Poemas neste tema
Outros
Vinicius de Moraes
O Haver
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
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2
Vinicius de Moraes
O Haver
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
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2
Adélia Prado
Estação de Maio
A salvação opera nos abismos.
Na estação indescritível,
o gênio mau da noite me forçava
com saudade e desgosto pelo mundo.
A relva estremecia
mas não era para mim,
nem os pássaros da tarde.
Cães, crianças, ladridos
despossuíam-me.
Então rezei: salva-me, Mãe de Deus,
antes do tentador com seus enganos.
A senhora está perdida?
disse o menino,
é por aqui.
Voltei-me
e reconheci as pedras da manhã.
Na estação indescritível,
o gênio mau da noite me forçava
com saudade e desgosto pelo mundo.
A relva estremecia
mas não era para mim,
nem os pássaros da tarde.
Cães, crianças, ladridos
despossuíam-me.
Então rezei: salva-me, Mãe de Deus,
antes do tentador com seus enganos.
A senhora está perdida?
disse o menino,
é por aqui.
Voltei-me
e reconheci as pedras da manhã.
1 634
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
Bach Segóvia Guitarra
A música do ser
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia
Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra
A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada
Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa
Por companheira tenho
A voz da guitarra
E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada
E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia
Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra
A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada
Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa
Por companheira tenho
A voz da guitarra
E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada
E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada
2 166
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
Bach Segóvia Guitarra
A música do ser
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia
Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra
A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada
Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa
Por companheira tenho
A voz da guitarra
E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada
E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia
Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra
A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada
Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa
Por companheira tenho
A voz da guitarra
E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada
E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada
2 166
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
Bach Segóvia Guitarra
A música do ser
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia
Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra
A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada
Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa
Por companheira tenho
A voz da guitarra
E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada
E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia
Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra
A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada
Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa
Por companheira tenho
A voz da guitarra
E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada
E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada
2 166
2
Charles Bukowski
Cupins da Página
o problema que tive com
a maioria dos poetas que conheci é que
eles nunca tiveram uma jornada de trabalho de 8 horas
e não há nada
que ponha uma pessoa
mais em contato
com as realidades
do que uma jornada de trabalho de 8 horas.
a maioria desses poetas
que eu
conheci
aparentemente subsistiram de
ar e mais nada
mas
não foi de fato
assim: por trás deles houve
um membro da família
geralmente uma esposa ou mãe
sustentando essas
almas
e
por isso não é de admirar
que tenham escrito tão
mal:
eles foram protegidos
do mundo real
desde o
início
e não
compreendem nada
exceto as pontas de suas
unhas
e
seus delicados
topetes
e seus gânglios
linfáticos.
suas palavras não são
vividas, nem aparelhadas, nem
verdadeiras, e pior – são tão
elegantemente
sem graça.
suaves e seguros
eles se reúnem para
tramar, odiar,
fofocar, a maioria desses
poetas americanos
forçando e trambicando seus
talentos
brincando de grandeza.
poeta (?):
essa palavra precisa ser re-
definida.
quando ouço essa
palavra
sinto um mal-estar nas
tripas
como se eu estivesse prestes a
vomitar.
que fiquem com o palco
só pra eles
contanto
que eu não precise
estar na
plateia.
a maioria dos poetas que conheci é que
eles nunca tiveram uma jornada de trabalho de 8 horas
e não há nada
que ponha uma pessoa
mais em contato
com as realidades
do que uma jornada de trabalho de 8 horas.
a maioria desses poetas
que eu
conheci
aparentemente subsistiram de
ar e mais nada
mas
não foi de fato
assim: por trás deles houve
um membro da família
geralmente uma esposa ou mãe
sustentando essas
almas
e
por isso não é de admirar
que tenham escrito tão
mal:
eles foram protegidos
do mundo real
desde o
início
e não
compreendem nada
exceto as pontas de suas
unhas
e
seus delicados
topetes
e seus gânglios
linfáticos.
suas palavras não são
vividas, nem aparelhadas, nem
verdadeiras, e pior – são tão
elegantemente
sem graça.
suaves e seguros
eles se reúnem para
tramar, odiar,
fofocar, a maioria desses
poetas americanos
forçando e trambicando seus
talentos
brincando de grandeza.
poeta (?):
essa palavra precisa ser re-
definida.
quando ouço essa
palavra
sinto um mal-estar nas
tripas
como se eu estivesse prestes a
vomitar.
que fiquem com o palco
só pra eles
contanto
que eu não precise
estar na
plateia.
1 506
2
Charles Bukowski
Cupins da Página
o problema que tive com
a maioria dos poetas que conheci é que
eles nunca tiveram uma jornada de trabalho de 8 horas
e não há nada
que ponha uma pessoa
mais em contato
com as realidades
do que uma jornada de trabalho de 8 horas.
a maioria desses poetas
que eu
conheci
aparentemente subsistiram de
ar e mais nada
mas
não foi de fato
assim: por trás deles houve
um membro da família
geralmente uma esposa ou mãe
sustentando essas
almas
e
por isso não é de admirar
que tenham escrito tão
mal:
eles foram protegidos
do mundo real
desde o
início
e não
compreendem nada
exceto as pontas de suas
unhas
e
seus delicados
topetes
e seus gânglios
linfáticos.
suas palavras não são
vividas, nem aparelhadas, nem
verdadeiras, e pior – são tão
elegantemente
sem graça.
suaves e seguros
eles se reúnem para
tramar, odiar,
fofocar, a maioria desses
poetas americanos
forçando e trambicando seus
talentos
brincando de grandeza.
poeta (?):
essa palavra precisa ser re-
definida.
quando ouço essa
palavra
sinto um mal-estar nas
tripas
como se eu estivesse prestes a
vomitar.
que fiquem com o palco
só pra eles
contanto
que eu não precise
estar na
plateia.
a maioria dos poetas que conheci é que
eles nunca tiveram uma jornada de trabalho de 8 horas
e não há nada
que ponha uma pessoa
mais em contato
com as realidades
do que uma jornada de trabalho de 8 horas.
a maioria desses poetas
que eu
conheci
aparentemente subsistiram de
ar e mais nada
mas
não foi de fato
assim: por trás deles houve
um membro da família
geralmente uma esposa ou mãe
sustentando essas
almas
e
por isso não é de admirar
que tenham escrito tão
mal:
eles foram protegidos
do mundo real
desde o
início
e não
compreendem nada
exceto as pontas de suas
unhas
e
seus delicados
topetes
e seus gânglios
linfáticos.
suas palavras não são
vividas, nem aparelhadas, nem
verdadeiras, e pior – são tão
elegantemente
sem graça.
suaves e seguros
eles se reúnem para
tramar, odiar,
fofocar, a maioria desses
poetas americanos
forçando e trambicando seus
talentos
brincando de grandeza.
poeta (?):
essa palavra precisa ser re-
definida.
quando ouço essa
palavra
sinto um mal-estar nas
tripas
como se eu estivesse prestes a
vomitar.
que fiquem com o palco
só pra eles
contanto
que eu não precise
estar na
plateia.
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2
Charles Bukowski
Cupins da Página
o problema que tive com
a maioria dos poetas que conheci é que
eles nunca tiveram uma jornada de trabalho de 8 horas
e não há nada
que ponha uma pessoa
mais em contato
com as realidades
do que uma jornada de trabalho de 8 horas.
a maioria desses poetas
que eu
conheci
aparentemente subsistiram de
ar e mais nada
mas
não foi de fato
assim: por trás deles houve
um membro da família
geralmente uma esposa ou mãe
sustentando essas
almas
e
por isso não é de admirar
que tenham escrito tão
mal:
eles foram protegidos
do mundo real
desde o
início
e não
compreendem nada
exceto as pontas de suas
unhas
e
seus delicados
topetes
e seus gânglios
linfáticos.
suas palavras não são
vividas, nem aparelhadas, nem
verdadeiras, e pior – são tão
elegantemente
sem graça.
suaves e seguros
eles se reúnem para
tramar, odiar,
fofocar, a maioria desses
poetas americanos
forçando e trambicando seus
talentos
brincando de grandeza.
poeta (?):
essa palavra precisa ser re-
definida.
quando ouço essa
palavra
sinto um mal-estar nas
tripas
como se eu estivesse prestes a
vomitar.
que fiquem com o palco
só pra eles
contanto
que eu não precise
estar na
plateia.
a maioria dos poetas que conheci é que
eles nunca tiveram uma jornada de trabalho de 8 horas
e não há nada
que ponha uma pessoa
mais em contato
com as realidades
do que uma jornada de trabalho de 8 horas.
a maioria desses poetas
que eu
conheci
aparentemente subsistiram de
ar e mais nada
mas
não foi de fato
assim: por trás deles houve
um membro da família
geralmente uma esposa ou mãe
sustentando essas
almas
e
por isso não é de admirar
que tenham escrito tão
mal:
eles foram protegidos
do mundo real
desde o
início
e não
compreendem nada
exceto as pontas de suas
unhas
e
seus delicados
topetes
e seus gânglios
linfáticos.
suas palavras não são
vividas, nem aparelhadas, nem
verdadeiras, e pior – são tão
elegantemente
sem graça.
suaves e seguros
eles se reúnem para
tramar, odiar,
fofocar, a maioria desses
poetas americanos
forçando e trambicando seus
talentos
brincando de grandeza.
poeta (?):
essa palavra precisa ser re-
definida.
quando ouço essa
palavra
sinto um mal-estar nas
tripas
como se eu estivesse prestes a
vomitar.
que fiquem com o palco
só pra eles
contanto
que eu não precise
estar na
plateia.
1 506
2
Adélia Prado
Antes do Nome
Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o ‘de’, o ‘aliás’,
o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o ‘de’, o ‘aliás’,
o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
1 914
2
Adélia Prado
Antes do Nome
Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o ‘de’, o ‘aliás’,
o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o ‘de’, o ‘aliás’,
o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
1 914
2
Adélia Prado
Antes do Nome
Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o ‘de’, o ‘aliás’,
o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o ‘de’, o ‘aliás’,
o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
1 914
2
Vinicius de Moraes
Anfiguri
Aquilo que eu ouso
Não é o que quero
Eu quero o repouso
Do que não espero.
Não quero o que tenho
Pelo que custou
Não sei de onde venho
Sei para onde vou.
Homem, sou a fera
Poeta, sou um louco
Amante, sou pai.
Vida, quem me dera...
Amor, dura pouco...
Poesia, ai!...
Rio, 1965
Não é o que quero
Eu quero o repouso
Do que não espero.
Não quero o que tenho
Pelo que custou
Não sei de onde venho
Sei para onde vou.
Homem, sou a fera
Poeta, sou um louco
Amante, sou pai.
Vida, quem me dera...
Amor, dura pouco...
Poesia, ai!...
Rio, 1965
1 652
2
Charles Bukowski
Dinossauros, Nós
nascidos assim
em meio a isso
enquanto as faces de greda sorriem
enquanto a Dona Morte ri
enquanto os elevadores quebram
enquanto os cenários políticos se dissolvem
enquanto o empacotador de supermercado ostenta um diploma universitário
enquanto o peixe gorduroso expele sua presa gordurosa
enquanto o sol se mascara
somos
nascidos assim
em meio a isso
em meio a essas cuidadosas e insanas guerras
em meio à visão das janelas quebradas de uma fábrica de vacuidade
em meio a bares onde as pessoas já não falam umas com as outras
em meio a brigas de soco que terminam com tiros e facadas
nascido em meio a isso
em meio a hospitais que são tão caros que sai mais em conta morrer
em meio a advogados cujos honorários tornam mais barato alegar culpa
em meio a um país em que as cadeias estão cheias e os manicômios fechados
em meio a um lugar em que as massas promovem imbecis a ricos heróis
nascidos em meio a isso
caminhando e vivendo através disso
morrendo por causa disso
calados por causa disso
castrados
depravados
deserdados
por causa disso
enganados por isso
usados por isso
irritados por isso
enlouquecidos e doentes por isso
levados à violência
levados à inumanidade
por isso
o coração está enegrecido
os dedos buscam a garganta
o revólver
a faca
a bomba
os dedos vão em busca de um deus que não responde
os dedos buscam pela garrafa
pela pílula
pela pólvora
nascemos em meio a esta pesarosa mortalidade
nascemos em meio a um governo com dívidas superiores a 60 anos
que em breve não será capaz sequer de pagar os juros dessa dívida
e os bancos arderão
o dinheiro será inútil
haverá mortes impunes e a céu aberto nas ruas
haverá armas e multidões errantes
a terra será inútil
a comida se tornará pouco lucrativa
o poder nuclear entrará em colapso pelas inúmeras
explosões que continuamente sacudirão a terra
homens-robô radioativos se atacarão em silêncio
os ricos e os escolhidos assistirão a tudo de plataformas espaciais
o Inferno de Dante parecerá brincadeira de criança
o sol não será mais visto e a noite será constante
as árvores morrerão
toda vegetação morrerá
os homens radioativos comerão a carne de homens radioativos
os mares serão venenosos
os rios e lagos desaparecerão
a chuva será o novo ouro
os corpos putrefatos dos homens e dos animais federão ao vento negro
os poucos sobreviventes serão consumidos por novas e hediondas doenças
e as plataformas espaciais serão destruídas pelo desgaste natural
pela diminuição dos suprimentos
pelo efeito da decadência geral
e então haverá o mais belo silêncio jamais ouvido
nascido disso tudo.
o sol seguirá escondido
à espera do próximo capítulo.
em meio a isso
enquanto as faces de greda sorriem
enquanto a Dona Morte ri
enquanto os elevadores quebram
enquanto os cenários políticos se dissolvem
enquanto o empacotador de supermercado ostenta um diploma universitário
enquanto o peixe gorduroso expele sua presa gordurosa
enquanto o sol se mascara
somos
nascidos assim
em meio a isso
em meio a essas cuidadosas e insanas guerras
em meio à visão das janelas quebradas de uma fábrica de vacuidade
em meio a bares onde as pessoas já não falam umas com as outras
em meio a brigas de soco que terminam com tiros e facadas
nascido em meio a isso
em meio a hospitais que são tão caros que sai mais em conta morrer
em meio a advogados cujos honorários tornam mais barato alegar culpa
em meio a um país em que as cadeias estão cheias e os manicômios fechados
em meio a um lugar em que as massas promovem imbecis a ricos heróis
nascidos em meio a isso
caminhando e vivendo através disso
morrendo por causa disso
calados por causa disso
castrados
depravados
deserdados
por causa disso
enganados por isso
usados por isso
irritados por isso
enlouquecidos e doentes por isso
levados à violência
levados à inumanidade
por isso
o coração está enegrecido
os dedos buscam a garganta
o revólver
a faca
a bomba
os dedos vão em busca de um deus que não responde
os dedos buscam pela garrafa
pela pílula
pela pólvora
nascemos em meio a esta pesarosa mortalidade
nascemos em meio a um governo com dívidas superiores a 60 anos
que em breve não será capaz sequer de pagar os juros dessa dívida
e os bancos arderão
o dinheiro será inútil
haverá mortes impunes e a céu aberto nas ruas
haverá armas e multidões errantes
a terra será inútil
a comida se tornará pouco lucrativa
o poder nuclear entrará em colapso pelas inúmeras
explosões que continuamente sacudirão a terra
homens-robô radioativos se atacarão em silêncio
os ricos e os escolhidos assistirão a tudo de plataformas espaciais
o Inferno de Dante parecerá brincadeira de criança
o sol não será mais visto e a noite será constante
as árvores morrerão
toda vegetação morrerá
os homens radioativos comerão a carne de homens radioativos
os mares serão venenosos
os rios e lagos desaparecerão
a chuva será o novo ouro
os corpos putrefatos dos homens e dos animais federão ao vento negro
os poucos sobreviventes serão consumidos por novas e hediondas doenças
e as plataformas espaciais serão destruídas pelo desgaste natural
pela diminuição dos suprimentos
pelo efeito da decadência geral
e então haverá o mais belo silêncio jamais ouvido
nascido disso tudo.
o sol seguirá escondido
à espera do próximo capítulo.
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2
Manuel Bandeira
Momento Num Café
Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
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2
Adélia Prado
Resumo
Gerou os filhos, os netos,
deu à casa o ar de sua graça
e vai morrer de câncer.
O modo como pousa a cabeça para um retrato
é o da que, afinal, aceitou ser dispensável.
Espera, sem uivos, a campa, a tampa, a inscrição:
1906-1970
SAUDADE DOS SEUS, LEONORA.
deu à casa o ar de sua graça
e vai morrer de câncer.
O modo como pousa a cabeça para um retrato
é o da que, afinal, aceitou ser dispensável.
Espera, sem uivos, a campa, a tampa, a inscrição:
1906-1970
SAUDADE DOS SEUS, LEONORA.
1 382
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Vento
O vento sopra contra
As janelas fechadas
Na planície imensa
Na planície absorta
Na planície que está morta,
E os cabelos do ar ondulam loucos
Tão compridos que dão a volta ao mundo.
Sento-me ao lado das coisas
E bordo toda a noite a minha vida
Aqueles dias tecidos
Que tinham um ar de fantasia
Quando vieram brincar dentro de mim.
E o vento contra as janelas
Faz-me pensar que eu talvez seja um pássaro.
As janelas fechadas
Na planície imensa
Na planície absorta
Na planície que está morta,
E os cabelos do ar ondulam loucos
Tão compridos que dão a volta ao mundo.
Sento-me ao lado das coisas
E bordo toda a noite a minha vida
Aqueles dias tecidos
Que tinham um ar de fantasia
Quando vieram brincar dentro de mim.
E o vento contra as janelas
Faz-me pensar que eu talvez seja um pássaro.
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2
José Saramago
Física
Colho esta luz solar à minha volta,
No meu prisma a disperso e recomponho:
Rumor de sete cores, silêncio branco.
Como flechas disparadas do seu arco,
Do violeta ao vermelho percorremos
O inteiro espaço que aberto no suspiro
Se remata convulso em grito rouco.
Depois todo o rumor se reconverte,
Tornam as cores ao prisma que define,
À luz solar de ti e ao silêncio.
No meu prisma a disperso e recomponho:
Rumor de sete cores, silêncio branco.
Como flechas disparadas do seu arco,
Do violeta ao vermelho percorremos
O inteiro espaço que aberto no suspiro
Se remata convulso em grito rouco.
Depois todo o rumor se reconverte,
Tornam as cores ao prisma que define,
À luz solar de ti e ao silêncio.
2 227
2
José Saramago
Física
Colho esta luz solar à minha volta,
No meu prisma a disperso e recomponho:
Rumor de sete cores, silêncio branco.
Como flechas disparadas do seu arco,
Do violeta ao vermelho percorremos
O inteiro espaço que aberto no suspiro
Se remata convulso em grito rouco.
Depois todo o rumor se reconverte,
Tornam as cores ao prisma que define,
À luz solar de ti e ao silêncio.
No meu prisma a disperso e recomponho:
Rumor de sete cores, silêncio branco.
Como flechas disparadas do seu arco,
Do violeta ao vermelho percorremos
O inteiro espaço que aberto no suspiro
Se remata convulso em grito rouco.
Depois todo o rumor se reconverte,
Tornam as cores ao prisma que define,
À luz solar de ti e ao silêncio.
2 227
2
José Saramago
Física
Colho esta luz solar à minha volta,
No meu prisma a disperso e recomponho:
Rumor de sete cores, silêncio branco.
Como flechas disparadas do seu arco,
Do violeta ao vermelho percorremos
O inteiro espaço que aberto no suspiro
Se remata convulso em grito rouco.
Depois todo o rumor se reconverte,
Tornam as cores ao prisma que define,
À luz solar de ti e ao silêncio.
No meu prisma a disperso e recomponho:
Rumor de sete cores, silêncio branco.
Como flechas disparadas do seu arco,
Do violeta ao vermelho percorremos
O inteiro espaço que aberto no suspiro
Se remata convulso em grito rouco.
Depois todo o rumor se reconverte,
Tornam as cores ao prisma que define,
À luz solar de ti e ao silêncio.
2 227
2
Affonso Romano de Sant'Anna
Meu Cão
Meu cão ouve comigo
o adágio da 6ª. Sinfonia de Beethoven.
Gosta de música meu cão.
Deitado no tapete
ele respira no ritmo sonoro da orquestra
apascenta-se e chega a dormir ao som dos violinos.
O adágio continua.
Agora
foi uma borboleta que veio ouvir Beethoven
pousando na vidraça.
O cão, a borboleta e eu,
enquanto ao longe, na montanha, uma nuvem
se desfaz
com a imponderável melodia.
o adágio da 6ª. Sinfonia de Beethoven.
Gosta de música meu cão.
Deitado no tapete
ele respira no ritmo sonoro da orquestra
apascenta-se e chega a dormir ao som dos violinos.
O adágio continua.
Agora
foi uma borboleta que veio ouvir Beethoven
pousando na vidraça.
O cão, a borboleta e eu,
enquanto ao longe, na montanha, uma nuvem
se desfaz
com a imponderável melodia.
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2
Affonso Romano de Sant'Anna
Meu Cão
Meu cão ouve comigo
o adágio da 6ª. Sinfonia de Beethoven.
Gosta de música meu cão.
Deitado no tapete
ele respira no ritmo sonoro da orquestra
apascenta-se e chega a dormir ao som dos violinos.
O adágio continua.
Agora
foi uma borboleta que veio ouvir Beethoven
pousando na vidraça.
O cão, a borboleta e eu,
enquanto ao longe, na montanha, uma nuvem
se desfaz
com a imponderável melodia.
o adágio da 6ª. Sinfonia de Beethoven.
Gosta de música meu cão.
Deitado no tapete
ele respira no ritmo sonoro da orquestra
apascenta-se e chega a dormir ao som dos violinos.
O adágio continua.
Agora
foi uma borboleta que veio ouvir Beethoven
pousando na vidraça.
O cão, a borboleta e eu,
enquanto ao longe, na montanha, uma nuvem
se desfaz
com a imponderável melodia.
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2
José Saramago
Enigma
Um novo ser me nasce em cada hora.
O que fui, já esqueci. O que serei
Não guardará do ser que sou agora
Senão o cumprimento do que sei.
O que fui, já esqueci. O que serei
Não guardará do ser que sou agora
Senão o cumprimento do que sei.
1 693
2
Adélia Prado
A Vida Eterna
Meio século.
O peso desta palavra ia me deixar de cama.
Não vai mais. Aprendo sabedorias.
Os alquimistas não são contraventores,
cândidos, sim, às vezes, como os santos,
acreditando em pedra, em peixe de sonho,
em sinal escrito no céu.
Onde está Deus?
Abril renasce é do cosmos,
no mais perfeito silêncio.
É dentro e fora de mim.
O peso desta palavra ia me deixar de cama.
Não vai mais. Aprendo sabedorias.
Os alquimistas não são contraventores,
cândidos, sim, às vezes, como os santos,
acreditando em pedra, em peixe de sonho,
em sinal escrito no céu.
Onde está Deus?
Abril renasce é do cosmos,
no mais perfeito silêncio.
É dentro e fora de mim.
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