Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Machado de Assis
O Verme
Existe uma flor que encerra
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benéfica de um nume.
Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flor virginal
E vai dormir-lhe no seio.
Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flor o cálix inclina;
As folhas, leva-as o vento,
Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão...
Esta flor é o coração,
Aquele verme o ciúme.
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Vária.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.52. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benéfica de um nume.
Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flor virginal
E vai dormir-lhe no seio.
Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flor o cálix inclina;
As folhas, leva-as o vento,
Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão...
Esta flor é o coração,
Aquele verme o ciúme.
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Vária.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.52. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
7 819
Eduardo Guimaraens
Doçura de estar só quando a alma torce as mãos
Doçura de estar só quando a alma torce as mãos!
— Oh! doçura que tu, silêncio, unicamente
sabes dar a quem sonha e sofre em ser o Ausente,
ao lento perpassar destes instantes vãos!
Doçura de estar só quando alguém pensa em nós!
De amar e de evocar, pelo esplendor secreto
e pálido de uma hora em que ao seu lábio inquieto
floresce, como um lírio estranho, a Sua voz!
E os lustres de cristal! E as teclas de marfim!
E os candelabros que, olvidados, se apagaram!
(E a saudade, acordando as vozes que calaram!
Doçura de estar só quando finda o festim!
Doçura de estar só, calado e sem ninguém!
Dolência de um murmúrio em flor que a sombra exala,
sob o fulgor da noite aureolada de opala
que uma urna de astros de ouro ao seio azul sustem!
Doçura de estar só! Silêncio e solidão!
Ó fantasma que vens do sonho e do abandono,
dá-me que eu durma ao pé de ti do mesmo sono!
Fecha entre as tuas mãos as minhas mãos de irmão!
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 194
— Oh! doçura que tu, silêncio, unicamente
sabes dar a quem sonha e sofre em ser o Ausente,
ao lento perpassar destes instantes vãos!
Doçura de estar só quando alguém pensa em nós!
De amar e de evocar, pelo esplendor secreto
e pálido de uma hora em que ao seu lábio inquieto
floresce, como um lírio estranho, a Sua voz!
E os lustres de cristal! E as teclas de marfim!
E os candelabros que, olvidados, se apagaram!
(E a saudade, acordando as vozes que calaram!
Doçura de estar só quando finda o festim!
Doçura de estar só, calado e sem ninguém!
Dolência de um murmúrio em flor que a sombra exala,
sob o fulgor da noite aureolada de opala
que uma urna de astros de ouro ao seio azul sustem!
Doçura de estar só! Silêncio e solidão!
Ó fantasma que vens do sonho e do abandono,
dá-me que eu durma ao pé de ti do mesmo sono!
Fecha entre as tuas mãos as minhas mãos de irmão!
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 194
1 201
Eduardo Guimaraens
Canto do Velho Minuano
Sutil, sutílimo, um tanto lento,
logo subindo, como se a voz
de alguém vibrasse, na altura, do vento
do Pampa se ergue, chama por nós!
Terrível, uiva! Mas, nessa grita,
que de hinos claros! E desvairada,
por sobre as cousas se precipita,
sopra, sibila, silva a lufada!
Quase torrente que se encapela,
serpeia, aéreo mar, o tufão,
mais cheio de ondas do que a procela
que a pique os barcos põe, de roldão!
Assim, o vento da minha terra,
em vindo o inverno que os campos tala,
solta o seu forte brado de guerra!
Tinem espadads e há trons de bala...
Todo o passado! Todo! Ora, os que amam
— poetas! — a alma do seu país,
sentem-na, em ritmos que se derramam
pelo ar das noites, cantar, feliz,
no imenso vento, que o Pampa atroa
e gela, e grosso de rebeldias,
águia suprema, sem pausas, voa
três longas noites, três longos dias.
Porque nos giros do seu insano
desregramento, do seu furor,
sempre saudável, o Minuano
é também uma força de amor!
Seca as chuvadas, áspero e frio,
e aclara a abóboda azul-celeste
— Quebram violas ao desafio... —
o meteoro que vem do Oeste!
Desfaz as nuvens, que o raio encerra.
Limpa os céus, funde-os como metais...
(Divinas tardes da minha terra!
Céus dos crepúsculos sem iguais!)
Quando entra as frinchas de cada porta,
faz-se acalanto com que adormecem,
— se acaso acordam, por noite, morta, —
os bebês frágeis que as mães aquecem!
Na solitude dos campos, à hora,
cheia de graça, do anoitecer,
tu retransmites espaço em fora
o som dos sinos, que ensina a crer!
E ao mesmo tempo, rural e urbano,
que retemperas o corpo e a alma,
nos estimulas, ó Minuano,
com os acenos da melhor palma!
Quis, no meu canto, se é que ele encerra
um eco apenas do teu — ou não,
louvar-te, ó vento da minha terra!
Fôlego largo do meu torrão!
Imagem - 00350001
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Cantos da Terra Natal
logo subindo, como se a voz
de alguém vibrasse, na altura, do vento
do Pampa se ergue, chama por nós!
Terrível, uiva! Mas, nessa grita,
que de hinos claros! E desvairada,
por sobre as cousas se precipita,
sopra, sibila, silva a lufada!
Quase torrente que se encapela,
serpeia, aéreo mar, o tufão,
mais cheio de ondas do que a procela
que a pique os barcos põe, de roldão!
Assim, o vento da minha terra,
em vindo o inverno que os campos tala,
solta o seu forte brado de guerra!
Tinem espadads e há trons de bala...
Todo o passado! Todo! Ora, os que amam
— poetas! — a alma do seu país,
sentem-na, em ritmos que se derramam
pelo ar das noites, cantar, feliz,
no imenso vento, que o Pampa atroa
e gela, e grosso de rebeldias,
águia suprema, sem pausas, voa
três longas noites, três longos dias.
Porque nos giros do seu insano
desregramento, do seu furor,
sempre saudável, o Minuano
é também uma força de amor!
Seca as chuvadas, áspero e frio,
e aclara a abóboda azul-celeste
— Quebram violas ao desafio... —
o meteoro que vem do Oeste!
Desfaz as nuvens, que o raio encerra.
Limpa os céus, funde-os como metais...
(Divinas tardes da minha terra!
Céus dos crepúsculos sem iguais!)
Quando entra as frinchas de cada porta,
faz-se acalanto com que adormecem,
— se acaso acordam, por noite, morta, —
os bebês frágeis que as mães aquecem!
Na solitude dos campos, à hora,
cheia de graça, do anoitecer,
tu retransmites espaço em fora
o som dos sinos, que ensina a crer!
E ao mesmo tempo, rural e urbano,
que retemperas o corpo e a alma,
nos estimulas, ó Minuano,
com os acenos da melhor palma!
Quis, no meu canto, se é que ele encerra
um eco apenas do teu — ou não,
louvar-te, ó vento da minha terra!
Fôlego largo do meu torrão!
Imagem - 00350001
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Cantos da Terra Natal
1 446
Eduardo Guimaraens
Canto do Velho Minuano
Sutil, sutílimo, um tanto lento,
logo subindo, como se a voz
de alguém vibrasse, na altura, do vento
do Pampa se ergue, chama por nós!
Terrível, uiva! Mas, nessa grita,
que de hinos claros! E desvairada,
por sobre as cousas se precipita,
sopra, sibila, silva a lufada!
Quase torrente que se encapela,
serpeia, aéreo mar, o tufão,
mais cheio de ondas do que a procela
que a pique os barcos põe, de roldão!
Assim, o vento da minha terra,
em vindo o inverno que os campos tala,
solta o seu forte brado de guerra!
Tinem espadads e há trons de bala...
Todo o passado! Todo! Ora, os que amam
— poetas! — a alma do seu país,
sentem-na, em ritmos que se derramam
pelo ar das noites, cantar, feliz,
no imenso vento, que o Pampa atroa
e gela, e grosso de rebeldias,
águia suprema, sem pausas, voa
três longas noites, três longos dias.
Porque nos giros do seu insano
desregramento, do seu furor,
sempre saudável, o Minuano
é também uma força de amor!
Seca as chuvadas, áspero e frio,
e aclara a abóboda azul-celeste
— Quebram violas ao desafio... —
o meteoro que vem do Oeste!
Desfaz as nuvens, que o raio encerra.
Limpa os céus, funde-os como metais...
(Divinas tardes da minha terra!
Céus dos crepúsculos sem iguais!)
Quando entra as frinchas de cada porta,
faz-se acalanto com que adormecem,
— se acaso acordam, por noite, morta, —
os bebês frágeis que as mães aquecem!
Na solitude dos campos, à hora,
cheia de graça, do anoitecer,
tu retransmites espaço em fora
o som dos sinos, que ensina a crer!
E ao mesmo tempo, rural e urbano,
que retemperas o corpo e a alma,
nos estimulas, ó Minuano,
com os acenos da melhor palma!
Quis, no meu canto, se é que ele encerra
um eco apenas do teu — ou não,
louvar-te, ó vento da minha terra!
Fôlego largo do meu torrão!
Imagem - 00350001
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Cantos da Terra Natal
logo subindo, como se a voz
de alguém vibrasse, na altura, do vento
do Pampa se ergue, chama por nós!
Terrível, uiva! Mas, nessa grita,
que de hinos claros! E desvairada,
por sobre as cousas se precipita,
sopra, sibila, silva a lufada!
Quase torrente que se encapela,
serpeia, aéreo mar, o tufão,
mais cheio de ondas do que a procela
que a pique os barcos põe, de roldão!
Assim, o vento da minha terra,
em vindo o inverno que os campos tala,
solta o seu forte brado de guerra!
Tinem espadads e há trons de bala...
Todo o passado! Todo! Ora, os que amam
— poetas! — a alma do seu país,
sentem-na, em ritmos que se derramam
pelo ar das noites, cantar, feliz,
no imenso vento, que o Pampa atroa
e gela, e grosso de rebeldias,
águia suprema, sem pausas, voa
três longas noites, três longos dias.
Porque nos giros do seu insano
desregramento, do seu furor,
sempre saudável, o Minuano
é também uma força de amor!
Seca as chuvadas, áspero e frio,
e aclara a abóboda azul-celeste
— Quebram violas ao desafio... —
o meteoro que vem do Oeste!
Desfaz as nuvens, que o raio encerra.
Limpa os céus, funde-os como metais...
(Divinas tardes da minha terra!
Céus dos crepúsculos sem iguais!)
Quando entra as frinchas de cada porta,
faz-se acalanto com que adormecem,
— se acaso acordam, por noite, morta, —
os bebês frágeis que as mães aquecem!
Na solitude dos campos, à hora,
cheia de graça, do anoitecer,
tu retransmites espaço em fora
o som dos sinos, que ensina a crer!
E ao mesmo tempo, rural e urbano,
que retemperas o corpo e a alma,
nos estimulas, ó Minuano,
com os acenos da melhor palma!
Quis, no meu canto, se é que ele encerra
um eco apenas do teu — ou não,
louvar-te, ó vento da minha terra!
Fôlego largo do meu torrão!
Imagem - 00350001
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Cantos da Terra Natal
1 446
Eduardo Guimaraens
Na solidão do parque abandonado
Na solidão do parque abandonado,
chora, abraçado às àrvores, o vento.
Ouve-se da água o trêmulo lamento
sobre as conchas de mármore gelado.
Sobe, lúcida, a lua. Solitário,
foge smorzando, sob o azul sereno,
como um grito de amor, o último treno
do último e doloroso stradivário.
— "Oh, dá-me o teu desejo! Sob o vasto,
noturno encanto, dá-me o teu desejo!
Quero a tua alma que, entre os lírios, vejo
como outro lírio, luminoso e casto!
Por que te afastas sempre do meu passo?
Sou o mudo exilado do teu seio...
Não sentirás jamais o meu anseio?
Levam-me o Amor e a Morte, pelo braço."
Que estranha insônia acorda o mal pressago,
vem despertar o antigo pesadelo?
Pudesse a lua, ao menos, compreendê-lo!
Perde-se, ao longe, o último acorde vago.
Sobre as conchas de mármore, gelado,
não se ouve mais o trêmulo lamento.
Queda-se a lua. Silencia o vento.
Dorme, sombrio, o parque do Passado.
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 194
chora, abraçado às àrvores, o vento.
Ouve-se da água o trêmulo lamento
sobre as conchas de mármore gelado.
Sobe, lúcida, a lua. Solitário,
foge smorzando, sob o azul sereno,
como um grito de amor, o último treno
do último e doloroso stradivário.
— "Oh, dá-me o teu desejo! Sob o vasto,
noturno encanto, dá-me o teu desejo!
Quero a tua alma que, entre os lírios, vejo
como outro lírio, luminoso e casto!
Por que te afastas sempre do meu passo?
Sou o mudo exilado do teu seio...
Não sentirás jamais o meu anseio?
Levam-me o Amor e a Morte, pelo braço."
Que estranha insônia acorda o mal pressago,
vem despertar o antigo pesadelo?
Pudesse a lua, ao menos, compreendê-lo!
Perde-se, ao longe, o último acorde vago.
Sobre as conchas de mármore, gelado,
não se ouve mais o trêmulo lamento.
Queda-se a lua. Silencia o vento.
Dorme, sombrio, o parque do Passado.
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 194
1 211
Arlindo Barbeitos
Mão Frágil
em mão frágil de amarelo
se quebra o galho de gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
sussurrar de vento
não é voz de capim crescendo
é murmúrio impaciente
de gentes
no azul de parte alguma
em mão frágil de amarelo
se quebra o galho da gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
se quebra o galho de gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
sussurrar de vento
não é voz de capim crescendo
é murmúrio impaciente
de gentes
no azul de parte alguma
em mão frágil de amarelo
se quebra o galho da gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
1 693
Torquato Neto
A Rua
toda rua tem seu curso
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba
de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos correndo
atrás de bandas
atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão
de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão
ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu
ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gi
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba
de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos correndo
atrás de bandas
atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão
de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão
ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu
ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gi
2 029
Raimundo Correia
Tristeza de Momo
Pela primeira vez, ímpias risadas
Susta em prantos o deus da zombaria;
Chora, e vingam-se dele, nesse dia,
Os silvanos e as ninfas ultrajadas;
Trovejam bocas mil escancaradas,
Rindo; arrombam-se os diques da alegria,
E estoira descomposta vozeria
Por toda a selva, e apupos e pedradas.
Fauno o indigita; a Náiade o caçoa;
Sátiros vis, da mais indigna laia,
Zombam. Não há quem dele se condoa!
E Eco propaga a formidável vaia,
Que além, por fundos boqueirões reboa,
E, como um largo mar, rola e se espraia...
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.8
Susta em prantos o deus da zombaria;
Chora, e vingam-se dele, nesse dia,
Os silvanos e as ninfas ultrajadas;
Trovejam bocas mil escancaradas,
Rindo; arrombam-se os diques da alegria,
E estoira descomposta vozeria
Por toda a selva, e apupos e pedradas.
Fauno o indigita; a Náiade o caçoa;
Sátiros vis, da mais indigna laia,
Zombam. Não há quem dele se condoa!
E Eco propaga a formidável vaia,
Que além, por fundos boqueirões reboa,
E, como um largo mar, rola e se espraia...
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.8
3 464
Zeto Cunha Gonçalves
Escorraçados da morte
Escorraçados da morte
soletram
a nómada caligrafia dos pássaros.
Soletram - e soletram:
alfabeto de passos, um linguajar de setas
envenenadas petras.
Da Lua viemos, nascemos - obrigado,
Paizinho. Escorraçados da morte
a terra nos levará à água?
Sem mapas nem sentido
do regresso - nosso è o fogo
passo a passo em rições guardado.
E as matas - para ainda sobreviver.
Escorraçados da morte
soletram
a nómada caligrafia dos pássaros.
Soletram - e soletram:
alfabeto de passos, um linguajar
de setas
envenenadas pedras.
soletram
a nómada caligrafia dos pássaros.
Soletram - e soletram:
alfabeto de passos, um linguajar de setas
envenenadas petras.
Da Lua viemos, nascemos - obrigado,
Paizinho. Escorraçados da morte
a terra nos levará à água?
Sem mapas nem sentido
do regresso - nosso è o fogo
passo a passo em rições guardado.
E as matas - para ainda sobreviver.
Escorraçados da morte
soletram
a nómada caligrafia dos pássaros.
Soletram - e soletram:
alfabeto de passos, um linguajar
de setas
envenenadas pedras.
990
Sousândrade
Harpa XXXV - Visões
..........................................
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!
(...)
Imagem - 00310003
Poema integrante da série Noites.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!
(...)
Imagem - 00310003
Poema integrante da série Noites.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
2 606
Sousândrade
Harpa XXXV - Visões
..........................................
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!
(...)
Imagem - 00310003
Poema integrante da série Noites.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!
(...)
Imagem - 00310003
Poema integrante da série Noites.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
2 606
Sousândrade
Harpa XXXV - Visões
..........................................
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!
(...)
Imagem - 00310003
Poema integrante da série Noites.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!
(...)
Imagem - 00310003
Poema integrante da série Noites.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
2 606
Sousândrade
Harpa XXXV - Visões
..........................................
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!
(...)
Imagem - 00310003
Poema integrante da série Noites.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!
(...)
Imagem - 00310003
Poema integrante da série Noites.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
2 606
Machado de Assis
O Poeta a Rir
Taça d'água parece o lago ameno;
Têm os bambus a forma de cabanas,
Que as árvores em flor, mais altas, cobrem
Com verdejantes tetos.
As pontiagudas rochas entre flores,
Dos pagodes o grave aspecto ostentam...
Faz-me rir ver-te assim, ó natureza,
Cópia servil dos homens.
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Lira Chinesa.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.53. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
NOTA: Paráfrase de poema de Han-Tiê, poeta chinês, baseada em tradução em prosa feita por Judith Walter em 186
Têm os bambus a forma de cabanas,
Que as árvores em flor, mais altas, cobrem
Com verdejantes tetos.
As pontiagudas rochas entre flores,
Dos pagodes o grave aspecto ostentam...
Faz-me rir ver-te assim, ó natureza,
Cópia servil dos homens.
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Lira Chinesa.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.53. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
NOTA: Paráfrase de poema de Han-Tiê, poeta chinês, baseada em tradução em prosa feita por Judith Walter em 186
1 930
Cruz e Sousa
Monja Negra
É teu esse espaço, é teu todo o Infinito,
transcendente Visão das lágrimas nascida,
bendito o teu sentir, para sempre bendito
todo o teu divagar na Esfera indefinida!
Através de teu luto as estrelas meditam
maravilhosamente e vaporosamente;
como olhos celestiais dos Arcanjos nos fitam
lá do fundo negror do teu luto plangente.
Almas sem rumo já, corações sem destino
vão em busca de ti, por vastidões incertas...
E no teu sonho astral, mago e luciferino,
encontram para o amor grandes portas abertas.
(...)
Ó Monja soluçante! Ó Monja soluçante,
Ó Monja do Perdão, da paz e da clemência,
leva para bem longe este Desejo errante,
desta febre letal toda secreta essência.
(...)
Ah! Noite original, noite desconsolada,
Monja da solidão, espiritual e augusta,
onde fica o teu reino, a região vedada,
a região secreta, a região vetusta?!
Almas dos que não têm o Refúgio supremo
de altas contemplações, dos mais altos mistérios,
vinde sentir da Noite o Isolamento extremo,
os fluidos imortais, angelicais, etéreos.
Vinde ver como são mais castos e mais belos,
mais puros que os do dia os noturnos vapores:
por toda a parte no ar levantam-se castelos
e nos parques do céu há quermesses de amores.
(...)
Ó grande Monja negra e transfiguradora,
magia sem igual do páramos eternos,
quem assim te criou, selvagem Sonhadora,
da carícia de céus e do negror d'infernos?
Quem auréolas te deu assim miraculosas
e todo o estranho assombro e todo o estranho medo,
quem pôs na tua treva ondulações nervosas,
e mudez e silêncio e sombras e segredo?
Mas ah! quanto consolo andar errando, errando,
perdido no teu Bem, perdido nos teus braços,
nos noivados da Morte andar além sonhando,
na unção sacramental dos teus negros Espaços!
(...)
Faz descer sobre mim os brandos véus da calma,
sinfonia da Dor, ó Sinfonia muda,
voz de todo o meu Sonho, ó noiva da minh'alma,
fantasma inspirador das Religiões de Buda.
Ó negra Monja triste, ó grande Soberana,
tentadora Visão que me seduzes tanto,
abençoa meu ser no teu doce Nirvana,
no teu Sepulcro ideal de desolado encanto!
Hóstia negra e feral da comunhão dos mortos,
noite criadora, mãe dos gnomos, dos vampiros,
passageira senil dos encantados portos,
ó cego sem bordão da torre dos suspiros...
Abençoa meu ser, unge-o dos óleos castos,
enche-o de turbilhões de sonâmbulas aves,
para eu me difundir nos teus Sacrários vastos,
para me consolar com os teus Silêncios graves.
Imagem - 00140001
Publicado no livro Faróis (1900).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
transcendente Visão das lágrimas nascida,
bendito o teu sentir, para sempre bendito
todo o teu divagar na Esfera indefinida!
Através de teu luto as estrelas meditam
maravilhosamente e vaporosamente;
como olhos celestiais dos Arcanjos nos fitam
lá do fundo negror do teu luto plangente.
Almas sem rumo já, corações sem destino
vão em busca de ti, por vastidões incertas...
E no teu sonho astral, mago e luciferino,
encontram para o amor grandes portas abertas.
(...)
Ó Monja soluçante! Ó Monja soluçante,
Ó Monja do Perdão, da paz e da clemência,
leva para bem longe este Desejo errante,
desta febre letal toda secreta essência.
(...)
Ah! Noite original, noite desconsolada,
Monja da solidão, espiritual e augusta,
onde fica o teu reino, a região vedada,
a região secreta, a região vetusta?!
Almas dos que não têm o Refúgio supremo
de altas contemplações, dos mais altos mistérios,
vinde sentir da Noite o Isolamento extremo,
os fluidos imortais, angelicais, etéreos.
Vinde ver como são mais castos e mais belos,
mais puros que os do dia os noturnos vapores:
por toda a parte no ar levantam-se castelos
e nos parques do céu há quermesses de amores.
(...)
Ó grande Monja negra e transfiguradora,
magia sem igual do páramos eternos,
quem assim te criou, selvagem Sonhadora,
da carícia de céus e do negror d'infernos?
Quem auréolas te deu assim miraculosas
e todo o estranho assombro e todo o estranho medo,
quem pôs na tua treva ondulações nervosas,
e mudez e silêncio e sombras e segredo?
Mas ah! quanto consolo andar errando, errando,
perdido no teu Bem, perdido nos teus braços,
nos noivados da Morte andar além sonhando,
na unção sacramental dos teus negros Espaços!
(...)
Faz descer sobre mim os brandos véus da calma,
sinfonia da Dor, ó Sinfonia muda,
voz de todo o meu Sonho, ó noiva da minh'alma,
fantasma inspirador das Religiões de Buda.
Ó negra Monja triste, ó grande Soberana,
tentadora Visão que me seduzes tanto,
abençoa meu ser no teu doce Nirvana,
no teu Sepulcro ideal de desolado encanto!
Hóstia negra e feral da comunhão dos mortos,
noite criadora, mãe dos gnomos, dos vampiros,
passageira senil dos encantados portos,
ó cego sem bordão da torre dos suspiros...
Abençoa meu ser, unge-o dos óleos castos,
enche-o de turbilhões de sonâmbulas aves,
para eu me difundir nos teus Sacrários vastos,
para me consolar com os teus Silêncios graves.
Imagem - 00140001
Publicado no livro Faróis (1900).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
3 879
Sousândrade
Harpa XXIV - O Inverno
(...)
Salve! felicidade melancólica,
Doce estação da sombra e dos amores-
Eu amo o inverno do equador brilhante!
A terra me parece mais sensível.
Aqui as virgens não se despem negras
À voz do outono desdenhoso e déspota,
Ai delas fossem irmãs, filhas dos homens!
Aqui dos montes não nos foge o trono
Dessas aves perdidas, nem do prado
Desaparece a flor. A cobra mansa,
Cor d'azougue, tardia, umbrosa e dúctil,
No marfim do caminho endurecido
Serpenteia, como onda de cabelos
Da formosura no ombro. À noite a lua,
Qual minha amante d'inocente riso,
Co'a face branca assenta-se nas palmas
Da montanha estendendo os seus candores,
Mãe da poesia, solitária, errante:
O sol nem queima o céu como os desertos,
Simpáticas manhãs é sempre o dia.
Geme às canções d'aldeia apaixonadas
Mui saudoso violão: as vozes cantam
Com náutico e celeste modulado.
Chama às tácitas asas o silêncio
Ao repouso, aos amores: as torrentes
Prolongam uma saudade que medita:
Vaga contemplação descora um pouco
O adolescente e o velho: doce e triste
Eu vejo o meu sentir a natureza
Respirar do equador, selvagem bela
De olhos alados de viver, à sombra
Adormecendo d'árvore espaçosa.
(...)
Poema integrante da série Estâncias.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
Salve! felicidade melancólica,
Doce estação da sombra e dos amores-
Eu amo o inverno do equador brilhante!
A terra me parece mais sensível.
Aqui as virgens não se despem negras
À voz do outono desdenhoso e déspota,
Ai delas fossem irmãs, filhas dos homens!
Aqui dos montes não nos foge o trono
Dessas aves perdidas, nem do prado
Desaparece a flor. A cobra mansa,
Cor d'azougue, tardia, umbrosa e dúctil,
No marfim do caminho endurecido
Serpenteia, como onda de cabelos
Da formosura no ombro. À noite a lua,
Qual minha amante d'inocente riso,
Co'a face branca assenta-se nas palmas
Da montanha estendendo os seus candores,
Mãe da poesia, solitária, errante:
O sol nem queima o céu como os desertos,
Simpáticas manhãs é sempre o dia.
Geme às canções d'aldeia apaixonadas
Mui saudoso violão: as vozes cantam
Com náutico e celeste modulado.
Chama às tácitas asas o silêncio
Ao repouso, aos amores: as torrentes
Prolongam uma saudade que medita:
Vaga contemplação descora um pouco
O adolescente e o velho: doce e triste
Eu vejo o meu sentir a natureza
Respirar do equador, selvagem bela
De olhos alados de viver, à sombra
Adormecendo d'árvore espaçosa.
(...)
Poema integrante da série Estâncias.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
3 623
Sousândrade
Harpa XXIV - O Inverno
(...)
Salve! felicidade melancólica,
Doce estação da sombra e dos amores-
Eu amo o inverno do equador brilhante!
A terra me parece mais sensível.
Aqui as virgens não se despem negras
À voz do outono desdenhoso e déspota,
Ai delas fossem irmãs, filhas dos homens!
Aqui dos montes não nos foge o trono
Dessas aves perdidas, nem do prado
Desaparece a flor. A cobra mansa,
Cor d'azougue, tardia, umbrosa e dúctil,
No marfim do caminho endurecido
Serpenteia, como onda de cabelos
Da formosura no ombro. À noite a lua,
Qual minha amante d'inocente riso,
Co'a face branca assenta-se nas palmas
Da montanha estendendo os seus candores,
Mãe da poesia, solitária, errante:
O sol nem queima o céu como os desertos,
Simpáticas manhãs é sempre o dia.
Geme às canções d'aldeia apaixonadas
Mui saudoso violão: as vozes cantam
Com náutico e celeste modulado.
Chama às tácitas asas o silêncio
Ao repouso, aos amores: as torrentes
Prolongam uma saudade que medita:
Vaga contemplação descora um pouco
O adolescente e o velho: doce e triste
Eu vejo o meu sentir a natureza
Respirar do equador, selvagem bela
De olhos alados de viver, à sombra
Adormecendo d'árvore espaçosa.
(...)
Poema integrante da série Estâncias.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
Salve! felicidade melancólica,
Doce estação da sombra e dos amores-
Eu amo o inverno do equador brilhante!
A terra me parece mais sensível.
Aqui as virgens não se despem negras
À voz do outono desdenhoso e déspota,
Ai delas fossem irmãs, filhas dos homens!
Aqui dos montes não nos foge o trono
Dessas aves perdidas, nem do prado
Desaparece a flor. A cobra mansa,
Cor d'azougue, tardia, umbrosa e dúctil,
No marfim do caminho endurecido
Serpenteia, como onda de cabelos
Da formosura no ombro. À noite a lua,
Qual minha amante d'inocente riso,
Co'a face branca assenta-se nas palmas
Da montanha estendendo os seus candores,
Mãe da poesia, solitária, errante:
O sol nem queima o céu como os desertos,
Simpáticas manhãs é sempre o dia.
Geme às canções d'aldeia apaixonadas
Mui saudoso violão: as vozes cantam
Com náutico e celeste modulado.
Chama às tácitas asas o silêncio
Ao repouso, aos amores: as torrentes
Prolongam uma saudade que medita:
Vaga contemplação descora um pouco
O adolescente e o velho: doce e triste
Eu vejo o meu sentir a natureza
Respirar do equador, selvagem bela
De olhos alados de viver, à sombra
Adormecendo d'árvore espaçosa.
(...)
Poema integrante da série Estâncias.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
3 623
Sousândrade
Harpa XXIV - O Inverno
(...)
Salve! felicidade melancólica,
Doce estação da sombra e dos amores-
Eu amo o inverno do equador brilhante!
A terra me parece mais sensível.
Aqui as virgens não se despem negras
À voz do outono desdenhoso e déspota,
Ai delas fossem irmãs, filhas dos homens!
Aqui dos montes não nos foge o trono
Dessas aves perdidas, nem do prado
Desaparece a flor. A cobra mansa,
Cor d'azougue, tardia, umbrosa e dúctil,
No marfim do caminho endurecido
Serpenteia, como onda de cabelos
Da formosura no ombro. À noite a lua,
Qual minha amante d'inocente riso,
Co'a face branca assenta-se nas palmas
Da montanha estendendo os seus candores,
Mãe da poesia, solitária, errante:
O sol nem queima o céu como os desertos,
Simpáticas manhãs é sempre o dia.
Geme às canções d'aldeia apaixonadas
Mui saudoso violão: as vozes cantam
Com náutico e celeste modulado.
Chama às tácitas asas o silêncio
Ao repouso, aos amores: as torrentes
Prolongam uma saudade que medita:
Vaga contemplação descora um pouco
O adolescente e o velho: doce e triste
Eu vejo o meu sentir a natureza
Respirar do equador, selvagem bela
De olhos alados de viver, à sombra
Adormecendo d'árvore espaçosa.
(...)
Poema integrante da série Estâncias.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
Salve! felicidade melancólica,
Doce estação da sombra e dos amores-
Eu amo o inverno do equador brilhante!
A terra me parece mais sensível.
Aqui as virgens não se despem negras
À voz do outono desdenhoso e déspota,
Ai delas fossem irmãs, filhas dos homens!
Aqui dos montes não nos foge o trono
Dessas aves perdidas, nem do prado
Desaparece a flor. A cobra mansa,
Cor d'azougue, tardia, umbrosa e dúctil,
No marfim do caminho endurecido
Serpenteia, como onda de cabelos
Da formosura no ombro. À noite a lua,
Qual minha amante d'inocente riso,
Co'a face branca assenta-se nas palmas
Da montanha estendendo os seus candores,
Mãe da poesia, solitária, errante:
O sol nem queima o céu como os desertos,
Simpáticas manhãs é sempre o dia.
Geme às canções d'aldeia apaixonadas
Mui saudoso violão: as vozes cantam
Com náutico e celeste modulado.
Chama às tácitas asas o silêncio
Ao repouso, aos amores: as torrentes
Prolongam uma saudade que medita:
Vaga contemplação descora um pouco
O adolescente e o velho: doce e triste
Eu vejo o meu sentir a natureza
Respirar do equador, selvagem bela
De olhos alados de viver, à sombra
Adormecendo d'árvore espaçosa.
(...)
Poema integrante da série Estâncias.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
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Olegário Mariano
Arco-Íris
Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.
A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:
"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."
De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.
Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).
In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.
A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:
"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."
De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.
Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).
In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
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Olegário Mariano
Arco-Íris
Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.
A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:
"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."
De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.
Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).
In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.
A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:
"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."
De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.
Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).
In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
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Olegário Mariano
Arco-Íris
Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.
A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:
"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."
De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.
Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).
In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.
A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:
"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."
De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.
Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).
In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
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Vicente de Carvalho
Sugestões do Crepúsculo
Estranha voz, estranha prece
Aquela prece e aquela voz,
Cuja humildade nem parece
Provir do mar bruto e feroz;
Do mar, pagão criado às soltas
Na solidão, e cuja vida
Corre, agitada e desabrida,
Em turbilhões de ondas revoltas;
Cuja ternura assustadora
Agride a tudo que ama e quer,
E vai, nas praias onde estoura,
Tanto beijar como morder...
Torvo gigante repelido
Numa paixão lasciva e louca,
É todo fúria: em sua boca
Blasfema a dor, mora o rugido.
Sonha a nudez: brutal e impuro,
Branco de espuma, ébrio de amor,
Tenta despir o seio duro
E virginal da terra em flor.
Debalde a terra em flor, com o fito
De lhe escapar, se esconde — e anseia
Atrás de cômoros de areia
E de penhascos de granito:
No encalço dessa esquiva amante
Que se lhe furta, segue o mar;
Segue, e as maretas solta adiante
Como matilha, a farejar.
E, achado o rastro, vai com as suas
Ondas, e a sua espumarada
Lamber, na terra devastada,
Barrancos nus e rochas nuas...
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
Aquela prece e aquela voz,
Cuja humildade nem parece
Provir do mar bruto e feroz;
Do mar, pagão criado às soltas
Na solidão, e cuja vida
Corre, agitada e desabrida,
Em turbilhões de ondas revoltas;
Cuja ternura assustadora
Agride a tudo que ama e quer,
E vai, nas praias onde estoura,
Tanto beijar como morder...
Torvo gigante repelido
Numa paixão lasciva e louca,
É todo fúria: em sua boca
Blasfema a dor, mora o rugido.
Sonha a nudez: brutal e impuro,
Branco de espuma, ébrio de amor,
Tenta despir o seio duro
E virginal da terra em flor.
Debalde a terra em flor, com o fito
De lhe escapar, se esconde — e anseia
Atrás de cômoros de areia
E de penhascos de granito:
No encalço dessa esquiva amante
Que se lhe furta, segue o mar;
Segue, e as maretas solta adiante
Como matilha, a farejar.
E, achado o rastro, vai com as suas
Ondas, e a sua espumarada
Lamber, na terra devastada,
Barrancos nus e rochas nuas...
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
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Vicente de Carvalho
Sugestões do Crepúsculo
Estranha voz, estranha prece
Aquela prece e aquela voz,
Cuja humildade nem parece
Provir do mar bruto e feroz;
Do mar, pagão criado às soltas
Na solidão, e cuja vida
Corre, agitada e desabrida,
Em turbilhões de ondas revoltas;
Cuja ternura assustadora
Agride a tudo que ama e quer,
E vai, nas praias onde estoura,
Tanto beijar como morder...
Torvo gigante repelido
Numa paixão lasciva e louca,
É todo fúria: em sua boca
Blasfema a dor, mora o rugido.
Sonha a nudez: brutal e impuro,
Branco de espuma, ébrio de amor,
Tenta despir o seio duro
E virginal da terra em flor.
Debalde a terra em flor, com o fito
De lhe escapar, se esconde — e anseia
Atrás de cômoros de areia
E de penhascos de granito:
No encalço dessa esquiva amante
Que se lhe furta, segue o mar;
Segue, e as maretas solta adiante
Como matilha, a farejar.
E, achado o rastro, vai com as suas
Ondas, e a sua espumarada
Lamber, na terra devastada,
Barrancos nus e rochas nuas...
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
Aquela prece e aquela voz,
Cuja humildade nem parece
Provir do mar bruto e feroz;
Do mar, pagão criado às soltas
Na solidão, e cuja vida
Corre, agitada e desabrida,
Em turbilhões de ondas revoltas;
Cuja ternura assustadora
Agride a tudo que ama e quer,
E vai, nas praias onde estoura,
Tanto beijar como morder...
Torvo gigante repelido
Numa paixão lasciva e louca,
É todo fúria: em sua boca
Blasfema a dor, mora o rugido.
Sonha a nudez: brutal e impuro,
Branco de espuma, ébrio de amor,
Tenta despir o seio duro
E virginal da terra em flor.
Debalde a terra em flor, com o fito
De lhe escapar, se esconde — e anseia
Atrás de cômoros de areia
E de penhascos de granito:
No encalço dessa esquiva amante
Que se lhe furta, segue o mar;
Segue, e as maretas solta adiante
Como matilha, a farejar.
E, achado o rastro, vai com as suas
Ondas, e a sua espumarada
Lamber, na terra devastada,
Barrancos nus e rochas nuas...
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
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Augusto Frederico Schmidt
Pequena Igreja
Eu queria louvar-te, pequena e humilde igreja
Desta cidadezinha que está morrendo.
Eu queria agradecer-te a compreensão que me deste
Das coisas humildes e eternas.
Eu queria saber cantar a tua tranqüilidade
E a tua pura beleza,
Ó igreja da roça, adormecida diante do jardim cheio de rosas!
Ó pequena casa de Jesus Cristo, irmã das outras casas solenes
[e graves.
Escondida e modesta, com as tuas torres e os teus sinos
Que sabem encher o ar matinal com um tão doce apelo,
E no instante vesperal lembram que é hora de dormir para a
[grande família dos passarinhos inquietos,
Dos passarinhos que tumultuam o pobre jardim cheio de flores!
Publicado no livro Estrela solitária (1940).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
Desta cidadezinha que está morrendo.
Eu queria agradecer-te a compreensão que me deste
Das coisas humildes e eternas.
Eu queria saber cantar a tua tranqüilidade
E a tua pura beleza,
Ó igreja da roça, adormecida diante do jardim cheio de rosas!
Ó pequena casa de Jesus Cristo, irmã das outras casas solenes
[e graves.
Escondida e modesta, com as tuas torres e os teus sinos
Que sabem encher o ar matinal com um tão doce apelo,
E no instante vesperal lembram que é hora de dormir para a
[grande família dos passarinhos inquietos,
Dos passarinhos que tumultuam o pobre jardim cheio de flores!
Publicado no livro Estrela solitária (1940).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
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