seus gritos
na luz que livre alevanta
madruga aurora madura
rompe a fanfarra na serra
brasão triunfo e estandarte
dos galos rubros de guerra
906
Luiz Ademir Souza
Favilla 1
A guerrilha urbana fervilha
instala o quebranto de mágoa
nobrasil
O Brasil é favilla
O poder a febre
fervilha
nos ministérios
ASSALTO. Droga de poder!
instala o quebranto de mágoa
nobrasil
O Brasil é favilla
O poder a febre
fervilha
nos ministérios
ASSALTO. Droga de poder!
889
Luiz Ademir Souza
Favilla 1
A guerrilha urbana fervilha
instala o quebranto de mágoa
nobrasil
O Brasil é favilla
O poder a febre
fervilha
nos ministérios
ASSALTO. Droga de poder!
instala o quebranto de mágoa
nobrasil
O Brasil é favilla
O poder a febre
fervilha
nos ministérios
ASSALTO. Droga de poder!
889
Luiz Ademir Souza
Favilla 1
A guerrilha urbana fervilha
instala o quebranto de mágoa
nobrasil
O Brasil é favilla
O poder a febre
fervilha
nos ministérios
ASSALTO. Droga de poder!
instala o quebranto de mágoa
nobrasil
O Brasil é favilla
O poder a febre
fervilha
nos ministérios
ASSALTO. Droga de poder!
889
Luiz Ademir Souza
Favilla 1
A guerrilha urbana fervilha
instala o quebranto de mágoa
nobrasil
O Brasil é favilla
O poder a febre
fervilha
nos ministérios
ASSALTO. Droga de poder!
instala o quebranto de mágoa
nobrasil
O Brasil é favilla
O poder a febre
fervilha
nos ministérios
ASSALTO. Droga de poder!
889
José Eustáquio da Silva
Passou
desfiz todas as minhas ilusões
e as atirei no precipício profundo
da minha realidade
estraçalhei os teus olhos de diamante
devolvendo-te os teus olhos
de um ser humano qualquer
te despi de todos os áureos vestidos
que em sonho te dei
e te fiz novamente nua
apaguei toda poesia que derramei inutilmente
nos poemas feitos em tua homenagem
e quase chorei...
(ou será que chorei?)
abri os olhos para o mundo
e me deixei libertar
enfim, te esqueci...
hoje, vivendo o alívio de tão árduo tormento
ando pelos jardins da vida
colhendo as rosas da minha liberdade
sem temer os espinhos da tua existência
e as atirei no precipício profundo
da minha realidade
estraçalhei os teus olhos de diamante
devolvendo-te os teus olhos
de um ser humano qualquer
te despi de todos os áureos vestidos
que em sonho te dei
e te fiz novamente nua
apaguei toda poesia que derramei inutilmente
nos poemas feitos em tua homenagem
e quase chorei...
(ou será que chorei?)
abri os olhos para o mundo
e me deixei libertar
enfim, te esqueci...
hoje, vivendo o alívio de tão árduo tormento
ando pelos jardins da vida
colhendo as rosas da minha liberdade
sem temer os espinhos da tua existência
1 048
João Rui de Sousa
Poema Contíguo ao Ódio
Que gelado sopro nos agita
do lado de dentro das ruas?
Que rápida vertigem nos domina
nesta agudíssima manhã?
Este vento que nos queimaestas veias mais quentes
Estes longos minutos que sacodem o rosto
Estes ponteiros gigantes que nos marcam os séculos
Estes rios de sal que abrem sulcos nos ossos
Esta raiva que nos corta estas lâminas nos lábios
Estes vidros de silêncio que nos enchem a boca
Estes deuses que sorriem estas lágrimas mais puras
Estes grandes traços negros de trânsito impedido
do lado de dentro das ruas?
Que rápida vertigem nos domina
nesta agudíssima manhã?
Este vento que nos queimaestas veias mais quentes
Estes longos minutos que sacodem o rosto
Estes ponteiros gigantes que nos marcam os séculos
Estes rios de sal que abrem sulcos nos ossos
Esta raiva que nos corta estas lâminas nos lábios
Estes vidros de silêncio que nos enchem a boca
Estes deuses que sorriem estas lágrimas mais puras
Estes grandes traços negros de trânsito impedido
1 230
José de Paula Ramos Jr.
Aquiles
A minha morte escolho nesta hora,
ao pé do corpo frio que jaz inerte.
No campo de batalha, junto a Tróia,
não mais verei, entrando nessa tenda,
sentado no divã, tocando a lira,
o amigo que foi morto em meu lugar.
Tristes despojos, Pátroclo divino,
regressas sem a vida e sem o escudo,
teu cadáver saqueado à tenda torna,
pilhado da armadura que envergaste.
Heitor, que te deu fim, e agora empunha
as armas que brandiste bravamente,
ufano está do feito vitorioso.
Pois regozije enquanto a Moira escura
no gume de meu gládio não provar.
Bem sei que morrerei dessa vingança,
assim me foi predito pelos deuses;
mas nada vale a vida sem a cólera,
que me dará na morte eterna glória.
ao pé do corpo frio que jaz inerte.
No campo de batalha, junto a Tróia,
não mais verei, entrando nessa tenda,
sentado no divã, tocando a lira,
o amigo que foi morto em meu lugar.
Tristes despojos, Pátroclo divino,
regressas sem a vida e sem o escudo,
teu cadáver saqueado à tenda torna,
pilhado da armadura que envergaste.
Heitor, que te deu fim, e agora empunha
as armas que brandiste bravamente,
ufano está do feito vitorioso.
Pois regozije enquanto a Moira escura
no gume de meu gládio não provar.
Bem sei que morrerei dessa vingança,
assim me foi predito pelos deuses;
mas nada vale a vida sem a cólera,
que me dará na morte eterna glória.
1 727
José Sarney
Carta do Anti-Santo José
aos seus tristes
EU, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
BENDITO sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos
e pousaram
à beira dos Defuntos
onde sacodem a viagem
e fazem ninhos
na folha das plantas aquáticas
que flutuam como anjos deitados
na mansidão dos lagos.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo abandono dessa sombra
que prometeu entregar-me o corpo
de pelúcias de carne para que eu o amasse
com a força de todas as tempestades
e eu nunca o amei.
NÃO me julgueis por haver
começado o meu caminho
naquela canoa de toldos
e ramos que cantavam,
"bendito é o santo nome".
EU fui ferido pelos vampiros gigantes
que esmagaram a sunga de chita colegial
feita de flores pequenas e alças de rendas
onde ficou sepultado para sempre
o seu sexo pequenino
e o meu primeiro olhar
que eu carregava nas mãos
como o cálice
daquele vinho
do corpo de Deus que eu não bebi
para embriagar-me
na fome de amar a pronta carne,
o pão, o fruto, a vida e
os peixes que habitavam os lagos desse campo
que me abriu os olhos numa manhã de abril.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo que fui
e jamais fui e sempre serei,
pois de não ser vou sendo
esta noite que não teve pôr de sol.
EU juro que a cadela que latia
junto de tuas mãos e eu dizia que era raiva
devia ter morrido
para que hoje eu não a lembrasse
para matar o meu ódio e ressuscitar o meu nojo
de pensar que eu fui capaz de amar
e os ventos da minha vida
não têm mais velas a empurrar
nem barcos para sair do Rio Pericumã e chegar
ao mar alto da Ponta de Itacolomi
e ali afundar
como afundaram
nas pedras eternas de moluscos
tantas navegações e tantos monstros.
IRMÃOS:
Eu habitei a Rua da Madre de Deus
onde os teares funcionavam dia e noite, no número 127.
Dona Sérgia! eu te beijo cerzideira
que me carregou de amor quando os outros me cuspiam
e as estátuas de porcelana branca que vieram de Portugal
guardavam vigilantes as cumeeiras largas do casario da Fábrica
onde batiam algodão branco e doce
da velha indústria Santa Amélia
e as operárias furtavam
os casulos
para higiene do ciclo menstrual
naquele mundo de louças
fusos, caldeiras e fardos.
A Fonte das Pedras
que de pedras tinha a água que escorria como sangue
das carrancas que jamais aceitaram o suor dos escravos
que Dona Ana Jansen fazia atirar nos poços de lanças
para serem espetados e se transformarem em fantasmas que
enchiam de gemidos todos os becos desta cidade que
nasceu para ser possuída em coitos de agonia e pecado
e em virgindades com cheiro de alfazema
entre o amor e as picadas de arraia.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo bonde de minha infância que matei
porque eu o amava e o matei,
como se não mata o amor, mas
pelo indesejo da morte.
ELE não corre e foram minhas mãos
que o trucidaram e trucidaram com ele
as moças todas que estavam na janela
e eu desejava casar para fazer filhos que
de novo pegassem o bonde
e fossem até o fim dos caminhos
e de novo fizessem outros filhos e outros mais
para que o bonde fosse o trilho eterno
e não o fim do filho.
..............................................
IRMÃOS:
NÃO me julguei por não haver fugido
com a trapezista do circo mambembe,
com que todos os meninos
das cidades de cavalos e cabeças-de-cuia
pensam fugir para viver em
acrobacias e picadeiros.
Eu a reencontrei em Brooklin, num janeiro de neve
nessa cidade de Nova Iorque que eu também amei
como se ama a prostituta pintada
que nos acena com uma noite de orgia.
O táxi amarelo parou. De repente ao meu lado
a trapezista que eu tinha amado
e ali repousava de sandálias e tranças.
Ao meu espanto apenas disse:
José!
De repente o mundo voltou ao princípio e eu senti
que os passarinhos podem cantar em Manhatan como
na mangueira velha do quintal da casa do velho José Costa,
meu avô,
que me disse um dia:
Guarda a tua alma e o teu corpo em vinha-dalho,
porque a vida é feita de postas azedas
em que os figos e as melancias não têm nem gosto nem cor.
IRMÃOS:
EU, José,
vos digo que a vida é um bando de itãs
que gritam histéricas
na beira do lago de Viana à espera
da terra parar de repente
e de repente a canarana ter flores eternas
as mangueiras terem galhos de meia légua e
debaixo de sua sombra
os índios pedirem amor com os anjos,
plantando rosas de capim de marreca
e o homem Senhor do destino
possa descansar os seus lábios vermelhos
nos seios das deusas jovens,
adormecidas nas aguadas de ventos,
novilhas de todos os mundos.
IRMÃOS:
PERDOAI-ME de dizer a Deus
que ele não pode pisar meus caminhos
com os pés de cardos
que romperam de sangue a coroa fria e sem glória
desses dias que ele me deu e eu esmaguei.
IRMÃOS:
perdoai-me.
o sonho da morte é uma nuvem
que não cobre as eternas noites da vida.
(Os Maribondos de Fogo / 1978)
EU, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
BENDITO sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos
e pousaram
à beira dos Defuntos
onde sacodem a viagem
e fazem ninhos
na folha das plantas aquáticas
que flutuam como anjos deitados
na mansidão dos lagos.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo abandono dessa sombra
que prometeu entregar-me o corpo
de pelúcias de carne para que eu o amasse
com a força de todas as tempestades
e eu nunca o amei.
NÃO me julgueis por haver
começado o meu caminho
naquela canoa de toldos
e ramos que cantavam,
"bendito é o santo nome".
EU fui ferido pelos vampiros gigantes
que esmagaram a sunga de chita colegial
feita de flores pequenas e alças de rendas
onde ficou sepultado para sempre
o seu sexo pequenino
e o meu primeiro olhar
que eu carregava nas mãos
como o cálice
daquele vinho
do corpo de Deus que eu não bebi
para embriagar-me
na fome de amar a pronta carne,
o pão, o fruto, a vida e
os peixes que habitavam os lagos desse campo
que me abriu os olhos numa manhã de abril.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo que fui
e jamais fui e sempre serei,
pois de não ser vou sendo
esta noite que não teve pôr de sol.
EU juro que a cadela que latia
junto de tuas mãos e eu dizia que era raiva
devia ter morrido
para que hoje eu não a lembrasse
para matar o meu ódio e ressuscitar o meu nojo
de pensar que eu fui capaz de amar
e os ventos da minha vida
não têm mais velas a empurrar
nem barcos para sair do Rio Pericumã e chegar
ao mar alto da Ponta de Itacolomi
e ali afundar
como afundaram
nas pedras eternas de moluscos
tantas navegações e tantos monstros.
IRMÃOS:
Eu habitei a Rua da Madre de Deus
onde os teares funcionavam dia e noite, no número 127.
Dona Sérgia! eu te beijo cerzideira
que me carregou de amor quando os outros me cuspiam
e as estátuas de porcelana branca que vieram de Portugal
guardavam vigilantes as cumeeiras largas do casario da Fábrica
onde batiam algodão branco e doce
da velha indústria Santa Amélia
e as operárias furtavam
os casulos
para higiene do ciclo menstrual
naquele mundo de louças
fusos, caldeiras e fardos.
A Fonte das Pedras
que de pedras tinha a água que escorria como sangue
das carrancas que jamais aceitaram o suor dos escravos
que Dona Ana Jansen fazia atirar nos poços de lanças
para serem espetados e se transformarem em fantasmas que
enchiam de gemidos todos os becos desta cidade que
nasceu para ser possuída em coitos de agonia e pecado
e em virgindades com cheiro de alfazema
entre o amor e as picadas de arraia.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo bonde de minha infância que matei
porque eu o amava e o matei,
como se não mata o amor, mas
pelo indesejo da morte.
ELE não corre e foram minhas mãos
que o trucidaram e trucidaram com ele
as moças todas que estavam na janela
e eu desejava casar para fazer filhos que
de novo pegassem o bonde
e fossem até o fim dos caminhos
e de novo fizessem outros filhos e outros mais
para que o bonde fosse o trilho eterno
e não o fim do filho.
..............................................
IRMÃOS:
NÃO me julguei por não haver fugido
com a trapezista do circo mambembe,
com que todos os meninos
das cidades de cavalos e cabeças-de-cuia
pensam fugir para viver em
acrobacias e picadeiros.
Eu a reencontrei em Brooklin, num janeiro de neve
nessa cidade de Nova Iorque que eu também amei
como se ama a prostituta pintada
que nos acena com uma noite de orgia.
O táxi amarelo parou. De repente ao meu lado
a trapezista que eu tinha amado
e ali repousava de sandálias e tranças.
Ao meu espanto apenas disse:
José!
De repente o mundo voltou ao princípio e eu senti
que os passarinhos podem cantar em Manhatan como
na mangueira velha do quintal da casa do velho José Costa,
meu avô,
que me disse um dia:
Guarda a tua alma e o teu corpo em vinha-dalho,
porque a vida é feita de postas azedas
em que os figos e as melancias não têm nem gosto nem cor.
IRMÃOS:
EU, José,
vos digo que a vida é um bando de itãs
que gritam histéricas
na beira do lago de Viana à espera
da terra parar de repente
e de repente a canarana ter flores eternas
as mangueiras terem galhos de meia légua e
debaixo de sua sombra
os índios pedirem amor com os anjos,
plantando rosas de capim de marreca
e o homem Senhor do destino
possa descansar os seus lábios vermelhos
nos seios das deusas jovens,
adormecidas nas aguadas de ventos,
novilhas de todos os mundos.
IRMÃOS:
PERDOAI-ME de dizer a Deus
que ele não pode pisar meus caminhos
com os pés de cardos
que romperam de sangue a coroa fria e sem glória
desses dias que ele me deu e eu esmaguei.
IRMÃOS:
perdoai-me.
o sonho da morte é uma nuvem
que não cobre as eternas noites da vida.
(Os Maribondos de Fogo / 1978)
1 669
Luís António Cajazeira Ramos
Deus e o Diabo
(no círculo vicioso da terra do sol)
Virou-se o diabo pra deus e disse:
— Quem sou eu, demônios! se não sou deus?
E deus, bondoso, respondeu, qual prece:
— Oh, céus! você é o que não quero meu.
O demo, esperto, retrucou, de pronto:
— Que não sou deus? que me fizeste resto
de ti? deixaste todo o mal pra mim?
Pronto, que o resto, em mim, te diminui.
Potência, ciência e presença, em ti,
não são totais, tu não és mais perfeito
... e fim de papo. E sumiu, a seu jeito.
Mas deus se arrependeu e, desde então,
corre atrás do diabo, feito um cão
caçando o rabo... (E o cão diz: — Nem te ligo!)
Virou-se o diabo pra deus e disse:
— Quem sou eu, demônios! se não sou deus?
E deus, bondoso, respondeu, qual prece:
— Oh, céus! você é o que não quero meu.
O demo, esperto, retrucou, de pronto:
— Que não sou deus? que me fizeste resto
de ti? deixaste todo o mal pra mim?
Pronto, que o resto, em mim, te diminui.
Potência, ciência e presença, em ti,
não são totais, tu não és mais perfeito
... e fim de papo. E sumiu, a seu jeito.
Mas deus se arrependeu e, desde então,
corre atrás do diabo, feito um cão
caçando o rabo... (E o cão diz: — Nem te ligo!)
928
Jorge Pedro Barbosa
Vou Ser Senhor do Mundo
Vou falar com o Pássaro-Rei,
vou-lhe pedir um favorzinho:
vou ver se ele me dá emprestado
sete penas brancas
para eu voar
e ir poisar no teto do mundo.
Se ele disser que sim,
estou garantido,
porque Capotona-Preta prometeu virar-me
dum passo para o outro,
em senhor da terra,
senhor das águas,
senhor dos céus,
senhor do Mundo.
Mas é se eu voar
com as sete penas brancas
e for poisar no teto do Mundo.
E porquê ele não me faz o favorzinho,
se lhe levo um punhado de milho
e se lhe digo: — Por favor?
vou-lhe pedir um favorzinho:
vou ver se ele me dá emprestado
sete penas brancas
para eu voar
e ir poisar no teto do mundo.
Se ele disser que sim,
estou garantido,
porque Capotona-Preta prometeu virar-me
dum passo para o outro,
em senhor da terra,
senhor das águas,
senhor dos céus,
senhor do Mundo.
Mas é se eu voar
com as sete penas brancas
e for poisar no teto do Mundo.
E porquê ele não me faz o favorzinho,
se lhe levo um punhado de milho
e se lhe digo: — Por favor?
1 549
Jomard Muniz de Britto
Uma Qualquer Recife
Uma qualquer Recife cidade sitiada
é a escuta PSI,
a escritura psiu de seus arquitetos da mais sutil
urbanidade ao redor dos favores
da SANTA CASA DE MISERICÓRDIA.
Restauram apenas fachadas em cores vivas,
reinventando a cidade-cartão-postal-global
em sua dignidade tão degradante, sufocada,
turismo mimético do Pelourinho e advertências.
Uma cidade, além das dúvidas e suspeições,
é o conjunto de seus buracos. Imanentes e
galácticos. Cartesianos e dionisíacos.
Gilbertianos por todos os séculos.
é a escuta PSI,
a escritura psiu de seus arquitetos da mais sutil
urbanidade ao redor dos favores
da SANTA CASA DE MISERICÓRDIA.
Restauram apenas fachadas em cores vivas,
reinventando a cidade-cartão-postal-global
em sua dignidade tão degradante, sufocada,
turismo mimético do Pelourinho e advertências.
Uma cidade, além das dúvidas e suspeições,
é o conjunto de seus buracos. Imanentes e
galácticos. Cartesianos e dionisíacos.
Gilbertianos por todos os séculos.
951
Jomard Muniz de Britto
Uma Qualquer Recife
Uma qualquer Recife cidade sitiada
é a escuta PSI,
a escritura psiu de seus arquitetos da mais sutil
urbanidade ao redor dos favores
da SANTA CASA DE MISERICÓRDIA.
Restauram apenas fachadas em cores vivas,
reinventando a cidade-cartão-postal-global
em sua dignidade tão degradante, sufocada,
turismo mimético do Pelourinho e advertências.
Uma cidade, além das dúvidas e suspeições,
é o conjunto de seus buracos. Imanentes e
galácticos. Cartesianos e dionisíacos.
Gilbertianos por todos os séculos.
é a escuta PSI,
a escritura psiu de seus arquitetos da mais sutil
urbanidade ao redor dos favores
da SANTA CASA DE MISERICÓRDIA.
Restauram apenas fachadas em cores vivas,
reinventando a cidade-cartão-postal-global
em sua dignidade tão degradante, sufocada,
turismo mimético do Pelourinho e advertências.
Uma cidade, além das dúvidas e suspeições,
é o conjunto de seus buracos. Imanentes e
galácticos. Cartesianos e dionisíacos.
Gilbertianos por todos os séculos.
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