Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Dália Ravikovitz
Terra longínqua
Esta noite voltei em um barco à vela
Das ilhas do sol e dos arbustos de corais.
Donzelas ornadas com pentes de ouro
Continuaram na praia das ilhas do sol.
Durante quatro anos de mel e de leite
Passeei pelas ilhas do sol.
Os cabazes achavam-se cheios de frutos.
As cerejas resplandeciam ao sol.
Marinheiros e marujos de setenta países
Navegavam para as ilhas do sol.
E durante quatro anos, sob o sol ardente,
Eu contei as naves de ouro.
Durante quatro anos redondos de maçãs
Eu uni fieiras de corais.
Mercadores e bufarinheiros das ilhas do sol
Estendiam tecidos escarlates.
O mar era profundo no fundo das profundezas
Quando voltei das ilhas do sol.
Gotas de luz pesadas feito o mel
Rolavam sobre a ilha à hora do poente
Das ilhas do sol e dos arbustos de corais.
Donzelas ornadas com pentes de ouro
Continuaram na praia das ilhas do sol.
Durante quatro anos de mel e de leite
Passeei pelas ilhas do sol.
Os cabazes achavam-se cheios de frutos.
As cerejas resplandeciam ao sol.
Marinheiros e marujos de setenta países
Navegavam para as ilhas do sol.
E durante quatro anos, sob o sol ardente,
Eu contei as naves de ouro.
Durante quatro anos redondos de maçãs
Eu uni fieiras de corais.
Mercadores e bufarinheiros das ilhas do sol
Estendiam tecidos escarlates.
O mar era profundo no fundo das profundezas
Quando voltei das ilhas do sol.
Gotas de luz pesadas feito o mel
Rolavam sobre a ilha à hora do poente
1 053
Dália Ravikovitz
Terra longínqua
Esta noite voltei em um barco à vela
Das ilhas do sol e dos arbustos de corais.
Donzelas ornadas com pentes de ouro
Continuaram na praia das ilhas do sol.
Durante quatro anos de mel e de leite
Passeei pelas ilhas do sol.
Os cabazes achavam-se cheios de frutos.
As cerejas resplandeciam ao sol.
Marinheiros e marujos de setenta países
Navegavam para as ilhas do sol.
E durante quatro anos, sob o sol ardente,
Eu contei as naves de ouro.
Durante quatro anos redondos de maçãs
Eu uni fieiras de corais.
Mercadores e bufarinheiros das ilhas do sol
Estendiam tecidos escarlates.
O mar era profundo no fundo das profundezas
Quando voltei das ilhas do sol.
Gotas de luz pesadas feito o mel
Rolavam sobre a ilha à hora do poente
Das ilhas do sol e dos arbustos de corais.
Donzelas ornadas com pentes de ouro
Continuaram na praia das ilhas do sol.
Durante quatro anos de mel e de leite
Passeei pelas ilhas do sol.
Os cabazes achavam-se cheios de frutos.
As cerejas resplandeciam ao sol.
Marinheiros e marujos de setenta países
Navegavam para as ilhas do sol.
E durante quatro anos, sob o sol ardente,
Eu contei as naves de ouro.
Durante quatro anos redondos de maçãs
Eu uni fieiras de corais.
Mercadores e bufarinheiros das ilhas do sol
Estendiam tecidos escarlates.
O mar era profundo no fundo das profundezas
Quando voltei das ilhas do sol.
Gotas de luz pesadas feito o mel
Rolavam sobre a ilha à hora do poente
1 053
Natália Correia
O espírito
Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indene ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indene ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.
2 364
Marcela Bueno
Por fim lhe traí
Sentirei no corpo a brisa
Que sopra leve, desapercebida,
Passando suavemente pela vida
Que custei tanto para conseguir...
Assim serei borboleta,
Assim serei sereia,
O que será feito de mim?
Ao voar todas as manhãs
Por campos compenetrados de mistério
Com o rosto sério a me subestimar...
Sentirei por dentro um frio,
Vou querer afundar meu olhar
Na poça mais suja da rua
E ali indagar o pensar:
"Serei a sereia sua?"
Cantarei para seu espelho
Aquelas velhas músicas que lembram
Todos que já lhe esqueceram.
Eu levarei você comigo para o abrigo
Da chuva tola que molha o jardim
E você irá, sem mim,
Para o paraíso
Esta será a estória do Alecrim...
...o menino do mato que nasceu
Sem ser semeado...;
Como o nosso amor.
Sentirei a chuva, enfim
Caindo sobre mim,
Caindo e levando tudo
O que custei para conseguir.
Parece divertido ficar aqui lhe esperando,
Você que não chega na hora marcada
E não há nada mais triste,
Inconfundivelmente chato,
Do que amar sem ser amada.
Por fim, eu lhe traí.
Preferi o vento
À este sentimento
Que menti
Ser sincero no momento...
Que sopra leve, desapercebida,
Passando suavemente pela vida
Que custei tanto para conseguir...
Assim serei borboleta,
Assim serei sereia,
O que será feito de mim?
Ao voar todas as manhãs
Por campos compenetrados de mistério
Com o rosto sério a me subestimar...
Sentirei por dentro um frio,
Vou querer afundar meu olhar
Na poça mais suja da rua
E ali indagar o pensar:
"Serei a sereia sua?"
Cantarei para seu espelho
Aquelas velhas músicas que lembram
Todos que já lhe esqueceram.
Eu levarei você comigo para o abrigo
Da chuva tola que molha o jardim
E você irá, sem mim,
Para o paraíso
Esta será a estória do Alecrim...
...o menino do mato que nasceu
Sem ser semeado...;
Como o nosso amor.
Sentirei a chuva, enfim
Caindo sobre mim,
Caindo e levando tudo
O que custei para conseguir.
Parece divertido ficar aqui lhe esperando,
Você que não chega na hora marcada
E não há nada mais triste,
Inconfundivelmente chato,
Do que amar sem ser amada.
Por fim, eu lhe traí.
Preferi o vento
À este sentimento
Que menti
Ser sincero no momento...
858
Eugénia Tabosa
Destino
No passeio junto à praia,
do outro lado da estrada
duas mulheres de negro
caminham apressadas,
o vento fá-las dobrar
as saias parecem asas
debatendo-se no ar.
Do outro lado da estrada
no passeio junto ao mar
duas mulheres gemendo
parecem quase voar,
na cabeça lenços pretos
encobrem-lhes o olhar,
as mãos apertam o peito
pra o coração não estalar.
O vento uiva mais alto
trazendo gritos da praia
um espanto para lá do mar,
elas correm, como correm
nem a água as faz parar
procuram cegas os barcos
e nada há que encontrar.
Só então abrem os braços
erguendo o punho ao ar
gritam de revolta e dor,
soltam seu ódio, seu mal,
chamam, choram de amor,
e as lágrimas abrem sulcos
naqueles rostos desfeitos.
Desceu um silêncio à praia
era a morte a passear
por entre gaivotas feridas
todas de negro vestidas
olhos presos no mar.
do outro lado da estrada
duas mulheres de negro
caminham apressadas,
o vento fá-las dobrar
as saias parecem asas
debatendo-se no ar.
Do outro lado da estrada
no passeio junto ao mar
duas mulheres gemendo
parecem quase voar,
na cabeça lenços pretos
encobrem-lhes o olhar,
as mãos apertam o peito
pra o coração não estalar.
O vento uiva mais alto
trazendo gritos da praia
um espanto para lá do mar,
elas correm, como correm
nem a água as faz parar
procuram cegas os barcos
e nada há que encontrar.
Só então abrem os braços
erguendo o punho ao ar
gritam de revolta e dor,
soltam seu ódio, seu mal,
chamam, choram de amor,
e as lágrimas abrem sulcos
naqueles rostos desfeitos.
Desceu um silêncio à praia
era a morte a passear
por entre gaivotas feridas
todas de negro vestidas
olhos presos no mar.
1 194
Eugénia Tabosa
A gata
(A meu filho Carlos)
A gata branca tinha um olho verde e outro azul
mas para mim ela era como uma aranha.
Que pena eu tinha de a não amar,
que pena eu tinha do seu ronronar em mim não ter eco.
E sempre que a gata vinha eu ia
e ela ficava mais triste mais só.
Sim, ela tivera casa, almofada e mesmo um nome
depois nasceu um menino e ela foi para o quintal.
Como ela soube então que as noites eram azuis,
o luar, o cheiro da terra molhada e tudo o mais.
Mas um dia a casa ficou vazia.
Aqueles de quem ela tinha sido e seus se diziam
fizeram malas e levaram tudo o que havia,
foram-se deixando a porta fechada.
Só ela ficou, toda branca um olho verde outro azul.
Passaram noites, dias longos e silêncios.
Depois cheguei eu, as flores e os risos,
a casa enchera-se outra vez, mas ela não entrou.
Rondava, olhando-me como intrusa.
Passou o verão, houve noites de chuvas
Noites azuis e de estrelas que nevavam.
E numa delas chegou um menino, o meu menino.
Então amei-o, amei-o daquele amor à vida
transbordante e doce, até às coisas pequenas.
E quando um dia a gata se foi deitar
em meu casaco numa cadeira esquecido,
olhei-a e não a pude enxotar.
A gata branca tinha um olho verde e outro azul
mas para mim ela era como uma aranha.
Que pena eu tinha de a não amar,
que pena eu tinha do seu ronronar em mim não ter eco.
E sempre que a gata vinha eu ia
e ela ficava mais triste mais só.
Sim, ela tivera casa, almofada e mesmo um nome
depois nasceu um menino e ela foi para o quintal.
Como ela soube então que as noites eram azuis,
o luar, o cheiro da terra molhada e tudo o mais.
Mas um dia a casa ficou vazia.
Aqueles de quem ela tinha sido e seus se diziam
fizeram malas e levaram tudo o que havia,
foram-se deixando a porta fechada.
Só ela ficou, toda branca um olho verde outro azul.
Passaram noites, dias longos e silêncios.
Depois cheguei eu, as flores e os risos,
a casa enchera-se outra vez, mas ela não entrou.
Rondava, olhando-me como intrusa.
Passou o verão, houve noites de chuvas
Noites azuis e de estrelas que nevavam.
E numa delas chegou um menino, o meu menino.
Então amei-o, amei-o daquele amor à vida
transbordante e doce, até às coisas pequenas.
E quando um dia a gata se foi deitar
em meu casaco numa cadeira esquecido,
olhei-a e não a pude enxotar.
1 209
Maria Teresa M. Carrilho
Como uma flor vermelha, a abrir
Na noite pálida
e na madrugada
anunciada
sobressais tu,
meu amor
O riso e as lágrimas
envolventes
misturam-se
em catadupas quentes
e no meio do riso cheio
insolente até,
sobressais tu,
meu amor
Apologia, para quê?
tudo está concentrado
vivido
consumado
por causa de ti
e em ti,
meu amor
Contigo
o leito do rio distancia-se
e no meio
sobressais tu
no teu esplendor
como uma flor
plena e vermelha
a abrir...
e na madrugada
anunciada
sobressais tu,
meu amor
O riso e as lágrimas
envolventes
misturam-se
em catadupas quentes
e no meio do riso cheio
insolente até,
sobressais tu,
meu amor
Apologia, para quê?
tudo está concentrado
vivido
consumado
por causa de ti
e em ti,
meu amor
Contigo
o leito do rio distancia-se
e no meio
sobressais tu
no teu esplendor
como uma flor
plena e vermelha
a abrir...
802
Maria Teresa M. Carrilho
Como uma flor vermelha, a abrir
Na noite pálida
e na madrugada
anunciada
sobressais tu,
meu amor
O riso e as lágrimas
envolventes
misturam-se
em catadupas quentes
e no meio do riso cheio
insolente até,
sobressais tu,
meu amor
Apologia, para quê?
tudo está concentrado
vivido
consumado
por causa de ti
e em ti,
meu amor
Contigo
o leito do rio distancia-se
e no meio
sobressais tu
no teu esplendor
como uma flor
plena e vermelha
a abrir...
e na madrugada
anunciada
sobressais tu,
meu amor
O riso e as lágrimas
envolventes
misturam-se
em catadupas quentes
e no meio do riso cheio
insolente até,
sobressais tu,
meu amor
Apologia, para quê?
tudo está concentrado
vivido
consumado
por causa de ti
e em ti,
meu amor
Contigo
o leito do rio distancia-se
e no meio
sobressais tu
no teu esplendor
como uma flor
plena e vermelha
a abrir...
802
Eliana Mora
Noite de mendigo
Fui seqüestrada nas entranhas
desta noite
por uma espécie de Senhor
da madrugada
Era meu corpo a implorar
por um abrigo
tal qual imensa ilha
desgarrada
Ele insistia em relembrar mistérios
entumecia agredia
(desterrava)
E evocava um outro tipo
de tremor
Algo que fosse o avesso
(uma morada)
Amanhecia
e as plantas já secavam
daquelas gotas tão iguais às
do meu corpo
E a viagem (ante o sol)
se transformava
em mais algum delírio que
desponta
de uma louca (e tão mendiga)
madrugada
(25 de março de 1999)
desta noite
por uma espécie de Senhor
da madrugada
Era meu corpo a implorar
por um abrigo
tal qual imensa ilha
desgarrada
Ele insistia em relembrar mistérios
entumecia agredia
(desterrava)
E evocava um outro tipo
de tremor
Algo que fosse o avesso
(uma morada)
Amanhecia
e as plantas já secavam
daquelas gotas tão iguais às
do meu corpo
E a viagem (ante o sol)
se transformava
em mais algum delírio que
desponta
de uma louca (e tão mendiga)
madrugada
(25 de março de 1999)
929
Zezé Pina
Haikais
chuva na praia
o céu beija o mar
– gaivota espera
neva lá fora
gato à lareira
silêncio na vila
velho castelo
menina à janela
sonho de infância
lágrimas na face
lenço nas mãos -
fim de romance
vida repensada
noite de insônia -
manhã cansada.
noite calada
uma loba uiva -
homem no cio.
o céu beija o mar
– gaivota espera
neva lá fora
gato à lareira
silêncio na vila
velho castelo
menina à janela
sonho de infância
lágrimas na face
lenço nas mãos -
fim de romance
vida repensada
noite de insônia -
manhã cansada.
noite calada
uma loba uiva -
homem no cio.
1 079
Leila Mícollis
Sempre, de vez em quando
Toda vez que amanheço
de porre, sem ter bebido,
é prenuncio de tempestades.
Os calos não doem
com a mudança do tempo,
mas meu coração dispara
e o olfato fica mais aguçado
que faro de perdigueiro.
Nestas horas,
não adianta ninguém me dizer
que "viver é experimentar",
porque o máximo que eu consigo
é avaliar as avarias
causadas pelos arpões.
de porre, sem ter bebido,
é prenuncio de tempestades.
Os calos não doem
com a mudança do tempo,
mas meu coração dispara
e o olfato fica mais aguçado
que faro de perdigueiro.
Nestas horas,
não adianta ninguém me dizer
que "viver é experimentar",
porque o máximo que eu consigo
é avaliar as avarias
causadas pelos arpões.
932
Irene Lisboa
Jeito de escrever
Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e
solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e
solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
1 734
Angela Santos
Subtileza
Num
gesto subtil
ao olhar de quem passa
desenho um sussurro em minha boca
que só tu entendes
Nos meus olhos desenhado
há um pássaro
silenciosamente namorado
o que nos teus vejo pousado
E num ritual antigo
nossa dança de amor
enche o ar
com esse canto silencioso
Mulher pássaro
aninhada nos meus olhos
mulher amante
minha sede, minha fonte
minha doce prisão
em ti vejo o lugar
onde cresce sem freios
a minha liberdade
E dos nossos olhos salta para o azul
esse voo de pássaro no afã da busca
de um lugar qualquer
que seja só nosso.
gesto subtil
ao olhar de quem passa
desenho um sussurro em minha boca
que só tu entendes
Nos meus olhos desenhado
há um pássaro
silenciosamente namorado
o que nos teus vejo pousado
E num ritual antigo
nossa dança de amor
enche o ar
com esse canto silencioso
Mulher pássaro
aninhada nos meus olhos
mulher amante
minha sede, minha fonte
minha doce prisão
em ti vejo o lugar
onde cresce sem freios
a minha liberdade
E dos nossos olhos salta para o azul
esse voo de pássaro no afã da busca
de um lugar qualquer
que seja só nosso.
1 008
Angela Santos
Volúpia
Noite
mansamente me convidas…
e um instante mágico
te transforma num enlace
de mulher…
E por dentro de mim
oiço só o coração…
e agitada abandono-me
à volúpia do amor na noite.
na noite…
mansamente me convidas…
e um instante mágico
te transforma num enlace
de mulher…
E por dentro de mim
oiço só o coração…
e agitada abandono-me
à volúpia do amor na noite.
na noite…
1 158
Angela Santos
Lua
Nocturna
silenciosamente vens
ò Lua
deitar-te sobre o meu corpo
límpida e nua
Banhada de luar, assim
Já de mim não sou
mas tua
Ò lua, longe, miragem
digo o quê quando te digo?…
A que há-de vir
viva latejante
ao compasso do coração
descompassado
que vibra em mim
silenciosamente vens
ò Lua
deitar-te sobre o meu corpo
límpida e nua
Banhada de luar, assim
Já de mim não sou
mas tua
Ò lua, longe, miragem
digo o quê quando te digo?…
A que há-de vir
viva latejante
ao compasso do coração
descompassado
que vibra em mim
1 135
Angela Santos
Estrela
Se
a noite vier vestida de branco
e lenta me fizer
desfiar as horas do meu sono,
eu vou lembrar uma estrela
a que minhas mãos tocaram,
a que de luz meus olhos encheu.
Se a noite de branco vier,
eu vou chamar a minha estrela
a que luz na minha vida
a que mora nos meus dias,
minha estrela d`Alva
minha estrela-guia.
Amo-te
a noite vier vestida de branco
e lenta me fizer
desfiar as horas do meu sono,
eu vou lembrar uma estrela
a que minhas mãos tocaram,
a que de luz meus olhos encheu.
Se a noite de branco vier,
eu vou chamar a minha estrela
a que luz na minha vida
a que mora nos meus dias,
minha estrela d`Alva
minha estrela-guia.
Amo-te
1 182
Carla Dias
Ausência
Bebi... sim...
de gole em gole, refrescou-se o silêncio
com a balbúrdia
da tua sofisticada
ausência.
Enveredou-se
pela trilha estreita,
Gritando,
voluptuosidade
ao inverno
e ao sol que gela.
Pouco a pouco,
reviram-se papéis
sobre a mesa
na hora do jantar.
Palavras sobrevoam
a fome latente.
Parece bonito,
mas quase arde.
Lentamente,
sedas se arrastam
pelo chão
da tua ausência.
Assim como meu corpo,
cravado em dúvidas,
no sofá,
retrata nosso momento fatal.
Não me traga
um rosto
quase pálido
de vida.
Traga-me
o perfume
engarrafado
no teu sorriso.
Assim
a ausência passa
e com ela
o grande perigo.
Perder...
de gole em gole, refrescou-se o silêncio
com a balbúrdia
da tua sofisticada
ausência.
Enveredou-se
pela trilha estreita,
Gritando,
voluptuosidade
ao inverno
e ao sol que gela.
Pouco a pouco,
reviram-se papéis
sobre a mesa
na hora do jantar.
Palavras sobrevoam
a fome latente.
Parece bonito,
mas quase arde.
Lentamente,
sedas se arrastam
pelo chão
da tua ausência.
Assim como meu corpo,
cravado em dúvidas,
no sofá,
retrata nosso momento fatal.
Não me traga
um rosto
quase pálido
de vida.
Traga-me
o perfume
engarrafado
no teu sorriso.
Assim
a ausência passa
e com ela
o grande perigo.
Perder...
981
Cristina Lacerda
Sobrevida
A terra não sorri
mas ampara meus passos
de hoje sofrer
me lembro do que é cíclico
os dias de chumbo
a lama do fundo
lamber a lembrança
de pequenos relâmpagos
sofrer sofreguidão
- só isso?
reinventar o mesmo
em tudo o que se ama
lembrar feridas
e perfumes dos momentos
essa minha curta longa vida
involuntária
é assim aos tropeços
e se há esquinas onde
às vezes me firo tanto
é porque é preciso
e se tateia na dor
o despertar da ânsia viva
vislumbre de algum
futuro encanto
o resto é concreto muro
cinza, rachado e duro
que o sonho
não está onde é sonhado
mas onde é pensado
com insistência e arte
esse o rito
içar a dor sombria
e se fazer ao mar
como alguém que ao ficar
finge que parte
mas ampara meus passos
de hoje sofrer
me lembro do que é cíclico
os dias de chumbo
a lama do fundo
lamber a lembrança
de pequenos relâmpagos
sofrer sofreguidão
- só isso?
reinventar o mesmo
em tudo o que se ama
lembrar feridas
e perfumes dos momentos
essa minha curta longa vida
involuntária
é assim aos tropeços
e se há esquinas onde
às vezes me firo tanto
é porque é preciso
e se tateia na dor
o despertar da ânsia viva
vislumbre de algum
futuro encanto
o resto é concreto muro
cinza, rachado e duro
que o sonho
não está onde é sonhado
mas onde é pensado
com insistência e arte
esse o rito
içar a dor sombria
e se fazer ao mar
como alguém que ao ficar
finge que parte
943
Angela Santos
Noite
Do
fundo da noite
se erguem meus olhos
alucinados……
salto do sonho.. e vivo
meus braços estendem-se
à transparência azul
que se acerca e julgo-me
tocada pelo infinito
Néon rasgando os meus olhos,
metamorfose de luz em mim…
Noite, noite..
teu fogo sou meu cio extingues
noite, dentro de ti
o meu sonho vive.
fundo da noite
se erguem meus olhos
alucinados……
salto do sonho.. e vivo
meus braços estendem-se
à transparência azul
que se acerca e julgo-me
tocada pelo infinito
Néon rasgando os meus olhos,
metamorfose de luz em mim…
Noite, noite..
teu fogo sou meu cio extingues
noite, dentro de ti
o meu sonho vive.
1 079
Lenilde Freitas
A Sylvia Plath
Ouve os pombos, S...
o arrulho que eles fazem.
São sempre tão delicadas
as margaridas
e imprensada entre ladrilhos
cresce a grama.
Ouve os pombos, S...
se o tédio te aprisiona
entre estas asas úmidas
que não chegam às estrelas
nem vêem seu brilho.
Ouve, S... o arrulho que eles fazem.
Viver é doce. Cada dia tem seu som
cada som, sua gama.
1 002
Lenilde Freitas
A Sylvia Plath
Ouve os pombos, S...
o arrulho que eles fazem.
São sempre tão delicadas
as margaridas
e imprensada entre ladrilhos
cresce a grama.
Ouve os pombos, S...
se o tédio te aprisiona
entre estas asas úmidas
que não chegam às estrelas
nem vêem seu brilho.
Ouve, S... o arrulho que eles fazem.
Viver é doce. Cada dia tem seu som
cada som, sua gama.
1 002
Lúcia Villares
Lua
Lua,
me ensina essa calma
branca,
sua.
Lua,
me beija a polpa da carne,
me inscreve
a maré.
(Iluminar areia
estender a onda,
é lua.)
Lua,
me ensina
essa tua cara aberta
descosida e nua.
Sua.
Lua,
me mostra
a estação das vindas,
os cestos de trigo,
a multidão dos bóias-frias.
me ensina essa calma
branca,
sua.
Lua,
me beija a polpa da carne,
me inscreve
a maré.
(Iluminar areia
estender a onda,
é lua.)
Lua,
me ensina
essa tua cara aberta
descosida e nua.
Sua.
Lua,
me mostra
a estação das vindas,
os cestos de trigo,
a multidão dos bóias-frias.
1 090
Angela Santos
Em Suspenso
Deixo-me
ficar quieta e absorta
a olhar a linha que rasga
o horizonte...
e os sonhos flutuam
ao som da toada e embalo do mar
há vozes suspensas
que chegam de longe
e com elas chegam
traços e contornos…
descubro teus olhos
na ave que o céu risca
e sinto tua mão
na leve brisa que passa
As cores de um Arco Íris
inundam meu olhar
e eu deixo-me ir
nas cores desenhadas
por uma mão qualquer
que naquele instante
ligou terra e mar
Um navio ao longe
sereno atravessa
a linha longínqua
onde o azul se afunda…
o navio passa
e acorda o tempo
que eu não vi passar.
ficar quieta e absorta
a olhar a linha que rasga
o horizonte...
e os sonhos flutuam
ao som da toada e embalo do mar
há vozes suspensas
que chegam de longe
e com elas chegam
traços e contornos…
descubro teus olhos
na ave que o céu risca
e sinto tua mão
na leve brisa que passa
As cores de um Arco Íris
inundam meu olhar
e eu deixo-me ir
nas cores desenhadas
por uma mão qualquer
que naquele instante
ligou terra e mar
Um navio ao longe
sereno atravessa
a linha longínqua
onde o azul se afunda…
o navio passa
e acorda o tempo
que eu não vi passar.
1 072
Lenilde Freitas
A Alfonsina Storni
O bulício do amanhecer
destranca as portas da sabedoria.
É o mesmo e não é o mesmo
o destino dos homens.
Com a chuva vigorosa,
as enredadeiras se desvencilham
dos muros os ventos recuam e
poucas cigarras sobrevivem.
Assim, agora.
A mulher
– passante -
se desveste da cor cambiante do sonho.
destranca as portas da sabedoria.
É o mesmo e não é o mesmo
o destino dos homens.
Com a chuva vigorosa,
as enredadeiras se desvencilham
dos muros os ventos recuam e
poucas cigarras sobrevivem.
Assim, agora.
A mulher
– passante -
se desveste da cor cambiante do sonho.
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