Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Affonso Ávila
Soneto
Não vos traga tristeza a chuva fria
a se esgueirar nas tardes sem corola.
Sobe o chumbo (o sem cor) das coisas vivas
sufocando o clamor das vossas horas.
Sobre o ontem deitastes. Neve amiga
da pegada os sinais na terra afoga
(vede o exemplo da nuvem que destila
o fel de si na gota que se evola).
Sede o espelho, não mais. O próprio nervo
se desfaça no plano de cristal
onde a imagem enfim se compreende.
Plenitude da origem e do termo
o nimbo vos ensine o largo mar.
Sereis então o grande indiferente.
de O Açude e os Sonetos da Descoberta, 1953
1 090
Affonso Ávila
Soneto
Não vos traga tristeza a chuva fria
a se esgueirar nas tardes sem corola.
Sobe o chumbo (o sem cor) das coisas vivas
sufocando o clamor das vossas horas.
Sobre o ontem deitastes. Neve amiga
da pegada os sinais na terra afoga
(vede o exemplo da nuvem que destila
o fel de si na gota que se evola).
Sede o espelho, não mais. O próprio nervo
se desfaça no plano de cristal
onde a imagem enfim se compreende.
Plenitude da origem e do termo
o nimbo vos ensine o largo mar.
Sereis então o grande indiferente.
de O Açude e os Sonetos da Descoberta, 1953
1 090
Alfred Starr Hamilton
Uma Casca de Pão
por quê, muitas vezes me perguntei
por que eu fui um poeta,
em primeiro lugar
mais do que tudo, eu queria
ter sido um pássaro
se eu pudesse ter sido um pássaro
mas eu queria que as andorinhas
houvessem sido alimentadas,
em primeiro lugar
:
A Crust of Bread
why, I often wondered
why was I a poet,
first of all
most of all, I wanted
to have been a bird
if I could have been a bird
but I wanted the starlings
to have been fed,
first of all
582
Affonso Ávila
Cantiga de Nossa Senhora da Modéstia
do nicho elipse ontem fresta
sem coroa ou aura à sobretesta
sem louvor barroco à testa
cheia de graça em enfesta
lindeira de urbe e floresta
névoa ao olho imanifesta
oculta por imolesta
flor ou bem que se requesta
coração que se empresta
a nenhum juro infunesta
em seu sol tarde seresta
de som noite que se apresta
ao ardor deste à ânsia desta
dada mão furtiva ou presta
príncipes de brim voile em véstía
rímel pó rouge à arte honesta
na esquina de amor ou festa
ao cadente beijo da hora é esta
sua luz vertia em réstia
nossa senhora da modéstia
deCantigas do Falso Alfonso El Sábio, 2002.
931
Affonso Ávila
Castração
Com suas iníquas
máquinas de tédio
aprende o degredo
com seus chãos reversos
— com suas escumas
de vinagre e pasmo
celebra os opróbrios
com seu desamparo
— com suas sezões
de pejo e salsugem
arqueja os verões
com seus gozos rudes
— com suas ilhargas
de fuligem e asco
deslembra as novilhas
com seus curvos favos
— com suas obesas
barbelas de adorno
ostenta a vergonha
com seu grão roncolho
de Carta do solo, 1961
máquinas de tédio
aprende o degredo
com seus chãos reversos
— com suas escumas
de vinagre e pasmo
celebra os opróbrios
com seu desamparo
— com suas sezões
de pejo e salsugem
arqueja os verões
com seus gozos rudes
— com suas ilhargas
de fuligem e asco
deslembra as novilhas
com seus curvos favos
— com suas obesas
barbelas de adorno
ostenta a vergonha
com seu grão roncolho
de Carta do solo, 1961
1 084
Giacomo Leopardi
XXXVII - Ouve, Melisso
ALCETA
Ouve, Melisso: vou contar-te um sonho
Desta noite que me retorna à mente
Ao remirar a lua. Eu estava
À janela voltada para o prado,
Olhando o alto: e eis que de repente
A lua se destaca; e pareceu-me
Que quanto mais se aproximava caindo,
Mais crescesse ao olhar; até que veio
A dar um golpe em meio ao prado; e era
Grande que nem um balde, e de centelhas
Vomitava uma névoa, estrilando
Tão forte como quando um carvão vivo
Entra na água e se apaga. Desse modo
A lua, como disse, em meio ao prado
Se apagava embaçando pouco a pouco,
E os relvados queimavam ao redor.
Então mirando o céu vi que restava
Como um lampejo ou rastro, como um nicho,
O ponto abandonado; de tal sorte
Que fiquei frio por dentro; e ainda temo.
MELISSO
E bem deves temer, que coisa fácil
Foi a lua cair em teu relvado.
ALCETA
Será? Não vemos amiúde estrelas
Caindo no verão?
MELISSO
Há tantos astros,
Que pouco dano é cair um ou outro
Deles, e mil restarem. Mas sozinha
Está no céu a lua, que ninguém
Nunca avistou cair senão em sonho.
(O assombro noturno, Recanati, 1819)
:
XXXVII - "ODI, MELISSO"
ALCETA
Odi, Melisso: io vo' contarti un sogno
Di questa notte, che mi torna a mente
In riveder la luna. Io me ne stava
Alla finestra che risponde al prato,
Guardando in alto: ed ecco all'improvviso
Distaccasi la luna; e mi parea
Che quanto nel cader s'approssimava,
Tanto crescesse al guardo; infin che venne
A dar di colpo in mezzo al prato; ed era
Grande quanto una secchia, e di scintille
Vomitava una nebbia, che stridea
Sì forte come quando un carbon vivo
Nell'acqua immergi e spegni. Anzi a quel modo
La luna, come ho detto, in mezzo al prato
Si spegneva annerando a poco a poco,
E ne fumavan l'erbe intorno intorno.
Allor mirando in ciel, vidi rimaso
Come un barlume, o un'orma, anzi una nicchia,
Ond'ella fosse svelta; in cotal guisa,
Ch'io n'agghiacciava; e ancor non m'assicuro.
MELISSO
E ben hai che temer, che agevol cosa
Fora cader la luna in sul tuo campo.
ALCETA
Chi sa? non veggiam noi spesso di state
Cader le stelle?
MELISSO
Egli ci ha tante stelle,
Che picciol danno è cader l'una o l'altra
Di loro, e mille rimaner. Ma sola
Ha questa luna in ciel, che da nessuno
Cader fu vista mai se non in sogno.
(Lo spavento notturno, Recanati, 1819)
.
.
.
1 024
Giacomo Leopardi
XXXVII - Ouve, Melisso
ALCETA
Ouve, Melisso: vou contar-te um sonho
Desta noite que me retorna à mente
Ao remirar a lua. Eu estava
À janela voltada para o prado,
Olhando o alto: e eis que de repente
A lua se destaca; e pareceu-me
Que quanto mais se aproximava caindo,
Mais crescesse ao olhar; até que veio
A dar um golpe em meio ao prado; e era
Grande que nem um balde, e de centelhas
Vomitava uma névoa, estrilando
Tão forte como quando um carvão vivo
Entra na água e se apaga. Desse modo
A lua, como disse, em meio ao prado
Se apagava embaçando pouco a pouco,
E os relvados queimavam ao redor.
Então mirando o céu vi que restava
Como um lampejo ou rastro, como um nicho,
O ponto abandonado; de tal sorte
Que fiquei frio por dentro; e ainda temo.
MELISSO
E bem deves temer, que coisa fácil
Foi a lua cair em teu relvado.
ALCETA
Será? Não vemos amiúde estrelas
Caindo no verão?
MELISSO
Há tantos astros,
Que pouco dano é cair um ou outro
Deles, e mil restarem. Mas sozinha
Está no céu a lua, que ninguém
Nunca avistou cair senão em sonho.
(O assombro noturno, Recanati, 1819)
:
XXXVII - "ODI, MELISSO"
ALCETA
Odi, Melisso: io vo' contarti un sogno
Di questa notte, che mi torna a mente
In riveder la luna. Io me ne stava
Alla finestra che risponde al prato,
Guardando in alto: ed ecco all'improvviso
Distaccasi la luna; e mi parea
Che quanto nel cader s'approssimava,
Tanto crescesse al guardo; infin che venne
A dar di colpo in mezzo al prato; ed era
Grande quanto una secchia, e di scintille
Vomitava una nebbia, che stridea
Sì forte come quando un carbon vivo
Nell'acqua immergi e spegni. Anzi a quel modo
La luna, come ho detto, in mezzo al prato
Si spegneva annerando a poco a poco,
E ne fumavan l'erbe intorno intorno.
Allor mirando in ciel, vidi rimaso
Come un barlume, o un'orma, anzi una nicchia,
Ond'ella fosse svelta; in cotal guisa,
Ch'io n'agghiacciava; e ancor non m'assicuro.
MELISSO
E ben hai che temer, che agevol cosa
Fora cader la luna in sul tuo campo.
ALCETA
Chi sa? non veggiam noi spesso di state
Cader le stelle?
MELISSO
Egli ci ha tante stelle,
Che picciol danno è cader l'una o l'altra
Di loro, e mille rimaner. Ma sola
Ha questa luna in ciel, che da nessuno
Cader fu vista mai se non in sogno.
(Lo spavento notturno, Recanati, 1819)
.
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1 024
al-Khansa
28.
Se não és capaz de controlar tua emoção, nem de
te consolares
Eis inúmeras viagens noturnas de Yalban até al-Uqda,
em lombos jovens de camelas magras
Disse eu a um companheiro assustado: presta atenção
nos cavalos
E chama por um dos grandes quando tiveres alcançado
o ponto mais alto do mirante, então observa:
Verás de imediato, logo abaixo, um cavaleiro vagando.
Enfia então os açoites nos flancos arredondados desse
puro-sangue, tal uma camurça de cor cinza;
E corre; e afunda nele as pernas até que a água brote e
transborde, como da vasilha carregada pela
mão esquerda.
352
al-Khansa
28.
Se não és capaz de controlar tua emoção, nem de
te consolares
Eis inúmeras viagens noturnas de Yalban até al-Uqda,
em lombos jovens de camelas magras
Disse eu a um companheiro assustado: presta atenção
nos cavalos
E chama por um dos grandes quando tiveres alcançado
o ponto mais alto do mirante, então observa:
Verás de imediato, logo abaixo, um cavaleiro vagando.
Enfia então os açoites nos flancos arredondados desse
puro-sangue, tal uma camurça de cor cinza;
E corre; e afunda nele as pernas até que a água brote e
transborde, como da vasilha carregada pela
mão esquerda.
352
Manuel António Pina
A um Jovem Poeta
Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.
1 945
Juan Gelman
a mão
não ponha a mão na água
porque se vai como peixe
não ponha a água em sua mão
porque virá o oceano
e a margem depois
deixa sua mão assim
em seu ar
nela
sem começo
nem fim.
(tradução de Leo Gonçalves e Andityas Soares de Moura)
la mano
no pongas la mano en el agua
porque se irá de pez/
no pongas agua en tu mano
porque vendrá el océano
y la orilla después/
dejá tu mano así/
en su aire
en ella/
sin comienzo/
ni fin
porque se vai como peixe
não ponha a água em sua mão
porque virá o oceano
e a margem depois
deixa sua mão assim
em seu ar
nela
sem começo
nem fim.
(tradução de Leo Gonçalves e Andityas Soares de Moura)
la mano
no pongas la mano en el agua
porque se irá de pez/
no pongas agua en tu mano
porque vendrá el océano
y la orilla después/
dejá tu mano así/
en su aire
en ella/
sin comienzo/
ni fin
1 284
D. Dinis
Deus! Com'ora perdeu Joam Simiom
Deus! Com'ora perdeu Joam Simiom
três bestas - nom vi de maior cajom,
nem perdudas nunca tam sem razom:
ca, teendo-as sãas e vivas
e bem sangradas com [boa] sazom,
morrerom-lhi toda[s] com olivas.
Des aquel[e] dia em que naci
nunca bestas assi perdudas vi,
ca as fez ant'el sangrar ante si;
e ante que saíssem daquel mês,
per com'eu a Joam Simiom oí,
com olivas morrerom todas três.
Ben'as cuidara de morte guardar
todas três, quando as fez[o] sangrar;
mais havia-lhas o Dem'a levar,
pois se par [a]tal cajom perderom;
e Joam Simiom quer-s'ora matar
porque lhi com olivas morrerom.
1 615
Gerard Manley Hopkins
Lanterna Externa
Uma lanterna move-se na noite escura,
Que às vezes nos apraz olhar. Quem anda
Ali? – medito. De onde, para onde o manda
Dentro da escuridão essa luz insegura?
Homens passam por mim, cuja beleza pura
Em molde ou mente ou mais um dom maior demanda.
Chovem em nosso ar pesado a sua branda
Luz, até que distância ou morte os desfigura.
Morte ou distância vêm. Por mais que para vê-los
Volteie a vista, é em vão: eu perco o que persigo.
Longe do meu olhar, longe dos meus desvelos
Cristo vela. E o olhar de Cristo, em paz ou perigo,
Os vê, coração quer, amor provê, pé ante pé, com suaves zelos:
Resgate e redenção, primeiro, íntimo e último amigo.
(tradução de Augusto de Campos)
:
The Lantern out of Doors
Gerard Manley Hopkins
SOMETIMES a lantern moves along the night,
That interests our eyes. And who goes there?
I think; where from and bound, I wonder, where,
With, all down darkness wide, his wading light?
Men go by me whom either beauty bright
In mould or mind or what not else makes rare:
They rain against our much-thick and marsh air
Rich beams, till death or distance buys them quite.
Death or distance soon consumes them: wind
What most I may eye after, be in at the end
I cannot, and out of sight is out of mind.
Christ minds: Christ’s interest, what to avow or amend
There, éyes them, heart wánts, care haúnts, foot fóllows kínd,
Their ránsom, théir rescue, ánd first, fást, last friénd.
Que às vezes nos apraz olhar. Quem anda
Ali? – medito. De onde, para onde o manda
Dentro da escuridão essa luz insegura?
Homens passam por mim, cuja beleza pura
Em molde ou mente ou mais um dom maior demanda.
Chovem em nosso ar pesado a sua branda
Luz, até que distância ou morte os desfigura.
Morte ou distância vêm. Por mais que para vê-los
Volteie a vista, é em vão: eu perco o que persigo.
Longe do meu olhar, longe dos meus desvelos
Cristo vela. E o olhar de Cristo, em paz ou perigo,
Os vê, coração quer, amor provê, pé ante pé, com suaves zelos:
Resgate e redenção, primeiro, íntimo e último amigo.
(tradução de Augusto de Campos)
:
The Lantern out of Doors
Gerard Manley Hopkins
SOMETIMES a lantern moves along the night,
That interests our eyes. And who goes there?
I think; where from and bound, I wonder, where,
With, all down darkness wide, his wading light?
Men go by me whom either beauty bright
In mould or mind or what not else makes rare:
They rain against our much-thick and marsh air
Rich beams, till death or distance buys them quite.
Death or distance soon consumes them: wind
What most I may eye after, be in at the end
I cannot, and out of sight is out of mind.
Christ minds: Christ’s interest, what to avow or amend
There, éyes them, heart wánts, care haúnts, foot fóllows kínd,
Their ránsom, théir rescue, ánd first, fást, last friénd.
938
Yannis Ritsos
Coisas simples e incompreensíveis
Nada de novo — repete ele. Os homens matam-se ou morrem,
sobretudo envelhecem, envelhecem, envelhecem — os dentes,
os cabelos, as mãos, os espelhos.
Aquele vidro do candeeiro, quebrado — foi consertado com um jornal.
E o pior de tudo: quando aprendes que algo vale a pena, já passou.
Então se faz uma grande serenidade. Chega o verão. As árvores
são altas e verdes — muito provocantes. As cigarras cantam.
À tardinha, as montanhas azulecem. Lá de cima descem
homens obscuros. Coxeiam ladeira abaixo (fingem que coxeiam).
Lançam cães mortos ao rio, e depois, muito tristes e como que irritados
dobram os sacos de linho, coçam os testículos e olham a lua
na água. Somente essa coisa inexplicável:
fingirem-se de coxos, sem que ninguém esteja a vê-los.
sobretudo envelhecem, envelhecem, envelhecem — os dentes,
os cabelos, as mãos, os espelhos.
Aquele vidro do candeeiro, quebrado — foi consertado com um jornal.
E o pior de tudo: quando aprendes que algo vale a pena, já passou.
Então se faz uma grande serenidade. Chega o verão. As árvores
são altas e verdes — muito provocantes. As cigarras cantam.
À tardinha, as montanhas azulecem. Lá de cima descem
homens obscuros. Coxeiam ladeira abaixo (fingem que coxeiam).
Lançam cães mortos ao rio, e depois, muito tristes e como que irritados
dobram os sacos de linho, coçam os testículos e olham a lua
na água. Somente essa coisa inexplicável:
fingirem-se de coxos, sem que ninguém esteja a vê-los.
1 060
Yannis Ritsos
Coisas simples e incompreensíveis
Nada de novo — repete ele. Os homens matam-se ou morrem,
sobretudo envelhecem, envelhecem, envelhecem — os dentes,
os cabelos, as mãos, os espelhos.
Aquele vidro do candeeiro, quebrado — foi consertado com um jornal.
E o pior de tudo: quando aprendes que algo vale a pena, já passou.
Então se faz uma grande serenidade. Chega o verão. As árvores
são altas e verdes — muito provocantes. As cigarras cantam.
À tardinha, as montanhas azulecem. Lá de cima descem
homens obscuros. Coxeiam ladeira abaixo (fingem que coxeiam).
Lançam cães mortos ao rio, e depois, muito tristes e como que irritados
dobram os sacos de linho, coçam os testículos e olham a lua
na água. Somente essa coisa inexplicável:
fingirem-se de coxos, sem que ninguém esteja a vê-los.
sobretudo envelhecem, envelhecem, envelhecem — os dentes,
os cabelos, as mãos, os espelhos.
Aquele vidro do candeeiro, quebrado — foi consertado com um jornal.
E o pior de tudo: quando aprendes que algo vale a pena, já passou.
Então se faz uma grande serenidade. Chega o verão. As árvores
são altas e verdes — muito provocantes. As cigarras cantam.
À tardinha, as montanhas azulecem. Lá de cima descem
homens obscuros. Coxeiam ladeira abaixo (fingem que coxeiam).
Lançam cães mortos ao rio, e depois, muito tristes e como que irritados
dobram os sacos de linho, coçam os testículos e olham a lua
na água. Somente essa coisa inexplicável:
fingirem-se de coxos, sem que ninguém esteja a vê-los.
1 060
Paulo Leminski
Primeiras páginas
ergo sum, aliás, Ego sum Renatus Cartesius, cá perdido, aqui presente, neste labirinto de enganos deleitáveis, — vejo o mar, vejo a baía e vejo as naus. Vejo mais. Já lá vão anos III me destaquei de Europa e a gente civil, lá morituro. Isso de “barbarus — non intellegor ulli” — dos exercícios de exílio de Ovídio é comigo. Do parque do príncipe, a lentes de luneta, CONTEMPLO A CONSIDERAR O CAIS, O MAR, AS NUVENS, OS ENIGMAS E OS PRODÍGIOS DE BRASÍLIA. Desde verdes anos, via de regra, medito horizontal manhã cedo, só vindo à luz já sol meiodia. Estar, mister de deuses, na atual circunstância, presença no estanque dessa Vrijburg , gaza de mapas, taba rasa de humores, orto e zôo, oca de feras e casa de flores. Plantas sarcófagas e carnívoras atrapalham-se, um lugar ao sol e um tempo na sombra. Chacoalham, cintila a água gota a gota, efêmeros chocam enxames. Cocos fecham-se em copas, mamas ampliam: MAMÕES. O vapor umedece o bolor, abafa o mofo, asfixia e fermenta fragmentos de fragrâncias. Cheiro um palmo à frente do nariz, mim, imenso e imerso, bom. Bestas, feras entre flores festas circulam em jaula tripla — as piores, dupla as maiores; em gaiolas, as menores, à ventura — as melhores. Animais anormais engendra o equinócio, desleixo no eixo da terra, desvio das linhas de fato. Pouco mais que o nome o toupinambaoults lhes signou, suspensos apenas pelo nó do apelo. De longe, três pontos... Em foco, Tatu, esferas rolando de outras eras, escarafuncham mundos e fundos. Saem da mãe com setenta e um dentes, dos quais dez caem aí mesmo, vinte e cinco ao primeiro bocado de terra, vinte o vento leva, quatorze a água, e um desaparece num acidente. Um, na algaravia geral, por nome, Tamanduá, esparrama língua no pó de incerto inseto, fica de pé, zarolho de tão perto, cara a cara, ali, aí, esdruxula num acúmulo e se desfaz eclipsado em formigas. Pela ou na rama, voce mettalica longisonans, a araponga malha ferro frio, bentevi no mal-me-quer-bem-me-quer. A dois lances de pedra daqui, volta e meia, dois giros; meia volta, vultos a três por dois. De onde em onde, vão e vêm; de quando em vez, vêem o que tem. Perante o segundo elemento, a manada anda e desanda, papa e bebe, mama e baba. Depois da laguna, enchem a anterior lacuna. Anta, nunca a vi tão gorda. Nuvens que o gambá fede empalidecem o nariz das pacas. Capivara, estômago a sair pelas órbitas, ou, porque fartas se estatelam arrotando capinzais ou, como são sabem senão comer, jogam o gargalo para o alto, arreganhando a dentadura, tiriricas de estar sem fome. Ensy, joão chamado bobo, não tuge nem muge, não foge tiro, brilho nem barulho — gálbula, brachyptera, insectívora, taciturna, non scansoria, stupida — , para jogar sério a esmo. Monos se penteando espelham-se no banho das piranhas, cara quase rosto no quasequase das águas: agulhas fazem boa boca, botam mau olhado anulando-lhes a estampa, símios para sempre. Na aguada, o corpanzil réptil entretece lagartos e lagostas. Monstros da natura desvairada nestes ares, à tona, boquiaberta, à toa, cabisbaixa, o mesmo nenhum afã. Tira pestana ao sol uma jibóia que é só borboletas. Tucanos atrás dos canos, máscara sefardim, arcanos no tutano. Jibóia, no local do crime, desamarram espirais englobando cabras, ovelhas, bois. Chifres da boca para fora — esfinges bucefálicas entre aspas — decompõem pelos mangues o conteúdo: cospem cornos o dobro. Exorbitantes, duram contos de séculos, estabelece Marcgravf, na qualidade de profeta. Vegetam eternidades. Crias? Mudas? Cruzam e descruzam entre si? Não, esse pensamento, não, — é sístole dos climas e sintoma do calor em minha cabeça. Penso mas não compensa: a sibila me belisca, a pitonisa me hipnotiza, me obelisco, essa python medusa e visa, eu paro, viro paupau, pedrapedra. Dédalos de espelho de Elísio, torre babéu, hortus urbis diaboli, furores de Thule, delícias de Menrod, curral do pasmo, cada bicho silencia e seleciona andamentos e paramentos. Bichos bichando, comigo que se passa? Abrir meu coração a Artyczewski. Virá Artyczewski. Nossas manhãs de fala me faltam. Um papagaio pegou meu pensamento, amola palavras em polaco, imitando Articzewski (Cartepanie! Cartepanie!). Bestas geradas no mais aceso fogo do dia... Comer esses animais há de perturbar singularmente as coisas do pensar. Palmilho os dias entre essas bestas estranhas, meus sonhos se populam da estranha fauna e flora: o estalo de coisas, o estalido dos bichos, o estar interessante: a flora fagulha e a fauna floresce... Singulares excessos... In primis cogitationibus circa generationem animalium, de his omnibus non cogitavi. Na boca da espera, Articzewski demora como se o parisse, possesso desta erva de negros que me ministrou, — riamba, pemba, gingongó, chibaba, jererê, monofa, charula, ou pango, tabaqueação de toupinambaoults, gês e negros minas, segundo Marcgravf. Aspirar estes fumos de ervas, encher os peitos nos hálitos deste mato, a essência, a cabeça quieta, ofício de ofídio.
1 490
Paulo Leminski
Primeiras páginas
ergo sum, aliás, Ego sum Renatus Cartesius, cá perdido, aqui presente, neste labirinto de enganos deleitáveis, — vejo o mar, vejo a baía e vejo as naus. Vejo mais. Já lá vão anos III me destaquei de Europa e a gente civil, lá morituro. Isso de “barbarus — non intellegor ulli” — dos exercícios de exílio de Ovídio é comigo. Do parque do príncipe, a lentes de luneta, CONTEMPLO A CONSIDERAR O CAIS, O MAR, AS NUVENS, OS ENIGMAS E OS PRODÍGIOS DE BRASÍLIA. Desde verdes anos, via de regra, medito horizontal manhã cedo, só vindo à luz já sol meiodia. Estar, mister de deuses, na atual circunstância, presença no estanque dessa Vrijburg , gaza de mapas, taba rasa de humores, orto e zôo, oca de feras e casa de flores. Plantas sarcófagas e carnívoras atrapalham-se, um lugar ao sol e um tempo na sombra. Chacoalham, cintila a água gota a gota, efêmeros chocam enxames. Cocos fecham-se em copas, mamas ampliam: MAMÕES. O vapor umedece o bolor, abafa o mofo, asfixia e fermenta fragmentos de fragrâncias. Cheiro um palmo à frente do nariz, mim, imenso e imerso, bom. Bestas, feras entre flores festas circulam em jaula tripla — as piores, dupla as maiores; em gaiolas, as menores, à ventura — as melhores. Animais anormais engendra o equinócio, desleixo no eixo da terra, desvio das linhas de fato. Pouco mais que o nome o toupinambaoults lhes signou, suspensos apenas pelo nó do apelo. De longe, três pontos... Em foco, Tatu, esferas rolando de outras eras, escarafuncham mundos e fundos. Saem da mãe com setenta e um dentes, dos quais dez caem aí mesmo, vinte e cinco ao primeiro bocado de terra, vinte o vento leva, quatorze a água, e um desaparece num acidente. Um, na algaravia geral, por nome, Tamanduá, esparrama língua no pó de incerto inseto, fica de pé, zarolho de tão perto, cara a cara, ali, aí, esdruxula num acúmulo e se desfaz eclipsado em formigas. Pela ou na rama, voce mettalica longisonans, a araponga malha ferro frio, bentevi no mal-me-quer-bem-me-quer. A dois lances de pedra daqui, volta e meia, dois giros; meia volta, vultos a três por dois. De onde em onde, vão e vêm; de quando em vez, vêem o que tem. Perante o segundo elemento, a manada anda e desanda, papa e bebe, mama e baba. Depois da laguna, enchem a anterior lacuna. Anta, nunca a vi tão gorda. Nuvens que o gambá fede empalidecem o nariz das pacas. Capivara, estômago a sair pelas órbitas, ou, porque fartas se estatelam arrotando capinzais ou, como são sabem senão comer, jogam o gargalo para o alto, arreganhando a dentadura, tiriricas de estar sem fome. Ensy, joão chamado bobo, não tuge nem muge, não foge tiro, brilho nem barulho — gálbula, brachyptera, insectívora, taciturna, non scansoria, stupida — , para jogar sério a esmo. Monos se penteando espelham-se no banho das piranhas, cara quase rosto no quasequase das águas: agulhas fazem boa boca, botam mau olhado anulando-lhes a estampa, símios para sempre. Na aguada, o corpanzil réptil entretece lagartos e lagostas. Monstros da natura desvairada nestes ares, à tona, boquiaberta, à toa, cabisbaixa, o mesmo nenhum afã. Tira pestana ao sol uma jibóia que é só borboletas. Tucanos atrás dos canos, máscara sefardim, arcanos no tutano. Jibóia, no local do crime, desamarram espirais englobando cabras, ovelhas, bois. Chifres da boca para fora — esfinges bucefálicas entre aspas — decompõem pelos mangues o conteúdo: cospem cornos o dobro. Exorbitantes, duram contos de séculos, estabelece Marcgravf, na qualidade de profeta. Vegetam eternidades. Crias? Mudas? Cruzam e descruzam entre si? Não, esse pensamento, não, — é sístole dos climas e sintoma do calor em minha cabeça. Penso mas não compensa: a sibila me belisca, a pitonisa me hipnotiza, me obelisco, essa python medusa e visa, eu paro, viro paupau, pedrapedra. Dédalos de espelho de Elísio, torre babéu, hortus urbis diaboli, furores de Thule, delícias de Menrod, curral do pasmo, cada bicho silencia e seleciona andamentos e paramentos. Bichos bichando, comigo que se passa? Abrir meu coração a Artyczewski. Virá Artyczewski. Nossas manhãs de fala me faltam. Um papagaio pegou meu pensamento, amola palavras em polaco, imitando Articzewski (Cartepanie! Cartepanie!). Bestas geradas no mais aceso fogo do dia... Comer esses animais há de perturbar singularmente as coisas do pensar. Palmilho os dias entre essas bestas estranhas, meus sonhos se populam da estranha fauna e flora: o estalo de coisas, o estalido dos bichos, o estar interessante: a flora fagulha e a fauna floresce... Singulares excessos... In primis cogitationibus circa generationem animalium, de his omnibus non cogitavi. Na boca da espera, Articzewski demora como se o parisse, possesso desta erva de negros que me ministrou, — riamba, pemba, gingongó, chibaba, jererê, monofa, charula, ou pango, tabaqueação de toupinambaoults, gês e negros minas, segundo Marcgravf. Aspirar estes fumos de ervas, encher os peitos nos hálitos deste mato, a essência, a cabeça quieta, ofício de ofídio.
1 490
Afonso X
Cantiga CCXXXII
Como un cavaleiro que andava a caça perdeu o açor, e guando viu que o non podia achar, levou u açor de cera a Vila-Sirga, e achó-o.
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder
a Madre de Jheso-Cristo d' a quena chama valer.
Ca enas enfermidades á ela poder atal,
que as tolle e guarece a quen quer de todo mal,
e outrossi enas perdas ao que a chama val;
e daquest' un gran miragre vos quer' eu ora dizer.
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
En Trevyn[n]' un cavaleiro foi que era caçador,
e perdeu, andand' a caça ha vez, un seu açor
que era fremos' e bõo, demais era sabedor
de fillar ben toda ave que açor dev' a prender.
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
Des y era mui fremoso e ar sabia voar
tan apost' e tan aga, que non ll' achavan seu par
eno reyno de Castela; e un dia, pois jantar,
foi con el fillar perdizes e ouve-o de perder.
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
Tod' aquel dia buscó-o, mais per ren nono achou;
e foi-sse pera ssa terra e seus omees enviou
busca-lo a muitas partes, e por el tanto chorou,
pois viu que o non achavan, que cuidou enssandecer.
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
Assi passou quatro meses, segund[o] eu aprendi,
que o buscou, mais ach[a-lo] non pode, per com' oý;
e con coita mandou cera fillar e disso assy:
«Faça[n]-m' un açor daquesta, ca o quer' yr offerer
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
Aa Virgen groriosa de Vila-Sirga, ca sey
que sse eu aquesto faço, que meu açor acharei.»
E esto foi logo feito, e foi-ss' e, com' apres' ei,
foi aquel açor de cera sobelo altar põer.
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
E rogou Santa Maria, chorando dos ollos seus,
chamando-lle: «Piadosa Virgen [e] Madre de Deus,
Sennor santa e beita, mostra dos miragres teus
por que meu açor non perça, ca ben o podes fazer.»
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
Pois que sa oraçon feita ouve, ar tornou-ss' enton
a ssa casa u morava, chorando de coraçon;
e pois entrou pela porta, catou contra un rancon
e vius seu açor na vara u xe soya põer.
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
Quand' esto viu, os gollos pos en terra, e a faz,
loando Santa Maria que taes miragres faz;
e aa vara foi logo fillar seu açor en paz
ena mão, e a Virgen começou a beizer.
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
1 099
Meridel Le Sueur
Oferece-me refúgio
Meu povo da campina é meu lar
Pássaro eu volto em voo a seus seios.
Fluindo para fora de todo espaço em exílio
Elas oferecem-me refúgio
Para morrer e ressuscitar em sua
floração sazonal.
Meu alimento seus seios
ordenhados pelo vento
para dentro de minha faminta boca urbana.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Offer me refuge
My prairie people are my home
Bird I return flying to their breasts.
Waving out of all exiled space
They offer me refuge
To die and be resurrected in their
seasonal flowering.
My food their breasts
milked by wind
Into my starving city mouth.
.
.
.
360
Meridel Le Sueur
Oferece-me refúgio
Meu povo da campina é meu lar
Pássaro eu volto em voo a seus seios.
Fluindo para fora de todo espaço em exílio
Elas oferecem-me refúgio
Para morrer e ressuscitar em sua
floração sazonal.
Meu alimento seus seios
ordenhados pelo vento
para dentro de minha faminta boca urbana.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Offer me refuge
My prairie people are my home
Bird I return flying to their breasts.
Waving out of all exiled space
They offer me refuge
To die and be resurrected in their
seasonal flowering.
My food their breasts
milked by wind
Into my starving city mouth.
.
.
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360
Alfred Starr Hamilton
Lençóis
Quão maravilhosamente a lua deveria ter sido engomada noite passada
E cuidadosamente mantida em seu lugar
E noite passada eu engomei a lua
E levantei o narciso de volta sobre o topo da margarida
E dobrei o narciso de volta sobre o topo da lua
E cuidadosamente levei a lua escada acima
E mantive a lua no armário de narcisos
A última vez que eu engomei a lua
:
Sheets
How wonderfully the moon was to have been ironed last night
And carefully kept the moon in its place
And last night I ironed the moon
And lifted the daffodil back on top of the daisy
And folded the daffodil back on top of the moon
And carefully carried the moon upstairs
And kept the moon in the daffodil closet
Last time I ironed the moon
651
Alfred Starr Hamilton
Lençóis
Quão maravilhosamente a lua deveria ter sido engomada noite passada
E cuidadosamente mantida em seu lugar
E noite passada eu engomei a lua
E levantei o narciso de volta sobre o topo da margarida
E dobrei o narciso de volta sobre o topo da lua
E cuidadosamente levei a lua escada acima
E mantive a lua no armário de narcisos
A última vez que eu engomei a lua
:
Sheets
How wonderfully the moon was to have been ironed last night
And carefully kept the moon in its place
And last night I ironed the moon
And lifted the daffodil back on top of the daisy
And folded the daffodil back on top of the moon
And carefully carried the moon upstairs
And kept the moon in the daffodil closet
Last time I ironed the moon
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Barbara Guest
Lírios vermelhos
Alguém lembrou-se de secar a louça;
retiraram o acidente do fogão.
Depois, lírios para a janta; ali
as linhas diante da janela
esfregam-se à mesa de pedra
O papel alça voo
e aterrissa à medida que o vento
repete, repete seu canto de ave.
Aqueles braços sob o travesseiro
os braços que escavam que clivam na noite
enquanto o rebocador dá molde à água
chamando-se a si próprios de galhos
É você a árvore
a manta é o que a aquece
neve irrompe do cardo;
a neve derrama de você.
Uma mão fria sobre os pratos
colocando um pires dentro
dela que se despiu para a janta
flutuando aquele cabelo rumo à neve
apagou-se a luz-piloto
do fogão
O papel dobrou-se como um guardanapo
outras asas colidiram com a pedra.
:
Red lillies (in Moscow Mansions, 1973)
Someone has remembered to dry the dishes;
they have taken the accident out of the stove.
Afterwards lilies for supper; there
the lines in front of the window
are rubbed on the table of stone
The paper flies up
then down as the wind
repeats, repeats its birdsong.
Those arms under the pillow
the burrowing arms they cleave
at night as the tug kneads water
calling themselves branches
The tree is you
the blanked is what warms it
snow erupts from thistle;
the snow pours out of you.
A cold hand on the dishes
placing a saucer inside
her who undressed for supper
gliding that hair to the snow
The pilot light
went out of the stove
The paper folded like a napkin
other wings flew into the stone.
.
.
.
retiraram o acidente do fogão.
Depois, lírios para a janta; ali
as linhas diante da janela
esfregam-se à mesa de pedra
O papel alça voo
e aterrissa à medida que o vento
repete, repete seu canto de ave.
Aqueles braços sob o travesseiro
os braços que escavam que clivam na noite
enquanto o rebocador dá molde à água
chamando-se a si próprios de galhos
É você a árvore
a manta é o que a aquece
neve irrompe do cardo;
a neve derrama de você.
Uma mão fria sobre os pratos
colocando um pires dentro
dela que se despiu para a janta
flutuando aquele cabelo rumo à neve
apagou-se a luz-piloto
do fogão
O papel dobrou-se como um guardanapo
outras asas colidiram com a pedra.
:
Red lillies (in Moscow Mansions, 1973)
Someone has remembered to dry the dishes;
they have taken the accident out of the stove.
Afterwards lilies for supper; there
the lines in front of the window
are rubbed on the table of stone
The paper flies up
then down as the wind
repeats, repeats its birdsong.
Those arms under the pillow
the burrowing arms they cleave
at night as the tug kneads water
calling themselves branches
The tree is you
the blanked is what warms it
snow erupts from thistle;
the snow pours out of you.
A cold hand on the dishes
placing a saucer inside
her who undressed for supper
gliding that hair to the snow
The pilot light
went out of the stove
The paper folded like a napkin
other wings flew into the stone.
.
.
.
675
Barbara Guest
Lírios vermelhos
Alguém lembrou-se de secar a louça;
retiraram o acidente do fogão.
Depois, lírios para a janta; ali
as linhas diante da janela
esfregam-se à mesa de pedra
O papel alça voo
e aterrissa à medida que o vento
repete, repete seu canto de ave.
Aqueles braços sob o travesseiro
os braços que escavam que clivam na noite
enquanto o rebocador dá molde à água
chamando-se a si próprios de galhos
É você a árvore
a manta é o que a aquece
neve irrompe do cardo;
a neve derrama de você.
Uma mão fria sobre os pratos
colocando um pires dentro
dela que se despiu para a janta
flutuando aquele cabelo rumo à neve
apagou-se a luz-piloto
do fogão
O papel dobrou-se como um guardanapo
outras asas colidiram com a pedra.
:
Red lillies (in Moscow Mansions, 1973)
Someone has remembered to dry the dishes;
they have taken the accident out of the stove.
Afterwards lilies for supper; there
the lines in front of the window
are rubbed on the table of stone
The paper flies up
then down as the wind
repeats, repeats its birdsong.
Those arms under the pillow
the burrowing arms they cleave
at night as the tug kneads water
calling themselves branches
The tree is you
the blanked is what warms it
snow erupts from thistle;
the snow pours out of you.
A cold hand on the dishes
placing a saucer inside
her who undressed for supper
gliding that hair to the snow
The pilot light
went out of the stove
The paper folded like a napkin
other wings flew into the stone.
.
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retiraram o acidente do fogão.
Depois, lírios para a janta; ali
as linhas diante da janela
esfregam-se à mesa de pedra
O papel alça voo
e aterrissa à medida que o vento
repete, repete seu canto de ave.
Aqueles braços sob o travesseiro
os braços que escavam que clivam na noite
enquanto o rebocador dá molde à água
chamando-se a si próprios de galhos
É você a árvore
a manta é o que a aquece
neve irrompe do cardo;
a neve derrama de você.
Uma mão fria sobre os pratos
colocando um pires dentro
dela que se despiu para a janta
flutuando aquele cabelo rumo à neve
apagou-se a luz-piloto
do fogão
O papel dobrou-se como um guardanapo
outras asas colidiram com a pedra.
:
Red lillies (in Moscow Mansions, 1973)
Someone has remembered to dry the dishes;
they have taken the accident out of the stove.
Afterwards lilies for supper; there
the lines in front of the window
are rubbed on the table of stone
The paper flies up
then down as the wind
repeats, repeats its birdsong.
Those arms under the pillow
the burrowing arms they cleave
at night as the tug kneads water
calling themselves branches
The tree is you
the blanked is what warms it
snow erupts from thistle;
the snow pours out of you.
A cold hand on the dishes
placing a saucer inside
her who undressed for supper
gliding that hair to the snow
The pilot light
went out of the stove
The paper folded like a napkin
other wings flew into the stone.
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