Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Lalla Romano
Como uma flor o céu
Como uma flor o céu
debruado de vermelho posa
de leve sobre a terra escura
Como a flor caída
lentamente emurchece
e a sua cor serena
pouco a pouco escurece
Pende no céu profundo
estame de ouro, a lua
:
Simile a un fiore il cielo
dagli orli vermigli posa
lieve sulla terra oscura
Come il fiore caduto
lentamente appassisce
il suo sereno colore
a poco a poco imbruna
Pende nel cielo profondo
stame d'oro la luna
debruado de vermelho posa
de leve sobre a terra escura
Como a flor caída
lentamente emurchece
e a sua cor serena
pouco a pouco escurece
Pende no céu profundo
estame de ouro, a lua
:
Simile a un fiore il cielo
dagli orli vermigli posa
lieve sulla terra oscura
Come il fiore caduto
lentamente appassisce
il suo sereno colore
a poco a poco imbruna
Pende nel cielo profondo
stame d'oro la luna
945
1
Adalgisa Nery
Mistério
Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência...
na ânsia de saber quem grita.
(Adalgisa Nery)
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência...
na ânsia de saber quem grita.
(Adalgisa Nery)
1 804
1
Adalgisa Nery
Mistério
Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência...
na ânsia de saber quem grita.
(Adalgisa Nery)
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência...
na ânsia de saber quem grita.
(Adalgisa Nery)
1 804
1
Adalgisa Nery
Mistério
Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência...
na ânsia de saber quem grita.
(Adalgisa Nery)
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência...
na ânsia de saber quem grita.
(Adalgisa Nery)
1 804
1
Ise no miyasudokoro
Pende dos galhos
Pende dos galhos
de um verde salgueiro
chuva primeva
tal como se fora um
meandro de pérolas.
852
1
Ise no miyasudokoro
Pende dos galhos
Pende dos galhos
de um verde salgueiro
chuva primeva
tal como se fora um
meandro de pérolas.
852
1
Léopold Sédar Senghor
eu imagino ou sonho de menina
imagino que você está ali
tem o sol
e este pássaro perdido de trinado tão estranho
diríamos uma tarde de verão
clara. sinto que estou ficando tola, tão tola
tenho imenso desejo de me deitar entre o feno,
com manchas de sol sobre a pele nua
asas de borboleta em largas pétalas
e toda espécie de insetos do planeta
ao meu redor
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Je m’imagine (Rêve de jeune fille)
Léopold Sédar Senghor
Je m’imagine que tu es là.
Il y a le soleil
Et cet oiseau perdu au chant
Si étrange.
On dirait une après-midi d’été,
Claire. Je me sens devenir sotte, très sotte.
J’ai grand désir ‘être couchée dans les foins,
Avec des taches de soleil sur ma peau nue,
Des ailes de papillons en larges pétales
Et toutes sortes de petites bêtes de la terre
Autour de moi.
1 343
1
Léopold Sédar Senghor
eu imagino ou sonho de menina
imagino que você está ali
tem o sol
e este pássaro perdido de trinado tão estranho
diríamos uma tarde de verão
clara. sinto que estou ficando tola, tão tola
tenho imenso desejo de me deitar entre o feno,
com manchas de sol sobre a pele nua
asas de borboleta em largas pétalas
e toda espécie de insetos do planeta
ao meu redor
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Je m’imagine (Rêve de jeune fille)
Léopold Sédar Senghor
Je m’imagine que tu es là.
Il y a le soleil
Et cet oiseau perdu au chant
Si étrange.
On dirait une après-midi d’été,
Claire. Je me sens devenir sotte, très sotte.
J’ai grand désir ‘être couchée dans les foins,
Avec des taches de soleil sur ma peau nue,
Des ailes de papillons en larges pétales
Et toutes sortes de petites bêtes de la terre
Autour de moi.
1 343
1
Léopold Sédar Senghor
eu imagino ou sonho de menina
imagino que você está ali
tem o sol
e este pássaro perdido de trinado tão estranho
diríamos uma tarde de verão
clara. sinto que estou ficando tola, tão tola
tenho imenso desejo de me deitar entre o feno,
com manchas de sol sobre a pele nua
asas de borboleta em largas pétalas
e toda espécie de insetos do planeta
ao meu redor
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Je m’imagine (Rêve de jeune fille)
Léopold Sédar Senghor
Je m’imagine que tu es là.
Il y a le soleil
Et cet oiseau perdu au chant
Si étrange.
On dirait une après-midi d’été,
Claire. Je me sens devenir sotte, très sotte.
J’ai grand désir ‘être couchée dans les foins,
Avec des taches de soleil sur ma peau nue,
Des ailes de papillons en larges pétales
Et toutes sortes de petites bêtes de la terre
Autour de moi.
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1
Wisława Szymborska
Na torre de Babel
— Que horas são? — Sim, estou feliz
e só me falta um guizo no pescoço
para enquanto tu dormes ele retinir sobre ti.
— Não ouviste então a tempestade? O vento assolou as muralhas,
a torre urrou como um leão pelo portão
a ranger nas dobradiças. — Como é que podes não te lembrar?
Eu trazia um vestido cinzento muito simples
de abotoar nos ombros. — E logo a seguir
o céu explodiu em mil clarões. — Como é que eu podia entrar
se tu não estavas sozinho! — E vi de súbito
as cores de antes de haver olhar. — É pena
que não possas perdoar-me. — Tens toda a razão,
foi um sonho de certeza. — Por que é que mentes?
Por que me tratas pelo nome dela?
Amá-la ainda? — Sim! Queria muito
que ficasses comigo. — Não estou triste,
eu devia ter adivinhado.
— Ainda pensar nele? — Não estou a chorar!
— E é tudo? — De ninguém como de ti.
— Pelo menos és sincera. — Fica tranquilo,
vou-me embora da cidade. — Fica tranquilo,
eu vou-me embora daqui. — Tens umas mãos tão bonitas.
— É uma velha história. Foi duro
mas passou sem deixar mossas. — Não tem de quê,
meu caro, não tem de quê. — Não sei
que horas são e nem quero saber.
e só me falta um guizo no pescoço
para enquanto tu dormes ele retinir sobre ti.
— Não ouviste então a tempestade? O vento assolou as muralhas,
a torre urrou como um leão pelo portão
a ranger nas dobradiças. — Como é que podes não te lembrar?
Eu trazia um vestido cinzento muito simples
de abotoar nos ombros. — E logo a seguir
o céu explodiu em mil clarões. — Como é que eu podia entrar
se tu não estavas sozinho! — E vi de súbito
as cores de antes de haver olhar. — É pena
que não possas perdoar-me. — Tens toda a razão,
foi um sonho de certeza. — Por que é que mentes?
Por que me tratas pelo nome dela?
Amá-la ainda? — Sim! Queria muito
que ficasses comigo. — Não estou triste,
eu devia ter adivinhado.
— Ainda pensar nele? — Não estou a chorar!
— E é tudo? — De ninguém como de ti.
— Pelo menos és sincera. — Fica tranquilo,
vou-me embora da cidade. — Fica tranquilo,
eu vou-me embora daqui. — Tens umas mãos tão bonitas.
— É uma velha história. Foi duro
mas passou sem deixar mossas. — Não tem de quê,
meu caro, não tem de quê. — Não sei
que horas são e nem quero saber.
1 551
1
Luis Romano
Vida
A crioula que meus olhos beijaram a medo
predeu-se na confusão de um porto francês
Ela sorria continuamente, erguendo no seu riso uma cançaão extraordinária.
Não foi um romance de amor
nem mesmo um pequeno segredo entre ambos.
Somente, quando Ela falava ao pé de mim, eu sentia:
um aprazível devaneio
pela maravilha escultural duma Mulher Perfeita.
Depois,
a Vida separando Nós-Dois
a confusão, os ruidos, os braços agitando-se
e o vapor levando para outros mares,
outros portos,
a graça, o mistério, o perfume e os cantares
da crioula que meus olhos beijaram a medo
no tombadilho daquele vapor francês.
predeu-se na confusão de um porto francês
Ela sorria continuamente, erguendo no seu riso uma cançaão extraordinária.
Não foi um romance de amor
nem mesmo um pequeno segredo entre ambos.
Somente, quando Ela falava ao pé de mim, eu sentia:
um aprazível devaneio
pela maravilha escultural duma Mulher Perfeita.
Depois,
a Vida separando Nós-Dois
a confusão, os ruidos, os braços agitando-se
e o vapor levando para outros mares,
outros portos,
a graça, o mistério, o perfume e os cantares
da crioula que meus olhos beijaram a medo
no tombadilho daquele vapor francês.
1 333
1
Herberto Helder
Vem das estampas de ouro, o sono encurva-lhe os cabelos
Vem das estampas de ouro, o sono encurva-lhe os cabelos,
fica branca de andar encostada à noite,
e respira, respira,
sim respira,
como uma colina tão nua
que os pulmões fossem uma renda de prata atormentada,
ou água cruel aberta
por ti,
tubarão crepitando pelo Índico,
entre geladas barragens de sal em rama,
com uma garra no ventre,
uma síncope,
um mergulho como uma flor
que se não chama negra,
nem cujo nome pode ser dito assim:
aquilo é a paixão,
mas que,
tremendo,
se pode pronunciar como beleza este espaço,
crime esta paisagem,
ou então:
a lua dança
como um vestido bêbedo
- ata lenços de um branco que desfaleça nos dedos,
e atira fora esse ramo,
e aí verás como é que eu me movo:
sim,
eu respiro,
estou direita,
deixa-me passar
- aqui vai uma ilha de pés descalços,
aqui é um espelho caminhando como a voz
por onde entram e saem
imagens cambaleantes,
e tu chamas-te então:
como eu vi o tempo,
era uma maneira cega de haver junquilhos
que giravam até se arrancarem dos terrenos nocturnos
e viverem como crianças ondulantes,
esquecidas do seu texto,
num exílio de espanto e beleza brusca,
de fazer pensar,
súbito,
na morte prometida a todas as coisas
que se aproximam demasiado do nosso amor,
e é então que tu dizes:
há casas desabitadas,
eu estou nessas casas
que tremem quando movo as mãos,
a minha cabeleira palpita:
é o sangue que sobe do coração apavorado
e se faz dócil,
quando o pente arrefece um a um os cabelos,
e então o meu nome é:
pimenta,
areia sentada,
abertura da luz para onde saltam laranjas que pulsam,
ah, deixa-me passar,
digo-te baixo como hoje me chamo
e como nunca mais me chamarei:
loucura,
loucura unida à rítmica matéria das coisas,
e se abrires o teu sono,
dessa vez única verás o que sou:
uma figura
impelida pela vertigem,
a inclinação do teu próprio conhecimento
sobre a morte iluminada por todos os
lados,
depois terei um só nome:
revelação,
até que os dias arquejantes me sufoquem e,
no terror que te atravessa como água dolorosa,
eu seja a tua ilha a prumo,
onde habitas,
tu próprio uma ilha desabitada,
entre a lua
como uma rosa infrene e os peixes frios
e selvagens.
fica branca de andar encostada à noite,
e respira, respira,
sim respira,
como uma colina tão nua
que os pulmões fossem uma renda de prata atormentada,
ou água cruel aberta
por ti,
tubarão crepitando pelo Índico,
entre geladas barragens de sal em rama,
com uma garra no ventre,
uma síncope,
um mergulho como uma flor
que se não chama negra,
nem cujo nome pode ser dito assim:
aquilo é a paixão,
mas que,
tremendo,
se pode pronunciar como beleza este espaço,
crime esta paisagem,
ou então:
a lua dança
como um vestido bêbedo
- ata lenços de um branco que desfaleça nos dedos,
e atira fora esse ramo,
e aí verás como é que eu me movo:
sim,
eu respiro,
estou direita,
deixa-me passar
- aqui vai uma ilha de pés descalços,
aqui é um espelho caminhando como a voz
por onde entram e saem
imagens cambaleantes,
e tu chamas-te então:
como eu vi o tempo,
era uma maneira cega de haver junquilhos
que giravam até se arrancarem dos terrenos nocturnos
e viverem como crianças ondulantes,
esquecidas do seu texto,
num exílio de espanto e beleza brusca,
de fazer pensar,
súbito,
na morte prometida a todas as coisas
que se aproximam demasiado do nosso amor,
e é então que tu dizes:
há casas desabitadas,
eu estou nessas casas
que tremem quando movo as mãos,
a minha cabeleira palpita:
é o sangue que sobe do coração apavorado
e se faz dócil,
quando o pente arrefece um a um os cabelos,
e então o meu nome é:
pimenta,
areia sentada,
abertura da luz para onde saltam laranjas que pulsam,
ah, deixa-me passar,
digo-te baixo como hoje me chamo
e como nunca mais me chamarei:
loucura,
loucura unida à rítmica matéria das coisas,
e se abrires o teu sono,
dessa vez única verás o que sou:
uma figura
impelida pela vertigem,
a inclinação do teu próprio conhecimento
sobre a morte iluminada por todos os
lados,
depois terei um só nome:
revelação,
até que os dias arquejantes me sufoquem e,
no terror que te atravessa como água dolorosa,
eu seja a tua ilha a prumo,
onde habitas,
tu próprio uma ilha desabitada,
entre a lua
como uma rosa infrene e os peixes frios
e selvagens.
4 119
1
Herberto Helder
As Musas Cegas - Iv
Mulher, casa e gato.
Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.
A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
gira e pára no sorriso
da mulher da luz. Dentro da casa,
o movimento obscuro destas coisas que não encontram
palavras.
Eu próprio caio na mulher, o gato
adormece na palavra, e a mulher toma
a palavra do gato no regaço.
Eu olho, e a mulher é a palavra.
Palavra abstracta que arrefeceu no gato
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.
Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.
Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo, com o amor do amor,
não só a palavra mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro da casa.
No mundo tão concreto.
Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.
A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
gira e pára no sorriso
da mulher da luz. Dentro da casa,
o movimento obscuro destas coisas que não encontram
palavras.
Eu próprio caio na mulher, o gato
adormece na palavra, e a mulher toma
a palavra do gato no regaço.
Eu olho, e a mulher é a palavra.
Palavra abstracta que arrefeceu no gato
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.
Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.
Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo, com o amor do amor,
não só a palavra mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro da casa.
No mundo tão concreto.
5 840
1
Herberto Helder
Contou que caminhava pela praia, nu, correndo
Contou que caminhava pela praia, nu, correndo.
A areia, o sol, o mar
e a profundidade extenuante do céu embriagavam-no.
Tinha extrema consciência da sua nudez,
e isso também o embriagava.
Ia com um projecto, ou uma missão, estava carregado disso,
mas tratava-se de uma coisa inominável.
Na praia havia gente, gente - parece
- com aquela disponibilidade sem expectativa de gente na praia.
Estavam em fato de banho, ociosos e alheios,
e quando ele passou pelo meio dessa gente,
a nudez que tinha ainda o embriagou mais.
Depois encontrou três degraus de pedra, e subiu-os.
Continuou a correr, mas - segundo contou - o céu,
a água e a areia, agora perdidos, haviam deixado nele um espaço vazio
onde a ideia de missão se pôs a crescer,
de modo que ele se encontrava como que louco da pressa
e densidade da missão.
Corria por um labirinto de pedra negra, e nos corredores estreitos
havia casas baixas, também de pedra, sem telhado
e sem portas e janelas.
Eram cubos negros abertos em cima
e com buracos rectangulares a diversos níveis.
Correndo pelos labirintos, cheio da sua pressa
e com a espessa ansiedade daquela mensagem tão obscura,
viu de súbito que tinha dois longos pénis brancos,
delgados e longos como duas serpentes,
e que se contorciam e enroscavam um no outro.
Não sentiu medo, sequer espanto,
pois imaginava que isso também fazia parte da missão.
Mas quando avistou uma mulher
que vinha em sentido contrário ao dele,
procurou tapar com as mãos aqueles pénis-serpentes
nascidos da mesma sombria raiz, quando corria pelos labirintos.
As serpentes, no entanto,
escapavam-se por entre os dedos, desciam-lhe pelas pernas,
subiam pelo ventre até ao peito,
avançavam em todas as direcções, com as suas pequenas cabeças cruéis,
sagazes e esfaimadas.
Cheio de terror, parou em frente de uma daquelas casas.
Quando entrou - contou ele -
havia já perdido a sua força e leveza de mensageiro,
e apenas sentia medo.
A casa estava vazia como todas as outras e, como elas,
sem tecto e sem portas e janelas.
Naquele cubo negro e devassado,
onde adivinhava excrementos e restos podres de comida,
através de uma luz sinistra,
pensou que viera de longe,
percorrendo com a sua nudez os caminhos do dia
e estes labirintos tenebrosos,
apenas para se encontrar vazio, cercado pela podridão.
As duas serpentes brancas continuavam a fremir
entre as suas pernas abertas.
A areia, o sol, o mar
e a profundidade extenuante do céu embriagavam-no.
Tinha extrema consciência da sua nudez,
e isso também o embriagava.
Ia com um projecto, ou uma missão, estava carregado disso,
mas tratava-se de uma coisa inominável.
Na praia havia gente, gente - parece
- com aquela disponibilidade sem expectativa de gente na praia.
Estavam em fato de banho, ociosos e alheios,
e quando ele passou pelo meio dessa gente,
a nudez que tinha ainda o embriagou mais.
Depois encontrou três degraus de pedra, e subiu-os.
Continuou a correr, mas - segundo contou - o céu,
a água e a areia, agora perdidos, haviam deixado nele um espaço vazio
onde a ideia de missão se pôs a crescer,
de modo que ele se encontrava como que louco da pressa
e densidade da missão.
Corria por um labirinto de pedra negra, e nos corredores estreitos
havia casas baixas, também de pedra, sem telhado
e sem portas e janelas.
Eram cubos negros abertos em cima
e com buracos rectangulares a diversos níveis.
Correndo pelos labirintos, cheio da sua pressa
e com a espessa ansiedade daquela mensagem tão obscura,
viu de súbito que tinha dois longos pénis brancos,
delgados e longos como duas serpentes,
e que se contorciam e enroscavam um no outro.
Não sentiu medo, sequer espanto,
pois imaginava que isso também fazia parte da missão.
Mas quando avistou uma mulher
que vinha em sentido contrário ao dele,
procurou tapar com as mãos aqueles pénis-serpentes
nascidos da mesma sombria raiz, quando corria pelos labirintos.
As serpentes, no entanto,
escapavam-se por entre os dedos, desciam-lhe pelas pernas,
subiam pelo ventre até ao peito,
avançavam em todas as direcções, com as suas pequenas cabeças cruéis,
sagazes e esfaimadas.
Cheio de terror, parou em frente de uma daquelas casas.
Quando entrou - contou ele -
havia já perdido a sua força e leveza de mensageiro,
e apenas sentia medo.
A casa estava vazia como todas as outras e, como elas,
sem tecto e sem portas e janelas.
Naquele cubo negro e devassado,
onde adivinhava excrementos e restos podres de comida,
através de uma luz sinistra,
pensou que viera de longe,
percorrendo com a sua nudez os caminhos do dia
e estes labirintos tenebrosos,
apenas para se encontrar vazio, cercado pela podridão.
As duas serpentes brancas continuavam a fremir
entre as suas pernas abertas.
5 922
1
Francisco José Tenreiro
Romance de Sam Marinha
Sam Marinha
a que menina foi no norte
chegou naquele navio à ilha.
Risadas brancas
e goles de champagne!
Á hora do espalmadoiro
os moços do comércio
passaram de gravatas garridas.
O monhé chegou na porta
e limpou o suor
ao lenço de seda que importou do Japão!
Ai!
Aquela que chegou na ilha
como uma risada branca
está fechando a carinha a terra.
Braços pendentemente tristes
só os olhinhos
estão pulando para lá da fortaleza
querendo ver a Europa!...
Á hora do espalmadoiro
os moços do comércio
passaram de gravatas garridas.
O monhé chegou na porta
e limpou o suor
ao lenço de seda que importou do Japa~o!
Ai!
Aquela que chegou na ilha
como uma risada branca
está fechando a carinha a terra.
Braços pendentemente tristes
st os olhinhos
estão pulando para lá da fortaleza
querendo ver a Europa!...
a que menina foi no norte
chegou naquele navio à ilha.
Risadas brancas
e goles de champagne!
Á hora do espalmadoiro
os moços do comércio
passaram de gravatas garridas.
O monhé chegou na porta
e limpou o suor
ao lenço de seda que importou do Japão!
Ai!
Aquela que chegou na ilha
como uma risada branca
está fechando a carinha a terra.
Braços pendentemente tristes
só os olhinhos
estão pulando para lá da fortaleza
querendo ver a Europa!...
Á hora do espalmadoiro
os moços do comércio
passaram de gravatas garridas.
O monhé chegou na porta
e limpou o suor
ao lenço de seda que importou do Japa~o!
Ai!
Aquela que chegou na ilha
como uma risada branca
está fechando a carinha a terra.
Braços pendentemente tristes
st os olhinhos
estão pulando para lá da fortaleza
querendo ver a Europa!...
1 804
1
Geraldo Bessa-Victor
Quando surges na noite
Quando surges na noite, quando avanças
porque o som do batuque por ti chama,
teu corpo negro é chama que me inflama,
quando surges na noite, quando danças...
Quando danças, cantando as esperanças
e os desesperos todos de quem ama,
teu corpo negro é fogo que derrama
febre nas almas que repousam mansas.
Tu vens dançando (tudo em mim se agita)
e vens cantando (tudo em mim já grita),
quando surges em noite de queimada...
Depois, somos os dois, no mesmo abraço,
num batuque só nosso, num compasso
mais febril do que toda a batucada!
porque o som do batuque por ti chama,
teu corpo negro é chama que me inflama,
quando surges na noite, quando danças...
Quando danças, cantando as esperanças
e os desesperos todos de quem ama,
teu corpo negro é fogo que derrama
febre nas almas que repousam mansas.
Tu vens dançando (tudo em mim se agita)
e vens cantando (tudo em mim já grita),
quando surges em noite de queimada...
Depois, somos os dois, no mesmo abraço,
num batuque só nosso, num compasso
mais febril do que toda a batucada!
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1
Herberto Helder
As Musas Cegas - Vi
É preciso falar baixo no sítio da primavera, junto
à terra nocturna. Junto à terra transfigurada.
Tudo ouve as minhas palavras talvez irremediáveis.
Infatigável perfume se acrescenta nos jacintos, fogo
sem fim circunda suas raízes leves.
E preciso não acordar do seu ofício a luz que inclina
os meus espinhos frios,
a lua que inclina meu sangue ligado e o sangue
da terra nocturna.
Agora a primavera trabalha nas galerias mais antigas,
bate os seus martelos contra um milhão de estrelas.
É uma coisa estupenda a primavera que trabalha
nas caveiras dos cavalos enterrados.
E os cavalos ressuscitam pela noite adiante.
Inspiro-me na primavera com suas grutas de água
atenta, e amo a loucura —
a cabeça gelada sobre a corrente pura do terror.
Tenho medo de erguer a voz mais alto
que o meu coração onde uma candeia
concentra um grande silêncio.
A primavera é algo prodigioso para o meu desbarato.
Que a tristeza me ajude, que me ajudem
os dentes da minha boca, os dedos das minhas mãos,
todos os mortos, todos os que amam
entre sangue no mundo, entre as águas
das noites eternas.
Sinto os ossos ascenderem às cobras na cabeça —
e a obra está nas mãos.
Terra, terra preenchida. Enquanto os outros dormem,
fundo-me no verbo interior da primavera
como o vermelho se funde na flor futura.
Tu cantavas, sangue, a torrente translúcida da morte.
Cantavas o que já se não quebra com o uso
das vozes. Porque tu eras a minha
água salgada.
Fecho os olhos para ver como as acácias se iluminam
e a rutilação ascende pelas veias.
Tomo entre meus dedos a soturna amplidão dos mortos.
Primavera, como cresces.
Desespero ou alegria, como correm
nos membros reaparecidos.
Dizer devagar na humidade da carne,
evocar tuas colinas de sal, mistério.
Tudo em volta da primavera e da noite
com uma porta no coração para passar
num tremendo silêncio.
Ressuscitar uma vez com a cara extrema
junto a líquenes inocentes.
Entre os meses saber de um só que pede
a mudez aterradora.
A primavera cresce num núcleo de ideias, as cabras
evaporam-se, reaparecem em espírito
mastigando giestas. Primavera é uma palavra
numa língua demasiado estrangeira.
Uma coisa enorme, sem música.
Falo tão devagar que mal distingo
a noite sobre a terra
da minha garganta onde os animais passam
lentamente inspirados.
Só encosto a testa ao oculto fogo dos nomes,
e o sangue alimenta a loucura
devagar, devagar — como quem ressuscita.
à terra nocturna. Junto à terra transfigurada.
Tudo ouve as minhas palavras talvez irremediáveis.
Infatigável perfume se acrescenta nos jacintos, fogo
sem fim circunda suas raízes leves.
E preciso não acordar do seu ofício a luz que inclina
os meus espinhos frios,
a lua que inclina meu sangue ligado e o sangue
da terra nocturna.
Agora a primavera trabalha nas galerias mais antigas,
bate os seus martelos contra um milhão de estrelas.
É uma coisa estupenda a primavera que trabalha
nas caveiras dos cavalos enterrados.
E os cavalos ressuscitam pela noite adiante.
Inspiro-me na primavera com suas grutas de água
atenta, e amo a loucura —
a cabeça gelada sobre a corrente pura do terror.
Tenho medo de erguer a voz mais alto
que o meu coração onde uma candeia
concentra um grande silêncio.
A primavera é algo prodigioso para o meu desbarato.
Que a tristeza me ajude, que me ajudem
os dentes da minha boca, os dedos das minhas mãos,
todos os mortos, todos os que amam
entre sangue no mundo, entre as águas
das noites eternas.
Sinto os ossos ascenderem às cobras na cabeça —
e a obra está nas mãos.
Terra, terra preenchida. Enquanto os outros dormem,
fundo-me no verbo interior da primavera
como o vermelho se funde na flor futura.
Tu cantavas, sangue, a torrente translúcida da morte.
Cantavas o que já se não quebra com o uso
das vozes. Porque tu eras a minha
água salgada.
Fecho os olhos para ver como as acácias se iluminam
e a rutilação ascende pelas veias.
Tomo entre meus dedos a soturna amplidão dos mortos.
Primavera, como cresces.
Desespero ou alegria, como correm
nos membros reaparecidos.
Dizer devagar na humidade da carne,
evocar tuas colinas de sal, mistério.
Tudo em volta da primavera e da noite
com uma porta no coração para passar
num tremendo silêncio.
Ressuscitar uma vez com a cara extrema
junto a líquenes inocentes.
Entre os meses saber de um só que pede
a mudez aterradora.
A primavera cresce num núcleo de ideias, as cabras
evaporam-se, reaparecem em espírito
mastigando giestas. Primavera é uma palavra
numa língua demasiado estrangeira.
Uma coisa enorme, sem música.
Falo tão devagar que mal distingo
a noite sobre a terra
da minha garganta onde os animais passam
lentamente inspirados.
Só encosto a testa ao oculto fogo dos nomes,
e o sangue alimenta a loucura
devagar, devagar — como quem ressuscita.
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Tomaz Vieira da Cruz
Coqueiro
Ali, na rua do Carmo
um coqueiro ficou abandonado
quando destruiram a casa velha
a que deu sombra.
E onde um par enamorado
teve sonhos de Amor,
nesse pedaço de Luanda antiga
agora modernizada.
E o coqueiro ligado à terra,
tombado na direcção
da Rua da Pedreira,
como filho nos maternos braços
ali ficou.
Talvez para saudar alguém
que muito sofreu e amou...
Mas tudo acaba e o tempo
tudo anda a destruir,
- porque tudo é passageiro,
quando se vive a mentir.
Ó pincelada verde na cidade,
ruina e gótica coluna
de marmore verde...
Morre, coqueiro morre,
Antes que os homens, tão maus,
cometam a crueldade
de te expulsar e matar.
Morre de pura saudade...
E perdoa, mas sofre como um homem,
coqueiro das verdes palmas,
porque tudo, afinal, na vida, é triste
quando se matam almas...
um coqueiro ficou abandonado
quando destruiram a casa velha
a que deu sombra.
E onde um par enamorado
teve sonhos de Amor,
nesse pedaço de Luanda antiga
agora modernizada.
E o coqueiro ligado à terra,
tombado na direcção
da Rua da Pedreira,
como filho nos maternos braços
ali ficou.
Talvez para saudar alguém
que muito sofreu e amou...
Mas tudo acaba e o tempo
tudo anda a destruir,
- porque tudo é passageiro,
quando se vive a mentir.
Ó pincelada verde na cidade,
ruina e gótica coluna
de marmore verde...
Morre, coqueiro morre,
Antes que os homens, tão maus,
cometam a crueldade
de te expulsar e matar.
Morre de pura saudade...
E perdoa, mas sofre como um homem,
coqueiro das verdes palmas,
porque tudo, afinal, na vida, é triste
quando se matam almas...
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Herberto Helder
As Musas Cegas - Iii
Eu teria amado esse destino imóvel, esse frio
poço dos sons. Ela não dormia, estava
a meu lado, era uma gruta onde a música
um instante se torna imensa.
Durante um mês viveu em mim, e não dormia. Foi o mês
das musas, a penumbra da sua vida
estava coberta de ervas puras.
Não dormia. Durante
o espantoso mês das musas, eu despertava como um espelho
onde as brasas da cabeça principiam a girar.
Estava iluminada por dentro, e a noite ia e vinha
sobre os arcos e os tanques e as frestas.
Eu cantava junto a esse sonâmbulo instrumento,
eu era profundo e fecundo. O sangue
passava pelos arbustos do corpo e os pensamentos
ardiam em mim, nessa monstruosa
noite da criação.
Sinto que tocaria esse intenso violino, e a vida
mudaria, as grandes estações do ano passariam devagar
na minha confusão. Eu era um homem
e tinha na boca o ofício de sorrir
o fluxo encantado
das imagens. E tinha as palavras que um homem
tem para acender, como fogueiras,
nas margens cantantes e frias das águas
do mundo.
Vejo a minha vida agitada, as pequenas faúlhas
do rosto, minha dor e idade
de homem,
debruçadas sobre esse objecto misterioso e triste,
e poderoso e vazio
como uma guitarra, uma coluna de obscuridade
que dormia, que não podia jamais dormir
entre uma onda que vem do céu e da terra e uma noite
que iria e viria sobre a paisagem
de arcos e pontes e torres e poços tenebrosos
e ocos.
Às vezes eu levantava um braço que deixava arder
ou pensava como era forte
a torrente do meu silêncio. Pensava
como poderia desfazer-se a carne sem que eu
gritasse. A minha voz era esplêndida.
Os mortos poderiam erguer os corpos
submersos na grande ideia
universal, poderiam ouvir a minha voz
tão límpida de terrível
alegria.
A meu lado aquele ser levitava, e por ele passavam
as aves, os montes atingiam
as corolas celestes, nunca deixavam de correr
as águas que atravessam os povos mais puros do mundo.
Era tenebroso e doce que a loucura me viesse
deste lugar, que fosse uma árvore sustentando
a minha idade.
Chegava um dia em que ela devia ser obscura,
e o meu coração ressoava. Minha dor de homem
de novo se inclinava sobre as formas mudas.
Porque a terra trabalhava para acender
aquela cidade, porque ela mesma cantaria então,
iluminada e humilde
debaixo da noite rolante, da estupenda noite
inspiradora. Mas somente para mim
o vento circulava com seus archotes
rápidos rápidos.
Minha cabeça estremecia contra a almofada
de fogo, e o sangue despedaçava as portas,
e ao alto os telhados transparentes incendiavam-se
batidos pelos raios.
Sabia-se agora
como havia razão no oculto
movimento da fantasia, como essa força
chegava de nada e era força no próprio e puro enigma
da minha vida. Porque a obra era então —
mais que o mundo e as fontes e os leitos
dos poderes —
eu, um homem disposto sobre si
como a luz se dispõe sobre a luz
e as palavras são em si mesmas dispostas
no renovo das palavras.
Sobre a sombra de um mês confuso e rápido,
eu era um homem —
e um homem beija a sua própria boca.
poço dos sons. Ela não dormia, estava
a meu lado, era uma gruta onde a música
um instante se torna imensa.
Durante um mês viveu em mim, e não dormia. Foi o mês
das musas, a penumbra da sua vida
estava coberta de ervas puras.
Não dormia. Durante
o espantoso mês das musas, eu despertava como um espelho
onde as brasas da cabeça principiam a girar.
Estava iluminada por dentro, e a noite ia e vinha
sobre os arcos e os tanques e as frestas.
Eu cantava junto a esse sonâmbulo instrumento,
eu era profundo e fecundo. O sangue
passava pelos arbustos do corpo e os pensamentos
ardiam em mim, nessa monstruosa
noite da criação.
Sinto que tocaria esse intenso violino, e a vida
mudaria, as grandes estações do ano passariam devagar
na minha confusão. Eu era um homem
e tinha na boca o ofício de sorrir
o fluxo encantado
das imagens. E tinha as palavras que um homem
tem para acender, como fogueiras,
nas margens cantantes e frias das águas
do mundo.
Vejo a minha vida agitada, as pequenas faúlhas
do rosto, minha dor e idade
de homem,
debruçadas sobre esse objecto misterioso e triste,
e poderoso e vazio
como uma guitarra, uma coluna de obscuridade
que dormia, que não podia jamais dormir
entre uma onda que vem do céu e da terra e uma noite
que iria e viria sobre a paisagem
de arcos e pontes e torres e poços tenebrosos
e ocos.
Às vezes eu levantava um braço que deixava arder
ou pensava como era forte
a torrente do meu silêncio. Pensava
como poderia desfazer-se a carne sem que eu
gritasse. A minha voz era esplêndida.
Os mortos poderiam erguer os corpos
submersos na grande ideia
universal, poderiam ouvir a minha voz
tão límpida de terrível
alegria.
A meu lado aquele ser levitava, e por ele passavam
as aves, os montes atingiam
as corolas celestes, nunca deixavam de correr
as águas que atravessam os povos mais puros do mundo.
Era tenebroso e doce que a loucura me viesse
deste lugar, que fosse uma árvore sustentando
a minha idade.
Chegava um dia em que ela devia ser obscura,
e o meu coração ressoava. Minha dor de homem
de novo se inclinava sobre as formas mudas.
Porque a terra trabalhava para acender
aquela cidade, porque ela mesma cantaria então,
iluminada e humilde
debaixo da noite rolante, da estupenda noite
inspiradora. Mas somente para mim
o vento circulava com seus archotes
rápidos rápidos.
Minha cabeça estremecia contra a almofada
de fogo, e o sangue despedaçava as portas,
e ao alto os telhados transparentes incendiavam-se
batidos pelos raios.
Sabia-se agora
como havia razão no oculto
movimento da fantasia, como essa força
chegava de nada e era força no próprio e puro enigma
da minha vida. Porque a obra era então —
mais que o mundo e as fontes e os leitos
dos poderes —
eu, um homem disposto sobre si
como a luz se dispõe sobre a luz
e as palavras são em si mesmas dispostas
no renovo das palavras.
Sobre a sombra de um mês confuso e rápido,
eu era um homem —
e um homem beija a sua própria boca.
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Aníbal Machado
Descosendo o Espaço
O pássaro agonizante põe pela boca os milhares de quilômetros que devorou pelos ares.
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1
Geraldo Bessa-Victor
Não venhas mais ao cais, menina negra
Não venhas mais ao cais, menina negra.
Que esperas tu ainda?
Já sabes a tua sina:
o branco que partiu não volta mais!
E tu, olhando o cais,
menina negra linda,
vês o teu lindo sonho que já finda...
Cantaram o feitiço do teu corpo,
nessa noite sensual em que tiveste
por lençol nupcial uma folha de palma;
cantaram o feitiço do teu corpo,
mas não sabias nem soubeste
que o branco tem feitiço na alma.
Habituada ao balouço da canoa
nas margens do rio Dande,
e depois embalada pelo amor,
sonhaste viajar num enorme vapor
que navega no mar grande
e vai para Lisboa!
Ouve, menina negra: mato não é cidade,
oceano não é rio, dongo não é navio
e o sonho que sonhaste não é sonho, é saudade...
Não venhas mais ao cais,
que o branco não volta mais!
Que esperas tu ainda?
Já sabes a tua sina:
o branco que partiu não volta mais!
E tu, olhando o cais,
menina negra linda,
vês o teu lindo sonho que já finda...
Cantaram o feitiço do teu corpo,
nessa noite sensual em que tiveste
por lençol nupcial uma folha de palma;
cantaram o feitiço do teu corpo,
mas não sabias nem soubeste
que o branco tem feitiço na alma.
Habituada ao balouço da canoa
nas margens do rio Dande,
e depois embalada pelo amor,
sonhaste viajar num enorme vapor
que navega no mar grande
e vai para Lisboa!
Ouve, menina negra: mato não é cidade,
oceano não é rio, dongo não é navio
e o sonho que sonhaste não é sonho, é saudade...
Não venhas mais ao cais,
que o branco não volta mais!
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Geraldo Bessa-Victor
Dia de Chuva no Mato
Chove,
E a trovoada
é um batuque incessante,
uma estranha batucada.
Os raios são setas de fogo
que mesteriosamente, em tom de guerra,
espíritos do mal lançam da Altura
para incendiar a Terra.
O vento
Ora violento, ora brando,
o vento é o cazumbi dos cazumbis
-o deus do mar, do rio e da floresta-
que vai cantando e dançando,
em tragicómica festa,
o seu coro de mil vozes,
os seus bailados febris.
As nuvens negras são virgens tontas,
quais almas do outro mundo,
errando como sonambulas
pelo céu negro e profundo...
E a chuva, constante e forte,
é o pranto (parece eterno)
dos deuses negros que a Morte
sacrificou no Inferno.
E a trovoada
é um batuque incessante,
uma estranha batucada.
Os raios são setas de fogo
que mesteriosamente, em tom de guerra,
espíritos do mal lançam da Altura
para incendiar a Terra.
O vento
Ora violento, ora brando,
o vento é o cazumbi dos cazumbis
-o deus do mar, do rio e da floresta-
que vai cantando e dançando,
em tragicómica festa,
o seu coro de mil vozes,
os seus bailados febris.
As nuvens negras são virgens tontas,
quais almas do outro mundo,
errando como sonambulas
pelo céu negro e profundo...
E a chuva, constante e forte,
é o pranto (parece eterno)
dos deuses negros que a Morte
sacrificou no Inferno.
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1
Costa Andrade
Mãe-Terra
Terra vermelha do Lépi és minha mãe
Mãe-Terra que aos filhos dá
mais do que a vida uma razão
Razão de águia
águia transformada
no soba dos espaços
e das espinheiras cruas.
Terra vermelha do Lépi
calma sombra das mangueiras
sobre o chão vermelho
rocha negra do saber de ferro
a água sabe à voz materna
Águia de pedra
embala onde sentaram
régios Mussindas de vento
em gerações de luar
gritando ao vale profundo
aos muxitos
e ás mulembas velhas
a superfície larga do barro
do corpo negro dos filhos
A terra é sempre a mesma
o resto dirão os homens!
Mãe-Terra que aos filhos dá
mais do que a vida uma razão
Razão de águia
águia transformada
no soba dos espaços
e das espinheiras cruas.
Terra vermelha do Lépi
calma sombra das mangueiras
sobre o chão vermelho
rocha negra do saber de ferro
a água sabe à voz materna
Águia de pedra
embala onde sentaram
régios Mussindas de vento
em gerações de luar
gritando ao vale profundo
aos muxitos
e ás mulembas velhas
a superfície larga do barro
do corpo negro dos filhos
A terra é sempre a mesma
o resto dirão os homens!
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1
Mutxhini Ngwenya
Double Trouble
Quiz vestir esta lua,
Meu fato mais bonito,
Engomado e arejado,
Flor vermelha na lapela,
Guitarra acesa na mão,
Minha arma de trova.
Quiz brindar as estrelas,
Fazer oferendas á lua,
Dançar uma valsa,
Beber teus pomos,
Enxugar minha jornada,
Arrasar a praça,
Teu abraço me vestindo.
Quiz minha parra de barro,
Quebrá-la e branquear minha alma,
Lavá-la na enxurrada de beijos,
Saltar, e, atirar para ontem,
Rosas ressequidas de espera,
Lançar sementes estrelas.
Quiz tantas, tantas vezes
Fazer poema fresco,
Dizer às gaivotas e ao vento
Que em suas asas levassem,
Notícias flores ao mundo,
Mas,
Minha alma parra,
Nção sabe ainda
A cor de tua alegria...
Meu fato mais bonito,
Engomado e arejado,
Flor vermelha na lapela,
Guitarra acesa na mão,
Minha arma de trova.
Quiz brindar as estrelas,
Fazer oferendas á lua,
Dançar uma valsa,
Beber teus pomos,
Enxugar minha jornada,
Arrasar a praça,
Teu abraço me vestindo.
Quiz minha parra de barro,
Quebrá-la e branquear minha alma,
Lavá-la na enxurrada de beijos,
Saltar, e, atirar para ontem,
Rosas ressequidas de espera,
Lançar sementes estrelas.
Quiz tantas, tantas vezes
Fazer poema fresco,
Dizer às gaivotas e ao vento
Que em suas asas levassem,
Notícias flores ao mundo,
Mas,
Minha alma parra,
Nção sabe ainda
A cor de tua alegria...
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