Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Frei Francisco de São Carlos
Canto VI [Não vedes acolá como apartada
(...)
Não vedes acolá como apartada
Colina, ora de silvas erriçada,
Ninho de serpes, plácida guarida
De feras? Será então no cume erguida
Casa à Virgem, medíocre na altura,
Mas no risco primor de arquitetura.
Que ostentará por timbre de memória,
O título pomposo desta Glória.
(...)
Por marmóreas escadas a subida
Conduz ao alto, e ao pórtico da ermida.
Sobre lajedos de granito em quadro
Descansa a base, que ali tem um adro.
Dos lados peitoris; descanso, e meio
Dos olhos pastearem seu recreio,
Situação risonha, sobranceira
Ao mar, entre a vaidosa cordilheira
De rochas e de serras mil erguidas,
De palmas e arvoredo abastecidas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.19
Não vedes acolá como apartada
Colina, ora de silvas erriçada,
Ninho de serpes, plácida guarida
De feras? Será então no cume erguida
Casa à Virgem, medíocre na altura,
Mas no risco primor de arquitetura.
Que ostentará por timbre de memória,
O título pomposo desta Glória.
(...)
Por marmóreas escadas a subida
Conduz ao alto, e ao pórtico da ermida.
Sobre lajedos de granito em quadro
Descansa a base, que ali tem um adro.
Dos lados peitoris; descanso, e meio
Dos olhos pastearem seu recreio,
Situação risonha, sobranceira
Ao mar, entre a vaidosa cordilheira
De rochas e de serras mil erguidas,
De palmas e arvoredo abastecidas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.19
1 296
Frei Francisco de São Carlos
Em Assis Belém se mostra
Em Assis Belém se mostra
Com assombrosos sinais:
Qual Jesus, Francisco nasce
Entre brutos animais.
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garnier, 1991. p.94
NOTA: Esse poema foi pintado no retábulo da capela do Nascimento de São Francisco de Assis, no claustro do convento de Santo Antônio, no Rio de Janeir
Com assombrosos sinais:
Qual Jesus, Francisco nasce
Entre brutos animais.
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garnier, 1991. p.94
NOTA: Esse poema foi pintado no retábulo da capela do Nascimento de São Francisco de Assis, no claustro do convento de Santo Antônio, no Rio de Janeir
1 373
Odylo Costa Filho
O Tatuzinho
Ia um tatuzinho
pelo céu nevoento
cavando um buraco
lá no firmamento.
Porque o tatuzinho
não gosta de entrar
pela porta aberta:
prefere cavar.
Mas São Pedro viu
e ficou zangado:
por causa de um bicho
ter o Céu furado?!...
Jesus pequenino
viu também e riu.
No portão florido
um buraco abriu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
pelo céu nevoento
cavando um buraco
lá no firmamento.
Porque o tatuzinho
não gosta de entrar
pela porta aberta:
prefere cavar.
Mas São Pedro viu
e ficou zangado:
por causa de um bicho
ter o Céu furado?!...
Jesus pequenino
viu também e riu.
No portão florido
um buraco abriu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
1 681
Régis Bonvicino
O Tempo
O tempo foi de encontro
ao galho da quaresmeira
podre, no chão,
depois da chuva
Folhas murchas
de outra árvore
encurvadas pelo calor
como mãos fechadas
Menos vivas,
agora, as cores da estrelitzia
O portão da casa,
não lembra seu primeiro dia
Um buraco
exauriu
um pedaço de asfalto
O vermelho,
do automóvel na esquina
Os azuis em tons,
na fachada do edifício,
quase invisíveis
Grafites coloridos nos muros,
tampouco
poupados pelo tempo,
tornaram-se ilegíveis
Poema integrante da série Um.
In: BONVICINO, Régis. Outros poemas, 1990/1992. São Paulo: Iluminuras, 1993
ao galho da quaresmeira
podre, no chão,
depois da chuva
Folhas murchas
de outra árvore
encurvadas pelo calor
como mãos fechadas
Menos vivas,
agora, as cores da estrelitzia
O portão da casa,
não lembra seu primeiro dia
Um buraco
exauriu
um pedaço de asfalto
O vermelho,
do automóvel na esquina
Os azuis em tons,
na fachada do edifício,
quase invisíveis
Grafites coloridos nos muros,
tampouco
poupados pelo tempo,
tornaram-se ilegíveis
Poema integrante da série Um.
In: BONVICINO, Régis. Outros poemas, 1990/1992. São Paulo: Iluminuras, 1993
1 359
Régis Bonvicino
O Tempo
O tempo foi de encontro
ao galho da quaresmeira
podre, no chão,
depois da chuva
Folhas murchas
de outra árvore
encurvadas pelo calor
como mãos fechadas
Menos vivas,
agora, as cores da estrelitzia
O portão da casa,
não lembra seu primeiro dia
Um buraco
exauriu
um pedaço de asfalto
O vermelho,
do automóvel na esquina
Os azuis em tons,
na fachada do edifício,
quase invisíveis
Grafites coloridos nos muros,
tampouco
poupados pelo tempo,
tornaram-se ilegíveis
Poema integrante da série Um.
In: BONVICINO, Régis. Outros poemas, 1990/1992. São Paulo: Iluminuras, 1993
ao galho da quaresmeira
podre, no chão,
depois da chuva
Folhas murchas
de outra árvore
encurvadas pelo calor
como mãos fechadas
Menos vivas,
agora, as cores da estrelitzia
O portão da casa,
não lembra seu primeiro dia
Um buraco
exauriu
um pedaço de asfalto
O vermelho,
do automóvel na esquina
Os azuis em tons,
na fachada do edifício,
quase invisíveis
Grafites coloridos nos muros,
tampouco
poupados pelo tempo,
tornaram-se ilegíveis
Poema integrante da série Um.
In: BONVICINO, Régis. Outros poemas, 1990/1992. São Paulo: Iluminuras, 1993
1 359
Odylo Costa Filho
A Onça
Um dia... Eu lhes conto?
Não lhes conto nada...
Quis subir ao Céu
uma onça-pintada.
Estava morrendo
de arrependimento?
Ou queria apenas
ver o firmamento?
Todos os bichinhos
tinham medo dela.
Onça? Nem pintada,
nem preta ou amarela.
Vai Jesus menino,
deu-a a São Francisco.
Virou num gatinho
chamado Corisco.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
Não lhes conto nada...
Quis subir ao Céu
uma onça-pintada.
Estava morrendo
de arrependimento?
Ou queria apenas
ver o firmamento?
Todos os bichinhos
tinham medo dela.
Onça? Nem pintada,
nem preta ou amarela.
Vai Jesus menino,
deu-a a São Francisco.
Virou num gatinho
chamado Corisco.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
2 031
Rubens Rodrigues Torres Filho
Clorofila
Verde mar, verde rio e verde pranto
que choveria em verdes matas prisioneiras
aprisionadas neste longo e frio amante
que fui, para nós dois, na sexta-feira
da solidão.
As borboletas lúcidas na treva
que por artes de ausência vêm caindo
em chuvas-lantejoulas vão cobrindo
as lajes destes bosques, clorofila
irrespirável.
São páginas colhidas, escolhidas
que este vazio por dentro desescreve
e o tempo reinscreve do outro lado.
E nós, por dois ou três, unidos por engano,
partilhamos o frio, que só nos damos
sob condição, à espreita ou de tocaia.
Por trás do olhar dos lírios vai roendo
algum sutil inseto iluminado
que sabe dos desertos e a cavá-los
galopa nesse nada que o devora.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
que choveria em verdes matas prisioneiras
aprisionadas neste longo e frio amante
que fui, para nós dois, na sexta-feira
da solidão.
As borboletas lúcidas na treva
que por artes de ausência vêm caindo
em chuvas-lantejoulas vão cobrindo
as lajes destes bosques, clorofila
irrespirável.
São páginas colhidas, escolhidas
que este vazio por dentro desescreve
e o tempo reinscreve do outro lado.
E nós, por dois ou três, unidos por engano,
partilhamos o frio, que só nos damos
sob condição, à espreita ou de tocaia.
Por trás do olhar dos lírios vai roendo
algum sutil inseto iluminado
que sabe dos desertos e a cavá-los
galopa nesse nada que o devora.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 672
Rubens Rodrigues Torres Filho
Clorofila
Verde mar, verde rio e verde pranto
que choveria em verdes matas prisioneiras
aprisionadas neste longo e frio amante
que fui, para nós dois, na sexta-feira
da solidão.
As borboletas lúcidas na treva
que por artes de ausência vêm caindo
em chuvas-lantejoulas vão cobrindo
as lajes destes bosques, clorofila
irrespirável.
São páginas colhidas, escolhidas
que este vazio por dentro desescreve
e o tempo reinscreve do outro lado.
E nós, por dois ou três, unidos por engano,
partilhamos o frio, que só nos damos
sob condição, à espreita ou de tocaia.
Por trás do olhar dos lírios vai roendo
algum sutil inseto iluminado
que sabe dos desertos e a cavá-los
galopa nesse nada que o devora.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
que choveria em verdes matas prisioneiras
aprisionadas neste longo e frio amante
que fui, para nós dois, na sexta-feira
da solidão.
As borboletas lúcidas na treva
que por artes de ausência vêm caindo
em chuvas-lantejoulas vão cobrindo
as lajes destes bosques, clorofila
irrespirável.
São páginas colhidas, escolhidas
que este vazio por dentro desescreve
e o tempo reinscreve do outro lado.
E nós, por dois ou três, unidos por engano,
partilhamos o frio, que só nos damos
sob condição, à espreita ou de tocaia.
Por trás do olhar dos lírios vai roendo
algum sutil inseto iluminado
que sabe dos desertos e a cavá-los
galopa nesse nada que o devora.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 672
Pedro Nava
Noite de São João
A Mário de Andrade
São João São João
o sol quebrando em mil pedaços
caiu na terra
mil fogueiras pondo na noite
chios
e chispas
fiáus
e rechinos
Noite de São Joões-balões
noite cheia de fogueiras
e vem-cá-bitus
Noite lanhada de fogo
noite cristã
como sacis unhando panças pretas
cachimbando na barriga dos balões
saltitando no fogo vivo dos tições
Noite de buscapé
(do buscapé-pé-PÉ
que corre tanto
e como tonto
volta
e vira
em viravoltas rentes raspando o chão)
e o vento agudo
e uma navalha zás-trás
recortando bandeiras em tiras
em faixas finas
serpentes serpentinas
(um novelo assanhado de serpentes
acorda nas fogueiras
e elas se espicham tesas
e suas línguas acesas
lambem as folhas frescas
largas langues das bananeiras)
São João São João
e o frio tão frio
que a própria lua nua tem frio
e devagar a vagarosa
escorrega pelos cipós
e se esgueira
na pontinha dos pés
— Psiu!
pra quentar na minha fogueira
São João São João
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
São João São João
o sol quebrando em mil pedaços
caiu na terra
mil fogueiras pondo na noite
chios
e chispas
fiáus
e rechinos
Noite de São Joões-balões
noite cheia de fogueiras
e vem-cá-bitus
Noite lanhada de fogo
noite cristã
como sacis unhando panças pretas
cachimbando na barriga dos balões
saltitando no fogo vivo dos tições
Noite de buscapé
(do buscapé-pé-PÉ
que corre tanto
e como tonto
volta
e vira
em viravoltas rentes raspando o chão)
e o vento agudo
e uma navalha zás-trás
recortando bandeiras em tiras
em faixas finas
serpentes serpentinas
(um novelo assanhado de serpentes
acorda nas fogueiras
e elas se espicham tesas
e suas línguas acesas
lambem as folhas frescas
largas langues das bananeiras)
São João São João
e o frio tão frio
que a própria lua nua tem frio
e devagar a vagarosa
escorrega pelos cipós
e se esgueira
na pontinha dos pés
— Psiu!
pra quentar na minha fogueira
São João São João
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
2 341
Pedro Nava
Noite de São João
A Mário de Andrade
São João São João
o sol quebrando em mil pedaços
caiu na terra
mil fogueiras pondo na noite
chios
e chispas
fiáus
e rechinos
Noite de São Joões-balões
noite cheia de fogueiras
e vem-cá-bitus
Noite lanhada de fogo
noite cristã
como sacis unhando panças pretas
cachimbando na barriga dos balões
saltitando no fogo vivo dos tições
Noite de buscapé
(do buscapé-pé-PÉ
que corre tanto
e como tonto
volta
e vira
em viravoltas rentes raspando o chão)
e o vento agudo
e uma navalha zás-trás
recortando bandeiras em tiras
em faixas finas
serpentes serpentinas
(um novelo assanhado de serpentes
acorda nas fogueiras
e elas se espicham tesas
e suas línguas acesas
lambem as folhas frescas
largas langues das bananeiras)
São João São João
e o frio tão frio
que a própria lua nua tem frio
e devagar a vagarosa
escorrega pelos cipós
e se esgueira
na pontinha dos pés
— Psiu!
pra quentar na minha fogueira
São João São João
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
São João São João
o sol quebrando em mil pedaços
caiu na terra
mil fogueiras pondo na noite
chios
e chispas
fiáus
e rechinos
Noite de São Joões-balões
noite cheia de fogueiras
e vem-cá-bitus
Noite lanhada de fogo
noite cristã
como sacis unhando panças pretas
cachimbando na barriga dos balões
saltitando no fogo vivo dos tições
Noite de buscapé
(do buscapé-pé-PÉ
que corre tanto
e como tonto
volta
e vira
em viravoltas rentes raspando o chão)
e o vento agudo
e uma navalha zás-trás
recortando bandeiras em tiras
em faixas finas
serpentes serpentinas
(um novelo assanhado de serpentes
acorda nas fogueiras
e elas se espicham tesas
e suas línguas acesas
lambem as folhas frescas
largas langues das bananeiras)
São João São João
e o frio tão frio
que a própria lua nua tem frio
e devagar a vagarosa
escorrega pelos cipós
e se esgueira
na pontinha dos pés
— Psiu!
pra quentar na minha fogueira
São João São João
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
2 341
Odylo Costa Filho
São Roque e os Cachorros
Caminhou São Roque
a pé, pelos morros
e várzeas da Terra,
juntando os cachorros
já velhos ou doentes,
sem osso e sem lar,
para oferecer-lhes
um grande jantar.
São Pedro zangou-se:
— "Isso não se faz!
Jantar de cachorro
no Céu? É demais!"
Jesus disse: — "Roque
é quem tem razão."
Pedro riu-se, e logo
deu-lhes vinho e pão.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
a pé, pelos morros
e várzeas da Terra,
juntando os cachorros
já velhos ou doentes,
sem osso e sem lar,
para oferecer-lhes
um grande jantar.
São Pedro zangou-se:
— "Isso não se faz!
Jantar de cachorro
no Céu? É demais!"
Jesus disse: — "Roque
é quem tem razão."
Pedro riu-se, e logo
deu-lhes vinho e pão.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
1 390
Frei Francisco de São Carlos
Canto VIII [Trabalha a mole enfim: giram as rodas
(...)
Trabalha a mole enfim: giram as rodas,
Gemem com grão fragor as peças todas:
Cai com ruído a água, que se encana:
Volteia o rolo, estala a doce cana:
Ferve a gente, parece uma anarquia:
Mas toda esta moção causa alegria.
Na grão fornalha já se a flama agita,
Cuja boca do Averno à boca imita.
E nos vasos enormes borbulhando
Ferve o nectáreo sumo, evaporando
Grato aroma sutil, e tão ingente,
Que perfuma dos campos o ambiente.
Corre o áureo licor, qual o tesoiro
Melífluo, que correu na idade d'oiro
Das colméias na terra, e açucarado,
Ou em níveos pedaços coagulado,
E no rico déser, festim altivo,
Em várias confeições grato incentivo.
Soam longe as agrestes cantilenas
Nas madrugadas mortas, e serenas.
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.24
Trabalha a mole enfim: giram as rodas,
Gemem com grão fragor as peças todas:
Cai com ruído a água, que se encana:
Volteia o rolo, estala a doce cana:
Ferve a gente, parece uma anarquia:
Mas toda esta moção causa alegria.
Na grão fornalha já se a flama agita,
Cuja boca do Averno à boca imita.
E nos vasos enormes borbulhando
Ferve o nectáreo sumo, evaporando
Grato aroma sutil, e tão ingente,
Que perfuma dos campos o ambiente.
Corre o áureo licor, qual o tesoiro
Melífluo, que correu na idade d'oiro
Das colméias na terra, e açucarado,
Ou em níveos pedaços coagulado,
E no rico déser, festim altivo,
Em várias confeições grato incentivo.
Soam longe as agrestes cantilenas
Nas madrugadas mortas, e serenas.
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.24
1 192
Frei Francisco de São Carlos
Canto VI [Vedes na foz aquele, que aparece
(...)
Vedes na foz aquele, que aparece
Pontiagudo, e escarpado? Pois parece,
Que deu-lhe a providente natureza,
(Além das obras d'arte,) por defesa,
Na derrocada penha transformado
Nubígena membrudo, sempre armado
De face negra, e torva; e mais se o croa
Neve, e trovões, e raios, com que atroa.
Que co'a frente no Céu, no mar os rastros
Atrevido ameaça o pego, e os astros.
Se os delírios da vã mitologia
Na terra inda vagassem, dir-se-ia;
Que era um desses Aloidas, gigante,
Que intentou escalar o Céu brilhante.
Que das deusas do Olimpo namorado
Foi no mar por audaz precipitado.
E as deusas por acinte lá da altura
Lhe enxovalham de neve a catadura.
Do seio pois das nuvens, onde a fronte
Enconde, vendo o mar até o horizonte;
Mal que espreita surgir lenho inimigo,
Pronto avisa, e previne-se o perigo.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.185-186
NOTA: Descrição do Pão-de-Açúcar inspirada no episódio do gigante Adamastor, d'OS LUSÍADAS (Canto V, estrofes 37 a 61
Vedes na foz aquele, que aparece
Pontiagudo, e escarpado? Pois parece,
Que deu-lhe a providente natureza,
(Além das obras d'arte,) por defesa,
Na derrocada penha transformado
Nubígena membrudo, sempre armado
De face negra, e torva; e mais se o croa
Neve, e trovões, e raios, com que atroa.
Que co'a frente no Céu, no mar os rastros
Atrevido ameaça o pego, e os astros.
Se os delírios da vã mitologia
Na terra inda vagassem, dir-se-ia;
Que era um desses Aloidas, gigante,
Que intentou escalar o Céu brilhante.
Que das deusas do Olimpo namorado
Foi no mar por audaz precipitado.
E as deusas por acinte lá da altura
Lhe enxovalham de neve a catadura.
Do seio pois das nuvens, onde a fronte
Enconde, vendo o mar até o horizonte;
Mal que espreita surgir lenho inimigo,
Pronto avisa, e previne-se o perigo.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.185-186
NOTA: Descrição do Pão-de-Açúcar inspirada no episódio do gigante Adamastor, d'OS LUSÍADAS (Canto V, estrofes 37 a 61
1 270
Frei Francisco de São Carlos
Canto VI [Vedes na foz aquele, que aparece
(...)
Vedes na foz aquele, que aparece
Pontiagudo, e escarpado? Pois parece,
Que deu-lhe a providente natureza,
(Além das obras d'arte,) por defesa,
Na derrocada penha transformado
Nubígena membrudo, sempre armado
De face negra, e torva; e mais se o croa
Neve, e trovões, e raios, com que atroa.
Que co'a frente no Céu, no mar os rastros
Atrevido ameaça o pego, e os astros.
Se os delírios da vã mitologia
Na terra inda vagassem, dir-se-ia;
Que era um desses Aloidas, gigante,
Que intentou escalar o Céu brilhante.
Que das deusas do Olimpo namorado
Foi no mar por audaz precipitado.
E as deusas por acinte lá da altura
Lhe enxovalham de neve a catadura.
Do seio pois das nuvens, onde a fronte
Enconde, vendo o mar até o horizonte;
Mal que espreita surgir lenho inimigo,
Pronto avisa, e previne-se o perigo.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.185-186
NOTA: Descrição do Pão-de-Açúcar inspirada no episódio do gigante Adamastor, d'OS LUSÍADAS (Canto V, estrofes 37 a 61
Vedes na foz aquele, que aparece
Pontiagudo, e escarpado? Pois parece,
Que deu-lhe a providente natureza,
(Além das obras d'arte,) por defesa,
Na derrocada penha transformado
Nubígena membrudo, sempre armado
De face negra, e torva; e mais se o croa
Neve, e trovões, e raios, com que atroa.
Que co'a frente no Céu, no mar os rastros
Atrevido ameaça o pego, e os astros.
Se os delírios da vã mitologia
Na terra inda vagassem, dir-se-ia;
Que era um desses Aloidas, gigante,
Que intentou escalar o Céu brilhante.
Que das deusas do Olimpo namorado
Foi no mar por audaz precipitado.
E as deusas por acinte lá da altura
Lhe enxovalham de neve a catadura.
Do seio pois das nuvens, onde a fronte
Enconde, vendo o mar até o horizonte;
Mal que espreita surgir lenho inimigo,
Pronto avisa, e previne-se o perigo.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.185-186
NOTA: Descrição do Pão-de-Açúcar inspirada no episódio do gigante Adamastor, d'OS LUSÍADAS (Canto V, estrofes 37 a 61
1 270
Frei Francisco de São Carlos
Canto I [O torto Cajueiro se adornava
(...)
O torto Cajueiro se adornava
Das purpúreas folhinhas, que brotava.
Cobria-se de flores a mangueira,
E o ar embalsamava a laranjeira.
A sua fruta d'ouro, que em doçura
Vence a Aristeo, caía de madura.
O terno Sabiá buscando amores
Já saudava por entre os mil verdores
Do copado pomar, seu senhorio,
A chegada das águas, e do Estio.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.5-
O torto Cajueiro se adornava
Das purpúreas folhinhas, que brotava.
Cobria-se de flores a mangueira,
E o ar embalsamava a laranjeira.
A sua fruta d'ouro, que em doçura
Vence a Aristeo, caía de madura.
O terno Sabiá buscando amores
Já saudava por entre os mil verdores
Do copado pomar, seu senhorio,
A chegada das águas, e do Estio.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.5-
1 320
Frei Francisco de São Carlos
Canto I [O torto Cajueiro se adornava
(...)
O torto Cajueiro se adornava
Das purpúreas folhinhas, que brotava.
Cobria-se de flores a mangueira,
E o ar embalsamava a laranjeira.
A sua fruta d'ouro, que em doçura
Vence a Aristeo, caía de madura.
O terno Sabiá buscando amores
Já saudava por entre os mil verdores
Do copado pomar, seu senhorio,
A chegada das águas, e do Estio.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.5-
O torto Cajueiro se adornava
Das purpúreas folhinhas, que brotava.
Cobria-se de flores a mangueira,
E o ar embalsamava a laranjeira.
A sua fruta d'ouro, que em doçura
Vence a Aristeo, caía de madura.
O terno Sabiá buscando amores
Já saudava por entre os mil verdores
Do copado pomar, seu senhorio,
A chegada das águas, e do Estio.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.5-
1 320
Frei Francisco de São Carlos
Canto I [O torto Cajueiro se adornava
(...)
O torto Cajueiro se adornava
Das purpúreas folhinhas, que brotava.
Cobria-se de flores a mangueira,
E o ar embalsamava a laranjeira.
A sua fruta d'ouro, que em doçura
Vence a Aristeo, caía de madura.
O terno Sabiá buscando amores
Já saudava por entre os mil verdores
Do copado pomar, seu senhorio,
A chegada das águas, e do Estio.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.5-
O torto Cajueiro se adornava
Das purpúreas folhinhas, que brotava.
Cobria-se de flores a mangueira,
E o ar embalsamava a laranjeira.
A sua fruta d'ouro, que em doçura
Vence a Aristeo, caía de madura.
O terno Sabiá buscando amores
Já saudava por entre os mil verdores
Do copado pomar, seu senhorio,
A chegada das águas, e do Estio.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.5-
1 320
Odylo Costa Filho
Soneto do Pantanal
Este jardim me lembra outro jardim
Marly de Oliveira
Este jardim me lembra outro jardim,
esta janela outra janela obscura,
e nos mundos sem fim mundo sem fim,
e após o mergulhar da escada escura,
uma aurora de plantas e de garças,
porto de bois, cavalos e meninos,
ninhos pendentes de árvores esparsas,
nos grandes céus os astros pequeninos
e as aves em cardumes navegantes,
rios róseos nas asas inaudíveis,
gritos, cantos cruzados pelo espaço,
mundo de ervas e de águas, onde dantes
os homens eram duros, mas sensíveis,
e a vereda no campo era seu traço.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Notícias de amor. Il. Nazareth Costa. Rio de Janeiro: Artenova; Brasília: INL, 1977
Marly de Oliveira
Este jardim me lembra outro jardim,
esta janela outra janela obscura,
e nos mundos sem fim mundo sem fim,
e após o mergulhar da escada escura,
uma aurora de plantas e de garças,
porto de bois, cavalos e meninos,
ninhos pendentes de árvores esparsas,
nos grandes céus os astros pequeninos
e as aves em cardumes navegantes,
rios róseos nas asas inaudíveis,
gritos, cantos cruzados pelo espaço,
mundo de ervas e de águas, onde dantes
os homens eram duros, mas sensíveis,
e a vereda no campo era seu traço.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Notícias de amor. Il. Nazareth Costa. Rio de Janeiro: Artenova; Brasília: INL, 1977
1 618
Odylo Costa Filho
Soneto do Pantanal
Este jardim me lembra outro jardim
Marly de Oliveira
Este jardim me lembra outro jardim,
esta janela outra janela obscura,
e nos mundos sem fim mundo sem fim,
e após o mergulhar da escada escura,
uma aurora de plantas e de garças,
porto de bois, cavalos e meninos,
ninhos pendentes de árvores esparsas,
nos grandes céus os astros pequeninos
e as aves em cardumes navegantes,
rios róseos nas asas inaudíveis,
gritos, cantos cruzados pelo espaço,
mundo de ervas e de águas, onde dantes
os homens eram duros, mas sensíveis,
e a vereda no campo era seu traço.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Notícias de amor. Il. Nazareth Costa. Rio de Janeiro: Artenova; Brasília: INL, 1977
Marly de Oliveira
Este jardim me lembra outro jardim,
esta janela outra janela obscura,
e nos mundos sem fim mundo sem fim,
e após o mergulhar da escada escura,
uma aurora de plantas e de garças,
porto de bois, cavalos e meninos,
ninhos pendentes de árvores esparsas,
nos grandes céus os astros pequeninos
e as aves em cardumes navegantes,
rios róseos nas asas inaudíveis,
gritos, cantos cruzados pelo espaço,
mundo de ervas e de águas, onde dantes
os homens eram duros, mas sensíveis,
e a vereda no campo era seu traço.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Notícias de amor. Il. Nazareth Costa. Rio de Janeiro: Artenova; Brasília: INL, 1977
1 618
Pedro Nava
Aterrissage
Um risco nos íngremes
e queda vertical de reticência de sóis.
Brilhos mica,
facetas duras,
multiplicando a paisagem
como os olhos simultâneos de um inseto
Tropicão, trambolhão
salto
pulo
rodopio
e a bola, espirala, resvala, rebola,
encarola,
desenrola
e de novo
reta como uma bola,
rola...
ROLA
e voa e vai varando vertiginosa o vácuo vago
e assoviiiia fino no espaço oco...
UMA PEDRA ROLOU PELA ENCOSTA DA MONTANHA.
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em sua primeira carta a Pedro Nava, datada de 9 mar. 1925: "O lirismo inicial existe nos poemas que você me mandou e está muito bem exprimido, comoventemente, no Aterrissage (proponho Aterreação, Aterreagem, invente, que diabo!) quando você põe com maiúsculas aquela frase tão bela, concisa, simples, imensa 'Uma pedra rolou pela encosta da montanha' deslanchando uma comoção grande na gente. (...) O que eu tenho medo é que você fique nisso só e comece a escolher dentre as sensações de você as que milhor se prestam pra certas demonstrações ou emprego legítimo de certas realizações processuais da poética modernista. Muito cuidado, Nava, em não confundir poética com poesia
e queda vertical de reticência de sóis.
Brilhos mica,
facetas duras,
multiplicando a paisagem
como os olhos simultâneos de um inseto
Tropicão, trambolhão
salto
pulo
rodopio
e a bola, espirala, resvala, rebola,
encarola,
desenrola
e de novo
reta como uma bola,
rola...
ROLA
e voa e vai varando vertiginosa o vácuo vago
e assoviiiia fino no espaço oco...
UMA PEDRA ROLOU PELA ENCOSTA DA MONTANHA.
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em sua primeira carta a Pedro Nava, datada de 9 mar. 1925: "O lirismo inicial existe nos poemas que você me mandou e está muito bem exprimido, comoventemente, no Aterrissage (proponho Aterreação, Aterreagem, invente, que diabo!) quando você põe com maiúsculas aquela frase tão bela, concisa, simples, imensa 'Uma pedra rolou pela encosta da montanha' deslanchando uma comoção grande na gente. (...) O que eu tenho medo é que você fique nisso só e comece a escolher dentre as sensações de você as que milhor se prestam pra certas demonstrações ou emprego legítimo de certas realizações processuais da poética modernista. Muito cuidado, Nava, em não confundir poética com poesia
1 439
Pedro Nava
Aterrissage
Um risco nos íngremes
e queda vertical de reticência de sóis.
Brilhos mica,
facetas duras,
multiplicando a paisagem
como os olhos simultâneos de um inseto
Tropicão, trambolhão
salto
pulo
rodopio
e a bola, espirala, resvala, rebola,
encarola,
desenrola
e de novo
reta como uma bola,
rola...
ROLA
e voa e vai varando vertiginosa o vácuo vago
e assoviiiia fino no espaço oco...
UMA PEDRA ROLOU PELA ENCOSTA DA MONTANHA.
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em sua primeira carta a Pedro Nava, datada de 9 mar. 1925: "O lirismo inicial existe nos poemas que você me mandou e está muito bem exprimido, comoventemente, no Aterrissage (proponho Aterreação, Aterreagem, invente, que diabo!) quando você põe com maiúsculas aquela frase tão bela, concisa, simples, imensa 'Uma pedra rolou pela encosta da montanha' deslanchando uma comoção grande na gente. (...) O que eu tenho medo é que você fique nisso só e comece a escolher dentre as sensações de você as que milhor se prestam pra certas demonstrações ou emprego legítimo de certas realizações processuais da poética modernista. Muito cuidado, Nava, em não confundir poética com poesia
e queda vertical de reticência de sóis.
Brilhos mica,
facetas duras,
multiplicando a paisagem
como os olhos simultâneos de um inseto
Tropicão, trambolhão
salto
pulo
rodopio
e a bola, espirala, resvala, rebola,
encarola,
desenrola
e de novo
reta como uma bola,
rola...
ROLA
e voa e vai varando vertiginosa o vácuo vago
e assoviiiia fino no espaço oco...
UMA PEDRA ROLOU PELA ENCOSTA DA MONTANHA.
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em sua primeira carta a Pedro Nava, datada de 9 mar. 1925: "O lirismo inicial existe nos poemas que você me mandou e está muito bem exprimido, comoventemente, no Aterrissage (proponho Aterreação, Aterreagem, invente, que diabo!) quando você põe com maiúsculas aquela frase tão bela, concisa, simples, imensa 'Uma pedra rolou pela encosta da montanha' deslanchando uma comoção grande na gente. (...) O que eu tenho medo é que você fique nisso só e comece a escolher dentre as sensações de você as que milhor se prestam pra certas demonstrações ou emprego legítimo de certas realizações processuais da poética modernista. Muito cuidado, Nava, em não confundir poética com poesia
1 439
Odylo Costa Filho
As Aquarelas
Não penso azul, nem verde, nem vermelho,
nenhuma cor vejo isoladamente:
quero a vida total, como um espelho
a que não falte flor, folha ou semente.
A natureza, neste abril redondo,
esconde formas, seres, linhas, cores,
aqui e ali bizarramente pondo
manchas involuntárias, multicores.
Recuso-me a adotar bandeira ou marca.
Nada escolho. O mistério natural
me envolve inteiro. Em tuas aquarelas
tudo renasce — como quem da barca
do dilúvio, depois do temporal,
visse de novo a terra das janelas...
Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
nenhuma cor vejo isoladamente:
quero a vida total, como um espelho
a que não falte flor, folha ou semente.
A natureza, neste abril redondo,
esconde formas, seres, linhas, cores,
aqui e ali bizarramente pondo
manchas involuntárias, multicores.
Recuso-me a adotar bandeira ou marca.
Nada escolho. O mistério natural
me envolve inteiro. Em tuas aquarelas
tudo renasce — como quem da barca
do dilúvio, depois do temporal,
visse de novo a terra das janelas...
Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
1 357
Odylo Costa Filho
As Aquarelas
Não penso azul, nem verde, nem vermelho,
nenhuma cor vejo isoladamente:
quero a vida total, como um espelho
a que não falte flor, folha ou semente.
A natureza, neste abril redondo,
esconde formas, seres, linhas, cores,
aqui e ali bizarramente pondo
manchas involuntárias, multicores.
Recuso-me a adotar bandeira ou marca.
Nada escolho. O mistério natural
me envolve inteiro. Em tuas aquarelas
tudo renasce — como quem da barca
do dilúvio, depois do temporal,
visse de novo a terra das janelas...
Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
nenhuma cor vejo isoladamente:
quero a vida total, como um espelho
a que não falte flor, folha ou semente.
A natureza, neste abril redondo,
esconde formas, seres, linhas, cores,
aqui e ali bizarramente pondo
manchas involuntárias, multicores.
Recuso-me a adotar bandeira ou marca.
Nada escolho. O mistério natural
me envolve inteiro. Em tuas aquarelas
tudo renasce — como quem da barca
do dilúvio, depois do temporal,
visse de novo a terra das janelas...
Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
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Frei Francisco de São Carlos
Canto III [Ó Musa, dá a meus versos a doçura
(...)
Ó Musa, dá a meus versos a doçura
Dos frutos, de que vou dar a pintura.
(...)
Entre as folhas gigantes laceradas
Dos bananais espessos arranjadas
Lourejam suas filhas, aguçando
O apetite, e os olhos afagando.
(...)
No mesmo ramo encanta a formosura
Da fruta em flor, da verde, ou já madura:
Mostrando a natureza aqui reunido,
Quanto noutras sazões tem repartido.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.72-7
Ó Musa, dá a meus versos a doçura
Dos frutos, de que vou dar a pintura.
(...)
Entre as folhas gigantes laceradas
Dos bananais espessos arranjadas
Lourejam suas filhas, aguçando
O apetite, e os olhos afagando.
(...)
No mesmo ramo encanta a formosura
Da fruta em flor, da verde, ou já madura:
Mostrando a natureza aqui reunido,
Quanto noutras sazões tem repartido.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.72-7
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