Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Juscelino Vieira Mendes
Nu como um Yanomami
A Soares Feitosa, e à sua criação: PSI, a Penúltima!
Percorro o meu interior
E me vejo nu como um yanomami.
Ando pelas encostas do meu ser
e vejo claramente as florestas
largas e repletas de árvores fortes e floridas;
largas e repletas de frutos maduros;
largas e repletas de plantas verdes.
Ando em meio as árvores e não percebo o bosque.
em meio aos frutos e não posso comer;
em meio as plantas e não sinto o seu aroma.
Caminho em direção ao rio que vejo ao longe;
rio que tem curso calmo.
Às vezes suas águas, que nunca são as mesmas,
descem velozmente ao encontro de um mar
que é só meu, único e indescritível...impenetrável.
Ando ao encontro desse rio, cujas águas são azuis,
e chego exausto e trêmulo.
Nele molho a minh’alma que se encanta e se enleva,
e chego a perceber o bosque: imenso e úmido.
Ouço o cantar dos pássaros!
E como dos frutos das árvores próximas: maduros e doces.
Que me são permitidos comer!
E sinto o aroma das plantas adjacentes: perfume silvestre.
Cheiro suave!
Sigo atravessando o rio e não desejo chegar.
As suas margens ainda estão largas,
mas se estreitam à medida que caminho:
a passos lentos e firmes...inseguros às vezes: não desejo ainda chegar.
As suas águas continuam a bater nas encostas do meu ser.
Volto-me a mim e reconstituo o caminho de volta.
Deixo para trás um rio lento e suave a caminho do mar
que não consigo enxergar, ainda que o veja: não estou mais nu,
não me conheço. Continuo, contudo, um yanomami.
Salvador, à meia noite de 11 de janeiro/97.
Percorro o meu interior
E me vejo nu como um yanomami.
Ando pelas encostas do meu ser
e vejo claramente as florestas
largas e repletas de árvores fortes e floridas;
largas e repletas de frutos maduros;
largas e repletas de plantas verdes.
Ando em meio as árvores e não percebo o bosque.
em meio aos frutos e não posso comer;
em meio as plantas e não sinto o seu aroma.
Caminho em direção ao rio que vejo ao longe;
rio que tem curso calmo.
Às vezes suas águas, que nunca são as mesmas,
descem velozmente ao encontro de um mar
que é só meu, único e indescritível...impenetrável.
Ando ao encontro desse rio, cujas águas são azuis,
e chego exausto e trêmulo.
Nele molho a minh’alma que se encanta e se enleva,
e chego a perceber o bosque: imenso e úmido.
Ouço o cantar dos pássaros!
E como dos frutos das árvores próximas: maduros e doces.
Que me são permitidos comer!
E sinto o aroma das plantas adjacentes: perfume silvestre.
Cheiro suave!
Sigo atravessando o rio e não desejo chegar.
As suas margens ainda estão largas,
mas se estreitam à medida que caminho:
a passos lentos e firmes...inseguros às vezes: não desejo ainda chegar.
As suas águas continuam a bater nas encostas do meu ser.
Volto-me a mim e reconstituo o caminho de volta.
Deixo para trás um rio lento e suave a caminho do mar
que não consigo enxergar, ainda que o veja: não estou mais nu,
não me conheço. Continuo, contudo, um yanomami.
Salvador, à meia noite de 11 de janeiro/97.
1 470
Juscelino Vieira Mendes
Nu como um Yanomami
A Soares Feitosa, e à sua criação: PSI, a Penúltima!
Percorro o meu interior
E me vejo nu como um yanomami.
Ando pelas encostas do meu ser
e vejo claramente as florestas
largas e repletas de árvores fortes e floridas;
largas e repletas de frutos maduros;
largas e repletas de plantas verdes.
Ando em meio as árvores e não percebo o bosque.
em meio aos frutos e não posso comer;
em meio as plantas e não sinto o seu aroma.
Caminho em direção ao rio que vejo ao longe;
rio que tem curso calmo.
Às vezes suas águas, que nunca são as mesmas,
descem velozmente ao encontro de um mar
que é só meu, único e indescritível...impenetrável.
Ando ao encontro desse rio, cujas águas são azuis,
e chego exausto e trêmulo.
Nele molho a minh’alma que se encanta e se enleva,
e chego a perceber o bosque: imenso e úmido.
Ouço o cantar dos pássaros!
E como dos frutos das árvores próximas: maduros e doces.
Que me são permitidos comer!
E sinto o aroma das plantas adjacentes: perfume silvestre.
Cheiro suave!
Sigo atravessando o rio e não desejo chegar.
As suas margens ainda estão largas,
mas se estreitam à medida que caminho:
a passos lentos e firmes...inseguros às vezes: não desejo ainda chegar.
As suas águas continuam a bater nas encostas do meu ser.
Volto-me a mim e reconstituo o caminho de volta.
Deixo para trás um rio lento e suave a caminho do mar
que não consigo enxergar, ainda que o veja: não estou mais nu,
não me conheço. Continuo, contudo, um yanomami.
Salvador, à meia noite de 11 de janeiro/97.
Percorro o meu interior
E me vejo nu como um yanomami.
Ando pelas encostas do meu ser
e vejo claramente as florestas
largas e repletas de árvores fortes e floridas;
largas e repletas de frutos maduros;
largas e repletas de plantas verdes.
Ando em meio as árvores e não percebo o bosque.
em meio aos frutos e não posso comer;
em meio as plantas e não sinto o seu aroma.
Caminho em direção ao rio que vejo ao longe;
rio que tem curso calmo.
Às vezes suas águas, que nunca são as mesmas,
descem velozmente ao encontro de um mar
que é só meu, único e indescritível...impenetrável.
Ando ao encontro desse rio, cujas águas são azuis,
e chego exausto e trêmulo.
Nele molho a minh’alma que se encanta e se enleva,
e chego a perceber o bosque: imenso e úmido.
Ouço o cantar dos pássaros!
E como dos frutos das árvores próximas: maduros e doces.
Que me são permitidos comer!
E sinto o aroma das plantas adjacentes: perfume silvestre.
Cheiro suave!
Sigo atravessando o rio e não desejo chegar.
As suas margens ainda estão largas,
mas se estreitam à medida que caminho:
a passos lentos e firmes...inseguros às vezes: não desejo ainda chegar.
As suas águas continuam a bater nas encostas do meu ser.
Volto-me a mim e reconstituo o caminho de volta.
Deixo para trás um rio lento e suave a caminho do mar
que não consigo enxergar, ainda que o veja: não estou mais nu,
não me conheço. Continuo, contudo, um yanomami.
Salvador, à meia noite de 11 de janeiro/97.
1 470
Jaumir Valença da Silveira
O papagaio
Não queres mais que me alisar as penas,
sabendo que de nada vale as ter.
Porquanto que em meu corpo são mais belas
e só o suave tacto é o que te espera.
De sensações esparsas me ofereço.
Do mundo que aprendi a olhar de lado
levanto as asas plenas da preguiça,
multicolor no abraço inconseqüente.
E oculto sério, na aridez do bico,
a força que o momento se consente.
Quem sabe, se tiveres muita sorte,
ou a perseverança de quem ama,
ou a vaidade que não tem remédio,
ouvirás de mim, após muito esforço,
um "meu amor" com um olhar que em si se perde.
Pois tudo é indiferente. O que me apraz
é a chuva que me chama e que me molha,
é o sol que me consola quando eu tremo,
e os frágeis girassóis bajuladores
que trazem, a cada dia, meu sustento.
sabendo que de nada vale as ter.
Porquanto que em meu corpo são mais belas
e só o suave tacto é o que te espera.
De sensações esparsas me ofereço.
Do mundo que aprendi a olhar de lado
levanto as asas plenas da preguiça,
multicolor no abraço inconseqüente.
E oculto sério, na aridez do bico,
a força que o momento se consente.
Quem sabe, se tiveres muita sorte,
ou a perseverança de quem ama,
ou a vaidade que não tem remédio,
ouvirás de mim, após muito esforço,
um "meu amor" com um olhar que em si se perde.
Pois tudo é indiferente. O que me apraz
é a chuva que me chama e que me molha,
é o sol que me consola quando eu tremo,
e os frágeis girassóis bajuladores
que trazem, a cada dia, meu sustento.
868
Jaumir Valença da Silveira
O papagaio
Não queres mais que me alisar as penas,
sabendo que de nada vale as ter.
Porquanto que em meu corpo são mais belas
e só o suave tacto é o que te espera.
De sensações esparsas me ofereço.
Do mundo que aprendi a olhar de lado
levanto as asas plenas da preguiça,
multicolor no abraço inconseqüente.
E oculto sério, na aridez do bico,
a força que o momento se consente.
Quem sabe, se tiveres muita sorte,
ou a perseverança de quem ama,
ou a vaidade que não tem remédio,
ouvirás de mim, após muito esforço,
um "meu amor" com um olhar que em si se perde.
Pois tudo é indiferente. O que me apraz
é a chuva que me chama e que me molha,
é o sol que me consola quando eu tremo,
e os frágeis girassóis bajuladores
que trazem, a cada dia, meu sustento.
sabendo que de nada vale as ter.
Porquanto que em meu corpo são mais belas
e só o suave tacto é o que te espera.
De sensações esparsas me ofereço.
Do mundo que aprendi a olhar de lado
levanto as asas plenas da preguiça,
multicolor no abraço inconseqüente.
E oculto sério, na aridez do bico,
a força que o momento se consente.
Quem sabe, se tiveres muita sorte,
ou a perseverança de quem ama,
ou a vaidade que não tem remédio,
ouvirás de mim, após muito esforço,
um "meu amor" com um olhar que em si se perde.
Pois tudo é indiferente. O que me apraz
é a chuva que me chama e que me molha,
é o sol que me consola quando eu tremo,
e os frágeis girassóis bajuladores
que trazem, a cada dia, meu sustento.
868
Jaumir Valença da Silveira
O papagaio
Não queres mais que me alisar as penas,
sabendo que de nada vale as ter.
Porquanto que em meu corpo são mais belas
e só o suave tacto é o que te espera.
De sensações esparsas me ofereço.
Do mundo que aprendi a olhar de lado
levanto as asas plenas da preguiça,
multicolor no abraço inconseqüente.
E oculto sério, na aridez do bico,
a força que o momento se consente.
Quem sabe, se tiveres muita sorte,
ou a perseverança de quem ama,
ou a vaidade que não tem remédio,
ouvirás de mim, após muito esforço,
um "meu amor" com um olhar que em si se perde.
Pois tudo é indiferente. O que me apraz
é a chuva que me chama e que me molha,
é o sol que me consola quando eu tremo,
e os frágeis girassóis bajuladores
que trazem, a cada dia, meu sustento.
sabendo que de nada vale as ter.
Porquanto que em meu corpo são mais belas
e só o suave tacto é o que te espera.
De sensações esparsas me ofereço.
Do mundo que aprendi a olhar de lado
levanto as asas plenas da preguiça,
multicolor no abraço inconseqüente.
E oculto sério, na aridez do bico,
a força que o momento se consente.
Quem sabe, se tiveres muita sorte,
ou a perseverança de quem ama,
ou a vaidade que não tem remédio,
ouvirás de mim, após muito esforço,
um "meu amor" com um olhar que em si se perde.
Pois tudo é indiferente. O que me apraz
é a chuva que me chama e que me molha,
é o sol que me consola quando eu tremo,
e os frágeis girassóis bajuladores
que trazem, a cada dia, meu sustento.
868
Jaumir Valença da Silveira
Late Spring
Amor de floração tardia
colhido ao chão das follhas secas.
Achado casulo de mim mesmo, seco,
fui ficando.
Eu já me despedia de meus anos.
Que já não há rubor nas entressafras,
veias, vias de memórias fracas.
Por que me permito?
Não das manhãs,
que o calor chega atrasado,
mas das tardes talvez,
que vai esfriando, mas fica morno,
morno - terno - e fica,
e fixa, dá calma
e alegria, doce, fragrante.
Destas horas fiz todos os meus dias.
E já não sei se vou, se vôo,
se parto.
Aparto as circunstâncias, ânsias
no meu em-torno.
Suspenso no que sinto e que repenso,
terçãs que desvanescem,
as horas crescem.
Nem todo amor negado às horas pena.
Açucenas. Lírios.
Não vale à alma o vale dos suplícios.
Deixa o aroma enevoar,
emudecer, entreabrir,
que eu sou todo a sombra da sombra,
senão luz própria sem fundo,
imagem que não existe
mas é tudo.
Há muito basta o gesto de sorrir.
Dá-me teus frutos...
é mais que eu merecia.
Amor de floração tardia.
colhido ao chão das follhas secas.
Achado casulo de mim mesmo, seco,
fui ficando.
Eu já me despedia de meus anos.
Que já não há rubor nas entressafras,
veias, vias de memórias fracas.
Por que me permito?
Não das manhãs,
que o calor chega atrasado,
mas das tardes talvez,
que vai esfriando, mas fica morno,
morno - terno - e fica,
e fixa, dá calma
e alegria, doce, fragrante.
Destas horas fiz todos os meus dias.
E já não sei se vou, se vôo,
se parto.
Aparto as circunstâncias, ânsias
no meu em-torno.
Suspenso no que sinto e que repenso,
terçãs que desvanescem,
as horas crescem.
Nem todo amor negado às horas pena.
Açucenas. Lírios.
Não vale à alma o vale dos suplícios.
Deixa o aroma enevoar,
emudecer, entreabrir,
que eu sou todo a sombra da sombra,
senão luz própria sem fundo,
imagem que não existe
mas é tudo.
Há muito basta o gesto de sorrir.
Dá-me teus frutos...
é mais que eu merecia.
Amor de floração tardia.
908
Juscelino Vieira Mendes
Chuva
Chuva, chove
Cai, mata, desce veloz
Torrencial, matinal
Desgraçadamente sobre eles, nós, todos...
Inunda, transborda rios: de sangue!
De água, sem cessar...
Continua matando, transbordando
No estado do Rio; do Paraná; de São Paulo e do Ceará...
Nada de água; água prá nada.
Fogem de lá prá cá... enchente...ingente, indigente!
Para morrerem de sede; de fome
Sem amor, de dor, de saudade.
Sem saudade; de amor...
Continua caindo, sempre
Molhando, invadindo
matando-os; não eles...
Não latifundiários; não os bons
Somente os maus
Desce, chove
cresce, enche
Mata a fome: de fome
Uns, outros, todos...
(...e inunda-me também o coração!).
enchente de janeiro de 1977.
Cai, mata, desce veloz
Torrencial, matinal
Desgraçadamente sobre eles, nós, todos...
Inunda, transborda rios: de sangue!
De água, sem cessar...
Continua matando, transbordando
No estado do Rio; do Paraná; de São Paulo e do Ceará...
Nada de água; água prá nada.
Fogem de lá prá cá... enchente...ingente, indigente!
Para morrerem de sede; de fome
Sem amor, de dor, de saudade.
Sem saudade; de amor...
Continua caindo, sempre
Molhando, invadindo
matando-os; não eles...
Não latifundiários; não os bons
Somente os maus
Desce, chove
cresce, enche
Mata a fome: de fome
Uns, outros, todos...
(...e inunda-me também o coração!).
enchente de janeiro de 1977.
1 023
Jaumir Valença da Silveira
Matinal
Madrugada dada
ao firmamento.
O sol
vem trazido ao vento,
rosando o céu
e o roseiral.
Um tom maior
se eleva.
E leva, no colo,
o sonho dormido.
Manhã de novo,
o dia vem vindo.
Passa
o passaredo.
E o meu enredo
é passar
o passado
entre os dedos.
Dura a aurora
duradoura.
Doura
meu olhar.
Lacrimeja
o que a alma almeja.
Pois seja
o que Deus
desejar,
se é verdade
que Deus
deseja.
E apesar
de pesar
tanto a vida,
o meu canto
hoje eu vim
pra cantar.
ao firmamento.
O sol
vem trazido ao vento,
rosando o céu
e o roseiral.
Um tom maior
se eleva.
E leva, no colo,
o sonho dormido.
Manhã de novo,
o dia vem vindo.
Passa
o passaredo.
E o meu enredo
é passar
o passado
entre os dedos.
Dura a aurora
duradoura.
Doura
meu olhar.
Lacrimeja
o que a alma almeja.
Pois seja
o que Deus
desejar,
se é verdade
que Deus
deseja.
E apesar
de pesar
tanto a vida,
o meu canto
hoje eu vim
pra cantar.
1 085
Jaumir Valença da Silveira
Matinal
Madrugada dada
ao firmamento.
O sol
vem trazido ao vento,
rosando o céu
e o roseiral.
Um tom maior
se eleva.
E leva, no colo,
o sonho dormido.
Manhã de novo,
o dia vem vindo.
Passa
o passaredo.
E o meu enredo
é passar
o passado
entre os dedos.
Dura a aurora
duradoura.
Doura
meu olhar.
Lacrimeja
o que a alma almeja.
Pois seja
o que Deus
desejar,
se é verdade
que Deus
deseja.
E apesar
de pesar
tanto a vida,
o meu canto
hoje eu vim
pra cantar.
ao firmamento.
O sol
vem trazido ao vento,
rosando o céu
e o roseiral.
Um tom maior
se eleva.
E leva, no colo,
o sonho dormido.
Manhã de novo,
o dia vem vindo.
Passa
o passaredo.
E o meu enredo
é passar
o passado
entre os dedos.
Dura a aurora
duradoura.
Doura
meu olhar.
Lacrimeja
o que a alma almeja.
Pois seja
o que Deus
desejar,
se é verdade
que Deus
deseja.
E apesar
de pesar
tanto a vida,
o meu canto
hoje eu vim
pra cantar.
1 085
António de Navarro
Poema VI
Arvores, folhas, águas, cousas de África,
Deveis ter uma alma, uma força,
Mas eu não vos emocionei ainda
E, — por conseguinte — sou-vos a fuga duma corça.
Deveis ter uma poesia qualquer,
Mas eu apenas sinto a poesia aqui
No homem branco, que a não sente,
Não afeiçoar a natureza a si.
E essa luta de carne força
Contra a força da natureza
É linda, tem beleza,
Mas eu vi há dias numa corça,
Numa pequena gazela,
Que me lambeu os dedos,
A coisa mais bela
Que eu senti — eu que procuro os bruxedos,
As confidências nupciais
Da vida e do meu ser!
Entendemo-nos pouco,
Terras de África — é que eu toco
Instrumento de corda em que os meus nervos são
A matéria e o som, a música e a pauta.
Eu, em suma, toco no coração
Que dou à vida, distraído e sem cauta
Prevenção, e vós requebrai-vos num batuque
Álacre, sim, mas dum som que é como um estuque
Denso e opaco, e a minha casa
Gosto-a mais asa,
Caiada de nuvens naturais, como o acaso indique.
Deveis ter uma alma, uma força,
Mas eu não vos emocionei ainda
E, — por conseguinte — sou-vos a fuga duma corça.
Deveis ter uma poesia qualquer,
Mas eu apenas sinto a poesia aqui
No homem branco, que a não sente,
Não afeiçoar a natureza a si.
E essa luta de carne força
Contra a força da natureza
É linda, tem beleza,
Mas eu vi há dias numa corça,
Numa pequena gazela,
Que me lambeu os dedos,
A coisa mais bela
Que eu senti — eu que procuro os bruxedos,
As confidências nupciais
Da vida e do meu ser!
Entendemo-nos pouco,
Terras de África — é que eu toco
Instrumento de corda em que os meus nervos são
A matéria e o som, a música e a pauta.
Eu, em suma, toco no coração
Que dou à vida, distraído e sem cauta
Prevenção, e vós requebrai-vos num batuque
Álacre, sim, mas dum som que é como um estuque
Denso e opaco, e a minha casa
Gosto-a mais asa,
Caiada de nuvens naturais, como o acaso indique.
1 009
Luís António Cajazeira Ramos
Angústia Precipícia
Como posso estar só, se estou sempre comigo?
Minha ausência é a presença que tanto persigo.
Quero estar só, sem mim, pra não ter um motivo
pra tentar escapar do desgosto em que vivo.
Tenho lágrimas metafísicas — eu sei
que há muito que não choro, desde que gostei,
há pouco, quando alguém me disse que não vem
mais agora, e agora eu não quero mais ninguém.
Queria a solidão mais rústica e absorta,
como um coral num mar sem onda que o revolva
— e eu, sem jeito, sem fim, consumindo a revolta...
Revolta que é de mim, de estar preso a mim mesmo,
como um coral num mar sem fim — e eu, sem desejo,
sem revolta, sem nada que me traga apego.
Minha ausência é a presença que tanto persigo.
Quero estar só, sem mim, pra não ter um motivo
pra tentar escapar do desgosto em que vivo.
Tenho lágrimas metafísicas — eu sei
que há muito que não choro, desde que gostei,
há pouco, quando alguém me disse que não vem
mais agora, e agora eu não quero mais ninguém.
Queria a solidão mais rústica e absorta,
como um coral num mar sem onda que o revolva
— e eu, sem jeito, sem fim, consumindo a revolta...
Revolta que é de mim, de estar preso a mim mesmo,
como um coral num mar sem fim — e eu, sem desejo,
sem revolta, sem nada que me traga apego.
943
Luís Amaro
Poema dos 20 Anos aReinaldo Ferreira
Uma sombra passou na noite morta,
Ausente, indefenida,
Vindo passar depois à minha porta,
Dentro da minha vida.
É a lembrança dum sonho que sonhei
Lá muito longe, incerto,
Envolto em brumas que chorando, amei
Perdido no deserto.
No deserto perdido, entre fantasmas, só,
Na noite antiga e fria…
Nada mais resta do que cinza e pó
Da sua melodia.
Que lembrança triste me trouxeste,
Ò sombra vaga…
Confunde o teu perfil na noite agreste,
A ver se enfim a minha dor se apaga!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Ausente, indefenida,
Vindo passar depois à minha porta,
Dentro da minha vida.
É a lembrança dum sonho que sonhei
Lá muito longe, incerto,
Envolto em brumas que chorando, amei
Perdido no deserto.
No deserto perdido, entre fantasmas, só,
Na noite antiga e fria…
Nada mais resta do que cinza e pó
Da sua melodia.
Que lembrança triste me trouxeste,
Ò sombra vaga…
Confunde o teu perfil na noite agreste,
A ver se enfim a minha dor se apaga!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 084
António Maria Lisboa
Comutador
Ergo-me de ti no zimbório
de folhas na penedia do castelo medieval
de limos na umidade da praia
de cristais entre os rochedos do Cabo Horn
Caminho de gelo na floresta
de sôfrego na vastidão do deserto
de louco na brancura do hospício
Eu abismo, eu cratera
inclinei-me e vi um espetáculo caprichoso: uma unha branca
uma unha branca a viver assim despreocupada
OGIVA-BORBOLETA
Arco-de-Cor caldo muito triste
Casulo de quem ninguém falou
Teia-de-Aranha exposta à loucura e ao tempo
Andorinha-Azul de chapéu mole e baratas na cama
VENTOINHA.
de folhas na penedia do castelo medieval
de limos na umidade da praia
de cristais entre os rochedos do Cabo Horn
Caminho de gelo na floresta
de sôfrego na vastidão do deserto
de louco na brancura do hospício
Eu abismo, eu cratera
inclinei-me e vi um espetáculo caprichoso: uma unha branca
uma unha branca a viver assim despreocupada
OGIVA-BORBOLETA
Arco-de-Cor caldo muito triste
Casulo de quem ninguém falou
Teia-de-Aranha exposta à loucura e ao tempo
Andorinha-Azul de chapéu mole e baratas na cama
VENTOINHA.
1 837
Américo Falcão
Náufragos
Eu, timoneiro audaz, parti, cantando,
Na galera de sonhos, pela vida.
O lindo e imenso mar atravessando...
Vento largo... bonança indefinida...
Do mar a superfície adormecida
Que o sol beijava rútilo, raiando,
Era uma veiga azul toda florida
De espuma leve em flóculos boiando.
Fazendo rumo ao porto da ventura,
Mostrou-se o céu de plúmbea face adunca
E a galera perdeu-se em noite escura...
Ai que momentos lúgubres, medonhos!
Nautas da crença, eu não me esqueço nunca,
Do naufrágio sinistro dos meus sonhos.
Na galera de sonhos, pela vida.
O lindo e imenso mar atravessando...
Vento largo... bonança indefinida...
Do mar a superfície adormecida
Que o sol beijava rútilo, raiando,
Era uma veiga azul toda florida
De espuma leve em flóculos boiando.
Fazendo rumo ao porto da ventura,
Mostrou-se o céu de plúmbea face adunca
E a galera perdeu-se em noite escura...
Ai que momentos lúgubres, medonhos!
Nautas da crença, eu não me esqueço nunca,
Do naufrágio sinistro dos meus sonhos.
1 974
Albano Dias Martins
Elegia
em forma de epístola
A circunstância de sermos homem e mulher
presos por uma aliança tácita
e secreta
do sangue
é que nos prende à vida, meu amor, e nos salva.
Nascemos sem
passaporte,
entre fronteiras guardadas
por sentinelas de sal e de silêncio.
O rio da história
corre, estrangulado, entre as pedras,
e o cascalho, e os detritos humanos,
e a alegria suicida das coisas limpas e puras
abandonadas e soltas à vertigem da morte.
Construímos
para nossa defesa
um muro de ironia e de sarcasmo
– imponderável cortina
de humana ternura envergonhada
ou, como tu dizes, perseguida.
O silêncio
é a corda
que nos prende aos mastros,
a antena vegetal por onde
a vida se insinua,
universal e atenta.
Marinheiros
duma pátria
ancorada no tempo,
bebemos o sal dos minutos que passam
e adormecemos, hirtos, de costas para o mar.
in:Coração
de Bússola(1967)
A circunstância de sermos homem e mulher
presos por uma aliança tácita
e secreta
do sangue
é que nos prende à vida, meu amor, e nos salva.
Nascemos sem
passaporte,
entre fronteiras guardadas
por sentinelas de sal e de silêncio.
O rio da história
corre, estrangulado, entre as pedras,
e o cascalho, e os detritos humanos,
e a alegria suicida das coisas limpas e puras
abandonadas e soltas à vertigem da morte.
Construímos
para nossa defesa
um muro de ironia e de sarcasmo
– imponderável cortina
de humana ternura envergonhada
ou, como tu dizes, perseguida.
O silêncio
é a corda
que nos prende aos mastros,
a antena vegetal por onde
a vida se insinua,
universal e atenta.
Marinheiros
duma pátria
ancorada no tempo,
bebemos o sal dos minutos que passam
e adormecemos, hirtos, de costas para o mar.
in:Coração
de Bússola(1967)
1 145
Carlos de Oliveira
Edgar Allan Poe
O inverno em Boston foi breve.Ele bebia.Sílabas
abriam-se uma a uma pelos cantos do quarto.Gotas
de álcool.Quem se lembra da chuva caída no seu
nome?
Folheou toda a noite os livros ancestrais e encon-
trou qualquer coisa,ninguém sabe o quê,talvez o
retrato de Annabel Lee.Esboçou-o na vidraça car-
regada de sombra e o quarto amanheceu.
"Mais isso pouco vale(diz a magia negra),o filtro
apenas decompôs mais cedo o horror em luz,não
alterou a solidão dos dias,que a noite separa uns
dos outros para sempre".
de Sobre o Lado Esquerdo
abriam-se uma a uma pelos cantos do quarto.Gotas
de álcool.Quem se lembra da chuva caída no seu
nome?
Folheou toda a noite os livros ancestrais e encon-
trou qualquer coisa,ninguém sabe o quê,talvez o
retrato de Annabel Lee.Esboçou-o na vidraça car-
regada de sombra e o quarto amanheceu.
"Mais isso pouco vale(diz a magia negra),o filtro
apenas decompôs mais cedo o horror em luz,não
alterou a solidão dos dias,que a noite separa uns
dos outros para sempre".
de Sobre o Lado Esquerdo
1 647
António Franco Alexandre
fico aguardando telegramas, os azuis
recados.
os poderes da manhã já pouco duram.
à superfície o som move na boca
um pouco sopro.
não julgues que me importam as roldanas
do tempo no teu
corpo
são certos os abismos de cartão
e falsa a neve que nos cobre os passos.
de graça a terra nos dispõe na foto
e a idade inventa nomes que a dissipem
descobre-me impacientes os recados o
envelope da urgência o intervalo
de A Pequena Face
os poderes da manhã já pouco duram.
à superfície o som move na boca
um pouco sopro.
não julgues que me importam as roldanas
do tempo no teu
corpo
são certos os abismos de cartão
e falsa a neve que nos cobre os passos.
de graça a terra nos dispõe na foto
e a idade inventa nomes que a dissipem
descobre-me impacientes os recados o
envelope da urgência o intervalo
de A Pequena Face
1 351
Albano Dias Martins
Concitas para
os ritos
da noite a pinça
verde dos lacraus.
De há muito
sabes que não há
para o sono outro vício,
outra rasura para a morte.
in:Os Patamares
da Memória(1989)
da noite a pinça
verde dos lacraus.
De há muito
sabes que não há
para o sono outro vício,
outra rasura para a morte.
in:Os Patamares
da Memória(1989)
1 147
Cirstina Areias
O Mapa de coxilha do fogo
Na luta pela minha terra,
Deitei nela suor, e sangue,
E todos os músculos meus retesados...
Reconheço, agora,
Em suas verdes coxilhas,
Meus nervos, antes em afã de fogo de batalha,
Agora, lassos...
No vento doce da acácia-negra,
Meu hálito, antes bafejando gládio
Verti a mim mesmo, nesta terra...
Seu grão percorre minhas veias
Num raizame de abraço estreito
Meu sangue encharca seu leito em arroios tortuosos e soberbos
E, o do inimigo de antes, cala nos olhos do povo um pavor de fogo-fátuo,
De mula-sem-cabeça...
Ouço canções e falas que plagiam seus sons...
E, hoje, nem sei se sou Barro ou Homem,
Tamanha a fraternidade que viceja em nós dois...
Ou então...
Suponho que a terra é fêmea...
E andei defendendo princesas!
Sento à noite, na campanha,
E, num misto de Guerra e Paz,
Eu e ela olhamos para a Lua
Com desejos obscenos de conquista!
E assim, traçamos, cúmplices os dois,
Um curioso mapa
Que vai do grão ao coração,
E do coração ao Universo...
Deitei nela suor, e sangue,
E todos os músculos meus retesados...
Reconheço, agora,
Em suas verdes coxilhas,
Meus nervos, antes em afã de fogo de batalha,
Agora, lassos...
No vento doce da acácia-negra,
Meu hálito, antes bafejando gládio
Verti a mim mesmo, nesta terra...
Seu grão percorre minhas veias
Num raizame de abraço estreito
Meu sangue encharca seu leito em arroios tortuosos e soberbos
E, o do inimigo de antes, cala nos olhos do povo um pavor de fogo-fátuo,
De mula-sem-cabeça...
Ouço canções e falas que plagiam seus sons...
E, hoje, nem sei se sou Barro ou Homem,
Tamanha a fraternidade que viceja em nós dois...
Ou então...
Suponho que a terra é fêmea...
E andei defendendo princesas!
Sento à noite, na campanha,
E, num misto de Guerra e Paz,
Eu e ela olhamos para a Lua
Com desejos obscenos de conquista!
E assim, traçamos, cúmplices os dois,
Um curioso mapa
Que vai do grão ao coração,
E do coração ao Universo...
876
Carlos de Oliveira
Estalactite
IV
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
VI
Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar
VIII
Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.
de Micropaisagem
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
VI
Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar
VIII
Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.
de Micropaisagem
2 786
António Gancho
Tu és mortal meu Deus
Noite, vem noite
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
1 571
Albano Dias Martins
Enquanto
o amor,enquanto a morte
Enquanto aguardas
e as urnas vazias
recolhem a poeira do verão.
Enquanto,
já submissos, os touros
do sol a soturnos
desígnios entregam
seu furor.
Enquanto,
sob a casa, agora
as térmitas repousam, momentanea
mente reverdecem
meus eucaliptos de água
e ouro.
Enquanto
o amor.
Enquanto
a morte.
Enquanto.
in:Os
Remos Escaldantes(1983)
Enquanto aguardas
e as urnas vazias
recolhem a poeira do verão.
Enquanto,
já submissos, os touros
do sol a soturnos
desígnios entregam
seu furor.
Enquanto,
sob a casa, agora
as térmitas repousam, momentanea
mente reverdecem
meus eucaliptos de água
e ouro.
Enquanto
o amor.
Enquanto
a morte.
Enquanto.
in:Os
Remos Escaldantes(1983)
1 168
Carlos de Oliveira
Entre duas memórias;
já separadas como estratos,
mas recordando-se uma à outra;
subimos pelo frio:
paredes altas de água a condensar-se
no ar ainda azul;com a transparência
sem som a suavizá-lo;
perguntamos indecisamente:
neve mais silêncio
igual ao fim do azul?
ou a fórmula do esquecimento;
onde passam gelos vagarosos;
deduz-se doutro modo?
seja como for,
nenhuma sombra nos prolonga
por este chão de vidro;
e o ar boreal reflecte-nos os olhos,
tão limpos,que os extingue.
de Entre Duas Memórias
mas recordando-se uma à outra;
subimos pelo frio:
paredes altas de água a condensar-se
no ar ainda azul;com a transparência
sem som a suavizá-lo;
perguntamos indecisamente:
neve mais silêncio
igual ao fim do azul?
ou a fórmula do esquecimento;
onde passam gelos vagarosos;
deduz-se doutro modo?
seja como for,
nenhuma sombra nos prolonga
por este chão de vidro;
e o ar boreal reflecte-nos os olhos,
tão limpos,que os extingue.
de Entre Duas Memórias
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