Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Gonçalves de Magalhães
Ode à Despedida de Mr J B Debret
Pela Pátria, e por mim a voz desprendo
Ao som da lira que a saudade empunha;
Verdade, e gratidão guiam meu canto,
Não sórdida cobiça
Debret, digno Francês, Pintor preclaro,
Caro Amigo; Homem firme, sábio Mestre,
Eu te agradeço os bens, que tu fizeste
A mim, e à Pátria minha.
De um bom filho é dever ao pai ser útil;
Mas de homem o dever é ser a todos:
Assaz útil nos fôste, assaz nos deste
De homem, de amigo provas.
Saudosa a tua Pátria ora te chama,
E para receber-te estende os braços;
Chama-te a Pátria, não hesites, cumpre
Os deveres de filho.
Deixa embora o Brasil, que tanto prezas;
Não mais encares suas belas cenas;
Sei que ele é sedutor, que tem encantos
Que os alvedrios prendem.
Sei quanto no meu peito a Pátria impera,
Que mais o meu amor subir não pode;
Como pois poderei aconselhar-te
Que a tua Pátria deixes?
Ah não! não se dirá, que um Brasileiro
A tanto se atreveu; embora, embora
Não honre o teu pincel a nossa história,
Nem as nossas paisagens.
Tu conheces meu peito, assaz tu sabes
Que honra, e virtude assim n'alma me gritam.
Indócil coração eu não possuo,
Indiferente a tudo.
Morno pesar me enluta, e me profliga
Agora que o Brasil, e a mim tu deixas.
Ah não condenes que entrecorte o canto
Com ais, e com suspiros.
Em nossos corações agradecidos
Tu soubeste, oh Debret, gravar teu nome,
E neles viverás, enquanto as Artes
Amadores tiverem.
(...)
Sim, oh Debret, será teu nome eterno;
E quando outro penhor tu nos não desses,
Um Araújo só bastante fôra
Para honra tua, e nossa.
(...)
Mas outros deixas monumentos vivos;
Existem os Carvalhos, e os Arrudas,
Que a muda Natureza em breves quadros
Mimosos representam.
Oxalá que eu também sem desonrar-te
Que teu discíp'lo fui dizer pudesse;
Mas ao menos direi, sou teu amigo,
E basta-me tal glória.
Se este fraco tributo de amizade
For aos olhos do Mundo apresentado,
Conheça o quanto a gratidão domina
No peito Brasileiro.
Imagem - 00410006
Publicado no livro Poesias (1832).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
Ao som da lira que a saudade empunha;
Verdade, e gratidão guiam meu canto,
Não sórdida cobiça
Debret, digno Francês, Pintor preclaro,
Caro Amigo; Homem firme, sábio Mestre,
Eu te agradeço os bens, que tu fizeste
A mim, e à Pátria minha.
De um bom filho é dever ao pai ser útil;
Mas de homem o dever é ser a todos:
Assaz útil nos fôste, assaz nos deste
De homem, de amigo provas.
Saudosa a tua Pátria ora te chama,
E para receber-te estende os braços;
Chama-te a Pátria, não hesites, cumpre
Os deveres de filho.
Deixa embora o Brasil, que tanto prezas;
Não mais encares suas belas cenas;
Sei que ele é sedutor, que tem encantos
Que os alvedrios prendem.
Sei quanto no meu peito a Pátria impera,
Que mais o meu amor subir não pode;
Como pois poderei aconselhar-te
Que a tua Pátria deixes?
Ah não! não se dirá, que um Brasileiro
A tanto se atreveu; embora, embora
Não honre o teu pincel a nossa história,
Nem as nossas paisagens.
Tu conheces meu peito, assaz tu sabes
Que honra, e virtude assim n'alma me gritam.
Indócil coração eu não possuo,
Indiferente a tudo.
Morno pesar me enluta, e me profliga
Agora que o Brasil, e a mim tu deixas.
Ah não condenes que entrecorte o canto
Com ais, e com suspiros.
Em nossos corações agradecidos
Tu soubeste, oh Debret, gravar teu nome,
E neles viverás, enquanto as Artes
Amadores tiverem.
(...)
Sim, oh Debret, será teu nome eterno;
E quando outro penhor tu nos não desses,
Um Araújo só bastante fôra
Para honra tua, e nossa.
(...)
Mas outros deixas monumentos vivos;
Existem os Carvalhos, e os Arrudas,
Que a muda Natureza em breves quadros
Mimosos representam.
Oxalá que eu também sem desonrar-te
Que teu discíp'lo fui dizer pudesse;
Mas ao menos direi, sou teu amigo,
E basta-me tal glória.
Se este fraco tributo de amizade
For aos olhos do Mundo apresentado,
Conheça o quanto a gratidão domina
No peito Brasileiro.
Imagem - 00410006
Publicado no livro Poesias (1832).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
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Ulisses Tavares
Maravilhas da Fauna
Vacas de açougue,
tigres de circo,
patos que apitam,
peixes contaminados,
aves sem pés nem cabeça
quietas no supermercado.
In: TAVARES, Ulisses. Caindo na real. Il. Angeli. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.60. (Jovens do mundo todo
tigres de circo,
patos que apitam,
peixes contaminados,
aves sem pés nem cabeça
quietas no supermercado.
In: TAVARES, Ulisses. Caindo na real. Il. Angeli. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.60. (Jovens do mundo todo
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2
Gonçalves Crespo
Jatir e Coema
JATIR
Desprezo-te, Coema, a velha usança
Que entre nós se pratica... desprezaste:
O bem-vindo estrangeiro abandonaste
Que em mole rede o corpo seu descansa.
Desprezo-te, Coema, bem criança
Em meus braços de ferro te criaste
E neles sempre firme abrigo achaste
Mas pede a tua ação pronta vingança.
COEMA
Senhor das matas, meu Jatir valente,
Tu desconheces este amor ardente,
Choro embalde a teus pés mísera louca!
Afoga-me em teus braços musculosos.
Antes isso, que os beijos asquerosos
Do bem-vindo estrangeiro em minha boca!
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1942.
NOTA: Jatir e Coema: personagens de OS TIMBIRAS, de Gonçalves Dia
Desprezo-te, Coema, a velha usança
Que entre nós se pratica... desprezaste:
O bem-vindo estrangeiro abandonaste
Que em mole rede o corpo seu descansa.
Desprezo-te, Coema, bem criança
Em meus braços de ferro te criaste
E neles sempre firme abrigo achaste
Mas pede a tua ação pronta vingança.
COEMA
Senhor das matas, meu Jatir valente,
Tu desconheces este amor ardente,
Choro embalde a teus pés mísera louca!
Afoga-me em teus braços musculosos.
Antes isso, que os beijos asquerosos
Do bem-vindo estrangeiro em minha boca!
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1942.
NOTA: Jatir e Coema: personagens de OS TIMBIRAS, de Gonçalves Dia
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Armindo Trevisan
Uma Doença Chamada Homem
Se dividirmos o corpo, se na unidade
as coisas se arranjarem, à revelia de outros corpos,
se de nós a inteligência partir para fora
e de fora vier até nós; se algo assim
com Kipling não nos obrigar à capitulação
e isto for complicado porque em política
repressão nada significa e as palavras constituem
o que elas constituiriam se pensar fosse comer;
se nem na comida conseguimos unanimidade
mas antes uma laranja é fruto
de divisão; se pensamos que ser é ser indivíduo,
trabalhar com os outros, fornicar com os outros;
se a colisão de bocas na treva
não nos atar as línguas; se
por acaso a vida fosse um abuso
de força a esta atavicamente jorrasse
do bico de um pássaro, do furo de uma baleia;
se cada um de nós de repente se dispusesse
a inverter a evolução, a recomeçar outro movimento.
Que aconteceria? Seríamos
inúteis durante algum tempo. Não saberíamos
manipular um motor, estender uma roupa,
ou juntar as mãos. Seríamos
inúteis. Mas dessa inutilidade
não brotaria mais sentido? Que
aconteceria? Alinhar-nos-íamos entre
os gansos? Que
se passaria com a consciência? Oh! o esforço
de se beijar um mamilo, de
se dizer absolutamente porque somos.
Um esforço do qual
cada pessoa emergeria jovem,
um gesto feito quando chega a notícia.
Seríamos inúteis. Inúteis sem remorso.
Extraviados na liberdade de ignorar
a própria morte. Em vez disso sabemos como as coisas
caminham, temos noções exatas acerca de um
fusível, pagamos nossas dívidas,
e saboreamos a sensação
de morrermos muito antes do tempo.
Imagem - 01490004
In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série O Abajur de Píndaro
as coisas se arranjarem, à revelia de outros corpos,
se de nós a inteligência partir para fora
e de fora vier até nós; se algo assim
com Kipling não nos obrigar à capitulação
e isto for complicado porque em política
repressão nada significa e as palavras constituem
o que elas constituiriam se pensar fosse comer;
se nem na comida conseguimos unanimidade
mas antes uma laranja é fruto
de divisão; se pensamos que ser é ser indivíduo,
trabalhar com os outros, fornicar com os outros;
se a colisão de bocas na treva
não nos atar as línguas; se
por acaso a vida fosse um abuso
de força a esta atavicamente jorrasse
do bico de um pássaro, do furo de uma baleia;
se cada um de nós de repente se dispusesse
a inverter a evolução, a recomeçar outro movimento.
Que aconteceria? Seríamos
inúteis durante algum tempo. Não saberíamos
manipular um motor, estender uma roupa,
ou juntar as mãos. Seríamos
inúteis. Mas dessa inutilidade
não brotaria mais sentido? Que
aconteceria? Alinhar-nos-íamos entre
os gansos? Que
se passaria com a consciência? Oh! o esforço
de se beijar um mamilo, de
se dizer absolutamente porque somos.
Um esforço do qual
cada pessoa emergeria jovem,
um gesto feito quando chega a notícia.
Seríamos inúteis. Inúteis sem remorso.
Extraviados na liberdade de ignorar
a própria morte. Em vez disso sabemos como as coisas
caminham, temos noções exatas acerca de um
fusível, pagamos nossas dívidas,
e saboreamos a sensação
de morrermos muito antes do tempo.
Imagem - 01490004
In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série O Abajur de Píndaro
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Cruz e Sousa
Da Senzala
De dentro da senzala escura e lamacenta
aonde o infeliz
de lágrimas em fel, de ódio se alimenta
tornando meretriz
A alma que ele tinha, ovante, imaculada
alegre e sem rancor;
porém que foi aos poucos sendo transformada
aos vivos do estertor...
De dentro da senzala
aonde o crime é rei, e a dor — crânios abala
em ímpeto ferino;
Não pode sair, não,
um homem de trabalho, um senso, uma razão...
e sim, um assassino!
Publicado no livro Obra completa (1961). Poema integrante da série O Livro Derradeiro.
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
aonde o infeliz
de lágrimas em fel, de ódio se alimenta
tornando meretriz
A alma que ele tinha, ovante, imaculada
alegre e sem rancor;
porém que foi aos poucos sendo transformada
aos vivos do estertor...
De dentro da senzala
aonde o crime é rei, e a dor — crânios abala
em ímpeto ferino;
Não pode sair, não,
um homem de trabalho, um senso, uma razão...
e sim, um assassino!
Publicado no livro Obra completa (1961). Poema integrante da série O Livro Derradeiro.
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
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Cruz e Sousa
Da Senzala
De dentro da senzala escura e lamacenta
aonde o infeliz
de lágrimas em fel, de ódio se alimenta
tornando meretriz
A alma que ele tinha, ovante, imaculada
alegre e sem rancor;
porém que foi aos poucos sendo transformada
aos vivos do estertor...
De dentro da senzala
aonde o crime é rei, e a dor — crânios abala
em ímpeto ferino;
Não pode sair, não,
um homem de trabalho, um senso, uma razão...
e sim, um assassino!
Publicado no livro Obra completa (1961). Poema integrante da série O Livro Derradeiro.
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
aonde o infeliz
de lágrimas em fel, de ódio se alimenta
tornando meretriz
A alma que ele tinha, ovante, imaculada
alegre e sem rancor;
porém que foi aos poucos sendo transformada
aos vivos do estertor...
De dentro da senzala
aonde o crime é rei, e a dor — crânios abala
em ímpeto ferino;
Não pode sair, não,
um homem de trabalho, um senso, uma razão...
e sim, um assassino!
Publicado no livro Obra completa (1961). Poema integrante da série O Livro Derradeiro.
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
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Cacaso
Lar Doce Lar
p/Maurício Maestro
Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio.
Publicado no livro Na corda bamba: poesia (1978).
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.63
NOTA: O poema é a primeira estrofe do poema "Fábula", de 1965, publicado em A PALAVRA CERZIDA. Com o segundo verso alterado para 'onde estou é meu exílio' faz parte do refrão de "Grão de Milho", canção em parceria com Francis Him
Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio.
Publicado no livro Na corda bamba: poesia (1978).
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.63
NOTA: O poema é a primeira estrofe do poema "Fábula", de 1965, publicado em A PALAVRA CERZIDA. Com o segundo verso alterado para 'onde estou é meu exílio' faz parte do refrão de "Grão de Milho", canção em parceria com Francis Him
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Bruno de Menezes
Bruxinha Baiana
(Para as minhas filhas
Marília e Lenôra)
Tenho uma bruxinha de carne de pano
que usa cabelo feito de retrós.
Parece que foi noutro tempo mucama,
porque nós fazemos
com a pobre bruxinha
o que não se faz com todo o cristão.
O mais engraçado
é que ela parece ter alma ter vida.
Seu corpo de pano
em certos instantes
tem toda a expressão dos nossos movimentos.
Por isso é que eu penso:
— ela foi mucama.
Não chora não grita não olha pra gente
se fica esquecida
num canto no chão.
Sua única roupa é um traje à baiana.
E nós ajeitamos o seu cabeção
e sua sainha de chita florida
que a Carmen Miranda
se visse a bruxinha
iria com ela também batucar.
Nem mesmo boneca sabemos chamá-la.
Não tem qualquer nome
de "estrela" de fama no céu do cinema.
É a nossa "bruxinha" sem outro apelido,
que até os meus manos
em louca peteca
às vezes transformam se querem brincar.
Andando aos boléus
aos troncos da sorte
quem sabe se a nossa bruxinha, coitada,
não é a mucama
que o fado o destino
jogaram no mundo
para andar assim?...
Publicado no livro Batuque: poemas (1939).
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.263-264. (Lendo o Pará, 14
Marília e Lenôra)
Tenho uma bruxinha de carne de pano
que usa cabelo feito de retrós.
Parece que foi noutro tempo mucama,
porque nós fazemos
com a pobre bruxinha
o que não se faz com todo o cristão.
O mais engraçado
é que ela parece ter alma ter vida.
Seu corpo de pano
em certos instantes
tem toda a expressão dos nossos movimentos.
Por isso é que eu penso:
— ela foi mucama.
Não chora não grita não olha pra gente
se fica esquecida
num canto no chão.
Sua única roupa é um traje à baiana.
E nós ajeitamos o seu cabeção
e sua sainha de chita florida
que a Carmen Miranda
se visse a bruxinha
iria com ela também batucar.
Nem mesmo boneca sabemos chamá-la.
Não tem qualquer nome
de "estrela" de fama no céu do cinema.
É a nossa "bruxinha" sem outro apelido,
que até os meus manos
em louca peteca
às vezes transformam se querem brincar.
Andando aos boléus
aos troncos da sorte
quem sabe se a nossa bruxinha, coitada,
não é a mucama
que o fado o destino
jogaram no mundo
para andar assim?...
Publicado no livro Batuque: poemas (1939).
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.263-264. (Lendo o Pará, 14
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Marcelo Gama
Mulheres
Pela simples razão de eu ser viril e poeta
que celebra, encantado, eternas bodas,
olho as mulheres todas
com o mais impertinente interesse de esteta.
Por isso, às três da tarde e às vezes antes,
desconhecido entre desconhecidos,
levo para a Avenida uns ares importantes
e afinado o quinteto dos sentidos.
E ficou a deambular a tarde inteira
entre snobs e Apolos de pulseira.
Fico-me unicamente para vê-las
no florir do seu viço,
para senti-las, para analisá-las,
do autêntico ao postiço,
umas — soberbas, fúlgidas estrelas,
outras — de um palor lânguido de opalas...
E enrodilhando-as em olhares ledos,
o que se passa em mim pode ser comparado
àquele querer-tudo alvoroçado
das crianças nas lojas de brinquedos.
Olho-as, remiro-as de alto a baixo, sigo-as,
dispo-as, ponho-as em pose, impassíveis e brancas,
ora aqui desvendando imperfeições ambíguas
de atafulhadas ancas,
ora ali descobrindo, entre êxtase e surpresa,
formas definitivas de beleza.
De algumas eu já sei nomes, histórias, vidas,
crônicas passionais,
prestigiadas do encanto de um mistério;
biografias heróicas, doloridas,
escândalos banais
e banais episódios de adultério.
Porém, todas as mesmas, em conjunto,
maravilhoso assunto
de um poema intenso, em que ando a meditar,
e com um título antigo, assim ao jeito
das inscrições dos velhos pergaminhos:
"Das perfídias que hão feito
as mulheres, os vinhos
e as cartas de jogar".
(...)
Rio de Janeiro - 1909.
Poema integrante da série Dispersos.
In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.139-14
que celebra, encantado, eternas bodas,
olho as mulheres todas
com o mais impertinente interesse de esteta.
Por isso, às três da tarde e às vezes antes,
desconhecido entre desconhecidos,
levo para a Avenida uns ares importantes
e afinado o quinteto dos sentidos.
E ficou a deambular a tarde inteira
entre snobs e Apolos de pulseira.
Fico-me unicamente para vê-las
no florir do seu viço,
para senti-las, para analisá-las,
do autêntico ao postiço,
umas — soberbas, fúlgidas estrelas,
outras — de um palor lânguido de opalas...
E enrodilhando-as em olhares ledos,
o que se passa em mim pode ser comparado
àquele querer-tudo alvoroçado
das crianças nas lojas de brinquedos.
Olho-as, remiro-as de alto a baixo, sigo-as,
dispo-as, ponho-as em pose, impassíveis e brancas,
ora aqui desvendando imperfeições ambíguas
de atafulhadas ancas,
ora ali descobrindo, entre êxtase e surpresa,
formas definitivas de beleza.
De algumas eu já sei nomes, histórias, vidas,
crônicas passionais,
prestigiadas do encanto de um mistério;
biografias heróicas, doloridas,
escândalos banais
e banais episódios de adultério.
Porém, todas as mesmas, em conjunto,
maravilhoso assunto
de um poema intenso, em que ando a meditar,
e com um título antigo, assim ao jeito
das inscrições dos velhos pergaminhos:
"Das perfídias que hão feito
as mulheres, os vinhos
e as cartas de jogar".
(...)
Rio de Janeiro - 1909.
Poema integrante da série Dispersos.
In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.139-14
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Bruno de Menezes
Marujada
Fragatas, marujos pintados de entrudo,
gageiro subindo no mastro de proa,
piloto crioulo cantando a manobra
na cadência da onda, ao rumor da mareta.
É um brigue lendário... A "Nau Catarineta"...
Um cruzador do Império...
— "Seu imediato!
— Pronto seu comandante!
— Mande suspendê ferro que são
hora da partida!..."
E as fragatas em coro tatuadas gingando...
suspendem o ferro mesmo sustêm a força da amarra.
(1) "Alerta marinhêro
vâmo o terro levantá
as hora não chegada
do "Tupi" si arritirá".
E o rufo batuca na lufa-lufa a vela estrebucha ao vento
[que bufa...
Navio pirata... Veleiro corsário em mar alto...
Barca onde só vem mestiço.
Regamboleios de fragatas no arrastão da marujada
meia-lua em ronda longa escorregando no convés.
Pintados de entrudo! Oficiais e a marinhagem!
Revolta tumulto a bordo... O imediato posto a ferros...
Os trovões os relâmpagos o vento,
o mar brabo e a invocação à Virgem Mãe dos Navegantes:
(2) "Sinhor do Mar
Rainha das Ondas
livrai-nos da morte
nas ondas do mar...
É a cerração... Vida de bordo numa sala
que palpita de emoção e a maresia faz tremer.
A embarcação joga sem rumo...
Pintados de entrudo!
Rodelas de carmim... brancuras de alvaiade...
O comandante de espadim dragonas gorro e apito
... tinha a melhor fragata!
Mas na hora em que na adriça,
cessada a tempestade,
a bandeira subia garbosa no mastro,
eles pensavam que era certo e davam vivas ao Brasil!
Publicado no livro Batuque: poemas (1939).
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.229-230. (Lendo o Pará, 14
gageiro subindo no mastro de proa,
piloto crioulo cantando a manobra
na cadência da onda, ao rumor da mareta.
É um brigue lendário... A "Nau Catarineta"...
Um cruzador do Império...
— "Seu imediato!
— Pronto seu comandante!
— Mande suspendê ferro que são
hora da partida!..."
E as fragatas em coro tatuadas gingando...
suspendem o ferro mesmo sustêm a força da amarra.
(1) "Alerta marinhêro
vâmo o terro levantá
as hora não chegada
do "Tupi" si arritirá".
E o rufo batuca na lufa-lufa a vela estrebucha ao vento
[que bufa...
Navio pirata... Veleiro corsário em mar alto...
Barca onde só vem mestiço.
Regamboleios de fragatas no arrastão da marujada
meia-lua em ronda longa escorregando no convés.
Pintados de entrudo! Oficiais e a marinhagem!
Revolta tumulto a bordo... O imediato posto a ferros...
Os trovões os relâmpagos o vento,
o mar brabo e a invocação à Virgem Mãe dos Navegantes:
(2) "Sinhor do Mar
Rainha das Ondas
livrai-nos da morte
nas ondas do mar...
É a cerração... Vida de bordo numa sala
que palpita de emoção e a maresia faz tremer.
A embarcação joga sem rumo...
Pintados de entrudo!
Rodelas de carmim... brancuras de alvaiade...
O comandante de espadim dragonas gorro e apito
... tinha a melhor fragata!
Mas na hora em que na adriça,
cessada a tempestade,
a bandeira subia garbosa no mastro,
eles pensavam que era certo e davam vivas ao Brasil!
Publicado no livro Batuque: poemas (1939).
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.229-230. (Lendo o Pará, 14
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Olavo Bilac
II - Presente de Anos
Diz à mulher o Vicente:
— "Tu não achas, meu amor,
Que hoje, anos do professor,
Devemos dar-lhe um presente?"
— "Com certeza, ele é tão bom,
Trata tão bem o Juquinha...
Já era lembrança minha,
Mandarmos, que é do bom tom."
— "Que deve ser? Vamos, fala:
Um bom livro, alguma jóia,
Aquele quadro de Goya,
Um cachimbo, uma bengala...?"
E discutem, todo o almoço,
Que presente deve ser;
E já, de tanto escolher,
Vão formando um alvoroço.
Juquinha, que escuta quieto,
Tão tola e simples questão,
Pra acabar a discussão,
Apresenta este projeto:
— "Nada de presentes finos.
Dêem cousa que mate a fome:
Que ele é tão pobre, que come
Nas panelas dos meninos."
In: BILAC, Olavo. Pimentões: rimas d'O Filhote. Rio de Janeiro: Laemmert, 1897
— "Tu não achas, meu amor,
Que hoje, anos do professor,
Devemos dar-lhe um presente?"
— "Com certeza, ele é tão bom,
Trata tão bem o Juquinha...
Já era lembrança minha,
Mandarmos, que é do bom tom."
— "Que deve ser? Vamos, fala:
Um bom livro, alguma jóia,
Aquele quadro de Goya,
Um cachimbo, uma bengala...?"
E discutem, todo o almoço,
Que presente deve ser;
E já, de tanto escolher,
Vão formando um alvoroço.
Juquinha, que escuta quieto,
Tão tola e simples questão,
Pra acabar a discussão,
Apresenta este projeto:
— "Nada de presentes finos.
Dêem cousa que mate a fome:
Que ele é tão pobre, que come
Nas panelas dos meninos."
In: BILAC, Olavo. Pimentões: rimas d'O Filhote. Rio de Janeiro: Laemmert, 1897
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Olavo Bilac
II - Presente de Anos
Diz à mulher o Vicente:
— "Tu não achas, meu amor,
Que hoje, anos do professor,
Devemos dar-lhe um presente?"
— "Com certeza, ele é tão bom,
Trata tão bem o Juquinha...
Já era lembrança minha,
Mandarmos, que é do bom tom."
— "Que deve ser? Vamos, fala:
Um bom livro, alguma jóia,
Aquele quadro de Goya,
Um cachimbo, uma bengala...?"
E discutem, todo o almoço,
Que presente deve ser;
E já, de tanto escolher,
Vão formando um alvoroço.
Juquinha, que escuta quieto,
Tão tola e simples questão,
Pra acabar a discussão,
Apresenta este projeto:
— "Nada de presentes finos.
Dêem cousa que mate a fome:
Que ele é tão pobre, que come
Nas panelas dos meninos."
In: BILAC, Olavo. Pimentões: rimas d'O Filhote. Rio de Janeiro: Laemmert, 1897
— "Tu não achas, meu amor,
Que hoje, anos do professor,
Devemos dar-lhe um presente?"
— "Com certeza, ele é tão bom,
Trata tão bem o Juquinha...
Já era lembrança minha,
Mandarmos, que é do bom tom."
— "Que deve ser? Vamos, fala:
Um bom livro, alguma jóia,
Aquele quadro de Goya,
Um cachimbo, uma bengala...?"
E discutem, todo o almoço,
Que presente deve ser;
E já, de tanto escolher,
Vão formando um alvoroço.
Juquinha, que escuta quieto,
Tão tola e simples questão,
Pra acabar a discussão,
Apresenta este projeto:
— "Nada de presentes finos.
Dêem cousa que mate a fome:
Que ele é tão pobre, que come
Nas panelas dos meninos."
In: BILAC, Olavo. Pimentões: rimas d'O Filhote. Rio de Janeiro: Laemmert, 1897
2 832
2
Sílvio Romero
Oh Ciranda, Oh Cirandinha
(Pernambuco)
Oh, ciranda, oh cirandinha,
Vamos todos cirandar;
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar;
Vamos dar a volta inteira,
Cavaleiro, troque o par.
Rua abaixo, rua acima,
Sempre com o chapéu na mão,
Namorando as casadas,
Que as solteiras minhas são.
Aqui estou na vossa porta
Feito um feixinho de lenha,
Esperando pela resposta
Que da vossa boca venha.
Caranguejo não é peixe,
Caranguejo peixe é;
Caranguejo só é peixe
Na vazante da maré.
Dá-ri-rá-lá-lá-lá-lá.
Dá-ri-rá-lá-lá-lá-lé ...
Caranguejo só é peixe
Na vazante da maré
Atirei com o limãozinho
Na mocinha da janela;
Deu no cravo, deu na rosa
Bateu nos peitinhos dela.
Craveiro, me dá uma cravo,
Roseira, dá-me um botão;
Menina, me dá um beijo
Qu'eu te dou meu coração.
Minha mãe bem que me disse
Que eu não fosse à fonção,
Qu'eu tinha meu nariz torto,
Servia de mangação.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.210-211. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Oh, ciranda, oh cirandinha,
Vamos todos cirandar;
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar;
Vamos dar a volta inteira,
Cavaleiro, troque o par.
Rua abaixo, rua acima,
Sempre com o chapéu na mão,
Namorando as casadas,
Que as solteiras minhas são.
Aqui estou na vossa porta
Feito um feixinho de lenha,
Esperando pela resposta
Que da vossa boca venha.
Caranguejo não é peixe,
Caranguejo peixe é;
Caranguejo só é peixe
Na vazante da maré.
Dá-ri-rá-lá-lá-lá-lá.
Dá-ri-rá-lá-lá-lá-lé ...
Caranguejo só é peixe
Na vazante da maré
Atirei com o limãozinho
Na mocinha da janela;
Deu no cravo, deu na rosa
Bateu nos peitinhos dela.
Craveiro, me dá uma cravo,
Roseira, dá-me um botão;
Menina, me dá um beijo
Qu'eu te dou meu coração.
Minha mãe bem que me disse
Que eu não fosse à fonção,
Qu'eu tinha meu nariz torto,
Servia de mangação.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.210-211. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
2 522
2
Bento Teixeira
Canto de Proteu
(...)
A fama dos antigos co'a moderna
Fica perdendo o preço sublimado:
A façanha cruel, que a turva Lerna
Espanta com estrondo d'arco armado;
O cão de três gargantas, que na eterna
Confusão infernal está fechado,
Não louve o braço de Hércules Tebano,
Pois procede Albuquerque soberano.
Vejo (diz o bom velho) que, na mente,
O tempo de Saturno renovado,
E a opulenta Olinda florescente
Chegar ao cume do supremo estado.
Será de fera e belicosa gente
O seu largo distrito povoado;
Por nome terá Nova Lusitânia,
Das Leis isenta da fatal insânia.
As rédeas terá desta Lusitânia
O grão Duarte, valoroso e claro,
Coelho por cognome, que a insânia
Reprimirá dos seus, com saber raro.
Outro Troiano Pio, que em Dardânia
Os Penates livrou e o padre caro;
Um Públio Cipião, na continência;
Outro Nestor e Fábio, na prudência.
O braço invicto vejo com que amansa
A dura cerviz bárbara insolente,
Instruindo na Fé, dando esperança
Do bem que sempre dura e é presente;
Eu vejo co`o rigor da tesa lança
Acossar o Francês, impaciente
De lhe ver alcançar uma vitória
Tão capaz e tão digna de memória.
(...)
In: TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia. Introd. estabelecimento do texto e comentários Celso Cunha e Carlos Duval. Rio de Janeiro: INL, 1972. p.37-39. (Coleção de literatura brasileira, 6)
NOTA: O "Canto de Proteu" é composto de 72 oitava
A fama dos antigos co'a moderna
Fica perdendo o preço sublimado:
A façanha cruel, que a turva Lerna
Espanta com estrondo d'arco armado;
O cão de três gargantas, que na eterna
Confusão infernal está fechado,
Não louve o braço de Hércules Tebano,
Pois procede Albuquerque soberano.
Vejo (diz o bom velho) que, na mente,
O tempo de Saturno renovado,
E a opulenta Olinda florescente
Chegar ao cume do supremo estado.
Será de fera e belicosa gente
O seu largo distrito povoado;
Por nome terá Nova Lusitânia,
Das Leis isenta da fatal insânia.
As rédeas terá desta Lusitânia
O grão Duarte, valoroso e claro,
Coelho por cognome, que a insânia
Reprimirá dos seus, com saber raro.
Outro Troiano Pio, que em Dardânia
Os Penates livrou e o padre caro;
Um Públio Cipião, na continência;
Outro Nestor e Fábio, na prudência.
O braço invicto vejo com que amansa
A dura cerviz bárbara insolente,
Instruindo na Fé, dando esperança
Do bem que sempre dura e é presente;
Eu vejo co`o rigor da tesa lança
Acossar o Francês, impaciente
De lhe ver alcançar uma vitória
Tão capaz e tão digna de memória.
(...)
In: TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia. Introd. estabelecimento do texto e comentários Celso Cunha e Carlos Duval. Rio de Janeiro: INL, 1972. p.37-39. (Coleção de literatura brasileira, 6)
NOTA: O "Canto de Proteu" é composto de 72 oitava
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2
Bento Teixeira
Canto de Proteu
(...)
A fama dos antigos co'a moderna
Fica perdendo o preço sublimado:
A façanha cruel, que a turva Lerna
Espanta com estrondo d'arco armado;
O cão de três gargantas, que na eterna
Confusão infernal está fechado,
Não louve o braço de Hércules Tebano,
Pois procede Albuquerque soberano.
Vejo (diz o bom velho) que, na mente,
O tempo de Saturno renovado,
E a opulenta Olinda florescente
Chegar ao cume do supremo estado.
Será de fera e belicosa gente
O seu largo distrito povoado;
Por nome terá Nova Lusitânia,
Das Leis isenta da fatal insânia.
As rédeas terá desta Lusitânia
O grão Duarte, valoroso e claro,
Coelho por cognome, que a insânia
Reprimirá dos seus, com saber raro.
Outro Troiano Pio, que em Dardânia
Os Penates livrou e o padre caro;
Um Públio Cipião, na continência;
Outro Nestor e Fábio, na prudência.
O braço invicto vejo com que amansa
A dura cerviz bárbara insolente,
Instruindo na Fé, dando esperança
Do bem que sempre dura e é presente;
Eu vejo co`o rigor da tesa lança
Acossar o Francês, impaciente
De lhe ver alcançar uma vitória
Tão capaz e tão digna de memória.
(...)
In: TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia. Introd. estabelecimento do texto e comentários Celso Cunha e Carlos Duval. Rio de Janeiro: INL, 1972. p.37-39. (Coleção de literatura brasileira, 6)
NOTA: O "Canto de Proteu" é composto de 72 oitava
A fama dos antigos co'a moderna
Fica perdendo o preço sublimado:
A façanha cruel, que a turva Lerna
Espanta com estrondo d'arco armado;
O cão de três gargantas, que na eterna
Confusão infernal está fechado,
Não louve o braço de Hércules Tebano,
Pois procede Albuquerque soberano.
Vejo (diz o bom velho) que, na mente,
O tempo de Saturno renovado,
E a opulenta Olinda florescente
Chegar ao cume do supremo estado.
Será de fera e belicosa gente
O seu largo distrito povoado;
Por nome terá Nova Lusitânia,
Das Leis isenta da fatal insânia.
As rédeas terá desta Lusitânia
O grão Duarte, valoroso e claro,
Coelho por cognome, que a insânia
Reprimirá dos seus, com saber raro.
Outro Troiano Pio, que em Dardânia
Os Penates livrou e o padre caro;
Um Públio Cipião, na continência;
Outro Nestor e Fábio, na prudência.
O braço invicto vejo com que amansa
A dura cerviz bárbara insolente,
Instruindo na Fé, dando esperança
Do bem que sempre dura e é presente;
Eu vejo co`o rigor da tesa lança
Acossar o Francês, impaciente
De lhe ver alcançar uma vitória
Tão capaz e tão digna de memória.
(...)
In: TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia. Introd. estabelecimento do texto e comentários Celso Cunha e Carlos Duval. Rio de Janeiro: INL, 1972. p.37-39. (Coleção de literatura brasileira, 6)
NOTA: O "Canto de Proteu" é composto de 72 oitava
5 999
2
Fagundes Varela
Mauro, o Escravo
(Fragmentos de um poema)
A Sentença
(...)
XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.
(...)
XIV
— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.
(...)
XX
— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!
XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:
XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?
XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!
XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!
XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.
XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.
XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.
Imagem - 00320004
Publicado no livro Vozes da América: poesias (1864).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.101-102
NOTA: Poema composto de 4 partes: A Sentença, O Suplício, A Vingança e Visão. A Sentença é composta de 27 sextilha
A Sentença
(...)
XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.
(...)
XIV
— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.
(...)
XX
— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!
XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:
XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?
XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!
XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!
XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.
XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.
XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.
Imagem - 00320004
Publicado no livro Vozes da América: poesias (1864).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.101-102
NOTA: Poema composto de 4 partes: A Sentença, O Suplício, A Vingança e Visão. A Sentença é composta de 27 sextilha
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Fagundes Varela
Mauro, o Escravo
(Fragmentos de um poema)
A Sentença
(...)
XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.
(...)
XIV
— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.
(...)
XX
— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!
XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:
XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?
XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!
XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!
XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.
XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.
XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.
Imagem - 00320004
Publicado no livro Vozes da América: poesias (1864).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.101-102
NOTA: Poema composto de 4 partes: A Sentença, O Suplício, A Vingança e Visão. A Sentença é composta de 27 sextilha
A Sentença
(...)
XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.
(...)
XIV
— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.
(...)
XX
— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!
XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:
XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?
XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!
XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!
XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.
XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.
XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.
Imagem - 00320004
Publicado no livro Vozes da América: poesias (1864).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.101-102
NOTA: Poema composto de 4 partes: A Sentença, O Suplício, A Vingança e Visão. A Sentença é composta de 27 sextilha
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Fagundes Varela
Mauro, o Escravo
(Fragmentos de um poema)
A Sentença
(...)
XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.
(...)
XIV
— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.
(...)
XX
— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!
XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:
XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?
XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!
XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!
XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.
XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.
XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.
Imagem - 00320004
Publicado no livro Vozes da América: poesias (1864).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.101-102
NOTA: Poema composto de 4 partes: A Sentença, O Suplício, A Vingança e Visão. A Sentença é composta de 27 sextilha
A Sentença
(...)
XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.
(...)
XIV
— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.
(...)
XX
— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!
XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:
XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?
XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!
XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!
XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.
XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.
XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.
Imagem - 00320004
Publicado no livro Vozes da América: poesias (1864).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.101-102
NOTA: Poema composto de 4 partes: A Sentença, O Suplício, A Vingança e Visão. A Sentença é composta de 27 sextilha
12 524
2
Paulo Setúbal
Fim de Viagem
Venho a sonhar contigo... E, no meu sonho,
Vendo o arraial bucólico, risonho,
Onde floriu essa paixão feliz...
Com que saudade, com que gosto amargo,
Relembro a tua casa em frente ao Largo,
Que tu chamavas "Largo da Matriz...".
Vejo-te ainda, lá nesse povoado,
Tua cestinha de costura ao lado,
Perdida em sonhos de felicidade.
E o trem, enquanto assim eu cismo, aflito,
Entra, a bufar, com enervante apito,
Pela cidade adentro... Oh, a cidade!
Suas ruas. Vielas. Bairros proletários.
Rasgando o azul, ao longe, os campanários,
E as chaminés das fábricas e usinas.
Vivos letreiros, no alto, em letras largas.
Aqui — vagões; depósitos de cargas;
Pontes, guindastes, máquinas, cabinas...
Mas eu, no entanto, pensativo e mudo,
Passo por tudo, indiferente a tudo,
Bem longe tendo o espírito daqui;
E vejo apenas — que visão tranqüila! —
Tua longínqua e solitária vila,
Donde, chorando, esta manhã parti...
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
Vendo o arraial bucólico, risonho,
Onde floriu essa paixão feliz...
Com que saudade, com que gosto amargo,
Relembro a tua casa em frente ao Largo,
Que tu chamavas "Largo da Matriz...".
Vejo-te ainda, lá nesse povoado,
Tua cestinha de costura ao lado,
Perdida em sonhos de felicidade.
E o trem, enquanto assim eu cismo, aflito,
Entra, a bufar, com enervante apito,
Pela cidade adentro... Oh, a cidade!
Suas ruas. Vielas. Bairros proletários.
Rasgando o azul, ao longe, os campanários,
E as chaminés das fábricas e usinas.
Vivos letreiros, no alto, em letras largas.
Aqui — vagões; depósitos de cargas;
Pontes, guindastes, máquinas, cabinas...
Mas eu, no entanto, pensativo e mudo,
Passo por tudo, indiferente a tudo,
Bem longe tendo o espírito daqui;
E vejo apenas — que visão tranqüila! —
Tua longínqua e solitária vila,
Donde, chorando, esta manhã parti...
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
1 436
2
Fagundes Varela
A William Christie
Diplomata insolente! — ave maldita
Entre as brumas do norte aviventada
A quem a pátria recusou bafejos
E o sol um raio que aquecesse o rosto!
Dize, filho da sombra, — onde aprendeste
A voar como as águias?... Em que terras
Te cresceram as penas borrifadas
Nas lagoas impuras da Bretanha?
Que céu dourado, — que estações benditas,
Que meigas flores, — que harmonias santas
Alentaram-te o cérebro? — Que sonhos
Te passaram na mente? — Que riquezas
O teu berço natal mostrou-te aos olhos?
Que doce inspiração roçou-te n'alma
E deu-te crenças, te cobriu de orgulho,
Do santo orgulho que revela o mérito?
Pisaste uma nação, — nação tão grande
Que a loucura perdoa-te! — Cuspiste
Na face dessa que afogara em vagas,
Em rios de ouro teu país ingrato!
Procuraste lançar um véu de sombras
Sobre essa terra que fascina o globo
Ao clarão dos diamantes, e piedosa
Teus irmãos agasalha junto ao peito!
Basta de humilhações!... dize a teus amos
Que a terra de Cabral está cansada
De ultrajes suportar! — Que a seus clamores
No seio das florestas ressuscita
Um mundo de guerreiros que não teme
O troar dos canhões; — que um povo ardente
Se levanta inspirado à voz dos bardos
Do pendão auriverde à sombra amiga!
Quereis ouro e riqueza?... Ah! nós vos damos,
É em nome da Irlanda miserável
Que sucumbe de fome! — É por piedade
Dos filhos do Levante que se estorcem
Entre sangue e veneno! — É pelos tristes
Que soluçam nos ferros, — pelos gênios
Que morrem na miséria e no abandono,
Pela virtude sem defesa e amparo!...
Vai, teu país é poderoso e ousado,
Teus vasos cobrem a amplidão dos mares,
Teus soldados são célebres e fortes,
Teus canhões são medonhos, — ferem certo.
A nós isto que importa? — se atrevidos
A nossas praias aportarem, loucos,
Cada província é um povo de guerreiros,
Cada guerreiro um destemido Anteu!
Imagem - 00320003
Publicado no livro O estandarte auriverde: cantos sobre a questão anglo-brasileira (1863).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.9
Entre as brumas do norte aviventada
A quem a pátria recusou bafejos
E o sol um raio que aquecesse o rosto!
Dize, filho da sombra, — onde aprendeste
A voar como as águias?... Em que terras
Te cresceram as penas borrifadas
Nas lagoas impuras da Bretanha?
Que céu dourado, — que estações benditas,
Que meigas flores, — que harmonias santas
Alentaram-te o cérebro? — Que sonhos
Te passaram na mente? — Que riquezas
O teu berço natal mostrou-te aos olhos?
Que doce inspiração roçou-te n'alma
E deu-te crenças, te cobriu de orgulho,
Do santo orgulho que revela o mérito?
Pisaste uma nação, — nação tão grande
Que a loucura perdoa-te! — Cuspiste
Na face dessa que afogara em vagas,
Em rios de ouro teu país ingrato!
Procuraste lançar um véu de sombras
Sobre essa terra que fascina o globo
Ao clarão dos diamantes, e piedosa
Teus irmãos agasalha junto ao peito!
Basta de humilhações!... dize a teus amos
Que a terra de Cabral está cansada
De ultrajes suportar! — Que a seus clamores
No seio das florestas ressuscita
Um mundo de guerreiros que não teme
O troar dos canhões; — que um povo ardente
Se levanta inspirado à voz dos bardos
Do pendão auriverde à sombra amiga!
Quereis ouro e riqueza?... Ah! nós vos damos,
É em nome da Irlanda miserável
Que sucumbe de fome! — É por piedade
Dos filhos do Levante que se estorcem
Entre sangue e veneno! — É pelos tristes
Que soluçam nos ferros, — pelos gênios
Que morrem na miséria e no abandono,
Pela virtude sem defesa e amparo!...
Vai, teu país é poderoso e ousado,
Teus vasos cobrem a amplidão dos mares,
Teus soldados são célebres e fortes,
Teus canhões são medonhos, — ferem certo.
A nós isto que importa? — se atrevidos
A nossas praias aportarem, loucos,
Cada província é um povo de guerreiros,
Cada guerreiro um destemido Anteu!
Imagem - 00320003
Publicado no livro O estandarte auriverde: cantos sobre a questão anglo-brasileira (1863).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.9
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Fagundes Varela
A William Christie
Diplomata insolente! — ave maldita
Entre as brumas do norte aviventada
A quem a pátria recusou bafejos
E o sol um raio que aquecesse o rosto!
Dize, filho da sombra, — onde aprendeste
A voar como as águias?... Em que terras
Te cresceram as penas borrifadas
Nas lagoas impuras da Bretanha?
Que céu dourado, — que estações benditas,
Que meigas flores, — que harmonias santas
Alentaram-te o cérebro? — Que sonhos
Te passaram na mente? — Que riquezas
O teu berço natal mostrou-te aos olhos?
Que doce inspiração roçou-te n'alma
E deu-te crenças, te cobriu de orgulho,
Do santo orgulho que revela o mérito?
Pisaste uma nação, — nação tão grande
Que a loucura perdoa-te! — Cuspiste
Na face dessa que afogara em vagas,
Em rios de ouro teu país ingrato!
Procuraste lançar um véu de sombras
Sobre essa terra que fascina o globo
Ao clarão dos diamantes, e piedosa
Teus irmãos agasalha junto ao peito!
Basta de humilhações!... dize a teus amos
Que a terra de Cabral está cansada
De ultrajes suportar! — Que a seus clamores
No seio das florestas ressuscita
Um mundo de guerreiros que não teme
O troar dos canhões; — que um povo ardente
Se levanta inspirado à voz dos bardos
Do pendão auriverde à sombra amiga!
Quereis ouro e riqueza?... Ah! nós vos damos,
É em nome da Irlanda miserável
Que sucumbe de fome! — É por piedade
Dos filhos do Levante que se estorcem
Entre sangue e veneno! — É pelos tristes
Que soluçam nos ferros, — pelos gênios
Que morrem na miséria e no abandono,
Pela virtude sem defesa e amparo!...
Vai, teu país é poderoso e ousado,
Teus vasos cobrem a amplidão dos mares,
Teus soldados são célebres e fortes,
Teus canhões são medonhos, — ferem certo.
A nós isto que importa? — se atrevidos
A nossas praias aportarem, loucos,
Cada província é um povo de guerreiros,
Cada guerreiro um destemido Anteu!
Imagem - 00320003
Publicado no livro O estandarte auriverde: cantos sobre a questão anglo-brasileira (1863).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.9
Entre as brumas do norte aviventada
A quem a pátria recusou bafejos
E o sol um raio que aquecesse o rosto!
Dize, filho da sombra, — onde aprendeste
A voar como as águias?... Em que terras
Te cresceram as penas borrifadas
Nas lagoas impuras da Bretanha?
Que céu dourado, — que estações benditas,
Que meigas flores, — que harmonias santas
Alentaram-te o cérebro? — Que sonhos
Te passaram na mente? — Que riquezas
O teu berço natal mostrou-te aos olhos?
Que doce inspiração roçou-te n'alma
E deu-te crenças, te cobriu de orgulho,
Do santo orgulho que revela o mérito?
Pisaste uma nação, — nação tão grande
Que a loucura perdoa-te! — Cuspiste
Na face dessa que afogara em vagas,
Em rios de ouro teu país ingrato!
Procuraste lançar um véu de sombras
Sobre essa terra que fascina o globo
Ao clarão dos diamantes, e piedosa
Teus irmãos agasalha junto ao peito!
Basta de humilhações!... dize a teus amos
Que a terra de Cabral está cansada
De ultrajes suportar! — Que a seus clamores
No seio das florestas ressuscita
Um mundo de guerreiros que não teme
O troar dos canhões; — que um povo ardente
Se levanta inspirado à voz dos bardos
Do pendão auriverde à sombra amiga!
Quereis ouro e riqueza?... Ah! nós vos damos,
É em nome da Irlanda miserável
Que sucumbe de fome! — É por piedade
Dos filhos do Levante que se estorcem
Entre sangue e veneno! — É pelos tristes
Que soluçam nos ferros, — pelos gênios
Que morrem na miséria e no abandono,
Pela virtude sem defesa e amparo!...
Vai, teu país é poderoso e ousado,
Teus vasos cobrem a amplidão dos mares,
Teus soldados são célebres e fortes,
Teus canhões são medonhos, — ferem certo.
A nós isto que importa? — se atrevidos
A nossas praias aportarem, loucos,
Cada província é um povo de guerreiros,
Cada guerreiro um destemido Anteu!
Imagem - 00320003
Publicado no livro O estandarte auriverde: cantos sobre a questão anglo-brasileira (1863).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.9
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Fagundes Varela
A William Christie
Diplomata insolente! — ave maldita
Entre as brumas do norte aviventada
A quem a pátria recusou bafejos
E o sol um raio que aquecesse o rosto!
Dize, filho da sombra, — onde aprendeste
A voar como as águias?... Em que terras
Te cresceram as penas borrifadas
Nas lagoas impuras da Bretanha?
Que céu dourado, — que estações benditas,
Que meigas flores, — que harmonias santas
Alentaram-te o cérebro? — Que sonhos
Te passaram na mente? — Que riquezas
O teu berço natal mostrou-te aos olhos?
Que doce inspiração roçou-te n'alma
E deu-te crenças, te cobriu de orgulho,
Do santo orgulho que revela o mérito?
Pisaste uma nação, — nação tão grande
Que a loucura perdoa-te! — Cuspiste
Na face dessa que afogara em vagas,
Em rios de ouro teu país ingrato!
Procuraste lançar um véu de sombras
Sobre essa terra que fascina o globo
Ao clarão dos diamantes, e piedosa
Teus irmãos agasalha junto ao peito!
Basta de humilhações!... dize a teus amos
Que a terra de Cabral está cansada
De ultrajes suportar! — Que a seus clamores
No seio das florestas ressuscita
Um mundo de guerreiros que não teme
O troar dos canhões; — que um povo ardente
Se levanta inspirado à voz dos bardos
Do pendão auriverde à sombra amiga!
Quereis ouro e riqueza?... Ah! nós vos damos,
É em nome da Irlanda miserável
Que sucumbe de fome! — É por piedade
Dos filhos do Levante que se estorcem
Entre sangue e veneno! — É pelos tristes
Que soluçam nos ferros, — pelos gênios
Que morrem na miséria e no abandono,
Pela virtude sem defesa e amparo!...
Vai, teu país é poderoso e ousado,
Teus vasos cobrem a amplidão dos mares,
Teus soldados são célebres e fortes,
Teus canhões são medonhos, — ferem certo.
A nós isto que importa? — se atrevidos
A nossas praias aportarem, loucos,
Cada província é um povo de guerreiros,
Cada guerreiro um destemido Anteu!
Imagem - 00320003
Publicado no livro O estandarte auriverde: cantos sobre a questão anglo-brasileira (1863).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.9
Entre as brumas do norte aviventada
A quem a pátria recusou bafejos
E o sol um raio que aquecesse o rosto!
Dize, filho da sombra, — onde aprendeste
A voar como as águias?... Em que terras
Te cresceram as penas borrifadas
Nas lagoas impuras da Bretanha?
Que céu dourado, — que estações benditas,
Que meigas flores, — que harmonias santas
Alentaram-te o cérebro? — Que sonhos
Te passaram na mente? — Que riquezas
O teu berço natal mostrou-te aos olhos?
Que doce inspiração roçou-te n'alma
E deu-te crenças, te cobriu de orgulho,
Do santo orgulho que revela o mérito?
Pisaste uma nação, — nação tão grande
Que a loucura perdoa-te! — Cuspiste
Na face dessa que afogara em vagas,
Em rios de ouro teu país ingrato!
Procuraste lançar um véu de sombras
Sobre essa terra que fascina o globo
Ao clarão dos diamantes, e piedosa
Teus irmãos agasalha junto ao peito!
Basta de humilhações!... dize a teus amos
Que a terra de Cabral está cansada
De ultrajes suportar! — Que a seus clamores
No seio das florestas ressuscita
Um mundo de guerreiros que não teme
O troar dos canhões; — que um povo ardente
Se levanta inspirado à voz dos bardos
Do pendão auriverde à sombra amiga!
Quereis ouro e riqueza?... Ah! nós vos damos,
É em nome da Irlanda miserável
Que sucumbe de fome! — É por piedade
Dos filhos do Levante que se estorcem
Entre sangue e veneno! — É pelos tristes
Que soluçam nos ferros, — pelos gênios
Que morrem na miséria e no abandono,
Pela virtude sem defesa e amparo!...
Vai, teu país é poderoso e ousado,
Teus vasos cobrem a amplidão dos mares,
Teus soldados são célebres e fortes,
Teus canhões são medonhos, — ferem certo.
A nós isto que importa? — se atrevidos
A nossas praias aportarem, loucos,
Cada província é um povo de guerreiros,
Cada guerreiro um destemido Anteu!
Imagem - 00320003
Publicado no livro O estandarte auriverde: cantos sobre a questão anglo-brasileira (1863).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.9
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Fagundes Varela
A William Christie
Diplomata insolente! — ave maldita
Entre as brumas do norte aviventada
A quem a pátria recusou bafejos
E o sol um raio que aquecesse o rosto!
Dize, filho da sombra, — onde aprendeste
A voar como as águias?... Em que terras
Te cresceram as penas borrifadas
Nas lagoas impuras da Bretanha?
Que céu dourado, — que estações benditas,
Que meigas flores, — que harmonias santas
Alentaram-te o cérebro? — Que sonhos
Te passaram na mente? — Que riquezas
O teu berço natal mostrou-te aos olhos?
Que doce inspiração roçou-te n'alma
E deu-te crenças, te cobriu de orgulho,
Do santo orgulho que revela o mérito?
Pisaste uma nação, — nação tão grande
Que a loucura perdoa-te! — Cuspiste
Na face dessa que afogara em vagas,
Em rios de ouro teu país ingrato!
Procuraste lançar um véu de sombras
Sobre essa terra que fascina o globo
Ao clarão dos diamantes, e piedosa
Teus irmãos agasalha junto ao peito!
Basta de humilhações!... dize a teus amos
Que a terra de Cabral está cansada
De ultrajes suportar! — Que a seus clamores
No seio das florestas ressuscita
Um mundo de guerreiros que não teme
O troar dos canhões; — que um povo ardente
Se levanta inspirado à voz dos bardos
Do pendão auriverde à sombra amiga!
Quereis ouro e riqueza?... Ah! nós vos damos,
É em nome da Irlanda miserável
Que sucumbe de fome! — É por piedade
Dos filhos do Levante que se estorcem
Entre sangue e veneno! — É pelos tristes
Que soluçam nos ferros, — pelos gênios
Que morrem na miséria e no abandono,
Pela virtude sem defesa e amparo!...
Vai, teu país é poderoso e ousado,
Teus vasos cobrem a amplidão dos mares,
Teus soldados são célebres e fortes,
Teus canhões são medonhos, — ferem certo.
A nós isto que importa? — se atrevidos
A nossas praias aportarem, loucos,
Cada província é um povo de guerreiros,
Cada guerreiro um destemido Anteu!
Imagem - 00320003
Publicado no livro O estandarte auriverde: cantos sobre a questão anglo-brasileira (1863).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.9
Entre as brumas do norte aviventada
A quem a pátria recusou bafejos
E o sol um raio que aquecesse o rosto!
Dize, filho da sombra, — onde aprendeste
A voar como as águias?... Em que terras
Te cresceram as penas borrifadas
Nas lagoas impuras da Bretanha?
Que céu dourado, — que estações benditas,
Que meigas flores, — que harmonias santas
Alentaram-te o cérebro? — Que sonhos
Te passaram na mente? — Que riquezas
O teu berço natal mostrou-te aos olhos?
Que doce inspiração roçou-te n'alma
E deu-te crenças, te cobriu de orgulho,
Do santo orgulho que revela o mérito?
Pisaste uma nação, — nação tão grande
Que a loucura perdoa-te! — Cuspiste
Na face dessa que afogara em vagas,
Em rios de ouro teu país ingrato!
Procuraste lançar um véu de sombras
Sobre essa terra que fascina o globo
Ao clarão dos diamantes, e piedosa
Teus irmãos agasalha junto ao peito!
Basta de humilhações!... dize a teus amos
Que a terra de Cabral está cansada
De ultrajes suportar! — Que a seus clamores
No seio das florestas ressuscita
Um mundo de guerreiros que não teme
O troar dos canhões; — que um povo ardente
Se levanta inspirado à voz dos bardos
Do pendão auriverde à sombra amiga!
Quereis ouro e riqueza?... Ah! nós vos damos,
É em nome da Irlanda miserável
Que sucumbe de fome! — É por piedade
Dos filhos do Levante que se estorcem
Entre sangue e veneno! — É pelos tristes
Que soluçam nos ferros, — pelos gênios
Que morrem na miséria e no abandono,
Pela virtude sem defesa e amparo!...
Vai, teu país é poderoso e ousado,
Teus vasos cobrem a amplidão dos mares,
Teus soldados são célebres e fortes,
Teus canhões são medonhos, — ferem certo.
A nós isto que importa? — se atrevidos
A nossas praias aportarem, loucos,
Cada província é um povo de guerreiros,
Cada guerreiro um destemido Anteu!
Imagem - 00320003
Publicado no livro O estandarte auriverde: cantos sobre a questão anglo-brasileira (1863).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.9
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A William Christie
Diplomata insolente! — ave maldita
Entre as brumas do norte aviventada
A quem a pátria recusou bafejos
E o sol um raio que aquecesse o rosto!
Dize, filho da sombra, — onde aprendeste
A voar como as águias?... Em que terras
Te cresceram as penas borrifadas
Nas lagoas impuras da Bretanha?
Que céu dourado, — que estações benditas,
Que meigas flores, — que harmonias santas
Alentaram-te o cérebro? — Que sonhos
Te passaram na mente? — Que riquezas
O teu berço natal mostrou-te aos olhos?
Que doce inspiração roçou-te n'alma
E deu-te crenças, te cobriu de orgulho,
Do santo orgulho que revela o mérito?
Pisaste uma nação, — nação tão grande
Que a loucura perdoa-te! — Cuspiste
Na face dessa que afogara em vagas,
Em rios de ouro teu país ingrato!
Procuraste lançar um véu de sombras
Sobre essa terra que fascina o globo
Ao clarão dos diamantes, e piedosa
Teus irmãos agasalha junto ao peito!
Basta de humilhações!... dize a teus amos
Que a terra de Cabral está cansada
De ultrajes suportar! — Que a seus clamores
No seio das florestas ressuscita
Um mundo de guerreiros que não teme
O troar dos canhões; — que um povo ardente
Se levanta inspirado à voz dos bardos
Do pendão auriverde à sombra amiga!
Quereis ouro e riqueza?... Ah! nós vos damos,
É em nome da Irlanda miserável
Que sucumbe de fome! — É por piedade
Dos filhos do Levante que se estorcem
Entre sangue e veneno! — É pelos tristes
Que soluçam nos ferros, — pelos gênios
Que morrem na miséria e no abandono,
Pela virtude sem defesa e amparo!...
Vai, teu país é poderoso e ousado,
Teus vasos cobrem a amplidão dos mares,
Teus soldados são célebres e fortes,
Teus canhões são medonhos, — ferem certo.
A nós isto que importa? — se atrevidos
A nossas praias aportarem, loucos,
Cada província é um povo de guerreiros,
Cada guerreiro um destemido Anteu!
Imagem - 00320003
Publicado no livro O estandarte auriverde: cantos sobre a questão anglo-brasileira (1863).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.9
Entre as brumas do norte aviventada
A quem a pátria recusou bafejos
E o sol um raio que aquecesse o rosto!
Dize, filho da sombra, — onde aprendeste
A voar como as águias?... Em que terras
Te cresceram as penas borrifadas
Nas lagoas impuras da Bretanha?
Que céu dourado, — que estações benditas,
Que meigas flores, — que harmonias santas
Alentaram-te o cérebro? — Que sonhos
Te passaram na mente? — Que riquezas
O teu berço natal mostrou-te aos olhos?
Que doce inspiração roçou-te n'alma
E deu-te crenças, te cobriu de orgulho,
Do santo orgulho que revela o mérito?
Pisaste uma nação, — nação tão grande
Que a loucura perdoa-te! — Cuspiste
Na face dessa que afogara em vagas,
Em rios de ouro teu país ingrato!
Procuraste lançar um véu de sombras
Sobre essa terra que fascina o globo
Ao clarão dos diamantes, e piedosa
Teus irmãos agasalha junto ao peito!
Basta de humilhações!... dize a teus amos
Que a terra de Cabral está cansada
De ultrajes suportar! — Que a seus clamores
No seio das florestas ressuscita
Um mundo de guerreiros que não teme
O troar dos canhões; — que um povo ardente
Se levanta inspirado à voz dos bardos
Do pendão auriverde à sombra amiga!
Quereis ouro e riqueza?... Ah! nós vos damos,
É em nome da Irlanda miserável
Que sucumbe de fome! — É por piedade
Dos filhos do Levante que se estorcem
Entre sangue e veneno! — É pelos tristes
Que soluçam nos ferros, — pelos gênios
Que morrem na miséria e no abandono,
Pela virtude sem defesa e amparo!...
Vai, teu país é poderoso e ousado,
Teus vasos cobrem a amplidão dos mares,
Teus soldados são célebres e fortes,
Teus canhões são medonhos, — ferem certo.
A nós isto que importa? — se atrevidos
A nossas praias aportarem, loucos,
Cada província é um povo de guerreiros,
Cada guerreiro um destemido Anteu!
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Publicado no livro O estandarte auriverde: cantos sobre a questão anglo-brasileira (1863).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.9
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