Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Gilka Machado
Particularidades 1
Na plena solidão de um amplo descampado,
penso em ti e que tu pensas em mim suponho;
tenho toda afeição de um arbusto isolado,
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho.
O Vento, sob o céu de brumas carregado,
passa, ora langoroso, ora forte, medonho!
e tanto penso em ti, ó meu ausente amado!
que te sinto no Vento e a ele, feliz, me exponho.
Com carícias brutais e com carícias mansas,
cuido que tu me vens, julgo-me toda nua...
– sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças...
E não podes saber do meu gozo violento,
quando me fico assim, neste ermo, toda nua,
completa-te exposta à Volúpia do Vento!
penso em ti e que tu pensas em mim suponho;
tenho toda afeição de um arbusto isolado,
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho.
O Vento, sob o céu de brumas carregado,
passa, ora langoroso, ora forte, medonho!
e tanto penso em ti, ó meu ausente amado!
que te sinto no Vento e a ele, feliz, me exponho.
Com carícias brutais e com carícias mansas,
cuido que tu me vens, julgo-me toda nua...
– sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças...
E não podes saber do meu gozo violento,
quando me fico assim, neste ermo, toda nua,
completa-te exposta à Volúpia do Vento!
2 398
Tomás Castro
Temperatura baja
Esta noche el frío
le pondrá
música a nuestros huesos
hará falta fuego
leña de tus dedos
frotados a los míos
pondré
mi aliento sobre tu aliento
mis manos sobre tus manos
mis silencios sobre tus gritos
mis pálpame sobre tus abrázame
el sueño será capaz
de apagarnos
el rítmico temblor
nos quedaremos dormidos
apretados
sintiendo
saltar el frío
llorando
de calor entre las sábanas.
le pondrá
música a nuestros huesos
hará falta fuego
leña de tus dedos
frotados a los míos
pondré
mi aliento sobre tu aliento
mis manos sobre tus manos
mis silencios sobre tus gritos
mis pálpame sobre tus abrázame
el sueño será capaz
de apagarnos
el rítmico temblor
nos quedaremos dormidos
apretados
sintiendo
saltar el frío
llorando
de calor entre las sábanas.
987
Orlando Neves
E o desejo de amar
E o desejo de amar e o desejo de mar
no seu mais belo canto Safo cantava.
Oh, quanto no meu coração tarda
o que o seu canto louvava.
no seu mais belo canto Safo cantava.
Oh, quanto no meu coração tarda
o que o seu canto louvava.
1 348
Wallace Stevens
O HOMEM DA NEVE
É preciso uma mente de inverno
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros cobertos pela nevada
E há muito tempo fazer frio
Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante
Do sol de janeiro; e não pensar
Em qualquer miséria no som do vento,
No som de umas poucas folhas
Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar vazio
Para alguém que escuta, escuta na neve,
E, ausente, observa
Nada que não está lá e o nada que é.
(Tradução
de Paulo Venâncio Filho )
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros cobertos pela nevada
E há muito tempo fazer frio
Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante
Do sol de janeiro; e não pensar
Em qualquer miséria no som do vento,
No som de umas poucas folhas
Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar vazio
Para alguém que escuta, escuta na neve,
E, ausente, observa
Nada que não está lá e o nada que é.
(Tradução
de Paulo Venâncio Filho )
2 004
Wallace Stevens
O HOMEM DA NEVE
É preciso uma mente de inverno
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros cobertos pela nevada
E há muito tempo fazer frio
Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante
Do sol de janeiro; e não pensar
Em qualquer miséria no som do vento,
No som de umas poucas folhas
Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar vazio
Para alguém que escuta, escuta na neve,
E, ausente, observa
Nada que não está lá e o nada que é.
(Tradução
de Paulo Venâncio Filho )
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros cobertos pela nevada
E há muito tempo fazer frio
Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante
Do sol de janeiro; e não pensar
Em qualquer miséria no som do vento,
No som de umas poucas folhas
Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar vazio
Para alguém que escuta, escuta na neve,
E, ausente, observa
Nada que não está lá e o nada que é.
(Tradução
de Paulo Venâncio Filho )
2 004
Emiliano Perneta
Súcubo
Desde que te amo, vê, quase infalivelmente,
Todas as noites vens aqui. E às minhas cegas
Paixões, e ao teu furor, ninfa concupiscente,
Como um súcubo, assim, de fato, tu te entregas...
Longe que estejas, pois, tenho-te aqui presente.
Como tu vens, não sei. Eu te invoco e tu chegas.
Trazes sobre a nudez, flutuando docemente,
Uma túnica azul, como as túnicas gregas...
E de leve, em redor do meu leito flutuas,
Ó Demônio ideal, de uma beleza louca,
De umas palpitações radiantemente nuas!
Até, até que enfim, em carícias felinas,
O teu busto gentil ligeiramente inclinas,
E te enrolas em mim, e me mordes a boca!
Todas as noites vens aqui. E às minhas cegas
Paixões, e ao teu furor, ninfa concupiscente,
Como um súcubo, assim, de fato, tu te entregas...
Longe que estejas, pois, tenho-te aqui presente.
Como tu vens, não sei. Eu te invoco e tu chegas.
Trazes sobre a nudez, flutuando docemente,
Uma túnica azul, como as túnicas gregas...
E de leve, em redor do meu leito flutuas,
Ó Demônio ideal, de uma beleza louca,
De umas palpitações radiantemente nuas!
Até, até que enfim, em carícias felinas,
O teu busto gentil ligeiramente inclinas,
E te enrolas em mim, e me mordes a boca!
2 425
Ronaldo Cagiano
Temp(l)o de (Re)colher
Ossuário de estrelas
onde vou catar a possível sobra
de luz e sabor
dos homens que não souberam
espalhar o fermento hierático
de doida esperança.
Enquanto no útero espantado
de vário peito estarrecido
forjavam-se sonhos natimortos,
um Prometeu acorrentado
insistia na louca oficina da utopia.
Segadura que se esqueceu
enquanto um rebanho indolente
resolvia o destino
de nossos poucos desejos.
A felicidade perdeu-se
nos (des)caminhos, entre tantas glosas,
saturada nos hiatos fuliginosos,
sedicioso temp(l)o de enganos.
Mas o apanhador caminha,
cioso da fertilidade, buscando enxertar-se
da prole que não será, em vão, buscada,
de invenção de vida novos astros, outras terras.
onde vou catar a possível sobra
de luz e sabor
dos homens que não souberam
espalhar o fermento hierático
de doida esperança.
Enquanto no útero espantado
de vário peito estarrecido
forjavam-se sonhos natimortos,
um Prometeu acorrentado
insistia na louca oficina da utopia.
Segadura que se esqueceu
enquanto um rebanho indolente
resolvia o destino
de nossos poucos desejos.
A felicidade perdeu-se
nos (des)caminhos, entre tantas glosas,
saturada nos hiatos fuliginosos,
sedicioso temp(l)o de enganos.
Mas o apanhador caminha,
cioso da fertilidade, buscando enxertar-se
da prole que não será, em vão, buscada,
de invenção de vida novos astros, outras terras.
785
Jaumir Valença da Silveira
Cumplicidade
"Give me your hands,
if we be friends."
Se eu vos disser que o mar que agora encaro
me faz um bem supremo ou mal me ampara,
é vero que o seu sal, de gosto extremo,
talvez vos teça a fé que me declara
ser tão feliz que a morte a mim me esqueça
ou sofrimento é só com que deparo.
Mas neste mesmo mar, se eu ponho o vento
vagando pelas crispas das marolas,
haveis de crer que sinto ser mais brando
o que já imaginais das priscas horas;
o que antes era júbilo é só paz,
não passa de um queixume o tal lamento.
E se eu não venho a por escuro ou lume
na tela que o sentido me extravasa,
é que vos trago a forma mais singela
de respeitar o céu que vos abrasa:
deixando, pra tintura do papel
o vosso sentimento que nos une.
if we be friends."
Se eu vos disser que o mar que agora encaro
me faz um bem supremo ou mal me ampara,
é vero que o seu sal, de gosto extremo,
talvez vos teça a fé que me declara
ser tão feliz que a morte a mim me esqueça
ou sofrimento é só com que deparo.
Mas neste mesmo mar, se eu ponho o vento
vagando pelas crispas das marolas,
haveis de crer que sinto ser mais brando
o que já imaginais das priscas horas;
o que antes era júbilo é só paz,
não passa de um queixume o tal lamento.
E se eu não venho a por escuro ou lume
na tela que o sentido me extravasa,
é que vos trago a forma mais singela
de respeitar o céu que vos abrasa:
deixando, pra tintura do papel
o vosso sentimento que nos une.
880
Raimundo Braga Martins
Ausência Sentida
Ausência Sentida
O Verão se foi, o Inverno chegou...
A chuva "molha o chão e molha a alma"
com a saudade que sempre nos restou
imersos neste mar de imensa calma!
Se estamos mudos, a mudez é um trauma
que em nós reflete a insensatez do amor...
Volta a poesia - o soneto é a palma:
reanima a vida, minorando a dor.
Tudo passa: o Tempo casa com a Terra...
Voa, com as horas, à amplidão dos ares
e não mais torna às plagas dos palmares.
Gera, com a Terra, os frutos nos pomares,
Sazona a espiga... Embranquece a serra...
Com as cãs da idade, nossa vida encerra.
O Verão se foi, o Inverno chegou...
A chuva "molha o chão e molha a alma"
com a saudade que sempre nos restou
imersos neste mar de imensa calma!
Se estamos mudos, a mudez é um trauma
que em nós reflete a insensatez do amor...
Volta a poesia - o soneto é a palma:
reanima a vida, minorando a dor.
Tudo passa: o Tempo casa com a Terra...
Voa, com as horas, à amplidão dos ares
e não mais torna às plagas dos palmares.
Gera, com a Terra, os frutos nos pomares,
Sazona a espiga... Embranquece a serra...
Com as cãs da idade, nossa vida encerra.
881
Raimundo Bento Sotero
Além do mal
Não levo em conta o mal que me fizeste,
Que o ódio é um sentimento tão mesquinho;
Como a vingança, um vegetal daninho
Que viça na aridez de um peito agreste.
Por isso, cada mágoa que me deste,
Uma a uma, fui largando no caminho,
Como a flor que se livra do espinho
Que rebenta do tronco mais silvestre.
A despeito do mal que me causaste,
Já não guardo rancor de minha parte
E em troca dos espinhos te dou flores
E te perdôo os males cometidos,
Que o perdão reconforta os oprimidos
E mata de remorso os opressores.
Que o ódio é um sentimento tão mesquinho;
Como a vingança, um vegetal daninho
Que viça na aridez de um peito agreste.
Por isso, cada mágoa que me deste,
Uma a uma, fui largando no caminho,
Como a flor que se livra do espinho
Que rebenta do tronco mais silvestre.
A despeito do mal que me causaste,
Já não guardo rancor de minha parte
E em troca dos espinhos te dou flores
E te perdôo os males cometidos,
Que o perdão reconforta os oprimidos
E mata de remorso os opressores.
1 091
Jaumir Valença da Silveira
Iniciação
Diz-se que, quando menino,
Cristo brincava num vale,
moldando, em estátuas de argila,
as silhuetas das aves.
Era uma tarde de sábado.
O sol dourava as lembranças
mesclando ao frescor das águas
contornos da sua imagem.
Junto da argila molhada
colhida às margens do rio,
pingava o suor de uma fronte
crispada, tranqüila, estante,
como se o mundo parasse
- e há vezes que mesmo pára -
por doze estátuas de pó
que a gênese não contava.
Seu pai de carne esperava
cuidado com seus deveres.
Seu Pai, do Alto, esperava
que o seu fado se cumprisse.
Bem que o pequeno sabia
que o tempo ali era parco
e que furtar os segundos
era entregar-se de triste.
E não foi mais que um suspiro
amalgamado a um sorriso
que, ao levantar-se da terra,
deixou revelar o Cristo.
Mas já de costas pro rio,
criança que ainda era,
chorava que nem criança,
embora engolisse as águas.
E quando já caminhava,
tornou a fitar a margem,
dizendo, com o olhar perdido:
"Haveis de sofrer comigo".
E os passarinhos se foram,
sumindo à vista do vale.
Exceto por um que, antes,
suave, bicou sua face.
Cristo brincava num vale,
moldando, em estátuas de argila,
as silhuetas das aves.
Era uma tarde de sábado.
O sol dourava as lembranças
mesclando ao frescor das águas
contornos da sua imagem.
Junto da argila molhada
colhida às margens do rio,
pingava o suor de uma fronte
crispada, tranqüila, estante,
como se o mundo parasse
- e há vezes que mesmo pára -
por doze estátuas de pó
que a gênese não contava.
Seu pai de carne esperava
cuidado com seus deveres.
Seu Pai, do Alto, esperava
que o seu fado se cumprisse.
Bem que o pequeno sabia
que o tempo ali era parco
e que furtar os segundos
era entregar-se de triste.
E não foi mais que um suspiro
amalgamado a um sorriso
que, ao levantar-se da terra,
deixou revelar o Cristo.
Mas já de costas pro rio,
criança que ainda era,
chorava que nem criança,
embora engolisse as águas.
E quando já caminhava,
tornou a fitar a margem,
dizendo, com o olhar perdido:
"Haveis de sofrer comigo".
E os passarinhos se foram,
sumindo à vista do vale.
Exceto por um que, antes,
suave, bicou sua face.
963
Ronaldo Cagiano
Retroviagem
Adiada a chegada
o mar é só vertigem
o porto está distante.
A noite nos oceanos
é uma tragédia de negrumes
onde se perdem
os homens ávidos de idílios
entre cetáceos ressabiados
e atlânticas saudades.
A estrela que me acompanha
(ou a persigo, em solitária romaria?)
restabelece o ancoradouro
que precocemente fugiu
das garras tênues
de um viandante inconcluso.
Mais inquieta é a esperança
se nela não navego
ou galopam outros sonhos.
A geografia dessas águas
fabrica desafios, enquanto no rosto
mareja o sacrifício da espera.
o mar é só vertigem
o porto está distante.
A noite nos oceanos
é uma tragédia de negrumes
onde se perdem
os homens ávidos de idílios
entre cetáceos ressabiados
e atlânticas saudades.
A estrela que me acompanha
(ou a persigo, em solitária romaria?)
restabelece o ancoradouro
que precocemente fugiu
das garras tênues
de um viandante inconcluso.
Mais inquieta é a esperança
se nela não navego
ou galopam outros sonhos.
A geografia dessas águas
fabrica desafios, enquanto no rosto
mareja o sacrifício da espera.
985
Ana Suzuki
Haicai
Noite na praia...
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
Crise
O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
Crise
O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.
456
Ana Suzuki
Haicai
Noite na praia...
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
Crise
O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
Crise
O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.
456
Ana Suzuki
Haicai
Noite na praia...
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
Crise
O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
Crise
O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.
456
Ana Suzuki
Haicai
Noite na praia...
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
Crise
O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
Crise
O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.
456
Ana Suzuki
Haicai
Noite na praia...
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
Crise
O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
Crise
O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.
456
Raimundo Braga Martins
O Tempo e o Homem
O Tempo e o Homem
Irrompe, no horizonte, a fraca luz da aurora,
o Sol volta a brilhar
surge um novo dia...
Quanta alegria!
Rompe a luz o denso véu da noite:
a treva se desfaz,
a vida se agita...
a alegria é infinita!
A Terra, em torno do Sol, se movimenta,
sem parar,
em rotação,
em translação!
E nós, também, estamos neste "gira, gira",
que a vida nos obriga
pra sobreviver,
pra não morrer!
É a luta do cotidiano: das horas, dos dias e dos anos
com o tempo caminhando,
intemeratos,
intimoratos!
O tempo passa... E, com ele, nós também passamos!
Ele não volta,
nós não voltamos...
Para a morte caminhamos
Irrompe, no horizonte, a fraca luz da aurora,
o Sol volta a brilhar
surge um novo dia...
Quanta alegria!
Rompe a luz o denso véu da noite:
a treva se desfaz,
a vida se agita...
a alegria é infinita!
A Terra, em torno do Sol, se movimenta,
sem parar,
em rotação,
em translação!
E nós, também, estamos neste "gira, gira",
que a vida nos obriga
pra sobreviver,
pra não morrer!
É a luta do cotidiano: das horas, dos dias e dos anos
com o tempo caminhando,
intemeratos,
intimoratos!
O tempo passa... E, com ele, nós também passamos!
Ele não volta,
nós não voltamos...
Para a morte caminhamos
824
Luís Amaro
A Um Poeta
(memorando Manuel Ribeiro de Pavia)
Não reveleis o sono. A luz do dia
Fere de mais a alma; e, oculta,
A face esquece a sua chaga rubra.
A dor, amordaçando, purifica:
Que ela te dê, no sangue, o novo alento
Para outros voos de que sairás vencido
(Mas entretanto vives…) E procura
Haurir na solidão a graça, o prémio
Daquele instante puro, essencial
A que não chega o vão rumor do tempo
Desfigurado e vil. E, já liberto,
Conhecerás tua verdade inteira
Ouvindo alguém, sem corpo nem memória,
Segredar-te as palavras invisíveis
De que é tecida a Noite — tua esperança!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Não reveleis o sono. A luz do dia
Fere de mais a alma; e, oculta,
A face esquece a sua chaga rubra.
A dor, amordaçando, purifica:
Que ela te dê, no sangue, o novo alento
Para outros voos de que sairás vencido
(Mas entretanto vives…) E procura
Haurir na solidão a graça, o prémio
Daquele instante puro, essencial
A que não chega o vão rumor do tempo
Desfigurado e vil. E, já liberto,
Conhecerás tua verdade inteira
Ouvindo alguém, sem corpo nem memória,
Segredar-te as palavras invisíveis
De que é tecida a Noite — tua esperança!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 033
Jaumir Valença da Silveira
Faraó
Escavo ideológico deserto
o chão de escorpião, brilho e serpente.
Pegada o vento leva a areia enterra;
um rei sufoca à tumba de meus dentes.
Palavra que te dou minha palavra
e lavro o sal que levo no meu colo.
Mortalha de lençóis me escondem a cara
e já não mais me ocorre haver outonos.
Ressuscitar no sono dos reversos?
Ofusquem-se amuletos nos olvidos
dos sacrifícios da Kabbalah morta
e do meu sangue o bálsamo retiro.
Um universo escapa-me aos sentidos
e todo um mar revolto em mim revolve
a porta, a chave, a clava e não a clave,
solstícios que aprisionam diamantes.
Dormentes que meus músculos palpitam
no verso dos papiros amarelos.
Estranha a lividez que esconde estrelas
e evola-se nos ecos de meus gritos.
Ó noite que te sei hoje acidente,
acúmulo de enganos perpetuados!
Tivesse achado um poço em vez de um templo,
a sede não teria me levado.
Houvesse inda o elixir que a morte cura,
sucumbiria ao medo da amargura.
o chão de escorpião, brilho e serpente.
Pegada o vento leva a areia enterra;
um rei sufoca à tumba de meus dentes.
Palavra que te dou minha palavra
e lavro o sal que levo no meu colo.
Mortalha de lençóis me escondem a cara
e já não mais me ocorre haver outonos.
Ressuscitar no sono dos reversos?
Ofusquem-se amuletos nos olvidos
dos sacrifícios da Kabbalah morta
e do meu sangue o bálsamo retiro.
Um universo escapa-me aos sentidos
e todo um mar revolto em mim revolve
a porta, a chave, a clava e não a clave,
solstícios que aprisionam diamantes.
Dormentes que meus músculos palpitam
no verso dos papiros amarelos.
Estranha a lividez que esconde estrelas
e evola-se nos ecos de meus gritos.
Ó noite que te sei hoje acidente,
acúmulo de enganos perpetuados!
Tivesse achado um poço em vez de um templo,
a sede não teria me levado.
Houvesse inda o elixir que a morte cura,
sucumbiria ao medo da amargura.
1 004
Luís António Cajazeira Ramos
Poema Inédito
Canto de Sereia
A Propósito de Lágrima Súbita
Da face do prazer, surgiu a lágrima,
como se fora mágica o viver.
Do riso e da alegria, veio o pranto
— testemunha de um canto de poesia.
Mas hoje, tão sozinha e triste, a gota
singelamente solta, assim... caminha
por sobre o corpo nu, livre de obstáculo
— só dor! — sem sustentáculo nenhum...
Vem do mar uma brisa de carícia
que beija sem malícia a pele e criva
em sal a solidão deste mergulho...
No solitário pulo, uma fusão
de lágrimas do rio com o vasto mar,
num encontro invulgar de dor e cio...
A Propósito de Lágrima Súbita
Da face do prazer, surgiu a lágrima,
como se fora mágica o viver.
Do riso e da alegria, veio o pranto
— testemunha de um canto de poesia.
Mas hoje, tão sozinha e triste, a gota
singelamente solta, assim... caminha
por sobre o corpo nu, livre de obstáculo
— só dor! — sem sustentáculo nenhum...
Vem do mar uma brisa de carícia
que beija sem malícia a pele e criva
em sal a solidão deste mergulho...
No solitário pulo, uma fusão
de lágrimas do rio com o vasto mar,
num encontro invulgar de dor e cio...
861
Ronaldo Bonfim
Haicai
Cachoeira
As pedras quebram
o espelho d’água e
refletem o sol.
O grilo imita
o som do atrito
carro de boi.
As pedras quebram
o espelho d’água e
refletem o sol.
O grilo imita
o som do atrito
carro de boi.
1 031