Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Alfred Edward Housman
FAREWELL TO A NAME
Adeus a um número e um nome
Que foi chamado
À treva, silêncio e sono
Do sangue derramado.
Assim cessa em acto
E volta ao fim.
Soldado à pátria barato
E caro para mim.
Assim em sangue se afoga
O chamejante açoite
De uma verdade que volta
Ao pó e à noite.
Que foi chamado
À treva, silêncio e sono
Do sangue derramado.
Assim cessa em acto
E volta ao fim.
Soldado à pátria barato
E caro para mim.
Assim em sangue se afoga
O chamejante açoite
De uma verdade que volta
Ao pó e à noite.
1 266
Jonathan Griffin
COM ESTES OLHOS
Quem cruza o extremo sul da Groenlândia
a cinco mil metros visibilidade boa
vê, enchendo o norte azul, uma manada em susto
de chifres brancos detida por oceano.
Grenhas
se enrolando sobre
a
quietude deles.
Mas
quando se olha para baixo vêem-se
longas pardas
-
tentáculos do oceano
é o que parece,
penetrantes águas sem sol
entre
as frontes de prata -
agudas enseadas (um calafrio como que sobe desde
o pardo - a gente, numa nave tépida,
estremece).
Há uma esbranquiçada monótona sarna sobre as águas tristes
Presas nela
dispersas
lascas
de pureza -
Minha mãe em jovem ouviu no Spitzbergue
trovões, o
nascer de icebergues
Num relance
dos olhos e pensar
vi
o
ciclo
vi os
ventos para sempre
de sobre a
curva do mundo
trazendo nuvens para os chifres de rocha rasgarem em neve -
e para
baixo
devagar
os glaciares fluem
e estalando
caem em fiordes -
e, primeiro apertadas na massa, altivamente
as ninfas
de gelo as graves fúrias
soltam-se livres
só para
seguirem a corrente chupada
pela
seca do Equador -
as longas
garras do sol -
para
o sul
vi
o aberto
uma corrente levando
entes esquisitos - esmeraldas sobre
o
mar -
só que mais pálidas, intensidades pálidas cada uma
com
uma
fina fímbria de branco -
jóias de doce água primeva
perpétua frota.
navios
de
água
a cinco mil metros visibilidade boa
vê, enchendo o norte azul, uma manada em susto
de chifres brancos detida por oceano.
Grenhas
se enrolando sobre
a
quietude deles.
Mas
quando se olha para baixo vêem-se
longas pardas
-
tentáculos do oceano
é o que parece,
penetrantes águas sem sol
entre
as frontes de prata -
agudas enseadas (um calafrio como que sobe desde
o pardo - a gente, numa nave tépida,
estremece).
Há uma esbranquiçada monótona sarna sobre as águas tristes
Presas nela
dispersas
lascas
de pureza -
Minha mãe em jovem ouviu no Spitzbergue
trovões, o
nascer de icebergues
Num relance
dos olhos e pensar
vi
o
ciclo
vi os
ventos para sempre
de sobre a
curva do mundo
trazendo nuvens para os chifres de rocha rasgarem em neve -
e para
baixo
devagar
os glaciares fluem
e estalando
caem em fiordes -
e, primeiro apertadas na massa, altivamente
as ninfas
de gelo as graves fúrias
soltam-se livres
só para
seguirem a corrente chupada
pela
seca do Equador -
as longas
garras do sol -
para
o sul
vi
o aberto
uma corrente levando
entes esquisitos - esmeraldas sobre
o
mar -
só que mais pálidas, intensidades pálidas cada uma
com
uma
fina fímbria de branco -
jóias de doce água primeva
perpétua frota.
navios
de
água
646
Jonathan Griffin
COM ESTES OLHOS
Quem cruza o extremo sul da Groenlândia
a cinco mil metros visibilidade boa
vê, enchendo o norte azul, uma manada em susto
de chifres brancos detida por oceano.
Grenhas
se enrolando sobre
a
quietude deles.
Mas
quando se olha para baixo vêem-se
longas pardas
-
tentáculos do oceano
é o que parece,
penetrantes águas sem sol
entre
as frontes de prata -
agudas enseadas (um calafrio como que sobe desde
o pardo - a gente, numa nave tépida,
estremece).
Há uma esbranquiçada monótona sarna sobre as águas tristes
Presas nela
dispersas
lascas
de pureza -
Minha mãe em jovem ouviu no Spitzbergue
trovões, o
nascer de icebergues
Num relance
dos olhos e pensar
vi
o
ciclo
vi os
ventos para sempre
de sobre a
curva do mundo
trazendo nuvens para os chifres de rocha rasgarem em neve -
e para
baixo
devagar
os glaciares fluem
e estalando
caem em fiordes -
e, primeiro apertadas na massa, altivamente
as ninfas
de gelo as graves fúrias
soltam-se livres
só para
seguirem a corrente chupada
pela
seca do Equador -
as longas
garras do sol -
para
o sul
vi
o aberto
uma corrente levando
entes esquisitos - esmeraldas sobre
o
mar -
só que mais pálidas, intensidades pálidas cada uma
com
uma
fina fímbria de branco -
jóias de doce água primeva
perpétua frota.
navios
de
água
a cinco mil metros visibilidade boa
vê, enchendo o norte azul, uma manada em susto
de chifres brancos detida por oceano.
Grenhas
se enrolando sobre
a
quietude deles.
Mas
quando se olha para baixo vêem-se
longas pardas
-
tentáculos do oceano
é o que parece,
penetrantes águas sem sol
entre
as frontes de prata -
agudas enseadas (um calafrio como que sobe desde
o pardo - a gente, numa nave tépida,
estremece).
Há uma esbranquiçada monótona sarna sobre as águas tristes
Presas nela
dispersas
lascas
de pureza -
Minha mãe em jovem ouviu no Spitzbergue
trovões, o
nascer de icebergues
Num relance
dos olhos e pensar
vi
o
ciclo
vi os
ventos para sempre
de sobre a
curva do mundo
trazendo nuvens para os chifres de rocha rasgarem em neve -
e para
baixo
devagar
os glaciares fluem
e estalando
caem em fiordes -
e, primeiro apertadas na massa, altivamente
as ninfas
de gelo as graves fúrias
soltam-se livres
só para
seguirem a corrente chupada
pela
seca do Equador -
as longas
garras do sol -
para
o sul
vi
o aberto
uma corrente levando
entes esquisitos - esmeraldas sobre
o
mar -
só que mais pálidas, intensidades pálidas cada uma
com
uma
fina fímbria de branco -
jóias de doce água primeva
perpétua frota.
navios
de
água
646
Friedrich Hölderlin
Lembrança
Sopra o nordeste,
O mais grato dos ventos:
Grato a mim porque é cálido, e aos marujos
Porque promete fácil travessia.
Eia, saúda agora
O formoso Garona
E os jardins de Bordéus
Lá coleia na íngreme ribeira
A vereda, e no rio
Se despenha o regato; mas acima
Olha o par generoso
De álamos e carvalhos.
Ainda me lembro bem e como
As largas copas curva
O olmedo sobre o moinho.
No pátio há uma figueira.
E nos dias feriados,
Pisando o chão sedoso
Passeiam mulheres morenas
No mês de março
Quanto o dia é igual à noite
E nos lentos caminhos
De áureos sonhos pejados
Sopram brisas embaladoras.
Mas estenda-me alguém,
Da escura luz repleto
O aromado copo
Para que eu possa descansar; pois doce
Seria o sono à sombra.
Também não fora bem
Privar-se de mortais
Pensamentos, que bom
É conversar; dizer
O que se sente, ouvir falar de amores,
De coisas passadas.
Porém que é dos amigos? Belarmino
E o companheiro? Muitos
Têm medo de ir à fonte.
É que a riqueza principia
No mar. Ora, eles
Reúnem como pintores
As belezas da terra e não desprezam
A alada guerra não,
Nem desdenham morar anos a fio
Sob o mastro sem folhas, onde à noite
Não há as luminárias da cidade,
Nem dança e música nativa.
Mas hoje aos Índios
Foram-se os homens,
Ali, na extremidade
Das montanhas cobertas de vinhas
Donde baixa o Dordonha,
Acaba o rio no Garona
Largo como o Oceano. Todavia
O mar toma e devolve a lembrança.
O amor também demora a olhar debalde.
O que perdura porém, fundam-no os poetas.
(Tradução de Manuel Bandeira)
O mais grato dos ventos:
Grato a mim porque é cálido, e aos marujos
Porque promete fácil travessia.
Eia, saúda agora
O formoso Garona
E os jardins de Bordéus
Lá coleia na íngreme ribeira
A vereda, e no rio
Se despenha o regato; mas acima
Olha o par generoso
De álamos e carvalhos.
Ainda me lembro bem e como
As largas copas curva
O olmedo sobre o moinho.
No pátio há uma figueira.
E nos dias feriados,
Pisando o chão sedoso
Passeiam mulheres morenas
No mês de março
Quanto o dia é igual à noite
E nos lentos caminhos
De áureos sonhos pejados
Sopram brisas embaladoras.
Mas estenda-me alguém,
Da escura luz repleto
O aromado copo
Para que eu possa descansar; pois doce
Seria o sono à sombra.
Também não fora bem
Privar-se de mortais
Pensamentos, que bom
É conversar; dizer
O que se sente, ouvir falar de amores,
De coisas passadas.
Porém que é dos amigos? Belarmino
E o companheiro? Muitos
Têm medo de ir à fonte.
É que a riqueza principia
No mar. Ora, eles
Reúnem como pintores
As belezas da terra e não desprezam
A alada guerra não,
Nem desdenham morar anos a fio
Sob o mastro sem folhas, onde à noite
Não há as luminárias da cidade,
Nem dança e música nativa.
Mas hoje aos Índios
Foram-se os homens,
Ali, na extremidade
Das montanhas cobertas de vinhas
Donde baixa o Dordonha,
Acaba o rio no Garona
Largo como o Oceano. Todavia
O mar toma e devolve a lembrança.
O amor também demora a olhar debalde.
O que perdura porém, fundam-no os poetas.
(Tradução de Manuel Bandeira)
1 306
Gaio Petrónio Árbitro
LECTO COMPOSITUS
Alongado no leito, e a noite silenciosa,
Mal eu cansados olhos ao repouso dava,
Quando o cruel Amor me agarra plos cabelos,
Me acorda e manda que em su honra eu vele.
Ó escravo meu, me diz, ó tu que a mil amaste,
Sozinho jazes só, ó duro peito, aqui?
Descalço e semi-nu, atiro-me pra fora,
Pelos caminhos vou, sem que caminho encontre.
E sigo sempre, e paro, e no parar hesito
Entre a vergonha de ir e o tédio de voltar.
Calam-se humanas vozes, e da rua os ruídos,
Ave nenhuma canta, e sequer ladram cães.
De tudo, apenas eu me atrevo a estar desperto,
Obedecendo ao império, Grande Amor, de ti.
Mal eu cansados olhos ao repouso dava,
Quando o cruel Amor me agarra plos cabelos,
Me acorda e manda que em su honra eu vele.
Ó escravo meu, me diz, ó tu que a mil amaste,
Sozinho jazes só, ó duro peito, aqui?
Descalço e semi-nu, atiro-me pra fora,
Pelos caminhos vou, sem que caminho encontre.
E sigo sempre, e paro, e no parar hesito
Entre a vergonha de ir e o tédio de voltar.
Calam-se humanas vozes, e da rua os ruídos,
Ave nenhuma canta, e sequer ladram cães.
De tudo, apenas eu me atrevo a estar desperto,
Obedecendo ao império, Grande Amor, de ti.
844
Anónimo Francês do Século IX
A MORTE DE ROLANDO
À sombra de um pinheiro, estende-se Rolando,
E volta para Espanha a sua face.
Muitas coisas começa a recordar:
As terras que, barão, tem conquistado,
A doce França, os seus iguais no sangue,
O Imperador, que proteção lhe deu,
Os franceses, dos quais é tanto amado.
E contra o seu querer, chora e suspira;
De si, porém, deseja se lembrar:
Bate no peito e pede a Deus perdão:
Ó verdadeiro Pai, que nunca mentes,
Que Lázaro da morte libertaste
E, dos leões, salvaste Daniel,
A minha alma preserva do perigo,
Pelos pecados que na vida fiz!
A Deus entrega a luva da direita,
São Gabriel a toma em sua mão.
A cabeça, no braço, reclinando,
De mãos postas, chegou ao fim da vida.
lhe envia Deus seu anjo querubim
E São Miguel-Arcanjo-do-Perigo;
Juntamente com ele vem Gabriel
E a alma do conde levam para o céu.
E volta para Espanha a sua face.
Muitas coisas começa a recordar:
As terras que, barão, tem conquistado,
A doce França, os seus iguais no sangue,
O Imperador, que proteção lhe deu,
Os franceses, dos quais é tanto amado.
E contra o seu querer, chora e suspira;
De si, porém, deseja se lembrar:
Bate no peito e pede a Deus perdão:
Ó verdadeiro Pai, que nunca mentes,
Que Lázaro da morte libertaste
E, dos leões, salvaste Daniel,
A minha alma preserva do perigo,
Pelos pecados que na vida fiz!
A Deus entrega a luva da direita,
São Gabriel a toma em sua mão.
A cabeça, no braço, reclinando,
De mãos postas, chegou ao fim da vida.
lhe envia Deus seu anjo querubim
E São Miguel-Arcanjo-do-Perigo;
Juntamente com ele vem Gabriel
E a alma do conde levam para o céu.
945
Robert Graves
BOMBARDEAMENTO NA ALVORADA
Canhões do mar atiram sobre nós:
Na casamata o fumo oscila opaco
E um clamor de perdição ascende.
Contamos, bendizemos cada novo abalo -
Cativos aguardando ser libertos.
Anjo visitador de cabeleira em fogo,
O qual em sonhos vinha às noites consolar-nos
Lá onde éramos a ferros,
De nós se ri, ao acordarmos - rostos
Tão tensos de esperança: as lágrimas os descem.
Na casamata o fumo oscila opaco
E um clamor de perdição ascende.
Contamos, bendizemos cada novo abalo -
Cativos aguardando ser libertos.
Anjo visitador de cabeleira em fogo,
O qual em sonhos vinha às noites consolar-nos
Lá onde éramos a ferros,
De nós se ri, ao acordarmos - rostos
Tão tensos de esperança: as lágrimas os descem.
1 064
Robert Graves
BOMBARDEAMENTO NA ALVORADA
Canhões do mar atiram sobre nós:
Na casamata o fumo oscila opaco
E um clamor de perdição ascende.
Contamos, bendizemos cada novo abalo -
Cativos aguardando ser libertos.
Anjo visitador de cabeleira em fogo,
O qual em sonhos vinha às noites consolar-nos
Lá onde éramos a ferros,
De nós se ri, ao acordarmos - rostos
Tão tensos de esperança: as lágrimas os descem.
Na casamata o fumo oscila opaco
E um clamor de perdição ascende.
Contamos, bendizemos cada novo abalo -
Cativos aguardando ser libertos.
Anjo visitador de cabeleira em fogo,
O qual em sonhos vinha às noites consolar-nos
Lá onde éramos a ferros,
De nós se ri, ao acordarmos - rostos
Tão tensos de esperança: as lágrimas os descem.
1 064
Roy Campbell
O DOBRAR DO CABO
Rasante o sol, e pálido de chuva;
As longas vagas pardas vão lá onde
Adamastor, de seus marmóreos paços,
Ameaça os lusitanos como outrora.
Confusa no claror, eis a audaz forma,
Sombra de abismo à qual como que vamos,
Por sobre este convés, de acima da tormenta,
Abrindo em promontórios a bocarra.
Incautos, abatemos por trás dela
Florestas; sangue derramámos ímpios.
Ainda o trovão nos diz as profecias
Cumpridas em silêncio pelos séculos.
Adeus, sombra medonha! Livre sigo
Mas tu das trevas és Senhor ainda:
Vejo o fantasma mergulhar no mar
De tudo o que adorei ou detestei.
A proa sulca suave os mares submissos,
Mas onde o cabo extremo desce ao fundo,
A terra jaz escura à luz da lua,
E a Noite, a Negra, em sono murmura.
As longas vagas pardas vão lá onde
Adamastor, de seus marmóreos paços,
Ameaça os lusitanos como outrora.
Confusa no claror, eis a audaz forma,
Sombra de abismo à qual como que vamos,
Por sobre este convés, de acima da tormenta,
Abrindo em promontórios a bocarra.
Incautos, abatemos por trás dela
Florestas; sangue derramámos ímpios.
Ainda o trovão nos diz as profecias
Cumpridas em silêncio pelos séculos.
Adeus, sombra medonha! Livre sigo
Mas tu das trevas és Senhor ainda:
Vejo o fantasma mergulhar no mar
De tudo o que adorei ou detestei.
A proa sulca suave os mares submissos,
Mas onde o cabo extremo desce ao fundo,
A terra jaz escura à luz da lua,
E a Noite, a Negra, em sono murmura.
939
Roy Campbell
LUÍS DE CAMÕES
Camões é quem de toda a raça lírica,
Nascido em negra aurora de desastre,
Pode a um soldado raso olhar de frente;
Encontro um camarada em vez de um mestre.
Pois, dia a dia, enquanto os crocodilos
Deslizam pela margem pantanosa,
Da minha barca ele compartilha o toldo,
E conta-me sorrindo uma igual vida.
Por chamas e naufrágios, pestes, perdas,
Do fogo-fátuo de servir levado
A uma morte de cão, rei de seus males
Ergueu bem alto a voluntária cruz,
E as dores moldou em formas de beleza,
Como à Gorgona fez cantar destinos
Nascido em negra aurora de desastre,
Pode a um soldado raso olhar de frente;
Encontro um camarada em vez de um mestre.
Pois, dia a dia, enquanto os crocodilos
Deslizam pela margem pantanosa,
Da minha barca ele compartilha o toldo,
E conta-me sorrindo uma igual vida.
Por chamas e naufrágios, pestes, perdas,
Do fogo-fátuo de servir levado
A uma morte de cão, rei de seus males
Ergueu bem alto a voluntária cruz,
E as dores moldou em formas de beleza,
Como à Gorgona fez cantar destinos
1 121
Alfred Edward Housman
EPITÁFIO PARA UM EXÉRCITO DE MERCENÁRIOS
Estes, no dia em qual o céu tombava,
E os pedestais do mundo se perderam,
O serem mercenários os chamava,
Receberam seus soldos e morreram.
Por seus ombros, os céus se suspendiam;
Firmes, e firme o pedestral inteiro;
Quão Deus abandonava, defendiam-
E salvaram as Coisas por dinheiro.
E os pedestais do mundo se perderam,
O serem mercenários os chamava,
Receberam seus soldos e morreram.
Por seus ombros, os céus se suspendiam;
Firmes, e firme o pedestral inteiro;
Quão Deus abandonava, defendiam-
E salvaram as Coisas por dinheiro.
1 457
Alfred Edward Housman
EPITÁFIO PARA UM EXÉRCITO DE MERCENÁRIOS
Estes, no dia em qual o céu tombava,
E os pedestais do mundo se perderam,
O serem mercenários os chamava,
Receberam seus soldos e morreram.
Por seus ombros, os céus se suspendiam;
Firmes, e firme o pedestral inteiro;
Quão Deus abandonava, defendiam-
E salvaram as Coisas por dinheiro.
E os pedestais do mundo se perderam,
O serem mercenários os chamava,
Receberam seus soldos e morreram.
Por seus ombros, os céus se suspendiam;
Firmes, e firme o pedestral inteiro;
Quão Deus abandonava, defendiam-
E salvaram as Coisas por dinheiro.
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Alfred Edward Housman
EPITÁFIO PARA UM EXÉRCITO DE MERCENÁRIOS
Estes, no dia em qual o céu tombava,
E os pedestais do mundo se perderam,
O serem mercenários os chamava,
Receberam seus soldos e morreram.
Por seus ombros, os céus se suspendiam;
Firmes, e firme o pedestral inteiro;
Quão Deus abandonava, defendiam-
E salvaram as Coisas por dinheiro.
E os pedestais do mundo se perderam,
O serem mercenários os chamava,
Receberam seus soldos e morreram.
Por seus ombros, os céus se suspendiam;
Firmes, e firme o pedestral inteiro;
Quão Deus abandonava, defendiam-
E salvaram as Coisas por dinheiro.
1 457
Gregório de Matos
FlNGINDO O POETA QUE ACODE PELAS HONRAS
DA CIDADE,ENTRA A FAZER JUSTIÇA EM SEUS
MORADORES, ASSINALANDO-LHES OS VICIOS,
EM QUE ALGUNS DELES SE DEPRAVAVAM
Uma cidade tão nobre,
uma gente tão honrada
veja-se um dia louvada
desde o mais rico ao mais pobre:
cada pessoa o seu cobre,
mas se o diabo me atiça,
que indo a fazer-lhe justiça
algum saia a justiçar,
não me poderão negar
que por direito, e por Lei
esta é a justiça, que manda El-Rei
O Fidalgo de solar
se dá por envergonhado
de um tostão pedir prestado
para o ventre sustentar:
diz que antes o quer furtar
por manter a negra honra,
que passar pela desonra
de que lhe neguem talvez;
mas se o virdes nas galés
com honras de Vice-Rei,
esta é a justiça, que manda El-Rei
A Donzela embiocada
mal trajada, e mal comida,
antes quer na sua vida
ter saia, que ser honrada:
à pública amancebada
por manter a negra honrinha,
e se lho sabe a vizinha
e lho ouve a clerezia,
dão com ela na enxovia
e paga a pena da lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A Casada com adorno,
e o Marido mal vestido,
crede que este tal Marido
penteia monho de corno:
se disser pelo contorno
que se sofre a Frei Tomás
por manter a honra o faz,
esperai pela pancada,
que com carocha pintada
de Angola há de ser Visrei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Os Letrados Peralvilhos
citando o mesmo Doutor
a fazer de réu o Autor
comem de ambos os carrinhos:
se se diz pelos corrilhos
sua prevaricação,
a desculpa, que lhe dão,
é a honra de seus parentes
e entonces os requerentes
fogem desta infame grei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Clérigo julgador,
que as causas julga sem pejo,
não reparando que eu vejo
que erra a Lei, e erra o Doutor:
quando vêem de Monsenhor
a sentença revogada
por saber que foi comprada
pelo jimbo, ou pelo abraço,
responde o Juiz madraço,
minha honra é minha Lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Mercador avarento,
quando a sua compra estende,
no que compra, e no que vende,
tira duzentos por cento:
não é ele tão jumento,
que não saiba que em Lisboa
se lhe há de dar na gamboa;
mas comido já o dinheiro
diz que a honra está primeiro,
e que honrado a toda Lei:
esta é justiça, que manda El-Rei.
A Viúva autorizada,
que não possui um vintém,
porque o Marido de bem
deixou a casa empenhada:
ali vai a fradalhada,
qual formiga em correição,
dizendo que à casa vão
manter a honra da casa;
se a virdes arder em brasa,
que ardeu a honra entendei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Adônis da manhã,
o Cupido em todo dia,
que anda correndo a coxia
com recadinhos da Irmã:
e se lhe cortam a lã,
diz que anda naquele andar
por a honra conservar
bem tratado, e bem vestido,
eu o verei tão despido,
que até as costas lhe verei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Se virdes um Dom Abade
sobre o púlpito cioso,
não lhe chameis religioso,
chamai-lhe embora de frade:
e se o tal paternidade
rouba as rendas do convento
para acudir ao sustento
da puta, como da peita,
com que livra da suspeita
do Geral, do Viso-Rei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
MORADORES, ASSINALANDO-LHES OS VICIOS,
EM QUE ALGUNS DELES SE DEPRAVAVAM
Uma cidade tão nobre,
uma gente tão honrada
veja-se um dia louvada
desde o mais rico ao mais pobre:
cada pessoa o seu cobre,
mas se o diabo me atiça,
que indo a fazer-lhe justiça
algum saia a justiçar,
não me poderão negar
que por direito, e por Lei
esta é a justiça, que manda El-Rei
O Fidalgo de solar
se dá por envergonhado
de um tostão pedir prestado
para o ventre sustentar:
diz que antes o quer furtar
por manter a negra honra,
que passar pela desonra
de que lhe neguem talvez;
mas se o virdes nas galés
com honras de Vice-Rei,
esta é a justiça, que manda El-Rei
A Donzela embiocada
mal trajada, e mal comida,
antes quer na sua vida
ter saia, que ser honrada:
à pública amancebada
por manter a negra honrinha,
e se lho sabe a vizinha
e lho ouve a clerezia,
dão com ela na enxovia
e paga a pena da lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A Casada com adorno,
e o Marido mal vestido,
crede que este tal Marido
penteia monho de corno:
se disser pelo contorno
que se sofre a Frei Tomás
por manter a honra o faz,
esperai pela pancada,
que com carocha pintada
de Angola há de ser Visrei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Os Letrados Peralvilhos
citando o mesmo Doutor
a fazer de réu o Autor
comem de ambos os carrinhos:
se se diz pelos corrilhos
sua prevaricação,
a desculpa, que lhe dão,
é a honra de seus parentes
e entonces os requerentes
fogem desta infame grei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Clérigo julgador,
que as causas julga sem pejo,
não reparando que eu vejo
que erra a Lei, e erra o Doutor:
quando vêem de Monsenhor
a sentença revogada
por saber que foi comprada
pelo jimbo, ou pelo abraço,
responde o Juiz madraço,
minha honra é minha Lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Mercador avarento,
quando a sua compra estende,
no que compra, e no que vende,
tira duzentos por cento:
não é ele tão jumento,
que não saiba que em Lisboa
se lhe há de dar na gamboa;
mas comido já o dinheiro
diz que a honra está primeiro,
e que honrado a toda Lei:
esta é justiça, que manda El-Rei.
A Viúva autorizada,
que não possui um vintém,
porque o Marido de bem
deixou a casa empenhada:
ali vai a fradalhada,
qual formiga em correição,
dizendo que à casa vão
manter a honra da casa;
se a virdes arder em brasa,
que ardeu a honra entendei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Adônis da manhã,
o Cupido em todo dia,
que anda correndo a coxia
com recadinhos da Irmã:
e se lhe cortam a lã,
diz que anda naquele andar
por a honra conservar
bem tratado, e bem vestido,
eu o verei tão despido,
que até as costas lhe verei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Se virdes um Dom Abade
sobre o púlpito cioso,
não lhe chameis religioso,
chamai-lhe embora de frade:
e se o tal paternidade
rouba as rendas do convento
para acudir ao sustento
da puta, como da peita,
com que livra da suspeita
do Geral, do Viso-Rei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
1 731
Gregório de Matos
FlNGINDO O POETA QUE ACODE PELAS HONRAS
DA CIDADE,ENTRA A FAZER JUSTIÇA EM SEUS
MORADORES, ASSINALANDO-LHES OS VICIOS,
EM QUE ALGUNS DELES SE DEPRAVAVAM
Uma cidade tão nobre,
uma gente tão honrada
veja-se um dia louvada
desde o mais rico ao mais pobre:
cada pessoa o seu cobre,
mas se o diabo me atiça,
que indo a fazer-lhe justiça
algum saia a justiçar,
não me poderão negar
que por direito, e por Lei
esta é a justiça, que manda El-Rei
O Fidalgo de solar
se dá por envergonhado
de um tostão pedir prestado
para o ventre sustentar:
diz que antes o quer furtar
por manter a negra honra,
que passar pela desonra
de que lhe neguem talvez;
mas se o virdes nas galés
com honras de Vice-Rei,
esta é a justiça, que manda El-Rei
A Donzela embiocada
mal trajada, e mal comida,
antes quer na sua vida
ter saia, que ser honrada:
à pública amancebada
por manter a negra honrinha,
e se lho sabe a vizinha
e lho ouve a clerezia,
dão com ela na enxovia
e paga a pena da lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A Casada com adorno,
e o Marido mal vestido,
crede que este tal Marido
penteia monho de corno:
se disser pelo contorno
que se sofre a Frei Tomás
por manter a honra o faz,
esperai pela pancada,
que com carocha pintada
de Angola há de ser Visrei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Os Letrados Peralvilhos
citando o mesmo Doutor
a fazer de réu o Autor
comem de ambos os carrinhos:
se se diz pelos corrilhos
sua prevaricação,
a desculpa, que lhe dão,
é a honra de seus parentes
e entonces os requerentes
fogem desta infame grei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Clérigo julgador,
que as causas julga sem pejo,
não reparando que eu vejo
que erra a Lei, e erra o Doutor:
quando vêem de Monsenhor
a sentença revogada
por saber que foi comprada
pelo jimbo, ou pelo abraço,
responde o Juiz madraço,
minha honra é minha Lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Mercador avarento,
quando a sua compra estende,
no que compra, e no que vende,
tira duzentos por cento:
não é ele tão jumento,
que não saiba que em Lisboa
se lhe há de dar na gamboa;
mas comido já o dinheiro
diz que a honra está primeiro,
e que honrado a toda Lei:
esta é justiça, que manda El-Rei.
A Viúva autorizada,
que não possui um vintém,
porque o Marido de bem
deixou a casa empenhada:
ali vai a fradalhada,
qual formiga em correição,
dizendo que à casa vão
manter a honra da casa;
se a virdes arder em brasa,
que ardeu a honra entendei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Adônis da manhã,
o Cupido em todo dia,
que anda correndo a coxia
com recadinhos da Irmã:
e se lhe cortam a lã,
diz que anda naquele andar
por a honra conservar
bem tratado, e bem vestido,
eu o verei tão despido,
que até as costas lhe verei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Se virdes um Dom Abade
sobre o púlpito cioso,
não lhe chameis religioso,
chamai-lhe embora de frade:
e se o tal paternidade
rouba as rendas do convento
para acudir ao sustento
da puta, como da peita,
com que livra da suspeita
do Geral, do Viso-Rei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
MORADORES, ASSINALANDO-LHES OS VICIOS,
EM QUE ALGUNS DELES SE DEPRAVAVAM
Uma cidade tão nobre,
uma gente tão honrada
veja-se um dia louvada
desde o mais rico ao mais pobre:
cada pessoa o seu cobre,
mas se o diabo me atiça,
que indo a fazer-lhe justiça
algum saia a justiçar,
não me poderão negar
que por direito, e por Lei
esta é a justiça, que manda El-Rei
O Fidalgo de solar
se dá por envergonhado
de um tostão pedir prestado
para o ventre sustentar:
diz que antes o quer furtar
por manter a negra honra,
que passar pela desonra
de que lhe neguem talvez;
mas se o virdes nas galés
com honras de Vice-Rei,
esta é a justiça, que manda El-Rei
A Donzela embiocada
mal trajada, e mal comida,
antes quer na sua vida
ter saia, que ser honrada:
à pública amancebada
por manter a negra honrinha,
e se lho sabe a vizinha
e lho ouve a clerezia,
dão com ela na enxovia
e paga a pena da lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A Casada com adorno,
e o Marido mal vestido,
crede que este tal Marido
penteia monho de corno:
se disser pelo contorno
que se sofre a Frei Tomás
por manter a honra o faz,
esperai pela pancada,
que com carocha pintada
de Angola há de ser Visrei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Os Letrados Peralvilhos
citando o mesmo Doutor
a fazer de réu o Autor
comem de ambos os carrinhos:
se se diz pelos corrilhos
sua prevaricação,
a desculpa, que lhe dão,
é a honra de seus parentes
e entonces os requerentes
fogem desta infame grei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Clérigo julgador,
que as causas julga sem pejo,
não reparando que eu vejo
que erra a Lei, e erra o Doutor:
quando vêem de Monsenhor
a sentença revogada
por saber que foi comprada
pelo jimbo, ou pelo abraço,
responde o Juiz madraço,
minha honra é minha Lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Mercador avarento,
quando a sua compra estende,
no que compra, e no que vende,
tira duzentos por cento:
não é ele tão jumento,
que não saiba que em Lisboa
se lhe há de dar na gamboa;
mas comido já o dinheiro
diz que a honra está primeiro,
e que honrado a toda Lei:
esta é justiça, que manda El-Rei.
A Viúva autorizada,
que não possui um vintém,
porque o Marido de bem
deixou a casa empenhada:
ali vai a fradalhada,
qual formiga em correição,
dizendo que à casa vão
manter a honra da casa;
se a virdes arder em brasa,
que ardeu a honra entendei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Adônis da manhã,
o Cupido em todo dia,
que anda correndo a coxia
com recadinhos da Irmã:
e se lhe cortam a lã,
diz que anda naquele andar
por a honra conservar
bem tratado, e bem vestido,
eu o verei tão despido,
que até as costas lhe verei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Se virdes um Dom Abade
sobre o púlpito cioso,
não lhe chameis religioso,
chamai-lhe embora de frade:
e se o tal paternidade
rouba as rendas do convento
para acudir ao sustento
da puta, como da peita,
com que livra da suspeita
do Geral, do Viso-Rei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
1 731
Gregório de Matos
FlNGINDO O POETA QUE ACODE PELAS HONRAS
DA CIDADE,ENTRA A FAZER JUSTIÇA EM SEUS
MORADORES, ASSINALANDO-LHES OS VICIOS,
EM QUE ALGUNS DELES SE DEPRAVAVAM
Uma cidade tão nobre,
uma gente tão honrada
veja-se um dia louvada
desde o mais rico ao mais pobre:
cada pessoa o seu cobre,
mas se o diabo me atiça,
que indo a fazer-lhe justiça
algum saia a justiçar,
não me poderão negar
que por direito, e por Lei
esta é a justiça, que manda El-Rei
O Fidalgo de solar
se dá por envergonhado
de um tostão pedir prestado
para o ventre sustentar:
diz que antes o quer furtar
por manter a negra honra,
que passar pela desonra
de que lhe neguem talvez;
mas se o virdes nas galés
com honras de Vice-Rei,
esta é a justiça, que manda El-Rei
A Donzela embiocada
mal trajada, e mal comida,
antes quer na sua vida
ter saia, que ser honrada:
à pública amancebada
por manter a negra honrinha,
e se lho sabe a vizinha
e lho ouve a clerezia,
dão com ela na enxovia
e paga a pena da lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A Casada com adorno,
e o Marido mal vestido,
crede que este tal Marido
penteia monho de corno:
se disser pelo contorno
que se sofre a Frei Tomás
por manter a honra o faz,
esperai pela pancada,
que com carocha pintada
de Angola há de ser Visrei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Os Letrados Peralvilhos
citando o mesmo Doutor
a fazer de réu o Autor
comem de ambos os carrinhos:
se se diz pelos corrilhos
sua prevaricação,
a desculpa, que lhe dão,
é a honra de seus parentes
e entonces os requerentes
fogem desta infame grei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Clérigo julgador,
que as causas julga sem pejo,
não reparando que eu vejo
que erra a Lei, e erra o Doutor:
quando vêem de Monsenhor
a sentença revogada
por saber que foi comprada
pelo jimbo, ou pelo abraço,
responde o Juiz madraço,
minha honra é minha Lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Mercador avarento,
quando a sua compra estende,
no que compra, e no que vende,
tira duzentos por cento:
não é ele tão jumento,
que não saiba que em Lisboa
se lhe há de dar na gamboa;
mas comido já o dinheiro
diz que a honra está primeiro,
e que honrado a toda Lei:
esta é justiça, que manda El-Rei.
A Viúva autorizada,
que não possui um vintém,
porque o Marido de bem
deixou a casa empenhada:
ali vai a fradalhada,
qual formiga em correição,
dizendo que à casa vão
manter a honra da casa;
se a virdes arder em brasa,
que ardeu a honra entendei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Adônis da manhã,
o Cupido em todo dia,
que anda correndo a coxia
com recadinhos da Irmã:
e se lhe cortam a lã,
diz que anda naquele andar
por a honra conservar
bem tratado, e bem vestido,
eu o verei tão despido,
que até as costas lhe verei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Se virdes um Dom Abade
sobre o púlpito cioso,
não lhe chameis religioso,
chamai-lhe embora de frade:
e se o tal paternidade
rouba as rendas do convento
para acudir ao sustento
da puta, como da peita,
com que livra da suspeita
do Geral, do Viso-Rei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
MORADORES, ASSINALANDO-LHES OS VICIOS,
EM QUE ALGUNS DELES SE DEPRAVAVAM
Uma cidade tão nobre,
uma gente tão honrada
veja-se um dia louvada
desde o mais rico ao mais pobre:
cada pessoa o seu cobre,
mas se o diabo me atiça,
que indo a fazer-lhe justiça
algum saia a justiçar,
não me poderão negar
que por direito, e por Lei
esta é a justiça, que manda El-Rei
O Fidalgo de solar
se dá por envergonhado
de um tostão pedir prestado
para o ventre sustentar:
diz que antes o quer furtar
por manter a negra honra,
que passar pela desonra
de que lhe neguem talvez;
mas se o virdes nas galés
com honras de Vice-Rei,
esta é a justiça, que manda El-Rei
A Donzela embiocada
mal trajada, e mal comida,
antes quer na sua vida
ter saia, que ser honrada:
à pública amancebada
por manter a negra honrinha,
e se lho sabe a vizinha
e lho ouve a clerezia,
dão com ela na enxovia
e paga a pena da lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A Casada com adorno,
e o Marido mal vestido,
crede que este tal Marido
penteia monho de corno:
se disser pelo contorno
que se sofre a Frei Tomás
por manter a honra o faz,
esperai pela pancada,
que com carocha pintada
de Angola há de ser Visrei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Os Letrados Peralvilhos
citando o mesmo Doutor
a fazer de réu o Autor
comem de ambos os carrinhos:
se se diz pelos corrilhos
sua prevaricação,
a desculpa, que lhe dão,
é a honra de seus parentes
e entonces os requerentes
fogem desta infame grei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Clérigo julgador,
que as causas julga sem pejo,
não reparando que eu vejo
que erra a Lei, e erra o Doutor:
quando vêem de Monsenhor
a sentença revogada
por saber que foi comprada
pelo jimbo, ou pelo abraço,
responde o Juiz madraço,
minha honra é minha Lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Mercador avarento,
quando a sua compra estende,
no que compra, e no que vende,
tira duzentos por cento:
não é ele tão jumento,
que não saiba que em Lisboa
se lhe há de dar na gamboa;
mas comido já o dinheiro
diz que a honra está primeiro,
e que honrado a toda Lei:
esta é justiça, que manda El-Rei.
A Viúva autorizada,
que não possui um vintém,
porque o Marido de bem
deixou a casa empenhada:
ali vai a fradalhada,
qual formiga em correição,
dizendo que à casa vão
manter a honra da casa;
se a virdes arder em brasa,
que ardeu a honra entendei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Adônis da manhã,
o Cupido em todo dia,
que anda correndo a coxia
com recadinhos da Irmã:
e se lhe cortam a lã,
diz que anda naquele andar
por a honra conservar
bem tratado, e bem vestido,
eu o verei tão despido,
que até as costas lhe verei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Se virdes um Dom Abade
sobre o púlpito cioso,
não lhe chameis religioso,
chamai-lhe embora de frade:
e se o tal paternidade
rouba as rendas do convento
para acudir ao sustento
da puta, como da peita,
com que livra da suspeita
do Geral, do Viso-Rei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
1 731
Gregório de Matos
FlNGINDO O POETA QUE ACODE PELAS HONRAS
DA CIDADE,ENTRA A FAZER JUSTIÇA EM SEUS
MORADORES, ASSINALANDO-LHES OS VICIOS,
EM QUE ALGUNS DELES SE DEPRAVAVAM
Uma cidade tão nobre,
uma gente tão honrada
veja-se um dia louvada
desde o mais rico ao mais pobre:
cada pessoa o seu cobre,
mas se o diabo me atiça,
que indo a fazer-lhe justiça
algum saia a justiçar,
não me poderão negar
que por direito, e por Lei
esta é a justiça, que manda El-Rei
O Fidalgo de solar
se dá por envergonhado
de um tostão pedir prestado
para o ventre sustentar:
diz que antes o quer furtar
por manter a negra honra,
que passar pela desonra
de que lhe neguem talvez;
mas se o virdes nas galés
com honras de Vice-Rei,
esta é a justiça, que manda El-Rei
A Donzela embiocada
mal trajada, e mal comida,
antes quer na sua vida
ter saia, que ser honrada:
à pública amancebada
por manter a negra honrinha,
e se lho sabe a vizinha
e lho ouve a clerezia,
dão com ela na enxovia
e paga a pena da lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A Casada com adorno,
e o Marido mal vestido,
crede que este tal Marido
penteia monho de corno:
se disser pelo contorno
que se sofre a Frei Tomás
por manter a honra o faz,
esperai pela pancada,
que com carocha pintada
de Angola há de ser Visrei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Os Letrados Peralvilhos
citando o mesmo Doutor
a fazer de réu o Autor
comem de ambos os carrinhos:
se se diz pelos corrilhos
sua prevaricação,
a desculpa, que lhe dão,
é a honra de seus parentes
e entonces os requerentes
fogem desta infame grei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Clérigo julgador,
que as causas julga sem pejo,
não reparando que eu vejo
que erra a Lei, e erra o Doutor:
quando vêem de Monsenhor
a sentença revogada
por saber que foi comprada
pelo jimbo, ou pelo abraço,
responde o Juiz madraço,
minha honra é minha Lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Mercador avarento,
quando a sua compra estende,
no que compra, e no que vende,
tira duzentos por cento:
não é ele tão jumento,
que não saiba que em Lisboa
se lhe há de dar na gamboa;
mas comido já o dinheiro
diz que a honra está primeiro,
e que honrado a toda Lei:
esta é justiça, que manda El-Rei.
A Viúva autorizada,
que não possui um vintém,
porque o Marido de bem
deixou a casa empenhada:
ali vai a fradalhada,
qual formiga em correição,
dizendo que à casa vão
manter a honra da casa;
se a virdes arder em brasa,
que ardeu a honra entendei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Adônis da manhã,
o Cupido em todo dia,
que anda correndo a coxia
com recadinhos da Irmã:
e se lhe cortam a lã,
diz que anda naquele andar
por a honra conservar
bem tratado, e bem vestido,
eu o verei tão despido,
que até as costas lhe verei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Se virdes um Dom Abade
sobre o púlpito cioso,
não lhe chameis religioso,
chamai-lhe embora de frade:
e se o tal paternidade
rouba as rendas do convento
para acudir ao sustento
da puta, como da peita,
com que livra da suspeita
do Geral, do Viso-Rei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
MORADORES, ASSINALANDO-LHES OS VICIOS,
EM QUE ALGUNS DELES SE DEPRAVAVAM
Uma cidade tão nobre,
uma gente tão honrada
veja-se um dia louvada
desde o mais rico ao mais pobre:
cada pessoa o seu cobre,
mas se o diabo me atiça,
que indo a fazer-lhe justiça
algum saia a justiçar,
não me poderão negar
que por direito, e por Lei
esta é a justiça, que manda El-Rei
O Fidalgo de solar
se dá por envergonhado
de um tostão pedir prestado
para o ventre sustentar:
diz que antes o quer furtar
por manter a negra honra,
que passar pela desonra
de que lhe neguem talvez;
mas se o virdes nas galés
com honras de Vice-Rei,
esta é a justiça, que manda El-Rei
A Donzela embiocada
mal trajada, e mal comida,
antes quer na sua vida
ter saia, que ser honrada:
à pública amancebada
por manter a negra honrinha,
e se lho sabe a vizinha
e lho ouve a clerezia,
dão com ela na enxovia
e paga a pena da lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A Casada com adorno,
e o Marido mal vestido,
crede que este tal Marido
penteia monho de corno:
se disser pelo contorno
que se sofre a Frei Tomás
por manter a honra o faz,
esperai pela pancada,
que com carocha pintada
de Angola há de ser Visrei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Os Letrados Peralvilhos
citando o mesmo Doutor
a fazer de réu o Autor
comem de ambos os carrinhos:
se se diz pelos corrilhos
sua prevaricação,
a desculpa, que lhe dão,
é a honra de seus parentes
e entonces os requerentes
fogem desta infame grei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Clérigo julgador,
que as causas julga sem pejo,
não reparando que eu vejo
que erra a Lei, e erra o Doutor:
quando vêem de Monsenhor
a sentença revogada
por saber que foi comprada
pelo jimbo, ou pelo abraço,
responde o Juiz madraço,
minha honra é minha Lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Mercador avarento,
quando a sua compra estende,
no que compra, e no que vende,
tira duzentos por cento:
não é ele tão jumento,
que não saiba que em Lisboa
se lhe há de dar na gamboa;
mas comido já o dinheiro
diz que a honra está primeiro,
e que honrado a toda Lei:
esta é justiça, que manda El-Rei.
A Viúva autorizada,
que não possui um vintém,
porque o Marido de bem
deixou a casa empenhada:
ali vai a fradalhada,
qual formiga em correição,
dizendo que à casa vão
manter a honra da casa;
se a virdes arder em brasa,
que ardeu a honra entendei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Adônis da manhã,
o Cupido em todo dia,
que anda correndo a coxia
com recadinhos da Irmã:
e se lhe cortam a lã,
diz que anda naquele andar
por a honra conservar
bem tratado, e bem vestido,
eu o verei tão despido,
que até as costas lhe verei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Se virdes um Dom Abade
sobre o púlpito cioso,
não lhe chameis religioso,
chamai-lhe embora de frade:
e se o tal paternidade
rouba as rendas do convento
para acudir ao sustento
da puta, como da peita,
com que livra da suspeita
do Geral, do Viso-Rei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
1 731
Gregório de Matos
FlNGINDO O POETA QUE ACODE PELAS HONRAS
DA CIDADE,ENTRA A FAZER JUSTIÇA EM SEUS
MORADORES, ASSINALANDO-LHES OS VICIOS,
EM QUE ALGUNS DELES SE DEPRAVAVAM
Uma cidade tão nobre,
uma gente tão honrada
veja-se um dia louvada
desde o mais rico ao mais pobre:
cada pessoa o seu cobre,
mas se o diabo me atiça,
que indo a fazer-lhe justiça
algum saia a justiçar,
não me poderão negar
que por direito, e por Lei
esta é a justiça, que manda El-Rei
O Fidalgo de solar
se dá por envergonhado
de um tostão pedir prestado
para o ventre sustentar:
diz que antes o quer furtar
por manter a negra honra,
que passar pela desonra
de que lhe neguem talvez;
mas se o virdes nas galés
com honras de Vice-Rei,
esta é a justiça, que manda El-Rei
A Donzela embiocada
mal trajada, e mal comida,
antes quer na sua vida
ter saia, que ser honrada:
à pública amancebada
por manter a negra honrinha,
e se lho sabe a vizinha
e lho ouve a clerezia,
dão com ela na enxovia
e paga a pena da lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A Casada com adorno,
e o Marido mal vestido,
crede que este tal Marido
penteia monho de corno:
se disser pelo contorno
que se sofre a Frei Tomás
por manter a honra o faz,
esperai pela pancada,
que com carocha pintada
de Angola há de ser Visrei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Os Letrados Peralvilhos
citando o mesmo Doutor
a fazer de réu o Autor
comem de ambos os carrinhos:
se se diz pelos corrilhos
sua prevaricação,
a desculpa, que lhe dão,
é a honra de seus parentes
e entonces os requerentes
fogem desta infame grei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Clérigo julgador,
que as causas julga sem pejo,
não reparando que eu vejo
que erra a Lei, e erra o Doutor:
quando vêem de Monsenhor
a sentença revogada
por saber que foi comprada
pelo jimbo, ou pelo abraço,
responde o Juiz madraço,
minha honra é minha Lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Mercador avarento,
quando a sua compra estende,
no que compra, e no que vende,
tira duzentos por cento:
não é ele tão jumento,
que não saiba que em Lisboa
se lhe há de dar na gamboa;
mas comido já o dinheiro
diz que a honra está primeiro,
e que honrado a toda Lei:
esta é justiça, que manda El-Rei.
A Viúva autorizada,
que não possui um vintém,
porque o Marido de bem
deixou a casa empenhada:
ali vai a fradalhada,
qual formiga em correição,
dizendo que à casa vão
manter a honra da casa;
se a virdes arder em brasa,
que ardeu a honra entendei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Adônis da manhã,
o Cupido em todo dia,
que anda correndo a coxia
com recadinhos da Irmã:
e se lhe cortam a lã,
diz que anda naquele andar
por a honra conservar
bem tratado, e bem vestido,
eu o verei tão despido,
que até as costas lhe verei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Se virdes um Dom Abade
sobre o púlpito cioso,
não lhe chameis religioso,
chamai-lhe embora de frade:
e se o tal paternidade
rouba as rendas do convento
para acudir ao sustento
da puta, como da peita,
com que livra da suspeita
do Geral, do Viso-Rei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
MORADORES, ASSINALANDO-LHES OS VICIOS,
EM QUE ALGUNS DELES SE DEPRAVAVAM
Uma cidade tão nobre,
uma gente tão honrada
veja-se um dia louvada
desde o mais rico ao mais pobre:
cada pessoa o seu cobre,
mas se o diabo me atiça,
que indo a fazer-lhe justiça
algum saia a justiçar,
não me poderão negar
que por direito, e por Lei
esta é a justiça, que manda El-Rei
O Fidalgo de solar
se dá por envergonhado
de um tostão pedir prestado
para o ventre sustentar:
diz que antes o quer furtar
por manter a negra honra,
que passar pela desonra
de que lhe neguem talvez;
mas se o virdes nas galés
com honras de Vice-Rei,
esta é a justiça, que manda El-Rei
A Donzela embiocada
mal trajada, e mal comida,
antes quer na sua vida
ter saia, que ser honrada:
à pública amancebada
por manter a negra honrinha,
e se lho sabe a vizinha
e lho ouve a clerezia,
dão com ela na enxovia
e paga a pena da lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A Casada com adorno,
e o Marido mal vestido,
crede que este tal Marido
penteia monho de corno:
se disser pelo contorno
que se sofre a Frei Tomás
por manter a honra o faz,
esperai pela pancada,
que com carocha pintada
de Angola há de ser Visrei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Os Letrados Peralvilhos
citando o mesmo Doutor
a fazer de réu o Autor
comem de ambos os carrinhos:
se se diz pelos corrilhos
sua prevaricação,
a desculpa, que lhe dão,
é a honra de seus parentes
e entonces os requerentes
fogem desta infame grei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Clérigo julgador,
que as causas julga sem pejo,
não reparando que eu vejo
que erra a Lei, e erra o Doutor:
quando vêem de Monsenhor
a sentença revogada
por saber que foi comprada
pelo jimbo, ou pelo abraço,
responde o Juiz madraço,
minha honra é minha Lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Mercador avarento,
quando a sua compra estende,
no que compra, e no que vende,
tira duzentos por cento:
não é ele tão jumento,
que não saiba que em Lisboa
se lhe há de dar na gamboa;
mas comido já o dinheiro
diz que a honra está primeiro,
e que honrado a toda Lei:
esta é justiça, que manda El-Rei.
A Viúva autorizada,
que não possui um vintém,
porque o Marido de bem
deixou a casa empenhada:
ali vai a fradalhada,
qual formiga em correição,
dizendo que à casa vão
manter a honra da casa;
se a virdes arder em brasa,
que ardeu a honra entendei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Adônis da manhã,
o Cupido em todo dia,
que anda correndo a coxia
com recadinhos da Irmã:
e se lhe cortam a lã,
diz que anda naquele andar
por a honra conservar
bem tratado, e bem vestido,
eu o verei tão despido,
que até as costas lhe verei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Se virdes um Dom Abade
sobre o púlpito cioso,
não lhe chameis religioso,
chamai-lhe embora de frade:
e se o tal paternidade
rouba as rendas do convento
para acudir ao sustento
da puta, como da peita,
com que livra da suspeita
do Geral, do Viso-Rei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
1 731
Joachim Du Bellay
Ó FRANÇA, MÃE DAS LEIS
O França, mãe das leis, das artes e das lutas,
O leite do teu seio amamentou-me outrora:
Em busca do redil, como um cordeiro, agora,
Teu nome eu vou dizendo às florestas e às grutas.
Então, cruel, por que sem resposta me deixas,
Se, como filho teu, já fui reconhecido?
França, França, responde a meu triste gemido.
Somente me responde o eco das minhas queixas.
Entre os lobos cruéis, os campos percorrendo,
Sinto chegar o inverno, o seu gelo trazendo
A meu corpo transido arrepio tamanho.
A cordeiro nenhum tem faltado alimento,
Nenhum receia o lobo, a friagem e o vento:
E no entanto não sou a escória do rebanho.
O leite do teu seio amamentou-me outrora:
Em busca do redil, como um cordeiro, agora,
Teu nome eu vou dizendo às florestas e às grutas.
Então, cruel, por que sem resposta me deixas,
Se, como filho teu, já fui reconhecido?
França, França, responde a meu triste gemido.
Somente me responde o eco das minhas queixas.
Entre os lobos cruéis, os campos percorrendo,
Sinto chegar o inverno, o seu gelo trazendo
A meu corpo transido arrepio tamanho.
A cordeiro nenhum tem faltado alimento,
Nenhum receia o lobo, a friagem e o vento:
E no entanto não sou a escória do rebanho.
1 180
Emily Dickinson
À PORTA DE DEUS
Duas vezes perdi tudo
E foi debaixo da terra.
Duas vezes parei mendiga
Á porta de Deus.
Duas vezes os anjos, descendo dos céus,
Reembolsaram-me de minhas provisões.
Ladrão, banqueiro, pai,
Estou pobre mais uma vez!
E foi debaixo da terra.
Duas vezes parei mendiga
Á porta de Deus.
Duas vezes os anjos, descendo dos céus,
Reembolsaram-me de minhas provisões.
Ladrão, banqueiro, pai,
Estou pobre mais uma vez!
1 945
Emily Dickinson
À PORTA DE DEUS
Duas vezes perdi tudo
E foi debaixo da terra.
Duas vezes parei mendiga
Á porta de Deus.
Duas vezes os anjos, descendo dos céus,
Reembolsaram-me de minhas provisões.
Ladrão, banqueiro, pai,
Estou pobre mais uma vez!
E foi debaixo da terra.
Duas vezes parei mendiga
Á porta de Deus.
Duas vezes os anjos, descendo dos céus,
Reembolsaram-me de minhas provisões.
Ladrão, banqueiro, pai,
Estou pobre mais uma vez!
1 945
Caio Valério Catulo
13
13
Hás de jantar bem, Fabulo meu, em breve
na minha casa, se os deuses te ajudarem;
se contigo vier boa, farta janta e uma
jovem bonita com vinho e sal no riso.
Como se diz, meu caro amigo, isto provido,
hás de jantar bem, pois teu Catulo traz
a bolsa repleta de teias de aranha.
Em troca terás uma afeição singela
ou o que é mais suave e elegante ainda:
eu te ofertarei o perfume que à minha
jovem deram Vênus e seus Amores:
ao cheirá-lo, haverás de rogar aos deuses
que de ti façam, Fabulo, só nariz.
Hás de jantar bem, Fabulo meu, em breve
na minha casa, se os deuses te ajudarem;
se contigo vier boa, farta janta e uma
jovem bonita com vinho e sal no riso.
Como se diz, meu caro amigo, isto provido,
hás de jantar bem, pois teu Catulo traz
a bolsa repleta de teias de aranha.
Em troca terás uma afeição singela
ou o que é mais suave e elegante ainda:
eu te ofertarei o perfume que à minha
jovem deram Vênus e seus Amores:
ao cheirá-lo, haverás de rogar aos deuses
que de ti façam, Fabulo, só nariz.
1 367
Maria do Carmo Lobato
Sina
Nasci
Com a predestinação
de ser uma mulher perdida
E cedo me perdi,
E fiquei perdida,
Virando e revirando
Um mundo muito mais
Perdido do que eu,
Exatamente por estar
Com a plena certeza
De me ter encontrado
E me prostituindo cada vez mais,
Na castidade postiça
E impingida,
Infinitamente mais,
Do que na minha
Devassidão inata.
E conheci a nata
Do Santo Meretrício
E conheci o amálgama
E a podridão
Do meretrício santificado
E purificado
E dei muito duro
Para ele me libertar
E me desacorrentar
E poder encontrar
O bordel da minha preferência,
O meu bordel,
Onde, na pontualidade
Da minha presença
Diária e determinada,
Pude encontrar
A minha ausência,
A ausência da minha castidade,
Que nunca existiu
E que me transpareceu
Na pureza da presença
Da minha própria prostituição
E do meu sentimento
Liberto e autêntico.
Com a predestinação
de ser uma mulher perdida
E cedo me perdi,
E fiquei perdida,
Virando e revirando
Um mundo muito mais
Perdido do que eu,
Exatamente por estar
Com a plena certeza
De me ter encontrado
E me prostituindo cada vez mais,
Na castidade postiça
E impingida,
Infinitamente mais,
Do que na minha
Devassidão inata.
E conheci a nata
Do Santo Meretrício
E conheci o amálgama
E a podridão
Do meretrício santificado
E purificado
E dei muito duro
Para ele me libertar
E me desacorrentar
E poder encontrar
O bordel da minha preferência,
O meu bordel,
Onde, na pontualidade
Da minha presença
Diária e determinada,
Pude encontrar
A minha ausência,
A ausência da minha castidade,
Que nunca existiu
E que me transpareceu
Na pureza da presença
Da minha própria prostituição
E do meu sentimento
Liberto e autêntico.
1 021
Ricardo Kelmer
Quanto você paga?
Você me olha desse jeito, pensa que eu não sei
Que você quer me comprar
Mas eu não estou à venda, meu bem
O que está à venda é o seu sonho de ter
O que você pode pagar
Quanto você paga, meu amor, pra eu nunca dizer não?
Quanto você paga pra eu roubar seu coração?
Quanto você paga pra eu dizer coisas que sua mulher não diz?
Quanto você paga, meu amor, pra eu te fazer feliz?
Que você quer me comprar
Mas eu não estou à venda, meu bem
O que está à venda é o seu sonho de ter
O que você pode pagar
Quanto você paga, meu amor, pra eu nunca dizer não?
Quanto você paga pra eu roubar seu coração?
Quanto você paga pra eu dizer coisas que sua mulher não diz?
Quanto você paga, meu amor, pra eu te fazer feliz?
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