Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Tite de Lemos
um último poema é uma fragata
um último poema é uma fragata
avizinhando-se do cais do porto
uma canção que nos consola e mata
alegremente o coração já morto
lembra-me gypsies, margaridas; chuvas
ressurreições. A brisa bruxa acorda
as donzelas princesas e as viúvas
senhoras dos seus mestres e seus corpos
os adeuses têm gosto de suspiros
são doces brevidades souvenirs
ursinhos de pelúcia esquecimentos.
Quando nos visitar a inconhecida
visitante estaremos, longe, ausentes
e ao mesmo tempo sempre, sempre, aqui.
.
.
.
avizinhando-se do cais do porto
uma canção que nos consola e mata
alegremente o coração já morto
lembra-me gypsies, margaridas; chuvas
ressurreições. A brisa bruxa acorda
as donzelas princesas e as viúvas
senhoras dos seus mestres e seus corpos
os adeuses têm gosto de suspiros
são doces brevidades souvenirs
ursinhos de pelúcia esquecimentos.
Quando nos visitar a inconhecida
visitante estaremos, longe, ausentes
e ao mesmo tempo sempre, sempre, aqui.
.
.
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772
Hilda Hilst
O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade (I)
Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.
in Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974)
1 233
Hilda Hilst
O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade (I)
Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.
in Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974)
1 233
Irene Lisboa
Jeito de escrever
Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno
[ luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada,
[ da ausência e solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
1 007
Helmut Heissenbüttel
Na chuva da noite de outubro
na chuva da noite de outubro de 1954 espera imóvel a fachada
.......do nuncamaisver
sobre os rostos desfolhados flutuam sequências fotográficas
.......das janelas dos trens como nuvens
não houve retorno
sinais de pontuação do sol posto
como uma lanterna infantil sumida na escuridão brilha
.......o tempo
e mesmo as histórias passíveis de narração
.......faleceram
não houve retorno
im Regen der Oktobernacht 1954 wartet regungslos die
.......Fassade des Nimmerwiedersehens
über den abblätternden Gesichtern schweben die Bilderserien
.......der Eisenbahnfenster wie Wolken
es ist nicht wiedergekommen
Satzzeichen der untergegangenen Sonne
wie eine im Dunkeln verschwundene Kinderlaterne leuchtet
.......die Zeit
und auch die Geschichten die erzählt werden können sind
.......gestorben
es ist nicht wiedergekommen
.......do nuncamaisver
sobre os rostos desfolhados flutuam sequências fotográficas
.......das janelas dos trens como nuvens
não houve retorno
sinais de pontuação do sol posto
como uma lanterna infantil sumida na escuridão brilha
.......o tempo
e mesmo as histórias passíveis de narração
.......faleceram
não houve retorno
im Regen der Oktobernacht 1954 wartet regungslos die
.......Fassade des Nimmerwiedersehens
über den abblätternden Gesichtern schweben die Bilderserien
.......der Eisenbahnfenster wie Wolken
es ist nicht wiedergekommen
Satzzeichen der untergegangenen Sonne
wie eine im Dunkeln verschwundene Kinderlaterne leuchtet
.......die Zeit
und auch die Geschichten die erzählt werden können sind
.......gestorben
es ist nicht wiedergekommen
744
Inge Müller
Lua lua nova tua segadeira
Lua lua nova tua segadeira
Ceifa-nos tempo qual relva
E nós nos erguemos no céu
Em fina areia de ampulheta.
Segue seu caminho a estrela
Nós buscamos nossa vereda
Quando ela própria se deita
Passe então por cima dela.
(N.T.: Por questões sonoras, mudei os verbos nos últimos dois versos da primeira para a terceira pessoa.)
:
Mond Neumond deine Sichel
Mäht unsre Zeit wie Gras
Wir stehn aufrecht im Himmel
Auf dünnem Stundenglas.
Der Stern geht seine Wege
Wir suchen unsern Weg
Wenn ich mich niederlege
Geh über mich hinweg.
Ceifa-nos tempo qual relva
E nós nos erguemos no céu
Em fina areia de ampulheta.
Segue seu caminho a estrela
Nós buscamos nossa vereda
Quando ela própria se deita
Passe então por cima dela.
(N.T.: Por questões sonoras, mudei os verbos nos últimos dois versos da primeira para a terceira pessoa.)
:
Mond Neumond deine Sichel
Mäht unsre Zeit wie Gras
Wir stehn aufrecht im Himmel
Auf dünnem Stundenglas.
Der Stern geht seine Wege
Wir suchen unsern Weg
Wenn ich mich niederlege
Geh über mich hinweg.
853
Inge Müller
Lua lua nova tua segadeira
Lua lua nova tua segadeira
Ceifa-nos tempo qual relva
E nós nos erguemos no céu
Em fina areia de ampulheta.
Segue seu caminho a estrela
Nós buscamos nossa vereda
Quando ela própria se deita
Passe então por cima dela.
(N.T.: Por questões sonoras, mudei os verbos nos últimos dois versos da primeira para a terceira pessoa.)
:
Mond Neumond deine Sichel
Mäht unsre Zeit wie Gras
Wir stehn aufrecht im Himmel
Auf dünnem Stundenglas.
Der Stern geht seine Wege
Wir suchen unsern Weg
Wenn ich mich niederlege
Geh über mich hinweg.
Ceifa-nos tempo qual relva
E nós nos erguemos no céu
Em fina areia de ampulheta.
Segue seu caminho a estrela
Nós buscamos nossa vereda
Quando ela própria se deita
Passe então por cima dela.
(N.T.: Por questões sonoras, mudei os verbos nos últimos dois versos da primeira para a terceira pessoa.)
:
Mond Neumond deine Sichel
Mäht unsre Zeit wie Gras
Wir stehn aufrecht im Himmel
Auf dünnem Stundenglas.
Der Stern geht seine Wege
Wir suchen unsern Weg
Wenn ich mich niederlege
Geh über mich hinweg.
853
al-Khansa
28.
Se não és capaz de controlar tua emoção, nem de
te consolares
Eis inúmeras viagens noturnas de Yalban até al-Uqda,
em lombos jovens de camelas magras
Disse eu a um companheiro assustado: presta atenção
nos cavalos
E chama por um dos grandes quando tiveres alcançado
o ponto mais alto do mirante, então observa:
Verás de imediato, logo abaixo, um cavaleiro vagando.
Enfia então os açoites nos flancos arredondados desse
puro-sangue, tal uma camurça de cor cinza;
E corre; e afunda nele as pernas até que a água brote e
transborde, como da vasilha carregada pela
mão esquerda.
369
al-Khansa
28.
Se não és capaz de controlar tua emoção, nem de
te consolares
Eis inúmeras viagens noturnas de Yalban até al-Uqda,
em lombos jovens de camelas magras
Disse eu a um companheiro assustado: presta atenção
nos cavalos
E chama por um dos grandes quando tiveres alcançado
o ponto mais alto do mirante, então observa:
Verás de imediato, logo abaixo, um cavaleiro vagando.
Enfia então os açoites nos flancos arredondados desse
puro-sangue, tal uma camurça de cor cinza;
E corre; e afunda nele as pernas até que a água brote e
transborde, como da vasilha carregada pela
mão esquerda.
369
Giacomo Leopardi
XXXVII - Ouve, Melisso
ALCETA
Ouve, Melisso: vou contar-te um sonho
Desta noite que me retorna à mente
Ao remirar a lua. Eu estava
À janela voltada para o prado,
Olhando o alto: e eis que de repente
A lua se destaca; e pareceu-me
Que quanto mais se aproximava caindo,
Mais crescesse ao olhar; até que veio
A dar um golpe em meio ao prado; e era
Grande que nem um balde, e de centelhas
Vomitava uma névoa, estrilando
Tão forte como quando um carvão vivo
Entra na água e se apaga. Desse modo
A lua, como disse, em meio ao prado
Se apagava embaçando pouco a pouco,
E os relvados queimavam ao redor.
Então mirando o céu vi que restava
Como um lampejo ou rastro, como um nicho,
O ponto abandonado; de tal sorte
Que fiquei frio por dentro; e ainda temo.
MELISSO
E bem deves temer, que coisa fácil
Foi a lua cair em teu relvado.
ALCETA
Será? Não vemos amiúde estrelas
Caindo no verão?
MELISSO
Há tantos astros,
Que pouco dano é cair um ou outro
Deles, e mil restarem. Mas sozinha
Está no céu a lua, que ninguém
Nunca avistou cair senão em sonho.
(O assombro noturno, Recanati, 1819)
:
XXXVII - "ODI, MELISSO"
ALCETA
Odi, Melisso: io vo' contarti un sogno
Di questa notte, che mi torna a mente
In riveder la luna. Io me ne stava
Alla finestra che risponde al prato,
Guardando in alto: ed ecco all'improvviso
Distaccasi la luna; e mi parea
Che quanto nel cader s'approssimava,
Tanto crescesse al guardo; infin che venne
A dar di colpo in mezzo al prato; ed era
Grande quanto una secchia, e di scintille
Vomitava una nebbia, che stridea
Sì forte come quando un carbon vivo
Nell'acqua immergi e spegni. Anzi a quel modo
La luna, come ho detto, in mezzo al prato
Si spegneva annerando a poco a poco,
E ne fumavan l'erbe intorno intorno.
Allor mirando in ciel, vidi rimaso
Come un barlume, o un'orma, anzi una nicchia,
Ond'ella fosse svelta; in cotal guisa,
Ch'io n'agghiacciava; e ancor non m'assicuro.
MELISSO
E ben hai che temer, che agevol cosa
Fora cader la luna in sul tuo campo.
ALCETA
Chi sa? non veggiam noi spesso di state
Cader le stelle?
MELISSO
Egli ci ha tante stelle,
Che picciol danno è cader l'una o l'altra
Di loro, e mille rimaner. Ma sola
Ha questa luna in ciel, che da nessuno
Cader fu vista mai se non in sogno.
(Lo spavento notturno, Recanati, 1819)
.
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1 043
Giacomo Leopardi
XXXVII - Ouve, Melisso
ALCETA
Ouve, Melisso: vou contar-te um sonho
Desta noite que me retorna à mente
Ao remirar a lua. Eu estava
À janela voltada para o prado,
Olhando o alto: e eis que de repente
A lua se destaca; e pareceu-me
Que quanto mais se aproximava caindo,
Mais crescesse ao olhar; até que veio
A dar um golpe em meio ao prado; e era
Grande que nem um balde, e de centelhas
Vomitava uma névoa, estrilando
Tão forte como quando um carvão vivo
Entra na água e se apaga. Desse modo
A lua, como disse, em meio ao prado
Se apagava embaçando pouco a pouco,
E os relvados queimavam ao redor.
Então mirando o céu vi que restava
Como um lampejo ou rastro, como um nicho,
O ponto abandonado; de tal sorte
Que fiquei frio por dentro; e ainda temo.
MELISSO
E bem deves temer, que coisa fácil
Foi a lua cair em teu relvado.
ALCETA
Será? Não vemos amiúde estrelas
Caindo no verão?
MELISSO
Há tantos astros,
Que pouco dano é cair um ou outro
Deles, e mil restarem. Mas sozinha
Está no céu a lua, que ninguém
Nunca avistou cair senão em sonho.
(O assombro noturno, Recanati, 1819)
:
XXXVII - "ODI, MELISSO"
ALCETA
Odi, Melisso: io vo' contarti un sogno
Di questa notte, che mi torna a mente
In riveder la luna. Io me ne stava
Alla finestra che risponde al prato,
Guardando in alto: ed ecco all'improvviso
Distaccasi la luna; e mi parea
Che quanto nel cader s'approssimava,
Tanto crescesse al guardo; infin che venne
A dar di colpo in mezzo al prato; ed era
Grande quanto una secchia, e di scintille
Vomitava una nebbia, che stridea
Sì forte come quando un carbon vivo
Nell'acqua immergi e spegni. Anzi a quel modo
La luna, come ho detto, in mezzo al prato
Si spegneva annerando a poco a poco,
E ne fumavan l'erbe intorno intorno.
Allor mirando in ciel, vidi rimaso
Come un barlume, o un'orma, anzi una nicchia,
Ond'ella fosse svelta; in cotal guisa,
Ch'io n'agghiacciava; e ancor non m'assicuro.
MELISSO
E ben hai che temer, che agevol cosa
Fora cader la luna in sul tuo campo.
ALCETA
Chi sa? non veggiam noi spesso di state
Cader le stelle?
MELISSO
Egli ci ha tante stelle,
Che picciol danno è cader l'una o l'altra
Di loro, e mille rimaner. Ma sola
Ha questa luna in ciel, che da nessuno
Cader fu vista mai se non in sogno.
(Lo spavento notturno, Recanati, 1819)
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1 043
Frank O'Hara
Ao capitão do porto
Quis certificar-me que eu chegaria a você;
embora minha nau estivesse a caminho, embaraçou-se
em certas amarras. Estou sempre a ancorar-me
e então decidindo partir. Em tormentas e
no ocaso, com as bobinas metálicas da maré
cercando meus braços abissais, sou incapaz
de entender as formas de minha vaidade
ou mal estou a sotavento com o leme
à mão e o sol a se por. A você
ofereço meu casco e o cordame esfarrapado
de meu querer. Os canais aterradores onde
o vento me lança contra os lábios barrentos
dos juncos ainda não ficaram para trás. Mesmo
assim, confio na sanidade de minha embarcação;
e se naufragar, tanto poderá ser em resposta
ao raciocínio das vozes eternas,
as ondas que me impediram de chegar a você.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
To the harbormaster
Frank O´Hara
I wanted to be sure to reach you;
though my ship was on the way it got caught
in some moorings. I am always tying up
and then deciding to depart. In storms and
at sunset, with the metallic coils of the tide
around my fathomless arms, I am unable
to understand the forms of my vanity
or I am hard alee with my Polish rudder
in my hand and the sun sinking. To
you I offer my hull and the tattered cordage
of my will. The terrible channels where
the wind drives me against the brown lips
of the reeds are not all behind me. Yet
I trust the sanity of my vessel; and
if it sinks, it may well be in answer
to the reasoning of the eternal voices,
the waves which have kept me from reaching you.
embora minha nau estivesse a caminho, embaraçou-se
em certas amarras. Estou sempre a ancorar-me
e então decidindo partir. Em tormentas e
no ocaso, com as bobinas metálicas da maré
cercando meus braços abissais, sou incapaz
de entender as formas de minha vaidade
ou mal estou a sotavento com o leme
à mão e o sol a se por. A você
ofereço meu casco e o cordame esfarrapado
de meu querer. Os canais aterradores onde
o vento me lança contra os lábios barrentos
dos juncos ainda não ficaram para trás. Mesmo
assim, confio na sanidade de minha embarcação;
e se naufragar, tanto poderá ser em resposta
ao raciocínio das vozes eternas,
as ondas que me impediram de chegar a você.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
To the harbormaster
Frank O´Hara
I wanted to be sure to reach you;
though my ship was on the way it got caught
in some moorings. I am always tying up
and then deciding to depart. In storms and
at sunset, with the metallic coils of the tide
around my fathomless arms, I am unable
to understand the forms of my vanity
or I am hard alee with my Polish rudder
in my hand and the sun sinking. To
you I offer my hull and the tattered cordage
of my will. The terrible channels where
the wind drives me against the brown lips
of the reeds are not all behind me. Yet
I trust the sanity of my vessel; and
if it sinks, it may well be in answer
to the reasoning of the eternal voices,
the waves which have kept me from reaching you.
1 264
Frank O'Hara
Ao capitão do porto
Quis certificar-me que eu chegaria a você;
embora minha nau estivesse a caminho, embaraçou-se
em certas amarras. Estou sempre a ancorar-me
e então decidindo partir. Em tormentas e
no ocaso, com as bobinas metálicas da maré
cercando meus braços abissais, sou incapaz
de entender as formas de minha vaidade
ou mal estou a sotavento com o leme
à mão e o sol a se por. A você
ofereço meu casco e o cordame esfarrapado
de meu querer. Os canais aterradores onde
o vento me lança contra os lábios barrentos
dos juncos ainda não ficaram para trás. Mesmo
assim, confio na sanidade de minha embarcação;
e se naufragar, tanto poderá ser em resposta
ao raciocínio das vozes eternas,
as ondas que me impediram de chegar a você.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
To the harbormaster
Frank O´Hara
I wanted to be sure to reach you;
though my ship was on the way it got caught
in some moorings. I am always tying up
and then deciding to depart. In storms and
at sunset, with the metallic coils of the tide
around my fathomless arms, I am unable
to understand the forms of my vanity
or I am hard alee with my Polish rudder
in my hand and the sun sinking. To
you I offer my hull and the tattered cordage
of my will. The terrible channels where
the wind drives me against the brown lips
of the reeds are not all behind me. Yet
I trust the sanity of my vessel; and
if it sinks, it may well be in answer
to the reasoning of the eternal voices,
the waves which have kept me from reaching you.
embora minha nau estivesse a caminho, embaraçou-se
em certas amarras. Estou sempre a ancorar-me
e então decidindo partir. Em tormentas e
no ocaso, com as bobinas metálicas da maré
cercando meus braços abissais, sou incapaz
de entender as formas de minha vaidade
ou mal estou a sotavento com o leme
à mão e o sol a se por. A você
ofereço meu casco e o cordame esfarrapado
de meu querer. Os canais aterradores onde
o vento me lança contra os lábios barrentos
dos juncos ainda não ficaram para trás. Mesmo
assim, confio na sanidade de minha embarcação;
e se naufragar, tanto poderá ser em resposta
ao raciocínio das vozes eternas,
as ondas que me impediram de chegar a você.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
To the harbormaster
Frank O´Hara
I wanted to be sure to reach you;
though my ship was on the way it got caught
in some moorings. I am always tying up
and then deciding to depart. In storms and
at sunset, with the metallic coils of the tide
around my fathomless arms, I am unable
to understand the forms of my vanity
or I am hard alee with my Polish rudder
in my hand and the sun sinking. To
you I offer my hull and the tattered cordage
of my will. The terrible channels where
the wind drives me against the brown lips
of the reeds are not all behind me. Yet
I trust the sanity of my vessel; and
if it sinks, it may well be in answer
to the reasoning of the eternal voices,
the waves which have kept me from reaching you.
1 264
Maya Deren
A F.M.
Eu esperei por você nos campos do entardecer
Olhos fechados, eu me deito sobre a grama
Ouvindo o som dos passos no balançar das árvores;
Esperando meus lábios sentirem lábios onde a brisa suave esteve;
Corpo tenso para sentir o calor das mãos onde o calor do sol brilhou.
Você não veio. Eu entrei
Queixando-me que o sol se pôs
E que o vento estava tão frio
E que as árvores faziam tanto barulho
Que era melhor tirar um cochilo dentro de casa.
:
To F.M.
I waited for you in the fields of afternoon’
Eyes closed, I lay upon the grass
Listening for the sound of steps in the swaying of the trees;
Waiting for my lips to feel lips where the soft breeze had been;
Body tense to feel the warmth of hands where warmth of sun had shone.
You did not come. I went inside
Complaining that the suns go down
And that the wind is far too chill
And that trees make so much noise
A person’d better take her nap indoors
Olhos fechados, eu me deito sobre a grama
Ouvindo o som dos passos no balançar das árvores;
Esperando meus lábios sentirem lábios onde a brisa suave esteve;
Corpo tenso para sentir o calor das mãos onde o calor do sol brilhou.
Você não veio. Eu entrei
Queixando-me que o sol se pôs
E que o vento estava tão frio
E que as árvores faziam tanto barulho
Que era melhor tirar um cochilo dentro de casa.
:
To F.M.
I waited for you in the fields of afternoon’
Eyes closed, I lay upon the grass
Listening for the sound of steps in the swaying of the trees;
Waiting for my lips to feel lips where the soft breeze had been;
Body tense to feel the warmth of hands where warmth of sun had shone.
You did not come. I went inside
Complaining that the suns go down
And that the wind is far too chill
And that trees make so much noise
A person’d better take her nap indoors
995
Maya Deren
A F.M.
Eu esperei por você nos campos do entardecer
Olhos fechados, eu me deito sobre a grama
Ouvindo o som dos passos no balançar das árvores;
Esperando meus lábios sentirem lábios onde a brisa suave esteve;
Corpo tenso para sentir o calor das mãos onde o calor do sol brilhou.
Você não veio. Eu entrei
Queixando-me que o sol se pôs
E que o vento estava tão frio
E que as árvores faziam tanto barulho
Que era melhor tirar um cochilo dentro de casa.
:
To F.M.
I waited for you in the fields of afternoon’
Eyes closed, I lay upon the grass
Listening for the sound of steps in the swaying of the trees;
Waiting for my lips to feel lips where the soft breeze had been;
Body tense to feel the warmth of hands where warmth of sun had shone.
You did not come. I went inside
Complaining that the suns go down
And that the wind is far too chill
And that trees make so much noise
A person’d better take her nap indoors
Olhos fechados, eu me deito sobre a grama
Ouvindo o som dos passos no balançar das árvores;
Esperando meus lábios sentirem lábios onde a brisa suave esteve;
Corpo tenso para sentir o calor das mãos onde o calor do sol brilhou.
Você não veio. Eu entrei
Queixando-me que o sol se pôs
E que o vento estava tão frio
E que as árvores faziam tanto barulho
Que era melhor tirar um cochilo dentro de casa.
:
To F.M.
I waited for you in the fields of afternoon’
Eyes closed, I lay upon the grass
Listening for the sound of steps in the swaying of the trees;
Waiting for my lips to feel lips where the soft breeze had been;
Body tense to feel the warmth of hands where warmth of sun had shone.
You did not come. I went inside
Complaining that the suns go down
And that the wind is far too chill
And that trees make so much noise
A person’d better take her nap indoors
995
Pedro Xisto
Soledade
Sobre a tarde me aplico. As sombras ou trabalho
como quem plumas colhe: as almofadas ponho
nos cantos vivos; toda a casa espera o sonho;
e a nuvem de alto mar é ninho no carvalho.
Mas, inda, Soledade, eu não sei do tristonho
carinho - último toque, a modo desse orvalho,
pelo vazio olhar de mármore que talho.
E, insone e vago, em vão a mim me recomponho:
Os braços abre o rio e se perde no estuário;
A despedida face, inclina o girassol;
Ao pé do mastro a vela hesita; o leme é vário;
e tão alheia a espuma; em névoas cego, o sol;
de longe cai o vento — o gratuito sudário.
(Sobre nós dois, que fria estendes teu lençol...)
1 241
Leopoldo María Panero
Nascimento de Jesus
Os cavalos em vento se transformam
o deserto entre minhas mãos nasce
o medo é Jesus Cristo entre meus olhos
estrela que no nada jaz
O medo diante da neve se ajoelha
o medo diante da escuridão é o nada
uma mulher que entre os homens nasce.
:
NACIMIENTO DE JESÚS
Los caballos en viento se mudan
el desierto entre mis manos nace
el miedo es Jesuscristo entre mis ojos
como una estrella que en la nada yace.
El miedo ante la nieve se arrodilla
el miedo ante lo oscuro es una nada
como una mujer que entre los hombres nace.
758
Juan Gelman
Chega
chega
não quero mais morte
não quero mais dor ou sombras chega
meu coração é esplêndido como uma palavra
meu coração tornou-se belo como o sol
que sai voa canta meu coração
é cedo um passarinho
e depois teu nome
teu nome sobe todas as manhãs
aquece o mundo e se põe
só em meu coração
sol em meu coração
(Tradução de Ricardo Domeneck)
Basta
basta
no quiero más de muerte
no quiero más de dolor o sombras basta
mi corazón es espléndido como una palabra
mi corazón se há vuelto bello como el sol
que sale vuela canta mi corazón
es de temprano un pajarito
y después es tu nombre
tu nombre sube todas las mañanas
calienta el mundo y se pone
solo en mi corazón
sol en mi corazón.
.
.
.
não quero mais morte
não quero mais dor ou sombras chega
meu coração é esplêndido como uma palavra
meu coração tornou-se belo como o sol
que sai voa canta meu coração
é cedo um passarinho
e depois teu nome
teu nome sobe todas as manhãs
aquece o mundo e se põe
só em meu coração
sol em meu coração
(Tradução de Ricardo Domeneck)
Basta
basta
no quiero más de muerte
no quiero más de dolor o sombras basta
mi corazón es espléndido como una palabra
mi corazón se há vuelto bello como el sol
que sale vuela canta mi corazón
es de temprano un pajarito
y después es tu nombre
tu nombre sube todas las mañanas
calienta el mundo y se pone
solo en mi corazón
sol en mi corazón.
.
.
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1 433
Pedro Xisto
uma flor de ameixa
uma flor de ameixa
amei: cheira a beatitude
(nunca o fogo a mexa)
1 405
Leopoldo María Panero
Figuras da Paixão do Senhor
Está morto, Ele, morreu e chove
e há uma lâmpada acesa para sempre
entre meus olhos:
perecida com a lua
que, zombeteira,
ri eternamente de Deus.
Igual a chuva desfaz minha imagem
e minha face, semelhante à Daquele, cai
ferido pela pedra,
pela pedra de ninguém que fere e mata
enquanto chove. Enquanto chova talvez eternamente
e a chuva impõem ao mundo a imagem de um rosto
que não nos permite olvidar, como o colorido óxido do farol
de Londres brilha entre a bruma
para que não esqueça
o cadáver daquela prostituta.
:
FIGURAS DE LA PASIÓN DEL SEÑOR
Ha muerto Él. Ha muerto él y llueve
y hay una lámpara encendida para siempre
entre mis dos ojos:
parecida a la luna
que, burlona,
se ríe eternamente de Dios.
Igual la lluvia deshace mi figura
y mi rostro, semejante al de Aquél, cae
herido por la piedra,
por la piedra de nadie que hiere y mata
mientras llueve. Mientras llueve quizás eternamente
y la lluvia imprime al mundo la figura da un rostro
que no nos deja olvidar, como el colorido óxido de la farola
de Londres que entre la bruma brilla
para que no olvide
el cadáver de aquella prostituta.
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Leopoldo María Panero
Figuras da Paixão do Senhor
Está morto, Ele, morreu e chove
e há uma lâmpada acesa para sempre
entre meus olhos:
perecida com a lua
que, zombeteira,
ri eternamente de Deus.
Igual a chuva desfaz minha imagem
e minha face, semelhante à Daquele, cai
ferido pela pedra,
pela pedra de ninguém que fere e mata
enquanto chove. Enquanto chova talvez eternamente
e a chuva impõem ao mundo a imagem de um rosto
que não nos permite olvidar, como o colorido óxido do farol
de Londres brilha entre a bruma
para que não esqueça
o cadáver daquela prostituta.
:
FIGURAS DE LA PASIÓN DEL SEÑOR
Ha muerto Él. Ha muerto él y llueve
y hay una lámpara encendida para siempre
entre mis dos ojos:
parecida a la luna
que, burlona,
se ríe eternamente de Dios.
Igual la lluvia deshace mi figura
y mi rostro, semejante al de Aquél, cae
herido por la piedra,
por la piedra de nadie que hiere y mata
mientras llueve. Mientras llueve quizás eternamente
y la lluvia imprime al mundo la figura da un rostro
que no nos deja olvidar, como el colorido óxido de la farola
de Londres que entre la bruma brilla
para que no olvide
el cadáver de aquella prostituta.
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