Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Paulo Henriques Britto
X
Dentro da noite por fim construída
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
767
Paulo Henriques Britto
dez sonetos sentimentais - X
Dentro da noite que construo aos poucos
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
812
Horácio Costa
História Natural
Detrás do taxidermista, há a palha,
detrás do rinoceronte, a savana,
detrás desta escritura só a noite,
a noite que galopa até o fronte.
Na asa da mariposa assoma a lua,
na cabeça do alfinete brilha o sol,
nestas linhas reverbera um sol negro,
o astro que ora sobe no horizonte.
O animal dissecado da sintaxe
provê o verbo, o bastidor e a legenda
duma coleção mais morta que os mortos.
No gabinete de história natural
o visitante-leitor detém-se face
a mamíferos e insetos reluzentes.
detrás do rinoceronte, a savana,
detrás desta escritura só a noite,
a noite que galopa até o fronte.
Na asa da mariposa assoma a lua,
na cabeça do alfinete brilha o sol,
nestas linhas reverbera um sol negro,
o astro que ora sobe no horizonte.
O animal dissecado da sintaxe
provê o verbo, o bastidor e a legenda
duma coleção mais morta que os mortos.
No gabinete de história natural
o visitante-leitor detém-se face
a mamíferos e insetos reluzentes.
844
Horácio Costa
História Natural
Detrás do taxidermista, há a palha,
detrás do rinoceronte, a savana,
detrás desta escritura só a noite,
a noite que galopa até o fronte.
Na asa da mariposa assoma a lua,
na cabeça do alfinete brilha o sol,
nestas linhas reverbera um sol negro,
o astro que ora sobe no horizonte.
O animal dissecado da sintaxe
provê o verbo, o bastidor e a legenda
duma coleção mais morta que os mortos.
No gabinete de história natural
o visitante-leitor detém-se face
a mamíferos e insetos reluzentes.
detrás do rinoceronte, a savana,
detrás desta escritura só a noite,
a noite que galopa até o fronte.
Na asa da mariposa assoma a lua,
na cabeça do alfinete brilha o sol,
nestas linhas reverbera um sol negro,
o astro que ora sobe no horizonte.
O animal dissecado da sintaxe
provê o verbo, o bastidor e a legenda
duma coleção mais morta que os mortos.
No gabinete de história natural
o visitante-leitor detém-se face
a mamíferos e insetos reluzentes.
844
Paulo Henriques Britto
nenhum mistério - X
Dentro da noite por fim construída
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
751
Horácio Costa
Paisagem II
Sentado nesta bergère de courvin
sinto o poema chegar com ainda
menos urgência do que parece
condensarem-se as nuvens sobre a paisagem
que se descortina deste hospital
debruçado sobre a mais insípida
autopista ou avenida de fundo de vale
- que cada cidade tenha as suas
características é mais do que natural
e Dubai e Oslo só se encontram
por terem topônimos bissílabos-
e tais artérias são o próprio desta
na qual por bem nasci e na qual
se me for dado imprimir sobre
o meu devir bizarro a vontade
minha, hei de morrer e talvez
em algum espaço medical como este
e sempre na observação de plúmbeas
vastas nuvens, que obrigam recordar
a proximidade da serra e sua
exsudação e abaixo o sujo mar
per elas responsável, pai
esquecidiço e insolidário quem
nos filia a cada estação e quem
nos manda carícias sob forma de
sazonais monções.
Mudo
de posição como em Apipucos
Freyre o faria em outra bergère
mas não diviso sequer mentalmente
nenhum engenho de nome Noruega
na noite que se acende e sim
apenas o estertor de uma cidade
nem libertina nem libertária
nem escarrapachada em indolentes redes
mas que no supino anonimato garante
o quociente de cada habitante seu
à liberdade de escolha, dentro
dos limites xadrezes entre prédios
e vales e parcos parques e não mais.
Que
não se confunda tal simples solaz
ao exercício contumaz da fantasia:
aqui não cortam os ares de Batman
a capa nem Quasímodo horrendo
se esconde em nossa Sé e nem Rachel
Watson ou Esmeralda belas apeiam-se
dos incessantes vagões na Liberdade.
Há dias sinto emergir este poema
e serão tais nuvens baixas quem
o traz e de onde aportará que não
da sensação experimentada dia a dia
do perviver este espaço dia com dia
no fluxo de um rio ao inverso?
A hibridez do texto corresponde-lhe
e a mim, e ao desejo de plasmar-me
nele e nela e repetir e repetir
que a cidade que tudo isto origina
será o meu espelho colinado
e meus nervos e meu sangue
estas luzes que diviso mental e real-
mente, agora que a sobrevôo não
em rés búdico, que bem o quisera,
mas para começar a terminar
este registro que inda tarda.
As raízes do fícus, gigantescas,
entre as pistas da auto-bahn
esperam quem nelas se aninhe
e ao pé da copa frondosíssima,
como Buda, se ilumine; as encostas
lá embaixo, sulcadas entre bairros
de espigões, talvez possam sugerir
semi-aconcáguas aos do montanhismo
entusiastas, que por aqui transitem
e aos médicos, o vislumbre da
distante cúpula da Catedral, cujos
bronzes estão cobertos por cinábrio,
o bimbalar mouco de sinos em toque
fúnebre, que lhes imprima o significado
da vida de cada um de seus pacientes:
velhos imigrantes portugueses, mães
nordestinas deixadas por seus machos,
nisseis que se expressam por sorrisos
e o significado da minha vida em
particular, quase um gondoleiro âgé
neste Rialto em pane, vestido
com esta improvável camiseta
listrada de azul e branco e por hora
sentado a escrever este poema
nesta bergère de courvin
impessoalíssima e com os seus olhos
rasos d’água, como deve ser, enquanto
reflito sobre São Paulo e sua gente
neste pavilhão de funcionalidade
hospitalar, edificado num barranco
íngreme não: cânion sobre uma artéria
aberta no fundo de um vale coberto
por nuvens nuvens nuvens.
sinto o poema chegar com ainda
menos urgência do que parece
condensarem-se as nuvens sobre a paisagem
que se descortina deste hospital
debruçado sobre a mais insípida
autopista ou avenida de fundo de vale
- que cada cidade tenha as suas
características é mais do que natural
e Dubai e Oslo só se encontram
por terem topônimos bissílabos-
e tais artérias são o próprio desta
na qual por bem nasci e na qual
se me for dado imprimir sobre
o meu devir bizarro a vontade
minha, hei de morrer e talvez
em algum espaço medical como este
e sempre na observação de plúmbeas
vastas nuvens, que obrigam recordar
a proximidade da serra e sua
exsudação e abaixo o sujo mar
per elas responsável, pai
esquecidiço e insolidário quem
nos filia a cada estação e quem
nos manda carícias sob forma de
sazonais monções.
Mudo
de posição como em Apipucos
Freyre o faria em outra bergère
mas não diviso sequer mentalmente
nenhum engenho de nome Noruega
na noite que se acende e sim
apenas o estertor de uma cidade
nem libertina nem libertária
nem escarrapachada em indolentes redes
mas que no supino anonimato garante
o quociente de cada habitante seu
à liberdade de escolha, dentro
dos limites xadrezes entre prédios
e vales e parcos parques e não mais.
Que
não se confunda tal simples solaz
ao exercício contumaz da fantasia:
aqui não cortam os ares de Batman
a capa nem Quasímodo horrendo
se esconde em nossa Sé e nem Rachel
Watson ou Esmeralda belas apeiam-se
dos incessantes vagões na Liberdade.
Há dias sinto emergir este poema
e serão tais nuvens baixas quem
o traz e de onde aportará que não
da sensação experimentada dia a dia
do perviver este espaço dia com dia
no fluxo de um rio ao inverso?
A hibridez do texto corresponde-lhe
e a mim, e ao desejo de plasmar-me
nele e nela e repetir e repetir
que a cidade que tudo isto origina
será o meu espelho colinado
e meus nervos e meu sangue
estas luzes que diviso mental e real-
mente, agora que a sobrevôo não
em rés búdico, que bem o quisera,
mas para começar a terminar
este registro que inda tarda.
As raízes do fícus, gigantescas,
entre as pistas da auto-bahn
esperam quem nelas se aninhe
e ao pé da copa frondosíssima,
como Buda, se ilumine; as encostas
lá embaixo, sulcadas entre bairros
de espigões, talvez possam sugerir
semi-aconcáguas aos do montanhismo
entusiastas, que por aqui transitem
e aos médicos, o vislumbre da
distante cúpula da Catedral, cujos
bronzes estão cobertos por cinábrio,
o bimbalar mouco de sinos em toque
fúnebre, que lhes imprima o significado
da vida de cada um de seus pacientes:
velhos imigrantes portugueses, mães
nordestinas deixadas por seus machos,
nisseis que se expressam por sorrisos
e o significado da minha vida em
particular, quase um gondoleiro âgé
neste Rialto em pane, vestido
com esta improvável camiseta
listrada de azul e branco e por hora
sentado a escrever este poema
nesta bergère de courvin
impessoalíssima e com os seus olhos
rasos d’água, como deve ser, enquanto
reflito sobre São Paulo e sua gente
neste pavilhão de funcionalidade
hospitalar, edificado num barranco
íngreme não: cânion sobre uma artéria
aberta no fundo de um vale coberto
por nuvens nuvens nuvens.
671
Domingos Pellegrini
Milagres
O milagre da uva
virar vinho
e o vinho virar
vinagre
O milagre da flor
virar semente
e a semente virar
uma baita árvore
O milagre das pedras
sua lenta vida
rocha virando areia
E o milagre dos astros
o universo tecido
de órbitas e estrelas.
virar vinho
e o vinho virar
vinagre
O milagre da flor
virar semente
e a semente virar
uma baita árvore
O milagre das pedras
sua lenta vida
rocha virando areia
E o milagre dos astros
o universo tecido
de órbitas e estrelas.
795
Maria Lúcia Dal Farra
A música
Flexível como a corda que a tange
ela vibra. O leão aprofundado no instrumento
espera o momento certo para saltar –
que é quando se casa o sopro
com as cordas.
Tudo lhe á de lembrar a floresta
o som do vento
o riacho quebrando-se
a flecha que o espera para segui-lo
sem, contudo, nunca o alcançar.
A música é para ouvir e lembrar
(sobretudo)
o jamais vivido,
o que não teve memória.
Mesmo o monocorde das cores
não impede a passagem do que silva e se alça
– como por encanto.
Daí seu fascínio,
a mágica a perscrutar
(nas nossas fibras)
a ressonância que a funda
– apenas a ela.
ela vibra. O leão aprofundado no instrumento
espera o momento certo para saltar –
que é quando se casa o sopro
com as cordas.
Tudo lhe á de lembrar a floresta
o som do vento
o riacho quebrando-se
a flecha que o espera para segui-lo
sem, contudo, nunca o alcançar.
A música é para ouvir e lembrar
(sobretudo)
o jamais vivido,
o que não teve memória.
Mesmo o monocorde das cores
não impede a passagem do que silva e se alça
– como por encanto.
Daí seu fascínio,
a mágica a perscrutar
(nas nossas fibras)
a ressonância que a funda
– apenas a ela.
692
Alexandre Guarnieri
calypso
ígneas enguias bicéfalas
se entreolham, tresloucadas
com guinchos finíssimos, unís
sonas, ensaiam o silvo coletivo
e quase enguiçam no líquido re
buliço, agarradas em algazarra
parecem aparvalhadas na água
como certas larvas aneladas
recém-saídas dos ovos;
ascendem olhos de fósforo,
ardendo aos milhares, em pares
contra o breu inóspito
faróis cujas luzes
lançam fachos quase sólidos
para o horizonte subaquático;
orquídeas submergidas
eletrificam a língua sibilina
das enguias que se esquivam
das lanternas ou dos esguichos
de alguns exímios escafandristas
e fogem
…………..para o raio que as partam
nota:
mas pouquíssimo antes disso
tiveram suas almas
registradas em vídeo,
para Cousteau, por seu
melhor cinegrafista
em seu milésimo mergulho
de scuba ( o Aqualung ),
sob uma falésia da Catalunha
se entreolham, tresloucadas
com guinchos finíssimos, unís
sonas, ensaiam o silvo coletivo
e quase enguiçam no líquido re
buliço, agarradas em algazarra
parecem aparvalhadas na água
como certas larvas aneladas
recém-saídas dos ovos;
ascendem olhos de fósforo,
ardendo aos milhares, em pares
contra o breu inóspito
faróis cujas luzes
lançam fachos quase sólidos
para o horizonte subaquático;
orquídeas submergidas
eletrificam a língua sibilina
das enguias que se esquivam
das lanternas ou dos esguichos
de alguns exímios escafandristas
e fogem
…………..para o raio que as partam
nota:
mas pouquíssimo antes disso
tiveram suas almas
registradas em vídeo,
para Cousteau, por seu
melhor cinegrafista
em seu milésimo mergulho
de scuba ( o Aqualung ),
sob uma falésia da Catalunha
553
Alexandre Guarnieri
calypso
ígneas enguias bicéfalas
se entreolham, tresloucadas
com guinchos finíssimos, unís
sonas, ensaiam o silvo coletivo
e quase enguiçam no líquido re
buliço, agarradas em algazarra
parecem aparvalhadas na água
como certas larvas aneladas
recém-saídas dos ovos;
ascendem olhos de fósforo,
ardendo aos milhares, em pares
contra o breu inóspito
faróis cujas luzes
lançam fachos quase sólidos
para o horizonte subaquático;
orquídeas submergidas
eletrificam a língua sibilina
das enguias que se esquivam
das lanternas ou dos esguichos
de alguns exímios escafandristas
e fogem
…………..para o raio que as partam
nota:
mas pouquíssimo antes disso
tiveram suas almas
registradas em vídeo,
para Cousteau, por seu
melhor cinegrafista
em seu milésimo mergulho
de scuba ( o Aqualung ),
sob uma falésia da Catalunha
se entreolham, tresloucadas
com guinchos finíssimos, unís
sonas, ensaiam o silvo coletivo
e quase enguiçam no líquido re
buliço, agarradas em algazarra
parecem aparvalhadas na água
como certas larvas aneladas
recém-saídas dos ovos;
ascendem olhos de fósforo,
ardendo aos milhares, em pares
contra o breu inóspito
faróis cujas luzes
lançam fachos quase sólidos
para o horizonte subaquático;
orquídeas submergidas
eletrificam a língua sibilina
das enguias que se esquivam
das lanternas ou dos esguichos
de alguns exímios escafandristas
e fogem
…………..para o raio que as partam
nota:
mas pouquíssimo antes disso
tiveram suas almas
registradas em vídeo,
para Cousteau, por seu
melhor cinegrafista
em seu milésimo mergulho
de scuba ( o Aqualung ),
sob uma falésia da Catalunha
553
Alexandre Guarnieri
ilha na névoa
cercada pela tempestade que ameaça
sua secreta falésia de pétalas
toda e qualquer ilha, o mesmo símbolo
em todo ímpeto que habita, o mesmo nível
em todo mar que ataca a pedra:
a mesma meta
correnteza eterna
se há algo que a ilha renega e é eterno
é esta névoa
que atraiçoa seu único insulano,
um passo em falso:
entregue à queda
sua secreta falésia de pétalas
toda e qualquer ilha, o mesmo símbolo
em todo ímpeto que habita, o mesmo nível
em todo mar que ataca a pedra:
a mesma meta
correnteza eterna
se há algo que a ilha renega e é eterno
é esta névoa
que atraiçoa seu único insulano,
um passo em falso:
entregue à queda
728
Mailson Furtado Viana
a nuvem
a nuvem
não tem nome
é e é
e pronto
não mais
não vence
_____se enlata
_____ou adula vigilância sanitária
é
antes de ser
foi
antes de nunca
ser
: elefante
guarda-chuva
uma guerra dos mundos
(sob o mar de Copacabana)
se destila nela mesma
e nunca batizou
_______vermes
_______larvas
nem mesmo a ferida de Ícaro
que morreu nele mesmo
como nuvem
que sempre foi a mesma
e nunca também
e nunca mais
será
não num avião
que as rebaixam
a terra
a terra de ninguém
a meros pedaços
__________cortados
__________guardados
numa janela
numa foto de www
como terras são guardadas
em gavetas de cartório
e cabem todas
as nuvens também
que não tem nome
__________três-por-quatro
e
já não são
não tem nome
é e é
e pronto
não mais
não vence
_____se enlata
_____ou adula vigilância sanitária
é
antes de ser
foi
antes de nunca
ser
: elefante
guarda-chuva
uma guerra dos mundos
(sob o mar de Copacabana)
se destila nela mesma
e nunca batizou
_______vermes
_______larvas
nem mesmo a ferida de Ícaro
que morreu nele mesmo
como nuvem
que sempre foi a mesma
e nunca também
e nunca mais
será
não num avião
que as rebaixam
a terra
a terra de ninguém
a meros pedaços
__________cortados
__________guardados
numa janela
numa foto de www
como terras são guardadas
em gavetas de cartório
e cabem todas
as nuvens também
que não tem nome
__________três-por-quatro
e
já não são
792
Alexandre Guarnieri
Mágoa no sal
enquanto o mar reclama, no amor
em que pacificamente recolhe
sua parcela mais calma e ampla
à face de espelho tão plácido e plano,
posseidon calado trama ( da sub-
marina treva ) suas táticas de guerra,
( tem o tridente como arma secreta,
tripartida seta ) contra todos os
que habitam a superfície da Terra;
seu único estratagema é fazer
com que todos os descendentes
dos símios primeiro derramem
todo sal marinho circulando
em seus organismos vis, em seus
próprios corações e almas, toda
e qualquer lágrima revele enfim
a presença latente de sua própria
saliva grossa e espumosa, a baba
escorrendo pela barba — o gosto
do sangue também é salgado e
metálico —, como ondas de pavor
e desencanto, ameaçando pouco
a pouco o ancoradouro, outrora
tão seguro, de nosso júbilo e rego-
zijo, todo arroubo mais profundo
em que pacificamente recolhe
sua parcela mais calma e ampla
à face de espelho tão plácido e plano,
posseidon calado trama ( da sub-
marina treva ) suas táticas de guerra,
( tem o tridente como arma secreta,
tripartida seta ) contra todos os
que habitam a superfície da Terra;
seu único estratagema é fazer
com que todos os descendentes
dos símios primeiro derramem
todo sal marinho circulando
em seus organismos vis, em seus
próprios corações e almas, toda
e qualquer lágrima revele enfim
a presença latente de sua própria
saliva grossa e espumosa, a baba
escorrendo pela barba — o gosto
do sangue também é salgado e
metálico —, como ondas de pavor
e desencanto, ameaçando pouco
a pouco o ancoradouro, outrora
tão seguro, de nosso júbilo e rego-
zijo, todo arroubo mais profundo
655
Maria Lúcia Dal Farra
Sylvia Plath
Com o planeta da minha mente
vejo negras as árvores. Frias e cinzas
erguidas num sonho mau.
Há vapor do dia em vias de nascer
que (em barreira transparente)
me separa de pra onde quero ir.
Branca de cartilagem (esparadrapo
a cobrir-lhe a ferida)
a lua ainda goza seu pleno direito –
vem chupando o mar, a última de suas tarefas noturnas.
Fundo de panela, alumínio machucado ao alto.
Melhor: tampa redonda de forno a gás.
No quintal as roupas do varal se encontram
em desconforto. Repõem
suas manchas, o sangue menstrual.
Expõem o uso, o amassado do afeto
o invisível gesto que ali se busca
enxugar.
Há manejos de armas brancas
por baixo da planura das palavras.
vejo negras as árvores. Frias e cinzas
erguidas num sonho mau.
Há vapor do dia em vias de nascer
que (em barreira transparente)
me separa de pra onde quero ir.
Branca de cartilagem (esparadrapo
a cobrir-lhe a ferida)
a lua ainda goza seu pleno direito –
vem chupando o mar, a última de suas tarefas noturnas.
Fundo de panela, alumínio machucado ao alto.
Melhor: tampa redonda de forno a gás.
No quintal as roupas do varal se encontram
em desconforto. Repõem
suas manchas, o sangue menstrual.
Expõem o uso, o amassado do afeto
o invisível gesto que ali se busca
enxugar.
Há manejos de armas brancas
por baixo da planura das palavras.
740
Maria Lúcia Dal Farra
Sylvia Plath
Com o planeta da minha mente
vejo negras as árvores. Frias e cinzas
erguidas num sonho mau.
Há vapor do dia em vias de nascer
que (em barreira transparente)
me separa de pra onde quero ir.
Branca de cartilagem (esparadrapo
a cobrir-lhe a ferida)
a lua ainda goza seu pleno direito –
vem chupando o mar, a última de suas tarefas noturnas.
Fundo de panela, alumínio machucado ao alto.
Melhor: tampa redonda de forno a gás.
No quintal as roupas do varal se encontram
em desconforto. Repõem
suas manchas, o sangue menstrual.
Expõem o uso, o amassado do afeto
o invisível gesto que ali se busca
enxugar.
Há manejos de armas brancas
por baixo da planura das palavras.
vejo negras as árvores. Frias e cinzas
erguidas num sonho mau.
Há vapor do dia em vias de nascer
que (em barreira transparente)
me separa de pra onde quero ir.
Branca de cartilagem (esparadrapo
a cobrir-lhe a ferida)
a lua ainda goza seu pleno direito –
vem chupando o mar, a última de suas tarefas noturnas.
Fundo de panela, alumínio machucado ao alto.
Melhor: tampa redonda de forno a gás.
No quintal as roupas do varal se encontram
em desconforto. Repõem
suas manchas, o sangue menstrual.
Expõem o uso, o amassado do afeto
o invisível gesto que ali se busca
enxugar.
Há manejos de armas brancas
por baixo da planura das palavras.
740
Simone Brantes
Errou o homem
Errou o homem cujo calo lhe gritou
ardendo dentro do sapato
amanhã choverá. E também o cara
(ou aquilo dentro dele) que previu:
cem mil diminutos relâmpagos
se desatarão do corpo da garota
na minha direção
Não que não tenha relampejado
mas porque um só relâmpago
(fora daquele céu) foi necessário
para abatê-lo. E agora sabe
o quanto (ainda mais que nós
que sabemos do homem com seu calo
ardendo ainda dentro do sapato)
o nosso corpo é essa antiga máquina
falaciosa de premonições
ardendo dentro do sapato
amanhã choverá. E também o cara
(ou aquilo dentro dele) que previu:
cem mil diminutos relâmpagos
se desatarão do corpo da garota
na minha direção
Não que não tenha relampejado
mas porque um só relâmpago
(fora daquele céu) foi necessário
para abatê-lo. E agora sabe
o quanto (ainda mais que nós
que sabemos do homem com seu calo
ardendo ainda dentro do sapato)
o nosso corpo é essa antiga máquina
falaciosa de premonições
750
Maria Lúcia Dal Farra
La dame à la Licorne
A Vanessa Droz
A dama se faz acompanhar do unicórnio
em todas as telas
– ele passeia pelos sentidos dela.
Faz gosto vê-lo assim,
doméstico,
mimoso animal de estimação
indeciso entre cão e gato.
Dela,
a vista se espraia
pelo corno branco de lua
enquanto tateia na pluma que o recobre
a ave de cascos suspensa
sobre o espírito da tapeçaria.
Dele,
o focinho inspira flores ao derredor,
ramagens, maçã, perfumes:
o meigo bichinho ensina à dama o regime do sol.
Sua voz indivisa é guia
e a dama apanha as cifras:
são raízes, fósseis que se desprendem das pedras,
ocultas nascentes reclamando o ouvido.
Ele passa-lhe tudo o que sabe.
Mas é o amor dela que lhe dá sentido.
A dama se faz acompanhar do unicórnio
em todas as telas
– ele passeia pelos sentidos dela.
Faz gosto vê-lo assim,
doméstico,
mimoso animal de estimação
indeciso entre cão e gato.
Dela,
a vista se espraia
pelo corno branco de lua
enquanto tateia na pluma que o recobre
a ave de cascos suspensa
sobre o espírito da tapeçaria.
Dele,
o focinho inspira flores ao derredor,
ramagens, maçã, perfumes:
o meigo bichinho ensina à dama o regime do sol.
Sua voz indivisa é guia
e a dama apanha as cifras:
são raízes, fósseis que se desprendem das pedras,
ocultas nascentes reclamando o ouvido.
Ele passa-lhe tudo o que sabe.
Mas é o amor dela que lhe dá sentido.
714
Maria Lúcia Dal Farra
Loucura
A órbita da loucura é imensa.
Aviso às incautas criaturas
tanto quanto
aos navegantes sem rumo.
Nela se movem constelações superiores
ilimitadas águas
e as mãos com que Deus nos acena
(segundo a segundo)
com a sua graça.
Consolos prontos a redimir o mundo
palavras ausentes de escrita
ali se asilam
e mais
o risco do iminente abissal.
É tão amplo o rosto da loucura
que podem caber nele
quaisquer
das nossas muitas faces
– inclusive esta com que agora me empenho
em apreendê-lo.
Aviso às incautas criaturas
tanto quanto
aos navegantes sem rumo.
Nela se movem constelações superiores
ilimitadas águas
e as mãos com que Deus nos acena
(segundo a segundo)
com a sua graça.
Consolos prontos a redimir o mundo
palavras ausentes de escrita
ali se asilam
e mais
o risco do iminente abissal.
É tão amplo o rosto da loucura
que podem caber nele
quaisquer
das nossas muitas faces
– inclusive esta com que agora me empenho
em apreendê-lo.
717
Alexandre Guarnieri
Penhasco
assoalho visitado às bordas do fiorde
suas escarpas de basalto | o espaço
entre o ar e o mar embaixo que quase
julgaríamos raso | hirtas suas afiadas
bordas | símiles às de uma faca
árabe ( arqueada ( cimitarra
| o que as navalhas da erosão
erigem é este grupo de rochedos
pouco a pouco sendo degolado
assim o penhasco largo | vasto:
ponto turístico para narcisos
e suicidas | amplo plenário de
pedra d’onde se observa o sol
nascer | ou se pôr | platô sólido
observatório possível | existe
essa muralha terrena | pesaroso
mármore erguido| lugar de uma
solidão extrema | avizinhando o
mar triste a esse chão de limites
suas escarpas de basalto | o espaço
entre o ar e o mar embaixo que quase
julgaríamos raso | hirtas suas afiadas
bordas | símiles às de uma faca
árabe ( arqueada ( cimitarra
| o que as navalhas da erosão
erigem é este grupo de rochedos
pouco a pouco sendo degolado
assim o penhasco largo | vasto:
ponto turístico para narcisos
e suicidas | amplo plenário de
pedra d’onde se observa o sol
nascer | ou se pôr | platô sólido
observatório possível | existe
essa muralha terrena | pesaroso
mármore erguido| lugar de uma
solidão extrema | avizinhando o
mar triste a esse chão de limites
631
Alexandre Guarnieri
Penhasco
assoalho visitado às bordas do fiorde
suas escarpas de basalto | o espaço
entre o ar e o mar embaixo que quase
julgaríamos raso | hirtas suas afiadas
bordas | símiles às de uma faca
árabe ( arqueada ( cimitarra
| o que as navalhas da erosão
erigem é este grupo de rochedos
pouco a pouco sendo degolado
assim o penhasco largo | vasto:
ponto turístico para narcisos
e suicidas | amplo plenário de
pedra d’onde se observa o sol
nascer | ou se pôr | platô sólido
observatório possível | existe
essa muralha terrena | pesaroso
mármore erguido| lugar de uma
solidão extrema | avizinhando o
mar triste a esse chão de limites
suas escarpas de basalto | o espaço
entre o ar e o mar embaixo que quase
julgaríamos raso | hirtas suas afiadas
bordas | símiles às de uma faca
árabe ( arqueada ( cimitarra
| o que as navalhas da erosão
erigem é este grupo de rochedos
pouco a pouco sendo degolado
assim o penhasco largo | vasto:
ponto turístico para narcisos
e suicidas | amplo plenário de
pedra d’onde se observa o sol
nascer | ou se pôr | platô sólido
observatório possível | existe
essa muralha terrena | pesaroso
mármore erguido| lugar de uma
solidão extrema | avizinhando o
mar triste a esse chão de limites
631
Alexandre Guarnieri
o barco na garrafa
que vento, tormenta, qual
embargo causado pelo caos
atravessou o aço deste barco?
qual a história de seu rapto,
de sua carcaça aprisionada
ao arrecife, pelo casco?
terá afundado em álcool
— em rum, a nau afogada -,
no premente e estrepitoso
jorro da única talagada?
terá sido enfeitiçado
o capitão embriagado
pelo canto da sereia
ou pela água envenenada?
pois saibam, sujos marujos,
que até assim se naufraga,
e onde esperaríamos o gênio
realizando desejos, resta a
miniatura delicada da fragata
prensada através do gargalo,
presa ao interior da garrafa;
haverá outra escolha ( brinquedo
camuflando o medo – mero modelo )
senão estilhaçá-la ao peso
do arremesso ( pequena parcela
do mar ou a própria alma
sequestrada ) a singela peça
do artesanato naval, minuciosamente
trabalhada ou frágil granada
lançada contra a parede da sala?
embargo causado pelo caos
atravessou o aço deste barco?
qual a história de seu rapto,
de sua carcaça aprisionada
ao arrecife, pelo casco?
terá afundado em álcool
— em rum, a nau afogada -,
no premente e estrepitoso
jorro da única talagada?
terá sido enfeitiçado
o capitão embriagado
pelo canto da sereia
ou pela água envenenada?
pois saibam, sujos marujos,
que até assim se naufraga,
e onde esperaríamos o gênio
realizando desejos, resta a
miniatura delicada da fragata
prensada através do gargalo,
presa ao interior da garrafa;
haverá outra escolha ( brinquedo
camuflando o medo – mero modelo )
senão estilhaçá-la ao peso
do arremesso ( pequena parcela
do mar ou a própria alma
sequestrada ) a singela peça
do artesanato naval, minuciosamente
trabalhada ou frágil granada
lançada contra a parede da sala?
505
Carlos Soulié do Amaral
Soneto Vaivém
Para Fernão Lara Mesquita
Das cercas, das paredes, da porta, do teto
e do chão frio, me desloco e desta hora
igual e coletiva escapo e vou direto
aonde a onda anda, pelo mar afora.
A conta, o livro, a regra, a rua, o lar, o veto,
o sim, o não, o cheque, o pão, o juro, a mora,
tudo é nada. Sem devoção e sem afeto,
eu vou por onde a onda anda, mar afora.
Além do céu e além do mais, pelo mar bravo
e alegre vou, colhendo estrelas com a mão,
entre perfumes de pitanga e sons de cravo
até que o telefone toca e tudo então
é novamente tudo e sou de novo escravo
do chão, da regra, da universal servidão.
Das cercas, das paredes, da porta, do teto
e do chão frio, me desloco e desta hora
igual e coletiva escapo e vou direto
aonde a onda anda, pelo mar afora.
A conta, o livro, a regra, a rua, o lar, o veto,
o sim, o não, o cheque, o pão, o juro, a mora,
tudo é nada. Sem devoção e sem afeto,
eu vou por onde a onda anda, mar afora.
Além do céu e além do mais, pelo mar bravo
e alegre vou, colhendo estrelas com a mão,
entre perfumes de pitanga e sons de cravo
até que o telefone toca e tudo então
é novamente tudo e sou de novo escravo
do chão, da regra, da universal servidão.
716
Carlos Soulié do Amaral
Soneto Vaivém
Para Fernão Lara Mesquita
Das cercas, das paredes, da porta, do teto
e do chão frio, me desloco e desta hora
igual e coletiva escapo e vou direto
aonde a onda anda, pelo mar afora.
A conta, o livro, a regra, a rua, o lar, o veto,
o sim, o não, o cheque, o pão, o juro, a mora,
tudo é nada. Sem devoção e sem afeto,
eu vou por onde a onda anda, mar afora.
Além do céu e além do mais, pelo mar bravo
e alegre vou, colhendo estrelas com a mão,
entre perfumes de pitanga e sons de cravo
até que o telefone toca e tudo então
é novamente tudo e sou de novo escravo
do chão, da regra, da universal servidão.
Das cercas, das paredes, da porta, do teto
e do chão frio, me desloco e desta hora
igual e coletiva escapo e vou direto
aonde a onda anda, pelo mar afora.
A conta, o livro, a regra, a rua, o lar, o veto,
o sim, o não, o cheque, o pão, o juro, a mora,
tudo é nada. Sem devoção e sem afeto,
eu vou por onde a onda anda, mar afora.
Além do céu e além do mais, pelo mar bravo
e alegre vou, colhendo estrelas com a mão,
entre perfumes de pitanga e sons de cravo
até que o telefone toca e tudo então
é novamente tudo e sou de novo escravo
do chão, da regra, da universal servidão.
716
António Carlos Cortez
É o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho
Hoje sou eu quem como o rio transluz
Hoje sou eu quem sem primícias seca
Luiza Neto Jorge
é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.
pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe
é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta
dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.
perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.
ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos
aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal
dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora
de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios
sombrios abutres de marinheiros sem literatura.
não me contaram dos barcos como num poema
nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.
no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei
o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.
o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim
pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar
o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas
nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida
onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados
onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)
e era ainda o Tejo
Hoje sou eu quem sem primícias seca
Luiza Neto Jorge
é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.
pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe
é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta
dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.
perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.
ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos
aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal
dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora
de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios
sombrios abutres de marinheiros sem literatura.
não me contaram dos barcos como num poema
nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.
no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei
o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.
o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim
pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar
o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas
nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida
onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados
onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)
e era ainda o Tejo
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