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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Sá de Miranda

Sá de Miranda

Carta

Rei de muitos reis, se um dia,
Se uma hora só mal me atrevo
Ocupar-vos, mal faria,
E ao bem comum não teria
Os respeitos que ter devo.

Que em outras partes da esfera,
Em outros céus diferentes,
Que Deus até agora escondera,
Tanta multidão de gentes
Vossos mandados espera.

Que sois vós tal, que eles sós,
justo e poderoso rei,
Ou lhe desdais os seus nós,
Ou cortais; porque entre nós
Vós sois nossa viva lei.

Onde há homens há cobiça,
Cá e lá, tudo ela empeça,
Se a santa, se a igual justiça
Não corta, ou não desempena
O que a má malícia enliça.

Senhor, que é muito atrevida,
E onde ela nós cegos deu,
Cortar é coisa devida;
Exemplo o justo de Mida,
Que el-rei vosso avô fez seu.

Ora eu, que respeito havendo
Ao tempo, mais que ao estilo,
Irei fugindo ao que entendo;
Farei como os cães do Nilo,
Que correm, e vão bebendo.

A dignidade real,
Que o mundo a direito tem,
Sem ela ter-se-ia mal,
É sagrada, e não leal
quem limpo ante ela não vem.

Não falemos nos tiranos,
Falemos nos reis ungidos;
Remedeiam nossos danos;
Socorrem os afligidos;
Cortam pelos maus enganos.

As vossas velas, que vão,
Dando quase ó mundo volta,
Raramente contarão
Gente doutro algum rei solta;
Sem cabeça o corpo é vão.

Dignidade alta e suprema,
Que há que a não reconheça?
Viu-se em Marco Antônio tema
De pôr real diadema
A César sobre a cabeça.

Que nome de imperador
Dantes a César se dera
Sem suspeita, e sem temor;
Que inda então muito mais era
Ser cônsul, ser ditador.

Um rei ao reino convém;
Vemos que alumia o mundo;
Um sol, um Deus o sustém:
Certa a queda, e o fim tem
O reino onde há rei segundo.

Não ao sabor das orelhas,
Arenga estudada e branda;
Abastam as razões velhas:
A cabeça os membros manda;
Seu rei seguem as abelhas.

A tempo o bom rei perdoa;
A tempo o ferro é mezinha:
Forças e condição boa
Deram ao leão coroa
De sua grei montezinha.

Às aves, tamanho bando
Doutra liga, e doutra lei,
Por vencer todas voando,
A águia foi dada por rei,
Que o sol claro atura olhando.

Quanto que sempre guardou
David lealdade e fé
A Saul, quanto o chorou!
Quanta maldição lançou
Aos montes de Gelboé!

Onde caíra o escudo
De seu rei, inda que inimigo,
Inda que já mal sisudo
Saindo de tal perigo,
E subindo a mandar tudo.

O senhor da natureza,
De quem céu e terra é cheia,
Vindo a esta nossa baixeza,
Do real sangue se preza:
Por rei na cruz se nomeia.

Sobre obrigações tamanhas
Velem-se contudo os reis
Dos rostos falsos, das manhas
Com que lhe querem das leis,
Fazer teias das aranhas.

Oue se não pode fazer
Por arte, por força ou graça,
Salvo o que a justiça quer;
Senhor, não chamam valer,
Salvo ao que lhes val na praça.

E por muito que os reis olhem,
Vão por fora mil inchaços,
Que ante vós, senhor, se encolhem
Duns gigantes de cem braços
Com que dão, e com que tolhem.

Quem graça ante el-rei alcança,
E lhe fala o que não deve,
Mal grande da má privança,
Peçonha na fonte lança,
De que toda a terra breve.

Quem joga, onde engano vai,
Em vão corre e torna atrás;
Em vão sobre a face cai:
Mal hajam as manhas más
Donde tanto dano sai!

Homem de um só parecer,
Dum só rosto, uma só fé,
Dantes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte homem não é.

Gracejar ouço de cá
De quem vai inteiro e são,
Nem se contrafaz mais lá;
Como este vem aldeão,
Que cortesão tornará?

As santidades da praça,
Aqueles rostos tristonhos,
Cos quais este, e aquele caça;
Para Deus, senhor, é graça;
Para nós tudo são sonhos.

E os discursos que fazemos,
Pode ser, não pode ser,
Mais diante o entenderemos:
Agora mortos por ver;
Então todos nós veremos.

Senhor, hei-vos de falar
(Vossa mansidão me esforça)
Claro o que posso alcançar;
Andam para vos tomar
Por manhas, que não por força.

Por minas trazem suas azes
Os rostos de tintureiros,
Falsas guerras, falsas pazes;
De fora mansos cordeiros;
De dentro lobos roazes.

Tudo seu remédio tem
E que assim bem o sabeis,
E ao remédio também;
Querei-los conhecer bem,
No fruto os conhecereis.

Obras, que palavras não:
Porém, senhor, somos muitos,
E entre tanta multidão
Tresmalham-se-vos os frutos,
Que não sabeis cujos são.

Um que por outro se vende,
Lança a pedra, e a mão esconde;
O dano longe se estende;
Aquele a quem dói e entende,
Com só suspiros responde.

A vida desaparece,
E entretanto geme e jaz
O que caiu: e acontece,
Que dum mal, que se lhe faz,
Outro mor se lhe recresce.

Pena e galardão igual
O mundo a direito tem,
A uma regra geral;
Que a pena se deve ao mal,
E o galardão ao bem.

Se alguma hora aconteceu
Na paz, muito mais na guerra,
Que a balança mais pendeu,
Faz-se engano às leis da terra;
Nunca se faz às do céu.

Entre os lombardos havia
Lei escrita, e lei usada,
Como se sabe hoje em dia;
Que onde a prova falecia,
Que o provasse a espada.

Ali no campo às singelas,
Enfim morrer ou vencer,
Fosse qual quisesse delas:
Não era melhor morrer
A ferro, que de cautelas?

Ao nosso alto e excelente
Dom Dinis, rei tão louvado,
Tão justo, a Deus tão temente,
Falsa e maliciosamente,
Foi grande aleive assacado.

Ele posto em tal perigo,
Rei que rei fez e desfez;
Contra o malicioso inimigo,
Foi-lhe forçado esta vez
Chamar-se a esta lei que digo.

E juntamente às cidades
A quem cumpriu de acudir,
Pelas suas lealdades:
Que tão más são as verdades
Às vezes de descobrir!

Neste tempo quem mal cai,
Mal jaz; e dizem que à luz
Por tempo a verdade sai;
Entretanto põem na cruz
O justo, o ladrão se vai.

Da mesma casa real,
Em verdade um grande infante
Tratado às escuras mal,
Bradava por campo igual,
E inimigos claros diante.

Enfim vendo a indústria e arte
Quanto que podem, chamou
Um leal conde de parte;
Só com ele se apartou;
Foi viver a melhor parte.

Onde tudo é certo e claro,
Onde são sempre umas leis;
Príncipe no mundo raro,
Sobre tanto desamparo
Foram três seus filhos reis.

Ó senhor! quantos suores
Passa o corpo e alma em vão
Em poder de envolvedores!
Enfim, batalhas que são?
Salvo desafios mores.

Com a mão sobre um ouvido
Ouvia Alexandre as partes,
Como quem tinha entendido,
Por fazer certo o fingido,
Quantas que se buscam dartes.

Guardava ele o outro inteiro
A parte não inda ouvida:
Não vai nada em ser primeiro:
Quem muito sabe duvida;
Só Deus é o verdadeiro.

A tudo dão novas cores
Com que enleiam os sentidos:
Ah maus! ah enliçadores!
Ante os reis vossos senhores,
Andais com rostos fingidos!
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Sá de Miranda

Sá de Miranda

Carta

Rei de muitos reis, se um dia,
Se uma hora só mal me atrevo
Ocupar-vos, mal faria,
E ao bem comum não teria
Os respeitos que ter devo.

Que em outras partes da esfera,
Em outros céus diferentes,
Que Deus até agora escondera,
Tanta multidão de gentes
Vossos mandados espera.

Que sois vós tal, que eles sós,
justo e poderoso rei,
Ou lhe desdais os seus nós,
Ou cortais; porque entre nós
Vós sois nossa viva lei.

Onde há homens há cobiça,
Cá e lá, tudo ela empeça,
Se a santa, se a igual justiça
Não corta, ou não desempena
O que a má malícia enliça.

Senhor, que é muito atrevida,
E onde ela nós cegos deu,
Cortar é coisa devida;
Exemplo o justo de Mida,
Que el-rei vosso avô fez seu.

Ora eu, que respeito havendo
Ao tempo, mais que ao estilo,
Irei fugindo ao que entendo;
Farei como os cães do Nilo,
Que correm, e vão bebendo.

A dignidade real,
Que o mundo a direito tem,
Sem ela ter-se-ia mal,
É sagrada, e não leal
quem limpo ante ela não vem.

Não falemos nos tiranos,
Falemos nos reis ungidos;
Remedeiam nossos danos;
Socorrem os afligidos;
Cortam pelos maus enganos.

As vossas velas, que vão,
Dando quase ó mundo volta,
Raramente contarão
Gente doutro algum rei solta;
Sem cabeça o corpo é vão.

Dignidade alta e suprema,
Que há que a não reconheça?
Viu-se em Marco Antônio tema
De pôr real diadema
A César sobre a cabeça.

Que nome de imperador
Dantes a César se dera
Sem suspeita, e sem temor;
Que inda então muito mais era
Ser cônsul, ser ditador.

Um rei ao reino convém;
Vemos que alumia o mundo;
Um sol, um Deus o sustém:
Certa a queda, e o fim tem
O reino onde há rei segundo.

Não ao sabor das orelhas,
Arenga estudada e branda;
Abastam as razões velhas:
A cabeça os membros manda;
Seu rei seguem as abelhas.

A tempo o bom rei perdoa;
A tempo o ferro é mezinha:
Forças e condição boa
Deram ao leão coroa
De sua grei montezinha.

Às aves, tamanho bando
Doutra liga, e doutra lei,
Por vencer todas voando,
A águia foi dada por rei,
Que o sol claro atura olhando.

Quanto que sempre guardou
David lealdade e fé
A Saul, quanto o chorou!
Quanta maldição lançou
Aos montes de Gelboé!

Onde caíra o escudo
De seu rei, inda que inimigo,
Inda que já mal sisudo
Saindo de tal perigo,
E subindo a mandar tudo.

O senhor da natureza,
De quem céu e terra é cheia,
Vindo a esta nossa baixeza,
Do real sangue se preza:
Por rei na cruz se nomeia.

Sobre obrigações tamanhas
Velem-se contudo os reis
Dos rostos falsos, das manhas
Com que lhe querem das leis,
Fazer teias das aranhas.

Oue se não pode fazer
Por arte, por força ou graça,
Salvo o que a justiça quer;
Senhor, não chamam valer,
Salvo ao que lhes val na praça.

E por muito que os reis olhem,
Vão por fora mil inchaços,
Que ante vós, senhor, se encolhem
Duns gigantes de cem braços
Com que dão, e com que tolhem.

Quem graça ante el-rei alcança,
E lhe fala o que não deve,
Mal grande da má privança,
Peçonha na fonte lança,
De que toda a terra breve.

Quem joga, onde engano vai,
Em vão corre e torna atrás;
Em vão sobre a face cai:
Mal hajam as manhas más
Donde tanto dano sai!

Homem de um só parecer,
Dum só rosto, uma só fé,
Dantes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte homem não é.

Gracejar ouço de cá
De quem vai inteiro e são,
Nem se contrafaz mais lá;
Como este vem aldeão,
Que cortesão tornará?

As santidades da praça,
Aqueles rostos tristonhos,
Cos quais este, e aquele caça;
Para Deus, senhor, é graça;
Para nós tudo são sonhos.

E os discursos que fazemos,
Pode ser, não pode ser,
Mais diante o entenderemos:
Agora mortos por ver;
Então todos nós veremos.

Senhor, hei-vos de falar
(Vossa mansidão me esforça)
Claro o que posso alcançar;
Andam para vos tomar
Por manhas, que não por força.

Por minas trazem suas azes
Os rostos de tintureiros,
Falsas guerras, falsas pazes;
De fora mansos cordeiros;
De dentro lobos roazes.

Tudo seu remédio tem
E que assim bem o sabeis,
E ao remédio também;
Querei-los conhecer bem,
No fruto os conhecereis.

Obras, que palavras não:
Porém, senhor, somos muitos,
E entre tanta multidão
Tresmalham-se-vos os frutos,
Que não sabeis cujos são.

Um que por outro se vende,
Lança a pedra, e a mão esconde;
O dano longe se estende;
Aquele a quem dói e entende,
Com só suspiros responde.

A vida desaparece,
E entretanto geme e jaz
O que caiu: e acontece,
Que dum mal, que se lhe faz,
Outro mor se lhe recresce.

Pena e galardão igual
O mundo a direito tem,
A uma regra geral;
Que a pena se deve ao mal,
E o galardão ao bem.

Se alguma hora aconteceu
Na paz, muito mais na guerra,
Que a balança mais pendeu,
Faz-se engano às leis da terra;
Nunca se faz às do céu.

Entre os lombardos havia
Lei escrita, e lei usada,
Como se sabe hoje em dia;
Que onde a prova falecia,
Que o provasse a espada.

Ali no campo às singelas,
Enfim morrer ou vencer,
Fosse qual quisesse delas:
Não era melhor morrer
A ferro, que de cautelas?

Ao nosso alto e excelente
Dom Dinis, rei tão louvado,
Tão justo, a Deus tão temente,
Falsa e maliciosamente,
Foi grande aleive assacado.

Ele posto em tal perigo,
Rei que rei fez e desfez;
Contra o malicioso inimigo,
Foi-lhe forçado esta vez
Chamar-se a esta lei que digo.

E juntamente às cidades
A quem cumpriu de acudir,
Pelas suas lealdades:
Que tão más são as verdades
Às vezes de descobrir!

Neste tempo quem mal cai,
Mal jaz; e dizem que à luz
Por tempo a verdade sai;
Entretanto põem na cruz
O justo, o ladrão se vai.

Da mesma casa real,
Em verdade um grande infante
Tratado às escuras mal,
Bradava por campo igual,
E inimigos claros diante.

Enfim vendo a indústria e arte
Quanto que podem, chamou
Um leal conde de parte;
Só com ele se apartou;
Foi viver a melhor parte.

Onde tudo é certo e claro,
Onde são sempre umas leis;
Príncipe no mundo raro,
Sobre tanto desamparo
Foram três seus filhos reis.

Ó senhor! quantos suores
Passa o corpo e alma em vão
Em poder de envolvedores!
Enfim, batalhas que são?
Salvo desafios mores.

Com a mão sobre um ouvido
Ouvia Alexandre as partes,
Como quem tinha entendido,
Por fazer certo o fingido,
Quantas que se buscam dartes.

Guardava ele o outro inteiro
A parte não inda ouvida:
Não vai nada em ser primeiro:
Quem muito sabe duvida;
Só Deus é o verdadeiro.

A tudo dão novas cores
Com que enleiam os sentidos:
Ah maus! ah enliçadores!
Ante os reis vossos senhores,
Andais com rostos fingidos!
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Sá de Miranda

Sá de Miranda

Carta

Rei de muitos reis, se um dia,
Se uma hora só mal me atrevo
Ocupar-vos, mal faria,
E ao bem comum não teria
Os respeitos que ter devo.

Que em outras partes da esfera,
Em outros céus diferentes,
Que Deus até agora escondera,
Tanta multidão de gentes
Vossos mandados espera.

Que sois vós tal, que eles sós,
justo e poderoso rei,
Ou lhe desdais os seus nós,
Ou cortais; porque entre nós
Vós sois nossa viva lei.

Onde há homens há cobiça,
Cá e lá, tudo ela empeça,
Se a santa, se a igual justiça
Não corta, ou não desempena
O que a má malícia enliça.

Senhor, que é muito atrevida,
E onde ela nós cegos deu,
Cortar é coisa devida;
Exemplo o justo de Mida,
Que el-rei vosso avô fez seu.

Ora eu, que respeito havendo
Ao tempo, mais que ao estilo,
Irei fugindo ao que entendo;
Farei como os cães do Nilo,
Que correm, e vão bebendo.

A dignidade real,
Que o mundo a direito tem,
Sem ela ter-se-ia mal,
É sagrada, e não leal
quem limpo ante ela não vem.

Não falemos nos tiranos,
Falemos nos reis ungidos;
Remedeiam nossos danos;
Socorrem os afligidos;
Cortam pelos maus enganos.

As vossas velas, que vão,
Dando quase ó mundo volta,
Raramente contarão
Gente doutro algum rei solta;
Sem cabeça o corpo é vão.

Dignidade alta e suprema,
Que há que a não reconheça?
Viu-se em Marco Antônio tema
De pôr real diadema
A César sobre a cabeça.

Que nome de imperador
Dantes a César se dera
Sem suspeita, e sem temor;
Que inda então muito mais era
Ser cônsul, ser ditador.

Um rei ao reino convém;
Vemos que alumia o mundo;
Um sol, um Deus o sustém:
Certa a queda, e o fim tem
O reino onde há rei segundo.

Não ao sabor das orelhas,
Arenga estudada e branda;
Abastam as razões velhas:
A cabeça os membros manda;
Seu rei seguem as abelhas.

A tempo o bom rei perdoa;
A tempo o ferro é mezinha:
Forças e condição boa
Deram ao leão coroa
De sua grei montezinha.

Às aves, tamanho bando
Doutra liga, e doutra lei,
Por vencer todas voando,
A águia foi dada por rei,
Que o sol claro atura olhando.

Quanto que sempre guardou
David lealdade e fé
A Saul, quanto o chorou!
Quanta maldição lançou
Aos montes de Gelboé!

Onde caíra o escudo
De seu rei, inda que inimigo,
Inda que já mal sisudo
Saindo de tal perigo,
E subindo a mandar tudo.

O senhor da natureza,
De quem céu e terra é cheia,
Vindo a esta nossa baixeza,
Do real sangue se preza:
Por rei na cruz se nomeia.

Sobre obrigações tamanhas
Velem-se contudo os reis
Dos rostos falsos, das manhas
Com que lhe querem das leis,
Fazer teias das aranhas.

Oue se não pode fazer
Por arte, por força ou graça,
Salvo o que a justiça quer;
Senhor, não chamam valer,
Salvo ao que lhes val na praça.

E por muito que os reis olhem,
Vão por fora mil inchaços,
Que ante vós, senhor, se encolhem
Duns gigantes de cem braços
Com que dão, e com que tolhem.

Quem graça ante el-rei alcança,
E lhe fala o que não deve,
Mal grande da má privança,
Peçonha na fonte lança,
De que toda a terra breve.

Quem joga, onde engano vai,
Em vão corre e torna atrás;
Em vão sobre a face cai:
Mal hajam as manhas más
Donde tanto dano sai!

Homem de um só parecer,
Dum só rosto, uma só fé,
Dantes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte homem não é.

Gracejar ouço de cá
De quem vai inteiro e são,
Nem se contrafaz mais lá;
Como este vem aldeão,
Que cortesão tornará?

As santidades da praça,
Aqueles rostos tristonhos,
Cos quais este, e aquele caça;
Para Deus, senhor, é graça;
Para nós tudo são sonhos.

E os discursos que fazemos,
Pode ser, não pode ser,
Mais diante o entenderemos:
Agora mortos por ver;
Então todos nós veremos.

Senhor, hei-vos de falar
(Vossa mansidão me esforça)
Claro o que posso alcançar;
Andam para vos tomar
Por manhas, que não por força.

Por minas trazem suas azes
Os rostos de tintureiros,
Falsas guerras, falsas pazes;
De fora mansos cordeiros;
De dentro lobos roazes.

Tudo seu remédio tem
E que assim bem o sabeis,
E ao remédio também;
Querei-los conhecer bem,
No fruto os conhecereis.

Obras, que palavras não:
Porém, senhor, somos muitos,
E entre tanta multidão
Tresmalham-se-vos os frutos,
Que não sabeis cujos são.

Um que por outro se vende,
Lança a pedra, e a mão esconde;
O dano longe se estende;
Aquele a quem dói e entende,
Com só suspiros responde.

A vida desaparece,
E entretanto geme e jaz
O que caiu: e acontece,
Que dum mal, que se lhe faz,
Outro mor se lhe recresce.

Pena e galardão igual
O mundo a direito tem,
A uma regra geral;
Que a pena se deve ao mal,
E o galardão ao bem.

Se alguma hora aconteceu
Na paz, muito mais na guerra,
Que a balança mais pendeu,
Faz-se engano às leis da terra;
Nunca se faz às do céu.

Entre os lombardos havia
Lei escrita, e lei usada,
Como se sabe hoje em dia;
Que onde a prova falecia,
Que o provasse a espada.

Ali no campo às singelas,
Enfim morrer ou vencer,
Fosse qual quisesse delas:
Não era melhor morrer
A ferro, que de cautelas?

Ao nosso alto e excelente
Dom Dinis, rei tão louvado,
Tão justo, a Deus tão temente,
Falsa e maliciosamente,
Foi grande aleive assacado.

Ele posto em tal perigo,
Rei que rei fez e desfez;
Contra o malicioso inimigo,
Foi-lhe forçado esta vez
Chamar-se a esta lei que digo.

E juntamente às cidades
A quem cumpriu de acudir,
Pelas suas lealdades:
Que tão más são as verdades
Às vezes de descobrir!

Neste tempo quem mal cai,
Mal jaz; e dizem que à luz
Por tempo a verdade sai;
Entretanto põem na cruz
O justo, o ladrão se vai.

Da mesma casa real,
Em verdade um grande infante
Tratado às escuras mal,
Bradava por campo igual,
E inimigos claros diante.

Enfim vendo a indústria e arte
Quanto que podem, chamou
Um leal conde de parte;
Só com ele se apartou;
Foi viver a melhor parte.

Onde tudo é certo e claro,
Onde são sempre umas leis;
Príncipe no mundo raro,
Sobre tanto desamparo
Foram três seus filhos reis.

Ó senhor! quantos suores
Passa o corpo e alma em vão
Em poder de envolvedores!
Enfim, batalhas que são?
Salvo desafios mores.

Com a mão sobre um ouvido
Ouvia Alexandre as partes,
Como quem tinha entendido,
Por fazer certo o fingido,
Quantas que se buscam dartes.

Guardava ele o outro inteiro
A parte não inda ouvida:
Não vai nada em ser primeiro:
Quem muito sabe duvida;
Só Deus é o verdadeiro.

A tudo dão novas cores
Com que enleiam os sentidos:
Ah maus! ah enliçadores!
Ante os reis vossos senhores,
Andais com rostos fingidos!
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Pe. Osvaldo Chaves

Pe. Osvaldo Chaves

A Granja dos Séculos

A Natureza, enamorada, um dia,
Pôs um beijo de amor e simpatia
Na face do sertão.
E esse beijo fecundo fez brotar
Entre as brisas do mar e o fogo do deserto
— Granja — o pátrio rincão.

E hoje, a fim de observá-la,
Detenho o passo, absorto viajor:
A terra é boa. A natureza é bela.
Contemplo-a em derredor:
O rio!...
Olha também:
Também o rio
Represou na Barragem para vê-la.
Mas vê-la é enamorá-la, e o rio não sabia.
É vassalo, é escravo do oceano,
Não pode demorar-se.
Fita-a por um momento.
E, de despeito,
Precipita-se do alto da parede,
Como o rio do poeta, e cai desfeito
Em vísceras de espuma e de arco-íris.
Um escravo não desposa uma rainha:
Na dor da frustração, em ondas multifárias,
Tristonho e saudoso vai seguindo
Seu destino de águas tributárias...
Para a rainha — um rei!
O mar é um rei.
Mas, feroz e sombrio,
Um tigre de ciúmes,
Tem ciúmes do rio.
Por isso,
Desde mais de dois séculos, vem,
Sorrateiramente,
Duas vezes por dia impreterivelmente,
Para ver a cidade dos seus sonhos.
E, na doce viagem,
Traz-lhe sal, e traz peixe, e traz conchinhas,
E um abraço de posse, largo, de oceano...

E a cidade, tão meiga e conjugal,
Sorri-se ao mar.
E em resposta aos carinhos
Cochicha-lhe, talvez, uma promessa em segredo.
E o mar vai-se de novo, e ela pensa no mar...

Pensa... Mas pensa mais nos seus filhos,
Vive mais para eles.
E, se um deles morreu,
Silente e lacrimosa sobe a sepultá-lo
Ali perto, bem alto, numa esplanada de outeiro,
Porque quer vê-lo já perto do céu.

E eu vejo agora a Granja do passado,
Redivivo, glorioso, retratado
Num cenário de sonho.
Silêncio.
A noite é tropical. O luar é lindo.
E a cidade parece
Uma virgem de mármore dormindo.
O espírito de Lívio vagueia
A vigiar-lhe o sono.
Eternizado em seus vinte e seis anos
Lívio Barreto, pálido, romântico,
Passeia pelas ruas
Vendo em cada janela os cravos brancos
Que as mãos dolentes da prateada lua
Derramam em profusão.
E o poeta vai clamando...
Eu o ouço ainda clamando:
Umbelina! Umbelina! Estela, Estela!

Sonho de adolescente, sonho vão...
Agora,
Somente agora é que o poeta colhe
Os seus "brancos soluços de alvorada,
Os cravos brancos que plantou no coração."
Silêncio para dor.
Meu poeta, silêncio: a Imortalidade
É a tua Verônica...

Há um sussurro de notas, um tropel de acordes,
Trêmulo, soluçante, irradiando
Das paredes que foram Filarmônica.
A lua
Continua
Como prata.

O vento,
Sonolento,
Açoita e zine.
O espírito melódico de Ciarlini
Pulverizou-se em luz, pulverizou-se em sons,
Encheu de fosforescências a alma desta terra,
E Granja adora a música.
Beethoven, Rubinstein, Debussy
E Tchaikovski ainda agora
Têm cultores aqui.
O frêmito dos teclados dos pianos
É uma mediunização.
O saxofone lânguido da esquina,
Com o boêmio violão das serenatas,
É vida, é organismo, é evolução.

E os tamarindos velhos, ah! se eles falassem!
Recordações
De infâncias dos tempos que volveram
Trepam-lhes pelos galhos
E enroscam-se nos troncos
Que as brisas livres dos séculos enegreceram.
O nosso avô menino...
O nosso bisavô...
Paula Pessoa, o Senador...

E o Pessoa Anta
Brincando à sombra deles aguçava
Os instintos de libertação da grande Raça
Para a Confederação do Equador:
"Soldados, apontar! Certeiro ao coração!"
E Granja ia escrevendo a pátria História,
E o padre Mororó, rolando no Passeio,
Contava para a glória
Um companheiro igual.

Maior que isto, ó Granja, só o grande ideal
De tua religião.
Retas como a verdade,
As torres da Matriz são dois braços alçados:
Um marcando o tempo
E o outro nos apontando a eternidade.
São as torres dois braços levantados
Para o céu,
Em prece vertical.
E o sino badalando é uma grande harpa eólia,
Um tenor de metal.
Um badalo sorrindo
Diz adeus a um anjinho.

Um badalo chorando
Anuncia angustiado:
Era pai e morreu. Era mãe e morreu.
Era irmão, era filho, era esposo e morreu...
Bem... muito além... Bem... muito além...
No céu nos veremos, no céu nos veremos...
Um badalo cantando,
Um badalo chorando,
Um badalo chamando
Para os pêsames,
Para a prece,
Para o amor
E para as núpcias.
Noitários, procissões e a alvorada das bandas...
Vejo o padre Galvão e Vicente Martins:
Almas de impávidas Vestais, almas irmãs,
Guardam o fogo sagrado
De cultura e de fé das gerações cristãs
De cem e mais cem anos.

Granja de um,
Granja de dois,
Granja dos séculos!
Debaixo deste céu tão azul e tão puro,
A minha musa ingênua de criança
É hoje uma canção de inteira confiança
No teu futuro!

Boa terra,
Minha musa criança é hoje um hino
De gratidão a ti:
Granja dos carnaubais, Granja de São José,
Foi no teu seio que eu primeiro
Amei a terra, reconheci a Raça e exercitei a Fé.

Granja de gente boa,
Foi em ti que aprendi a confiar no Povo
Cuja voz de trovão reboará em ecos
Dentro da História, eternos, no porvir.
Granja no Brasil
E a Pátria pelos séculos!

Granja, 30 de agosto de 1957

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Pe. Osvaldo Chaves

Pe. Osvaldo Chaves

A Granja dos Séculos

A Natureza, enamorada, um dia,
Pôs um beijo de amor e simpatia
Na face do sertão.
E esse beijo fecundo fez brotar
Entre as brisas do mar e o fogo do deserto
— Granja — o pátrio rincão.

E hoje, a fim de observá-la,
Detenho o passo, absorto viajor:
A terra é boa. A natureza é bela.
Contemplo-a em derredor:
O rio!...
Olha também:
Também o rio
Represou na Barragem para vê-la.
Mas vê-la é enamorá-la, e o rio não sabia.
É vassalo, é escravo do oceano,
Não pode demorar-se.
Fita-a por um momento.
E, de despeito,
Precipita-se do alto da parede,
Como o rio do poeta, e cai desfeito
Em vísceras de espuma e de arco-íris.
Um escravo não desposa uma rainha:
Na dor da frustração, em ondas multifárias,
Tristonho e saudoso vai seguindo
Seu destino de águas tributárias...
Para a rainha — um rei!
O mar é um rei.
Mas, feroz e sombrio,
Um tigre de ciúmes,
Tem ciúmes do rio.
Por isso,
Desde mais de dois séculos, vem,
Sorrateiramente,
Duas vezes por dia impreterivelmente,
Para ver a cidade dos seus sonhos.
E, na doce viagem,
Traz-lhe sal, e traz peixe, e traz conchinhas,
E um abraço de posse, largo, de oceano...

E a cidade, tão meiga e conjugal,
Sorri-se ao mar.
E em resposta aos carinhos
Cochicha-lhe, talvez, uma promessa em segredo.
E o mar vai-se de novo, e ela pensa no mar...

Pensa... Mas pensa mais nos seus filhos,
Vive mais para eles.
E, se um deles morreu,
Silente e lacrimosa sobe a sepultá-lo
Ali perto, bem alto, numa esplanada de outeiro,
Porque quer vê-lo já perto do céu.

E eu vejo agora a Granja do passado,
Redivivo, glorioso, retratado
Num cenário de sonho.
Silêncio.
A noite é tropical. O luar é lindo.
E a cidade parece
Uma virgem de mármore dormindo.
O espírito de Lívio vagueia
A vigiar-lhe o sono.
Eternizado em seus vinte e seis anos
Lívio Barreto, pálido, romântico,
Passeia pelas ruas
Vendo em cada janela os cravos brancos
Que as mãos dolentes da prateada lua
Derramam em profusão.
E o poeta vai clamando...
Eu o ouço ainda clamando:
Umbelina! Umbelina! Estela, Estela!

Sonho de adolescente, sonho vão...
Agora,
Somente agora é que o poeta colhe
Os seus "brancos soluços de alvorada,
Os cravos brancos que plantou no coração."
Silêncio para dor.
Meu poeta, silêncio: a Imortalidade
É a tua Verônica...

Há um sussurro de notas, um tropel de acordes,
Trêmulo, soluçante, irradiando
Das paredes que foram Filarmônica.
A lua
Continua
Como prata.

O vento,
Sonolento,
Açoita e zine.
O espírito melódico de Ciarlini
Pulverizou-se em luz, pulverizou-se em sons,
Encheu de fosforescências a alma desta terra,
E Granja adora a música.
Beethoven, Rubinstein, Debussy
E Tchaikovski ainda agora
Têm cultores aqui.
O frêmito dos teclados dos pianos
É uma mediunização.
O saxofone lânguido da esquina,
Com o boêmio violão das serenatas,
É vida, é organismo, é evolução.

E os tamarindos velhos, ah! se eles falassem!
Recordações
De infâncias dos tempos que volveram
Trepam-lhes pelos galhos
E enroscam-se nos troncos
Que as brisas livres dos séculos enegreceram.
O nosso avô menino...
O nosso bisavô...
Paula Pessoa, o Senador...

E o Pessoa Anta
Brincando à sombra deles aguçava
Os instintos de libertação da grande Raça
Para a Confederação do Equador:
"Soldados, apontar! Certeiro ao coração!"
E Granja ia escrevendo a pátria História,
E o padre Mororó, rolando no Passeio,
Contava para a glória
Um companheiro igual.

Maior que isto, ó Granja, só o grande ideal
De tua religião.
Retas como a verdade,
As torres da Matriz são dois braços alçados:
Um marcando o tempo
E o outro nos apontando a eternidade.
São as torres dois braços levantados
Para o céu,
Em prece vertical.
E o sino badalando é uma grande harpa eólia,
Um tenor de metal.
Um badalo sorrindo
Diz adeus a um anjinho.

Um badalo chorando
Anuncia angustiado:
Era pai e morreu. Era mãe e morreu.
Era irmão, era filho, era esposo e morreu...
Bem... muito além... Bem... muito além...
No céu nos veremos, no céu nos veremos...
Um badalo cantando,
Um badalo chorando,
Um badalo chamando
Para os pêsames,
Para a prece,
Para o amor
E para as núpcias.
Noitários, procissões e a alvorada das bandas...
Vejo o padre Galvão e Vicente Martins:
Almas de impávidas Vestais, almas irmãs,
Guardam o fogo sagrado
De cultura e de fé das gerações cristãs
De cem e mais cem anos.

Granja de um,
Granja de dois,
Granja dos séculos!
Debaixo deste céu tão azul e tão puro,
A minha musa ingênua de criança
É hoje uma canção de inteira confiança
No teu futuro!

Boa terra,
Minha musa criança é hoje um hino
De gratidão a ti:
Granja dos carnaubais, Granja de São José,
Foi no teu seio que eu primeiro
Amei a terra, reconheci a Raça e exercitei a Fé.

Granja de gente boa,
Foi em ti que aprendi a confiar no Povo
Cuja voz de trovão reboará em ecos
Dentro da História, eternos, no porvir.
Granja no Brasil
E a Pátria pelos séculos!

Granja, 30 de agosto de 1957

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Roberto Pontes

Roberto Pontes

A Poesia do Tempo

por Alberto Da Silva
Da poesia cearense atual ressoam a nível nacional as vozes cristalinas de Gerardo Mello Mourão – radicado há décadas no sudeste brasileiro –, do cantador popular Patativa do Assaré, do versejador de raízes sociais Pedro Lyra, do até aqui pouco conhecido Alcides Pinto e deste mais que surpreendente bardo, também vitimado pelos anos de chumbo, Roberto Pontes.
Pela enésima vez deve repetir-se aqui o velho chavão segundo o qual a poesia da província infelizmente não repercute a nível nacional além do eixo Rio-São Paulo, traduzindo uma realidade possivelmente devida ao gigantismo continental do país e às seqüelas da aparição do regime federalista só a contar da República, ou seja, de um século para cá.
Então é lamentável ver-se estiolarem nas fronteiras de sua pequena região poetas federais (como queria Drummond) como Florisvaldo Mattos, na Bahia, Mário Quintana (falecido), no Rio Grande do Sul, e Manuel de Barros – este capaz de desejar a um jornalista: "obrigado por tentar tirar algo do nada". Obviamente, temos aí uma boutade do poeta ou a tradução de uma realidade interior?
Provincianismos à parte, obrigatório imporem-se os condões dos artistas capazes de abrir os olhos de uma geração para acontecimentos ocorridos à sua volta – exemplo de Roberto Pontes –, captados pela antena mágica de quem deixa "cair do queixo a interrogação/ tatuada nos rostos de abismo", porque "a palavra é/ pra desencantar", convencido o poeta, mais que ninguém, que a "noite eterna cairá/ e do seu âmago fluirá a paz".
Autor embrenhado nas sendas da criação desde os idos de 1964 – caminhando e fazendo o seu caminho, porque, como disse outro poeta, "o caminho não existe, o caminho se faz", Roberto Pontes incendeia o verbo encarnado há mais de três décadas, sem jamais esmorecer e sem jamais produzir literatura chapa branca ou poesia de ocasião para agradar à burguesia sedenta de satisfação estética perfeitamente tranqüila e dotada do necessaário soporífero.
O poeta se dispõe a assumir sua tarefa como um compromisso e jamais como um deleite para entorpecer as consciências, justificando sua atitude muitas vezes como alguma coisa "tatuada nos rostos de abismo", sem olvidar jamais a promessa de que "um dia/ quando as noites forem mansas/ e os dias tristes/ todos entenderão o sentido destes versos".
E neste diapasão, colocando sua dicção no alvorecer da antemanhã, ele projeta o futuro: "quando as noites forem novas/ e os dias perpétuo carnaval", tudo poderia se tornar uma "branca voz/ de alvorada". Mas a seguir o criador se depara com situação embaraçosa – no exato instante em que resolve tributar ao velho Ho Chi Minh a homenagem da certeza de que "o pássaro amarelo/ vai cumprindo seu destino", sem esquecer de se voltar para um antigo colega de colégio, Frei Tito, a quem lembra candidamente, que "os ausentes necessitam sempre/ bilhetes", arrematando que "dos ausentes fica sempre um sorriso".
Roberto Pontes não é um poeta ingênuo, imaturo e voltado ao bestialógico do primarismo estéril – professor universitário (Literatura) e bacharel em Direito, percorre a margem do rio há pelo menos uma geração e aprendeu, no terrível período turbulento responsável pela destruição de de milhares de brasileiros, não ser possível erguer as mãos para uma falsa democracia lastreada em bases inócuas e absolutamente hostis.
Mas, embora esse Verbo encarnado condense toda a biografia poética do autor (numa espécie de obra completa), não colhe o leitor nestas páginas o azedume de alguém ressentido, amargurado ou entregue a situações de desabafo catártico – antes, pelo contrário: aqui surgem, como brotando do solo fértil, bafejados pela natureza, o poema dos meninos azuis ("as flores do esqueleto/ são minério e cor"), a contemplação perfeita do mistério da natureza (‘olha como se amam as borboletas/ que fiam corpos no mistério") e a exata compreensão de que "um arco-íris se planta/ onde mora a consciência"– adiantando o artista para os pósteros que "há retalhos de memória semelhantes a certeza".
Roberto Pontes não sabe "para onde vai a história/ em seu velório carpido", dispõe de "migalhas de tempo no bolso", mas não quer a direção em que nós vamos". O tempo se dilui lentamente e murcha os nossos olhos, adverte o poeta, para logo descobrir que o "búzio dorme na madeira enxuta/ e dentro dele, represado, o mar".
Cumpre reiterar não estarmos diante de um autor da obviedade – não podemos aqui esperar os lances dispersos de uma musicalidade tropeçante. Roberto Pontes canta o seu dia e a sua hora, contemplando a janela do tempo, jamais estereotipado em ritmos e dissonâncias obsoletas, viajando na captação do instante por vir. Um poeta do seu tempo e da sua colheita, interessado na construção de algo mais sólido que a pura dispnéia do prazer, da experimentação lúdica e do império da satisfação. Ele adverte para a perenidade da espécie na Terra e levanta sua voz: "As uvas pétreas/ jamais se douram/ junto ao símbolo marinho".

ALBERTO DA SILVA é jornalista (Tribuna de Notícias-RJ; jornal
RioArte; Revista Poesia Sempre) e escritor, autor de Cinema e
humanismo (ensaio) e A primavera mora na rua (contos).

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Silvino Pirauá de Lima

Silvino Pirauá de Lima

E Tudo Vem a Ser Nada

Tanta riqueza inserida
Por tanta gente orgulhosa,
Se julgando poderosa
No curto espaço da vida;
Oh! que idéia perdida.
Oh! que mente tão errada,
Dessa gente que enlevada
Nessa fingida grandeza
Junta montões de riqueza,
E tudo vem a ser nada.

Vemos um rico pomposo
Afetando gravidade,
Ali só reina bondade,
Nesse mortal orgulhoso,
Quer se fazer caprichoso,
Vive de venta inchada,
Sua cara empantufada,
Só apresenta denodos
Tem esses inchaços todos
E tudo vem a ser nada.

Trabalha o homem, peleja
Mesmo a ponto de morrer,
É somente para ter,
Que ele se esmoreja,
As vezes chove e troveja
E ele nessa enredada
À lama, ao sol, ao chuveiro,
Ajuntam muito dinheiro,
E tudo vem a ser nada.

Temos palácios pomposos
Dos grandes imperadores,
Ministros e senadores,
E mais vultos magestosos;
Temos papas virtuosos
De uma vida regrada,
Temos também a espada
De soberbos generais,
Comandantes, Marechais,
E tudo vem a ser nada.

Honra, grandezas, brazões;
Entusiasmos, bondades;
São completas vaidades
São perfeitas ilusões,
Argumentos, discursões;
Algazarra, palavrada,
Sinagoga, caçoada,
Murmúrios, tricas, censura,
Muito tem a criatura,
E tudo vem a ser nada.

Vai tudo numa carreira
Envelhece a mocidade,
A avareza e a vaidade
É quer queira ou não queira;
Tudo se torna em poeira,
Cá nesta vida cançada
É uma lei promulgada
Que vem pela mão Divina,
O dever assim destina
E tudo vem a ser nada.

Formosuras e ilusões,
Passa-tempos e prazeres;
Mandatos, altos poderes;
De distintos figurões,
Cantilenas de salões;
E festa engalanada,
Virgem-donzela enfeitada
No gozo de namorar,
Mancebos a flautear,
E tudo vem a ser nada.

Lascivas, depravações
Na imoral petulância,
São enlevos da infância,
São infames Corrupções;
São fingidas seduções
Que faz a dama enfeitada
Influi-se a rapaziada
Velhos também de permeio
E vivem nesse paleio,
E tudo vem a ser nada.

Bailes, teatros, festins,
Comadre, drama, assembléa,
Club, liceu, epopéa;
Todos aguardam seus fins,
Flores, relvas e jardins,
Festas com grande zuada,
Outeiro e Campinada
Frondam, compam e florescem,
Brilham, luzem, resplandecem
E tudo vem a ser nada.

O homem se julga honrado,
Repleto de garantia,
De brazões e fidalguia
É ele considerado,
Mas, quanto está enganado
Nesta ilusória pousada
Cá nesta breve morada.
Não vemos nada imortal
Temos um ponto final;
E tudo vem a ser nada.

Tudo quanto se divisa
Neste cruento torrão,
As árvores, a criação,
Tudo em fim se finaliza,
Até mesmo a própria brisa,
Soprando a terra escarpada,
Com força descompassada
Se transformando em tufão,
Deita pau rola no chão,
E tudo vem a ser nada.

Infindo só temos Deus,
Senhor de toda a grandeza,
Dos céus e da natureza,
De todos os mundos seus.
Do Brasil, dos Europeus,
Da terra toda englobada
Até mesmo da manada
Que vemos no arrebol:
Nuvem, lua, estrela e sol,
Tudo mais vem a ser nada.

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