Poemas neste tema
Natureza e Elementos
William Blake
A MOSCA
Pequena Mosca,
Teus jogos de estio
Minha irrefletida
Mão os destruiu.
Pois como tu,
Mosca não sou eu?
E não és tu
Homem como eu?
Eu canto e danço e
Bebo, até que vem
Mão cega arrancar-me
As asas também.
Se é o pensamento
Vida, sopro forte,
E a ausência do
Pensamento morte,
Então eu sou
Uma mosca travessa,
Mesmo que viva
Ou que pereça.
(Tradução
José Paulo Paes)
Teus jogos de estio
Minha irrefletida
Mão os destruiu.
Pois como tu,
Mosca não sou eu?
E não és tu
Homem como eu?
Eu canto e danço e
Bebo, até que vem
Mão cega arrancar-me
As asas também.
Se é o pensamento
Vida, sopro forte,
E a ausência do
Pensamento morte,
Então eu sou
Uma mosca travessa,
Mesmo que viva
Ou que pereça.
(Tradução
José Paulo Paes)
4 588
1
Abrahão Cost'Andrade
Mulãria da Macambária
JOANA foi embora.
Embora não soubesse o lugar
em suas veias.
Havia uma ponte esquiva tocando duas margens de
um rio de pedra, rio de pedra, de pedra rio.
Joana não sabia que a pedra
era bebível.
Atravessou a ponte de fibras, tensa
com passos dormentes, surdo-mudos.
A primeira palavra
aprendida por Joana
foi água.
Com treze anos, água.
Da água fez uma canção...
A canção de Joana fazia chover.
Ela imitava o som do violão:
"água água água e o som do violão".
Quando Joana foi embora
os braços de João ficaram mais femininos.
Ela tinha tendência para o bem, com todo aquele olhar malígno.
Joana pequenina chorava:
Mulãria da Macámbaria
Embora não soubesse o lugar
em suas veias.
Havia uma ponte esquiva tocando duas margens de
um rio de pedra, rio de pedra, de pedra rio.
Joana não sabia que a pedra
era bebível.
Atravessou a ponte de fibras, tensa
com passos dormentes, surdo-mudos.
A primeira palavra
aprendida por Joana
foi água.
Com treze anos, água.
Da água fez uma canção...
A canção de Joana fazia chover.
Ela imitava o som do violão:
"água água água e o som do violão".
Quando Joana foi embora
os braços de João ficaram mais femininos.
Ela tinha tendência para o bem, com todo aquele olhar malígno.
Joana pequenina chorava:
Mulãria da Macámbaria
861
1
Augusto de Campos
Cabeças-de-frade
...sócios incomparáveis neste habitat,
que as próprias orquídeas evitam,
os cabeças-de-frade,
deselegantes e monstruosos
melocactos de forma elipsoidal,
acanalada, de gomos espinescentes,
convergindo-lhes no vértice superior
formado por uma flor única,
intensamente rubra.
Aparecem, de modo inexplicável,
sobre a pedra nua,
dando, realmente, no tamanho,
na conformação, no
modo por que se espalham,
a imagem singular de
cabeças decepadas e sanguinolentas,
jogadas por ali, a esmo,
numa desordem trágica.
que as próprias orquídeas evitam,
os cabeças-de-frade,
deselegantes e monstruosos
melocactos de forma elipsoidal,
acanalada, de gomos espinescentes,
convergindo-lhes no vértice superior
formado por uma flor única,
intensamente rubra.
Aparecem, de modo inexplicável,
sobre a pedra nua,
dando, realmente, no tamanho,
na conformação, no
modo por que se espalham,
a imagem singular de
cabeças decepadas e sanguinolentas,
jogadas por ali, a esmo,
numa desordem trágica.
1 157
1
Augusto de Campos
Cabeças-de-frade
...sócios incomparáveis neste habitat,
que as próprias orquídeas evitam,
os cabeças-de-frade,
deselegantes e monstruosos
melocactos de forma elipsoidal,
acanalada, de gomos espinescentes,
convergindo-lhes no vértice superior
formado por uma flor única,
intensamente rubra.
Aparecem, de modo inexplicável,
sobre a pedra nua,
dando, realmente, no tamanho,
na conformação, no
modo por que se espalham,
a imagem singular de
cabeças decepadas e sanguinolentas,
jogadas por ali, a esmo,
numa desordem trágica.
que as próprias orquídeas evitam,
os cabeças-de-frade,
deselegantes e monstruosos
melocactos de forma elipsoidal,
acanalada, de gomos espinescentes,
convergindo-lhes no vértice superior
formado por uma flor única,
intensamente rubra.
Aparecem, de modo inexplicável,
sobre a pedra nua,
dando, realmente, no tamanho,
na conformação, no
modo por que se espalham,
a imagem singular de
cabeças decepadas e sanguinolentas,
jogadas por ali, a esmo,
numa desordem trágica.
1 157
1
Lope de Vega
Vireno, aquel mimanso regalado
Vireno, aquel cordeiro tão mimado
e de coleira azul, aquel formoso
que com balido rouco e amoroso
levava pelos montes a meu gado,
aquel, de seu tosão tão encrespado,
e alegres olhos e mirar gracioso,
por quem eu de ninguém fui invejoso,
sendo de mil pastores invejado,
já mo roubaram, ó Vireno irmão:
para outro já retouça, outro provoca,
dorme de dia as noites que acarinha;
já come o branco sal por outra mão,
já come alheia mão com sua boca
de cuja língua se abrasou a minha.
e de coleira azul, aquel formoso
que com balido rouco e amoroso
levava pelos montes a meu gado,
aquel, de seu tosão tão encrespado,
e alegres olhos e mirar gracioso,
por quem eu de ninguém fui invejoso,
sendo de mil pastores invejado,
já mo roubaram, ó Vireno irmão:
para outro já retouça, outro provoca,
dorme de dia as noites que acarinha;
já come o branco sal por outra mão,
já come alheia mão com sua boca
de cuja língua se abrasou a minha.
1 322
1
Eugenio Montale
NUMA CARTA NÃO ESCRITA
Por um formigueiro de auroras, por uns poucos
arames em que se prende
a lá da vida e se enrola
em horas, anos, hoje os golfinhos aos pares
cabriolam com as crias? Oh que eu não ouça
nada de ti, que eu fuja ao fulgor
da tua fronte. É diferente na terra.
Desaparecer não sei, nem tornar a olhar; tarda
a fornalha vermelha
da noite, a tarde se faz longa,
a súplica é suplício e não ainda
entre as rochas que afloram te chegou
a garrafa do mar. A onda vazia
quebra-se contra o cabo em Finisterra.
arames em que se prende
a lá da vida e se enrola
em horas, anos, hoje os golfinhos aos pares
cabriolam com as crias? Oh que eu não ouça
nada de ti, que eu fuja ao fulgor
da tua fronte. É diferente na terra.
Desaparecer não sei, nem tornar a olhar; tarda
a fornalha vermelha
da noite, a tarde se faz longa,
a súplica é suplício e não ainda
entre as rochas que afloram te chegou
a garrafa do mar. A onda vazia
quebra-se contra o cabo em Finisterra.
1 227
1
Paul Groussac Mendes
Naquele apartamento
(Para Darci Quinha Castro)
À noite tarde, tarde noite,
Em transe de açoite
Naquele apartamento,
Eu te amei em tormento
Teus seios sob blusa carmesim
Pontudos me diziam sim;
Tua boca ávida, seca de prazer
Engoliu-me a ponto de jazer
Tuas gostosas coxas quentes
Enlaçavam-me em frementes
Amarras do trepar,
Já na iminência de gozar...
Arranquei tua calcinha, quinha
Senti a delícia de tua castanhinha
Quando em frenesi meu falo
Adentrou tuas entranhas em calo
Renasci e acalmei o teu desejo,
Que mesmo agora ainda vejo
E sinto o ardor, o sugar, o morder,
O mamar, o beijar, o penetrar, o foder...
À noite tarde, tarde noite,
Em transe de açoite
Naquele apartamento,
Eu te amei em tormento
Teus seios sob blusa carmesim
Pontudos me diziam sim;
Tua boca ávida, seca de prazer
Engoliu-me a ponto de jazer
Tuas gostosas coxas quentes
Enlaçavam-me em frementes
Amarras do trepar,
Já na iminência de gozar...
Arranquei tua calcinha, quinha
Senti a delícia de tua castanhinha
Quando em frenesi meu falo
Adentrou tuas entranhas em calo
Renasci e acalmei o teu desejo,
Que mesmo agora ainda vejo
E sinto o ardor, o sugar, o morder,
O mamar, o beijar, o penetrar, o foder...
852
1
T. S. Eliot
VERSOS DE UM VELHO
O tigre apanhado na armadilha
Não é mais irascível do que eu.
A cauda inquieta não está mais queda
do que eu quando pressinto o inimigo
Contorcendo-se no sangue essencial
Ou pendendo da árvore amistosa.
Quando exponho o dente do siso
O silvo sobre a língua arqueada
É mais de afeto que de ódio,
Mais amargo que o amor de juventude,
E inacessível ao jovem.
Refletido por meu olho dourado
O obtuso sabe que é demente.
Digam-me se não estou contente!
(Tradução
de Lara Fernanda Teles)
Não é mais irascível do que eu.
A cauda inquieta não está mais queda
do que eu quando pressinto o inimigo
Contorcendo-se no sangue essencial
Ou pendendo da árvore amistosa.
Quando exponho o dente do siso
O silvo sobre a língua arqueada
É mais de afeto que de ódio,
Mais amargo que o amor de juventude,
E inacessível ao jovem.
Refletido por meu olho dourado
O obtuso sabe que é demente.
Digam-me se não estou contente!
(Tradução
de Lara Fernanda Teles)
1 521
1
Robert Burns
ANA
Ai, vinho que ontem bebi
Escondido numa choupana,
quando em meu peito senti
os negros cabelos de Ana!
O judeu já no deserto
que bebia o que Deus mana
não sabia o mel oferto
nos lábios ardentes de Ana!
Reis, tomai o Leste e o Oeste,
desde o Indo até o Savana,
mas dai ao corpo que as veste
as formas trementes de Ana!
Encantos desdenharei
de imperatriz ou sultana
pelo prazer que darei
e tomarei só com Ana.
Vai-te, faustoso deus diurno!
Vai-te, pálida Diana!
Suma-se o claror nocturno,
quando eu me encontro com Ana!
Venha a noite em negro manto!
Sol, Lua, Estrelas, deixai-nos!
Só com, penas de anjo o encanto
direi dos gozos com Ana.
Escondido numa choupana,
quando em meu peito senti
os negros cabelos de Ana!
O judeu já no deserto
que bebia o que Deus mana
não sabia o mel oferto
nos lábios ardentes de Ana!
Reis, tomai o Leste e o Oeste,
desde o Indo até o Savana,
mas dai ao corpo que as veste
as formas trementes de Ana!
Encantos desdenharei
de imperatriz ou sultana
pelo prazer que darei
e tomarei só com Ana.
Vai-te, faustoso deus diurno!
Vai-te, pálida Diana!
Suma-se o claror nocturno,
quando eu me encontro com Ana!
Venha a noite em negro manto!
Sol, Lua, Estrelas, deixai-nos!
Só com, penas de anjo o encanto
direi dos gozos com Ana.
2 601
1
Langston Hughes
ASPIRAÇÃO
Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
E até que morra o dia
Dançar, pular, cantar!
Depois sob uma árvore,
Quando já entardeceu,
Enquanto a noite vem
- Negra como eu -
Descansar... É o que quero!
Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
Cantar, pular, dançar
Até que a tarde caia!
E dormir sob uma árvore
- Este o desejo meu -
Quando a noite baixar
Negra como eu.
Ao sol nalgum lugar,
E até que morra o dia
Dançar, pular, cantar!
Depois sob uma árvore,
Quando já entardeceu,
Enquanto a noite vem
- Negra como eu -
Descansar... É o que quero!
Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
Cantar, pular, dançar
Até que a tarde caia!
E dormir sob uma árvore
- Este o desejo meu -
Quando a noite baixar
Negra como eu.
2 005
1
Langston Hughes
ASPIRAÇÃO
Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
E até que morra o dia
Dançar, pular, cantar!
Depois sob uma árvore,
Quando já entardeceu,
Enquanto a noite vem
- Negra como eu -
Descansar... É o que quero!
Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
Cantar, pular, dançar
Até que a tarde caia!
E dormir sob uma árvore
- Este o desejo meu -
Quando a noite baixar
Negra como eu.
Ao sol nalgum lugar,
E até que morra o dia
Dançar, pular, cantar!
Depois sob uma árvore,
Quando já entardeceu,
Enquanto a noite vem
- Negra como eu -
Descansar... É o que quero!
Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
Cantar, pular, dançar
Até que a tarde caia!
E dormir sob uma árvore
- Este o desejo meu -
Quando a noite baixar
Negra como eu.
2 005
1
Michelangelo
RENDETE A GLI OCHI MIEI
A meus olhos volvei, ó fonte, ó rio,
essas ondas não vossas, forte veia,
que mais vos ergue e cresce, grande cheia,
maior que é vosso natural desvio.
E tu, ar denso, de que me alumio
a luz não escondas, se suspiro enfreia
quem só de contemplá-la se recreia,
e só de suspirar te faz sombrio.
Devolva a terra os passos a meus pés,
e erva germine já por els pisada,
e Eco, tão surdo, o que eu chorei me chore.
E a vista a mim, o teu olhar cortês.
Que uma outra vez outra beleza adore,
já que de mim te não contentas nada.
essas ondas não vossas, forte veia,
que mais vos ergue e cresce, grande cheia,
maior que é vosso natural desvio.
E tu, ar denso, de que me alumio
a luz não escondas, se suspiro enfreia
quem só de contemplá-la se recreia,
e só de suspirar te faz sombrio.
Devolva a terra os passos a meus pés,
e erva germine já por els pisada,
e Eco, tão surdo, o que eu chorei me chore.
E a vista a mim, o teu olhar cortês.
Que uma outra vez outra beleza adore,
já que de mim te não contentas nada.
1 253
1
Amândio César
Flor
Eu te sei pura, casta e meiga!
Eu te sei toda feita de pureza,
Branca como o leite fresco
Que se põe na mesa.
Eu te sei toda feita de castidade,
Num vago receio, perfume de alecrim,
Que se percebe quando não há claridade.
Eu te sei, terna e meiga,
Como as flores silvestres, naturais,
Que nascem nas margens duma veiga.
Eu te sei — isso tudo — para mim! ...
Eu te sei toda feita de pureza,
Branca como o leite fresco
Que se põe na mesa.
Eu te sei toda feita de castidade,
Num vago receio, perfume de alecrim,
Que se percebe quando não há claridade.
Eu te sei, terna e meiga,
Como as flores silvestres, naturais,
Que nascem nas margens duma veiga.
Eu te sei — isso tudo — para mim! ...
1 153
1
Umberto Saba
A Cabra
Falei com uma cabra.
Sòzinha no prado, amarrada.
Saciada de erva, molhada
pela chuva, balava.
Aquele balido era fraterno
à minha dor. E eu respondi, primeiro
por graça, depois porque o sofrer é eterno,
tem uma voz não vária.
Esta voz senti
gemer naquela cabra solitária.
Numa cabra de perfil semita
senti que se queixavam outros males,
os da vida infinita.
LA CAPRA
Ho parlato a una capra.
Era sola sul prato, era legata.
Sazia d"erba, bagnata
dalla pioggia, belava.
Quell"uguale belato era fraterno
al mio dolore. Ed io risposi, prima
per celia, poi perché il dolore è eterno.
ha una voce e non varia.
Questa voce sentiva
gemere in una capra solitaria.
In una capra dal viso semita
sentiva querelarsi ogni altro male,
ogni altra vita.
Sòzinha no prado, amarrada.
Saciada de erva, molhada
pela chuva, balava.
Aquele balido era fraterno
à minha dor. E eu respondi, primeiro
por graça, depois porque o sofrer é eterno,
tem uma voz não vária.
Esta voz senti
gemer naquela cabra solitária.
Numa cabra de perfil semita
senti que se queixavam outros males,
os da vida infinita.
LA CAPRA
Ho parlato a una capra.
Era sola sul prato, era legata.
Sazia d"erba, bagnata
dalla pioggia, belava.
Quell"uguale belato era fraterno
al mio dolore. Ed io risposi, prima
per celia, poi perché il dolore è eterno.
ha una voce e non varia.
Questa voce sentiva
gemere in una capra solitaria.
In una capra dal viso semita
sentiva querelarsi ogni altro male,
ogni altra vita.
2 399
1
Li Po
BEBENDO AO LUAR
Bebendo vinho entre as flores
Só me senti.
Lua tão solitária,
Eu bebo a ti!
Esta ao lado é minha sombra,
Faz três contigo.
Porque hás-de ser tão distante?
Dança com ela e comigo.
Como nuvens dançaremos
A sombra e eu.
Eterno é o gozo, se atendes
O canto meu.
E unidos nesta embriaguez
(Mas sós de dia)
Estaremos juntos os três
Na Láctea Via.
Só me senti.
Lua tão solitária,
Eu bebo a ti!
Esta ao lado é minha sombra,
Faz três contigo.
Porque hás-de ser tão distante?
Dança com ela e comigo.
Como nuvens dançaremos
A sombra e eu.
Eterno é o gozo, se atendes
O canto meu.
E unidos nesta embriaguez
(Mas sós de dia)
Estaremos juntos os três
Na Láctea Via.
1 211
1
Li Po
BEBENDO AO LUAR
Bebendo vinho entre as flores
Só me senti.
Lua tão solitária,
Eu bebo a ti!
Esta ao lado é minha sombra,
Faz três contigo.
Porque hás-de ser tão distante?
Dança com ela e comigo.
Como nuvens dançaremos
A sombra e eu.
Eterno é o gozo, se atendes
O canto meu.
E unidos nesta embriaguez
(Mas sós de dia)
Estaremos juntos os três
Na Láctea Via.
Só me senti.
Lua tão solitária,
Eu bebo a ti!
Esta ao lado é minha sombra,
Faz três contigo.
Porque hás-de ser tão distante?
Dança com ela e comigo.
Como nuvens dançaremos
A sombra e eu.
Eterno é o gozo, se atendes
O canto meu.
E unidos nesta embriaguez
(Mas sós de dia)
Estaremos juntos os três
Na Láctea Via.
1 211
1
Li Po
BEBENDO AO LUAR
Bebendo vinho entre as flores
Só me senti.
Lua tão solitária,
Eu bebo a ti!
Esta ao lado é minha sombra,
Faz três contigo.
Porque hás-de ser tão distante?
Dança com ela e comigo.
Como nuvens dançaremos
A sombra e eu.
Eterno é o gozo, se atendes
O canto meu.
E unidos nesta embriaguez
(Mas sós de dia)
Estaremos juntos os três
Na Láctea Via.
Só me senti.
Lua tão solitária,
Eu bebo a ti!
Esta ao lado é minha sombra,
Faz três contigo.
Porque hás-de ser tão distante?
Dança com ela e comigo.
Como nuvens dançaremos
A sombra e eu.
Eterno é o gozo, se atendes
O canto meu.
E unidos nesta embriaguez
(Mas sós de dia)
Estaremos juntos os três
Na Láctea Via.
1 211
1
Douglas Mondo
Mulher das águas
És mulher das águas,
quando recebes em teu corpo a espuma
como bruma e beijas sábia ventura.
Tão doce tua voz como mel,
quando acalentas o rouxinol cansado
e embriagas de amor o querubim no céu.
No campo desabrocha o suave lírio,
quando tuas mãos tocam o vento
e no etéreo molduras um mosaico delírio.
Teus afagos são gemidos como músicas lascivas,
quando entorpecem as almas dos poetas loucos
e calam a noite de inveja das estrelas em orgia.
Cai a última pétala em tua túnica suave graça,
quando brilham os olhos da esmeralda e da pérola
e silencia quem passa e nunca vira mulher tão bela.
És mulher tão linda e sábia,
quando a manhã faz da sabedoria um sorriso dela
e da poesia um desejo lânguido nesse dia.
quando recebes em teu corpo a espuma
como bruma e beijas sábia ventura.
Tão doce tua voz como mel,
quando acalentas o rouxinol cansado
e embriagas de amor o querubim no céu.
No campo desabrocha o suave lírio,
quando tuas mãos tocam o vento
e no etéreo molduras um mosaico delírio.
Teus afagos são gemidos como músicas lascivas,
quando entorpecem as almas dos poetas loucos
e calam a noite de inveja das estrelas em orgia.
Cai a última pétala em tua túnica suave graça,
quando brilham os olhos da esmeralda e da pérola
e silencia quem passa e nunca vira mulher tão bela.
És mulher tão linda e sábia,
quando a manhã faz da sabedoria um sorriso dela
e da poesia um desejo lânguido nesse dia.
1 109
1
Anjo Hazel
Soneto à musa materializada
Ah, menina de sorriso meigo...
Ah, mulher de mil véus !
De beijos infinitos como os céus
e luxúria ao me recostar em teu seio...
Ah, teus olhos castanhos...
Ah, teus castanhos cabelos...
Suaves abraços, enlevos,
amor rebelde e estranho.
Toco tua silhueta diáfana
reconfortante como edredon
e percorro cauteloso tuas curvas...
Imagem nada sagrada,
tua íris como néon
ardendo nas noites de chuva.
Ah, mulher de mil véus !
De beijos infinitos como os céus
e luxúria ao me recostar em teu seio...
Ah, teus olhos castanhos...
Ah, teus castanhos cabelos...
Suaves abraços, enlevos,
amor rebelde e estranho.
Toco tua silhueta diáfana
reconfortante como edredon
e percorro cauteloso tuas curvas...
Imagem nada sagrada,
tua íris como néon
ardendo nas noites de chuva.
1 116
1
Anjo Hazel
Soneto à musa materializada
Ah, menina de sorriso meigo...
Ah, mulher de mil véus !
De beijos infinitos como os céus
e luxúria ao me recostar em teu seio...
Ah, teus olhos castanhos...
Ah, teus castanhos cabelos...
Suaves abraços, enlevos,
amor rebelde e estranho.
Toco tua silhueta diáfana
reconfortante como edredon
e percorro cauteloso tuas curvas...
Imagem nada sagrada,
tua íris como néon
ardendo nas noites de chuva.
Ah, mulher de mil véus !
De beijos infinitos como os céus
e luxúria ao me recostar em teu seio...
Ah, teus olhos castanhos...
Ah, teus castanhos cabelos...
Suaves abraços, enlevos,
amor rebelde e estranho.
Toco tua silhueta diáfana
reconfortante como edredon
e percorro cauteloso tuas curvas...
Imagem nada sagrada,
tua íris como néon
ardendo nas noites de chuva.
1 116
1
Jaci Bezerra
Para te ver é longa toda espera
Há uma serra no teu peito
feita de sonho e de distância.
É nessa serra que me deito
com tua luminosa infância.
Ao te esfolhar, na tarde branca,
me extravio nas tuas ancas.
Habitando a paisagem branca
na curva dessa serra deito.
Assim, montando as tuas ancas,
cavalgo os sonhos do teu peito.
Depois, retido na distância,
na cama acendo a tua infância.
Nos veludos da tua infância
qualquer montanha é pura e branca,
claro verão que, na distância,
cintila sobre tuas ancas.
É minha a serra do teu peito
quando à sombra do teu corpo deito.
Sobre os lençóis, quando me deito,
meu coração é a tua infância.
Eu, pelas serras do teu peito,
sou um menino na distância,
cavalgando, na tarde branca,
os girassóis das tuas ancas.
Nos extremos das tuas ancas
cavalgo as serras do teu peito.
O teu corpo, na tarde branca,
é o meu lençol quando me deito.
Uma criança, na distância,
sou a serra da tua infância.
Quero galgar serra e distância
nas tuas mãos de nuvens brancas,
do mesmo modo quero a infância
e os girassóis das tuas ancas.
A mim me basta, se me deito,
morrer nas serras do teu peito.
feita de sonho e de distância.
É nessa serra que me deito
com tua luminosa infância.
Ao te esfolhar, na tarde branca,
me extravio nas tuas ancas.
Habitando a paisagem branca
na curva dessa serra deito.
Assim, montando as tuas ancas,
cavalgo os sonhos do teu peito.
Depois, retido na distância,
na cama acendo a tua infância.
Nos veludos da tua infância
qualquer montanha é pura e branca,
claro verão que, na distância,
cintila sobre tuas ancas.
É minha a serra do teu peito
quando à sombra do teu corpo deito.
Sobre os lençóis, quando me deito,
meu coração é a tua infância.
Eu, pelas serras do teu peito,
sou um menino na distância,
cavalgando, na tarde branca,
os girassóis das tuas ancas.
Nos extremos das tuas ancas
cavalgo as serras do teu peito.
O teu corpo, na tarde branca,
é o meu lençol quando me deito.
Uma criança, na distância,
sou a serra da tua infância.
Quero galgar serra e distância
nas tuas mãos de nuvens brancas,
do mesmo modo quero a infância
e os girassóis das tuas ancas.
A mim me basta, se me deito,
morrer nas serras do teu peito.
1 910
1
Ademir Antônio Bacca
Insensatez
eu navego
em ti
o desejo insano
que persegue
anos a fio.
nas águas perigosas
do teu cio
eu me deixaria afogar
de vez.
em ti
o desejo insano
que persegue
anos a fio.
nas águas perigosas
do teu cio
eu me deixaria afogar
de vez.
1 209
1
António Botto
Ouve, meu anjo
Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?
Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assasssino
É como a do virtuoso.
Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.
Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...
Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar -
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?
Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assasssino
É como a do virtuoso.
Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.
Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...
Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar -
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!
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