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Sociedade e Mundo

Thiago de Mello

Thiago de Mello

39 Anos de um Cidadão Brasileiro

(...)

Dia 31 de março,
confiro meus documentos.
Cidadão brasileiro,
legítimo: sei que a lei
mudou, mas não mudou tanto.
Alguma coisa ainda vale
no chão amado da infância,
chão com cheiro de marirana
e flor de cajueiro,
chão por onde hoje campeia,
solta e grossa,
a botina rombuda.

Está na certidão:
natural do Amazonas,
barrancos do Bom Socorro.

(...)

Pois brasileiro, caboclo,
39 anos. Feitos ontem.
É. Mas não chegou ninguém,
remando de canoa. Ninguém veio
pelas águas dos remansos,
— curimatãs, tucumãs —
ninguém chegou lá de longe
varando a noite do vento
para amanhecer na festa
do meu dia aniversário.

(...)

Pois brasileiro casado,
e pai de dois filhos homens.
O menor ficou tão longe,
nem sabe o lugar que tem
no fundo azul do meu peito.
o outro vem vindo comigo:
é o bem maior de uma vida
que se acabou já faz tempo,
nem parece que passou.
Com este menino conto,
todos podemos contar.

(...)

Folha corrida não há.
A de serviços é pouca,
nem sei se vale. O que vale
é este papel esquecido,
todo comido de tempo,
que só me acende desgostos
e durezas dos meus dias
de serviço militar.
Provo que sou reservista,
dei muito tiro no muro,
desmontei muito fuzil,
decorei o regulamento,
bom mesmo era rastejar
no cheiro fresco da lama.
Fiz meias-voltas, volver,
fiz tudo para entender
a alma daquele tenente:
estava sempre engomado,
limitava-se ao comando,
nunca nenhuma palavra
de gratuita convivência.
Às vezes vinha a cavalo,
solene e só, silencioso
na altura do seu desprezo.
Foi o ser mais solitário,
o mais feroz que eu já vi.

(...)

De eleitor, além do título
— que de repente se ameaça
de nenhuma serventia —
guardo a alegria de sempre
ter escolhido sozinho,
mas guardo a pena de nunca
ter dado o amor do meu voto
a um homem do povo e ao povo
num homem: assim como Arraes.

A profissão é a de poeta
ou de empinador de papagaios
o que vem a dar no mesmo.

(...)

Deixando o ser livre limpo,
chegaram os cantos que eu amo.
De todos os que mais valem,
são os poemas sobre a rosa
na parede da prisão,
é a canção da rebeldia
dos fonemas da alegria,
é o canto companheiro
chegando do ao coração,
é a toada pro menino
que vai levando o pendão.

Por isso estou aqui com a minha vida,
na cordilheira longe do meu povo,
do qual jamais tão perto estive tanto.

Cidadão brasileiro,
natural do Amazonas,
39 anos, casado,
eleitor e reservista,
pai de dois filhos e poeta,
que ficou desempregado.
Nunca no entanto tive tanto trabalho,
trabalho o tempo inteiro e não me canso
porque trabalho cantando
na construção da manhã:
manhã geral de amor que vai chegar.

Santiago do Chile,
31 de março de 1965

Imagem - 00850001


Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
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Thiago de Mello

Thiago de Mello

39 Anos de um Cidadão Brasileiro

(...)

Dia 31 de março,
confiro meus documentos.
Cidadão brasileiro,
legítimo: sei que a lei
mudou, mas não mudou tanto.
Alguma coisa ainda vale
no chão amado da infância,
chão com cheiro de marirana
e flor de cajueiro,
chão por onde hoje campeia,
solta e grossa,
a botina rombuda.

Está na certidão:
natural do Amazonas,
barrancos do Bom Socorro.

(...)

Pois brasileiro, caboclo,
39 anos. Feitos ontem.
É. Mas não chegou ninguém,
remando de canoa. Ninguém veio
pelas águas dos remansos,
— curimatãs, tucumãs —
ninguém chegou lá de longe
varando a noite do vento
para amanhecer na festa
do meu dia aniversário.

(...)

Pois brasileiro casado,
e pai de dois filhos homens.
O menor ficou tão longe,
nem sabe o lugar que tem
no fundo azul do meu peito.
o outro vem vindo comigo:
é o bem maior de uma vida
que se acabou já faz tempo,
nem parece que passou.
Com este menino conto,
todos podemos contar.

(...)

Folha corrida não há.
A de serviços é pouca,
nem sei se vale. O que vale
é este papel esquecido,
todo comido de tempo,
que só me acende desgostos
e durezas dos meus dias
de serviço militar.
Provo que sou reservista,
dei muito tiro no muro,
desmontei muito fuzil,
decorei o regulamento,
bom mesmo era rastejar
no cheiro fresco da lama.
Fiz meias-voltas, volver,
fiz tudo para entender
a alma daquele tenente:
estava sempre engomado,
limitava-se ao comando,
nunca nenhuma palavra
de gratuita convivência.
Às vezes vinha a cavalo,
solene e só, silencioso
na altura do seu desprezo.
Foi o ser mais solitário,
o mais feroz que eu já vi.

(...)

De eleitor, além do título
— que de repente se ameaça
de nenhuma serventia —
guardo a alegria de sempre
ter escolhido sozinho,
mas guardo a pena de nunca
ter dado o amor do meu voto
a um homem do povo e ao povo
num homem: assim como Arraes.

A profissão é a de poeta
ou de empinador de papagaios
o que vem a dar no mesmo.

(...)

Deixando o ser livre limpo,
chegaram os cantos que eu amo.
De todos os que mais valem,
são os poemas sobre a rosa
na parede da prisão,
é a canção da rebeldia
dos fonemas da alegria,
é o canto companheiro
chegando do ao coração,
é a toada pro menino
que vai levando o pendão.

Por isso estou aqui com a minha vida,
na cordilheira longe do meu povo,
do qual jamais tão perto estive tanto.

Cidadão brasileiro,
natural do Amazonas,
39 anos, casado,
eleitor e reservista,
pai de dois filhos e poeta,
que ficou desempregado.
Nunca no entanto tive tanto trabalho,
trabalho o tempo inteiro e não me canso
porque trabalho cantando
na construção da manhã:
manhã geral de amor que vai chegar.

Santiago do Chile,
31 de março de 1965

Imagem - 00850001


Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
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Thiago de Mello

Thiago de Mello

39 Anos de um Cidadão Brasileiro

(...)

Dia 31 de março,
confiro meus documentos.
Cidadão brasileiro,
legítimo: sei que a lei
mudou, mas não mudou tanto.
Alguma coisa ainda vale
no chão amado da infância,
chão com cheiro de marirana
e flor de cajueiro,
chão por onde hoje campeia,
solta e grossa,
a botina rombuda.

Está na certidão:
natural do Amazonas,
barrancos do Bom Socorro.

(...)

Pois brasileiro, caboclo,
39 anos. Feitos ontem.
É. Mas não chegou ninguém,
remando de canoa. Ninguém veio
pelas águas dos remansos,
— curimatãs, tucumãs —
ninguém chegou lá de longe
varando a noite do vento
para amanhecer na festa
do meu dia aniversário.

(...)

Pois brasileiro casado,
e pai de dois filhos homens.
O menor ficou tão longe,
nem sabe o lugar que tem
no fundo azul do meu peito.
o outro vem vindo comigo:
é o bem maior de uma vida
que se acabou já faz tempo,
nem parece que passou.
Com este menino conto,
todos podemos contar.

(...)

Folha corrida não há.
A de serviços é pouca,
nem sei se vale. O que vale
é este papel esquecido,
todo comido de tempo,
que só me acende desgostos
e durezas dos meus dias
de serviço militar.
Provo que sou reservista,
dei muito tiro no muro,
desmontei muito fuzil,
decorei o regulamento,
bom mesmo era rastejar
no cheiro fresco da lama.
Fiz meias-voltas, volver,
fiz tudo para entender
a alma daquele tenente:
estava sempre engomado,
limitava-se ao comando,
nunca nenhuma palavra
de gratuita convivência.
Às vezes vinha a cavalo,
solene e só, silencioso
na altura do seu desprezo.
Foi o ser mais solitário,
o mais feroz que eu já vi.

(...)

De eleitor, além do título
— que de repente se ameaça
de nenhuma serventia —
guardo a alegria de sempre
ter escolhido sozinho,
mas guardo a pena de nunca
ter dado o amor do meu voto
a um homem do povo e ao povo
num homem: assim como Arraes.

A profissão é a de poeta
ou de empinador de papagaios
o que vem a dar no mesmo.

(...)

Deixando o ser livre limpo,
chegaram os cantos que eu amo.
De todos os que mais valem,
são os poemas sobre a rosa
na parede da prisão,
é a canção da rebeldia
dos fonemas da alegria,
é o canto companheiro
chegando do ao coração,
é a toada pro menino
que vai levando o pendão.

Por isso estou aqui com a minha vida,
na cordilheira longe do meu povo,
do qual jamais tão perto estive tanto.

Cidadão brasileiro,
natural do Amazonas,
39 anos, casado,
eleitor e reservista,
pai de dois filhos e poeta,
que ficou desempregado.
Nunca no entanto tive tanto trabalho,
trabalho o tempo inteiro e não me canso
porque trabalho cantando
na construção da manhã:
manhã geral de amor que vai chegar.

Santiago do Chile,
31 de março de 1965

Imagem - 00850001


Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
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Thiago de Mello

Thiago de Mello

39 Anos de um Cidadão Brasileiro

(...)

Dia 31 de março,
confiro meus documentos.
Cidadão brasileiro,
legítimo: sei que a lei
mudou, mas não mudou tanto.
Alguma coisa ainda vale
no chão amado da infância,
chão com cheiro de marirana
e flor de cajueiro,
chão por onde hoje campeia,
solta e grossa,
a botina rombuda.

Está na certidão:
natural do Amazonas,
barrancos do Bom Socorro.

(...)

Pois brasileiro, caboclo,
39 anos. Feitos ontem.
É. Mas não chegou ninguém,
remando de canoa. Ninguém veio
pelas águas dos remansos,
— curimatãs, tucumãs —
ninguém chegou lá de longe
varando a noite do vento
para amanhecer na festa
do meu dia aniversário.

(...)

Pois brasileiro casado,
e pai de dois filhos homens.
O menor ficou tão longe,
nem sabe o lugar que tem
no fundo azul do meu peito.
o outro vem vindo comigo:
é o bem maior de uma vida
que se acabou já faz tempo,
nem parece que passou.
Com este menino conto,
todos podemos contar.

(...)

Folha corrida não há.
A de serviços é pouca,
nem sei se vale. O que vale
é este papel esquecido,
todo comido de tempo,
que só me acende desgostos
e durezas dos meus dias
de serviço militar.
Provo que sou reservista,
dei muito tiro no muro,
desmontei muito fuzil,
decorei o regulamento,
bom mesmo era rastejar
no cheiro fresco da lama.
Fiz meias-voltas, volver,
fiz tudo para entender
a alma daquele tenente:
estava sempre engomado,
limitava-se ao comando,
nunca nenhuma palavra
de gratuita convivência.
Às vezes vinha a cavalo,
solene e só, silencioso
na altura do seu desprezo.
Foi o ser mais solitário,
o mais feroz que eu já vi.

(...)

De eleitor, além do título
— que de repente se ameaça
de nenhuma serventia —
guardo a alegria de sempre
ter escolhido sozinho,
mas guardo a pena de nunca
ter dado o amor do meu voto
a um homem do povo e ao povo
num homem: assim como Arraes.

A profissão é a de poeta
ou de empinador de papagaios
o que vem a dar no mesmo.

(...)

Deixando o ser livre limpo,
chegaram os cantos que eu amo.
De todos os que mais valem,
são os poemas sobre a rosa
na parede da prisão,
é a canção da rebeldia
dos fonemas da alegria,
é o canto companheiro
chegando do ao coração,
é a toada pro menino
que vai levando o pendão.

Por isso estou aqui com a minha vida,
na cordilheira longe do meu povo,
do qual jamais tão perto estive tanto.

Cidadão brasileiro,
natural do Amazonas,
39 anos, casado,
eleitor e reservista,
pai de dois filhos e poeta,
que ficou desempregado.
Nunca no entanto tive tanto trabalho,
trabalho o tempo inteiro e não me canso
porque trabalho cantando
na construção da manhã:
manhã geral de amor que vai chegar.

Santiago do Chile,
31 de março de 1965

Imagem - 00850001


Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
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Armindo Trevisan

Armindo Trevisan

Uma Doença Chamada Homem

Se dividirmos o corpo, se na unidade
as coisas se arranjarem, à revelia de outros corpos,
se de nós a inteligência partir para fora
e de fora vier até nós; se algo assim
com Kipling não nos obrigar à capitulação
e isto for complicado porque em política

repressão nada significa e as palavras constituem
o que elas constituiriam se pensar fosse comer;
se nem na comida conseguimos unanimidade
mas antes uma laranja é fruto
de divisão; se pensamos que ser é ser indivíduo,
trabalhar com os outros, fornicar com os outros;
se a colisão de bocas na treva
não nos atar as línguas; se
por acaso a vida fosse um abuso

de força a esta atavicamente jorrasse
do bico de um pássaro, do furo de uma baleia;
se cada um de nós de repente se dispusesse
a inverter a evolução, a recomeçar outro movimento.

Que aconteceria? Seríamos
inúteis durante algum tempo. Não saberíamos
manipular um motor, estender uma roupa,
ou juntar as mãos. Seríamos

inúteis. Mas dessa inutilidade
não brotaria mais sentido? Que
aconteceria? Alinhar-nos-íamos entre
os gansos? Que
se passaria com a consciência? Oh! o esforço
de se beijar um mamilo, de
se dizer absolutamente porque somos.
Um esforço do qual
cada pessoa emergeria jovem,
um gesto feito quando chega a notícia.
Seríamos inúteis. Inúteis sem remorso.
Extraviados na liberdade de ignorar

a própria morte. Em vez disso sabemos como as coisas
caminham, temos noções exatas acerca de um
fusível, pagamos nossas dívidas,
e saboreamos a sensação

de morrermos muito antes do tempo.

Imagem - 01490004


In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série O Abajur de Píndaro
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Fagundes Varela

Fagundes Varela

A William Christie

Diplomata insolente! — ave maldita
Entre as brumas do norte aviventada
A quem a pátria recusou bafejos
E o sol um raio que aquecesse o rosto!
Dize, filho da sombra, — onde aprendeste
A voar como as águias?... Em que terras
Te cresceram as penas borrifadas
Nas lagoas impuras da Bretanha?

Que céu dourado, — que estações benditas,
Que meigas flores, — que harmonias santas
Alentaram-te o cérebro? — Que sonhos
Te passaram na mente? — Que riquezas
O teu berço natal mostrou-te aos olhos?
Que doce inspiração roçou-te n'alma
E deu-te crenças, te cobriu de orgulho,
Do santo orgulho que revela o mérito?

Pisaste uma nação, — nação tão grande
Que a loucura perdoa-te! — Cuspiste
Na face dessa que afogara em vagas,
Em rios de ouro teu país ingrato!
Procuraste lançar um véu de sombras
Sobre essa terra que fascina o globo
Ao clarão dos diamantes, e piedosa
Teus irmãos agasalha junto ao peito!

Basta de humilhações!... dize a teus amos
Que a terra de Cabral está cansada
De ultrajes suportar! — Que a seus clamores
No seio das florestas ressuscita
Um mundo de guerreiros que não teme
O troar dos canhões; — que um povo ardente
Se levanta inspirado à voz dos bardos
Do pendão auriverde à sombra amiga!

Quereis ouro e riqueza?... Ah! nós vos damos,
É em nome da Irlanda miserável
Que sucumbe de fome! — É por piedade
Dos filhos do Levante que se estorcem
Entre sangue e veneno! — É pelos tristes
Que soluçam nos ferros, — pelos gênios
Que morrem na miséria e no abandono,
Pela virtude sem defesa e amparo!...

Vai, teu país é poderoso e ousado,
Teus vasos cobrem a amplidão dos mares,
Teus soldados são célebres e fortes,
Teus canhões são medonhos, — ferem certo.
A nós isto que importa? — se atrevidos
A nossas praias aportarem, loucos,
Cada província é um povo de guerreiros,
Cada guerreiro um destemido Anteu!

Imagem - 00320003


Publicado no livro O estandarte auriverde: cantos sobre a questão anglo-brasileira (1863).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.9
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Fagundes Varela

Fagundes Varela

A William Christie

Diplomata insolente! — ave maldita
Entre as brumas do norte aviventada
A quem a pátria recusou bafejos
E o sol um raio que aquecesse o rosto!
Dize, filho da sombra, — onde aprendeste
A voar como as águias?... Em que terras
Te cresceram as penas borrifadas
Nas lagoas impuras da Bretanha?

Que céu dourado, — que estações benditas,
Que meigas flores, — que harmonias santas
Alentaram-te o cérebro? — Que sonhos
Te passaram na mente? — Que riquezas
O teu berço natal mostrou-te aos olhos?
Que doce inspiração roçou-te n'alma
E deu-te crenças, te cobriu de orgulho,
Do santo orgulho que revela o mérito?

Pisaste uma nação, — nação tão grande
Que a loucura perdoa-te! — Cuspiste
Na face dessa que afogara em vagas,
Em rios de ouro teu país ingrato!
Procuraste lançar um véu de sombras
Sobre essa terra que fascina o globo
Ao clarão dos diamantes, e piedosa
Teus irmãos agasalha junto ao peito!

Basta de humilhações!... dize a teus amos
Que a terra de Cabral está cansada
De ultrajes suportar! — Que a seus clamores
No seio das florestas ressuscita
Um mundo de guerreiros que não teme
O troar dos canhões; — que um povo ardente
Se levanta inspirado à voz dos bardos
Do pendão auriverde à sombra amiga!

Quereis ouro e riqueza?... Ah! nós vos damos,
É em nome da Irlanda miserável
Que sucumbe de fome! — É por piedade
Dos filhos do Levante que se estorcem
Entre sangue e veneno! — É pelos tristes
Que soluçam nos ferros, — pelos gênios
Que morrem na miséria e no abandono,
Pela virtude sem defesa e amparo!...

Vai, teu país é poderoso e ousado,
Teus vasos cobrem a amplidão dos mares,
Teus soldados são célebres e fortes,
Teus canhões são medonhos, — ferem certo.
A nós isto que importa? — se atrevidos
A nossas praias aportarem, loucos,
Cada província é um povo de guerreiros,
Cada guerreiro um destemido Anteu!

Imagem - 00320003


Publicado no livro O estandarte auriverde: cantos sobre a questão anglo-brasileira (1863).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.9
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Fagundes Varela

Fagundes Varela

A William Christie

Diplomata insolente! — ave maldita
Entre as brumas do norte aviventada
A quem a pátria recusou bafejos
E o sol um raio que aquecesse o rosto!
Dize, filho da sombra, — onde aprendeste
A voar como as águias?... Em que terras
Te cresceram as penas borrifadas
Nas lagoas impuras da Bretanha?

Que céu dourado, — que estações benditas,
Que meigas flores, — que harmonias santas
Alentaram-te o cérebro? — Que sonhos
Te passaram na mente? — Que riquezas
O teu berço natal mostrou-te aos olhos?
Que doce inspiração roçou-te n'alma
E deu-te crenças, te cobriu de orgulho,
Do santo orgulho que revela o mérito?

Pisaste uma nação, — nação tão grande
Que a loucura perdoa-te! — Cuspiste
Na face dessa que afogara em vagas,
Em rios de ouro teu país ingrato!
Procuraste lançar um véu de sombras
Sobre essa terra que fascina o globo
Ao clarão dos diamantes, e piedosa
Teus irmãos agasalha junto ao peito!

Basta de humilhações!... dize a teus amos
Que a terra de Cabral está cansada
De ultrajes suportar! — Que a seus clamores
No seio das florestas ressuscita
Um mundo de guerreiros que não teme
O troar dos canhões; — que um povo ardente
Se levanta inspirado à voz dos bardos
Do pendão auriverde à sombra amiga!

Quereis ouro e riqueza?... Ah! nós vos damos,
É em nome da Irlanda miserável
Que sucumbe de fome! — É por piedade
Dos filhos do Levante que se estorcem
Entre sangue e veneno! — É pelos tristes
Que soluçam nos ferros, — pelos gênios
Que morrem na miséria e no abandono,
Pela virtude sem defesa e amparo!...

Vai, teu país é poderoso e ousado,
Teus vasos cobrem a amplidão dos mares,
Teus soldados são célebres e fortes,
Teus canhões são medonhos, — ferem certo.
A nós isto que importa? — se atrevidos
A nossas praias aportarem, loucos,
Cada província é um povo de guerreiros,
Cada guerreiro um destemido Anteu!

Imagem - 00320003


Publicado no livro O estandarte auriverde: cantos sobre a questão anglo-brasileira (1863).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.9
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Fagundes Varela

Fagundes Varela

A William Christie

Diplomata insolente! — ave maldita
Entre as brumas do norte aviventada
A quem a pátria recusou bafejos
E o sol um raio que aquecesse o rosto!
Dize, filho da sombra, — onde aprendeste
A voar como as águias?... Em que terras
Te cresceram as penas borrifadas
Nas lagoas impuras da Bretanha?

Que céu dourado, — que estações benditas,
Que meigas flores, — que harmonias santas
Alentaram-te o cérebro? — Que sonhos
Te passaram na mente? — Que riquezas
O teu berço natal mostrou-te aos olhos?
Que doce inspiração roçou-te n'alma
E deu-te crenças, te cobriu de orgulho,
Do santo orgulho que revela o mérito?

Pisaste uma nação, — nação tão grande
Que a loucura perdoa-te! — Cuspiste
Na face dessa que afogara em vagas,
Em rios de ouro teu país ingrato!
Procuraste lançar um véu de sombras
Sobre essa terra que fascina o globo
Ao clarão dos diamantes, e piedosa
Teus irmãos agasalha junto ao peito!

Basta de humilhações!... dize a teus amos
Que a terra de Cabral está cansada
De ultrajes suportar! — Que a seus clamores
No seio das florestas ressuscita
Um mundo de guerreiros que não teme
O troar dos canhões; — que um povo ardente
Se levanta inspirado à voz dos bardos
Do pendão auriverde à sombra amiga!

Quereis ouro e riqueza?... Ah! nós vos damos,
É em nome da Irlanda miserável
Que sucumbe de fome! — É por piedade
Dos filhos do Levante que se estorcem
Entre sangue e veneno! — É pelos tristes
Que soluçam nos ferros, — pelos gênios
Que morrem na miséria e no abandono,
Pela virtude sem defesa e amparo!...

Vai, teu país é poderoso e ousado,
Teus vasos cobrem a amplidão dos mares,
Teus soldados são célebres e fortes,
Teus canhões são medonhos, — ferem certo.
A nós isto que importa? — se atrevidos
A nossas praias aportarem, loucos,
Cada província é um povo de guerreiros,
Cada guerreiro um destemido Anteu!

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Publicado no livro O estandarte auriverde: cantos sobre a questão anglo-brasileira (1863).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.9
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Fagundes Varela

Fagundes Varela

A William Christie

Diplomata insolente! — ave maldita
Entre as brumas do norte aviventada
A quem a pátria recusou bafejos
E o sol um raio que aquecesse o rosto!
Dize, filho da sombra, — onde aprendeste
A voar como as águias?... Em que terras
Te cresceram as penas borrifadas
Nas lagoas impuras da Bretanha?

Que céu dourado, — que estações benditas,
Que meigas flores, — que harmonias santas
Alentaram-te o cérebro? — Que sonhos
Te passaram na mente? — Que riquezas
O teu berço natal mostrou-te aos olhos?
Que doce inspiração roçou-te n'alma
E deu-te crenças, te cobriu de orgulho,
Do santo orgulho que revela o mérito?

Pisaste uma nação, — nação tão grande
Que a loucura perdoa-te! — Cuspiste
Na face dessa que afogara em vagas,
Em rios de ouro teu país ingrato!
Procuraste lançar um véu de sombras
Sobre essa terra que fascina o globo
Ao clarão dos diamantes, e piedosa
Teus irmãos agasalha junto ao peito!

Basta de humilhações!... dize a teus amos
Que a terra de Cabral está cansada
De ultrajes suportar! — Que a seus clamores
No seio das florestas ressuscita
Um mundo de guerreiros que não teme
O troar dos canhões; — que um povo ardente
Se levanta inspirado à voz dos bardos
Do pendão auriverde à sombra amiga!

Quereis ouro e riqueza?... Ah! nós vos damos,
É em nome da Irlanda miserável
Que sucumbe de fome! — É por piedade
Dos filhos do Levante que se estorcem
Entre sangue e veneno! — É pelos tristes
Que soluçam nos ferros, — pelos gênios
Que morrem na miséria e no abandono,
Pela virtude sem defesa e amparo!...

Vai, teu país é poderoso e ousado,
Teus vasos cobrem a amplidão dos mares,
Teus soldados são célebres e fortes,
Teus canhões são medonhos, — ferem certo.
A nós isto que importa? — se atrevidos
A nossas praias aportarem, loucos,
Cada província é um povo de guerreiros,
Cada guerreiro um destemido Anteu!

Imagem - 00320003


Publicado no livro O estandarte auriverde: cantos sobre a questão anglo-brasileira (1863).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.9
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Castro Alves

Castro Alves

Pedro Ivo

Sonhava nesta geração bastarda
Glórias e liberdade!...
...................................
Era um leão sangrento, que rugia,
Da glória nos clarins se embriagava,
E vossa gente pálida recuava,
Quando ele aparecia.
ÁLVARES DE AZEVEDO


I

Rebramam os ventos... Da negra tormenta
Nos montes de nuvens galopa o corcel...
Relincha — troveja... galgando no espaço
Mil raios desperta co'as patas revel.

É noite de horrores... nas grunas celestes,
Nas naves etéreas o vento gemeu...
E os astros fugiram, qual bando de garças
Das águas revoltas do lago do céu.

E a terra é medonha... As árvores nuas
Espectros semelham fincados de pé,
Com os braços de múmias, que os ventos retorcem,
Tremendo a esse grito, que estranho lhes é.

Desperta o infinito... Co'a boca entreaberta
Respira a borrasca do largo pulmão.
Ao longe o oceano sacode as espáduas
— Encélado novo calcado no chão.

É noite de horrores... Por ínvio caminho
Um vulto sombrio sozinho passou,
Co'a noite no peito, co'a noite no busto
Subiu pelo monte, — nas cimas parou.

Cabelos esparsos ao sopro dos ventos,
Olhar desvairado, sinistro, fatal,
Diríeis estátua roçando nas nuvens,
P'ra qual a montanha se fez pedestal.

Rugia a procela — nem ele escutava!...
Mil raios choviam — nem ele os fitou!
Com a destra apontando bem longe a cidade,
Após largo tempo sombrio falou!...

..........................................


Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986

NOTA: Poema composto de 5 partes, datado de Recife, maio de 1865
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Bruno de Menezes

Bruno de Menezes

Marujada

Fragatas, marujos pintados de entrudo,
gageiro subindo no mastro de proa,
piloto crioulo cantando a manobra
na cadência da onda, ao rumor da mareta.

É um brigue lendário... A "Nau Catarineta"...
Um cruzador do Império...

— "Seu imediato!
— Pronto seu comandante!
— Mande suspendê ferro que são
hora da partida!..."

E as fragatas em coro tatuadas gingando...
suspendem o ferro mesmo sustêm a força da amarra.

(1) "Alerta marinhêro
vâmo o terro levantá
as hora não chegada
do "Tupi" si arritirá".

E o rufo batuca na lufa-lufa a vela estrebucha ao vento
[que bufa...

Navio pirata... Veleiro corsário em mar alto...
Barca onde só vem mestiço.

Regamboleios de fragatas no arrastão da marujada
meia-lua em ronda longa escorregando no convés.

Pintados de entrudo! Oficiais e a marinhagem!
Revolta tumulto a bordo... O imediato posto a ferros...

Os trovões os relâmpagos o vento,
o mar brabo e a invocação à Virgem Mãe dos Navegantes:

(2) "Sinhor do Mar
Rainha das Ondas
livrai-nos da morte
nas ondas do mar...

É a cerração... Vida de bordo numa sala
que palpita de emoção e a maresia faz tremer.

A embarcação joga sem rumo...

Pintados de entrudo!

Rodelas de carmim... brancuras de alvaiade...

O comandante de espadim dragonas gorro e apito
... tinha a melhor fragata!

Mas na hora em que na adriça,
cessada a tempestade,
a bandeira subia garbosa no mastro,
eles pensavam que era certo e davam vivas ao Brasil!


Publicado no livro Batuque: poemas (1939).

In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.229-230. (Lendo o Pará, 14
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Fagundes Varela

Fagundes Varela

Mauro, o Escravo

(Fragmentos de um poema)

A Sentença

(...)

XI

Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.

(...)

XIV

— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.

(...)

XX

— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!

XXI

O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:

XXII

Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?

XXIII

Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!

XXIV

Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!

XXV

E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.

XXVI

Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.

XXVII

Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.

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Publicado no livro Vozes da América: poesias (1864).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.101-102

NOTA: Poema composto de 4 partes: A Sentença, O Suplício, A Vingança e Visão. A Sentença é composta de 27 sextilha
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