Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Aníbal Raposo
Poema na Madrugada
Tu e eu na mesma hélice
Tu, muitas espiras acima
Que voas mais alto...
Cirandas à volta da lua feiticeira
Com as tuas asas de fogo
Incendeias-me o corpo
E em torrentes e lava
O meu amor flui
E como ela,
Em desespero,
Procura o mar...
Deixa-me dançar contigo uma dança índia
À volta da fogueira
Do nosso encantamento.
Deixa-me enlouquecer ao ritmo
Dum batuque africano
Transposto para um terreiro da Baía.
Deixa-me sentir os sortilégios
De Oxúm e de Oxalá.
Deitar, na praia, flores a Iemanjá.
Adorar a mãe Terra
Sentir-lhe o cheiro
Depois de uma chuvada de Agosto.
Eu quero ser, ao mesmo tempo,
Vinho e mosto.
Madrugada, sol nascente,
Entardecer e sol posto.
Curare.
Veneno na ponta da zarabatana.
Réstia de lucidez em mente insana.
Canta comigo irmã
A cantiga da terra prenhe.
Enforquemos as vaidades
Em gravatas ridículas
Confeccionadas em boa seda
E vendidas por um moderno bufarinheiro
Junto à catedral de Milão.
Deixa-me fundear nas tuas angras.
Ser o teu pirata argelino de estimação.
O teu bandeirante,
Buscando a esmeralda perdida
No meio do sertão.
Eu quero ser o desatino da tua insónia.
A tua noite mal dormida.
A tua cicatriz, a tua ferida,
Cauterizada com ferros ardentes.
Quero ser o teu ranger de dentes
Ante o desespero da miséria...
O teu grilo falante.
O espinho da tua rosa triunfante.
Deixa-me caboucar o sonho.
Construir castelos quiméricos.
Inventar outra arquitectura.
Redonda.
Quero esperar por ti
Na paragem do autocarro
Que vai partir, já
Para Nova Deli.
Quero ser uma luzinha ténue
Na via láctea nocturna
Desta vida favelada.
Rocinha!
Rio e margem,
Voo picado
Pedra Bonita, pivete.
(Glória ao escrete!)
O poder está
Na ponta do canivete!
Ipanema...
Saravah! Irmão Vinícius
Poetinha do amor e do vício.
Aqui estou!
Dou-te razão:
A inspiração continua a estar
Bem no fundo do copo
E da alma.
Salvé musa minha
Habitante da ilha irmã.
Continuas a ser o meu luzeiro,
Estrela da manhã.
Por ti adoro Baco.
Por ti versejo.
Por ti faço charadas,
Num desejo
De te ter mais perto.
Sem ti sou um navio no deserto.
O profeta do caos.
Caruso a cantar na ópera de Manaus.
O porco nos joelhos do visionário Klaus Kinsky
Na epopeia de Fritz Carraldo.
O caldo
Da loucura...
Pura...
Heroína...
Menina...
Lua...
Tu, muitas espiras acima
Que voas mais alto...
Cirandas à volta da lua feiticeira
Com as tuas asas de fogo
Incendeias-me o corpo
E em torrentes e lava
O meu amor flui
E como ela,
Em desespero,
Procura o mar...
Deixa-me dançar contigo uma dança índia
À volta da fogueira
Do nosso encantamento.
Deixa-me enlouquecer ao ritmo
Dum batuque africano
Transposto para um terreiro da Baía.
Deixa-me sentir os sortilégios
De Oxúm e de Oxalá.
Deitar, na praia, flores a Iemanjá.
Adorar a mãe Terra
Sentir-lhe o cheiro
Depois de uma chuvada de Agosto.
Eu quero ser, ao mesmo tempo,
Vinho e mosto.
Madrugada, sol nascente,
Entardecer e sol posto.
Curare.
Veneno na ponta da zarabatana.
Réstia de lucidez em mente insana.
Canta comigo irmã
A cantiga da terra prenhe.
Enforquemos as vaidades
Em gravatas ridículas
Confeccionadas em boa seda
E vendidas por um moderno bufarinheiro
Junto à catedral de Milão.
Deixa-me fundear nas tuas angras.
Ser o teu pirata argelino de estimação.
O teu bandeirante,
Buscando a esmeralda perdida
No meio do sertão.
Eu quero ser o desatino da tua insónia.
A tua noite mal dormida.
A tua cicatriz, a tua ferida,
Cauterizada com ferros ardentes.
Quero ser o teu ranger de dentes
Ante o desespero da miséria...
O teu grilo falante.
O espinho da tua rosa triunfante.
Deixa-me caboucar o sonho.
Construir castelos quiméricos.
Inventar outra arquitectura.
Redonda.
Quero esperar por ti
Na paragem do autocarro
Que vai partir, já
Para Nova Deli.
Quero ser uma luzinha ténue
Na via láctea nocturna
Desta vida favelada.
Rocinha!
Rio e margem,
Voo picado
Pedra Bonita, pivete.
(Glória ao escrete!)
O poder está
Na ponta do canivete!
Ipanema...
Saravah! Irmão Vinícius
Poetinha do amor e do vício.
Aqui estou!
Dou-te razão:
A inspiração continua a estar
Bem no fundo do copo
E da alma.
Salvé musa minha
Habitante da ilha irmã.
Continuas a ser o meu luzeiro,
Estrela da manhã.
Por ti adoro Baco.
Por ti versejo.
Por ti faço charadas,
Num desejo
De te ter mais perto.
Sem ti sou um navio no deserto.
O profeta do caos.
Caruso a cantar na ópera de Manaus.
O porco nos joelhos do visionário Klaus Kinsky
Na epopeia de Fritz Carraldo.
O caldo
Da loucura...
Pura...
Heroína...
Menina...
Lua...
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2
Sá de Miranda
Carta
Rei de muitos reis, se um dia,
Se uma hora só mal me atrevo
Ocupar-vos, mal faria,
E ao bem comum não teria
Os respeitos que ter devo.
Que em outras partes da esfera,
Em outros céus diferentes,
Que Deus até agora escondera,
Tanta multidão de gentes
Vossos mandados espera.
Que sois vós tal, que eles sós,
justo e poderoso rei,
Ou lhe desdais os seus nós,
Ou cortais; porque entre nós
Vós sois nossa viva lei.
Onde há homens há cobiça,
Cá e lá, tudo ela empeça,
Se a santa, se a igual justiça
Não corta, ou não desempena
O que a má malícia enliça.
Senhor, que é muito atrevida,
E onde ela nós cegos deu,
Cortar é coisa devida;
Exemplo o justo de Mida,
Que el-rei vosso avô fez seu.
Ora eu, que respeito havendo
Ao tempo, mais que ao estilo,
Irei fugindo ao que entendo;
Farei como os cães do Nilo,
Que correm, e vão bebendo.
A dignidade real,
Que o mundo a direito tem,
Sem ela ter-se-ia mal,
É sagrada, e não leal
quem limpo ante ela não vem.
Não falemos nos tiranos,
Falemos nos reis ungidos;
Remedeiam nossos danos;
Socorrem os afligidos;
Cortam pelos maus enganos.
As vossas velas, que vão,
Dando quase ó mundo volta,
Raramente contarão
Gente doutro algum rei solta;
Sem cabeça o corpo é vão.
Dignidade alta e suprema,
Que há que a não reconheça?
Viu-se em Marco Antônio tema
De pôr real diadema
A César sobre a cabeça.
Que nome de imperador
Dantes a César se dera
Sem suspeita, e sem temor;
Que inda então muito mais era
Ser cônsul, ser ditador.
Um rei ao reino convém;
Vemos que alumia o mundo;
Um sol, um Deus o sustém:
Certa a queda, e o fim tem
O reino onde há rei segundo.
Não ao sabor das orelhas,
Arenga estudada e branda;
Abastam as razões velhas:
A cabeça os membros manda;
Seu rei seguem as abelhas.
A tempo o bom rei perdoa;
A tempo o ferro é mezinha:
Forças e condição boa
Deram ao leão coroa
De sua grei montezinha.
Às aves, tamanho bando
Doutra liga, e doutra lei,
Por vencer todas voando,
A águia foi dada por rei,
Que o sol claro atura olhando.
Quanto que sempre guardou
David lealdade e fé
A Saul, quanto o chorou!
Quanta maldição lançou
Aos montes de Gelboé!
Onde caíra o escudo
De seu rei, inda que inimigo,
Inda que já mal sisudo
Saindo de tal perigo,
E subindo a mandar tudo.
O senhor da natureza,
De quem céu e terra é cheia,
Vindo a esta nossa baixeza,
Do real sangue se preza:
Por rei na cruz se nomeia.
Sobre obrigações tamanhas
Velem-se contudo os reis
Dos rostos falsos, das manhas
Com que lhe querem das leis,
Fazer teias das aranhas.
Oue se não pode fazer
Por arte, por força ou graça,
Salvo o que a justiça quer;
Senhor, não chamam valer,
Salvo ao que lhes val na praça.
E por muito que os reis olhem,
Vão por fora mil inchaços,
Que ante vós, senhor, se encolhem
Duns gigantes de cem braços
Com que dão, e com que tolhem.
Quem graça ante el-rei alcança,
E lhe fala o que não deve,
Mal grande da má privança,
Peçonha na fonte lança,
De que toda a terra breve.
Quem joga, onde engano vai,
Em vão corre e torna atrás;
Em vão sobre a face cai:
Mal hajam as manhas más
Donde tanto dano sai!
Homem de um só parecer,
Dum só rosto, uma só fé,
Dantes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte homem não é.
Gracejar ouço de cá
De quem vai inteiro e são,
Nem se contrafaz mais lá;
Como este vem aldeão,
Que cortesão tornará?
As santidades da praça,
Aqueles rostos tristonhos,
Cos quais este, e aquele caça;
Para Deus, senhor, é graça;
Para nós tudo são sonhos.
E os discursos que fazemos,
Pode ser, não pode ser,
Mais diante o entenderemos:
Agora mortos por ver;
Então todos nós veremos.
Senhor, hei-vos de falar
(Vossa mansidão me esforça)
Claro o que posso alcançar;
Andam para vos tomar
Por manhas, que não por força.
Por minas trazem suas azes
Os rostos de tintureiros,
Falsas guerras, falsas pazes;
De fora mansos cordeiros;
De dentro lobos roazes.
Tudo seu remédio tem
E que assim bem o sabeis,
E ao remédio também;
Querei-los conhecer bem,
No fruto os conhecereis.
Obras, que palavras não:
Porém, senhor, somos muitos,
E entre tanta multidão
Tresmalham-se-vos os frutos,
Que não sabeis cujos são.
Um que por outro se vende,
Lança a pedra, e a mão esconde;
O dano longe se estende;
Aquele a quem dói e entende,
Com só suspiros responde.
A vida desaparece,
E entretanto geme e jaz
O que caiu: e acontece,
Que dum mal, que se lhe faz,
Outro mor se lhe recresce.
Pena e galardão igual
O mundo a direito tem,
A uma regra geral;
Que a pena se deve ao mal,
E o galardão ao bem.
Se alguma hora aconteceu
Na paz, muito mais na guerra,
Que a balança mais pendeu,
Faz-se engano às leis da terra;
Nunca se faz às do céu.
Entre os lombardos havia
Lei escrita, e lei usada,
Como se sabe hoje em dia;
Que onde a prova falecia,
Que o provasse a espada.
Ali no campo às singelas,
Enfim morrer ou vencer,
Fosse qual quisesse delas:
Não era melhor morrer
A ferro, que de cautelas?
Ao nosso alto e excelente
Dom Dinis, rei tão louvado,
Tão justo, a Deus tão temente,
Falsa e maliciosamente,
Foi grande aleive assacado.
Ele posto em tal perigo,
Rei que rei fez e desfez;
Contra o malicioso inimigo,
Foi-lhe forçado esta vez
Chamar-se a esta lei que digo.
E juntamente às cidades
A quem cumpriu de acudir,
Pelas suas lealdades:
Que tão más são as verdades
Às vezes de descobrir!
Neste tempo quem mal cai,
Mal jaz; e dizem que à luz
Por tempo a verdade sai;
Entretanto põem na cruz
O justo, o ladrão se vai.
Da mesma casa real,
Em verdade um grande infante
Tratado às escuras mal,
Bradava por campo igual,
E inimigos claros diante.
Enfim vendo a indústria e arte
Quanto que podem, chamou
Um leal conde de parte;
Só com ele se apartou;
Foi viver a melhor parte.
Onde tudo é certo e claro,
Onde são sempre umas leis;
Príncipe no mundo raro,
Sobre tanto desamparo
Foram três seus filhos reis.
Ó senhor! quantos suores
Passa o corpo e alma em vão
Em poder de envolvedores!
Enfim, batalhas que são?
Salvo desafios mores.
Com a mão sobre um ouvido
Ouvia Alexandre as partes,
Como quem tinha entendido,
Por fazer certo o fingido,
Quantas que se buscam dartes.
Guardava ele o outro inteiro
A parte não inda ouvida:
Não vai nada em ser primeiro:
Quem muito sabe duvida;
Só Deus é o verdadeiro.
A tudo dão novas cores
Com que enleiam os sentidos:
Ah maus! ah enliçadores!
Ante os reis vossos senhores,
Andais com rostos fingidos!
Se uma hora só mal me atrevo
Ocupar-vos, mal faria,
E ao bem comum não teria
Os respeitos que ter devo.
Que em outras partes da esfera,
Em outros céus diferentes,
Que Deus até agora escondera,
Tanta multidão de gentes
Vossos mandados espera.
Que sois vós tal, que eles sós,
justo e poderoso rei,
Ou lhe desdais os seus nós,
Ou cortais; porque entre nós
Vós sois nossa viva lei.
Onde há homens há cobiça,
Cá e lá, tudo ela empeça,
Se a santa, se a igual justiça
Não corta, ou não desempena
O que a má malícia enliça.
Senhor, que é muito atrevida,
E onde ela nós cegos deu,
Cortar é coisa devida;
Exemplo o justo de Mida,
Que el-rei vosso avô fez seu.
Ora eu, que respeito havendo
Ao tempo, mais que ao estilo,
Irei fugindo ao que entendo;
Farei como os cães do Nilo,
Que correm, e vão bebendo.
A dignidade real,
Que o mundo a direito tem,
Sem ela ter-se-ia mal,
É sagrada, e não leal
quem limpo ante ela não vem.
Não falemos nos tiranos,
Falemos nos reis ungidos;
Remedeiam nossos danos;
Socorrem os afligidos;
Cortam pelos maus enganos.
As vossas velas, que vão,
Dando quase ó mundo volta,
Raramente contarão
Gente doutro algum rei solta;
Sem cabeça o corpo é vão.
Dignidade alta e suprema,
Que há que a não reconheça?
Viu-se em Marco Antônio tema
De pôr real diadema
A César sobre a cabeça.
Que nome de imperador
Dantes a César se dera
Sem suspeita, e sem temor;
Que inda então muito mais era
Ser cônsul, ser ditador.
Um rei ao reino convém;
Vemos que alumia o mundo;
Um sol, um Deus o sustém:
Certa a queda, e o fim tem
O reino onde há rei segundo.
Não ao sabor das orelhas,
Arenga estudada e branda;
Abastam as razões velhas:
A cabeça os membros manda;
Seu rei seguem as abelhas.
A tempo o bom rei perdoa;
A tempo o ferro é mezinha:
Forças e condição boa
Deram ao leão coroa
De sua grei montezinha.
Às aves, tamanho bando
Doutra liga, e doutra lei,
Por vencer todas voando,
A águia foi dada por rei,
Que o sol claro atura olhando.
Quanto que sempre guardou
David lealdade e fé
A Saul, quanto o chorou!
Quanta maldição lançou
Aos montes de Gelboé!
Onde caíra o escudo
De seu rei, inda que inimigo,
Inda que já mal sisudo
Saindo de tal perigo,
E subindo a mandar tudo.
O senhor da natureza,
De quem céu e terra é cheia,
Vindo a esta nossa baixeza,
Do real sangue se preza:
Por rei na cruz se nomeia.
Sobre obrigações tamanhas
Velem-se contudo os reis
Dos rostos falsos, das manhas
Com que lhe querem das leis,
Fazer teias das aranhas.
Oue se não pode fazer
Por arte, por força ou graça,
Salvo o que a justiça quer;
Senhor, não chamam valer,
Salvo ao que lhes val na praça.
E por muito que os reis olhem,
Vão por fora mil inchaços,
Que ante vós, senhor, se encolhem
Duns gigantes de cem braços
Com que dão, e com que tolhem.
Quem graça ante el-rei alcança,
E lhe fala o que não deve,
Mal grande da má privança,
Peçonha na fonte lança,
De que toda a terra breve.
Quem joga, onde engano vai,
Em vão corre e torna atrás;
Em vão sobre a face cai:
Mal hajam as manhas más
Donde tanto dano sai!
Homem de um só parecer,
Dum só rosto, uma só fé,
Dantes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte homem não é.
Gracejar ouço de cá
De quem vai inteiro e são,
Nem se contrafaz mais lá;
Como este vem aldeão,
Que cortesão tornará?
As santidades da praça,
Aqueles rostos tristonhos,
Cos quais este, e aquele caça;
Para Deus, senhor, é graça;
Para nós tudo são sonhos.
E os discursos que fazemos,
Pode ser, não pode ser,
Mais diante o entenderemos:
Agora mortos por ver;
Então todos nós veremos.
Senhor, hei-vos de falar
(Vossa mansidão me esforça)
Claro o que posso alcançar;
Andam para vos tomar
Por manhas, que não por força.
Por minas trazem suas azes
Os rostos de tintureiros,
Falsas guerras, falsas pazes;
De fora mansos cordeiros;
De dentro lobos roazes.
Tudo seu remédio tem
E que assim bem o sabeis,
E ao remédio também;
Querei-los conhecer bem,
No fruto os conhecereis.
Obras, que palavras não:
Porém, senhor, somos muitos,
E entre tanta multidão
Tresmalham-se-vos os frutos,
Que não sabeis cujos são.
Um que por outro se vende,
Lança a pedra, e a mão esconde;
O dano longe se estende;
Aquele a quem dói e entende,
Com só suspiros responde.
A vida desaparece,
E entretanto geme e jaz
O que caiu: e acontece,
Que dum mal, que se lhe faz,
Outro mor se lhe recresce.
Pena e galardão igual
O mundo a direito tem,
A uma regra geral;
Que a pena se deve ao mal,
E o galardão ao bem.
Se alguma hora aconteceu
Na paz, muito mais na guerra,
Que a balança mais pendeu,
Faz-se engano às leis da terra;
Nunca se faz às do céu.
Entre os lombardos havia
Lei escrita, e lei usada,
Como se sabe hoje em dia;
Que onde a prova falecia,
Que o provasse a espada.
Ali no campo às singelas,
Enfim morrer ou vencer,
Fosse qual quisesse delas:
Não era melhor morrer
A ferro, que de cautelas?
Ao nosso alto e excelente
Dom Dinis, rei tão louvado,
Tão justo, a Deus tão temente,
Falsa e maliciosamente,
Foi grande aleive assacado.
Ele posto em tal perigo,
Rei que rei fez e desfez;
Contra o malicioso inimigo,
Foi-lhe forçado esta vez
Chamar-se a esta lei que digo.
E juntamente às cidades
A quem cumpriu de acudir,
Pelas suas lealdades:
Que tão más são as verdades
Às vezes de descobrir!
Neste tempo quem mal cai,
Mal jaz; e dizem que à luz
Por tempo a verdade sai;
Entretanto põem na cruz
O justo, o ladrão se vai.
Da mesma casa real,
Em verdade um grande infante
Tratado às escuras mal,
Bradava por campo igual,
E inimigos claros diante.
Enfim vendo a indústria e arte
Quanto que podem, chamou
Um leal conde de parte;
Só com ele se apartou;
Foi viver a melhor parte.
Onde tudo é certo e claro,
Onde são sempre umas leis;
Príncipe no mundo raro,
Sobre tanto desamparo
Foram três seus filhos reis.
Ó senhor! quantos suores
Passa o corpo e alma em vão
Em poder de envolvedores!
Enfim, batalhas que são?
Salvo desafios mores.
Com a mão sobre um ouvido
Ouvia Alexandre as partes,
Como quem tinha entendido,
Por fazer certo o fingido,
Quantas que se buscam dartes.
Guardava ele o outro inteiro
A parte não inda ouvida:
Não vai nada em ser primeiro:
Quem muito sabe duvida;
Só Deus é o verdadeiro.
A tudo dão novas cores
Com que enleiam os sentidos:
Ah maus! ah enliçadores!
Ante os reis vossos senhores,
Andais com rostos fingidos!
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Sá de Miranda
Carta
Rei de muitos reis, se um dia,
Se uma hora só mal me atrevo
Ocupar-vos, mal faria,
E ao bem comum não teria
Os respeitos que ter devo.
Que em outras partes da esfera,
Em outros céus diferentes,
Que Deus até agora escondera,
Tanta multidão de gentes
Vossos mandados espera.
Que sois vós tal, que eles sós,
justo e poderoso rei,
Ou lhe desdais os seus nós,
Ou cortais; porque entre nós
Vós sois nossa viva lei.
Onde há homens há cobiça,
Cá e lá, tudo ela empeça,
Se a santa, se a igual justiça
Não corta, ou não desempena
O que a má malícia enliça.
Senhor, que é muito atrevida,
E onde ela nós cegos deu,
Cortar é coisa devida;
Exemplo o justo de Mida,
Que el-rei vosso avô fez seu.
Ora eu, que respeito havendo
Ao tempo, mais que ao estilo,
Irei fugindo ao que entendo;
Farei como os cães do Nilo,
Que correm, e vão bebendo.
A dignidade real,
Que o mundo a direito tem,
Sem ela ter-se-ia mal,
É sagrada, e não leal
quem limpo ante ela não vem.
Não falemos nos tiranos,
Falemos nos reis ungidos;
Remedeiam nossos danos;
Socorrem os afligidos;
Cortam pelos maus enganos.
As vossas velas, que vão,
Dando quase ó mundo volta,
Raramente contarão
Gente doutro algum rei solta;
Sem cabeça o corpo é vão.
Dignidade alta e suprema,
Que há que a não reconheça?
Viu-se em Marco Antônio tema
De pôr real diadema
A César sobre a cabeça.
Que nome de imperador
Dantes a César se dera
Sem suspeita, e sem temor;
Que inda então muito mais era
Ser cônsul, ser ditador.
Um rei ao reino convém;
Vemos que alumia o mundo;
Um sol, um Deus o sustém:
Certa a queda, e o fim tem
O reino onde há rei segundo.
Não ao sabor das orelhas,
Arenga estudada e branda;
Abastam as razões velhas:
A cabeça os membros manda;
Seu rei seguem as abelhas.
A tempo o bom rei perdoa;
A tempo o ferro é mezinha:
Forças e condição boa
Deram ao leão coroa
De sua grei montezinha.
Às aves, tamanho bando
Doutra liga, e doutra lei,
Por vencer todas voando,
A águia foi dada por rei,
Que o sol claro atura olhando.
Quanto que sempre guardou
David lealdade e fé
A Saul, quanto o chorou!
Quanta maldição lançou
Aos montes de Gelboé!
Onde caíra o escudo
De seu rei, inda que inimigo,
Inda que já mal sisudo
Saindo de tal perigo,
E subindo a mandar tudo.
O senhor da natureza,
De quem céu e terra é cheia,
Vindo a esta nossa baixeza,
Do real sangue se preza:
Por rei na cruz se nomeia.
Sobre obrigações tamanhas
Velem-se contudo os reis
Dos rostos falsos, das manhas
Com que lhe querem das leis,
Fazer teias das aranhas.
Oue se não pode fazer
Por arte, por força ou graça,
Salvo o que a justiça quer;
Senhor, não chamam valer,
Salvo ao que lhes val na praça.
E por muito que os reis olhem,
Vão por fora mil inchaços,
Que ante vós, senhor, se encolhem
Duns gigantes de cem braços
Com que dão, e com que tolhem.
Quem graça ante el-rei alcança,
E lhe fala o que não deve,
Mal grande da má privança,
Peçonha na fonte lança,
De que toda a terra breve.
Quem joga, onde engano vai,
Em vão corre e torna atrás;
Em vão sobre a face cai:
Mal hajam as manhas más
Donde tanto dano sai!
Homem de um só parecer,
Dum só rosto, uma só fé,
Dantes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte homem não é.
Gracejar ouço de cá
De quem vai inteiro e são,
Nem se contrafaz mais lá;
Como este vem aldeão,
Que cortesão tornará?
As santidades da praça,
Aqueles rostos tristonhos,
Cos quais este, e aquele caça;
Para Deus, senhor, é graça;
Para nós tudo são sonhos.
E os discursos que fazemos,
Pode ser, não pode ser,
Mais diante o entenderemos:
Agora mortos por ver;
Então todos nós veremos.
Senhor, hei-vos de falar
(Vossa mansidão me esforça)
Claro o que posso alcançar;
Andam para vos tomar
Por manhas, que não por força.
Por minas trazem suas azes
Os rostos de tintureiros,
Falsas guerras, falsas pazes;
De fora mansos cordeiros;
De dentro lobos roazes.
Tudo seu remédio tem
E que assim bem o sabeis,
E ao remédio também;
Querei-los conhecer bem,
No fruto os conhecereis.
Obras, que palavras não:
Porém, senhor, somos muitos,
E entre tanta multidão
Tresmalham-se-vos os frutos,
Que não sabeis cujos são.
Um que por outro se vende,
Lança a pedra, e a mão esconde;
O dano longe se estende;
Aquele a quem dói e entende,
Com só suspiros responde.
A vida desaparece,
E entretanto geme e jaz
O que caiu: e acontece,
Que dum mal, que se lhe faz,
Outro mor se lhe recresce.
Pena e galardão igual
O mundo a direito tem,
A uma regra geral;
Que a pena se deve ao mal,
E o galardão ao bem.
Se alguma hora aconteceu
Na paz, muito mais na guerra,
Que a balança mais pendeu,
Faz-se engano às leis da terra;
Nunca se faz às do céu.
Entre os lombardos havia
Lei escrita, e lei usada,
Como se sabe hoje em dia;
Que onde a prova falecia,
Que o provasse a espada.
Ali no campo às singelas,
Enfim morrer ou vencer,
Fosse qual quisesse delas:
Não era melhor morrer
A ferro, que de cautelas?
Ao nosso alto e excelente
Dom Dinis, rei tão louvado,
Tão justo, a Deus tão temente,
Falsa e maliciosamente,
Foi grande aleive assacado.
Ele posto em tal perigo,
Rei que rei fez e desfez;
Contra o malicioso inimigo,
Foi-lhe forçado esta vez
Chamar-se a esta lei que digo.
E juntamente às cidades
A quem cumpriu de acudir,
Pelas suas lealdades:
Que tão más são as verdades
Às vezes de descobrir!
Neste tempo quem mal cai,
Mal jaz; e dizem que à luz
Por tempo a verdade sai;
Entretanto põem na cruz
O justo, o ladrão se vai.
Da mesma casa real,
Em verdade um grande infante
Tratado às escuras mal,
Bradava por campo igual,
E inimigos claros diante.
Enfim vendo a indústria e arte
Quanto que podem, chamou
Um leal conde de parte;
Só com ele se apartou;
Foi viver a melhor parte.
Onde tudo é certo e claro,
Onde são sempre umas leis;
Príncipe no mundo raro,
Sobre tanto desamparo
Foram três seus filhos reis.
Ó senhor! quantos suores
Passa o corpo e alma em vão
Em poder de envolvedores!
Enfim, batalhas que são?
Salvo desafios mores.
Com a mão sobre um ouvido
Ouvia Alexandre as partes,
Como quem tinha entendido,
Por fazer certo o fingido,
Quantas que se buscam dartes.
Guardava ele o outro inteiro
A parte não inda ouvida:
Não vai nada em ser primeiro:
Quem muito sabe duvida;
Só Deus é o verdadeiro.
A tudo dão novas cores
Com que enleiam os sentidos:
Ah maus! ah enliçadores!
Ante os reis vossos senhores,
Andais com rostos fingidos!
Se uma hora só mal me atrevo
Ocupar-vos, mal faria,
E ao bem comum não teria
Os respeitos que ter devo.
Que em outras partes da esfera,
Em outros céus diferentes,
Que Deus até agora escondera,
Tanta multidão de gentes
Vossos mandados espera.
Que sois vós tal, que eles sós,
justo e poderoso rei,
Ou lhe desdais os seus nós,
Ou cortais; porque entre nós
Vós sois nossa viva lei.
Onde há homens há cobiça,
Cá e lá, tudo ela empeça,
Se a santa, se a igual justiça
Não corta, ou não desempena
O que a má malícia enliça.
Senhor, que é muito atrevida,
E onde ela nós cegos deu,
Cortar é coisa devida;
Exemplo o justo de Mida,
Que el-rei vosso avô fez seu.
Ora eu, que respeito havendo
Ao tempo, mais que ao estilo,
Irei fugindo ao que entendo;
Farei como os cães do Nilo,
Que correm, e vão bebendo.
A dignidade real,
Que o mundo a direito tem,
Sem ela ter-se-ia mal,
É sagrada, e não leal
quem limpo ante ela não vem.
Não falemos nos tiranos,
Falemos nos reis ungidos;
Remedeiam nossos danos;
Socorrem os afligidos;
Cortam pelos maus enganos.
As vossas velas, que vão,
Dando quase ó mundo volta,
Raramente contarão
Gente doutro algum rei solta;
Sem cabeça o corpo é vão.
Dignidade alta e suprema,
Que há que a não reconheça?
Viu-se em Marco Antônio tema
De pôr real diadema
A César sobre a cabeça.
Que nome de imperador
Dantes a César se dera
Sem suspeita, e sem temor;
Que inda então muito mais era
Ser cônsul, ser ditador.
Um rei ao reino convém;
Vemos que alumia o mundo;
Um sol, um Deus o sustém:
Certa a queda, e o fim tem
O reino onde há rei segundo.
Não ao sabor das orelhas,
Arenga estudada e branda;
Abastam as razões velhas:
A cabeça os membros manda;
Seu rei seguem as abelhas.
A tempo o bom rei perdoa;
A tempo o ferro é mezinha:
Forças e condição boa
Deram ao leão coroa
De sua grei montezinha.
Às aves, tamanho bando
Doutra liga, e doutra lei,
Por vencer todas voando,
A águia foi dada por rei,
Que o sol claro atura olhando.
Quanto que sempre guardou
David lealdade e fé
A Saul, quanto o chorou!
Quanta maldição lançou
Aos montes de Gelboé!
Onde caíra o escudo
De seu rei, inda que inimigo,
Inda que já mal sisudo
Saindo de tal perigo,
E subindo a mandar tudo.
O senhor da natureza,
De quem céu e terra é cheia,
Vindo a esta nossa baixeza,
Do real sangue se preza:
Por rei na cruz se nomeia.
Sobre obrigações tamanhas
Velem-se contudo os reis
Dos rostos falsos, das manhas
Com que lhe querem das leis,
Fazer teias das aranhas.
Oue se não pode fazer
Por arte, por força ou graça,
Salvo o que a justiça quer;
Senhor, não chamam valer,
Salvo ao que lhes val na praça.
E por muito que os reis olhem,
Vão por fora mil inchaços,
Que ante vós, senhor, se encolhem
Duns gigantes de cem braços
Com que dão, e com que tolhem.
Quem graça ante el-rei alcança,
E lhe fala o que não deve,
Mal grande da má privança,
Peçonha na fonte lança,
De que toda a terra breve.
Quem joga, onde engano vai,
Em vão corre e torna atrás;
Em vão sobre a face cai:
Mal hajam as manhas más
Donde tanto dano sai!
Homem de um só parecer,
Dum só rosto, uma só fé,
Dantes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte homem não é.
Gracejar ouço de cá
De quem vai inteiro e são,
Nem se contrafaz mais lá;
Como este vem aldeão,
Que cortesão tornará?
As santidades da praça,
Aqueles rostos tristonhos,
Cos quais este, e aquele caça;
Para Deus, senhor, é graça;
Para nós tudo são sonhos.
E os discursos que fazemos,
Pode ser, não pode ser,
Mais diante o entenderemos:
Agora mortos por ver;
Então todos nós veremos.
Senhor, hei-vos de falar
(Vossa mansidão me esforça)
Claro o que posso alcançar;
Andam para vos tomar
Por manhas, que não por força.
Por minas trazem suas azes
Os rostos de tintureiros,
Falsas guerras, falsas pazes;
De fora mansos cordeiros;
De dentro lobos roazes.
Tudo seu remédio tem
E que assim bem o sabeis,
E ao remédio também;
Querei-los conhecer bem,
No fruto os conhecereis.
Obras, que palavras não:
Porém, senhor, somos muitos,
E entre tanta multidão
Tresmalham-se-vos os frutos,
Que não sabeis cujos são.
Um que por outro se vende,
Lança a pedra, e a mão esconde;
O dano longe se estende;
Aquele a quem dói e entende,
Com só suspiros responde.
A vida desaparece,
E entretanto geme e jaz
O que caiu: e acontece,
Que dum mal, que se lhe faz,
Outro mor se lhe recresce.
Pena e galardão igual
O mundo a direito tem,
A uma regra geral;
Que a pena se deve ao mal,
E o galardão ao bem.
Se alguma hora aconteceu
Na paz, muito mais na guerra,
Que a balança mais pendeu,
Faz-se engano às leis da terra;
Nunca se faz às do céu.
Entre os lombardos havia
Lei escrita, e lei usada,
Como se sabe hoje em dia;
Que onde a prova falecia,
Que o provasse a espada.
Ali no campo às singelas,
Enfim morrer ou vencer,
Fosse qual quisesse delas:
Não era melhor morrer
A ferro, que de cautelas?
Ao nosso alto e excelente
Dom Dinis, rei tão louvado,
Tão justo, a Deus tão temente,
Falsa e maliciosamente,
Foi grande aleive assacado.
Ele posto em tal perigo,
Rei que rei fez e desfez;
Contra o malicioso inimigo,
Foi-lhe forçado esta vez
Chamar-se a esta lei que digo.
E juntamente às cidades
A quem cumpriu de acudir,
Pelas suas lealdades:
Que tão más são as verdades
Às vezes de descobrir!
Neste tempo quem mal cai,
Mal jaz; e dizem que à luz
Por tempo a verdade sai;
Entretanto põem na cruz
O justo, o ladrão se vai.
Da mesma casa real,
Em verdade um grande infante
Tratado às escuras mal,
Bradava por campo igual,
E inimigos claros diante.
Enfim vendo a indústria e arte
Quanto que podem, chamou
Um leal conde de parte;
Só com ele se apartou;
Foi viver a melhor parte.
Onde tudo é certo e claro,
Onde são sempre umas leis;
Príncipe no mundo raro,
Sobre tanto desamparo
Foram três seus filhos reis.
Ó senhor! quantos suores
Passa o corpo e alma em vão
Em poder de envolvedores!
Enfim, batalhas que são?
Salvo desafios mores.
Com a mão sobre um ouvido
Ouvia Alexandre as partes,
Como quem tinha entendido,
Por fazer certo o fingido,
Quantas que se buscam dartes.
Guardava ele o outro inteiro
A parte não inda ouvida:
Não vai nada em ser primeiro:
Quem muito sabe duvida;
Só Deus é o verdadeiro.
A tudo dão novas cores
Com que enleiam os sentidos:
Ah maus! ah enliçadores!
Ante os reis vossos senhores,
Andais com rostos fingidos!
4 561
2
Sá de Miranda
Carta
Rei de muitos reis, se um dia,
Se uma hora só mal me atrevo
Ocupar-vos, mal faria,
E ao bem comum não teria
Os respeitos que ter devo.
Que em outras partes da esfera,
Em outros céus diferentes,
Que Deus até agora escondera,
Tanta multidão de gentes
Vossos mandados espera.
Que sois vós tal, que eles sós,
justo e poderoso rei,
Ou lhe desdais os seus nós,
Ou cortais; porque entre nós
Vós sois nossa viva lei.
Onde há homens há cobiça,
Cá e lá, tudo ela empeça,
Se a santa, se a igual justiça
Não corta, ou não desempena
O que a má malícia enliça.
Senhor, que é muito atrevida,
E onde ela nós cegos deu,
Cortar é coisa devida;
Exemplo o justo de Mida,
Que el-rei vosso avô fez seu.
Ora eu, que respeito havendo
Ao tempo, mais que ao estilo,
Irei fugindo ao que entendo;
Farei como os cães do Nilo,
Que correm, e vão bebendo.
A dignidade real,
Que o mundo a direito tem,
Sem ela ter-se-ia mal,
É sagrada, e não leal
quem limpo ante ela não vem.
Não falemos nos tiranos,
Falemos nos reis ungidos;
Remedeiam nossos danos;
Socorrem os afligidos;
Cortam pelos maus enganos.
As vossas velas, que vão,
Dando quase ó mundo volta,
Raramente contarão
Gente doutro algum rei solta;
Sem cabeça o corpo é vão.
Dignidade alta e suprema,
Que há que a não reconheça?
Viu-se em Marco Antônio tema
De pôr real diadema
A César sobre a cabeça.
Que nome de imperador
Dantes a César se dera
Sem suspeita, e sem temor;
Que inda então muito mais era
Ser cônsul, ser ditador.
Um rei ao reino convém;
Vemos que alumia o mundo;
Um sol, um Deus o sustém:
Certa a queda, e o fim tem
O reino onde há rei segundo.
Não ao sabor das orelhas,
Arenga estudada e branda;
Abastam as razões velhas:
A cabeça os membros manda;
Seu rei seguem as abelhas.
A tempo o bom rei perdoa;
A tempo o ferro é mezinha:
Forças e condição boa
Deram ao leão coroa
De sua grei montezinha.
Às aves, tamanho bando
Doutra liga, e doutra lei,
Por vencer todas voando,
A águia foi dada por rei,
Que o sol claro atura olhando.
Quanto que sempre guardou
David lealdade e fé
A Saul, quanto o chorou!
Quanta maldição lançou
Aos montes de Gelboé!
Onde caíra o escudo
De seu rei, inda que inimigo,
Inda que já mal sisudo
Saindo de tal perigo,
E subindo a mandar tudo.
O senhor da natureza,
De quem céu e terra é cheia,
Vindo a esta nossa baixeza,
Do real sangue se preza:
Por rei na cruz se nomeia.
Sobre obrigações tamanhas
Velem-se contudo os reis
Dos rostos falsos, das manhas
Com que lhe querem das leis,
Fazer teias das aranhas.
Oue se não pode fazer
Por arte, por força ou graça,
Salvo o que a justiça quer;
Senhor, não chamam valer,
Salvo ao que lhes val na praça.
E por muito que os reis olhem,
Vão por fora mil inchaços,
Que ante vós, senhor, se encolhem
Duns gigantes de cem braços
Com que dão, e com que tolhem.
Quem graça ante el-rei alcança,
E lhe fala o que não deve,
Mal grande da má privança,
Peçonha na fonte lança,
De que toda a terra breve.
Quem joga, onde engano vai,
Em vão corre e torna atrás;
Em vão sobre a face cai:
Mal hajam as manhas más
Donde tanto dano sai!
Homem de um só parecer,
Dum só rosto, uma só fé,
Dantes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte homem não é.
Gracejar ouço de cá
De quem vai inteiro e são,
Nem se contrafaz mais lá;
Como este vem aldeão,
Que cortesão tornará?
As santidades da praça,
Aqueles rostos tristonhos,
Cos quais este, e aquele caça;
Para Deus, senhor, é graça;
Para nós tudo são sonhos.
E os discursos que fazemos,
Pode ser, não pode ser,
Mais diante o entenderemos:
Agora mortos por ver;
Então todos nós veremos.
Senhor, hei-vos de falar
(Vossa mansidão me esforça)
Claro o que posso alcançar;
Andam para vos tomar
Por manhas, que não por força.
Por minas trazem suas azes
Os rostos de tintureiros,
Falsas guerras, falsas pazes;
De fora mansos cordeiros;
De dentro lobos roazes.
Tudo seu remédio tem
E que assim bem o sabeis,
E ao remédio também;
Querei-los conhecer bem,
No fruto os conhecereis.
Obras, que palavras não:
Porém, senhor, somos muitos,
E entre tanta multidão
Tresmalham-se-vos os frutos,
Que não sabeis cujos são.
Um que por outro se vende,
Lança a pedra, e a mão esconde;
O dano longe se estende;
Aquele a quem dói e entende,
Com só suspiros responde.
A vida desaparece,
E entretanto geme e jaz
O que caiu: e acontece,
Que dum mal, que se lhe faz,
Outro mor se lhe recresce.
Pena e galardão igual
O mundo a direito tem,
A uma regra geral;
Que a pena se deve ao mal,
E o galardão ao bem.
Se alguma hora aconteceu
Na paz, muito mais na guerra,
Que a balança mais pendeu,
Faz-se engano às leis da terra;
Nunca se faz às do céu.
Entre os lombardos havia
Lei escrita, e lei usada,
Como se sabe hoje em dia;
Que onde a prova falecia,
Que o provasse a espada.
Ali no campo às singelas,
Enfim morrer ou vencer,
Fosse qual quisesse delas:
Não era melhor morrer
A ferro, que de cautelas?
Ao nosso alto e excelente
Dom Dinis, rei tão louvado,
Tão justo, a Deus tão temente,
Falsa e maliciosamente,
Foi grande aleive assacado.
Ele posto em tal perigo,
Rei que rei fez e desfez;
Contra o malicioso inimigo,
Foi-lhe forçado esta vez
Chamar-se a esta lei que digo.
E juntamente às cidades
A quem cumpriu de acudir,
Pelas suas lealdades:
Que tão más são as verdades
Às vezes de descobrir!
Neste tempo quem mal cai,
Mal jaz; e dizem que à luz
Por tempo a verdade sai;
Entretanto põem na cruz
O justo, o ladrão se vai.
Da mesma casa real,
Em verdade um grande infante
Tratado às escuras mal,
Bradava por campo igual,
E inimigos claros diante.
Enfim vendo a indústria e arte
Quanto que podem, chamou
Um leal conde de parte;
Só com ele se apartou;
Foi viver a melhor parte.
Onde tudo é certo e claro,
Onde são sempre umas leis;
Príncipe no mundo raro,
Sobre tanto desamparo
Foram três seus filhos reis.
Ó senhor! quantos suores
Passa o corpo e alma em vão
Em poder de envolvedores!
Enfim, batalhas que são?
Salvo desafios mores.
Com a mão sobre um ouvido
Ouvia Alexandre as partes,
Como quem tinha entendido,
Por fazer certo o fingido,
Quantas que se buscam dartes.
Guardava ele o outro inteiro
A parte não inda ouvida:
Não vai nada em ser primeiro:
Quem muito sabe duvida;
Só Deus é o verdadeiro.
A tudo dão novas cores
Com que enleiam os sentidos:
Ah maus! ah enliçadores!
Ante os reis vossos senhores,
Andais com rostos fingidos!
Se uma hora só mal me atrevo
Ocupar-vos, mal faria,
E ao bem comum não teria
Os respeitos que ter devo.
Que em outras partes da esfera,
Em outros céus diferentes,
Que Deus até agora escondera,
Tanta multidão de gentes
Vossos mandados espera.
Que sois vós tal, que eles sós,
justo e poderoso rei,
Ou lhe desdais os seus nós,
Ou cortais; porque entre nós
Vós sois nossa viva lei.
Onde há homens há cobiça,
Cá e lá, tudo ela empeça,
Se a santa, se a igual justiça
Não corta, ou não desempena
O que a má malícia enliça.
Senhor, que é muito atrevida,
E onde ela nós cegos deu,
Cortar é coisa devida;
Exemplo o justo de Mida,
Que el-rei vosso avô fez seu.
Ora eu, que respeito havendo
Ao tempo, mais que ao estilo,
Irei fugindo ao que entendo;
Farei como os cães do Nilo,
Que correm, e vão bebendo.
A dignidade real,
Que o mundo a direito tem,
Sem ela ter-se-ia mal,
É sagrada, e não leal
quem limpo ante ela não vem.
Não falemos nos tiranos,
Falemos nos reis ungidos;
Remedeiam nossos danos;
Socorrem os afligidos;
Cortam pelos maus enganos.
As vossas velas, que vão,
Dando quase ó mundo volta,
Raramente contarão
Gente doutro algum rei solta;
Sem cabeça o corpo é vão.
Dignidade alta e suprema,
Que há que a não reconheça?
Viu-se em Marco Antônio tema
De pôr real diadema
A César sobre a cabeça.
Que nome de imperador
Dantes a César se dera
Sem suspeita, e sem temor;
Que inda então muito mais era
Ser cônsul, ser ditador.
Um rei ao reino convém;
Vemos que alumia o mundo;
Um sol, um Deus o sustém:
Certa a queda, e o fim tem
O reino onde há rei segundo.
Não ao sabor das orelhas,
Arenga estudada e branda;
Abastam as razões velhas:
A cabeça os membros manda;
Seu rei seguem as abelhas.
A tempo o bom rei perdoa;
A tempo o ferro é mezinha:
Forças e condição boa
Deram ao leão coroa
De sua grei montezinha.
Às aves, tamanho bando
Doutra liga, e doutra lei,
Por vencer todas voando,
A águia foi dada por rei,
Que o sol claro atura olhando.
Quanto que sempre guardou
David lealdade e fé
A Saul, quanto o chorou!
Quanta maldição lançou
Aos montes de Gelboé!
Onde caíra o escudo
De seu rei, inda que inimigo,
Inda que já mal sisudo
Saindo de tal perigo,
E subindo a mandar tudo.
O senhor da natureza,
De quem céu e terra é cheia,
Vindo a esta nossa baixeza,
Do real sangue se preza:
Por rei na cruz se nomeia.
Sobre obrigações tamanhas
Velem-se contudo os reis
Dos rostos falsos, das manhas
Com que lhe querem das leis,
Fazer teias das aranhas.
Oue se não pode fazer
Por arte, por força ou graça,
Salvo o que a justiça quer;
Senhor, não chamam valer,
Salvo ao que lhes val na praça.
E por muito que os reis olhem,
Vão por fora mil inchaços,
Que ante vós, senhor, se encolhem
Duns gigantes de cem braços
Com que dão, e com que tolhem.
Quem graça ante el-rei alcança,
E lhe fala o que não deve,
Mal grande da má privança,
Peçonha na fonte lança,
De que toda a terra breve.
Quem joga, onde engano vai,
Em vão corre e torna atrás;
Em vão sobre a face cai:
Mal hajam as manhas más
Donde tanto dano sai!
Homem de um só parecer,
Dum só rosto, uma só fé,
Dantes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte homem não é.
Gracejar ouço de cá
De quem vai inteiro e são,
Nem se contrafaz mais lá;
Como este vem aldeão,
Que cortesão tornará?
As santidades da praça,
Aqueles rostos tristonhos,
Cos quais este, e aquele caça;
Para Deus, senhor, é graça;
Para nós tudo são sonhos.
E os discursos que fazemos,
Pode ser, não pode ser,
Mais diante o entenderemos:
Agora mortos por ver;
Então todos nós veremos.
Senhor, hei-vos de falar
(Vossa mansidão me esforça)
Claro o que posso alcançar;
Andam para vos tomar
Por manhas, que não por força.
Por minas trazem suas azes
Os rostos de tintureiros,
Falsas guerras, falsas pazes;
De fora mansos cordeiros;
De dentro lobos roazes.
Tudo seu remédio tem
E que assim bem o sabeis,
E ao remédio também;
Querei-los conhecer bem,
No fruto os conhecereis.
Obras, que palavras não:
Porém, senhor, somos muitos,
E entre tanta multidão
Tresmalham-se-vos os frutos,
Que não sabeis cujos são.
Um que por outro se vende,
Lança a pedra, e a mão esconde;
O dano longe se estende;
Aquele a quem dói e entende,
Com só suspiros responde.
A vida desaparece,
E entretanto geme e jaz
O que caiu: e acontece,
Que dum mal, que se lhe faz,
Outro mor se lhe recresce.
Pena e galardão igual
O mundo a direito tem,
A uma regra geral;
Que a pena se deve ao mal,
E o galardão ao bem.
Se alguma hora aconteceu
Na paz, muito mais na guerra,
Que a balança mais pendeu,
Faz-se engano às leis da terra;
Nunca se faz às do céu.
Entre os lombardos havia
Lei escrita, e lei usada,
Como se sabe hoje em dia;
Que onde a prova falecia,
Que o provasse a espada.
Ali no campo às singelas,
Enfim morrer ou vencer,
Fosse qual quisesse delas:
Não era melhor morrer
A ferro, que de cautelas?
Ao nosso alto e excelente
Dom Dinis, rei tão louvado,
Tão justo, a Deus tão temente,
Falsa e maliciosamente,
Foi grande aleive assacado.
Ele posto em tal perigo,
Rei que rei fez e desfez;
Contra o malicioso inimigo,
Foi-lhe forçado esta vez
Chamar-se a esta lei que digo.
E juntamente às cidades
A quem cumpriu de acudir,
Pelas suas lealdades:
Que tão más são as verdades
Às vezes de descobrir!
Neste tempo quem mal cai,
Mal jaz; e dizem que à luz
Por tempo a verdade sai;
Entretanto põem na cruz
O justo, o ladrão se vai.
Da mesma casa real,
Em verdade um grande infante
Tratado às escuras mal,
Bradava por campo igual,
E inimigos claros diante.
Enfim vendo a indústria e arte
Quanto que podem, chamou
Um leal conde de parte;
Só com ele se apartou;
Foi viver a melhor parte.
Onde tudo é certo e claro,
Onde são sempre umas leis;
Príncipe no mundo raro,
Sobre tanto desamparo
Foram três seus filhos reis.
Ó senhor! quantos suores
Passa o corpo e alma em vão
Em poder de envolvedores!
Enfim, batalhas que são?
Salvo desafios mores.
Com a mão sobre um ouvido
Ouvia Alexandre as partes,
Como quem tinha entendido,
Por fazer certo o fingido,
Quantas que se buscam dartes.
Guardava ele o outro inteiro
A parte não inda ouvida:
Não vai nada em ser primeiro:
Quem muito sabe duvida;
Só Deus é o verdadeiro.
A tudo dão novas cores
Com que enleiam os sentidos:
Ah maus! ah enliçadores!
Ante os reis vossos senhores,
Andais com rostos fingidos!
4 561
2
Reinaldo Ferreira
Grandeza
À minha sombra empalidece a Flora,
Extingue-se a Espécie, vaporiza o Mar!
Doente, o Sol desmaia, o Céu descora,
Secam-se as Fontes, rarefaz-se o Ar!
Quando ela passa pelos campos fora,
Ardem os Colmos e desaba o Lar;
Perdem-se virgens que ninguém desflora
E as Aves deixam de saber voar!
Eis o que eu sonho para a minha sombra:
Poder que esmaga, tiraniza e assombra
A própria ira que de mim lhe empresto.
Poder funesto, mas que existe
Na minha sombra, rigorosa e triste
Repetidora do meu triste gesto!
Extingue-se a Espécie, vaporiza o Mar!
Doente, o Sol desmaia, o Céu descora,
Secam-se as Fontes, rarefaz-se o Ar!
Quando ela passa pelos campos fora,
Ardem os Colmos e desaba o Lar;
Perdem-se virgens que ninguém desflora
E as Aves deixam de saber voar!
Eis o que eu sonho para a minha sombra:
Poder que esmaga, tiraniza e assombra
A própria ira que de mim lhe empresto.
Poder funesto, mas que existe
Na minha sombra, rigorosa e triste
Repetidora do meu triste gesto!
2 328
2
Marta Gonçalves
Poema da Alemanha
Os mortos dos campos da Alemanha crescem
lírios em suas sepulturas de raízes.
OS mortos dos campos da Alemanha escreveram
a história dos homens taciturnos.
Os mortos dos campos da Alemanha enferrujam
a alma aflita de quatro gerações.
Nas madrugadas de chuva os mortos dos campos
da Alemanha lustram as botas dos velhos soldados.
lírios em suas sepulturas de raízes.
OS mortos dos campos da Alemanha escreveram
a história dos homens taciturnos.
Os mortos dos campos da Alemanha enferrujam
a alma aflita de quatro gerações.
Nas madrugadas de chuva os mortos dos campos
da Alemanha lustram as botas dos velhos soldados.
2 452
2
Murillo Mendes
Cantiga de Malazarte
Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo.
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo.
4 531
2
Odorico Mendes
Hino à Tarde
Que amável hora! Expiram os favônios;
Transmonta o Sol; o rio se espreguiça;
E, a cinzenta alcatifa desdobrando
Pelas azuis diáfanas campinas,
Na carroça de chumbo assoma a tarde...
Salve, moça tão meiga e sossegada;
Salve, formosa virgem pudibunda,
Que insinuas cos olhos doce afeto,
Não criminosa abrasadora chama!
Em ti repousa a triste humana prole
Do trabalho do dia, nem já lavra
Juiz severo a bárbara sentença,
Que há de a fraqueza conduzir ao túmulo.
Lasso o colono, mal avista ao longe
A irmã da noite coa-lhe nos membros
Plácido alívio: — posta a dura enxada,
Limpa o suor que em bagas vai caindo..
Que ventura! A mulher o espera ansiosa
Cos filhinhos em braço, e já deslembra
O homem dos campos a diurna lida;
Com entranhas de pai ledo abençoa
A progênie gentil que a olho pula.
Não vês como o fantasma do silêncio
Erra, e pára o bulício dos viventes?
Só quebra esta mudez o pastor simples,
Que, trazendo o rebanho dos pastios,
Coa suspirosa frauta ameiga os bosques...
Feliz! que nunca o ruído dos banquetes
Do estrangeiro escutou, nem alta noite
Foi à porta bater de alheio alvergue.
Acha no humilde colmo os seus penates,
Como acha o grande em soberbões palácios.
Ali também no ouvido lhe estremecem
De mãe, de amigo os maviosos nomes;
Conviva dos festins da natureza,
Vê perfazerem-se as funções mais altas:
— O homem nascer, morrer, e deixar prantos...
Agora ia entre prados, após Laura,
O ardido vate magoando as cordas;
E a selvática virgem, recolhendo
A grave dor cristã, que a assoberbava
Do mancebo cedia à paixão nobre,
Grande e sublime, como os troncos do ermo...
Ai! mísera Atalá!... mas rasga o fogo,
E o sino soa pelas brenhas broncas.
Tarde, serena e pura, que lembranças
Não nos vens despertar no seio dalma?
Amiga terna, diz-me, onde colhes
O bálsamo que esparges nas feridas
Do coração? Que apenas dás rebate,
Cala-se a dor; só geras no imo peito
Mansa melancolia, qual ressumbra
Em quem sob os seus pés tem visto as flores
Irem murchando, e a treva do infortúnio
Ante os olhos medonha condensar-se.
Longe dos pátrios lares, quem não sente
Os arrebóis da tarde contemplando
Um súbito alvoroço? Então pendíamos
Dos contos arroubados que verteram
Propícios deuses nos maternos lábios;
E branda mão apercebia o berço
Em que ternos vagidos
Infausto anúncio de vindouras penas.
Sobre o poial sentada a fiel serva
Que vezes atentei chamando ao pouso
A ave tão útil que arrebanha os filhos,
E adeja e canta, e pressurosa acode!
Coa turba de inocentes companheiros,
Agora sobre a encosta da colina,
A casta Lua como mãe saudávamos,
E suplicando que nos fosse amparo,
Em jubilosa grita o ar rompíamos.
Mas da puerícia o gênio prazenteiro
Já transpôs a montanha; e com seus risos
Recentes gerações vai bafejando.
A quem ficou a angústia que moderas,
Ó compassiva tarde? Olha-te o escravo,
Sopeia em si os agros pesadumes:
Ao som dos ferros o instrumento rude
Tange, bem como em África adorada,
Quando (tão livre) o filho do deserto
Lá te aguardava; e o eco da floresta,
Da ave o gorjeio, o trépido regato,
Zunindo os ventos, murmurando as sombras,
Tudo, em cadência harmônica, lhe rouba
A alma em mágico sonho embevecida.
Não mais, ó musa, basta; que da noite
Os pardos horizontes se tingiram,
E me pesa e carrega a escuridade.
Oh! venha a feliz era que da pátria
Nessas fecundas, dilatadas veigas
Tu mais suave a lira me temperes
Da singela Eponina acompanhado
Na escura gruta que nos cava o tempo
Hei de ao vale ensinar canções melífluas
Nos lindos olhos, nos mimosos beiços,
Nos alvos pomos, no ademã altivo
Irei tomar as cores que retratem
Da natureza os íntimos segredos.
Do ardor da esposa; do sorrir da filha;
Do rio que espontâneo se oferece
Da terra que dá fruto sem o arado
Da árvore agreste que na densa grenha
Abriga da pendente tempestade
A sobreolhar aprenderei haveres,
A fazer boa sombra ao peregrino,
A dar quartel a errado viandante
Lá estendendo pelos livres ares
Longas vistas, nas dobras do futuro,
Entreverei o derradeiro dia...
Venha; que acha os despojos do homem justo
Ó esperança, toma-me em teus braços;
Com a imagem da pátria me consola!
Transmonta o Sol; o rio se espreguiça;
E, a cinzenta alcatifa desdobrando
Pelas azuis diáfanas campinas,
Na carroça de chumbo assoma a tarde...
Salve, moça tão meiga e sossegada;
Salve, formosa virgem pudibunda,
Que insinuas cos olhos doce afeto,
Não criminosa abrasadora chama!
Em ti repousa a triste humana prole
Do trabalho do dia, nem já lavra
Juiz severo a bárbara sentença,
Que há de a fraqueza conduzir ao túmulo.
Lasso o colono, mal avista ao longe
A irmã da noite coa-lhe nos membros
Plácido alívio: — posta a dura enxada,
Limpa o suor que em bagas vai caindo..
Que ventura! A mulher o espera ansiosa
Cos filhinhos em braço, e já deslembra
O homem dos campos a diurna lida;
Com entranhas de pai ledo abençoa
A progênie gentil que a olho pula.
Não vês como o fantasma do silêncio
Erra, e pára o bulício dos viventes?
Só quebra esta mudez o pastor simples,
Que, trazendo o rebanho dos pastios,
Coa suspirosa frauta ameiga os bosques...
Feliz! que nunca o ruído dos banquetes
Do estrangeiro escutou, nem alta noite
Foi à porta bater de alheio alvergue.
Acha no humilde colmo os seus penates,
Como acha o grande em soberbões palácios.
Ali também no ouvido lhe estremecem
De mãe, de amigo os maviosos nomes;
Conviva dos festins da natureza,
Vê perfazerem-se as funções mais altas:
— O homem nascer, morrer, e deixar prantos...
Agora ia entre prados, após Laura,
O ardido vate magoando as cordas;
E a selvática virgem, recolhendo
A grave dor cristã, que a assoberbava
Do mancebo cedia à paixão nobre,
Grande e sublime, como os troncos do ermo...
Ai! mísera Atalá!... mas rasga o fogo,
E o sino soa pelas brenhas broncas.
Tarde, serena e pura, que lembranças
Não nos vens despertar no seio dalma?
Amiga terna, diz-me, onde colhes
O bálsamo que esparges nas feridas
Do coração? Que apenas dás rebate,
Cala-se a dor; só geras no imo peito
Mansa melancolia, qual ressumbra
Em quem sob os seus pés tem visto as flores
Irem murchando, e a treva do infortúnio
Ante os olhos medonha condensar-se.
Longe dos pátrios lares, quem não sente
Os arrebóis da tarde contemplando
Um súbito alvoroço? Então pendíamos
Dos contos arroubados que verteram
Propícios deuses nos maternos lábios;
E branda mão apercebia o berço
Em que ternos vagidos
Infausto anúncio de vindouras penas.
Sobre o poial sentada a fiel serva
Que vezes atentei chamando ao pouso
A ave tão útil que arrebanha os filhos,
E adeja e canta, e pressurosa acode!
Coa turba de inocentes companheiros,
Agora sobre a encosta da colina,
A casta Lua como mãe saudávamos,
E suplicando que nos fosse amparo,
Em jubilosa grita o ar rompíamos.
Mas da puerícia o gênio prazenteiro
Já transpôs a montanha; e com seus risos
Recentes gerações vai bafejando.
A quem ficou a angústia que moderas,
Ó compassiva tarde? Olha-te o escravo,
Sopeia em si os agros pesadumes:
Ao som dos ferros o instrumento rude
Tange, bem como em África adorada,
Quando (tão livre) o filho do deserto
Lá te aguardava; e o eco da floresta,
Da ave o gorjeio, o trépido regato,
Zunindo os ventos, murmurando as sombras,
Tudo, em cadência harmônica, lhe rouba
A alma em mágico sonho embevecida.
Não mais, ó musa, basta; que da noite
Os pardos horizontes se tingiram,
E me pesa e carrega a escuridade.
Oh! venha a feliz era que da pátria
Nessas fecundas, dilatadas veigas
Tu mais suave a lira me temperes
Da singela Eponina acompanhado
Na escura gruta que nos cava o tempo
Hei de ao vale ensinar canções melífluas
Nos lindos olhos, nos mimosos beiços,
Nos alvos pomos, no ademã altivo
Irei tomar as cores que retratem
Da natureza os íntimos segredos.
Do ardor da esposa; do sorrir da filha;
Do rio que espontâneo se oferece
Da terra que dá fruto sem o arado
Da árvore agreste que na densa grenha
Abriga da pendente tempestade
A sobreolhar aprenderei haveres,
A fazer boa sombra ao peregrino,
A dar quartel a errado viandante
Lá estendendo pelos livres ares
Longas vistas, nas dobras do futuro,
Entreverei o derradeiro dia...
Venha; que acha os despojos do homem justo
Ó esperança, toma-me em teus braços;
Com a imagem da pátria me consola!
2 067
2
Odorico Mendes
Hino à Tarde
Que amável hora! Expiram os favônios;
Transmonta o Sol; o rio se espreguiça;
E, a cinzenta alcatifa desdobrando
Pelas azuis diáfanas campinas,
Na carroça de chumbo assoma a tarde...
Salve, moça tão meiga e sossegada;
Salve, formosa virgem pudibunda,
Que insinuas cos olhos doce afeto,
Não criminosa abrasadora chama!
Em ti repousa a triste humana prole
Do trabalho do dia, nem já lavra
Juiz severo a bárbara sentença,
Que há de a fraqueza conduzir ao túmulo.
Lasso o colono, mal avista ao longe
A irmã da noite coa-lhe nos membros
Plácido alívio: — posta a dura enxada,
Limpa o suor que em bagas vai caindo..
Que ventura! A mulher o espera ansiosa
Cos filhinhos em braço, e já deslembra
O homem dos campos a diurna lida;
Com entranhas de pai ledo abençoa
A progênie gentil que a olho pula.
Não vês como o fantasma do silêncio
Erra, e pára o bulício dos viventes?
Só quebra esta mudez o pastor simples,
Que, trazendo o rebanho dos pastios,
Coa suspirosa frauta ameiga os bosques...
Feliz! que nunca o ruído dos banquetes
Do estrangeiro escutou, nem alta noite
Foi à porta bater de alheio alvergue.
Acha no humilde colmo os seus penates,
Como acha o grande em soberbões palácios.
Ali também no ouvido lhe estremecem
De mãe, de amigo os maviosos nomes;
Conviva dos festins da natureza,
Vê perfazerem-se as funções mais altas:
— O homem nascer, morrer, e deixar prantos...
Agora ia entre prados, após Laura,
O ardido vate magoando as cordas;
E a selvática virgem, recolhendo
A grave dor cristã, que a assoberbava
Do mancebo cedia à paixão nobre,
Grande e sublime, como os troncos do ermo...
Ai! mísera Atalá!... mas rasga o fogo,
E o sino soa pelas brenhas broncas.
Tarde, serena e pura, que lembranças
Não nos vens despertar no seio dalma?
Amiga terna, diz-me, onde colhes
O bálsamo que esparges nas feridas
Do coração? Que apenas dás rebate,
Cala-se a dor; só geras no imo peito
Mansa melancolia, qual ressumbra
Em quem sob os seus pés tem visto as flores
Irem murchando, e a treva do infortúnio
Ante os olhos medonha condensar-se.
Longe dos pátrios lares, quem não sente
Os arrebóis da tarde contemplando
Um súbito alvoroço? Então pendíamos
Dos contos arroubados que verteram
Propícios deuses nos maternos lábios;
E branda mão apercebia o berço
Em que ternos vagidos
Infausto anúncio de vindouras penas.
Sobre o poial sentada a fiel serva
Que vezes atentei chamando ao pouso
A ave tão útil que arrebanha os filhos,
E adeja e canta, e pressurosa acode!
Coa turba de inocentes companheiros,
Agora sobre a encosta da colina,
A casta Lua como mãe saudávamos,
E suplicando que nos fosse amparo,
Em jubilosa grita o ar rompíamos.
Mas da puerícia o gênio prazenteiro
Já transpôs a montanha; e com seus risos
Recentes gerações vai bafejando.
A quem ficou a angústia que moderas,
Ó compassiva tarde? Olha-te o escravo,
Sopeia em si os agros pesadumes:
Ao som dos ferros o instrumento rude
Tange, bem como em África adorada,
Quando (tão livre) o filho do deserto
Lá te aguardava; e o eco da floresta,
Da ave o gorjeio, o trépido regato,
Zunindo os ventos, murmurando as sombras,
Tudo, em cadência harmônica, lhe rouba
A alma em mágico sonho embevecida.
Não mais, ó musa, basta; que da noite
Os pardos horizontes se tingiram,
E me pesa e carrega a escuridade.
Oh! venha a feliz era que da pátria
Nessas fecundas, dilatadas veigas
Tu mais suave a lira me temperes
Da singela Eponina acompanhado
Na escura gruta que nos cava o tempo
Hei de ao vale ensinar canções melífluas
Nos lindos olhos, nos mimosos beiços,
Nos alvos pomos, no ademã altivo
Irei tomar as cores que retratem
Da natureza os íntimos segredos.
Do ardor da esposa; do sorrir da filha;
Do rio que espontâneo se oferece
Da terra que dá fruto sem o arado
Da árvore agreste que na densa grenha
Abriga da pendente tempestade
A sobreolhar aprenderei haveres,
A fazer boa sombra ao peregrino,
A dar quartel a errado viandante
Lá estendendo pelos livres ares
Longas vistas, nas dobras do futuro,
Entreverei o derradeiro dia...
Venha; que acha os despojos do homem justo
Ó esperança, toma-me em teus braços;
Com a imagem da pátria me consola!
Transmonta o Sol; o rio se espreguiça;
E, a cinzenta alcatifa desdobrando
Pelas azuis diáfanas campinas,
Na carroça de chumbo assoma a tarde...
Salve, moça tão meiga e sossegada;
Salve, formosa virgem pudibunda,
Que insinuas cos olhos doce afeto,
Não criminosa abrasadora chama!
Em ti repousa a triste humana prole
Do trabalho do dia, nem já lavra
Juiz severo a bárbara sentença,
Que há de a fraqueza conduzir ao túmulo.
Lasso o colono, mal avista ao longe
A irmã da noite coa-lhe nos membros
Plácido alívio: — posta a dura enxada,
Limpa o suor que em bagas vai caindo..
Que ventura! A mulher o espera ansiosa
Cos filhinhos em braço, e já deslembra
O homem dos campos a diurna lida;
Com entranhas de pai ledo abençoa
A progênie gentil que a olho pula.
Não vês como o fantasma do silêncio
Erra, e pára o bulício dos viventes?
Só quebra esta mudez o pastor simples,
Que, trazendo o rebanho dos pastios,
Coa suspirosa frauta ameiga os bosques...
Feliz! que nunca o ruído dos banquetes
Do estrangeiro escutou, nem alta noite
Foi à porta bater de alheio alvergue.
Acha no humilde colmo os seus penates,
Como acha o grande em soberbões palácios.
Ali também no ouvido lhe estremecem
De mãe, de amigo os maviosos nomes;
Conviva dos festins da natureza,
Vê perfazerem-se as funções mais altas:
— O homem nascer, morrer, e deixar prantos...
Agora ia entre prados, após Laura,
O ardido vate magoando as cordas;
E a selvática virgem, recolhendo
A grave dor cristã, que a assoberbava
Do mancebo cedia à paixão nobre,
Grande e sublime, como os troncos do ermo...
Ai! mísera Atalá!... mas rasga o fogo,
E o sino soa pelas brenhas broncas.
Tarde, serena e pura, que lembranças
Não nos vens despertar no seio dalma?
Amiga terna, diz-me, onde colhes
O bálsamo que esparges nas feridas
Do coração? Que apenas dás rebate,
Cala-se a dor; só geras no imo peito
Mansa melancolia, qual ressumbra
Em quem sob os seus pés tem visto as flores
Irem murchando, e a treva do infortúnio
Ante os olhos medonha condensar-se.
Longe dos pátrios lares, quem não sente
Os arrebóis da tarde contemplando
Um súbito alvoroço? Então pendíamos
Dos contos arroubados que verteram
Propícios deuses nos maternos lábios;
E branda mão apercebia o berço
Em que ternos vagidos
Infausto anúncio de vindouras penas.
Sobre o poial sentada a fiel serva
Que vezes atentei chamando ao pouso
A ave tão útil que arrebanha os filhos,
E adeja e canta, e pressurosa acode!
Coa turba de inocentes companheiros,
Agora sobre a encosta da colina,
A casta Lua como mãe saudávamos,
E suplicando que nos fosse amparo,
Em jubilosa grita o ar rompíamos.
Mas da puerícia o gênio prazenteiro
Já transpôs a montanha; e com seus risos
Recentes gerações vai bafejando.
A quem ficou a angústia que moderas,
Ó compassiva tarde? Olha-te o escravo,
Sopeia em si os agros pesadumes:
Ao som dos ferros o instrumento rude
Tange, bem como em África adorada,
Quando (tão livre) o filho do deserto
Lá te aguardava; e o eco da floresta,
Da ave o gorjeio, o trépido regato,
Zunindo os ventos, murmurando as sombras,
Tudo, em cadência harmônica, lhe rouba
A alma em mágico sonho embevecida.
Não mais, ó musa, basta; que da noite
Os pardos horizontes se tingiram,
E me pesa e carrega a escuridade.
Oh! venha a feliz era que da pátria
Nessas fecundas, dilatadas veigas
Tu mais suave a lira me temperes
Da singela Eponina acompanhado
Na escura gruta que nos cava o tempo
Hei de ao vale ensinar canções melífluas
Nos lindos olhos, nos mimosos beiços,
Nos alvos pomos, no ademã altivo
Irei tomar as cores que retratem
Da natureza os íntimos segredos.
Do ardor da esposa; do sorrir da filha;
Do rio que espontâneo se oferece
Da terra que dá fruto sem o arado
Da árvore agreste que na densa grenha
Abriga da pendente tempestade
A sobreolhar aprenderei haveres,
A fazer boa sombra ao peregrino,
A dar quartel a errado viandante
Lá estendendo pelos livres ares
Longas vistas, nas dobras do futuro,
Entreverei o derradeiro dia...
Venha; que acha os despojos do homem justo
Ó esperança, toma-me em teus braços;
Com a imagem da pátria me consola!
2 067
2
Manuel Lopes
Postal
deste lado da ilha
o cais e a cidade velha
datam de muito tempo,
ma a cidade é um poema
não cresceu. é sempre a mesma.
todos os dias igual:
o mesmo outeiro da cruz
desterro, fontes e fortes
igrejas, lendas, sobrados
estreitas ruas, mirantes
portões, sacadas de ferro
poetas, becos, telhados
serestas, maledicência
saveiros, pregões de rua
cantaria, mal-amados
rios (chão, templo e canteiros)
de peixe e palafitados)
ladeiras, moças bonitas
recato e amor nas janelas
casarões azulejados.
cidade em traje a rigor
vestida à colonial
meu mundo, meu porta-jóias
meu bem, meu cartão postal.
brisa de maré vazante
sem similar no país.
quietude pousada na água
caminhos feitos de história.
gente vem ver São Luís!
o cais e a cidade velha
datam de muito tempo,
ma a cidade é um poema
não cresceu. é sempre a mesma.
todos os dias igual:
o mesmo outeiro da cruz
desterro, fontes e fortes
igrejas, lendas, sobrados
estreitas ruas, mirantes
portões, sacadas de ferro
poetas, becos, telhados
serestas, maledicência
saveiros, pregões de rua
cantaria, mal-amados
rios (chão, templo e canteiros)
de peixe e palafitados)
ladeiras, moças bonitas
recato e amor nas janelas
casarões azulejados.
cidade em traje a rigor
vestida à colonial
meu mundo, meu porta-jóias
meu bem, meu cartão postal.
brisa de maré vazante
sem similar no país.
quietude pousada na água
caminhos feitos de história.
gente vem ver São Luís!
2 201
2
Manuel Lopes
Postal
deste lado da ilha
o cais e a cidade velha
datam de muito tempo,
ma a cidade é um poema
não cresceu. é sempre a mesma.
todos os dias igual:
o mesmo outeiro da cruz
desterro, fontes e fortes
igrejas, lendas, sobrados
estreitas ruas, mirantes
portões, sacadas de ferro
poetas, becos, telhados
serestas, maledicência
saveiros, pregões de rua
cantaria, mal-amados
rios (chão, templo e canteiros)
de peixe e palafitados)
ladeiras, moças bonitas
recato e amor nas janelas
casarões azulejados.
cidade em traje a rigor
vestida à colonial
meu mundo, meu porta-jóias
meu bem, meu cartão postal.
brisa de maré vazante
sem similar no país.
quietude pousada na água
caminhos feitos de história.
gente vem ver São Luís!
o cais e a cidade velha
datam de muito tempo,
ma a cidade é um poema
não cresceu. é sempre a mesma.
todos os dias igual:
o mesmo outeiro da cruz
desterro, fontes e fortes
igrejas, lendas, sobrados
estreitas ruas, mirantes
portões, sacadas de ferro
poetas, becos, telhados
serestas, maledicência
saveiros, pregões de rua
cantaria, mal-amados
rios (chão, templo e canteiros)
de peixe e palafitados)
ladeiras, moças bonitas
recato e amor nas janelas
casarões azulejados.
cidade em traje a rigor
vestida à colonial
meu mundo, meu porta-jóias
meu bem, meu cartão postal.
brisa de maré vazante
sem similar no país.
quietude pousada na água
caminhos feitos de história.
gente vem ver São Luís!
2 201
2
Matheus Tonello
Agonia
Cai-se uma gota de orvalho,
Na fria e ríspida manhã
É tão fácil sentir-se doente, uma pessoa carente,
Que só resta ao descrente, inundar a relva de lágrimas.
É claro, logicamente, inconstante,
Que traz na rua, o sentimento errante,
Da mulher nua, presa ao relento
Do desespero, cíngulo e fatal.
Ao encorajar-se no dia, único, presente...
Não se deve abaixar, ó vidente, tu és prudente?
Que digas para mim o quão me queres
Que se edifique entre os poucos as chacotas...
De um sentimento insano, indistinguível
Que perturba o coração desesperado
Que grita, pede que retornes
Se desvaria na rústica senzala, seu interior é oco e desumano...
Ó criatura que ajoelha e pede,
Em tom de adeus, chora o fim do anunciado;
Às linhas tortas, se tornaram erradas
Na insanidade nega o perdão: pobre algoz!
O globo que gira sem cessar,
E que o guerreiro fortemente armado,
Possa fazer da lágrima escorrida,
Uma bela canção de amor...
Esse guerreiro que clama por justiça,
Briga, luta, excede-se à raiva,
Beija aquela boca proibida, porém desejada,
Tornando realidade, ao ímpeto desejo de te amar.
De querer, muito mais e mais
Exigir do destino, um final feliz,
Para que eu lhe diga, que foi válida
A vontade de te ter que eu sempre quis.
Na fria e ríspida manhã
É tão fácil sentir-se doente, uma pessoa carente,
Que só resta ao descrente, inundar a relva de lágrimas.
É claro, logicamente, inconstante,
Que traz na rua, o sentimento errante,
Da mulher nua, presa ao relento
Do desespero, cíngulo e fatal.
Ao encorajar-se no dia, único, presente...
Não se deve abaixar, ó vidente, tu és prudente?
Que digas para mim o quão me queres
Que se edifique entre os poucos as chacotas...
De um sentimento insano, indistinguível
Que perturba o coração desesperado
Que grita, pede que retornes
Se desvaria na rústica senzala, seu interior é oco e desumano...
Ó criatura que ajoelha e pede,
Em tom de adeus, chora o fim do anunciado;
Às linhas tortas, se tornaram erradas
Na insanidade nega o perdão: pobre algoz!
O globo que gira sem cessar,
E que o guerreiro fortemente armado,
Possa fazer da lágrima escorrida,
Uma bela canção de amor...
Esse guerreiro que clama por justiça,
Briga, luta, excede-se à raiva,
Beija aquela boca proibida, porém desejada,
Tornando realidade, ao ímpeto desejo de te amar.
De querer, muito mais e mais
Exigir do destino, um final feliz,
Para que eu lhe diga, que foi válida
A vontade de te ter que eu sempre quis.
1 065
2
Nauro Machado
Pequena Ode a Tróia
Como te massacraram, ó cidade minha!
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.
2 874
2
Nauro Machado
Pequena Ode a Tróia
Como te massacraram, ó cidade minha!
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.
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2
Martins Fontes
Ser Paulista
Ser paulista! é ser grande no passado
E inda maior nas glórias do presente!
E ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.
Ser paulista! é morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó das fraquezas do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente.
Ser paulista! é rezar pelo Evangelho
De Rui Barbosa — o sacrossanto velho
Civilista imortal de nossa fé.
Ser paulistal em brasão e em pergaminho
É ser traído e pelejar sozinho,
É ser vencido, mas cair de pé!
E inda maior nas glórias do presente!
E ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.
Ser paulista! é morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó das fraquezas do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente.
Ser paulista! é rezar pelo Evangelho
De Rui Barbosa — o sacrossanto velho
Civilista imortal de nossa fé.
Ser paulistal em brasão e em pergaminho
É ser traído e pelejar sozinho,
É ser vencido, mas cair de pé!
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2
Elíude Viana
Rota de Colisão
Digo para o meu desejo
esquecer o rumo do teu corpo
te largar numa esquina feminina
perder o endereço das tuas mãos.
Ando amnesiada pelos sóis de agosto
distribuindo risos postais
mostrando que não te quero
...Mas te busco
nas bocas que beijam avidamente
como se a vertente
de incontroláveis prazeres
atraísse a velocidade dos ônibus metropolitanos
aos becos escuros dos subúrbios.
esquecer o rumo do teu corpo
te largar numa esquina feminina
perder o endereço das tuas mãos.
Ando amnesiada pelos sóis de agosto
distribuindo risos postais
mostrando que não te quero
...Mas te busco
nas bocas que beijam avidamente
como se a vertente
de incontroláveis prazeres
atraísse a velocidade dos ônibus metropolitanos
aos becos escuros dos subúrbios.
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2
Neimar de Barros
No Vento Livre do Seu Arbítrio
No Vento Livre do Seu Arbítrio
Quantos anos você tem?
15, 20, 30 ou tá vivendo de gorgeta?
Sim, porque depois dos 50, é gorgeta.
Neste mundo poluído, conturbado,
Passar dos 50 é fazer 13 pontos...
Quantos anos você tem?
Você tem idade para saber o que é certo
Ou você só tem idade para viver o que é errado?
Quantos anos você tem?
Você tem idade para tomar vergonha
Ou a vergonha se consumiu na sua sociedade de consumo?
Quantos anos você tem?
Você tem idade para enfrentar, assumir e realizar
Ou você só tem idade para entrar na onda?
Você é um rato ou um homem?
Você prefere queijo ou amor?
Você está na ratoeira da massificação
Ou está no vento livre do seu arbítrio?
Quantos anos você tem?
Você sabe que não existe presente?
Que o "que" desta linha já é passado
E o futuro é o "que" que não escrevi?
Quantos anos você tem?
Você sabe que o presente não é deste mundo,
O presente é a eternidade vivida.
Quantos anos você tem?
15, 20, 30 ou está vivendo de gorjeta?
O que é que você já fez?
Atravessou cego na rua?
Deu esmola?
Pô, isso qualquer escoteiro faz!...
Quantos anos você tem de GENTE?
Você já despertou como GENTE?
Você já andou como GENTE?
Ou até agora foi um instrumento de repetição?
Você sabe o seu papel no mundo,
Ou é um espermatozóide crescido,
Na eterna espera de um óvulo?
Quem é você?
Quantos anos você tem?
Olha, só a sua consciência pode responder isso!
Hoje, eu sei quem eu sou,
Sei minha idade,
Mas já fui um autômano como você,
Felizmente, me encontrei,
Me encontrei, no vento livre do meu arbítrio!
Quantos anos você tem?
15, 20, 30 ou tá vivendo de gorgeta?
Sim, porque depois dos 50, é gorgeta.
Neste mundo poluído, conturbado,
Passar dos 50 é fazer 13 pontos...
Quantos anos você tem?
Você tem idade para saber o que é certo
Ou você só tem idade para viver o que é errado?
Quantos anos você tem?
Você tem idade para tomar vergonha
Ou a vergonha se consumiu na sua sociedade de consumo?
Quantos anos você tem?
Você tem idade para enfrentar, assumir e realizar
Ou você só tem idade para entrar na onda?
Você é um rato ou um homem?
Você prefere queijo ou amor?
Você está na ratoeira da massificação
Ou está no vento livre do seu arbítrio?
Quantos anos você tem?
Você sabe que não existe presente?
Que o "que" desta linha já é passado
E o futuro é o "que" que não escrevi?
Quantos anos você tem?
Você sabe que o presente não é deste mundo,
O presente é a eternidade vivida.
Quantos anos você tem?
15, 20, 30 ou está vivendo de gorjeta?
O que é que você já fez?
Atravessou cego na rua?
Deu esmola?
Pô, isso qualquer escoteiro faz!...
Quantos anos você tem de GENTE?
Você já despertou como GENTE?
Você já andou como GENTE?
Ou até agora foi um instrumento de repetição?
Você sabe o seu papel no mundo,
Ou é um espermatozóide crescido,
Na eterna espera de um óvulo?
Quem é você?
Quantos anos você tem?
Olha, só a sua consciência pode responder isso!
Hoje, eu sei quem eu sou,
Sei minha idade,
Mas já fui um autômano como você,
Felizmente, me encontrei,
Me encontrei, no vento livre do meu arbítrio!
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2
Raul Seixas
Treinando Compor
Não quero mais amor
Nem quero mais cantar minha terra
Me perco nesse mundo
Não quero mais o pau Brasil
As rosas que eu colho
Não são essas frementes na iluminação da manhã
São, se as colho, as dum jardim contrário
Nascido desses vossos
Na leiteira ou no bar a tarde se reparte
em iogurtes, coalhadas, copos
São quatro horas da tarde ou da manhã
Em algum mês que não me vem à cabeça
Tenho trinta e oito anos e uma angústia
Amo a vida que é cheia de crianças,
de flores e mulheres...
A vida. Esse direito de estar no mundo
Ter dois pés e duas mãos, uma cara
e a fome de tudo... a esperança
Esse direito de Kika e demais
que nenhum ato institucional
ou inconstitucional
Pode cassar ou legar.
Meus quantos amigos - gente presa
Quantos cárceres escuros
Onde a tarde fede a urina e terror
Existem muitas famílias sem rumo
Essa tarde nos subúrbios de ferro e gás
Brinca irremida a infância da falada
classe operária
Estou aqui!
O espelho não guardará a marca deste rosto
Se simplesmente saio do lugar
Ou se morro... se me matam...
Um dia eu parto
Que importa pois?
A luta comum me incendeia o sangue
E bato no peito
Como o coice de uma lembrança.
Nem quero mais cantar minha terra
Me perco nesse mundo
Não quero mais o pau Brasil
As rosas que eu colho
Não são essas frementes na iluminação da manhã
São, se as colho, as dum jardim contrário
Nascido desses vossos
Na leiteira ou no bar a tarde se reparte
em iogurtes, coalhadas, copos
São quatro horas da tarde ou da manhã
Em algum mês que não me vem à cabeça
Tenho trinta e oito anos e uma angústia
Amo a vida que é cheia de crianças,
de flores e mulheres...
A vida. Esse direito de estar no mundo
Ter dois pés e duas mãos, uma cara
e a fome de tudo... a esperança
Esse direito de Kika e demais
que nenhum ato institucional
ou inconstitucional
Pode cassar ou legar.
Meus quantos amigos - gente presa
Quantos cárceres escuros
Onde a tarde fede a urina e terror
Existem muitas famílias sem rumo
Essa tarde nos subúrbios de ferro e gás
Brinca irremida a infância da falada
classe operária
Estou aqui!
O espelho não guardará a marca deste rosto
Se simplesmente saio do lugar
Ou se morro... se me matam...
Um dia eu parto
Que importa pois?
A luta comum me incendeia o sangue
E bato no peito
Como o coice de uma lembrança.
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2
Raul Seixas
Treinando Compor
Não quero mais amor
Nem quero mais cantar minha terra
Me perco nesse mundo
Não quero mais o pau Brasil
As rosas que eu colho
Não são essas frementes na iluminação da manhã
São, se as colho, as dum jardim contrário
Nascido desses vossos
Na leiteira ou no bar a tarde se reparte
em iogurtes, coalhadas, copos
São quatro horas da tarde ou da manhã
Em algum mês que não me vem à cabeça
Tenho trinta e oito anos e uma angústia
Amo a vida que é cheia de crianças,
de flores e mulheres...
A vida. Esse direito de estar no mundo
Ter dois pés e duas mãos, uma cara
e a fome de tudo... a esperança
Esse direito de Kika e demais
que nenhum ato institucional
ou inconstitucional
Pode cassar ou legar.
Meus quantos amigos - gente presa
Quantos cárceres escuros
Onde a tarde fede a urina e terror
Existem muitas famílias sem rumo
Essa tarde nos subúrbios de ferro e gás
Brinca irremida a infância da falada
classe operária
Estou aqui!
O espelho não guardará a marca deste rosto
Se simplesmente saio do lugar
Ou se morro... se me matam...
Um dia eu parto
Que importa pois?
A luta comum me incendeia o sangue
E bato no peito
Como o coice de uma lembrança.
Nem quero mais cantar minha terra
Me perco nesse mundo
Não quero mais o pau Brasil
As rosas que eu colho
Não são essas frementes na iluminação da manhã
São, se as colho, as dum jardim contrário
Nascido desses vossos
Na leiteira ou no bar a tarde se reparte
em iogurtes, coalhadas, copos
São quatro horas da tarde ou da manhã
Em algum mês que não me vem à cabeça
Tenho trinta e oito anos e uma angústia
Amo a vida que é cheia de crianças,
de flores e mulheres...
A vida. Esse direito de estar no mundo
Ter dois pés e duas mãos, uma cara
e a fome de tudo... a esperança
Esse direito de Kika e demais
que nenhum ato institucional
ou inconstitucional
Pode cassar ou legar.
Meus quantos amigos - gente presa
Quantos cárceres escuros
Onde a tarde fede a urina e terror
Existem muitas famílias sem rumo
Essa tarde nos subúrbios de ferro e gás
Brinca irremida a infância da falada
classe operária
Estou aqui!
O espelho não guardará a marca deste rosto
Se simplesmente saio do lugar
Ou se morro... se me matam...
Um dia eu parto
Que importa pois?
A luta comum me incendeia o sangue
E bato no peito
Como o coice de uma lembrança.
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2
Manuel Lopes
A palavra
te lavo e lavro
palavra / pão
polida pedra
de construção
do quanto faço
deste edifício
em que elaboro
fé e ofício,
te esculpo e bruno
verbo/canção
no diário labor
de artesão.
te louvo lume
e pedra dara
com que ergo o templo
da flor mais cara
e clara: poesia
com que reparto
os sóis do meu dia
o suor do meu dia
o fel do meu dia
as mazelas do homem
as amargas vidas
o pão subtraído
as pagas devidas
a paz relativa
a justiça rara
a fome de todos
a morte na cara
da criança. o aço
que o corpo nos cava,
a fé o cansaço
desta luta brava
a fartura a poucos
de muitos tomada
o chão proibido
a água negada
o amor que rareia e
a festa sonhada
.....................................
palavra larva
semente pura
que em mim explodes
de sons madura,
te lavo e lavro
verbo / canção
te louvo lume
poema / pão
manhã sonhada
meu sim/meu não.
palavra / pão
polida pedra
de construção
do quanto faço
deste edifício
em que elaboro
fé e ofício,
te esculpo e bruno
verbo/canção
no diário labor
de artesão.
te louvo lume
e pedra dara
com que ergo o templo
da flor mais cara
e clara: poesia
com que reparto
os sóis do meu dia
o suor do meu dia
o fel do meu dia
as mazelas do homem
as amargas vidas
o pão subtraído
as pagas devidas
a paz relativa
a justiça rara
a fome de todos
a morte na cara
da criança. o aço
que o corpo nos cava,
a fé o cansaço
desta luta brava
a fartura a poucos
de muitos tomada
o chão proibido
a água negada
o amor que rareia e
a festa sonhada
.....................................
palavra larva
semente pura
que em mim explodes
de sons madura,
te lavo e lavro
verbo / canção
te louvo lume
poema / pão
manhã sonhada
meu sim/meu não.
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Manuel Lopes
A palavra
te lavo e lavro
palavra / pão
polida pedra
de construção
do quanto faço
deste edifício
em que elaboro
fé e ofício,
te esculpo e bruno
verbo/canção
no diário labor
de artesão.
te louvo lume
e pedra dara
com que ergo o templo
da flor mais cara
e clara: poesia
com que reparto
os sóis do meu dia
o suor do meu dia
o fel do meu dia
as mazelas do homem
as amargas vidas
o pão subtraído
as pagas devidas
a paz relativa
a justiça rara
a fome de todos
a morte na cara
da criança. o aço
que o corpo nos cava,
a fé o cansaço
desta luta brava
a fartura a poucos
de muitos tomada
o chão proibido
a água negada
o amor que rareia e
a festa sonhada
.....................................
palavra larva
semente pura
que em mim explodes
de sons madura,
te lavo e lavro
verbo / canção
te louvo lume
poema / pão
manhã sonhada
meu sim/meu não.
palavra / pão
polida pedra
de construção
do quanto faço
deste edifício
em que elaboro
fé e ofício,
te esculpo e bruno
verbo/canção
no diário labor
de artesão.
te louvo lume
e pedra dara
com que ergo o templo
da flor mais cara
e clara: poesia
com que reparto
os sóis do meu dia
o suor do meu dia
o fel do meu dia
as mazelas do homem
as amargas vidas
o pão subtraído
as pagas devidas
a paz relativa
a justiça rara
a fome de todos
a morte na cara
da criança. o aço
que o corpo nos cava,
a fé o cansaço
desta luta brava
a fartura a poucos
de muitos tomada
o chão proibido
a água negada
o amor que rareia e
a festa sonhada
.....................................
palavra larva
semente pura
que em mim explodes
de sons madura,
te lavo e lavro
verbo / canção
te louvo lume
poema / pão
manhã sonhada
meu sim/meu não.
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Manuel da Fonseca
Romance do Terceiro Oficial de Finanças
Ah! as coisas incríveis que eu te contava
assim misturadas com luas e estrelas
e a voz vagarosa como o andar da noite!
As coisas incríveis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solidão da vila quieta!...
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe os segredos dos grandes silêncios
— os meus braços no jeito de pedir
e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debruçavas da varanda!...
(As coisas incríveis eu só as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos.
Aquela estrela que parecia de propósito para enfeitar os teus cabelos
quando eu ia nomarar-te...)
Mas tudo isso, que era tudo para nós,
não era nada na vida!...
Da vida é isto que a vida faz.
Ah! sim, isto que a vida faz!
— isto de tu seres a esposa séria e triste
de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal!...
assim misturadas com luas e estrelas
e a voz vagarosa como o andar da noite!
As coisas incríveis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solidão da vila quieta!...
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe os segredos dos grandes silêncios
— os meus braços no jeito de pedir
e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debruçavas da varanda!...
(As coisas incríveis eu só as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos.
Aquela estrela que parecia de propósito para enfeitar os teus cabelos
quando eu ia nomarar-te...)
Mas tudo isso, que era tudo para nós,
não era nada na vida!...
Da vida é isto que a vida faz.
Ah! sim, isto que a vida faz!
— isto de tu seres a esposa séria e triste
de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal!...
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2
Murillo Mendes
Modinha do Empregado de Banco
Eu sou triste como um prático de farmácia,
sou quase tão triste como um homem que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.
Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos para não fazerem nada com eles.
Também se o diretor tivesse a minha imaginação
o Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar.
sou quase tão triste como um homem que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.
Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos para não fazerem nada com eles.
Também se o diretor tivesse a minha imaginação
o Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar.
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Murillo Mendes
Modinha do Empregado de Banco
Eu sou triste como um prático de farmácia,
sou quase tão triste como um homem que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.
Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos para não fazerem nada com eles.
Também se o diretor tivesse a minha imaginação
o Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar.
sou quase tão triste como um homem que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.
Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos para não fazerem nada com eles.
Também se o diretor tivesse a minha imaginação
o Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar.
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