Poemas neste tema
Outros
Gregório de Matos
Queixa-se o Poeta
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
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Afrânio Peixoto
Seu Colar de Pérolas
No céu do seu colo
As estrelas fazem ronda,
Adorando o rosto...
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
As estrelas fazem ronda,
Adorando o rosto...
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
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2
Dante Milano
Paragem
Só
Com os meus bois,
Os meus bois que mugem e comem o chão,
Os meus bois parados,
De olhos parados,
Chorando,
Olhando...
O boi da minha solidão,
O boi da minha tristeza,
O boi do meu cansaço,
O boi da minha humilhação.
E esta calma, esta canga, esta obediência.
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Distâncias.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.75. (Pedra mágica, 1
Com os meus bois,
Os meus bois que mugem e comem o chão,
Os meus bois parados,
De olhos parados,
Chorando,
Olhando...
O boi da minha solidão,
O boi da minha tristeza,
O boi do meu cansaço,
O boi da minha humilhação.
E esta calma, esta canga, esta obediência.
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Distâncias.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.75. (Pedra mágica, 1
1 460
2
Corrêa de Araújo
Ato de Contrição
Não me arrependo de meus erros:
nada mais que sofrimento e vida.
Não me arrependo de meus beijos:
deixaram um pouco de mim
em muitas bocas.
Não me arrependo de meus pensamentos:
eram belos como mulheres nuas.
Perdoai, Senhor, se alguma vez
não fui eu mesma.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
nada mais que sofrimento e vida.
Não me arrependo de meus beijos:
deixaram um pouco de mim
em muitas bocas.
Não me arrependo de meus pensamentos:
eram belos como mulheres nuas.
Perdoai, Senhor, se alguma vez
não fui eu mesma.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
1 708
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Afonso Schmidt
Anhangabaú
No Piques, vagando à-toa,
é raro quem não pressinta
uma toada indistinta
que, sob as pedras, ressoa.
Conta moedas, tilinta,
como refrão de uma loa,
a fonte exilada e boa,
há muitos anos extinta.
Sua alma que ali revoa,
de céus e de ares faminta,
repete a cada pessoa
uma novela sucinta:
noturnos, capas, garoa,
1830...
Publicado no livro Mocidade (1921).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
é raro quem não pressinta
uma toada indistinta
que, sob as pedras, ressoa.
Conta moedas, tilinta,
como refrão de uma loa,
a fonte exilada e boa,
há muitos anos extinta.
Sua alma que ali revoa,
de céus e de ares faminta,
repete a cada pessoa
uma novela sucinta:
noturnos, capas, garoa,
1830...
Publicado no livro Mocidade (1921).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
1 986
2
Murillo Mendes
São Francisco de Assis de Ouro Preto
A Lúcio Costa
Solta, suspensa no espaço,
Clara vitória da forma
E de humana geometria
Inventando um molde abstrato;
Ao mesmo tempo, segura,
Recriada na razão,
Em número, peso, medida;
Balanço de reta e curva,
Levanta a alma, ligeira,
À sua Pátria natal;
Repouso da cruz cansada,
Signo de alta brancura;
Gerado, em recorte novo,
Por um bicho rastejante,
Mestiço de sombra e luz;
Aposento da Trindade
E mais da Virgem Maria
Que se conhecem no amor;
Traslado, em pedra vivente,
Do afeto de um sumo herói
Que junta o braço do Cristo
Ao do homem seu igual.
Publicado no livro Contemplação de Ouro Preto (1954).
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
Solta, suspensa no espaço,
Clara vitória da forma
E de humana geometria
Inventando um molde abstrato;
Ao mesmo tempo, segura,
Recriada na razão,
Em número, peso, medida;
Balanço de reta e curva,
Levanta a alma, ligeira,
À sua Pátria natal;
Repouso da cruz cansada,
Signo de alta brancura;
Gerado, em recorte novo,
Por um bicho rastejante,
Mestiço de sombra e luz;
Aposento da Trindade
E mais da Virgem Maria
Que se conhecem no amor;
Traslado, em pedra vivente,
Do afeto de um sumo herói
Que junta o braço do Cristo
Ao do homem seu igual.
Publicado no livro Contemplação de Ouro Preto (1954).
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
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Murillo Mendes
São Francisco de Assis de Ouro Preto
A Lúcio Costa
Solta, suspensa no espaço,
Clara vitória da forma
E de humana geometria
Inventando um molde abstrato;
Ao mesmo tempo, segura,
Recriada na razão,
Em número, peso, medida;
Balanço de reta e curva,
Levanta a alma, ligeira,
À sua Pátria natal;
Repouso da cruz cansada,
Signo de alta brancura;
Gerado, em recorte novo,
Por um bicho rastejante,
Mestiço de sombra e luz;
Aposento da Trindade
E mais da Virgem Maria
Que se conhecem no amor;
Traslado, em pedra vivente,
Do afeto de um sumo herói
Que junta o braço do Cristo
Ao do homem seu igual.
Publicado no livro Contemplação de Ouro Preto (1954).
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
Solta, suspensa no espaço,
Clara vitória da forma
E de humana geometria
Inventando um molde abstrato;
Ao mesmo tempo, segura,
Recriada na razão,
Em número, peso, medida;
Balanço de reta e curva,
Levanta a alma, ligeira,
À sua Pátria natal;
Repouso da cruz cansada,
Signo de alta brancura;
Gerado, em recorte novo,
Por um bicho rastejante,
Mestiço de sombra e luz;
Aposento da Trindade
E mais da Virgem Maria
Que se conhecem no amor;
Traslado, em pedra vivente,
Do afeto de um sumo herói
Que junta o braço do Cristo
Ao do homem seu igual.
Publicado no livro Contemplação de Ouro Preto (1954).
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
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Murillo Mendes
São Francisco de Assis de Ouro Preto
A Lúcio Costa
Solta, suspensa no espaço,
Clara vitória da forma
E de humana geometria
Inventando um molde abstrato;
Ao mesmo tempo, segura,
Recriada na razão,
Em número, peso, medida;
Balanço de reta e curva,
Levanta a alma, ligeira,
À sua Pátria natal;
Repouso da cruz cansada,
Signo de alta brancura;
Gerado, em recorte novo,
Por um bicho rastejante,
Mestiço de sombra e luz;
Aposento da Trindade
E mais da Virgem Maria
Que se conhecem no amor;
Traslado, em pedra vivente,
Do afeto de um sumo herói
Que junta o braço do Cristo
Ao do homem seu igual.
Publicado no livro Contemplação de Ouro Preto (1954).
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
Solta, suspensa no espaço,
Clara vitória da forma
E de humana geometria
Inventando um molde abstrato;
Ao mesmo tempo, segura,
Recriada na razão,
Em número, peso, medida;
Balanço de reta e curva,
Levanta a alma, ligeira,
À sua Pátria natal;
Repouso da cruz cansada,
Signo de alta brancura;
Gerado, em recorte novo,
Por um bicho rastejante,
Mestiço de sombra e luz;
Aposento da Trindade
E mais da Virgem Maria
Que se conhecem no amor;
Traslado, em pedra vivente,
Do afeto de um sumo herói
Que junta o braço do Cristo
Ao do homem seu igual.
Publicado no livro Contemplação de Ouro Preto (1954).
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
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Pedro Kilkerry
Vinho, 1909
Alma presa da Grécia, em prisão de turquesa!
Vibre a Vida a cantar nessas taças à Vida,
Como, dentro do Sangue, a Alma da Natureza
— Num seio nu, num ventre nu, — ferve incendida!
Vinho de Cós! e quente! a escorrer sobre a mesa
Como um rio de fogo, onde vela perdida,
Braço branco, embalada à flor da correnteza,
Floresce ao sol, floresce à luz, floresce à Vida!
Oh! benvinda; benvinda essa vela que chega!
Nau de rastro que traz a ilusão de uma grega
Descerrando à Volúpia a clâmida aquecida...
Vinho de Cós! vinho de Cós! e os nossos olhos
De Virgílios a errar entre vagas e escolhos,
Argonautas de Amor sobre os mares da Vida!
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisão de Kilkerry. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 198
Vibre a Vida a cantar nessas taças à Vida,
Como, dentro do Sangue, a Alma da Natureza
— Num seio nu, num ventre nu, — ferve incendida!
Vinho de Cós! e quente! a escorrer sobre a mesa
Como um rio de fogo, onde vela perdida,
Braço branco, embalada à flor da correnteza,
Floresce ao sol, floresce à luz, floresce à Vida!
Oh! benvinda; benvinda essa vela que chega!
Nau de rastro que traz a ilusão de uma grega
Descerrando à Volúpia a clâmida aquecida...
Vinho de Cós! vinho de Cós! e os nossos olhos
De Virgílios a errar entre vagas e escolhos,
Argonautas de Amor sobre os mares da Vida!
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisão de Kilkerry. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 198
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Alphonsus de Guimaraens
XIV - Ária do Luar
O luar, sonora barcarola,
Aroma de argental caçoula,
Azul, azul em fora rola...
Cauda de virgem lacrimosa,
Sobre montanhas negras pousa,
Da luz na quietação radiosa.
Como lençóis claros de neve,
Que o sol filtrando em luz esteve,
É transparente, é branco, é leve.
Eurritmia celestial das cores,
Parece feito dos menores
E mais transcendentes odores.
Por essas noites, brancas telas,
Cheias de esperanças de estrelas,
O luar é o sonho das donzelas.
Tem cabalísticos poderes
Como os olhares das mulheres:
Melancoliza e enerva os seres.
Afunda na água o alvo cabelo,
E brilha logo, algente e belo,
Em cada lago um sete-estrelo.
Cantos de amor, salmos de prece,
Gemidos, tudo anda por esse
Olhar que Deus à terra desce.
Pela sua asa, no ar revolta,
Ao coração do amante volta
A Alma da amada aos beijos solta.
Rola, sonora barcarola,
Aroma de argental caçoula,
O luar, azul em fora, rola...
Publicado no livro Dona Mística, 1892/1894 (1899). Poema integrante da série V - Árias e Canções.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 115-116. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20)
Aroma de argental caçoula,
Azul, azul em fora rola...
Cauda de virgem lacrimosa,
Sobre montanhas negras pousa,
Da luz na quietação radiosa.
Como lençóis claros de neve,
Que o sol filtrando em luz esteve,
É transparente, é branco, é leve.
Eurritmia celestial das cores,
Parece feito dos menores
E mais transcendentes odores.
Por essas noites, brancas telas,
Cheias de esperanças de estrelas,
O luar é o sonho das donzelas.
Tem cabalísticos poderes
Como os olhares das mulheres:
Melancoliza e enerva os seres.
Afunda na água o alvo cabelo,
E brilha logo, algente e belo,
Em cada lago um sete-estrelo.
Cantos de amor, salmos de prece,
Gemidos, tudo anda por esse
Olhar que Deus à terra desce.
Pela sua asa, no ar revolta,
Ao coração do amante volta
A Alma da amada aos beijos solta.
Rola, sonora barcarola,
Aroma de argental caçoula,
O luar, azul em fora, rola...
Publicado no livro Dona Mística, 1892/1894 (1899). Poema integrante da série V - Árias e Canções.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 115-116. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20)
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Murillo Mendes
Canção do Exílio
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959
NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959
NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
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Marcelo Gama
Mulheres
Pela simples razão de eu ser viril e poeta
que celebra, encantado, eternas bodas,
olho as mulheres todas
com o mais impertinente interesse de esteta.
Por isso, às três da tarde e às vezes antes,
desconhecido entre desconhecidos,
levo para a Avenida uns ares importantes
e afinado o quinteto dos sentidos.
E ficou a deambular a tarde inteira
entre snobs e Apolos de pulseira.
Fico-me unicamente para vê-las
no florir do seu viço,
para senti-las, para analisá-las,
do autêntico ao postiço,
umas — soberbas, fúlgidas estrelas,
outras — de um palor lânguido de opalas...
E enrodilhando-as em olhares ledos,
o que se passa em mim pode ser comparado
àquele querer-tudo alvoroçado
das crianças nas lojas de brinquedos.
Olho-as, remiro-as de alto a baixo, sigo-as,
dispo-as, ponho-as em pose, impassíveis e brancas,
ora aqui desvendando imperfeições ambíguas
de atafulhadas ancas,
ora ali descobrindo, entre êxtase e surpresa,
formas definitivas de beleza.
De algumas eu já sei nomes, histórias, vidas,
crônicas passionais,
prestigiadas do encanto de um mistério;
biografias heróicas, doloridas,
escândalos banais
e banais episódios de adultério.
Porém, todas as mesmas, em conjunto,
maravilhoso assunto
de um poema intenso, em que ando a meditar,
e com um título antigo, assim ao jeito
das inscrições dos velhos pergaminhos:
"Das perfídias que hão feito
as mulheres, os vinhos
e as cartas de jogar".
(...)
Rio de Janeiro - 1909.
Poema integrante da série Dispersos.
In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.139-14
que celebra, encantado, eternas bodas,
olho as mulheres todas
com o mais impertinente interesse de esteta.
Por isso, às três da tarde e às vezes antes,
desconhecido entre desconhecidos,
levo para a Avenida uns ares importantes
e afinado o quinteto dos sentidos.
E ficou a deambular a tarde inteira
entre snobs e Apolos de pulseira.
Fico-me unicamente para vê-las
no florir do seu viço,
para senti-las, para analisá-las,
do autêntico ao postiço,
umas — soberbas, fúlgidas estrelas,
outras — de um palor lânguido de opalas...
E enrodilhando-as em olhares ledos,
o que se passa em mim pode ser comparado
àquele querer-tudo alvoroçado
das crianças nas lojas de brinquedos.
Olho-as, remiro-as de alto a baixo, sigo-as,
dispo-as, ponho-as em pose, impassíveis e brancas,
ora aqui desvendando imperfeições ambíguas
de atafulhadas ancas,
ora ali descobrindo, entre êxtase e surpresa,
formas definitivas de beleza.
De algumas eu já sei nomes, histórias, vidas,
crônicas passionais,
prestigiadas do encanto de um mistério;
biografias heróicas, doloridas,
escândalos banais
e banais episódios de adultério.
Porém, todas as mesmas, em conjunto,
maravilhoso assunto
de um poema intenso, em que ando a meditar,
e com um título antigo, assim ao jeito
das inscrições dos velhos pergaminhos:
"Das perfídias que hão feito
as mulheres, os vinhos
e as cartas de jogar".
(...)
Rio de Janeiro - 1909.
Poema integrante da série Dispersos.
In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.139-14
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Paulo Setúbal
Árvores Tristes
Eu, nestes campos, longe do tumulto,
Amo essas tristes árvores que crescem
Por sobre as margens dum arroio oculto,
Ouvindo as águas que cantando descem...
Gosto de vê-las à tardinha, envoltas
Numa suave e mística tristeza,
Olhando os rolos das espumas soltas
Que encrespam o lençol da correnteza.
Tristonhas plantas! Árvores sombrias!
Como se as torturasse estranha mágoa,
E as compungissem fundas nostalgias,
— Procuram consolar-se à beira d'água.
Oh! vós que amais os campos, nunca as vistes?
— Desconsoladas, trêmulas, chorosas,
Pelas barrancas dos arroios tristes
Debruçam as ramagens silenciosas...
Que importa o sol, que importa a chuva e o vento,
Se sempre as mesmas ânsias as consomem?
Talvez — quem sabe? — nesse desalento,
Palpite e sofra o coração dum homem!
Talvez nessas folhagens, nesses ramos,
Torturados de angústia e desconforto,
— Sem que a vejamos, sem que a compreendamos,
Soluce a alma de algum poeta morto.
Ai, não turbeis a misteriosa mágoa,
A imensa nostalgia em que se abismam;
Deixai-as em silêncio, à beira dágua,
Essas tristonhas árvores que cismam...
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Sertanejas.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8.ed. São Paulo, 196
Amo essas tristes árvores que crescem
Por sobre as margens dum arroio oculto,
Ouvindo as águas que cantando descem...
Gosto de vê-las à tardinha, envoltas
Numa suave e mística tristeza,
Olhando os rolos das espumas soltas
Que encrespam o lençol da correnteza.
Tristonhas plantas! Árvores sombrias!
Como se as torturasse estranha mágoa,
E as compungissem fundas nostalgias,
— Procuram consolar-se à beira d'água.
Oh! vós que amais os campos, nunca as vistes?
— Desconsoladas, trêmulas, chorosas,
Pelas barrancas dos arroios tristes
Debruçam as ramagens silenciosas...
Que importa o sol, que importa a chuva e o vento,
Se sempre as mesmas ânsias as consomem?
Talvez — quem sabe? — nesse desalento,
Palpite e sofra o coração dum homem!
Talvez nessas folhagens, nesses ramos,
Torturados de angústia e desconforto,
— Sem que a vejamos, sem que a compreendamos,
Soluce a alma de algum poeta morto.
Ai, não turbeis a misteriosa mágoa,
A imensa nostalgia em que se abismam;
Deixai-as em silêncio, à beira dágua,
Essas tristonhas árvores que cismam...
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Sertanejas.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8.ed. São Paulo, 196
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Paulo Setúbal
Árvores Tristes
Eu, nestes campos, longe do tumulto,
Amo essas tristes árvores que crescem
Por sobre as margens dum arroio oculto,
Ouvindo as águas que cantando descem...
Gosto de vê-las à tardinha, envoltas
Numa suave e mística tristeza,
Olhando os rolos das espumas soltas
Que encrespam o lençol da correnteza.
Tristonhas plantas! Árvores sombrias!
Como se as torturasse estranha mágoa,
E as compungissem fundas nostalgias,
— Procuram consolar-se à beira d'água.
Oh! vós que amais os campos, nunca as vistes?
— Desconsoladas, trêmulas, chorosas,
Pelas barrancas dos arroios tristes
Debruçam as ramagens silenciosas...
Que importa o sol, que importa a chuva e o vento,
Se sempre as mesmas ânsias as consomem?
Talvez — quem sabe? — nesse desalento,
Palpite e sofra o coração dum homem!
Talvez nessas folhagens, nesses ramos,
Torturados de angústia e desconforto,
— Sem que a vejamos, sem que a compreendamos,
Soluce a alma de algum poeta morto.
Ai, não turbeis a misteriosa mágoa,
A imensa nostalgia em que se abismam;
Deixai-as em silêncio, à beira dágua,
Essas tristonhas árvores que cismam...
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Sertanejas.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8.ed. São Paulo, 196
Amo essas tristes árvores que crescem
Por sobre as margens dum arroio oculto,
Ouvindo as águas que cantando descem...
Gosto de vê-las à tardinha, envoltas
Numa suave e mística tristeza,
Olhando os rolos das espumas soltas
Que encrespam o lençol da correnteza.
Tristonhas plantas! Árvores sombrias!
Como se as torturasse estranha mágoa,
E as compungissem fundas nostalgias,
— Procuram consolar-se à beira d'água.
Oh! vós que amais os campos, nunca as vistes?
— Desconsoladas, trêmulas, chorosas,
Pelas barrancas dos arroios tristes
Debruçam as ramagens silenciosas...
Que importa o sol, que importa a chuva e o vento,
Se sempre as mesmas ânsias as consomem?
Talvez — quem sabe? — nesse desalento,
Palpite e sofra o coração dum homem!
Talvez nessas folhagens, nesses ramos,
Torturados de angústia e desconforto,
— Sem que a vejamos, sem que a compreendamos,
Soluce a alma de algum poeta morto.
Ai, não turbeis a misteriosa mágoa,
A imensa nostalgia em que se abismam;
Deixai-as em silêncio, à beira dágua,
Essas tristonhas árvores que cismam...
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Sertanejas.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8.ed. São Paulo, 196
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Augusto dos Anjos
Os Doentes
I
Como uma cascavel que se enroscava,
A cidade dos lázaros dormia...
Somente, na metrópole vazia,
Minha cabeça autônoma pensava!
Mordia-me a obsessão má de que havia,
Sob os meus pés, na terra onde eu pisava,
Um fígado doente que sangrava
E uma garganta de orfã que gemia!
Tentava compreender com as conceptivas
Funções do encéfalo as substâncias vivas
Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam...
E via em mim, coberto de desgraças,
O resultado de biliões de raças
Que há muitos anos desapareceram!
Publicado no livro Eu (1912).
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.92. (Ensaios, 32)
NOTA: Poema composto de 9 parte
Como uma cascavel que se enroscava,
A cidade dos lázaros dormia...
Somente, na metrópole vazia,
Minha cabeça autônoma pensava!
Mordia-me a obsessão má de que havia,
Sob os meus pés, na terra onde eu pisava,
Um fígado doente que sangrava
E uma garganta de orfã que gemia!
Tentava compreender com as conceptivas
Funções do encéfalo as substâncias vivas
Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam...
E via em mim, coberto de desgraças,
O resultado de biliões de raças
Que há muitos anos desapareceram!
Publicado no livro Eu (1912).
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.92. (Ensaios, 32)
NOTA: Poema composto de 9 parte
7 742
2
Cacaso
As Coisas
O melão melou
A casa casou
A bola bolou
A rola rolou
O mato matou
O dia adiou
A gia giou
A pia piou
O pinto pintou
O boi boiou
O gato engatou
O pato empatou
A pomba empombou
A paca empacou
O galo galou
O ralo ralou
O calo calou
O barco embarcou
A vaca avacalhou
A banana embananou
A sombra assombrou
O raio raiou
O piru pirou
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. Poema integrante da série Letras.
NOTA: Música de Cláudio Nucc
A casa casou
A bola bolou
A rola rolou
O mato matou
O dia adiou
A gia giou
A pia piou
O pinto pintou
O boi boiou
O gato engatou
O pato empatou
A pomba empombou
A paca empacou
O galo galou
O ralo ralou
O calo calou
O barco embarcou
A vaca avacalhou
A banana embananou
A sombra assombrou
O raio raiou
O piru pirou
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. Poema integrante da série Letras.
NOTA: Música de Cláudio Nucc
4 579
2
José Albano
Canção a Camões
Co'uma espada de prata e lira de ouro,
Claríssimo Camões, me apareceste
No cimo do Parnaso alcantilado;
E eu, posto num enlevo duradouro,
Gravei na mente essa visão celeste
Que em numeroso verso aqui traslado;
Estavam ao teu lado
Duas Musas de cândido semblante,
Calíope que sopra na canora
Trombeta retumbante
Cujo clangor os ecos apavora;
E Euterpe que da rude e agreste avena
Tira uma melodia pura e amena.
Esta afina o instrumento donde parte
Um longo e suavíssimo gemido
Cuja tristeza eu também sinto e entendo,
E de improviso Amor vem a esta parte
E traz nas mãos teu coração ferido
Donde vermelhas gotas vão correndo.
Com ele vem o horrendo
E escuro Fado que jamais se cansa
De atormentar um generoso peito,
Alevantando a lança
Que atravessou teu coração desfeito —
E enquanto lentamente vão passando,
Ri-se o Fado cruel, geme Amor brando.
Emudecendo a frauta, eis se derrama
O som da horrível tuba que o repouso
Subitamente rompe do ar vizinho;
E eu vejo o Capitão Vasco da Gama,
Aquele grão Lusíada famoso
Que descobriu das Índias o caminho;
E (ó destino mesquinho!)
Vejo a mísera Inês tão meiga e amante,
Longe de Pedro, saudosa dele,
Lamentar-se diante
Del-rei que ao duro sacrifício a impele:
De Vasco o Tejo está lembrado ainda,
Chora o Mondego a Inês lânguida e linda.
(...)
Cessa o clangor e eu vejo ainda em sonho
Descer do empíreo angélica figura,
De ouro tingindo as nuvens e de rosa.
E no semblante plácido e risonho
Leio a felicidade branda e pura
De quem muito sofreu e agora goza:
É Natércia formosa,
Ó bom Luís, exemplo de amadores,
É tua alma gentil, encanto e vida,
Amor de teus Amores,
Sempre adorada e nunca possuída,
Ei-la que vem da luminosa parte
Para verdes mirtos coroar-te.
(...)
Publicado no livro Canção a Camões e Ode à Língua Portuguesa (1912).
In: ALBANO, José. Rimas: poesia reunida e prefaciada por Manuel Bandeira. Pref. Bernardo de Mendonça. 3.ed. acrescida de perfis biográficos, estudos críticos e bibliografia. Rio de Janeiro: Graphia, 1993. p.113-115. (Série Revisões, 3)
NOTA: Poema composto de 7 estrofe
Claríssimo Camões, me apareceste
No cimo do Parnaso alcantilado;
E eu, posto num enlevo duradouro,
Gravei na mente essa visão celeste
Que em numeroso verso aqui traslado;
Estavam ao teu lado
Duas Musas de cândido semblante,
Calíope que sopra na canora
Trombeta retumbante
Cujo clangor os ecos apavora;
E Euterpe que da rude e agreste avena
Tira uma melodia pura e amena.
Esta afina o instrumento donde parte
Um longo e suavíssimo gemido
Cuja tristeza eu também sinto e entendo,
E de improviso Amor vem a esta parte
E traz nas mãos teu coração ferido
Donde vermelhas gotas vão correndo.
Com ele vem o horrendo
E escuro Fado que jamais se cansa
De atormentar um generoso peito,
Alevantando a lança
Que atravessou teu coração desfeito —
E enquanto lentamente vão passando,
Ri-se o Fado cruel, geme Amor brando.
Emudecendo a frauta, eis se derrama
O som da horrível tuba que o repouso
Subitamente rompe do ar vizinho;
E eu vejo o Capitão Vasco da Gama,
Aquele grão Lusíada famoso
Que descobriu das Índias o caminho;
E (ó destino mesquinho!)
Vejo a mísera Inês tão meiga e amante,
Longe de Pedro, saudosa dele,
Lamentar-se diante
Del-rei que ao duro sacrifício a impele:
De Vasco o Tejo está lembrado ainda,
Chora o Mondego a Inês lânguida e linda.
(...)
Cessa o clangor e eu vejo ainda em sonho
Descer do empíreo angélica figura,
De ouro tingindo as nuvens e de rosa.
E no semblante plácido e risonho
Leio a felicidade branda e pura
De quem muito sofreu e agora goza:
É Natércia formosa,
Ó bom Luís, exemplo de amadores,
É tua alma gentil, encanto e vida,
Amor de teus Amores,
Sempre adorada e nunca possuída,
Ei-la que vem da luminosa parte
Para verdes mirtos coroar-te.
(...)
Publicado no livro Canção a Camões e Ode à Língua Portuguesa (1912).
In: ALBANO, José. Rimas: poesia reunida e prefaciada por Manuel Bandeira. Pref. Bernardo de Mendonça. 3.ed. acrescida de perfis biográficos, estudos críticos e bibliografia. Rio de Janeiro: Graphia, 1993. p.113-115. (Série Revisões, 3)
NOTA: Poema composto de 7 estrofe
1 567
2
Martins Fontes
Balada Madrigalesca
À moda clássica, ao sabor
da antiga métrica francesa,
venha brindar um rimador
a uma princesa portuguesa.
Fulgure a pedraria acesa
das rimas rútilas do ideal,
para eu cantar em Sua Alteza
a flor-de-lis de Portugal.
Há nos seus olhos o negror
das noites cheias de tristeza,
e o vivo e cálido esplendor
do sol de Nice ou de Veneza.
E a sua mão tem, com certeza,
o alvor da neve boreal:
É o lírio branco da nobreza,
a flor-de-lis de Portugal.
Pajem galante e trovador,
cumpro, encantado, a doce empresa
de demonstrar que numa flor
se espelha a sua gentileza.
E, com sutil delicadeza,
digo, ao findar o madrigal:
Dona Leonor é, na pureza,
a flor-de-lis de Portugal.
OFERTA
Cheia de graça e de beleza,
Dona Leonor é lirial.
Era uma vez uma princesa,
a flor-de-lis de Portugal...
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.44-45. (Nossos clássicos, 40
da antiga métrica francesa,
venha brindar um rimador
a uma princesa portuguesa.
Fulgure a pedraria acesa
das rimas rútilas do ideal,
para eu cantar em Sua Alteza
a flor-de-lis de Portugal.
Há nos seus olhos o negror
das noites cheias de tristeza,
e o vivo e cálido esplendor
do sol de Nice ou de Veneza.
E a sua mão tem, com certeza,
o alvor da neve boreal:
É o lírio branco da nobreza,
a flor-de-lis de Portugal.
Pajem galante e trovador,
cumpro, encantado, a doce empresa
de demonstrar que numa flor
se espelha a sua gentileza.
E, com sutil delicadeza,
digo, ao findar o madrigal:
Dona Leonor é, na pureza,
a flor-de-lis de Portugal.
OFERTA
Cheia de graça e de beleza,
Dona Leonor é lirial.
Era uma vez uma princesa,
a flor-de-lis de Portugal...
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.44-45. (Nossos clássicos, 40
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2
Álvares de Azevedo
Spleen e Charutos - I Solidão
Nas nuvens cor de cinza do horizonte
A lua amarelada a face embuça;
Parece que tem frio, e no seu leito
Deitou, para dormir, a carapuça.
Ergueu-se, vem da noite a vagabunda
Sem chale, sem camisa e sem mantilha,
Vem nua e bela procurar amantes;
É douda por amor da noite a filha.
As nuvens são uns frades de joelhos,
Rezam adormecendo no oratório;
Todos têm o capuz e bons narizes,
E parecem sonhar o refeitório.
As árvores prateiam-se na praia,
Qual de uma fada os mágicos retiros....
Ó lua, as doces brisas que sussurram
Coam dos lábios como suspiros!
Falando ao coração que nota aérea
Deste céu, destas águas se desata?
Canta assim algum gênio adormecido
Das ondas mortas no lençol de prata?
Minha alma tenebrosa se entristece,
É muda como sala mortuária....
Deito-me só e triste, e sem ter fome
Vejo na mesa a ceia solitária.
Ó lua, ó lua bela dos amores,
Se tu és moça e tens um peito amigo,
Não me deixes assim dormir solteiro,
À meia-noite vem cear comigo!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
A lua amarelada a face embuça;
Parece que tem frio, e no seu leito
Deitou, para dormir, a carapuça.
Ergueu-se, vem da noite a vagabunda
Sem chale, sem camisa e sem mantilha,
Vem nua e bela procurar amantes;
É douda por amor da noite a filha.
As nuvens são uns frades de joelhos,
Rezam adormecendo no oratório;
Todos têm o capuz e bons narizes,
E parecem sonhar o refeitório.
As árvores prateiam-se na praia,
Qual de uma fada os mágicos retiros....
Ó lua, as doces brisas que sussurram
Coam dos lábios como suspiros!
Falando ao coração que nota aérea
Deste céu, destas águas se desata?
Canta assim algum gênio adormecido
Das ondas mortas no lençol de prata?
Minha alma tenebrosa se entristece,
É muda como sala mortuária....
Deito-me só e triste, e sem ter fome
Vejo na mesa a ceia solitária.
Ó lua, ó lua bela dos amores,
Se tu és moça e tens um peito amigo,
Não me deixes assim dormir solteiro,
À meia-noite vem cear comigo!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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2
Bernardino Lopes
Toda
Pela curva do pé já se adivinha
A perna, o tronco, o dorso, o colo, os braços...
Nunca vi outra de mais belos traços,
De mais pureza e correção de linha.
Que expressão de semblante! Uma pontinha
De malícia nos olhos — dois palhaços
Bons e chistosos, piruetando, lassos,
Quebrando chulas e a cantar modinha...
Sinto-a, às vezes, Bacante, em nudez plena,
— Cabelos pretos sobre tez morena —
Outras — laureada por meus sonhos passa.
Legionária de Vênus, desfraldando,
À frente de áureo e feminino bando,
A vitoriosa flâmula da graça!
Publicado no livro Sinhá Flor (1899).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
A perna, o tronco, o dorso, o colo, os braços...
Nunca vi outra de mais belos traços,
De mais pureza e correção de linha.
Que expressão de semblante! Uma pontinha
De malícia nos olhos — dois palhaços
Bons e chistosos, piruetando, lassos,
Quebrando chulas e a cantar modinha...
Sinto-a, às vezes, Bacante, em nudez plena,
— Cabelos pretos sobre tez morena —
Outras — laureada por meus sonhos passa.
Legionária de Vênus, desfraldando,
À frente de áureo e feminino bando,
A vitoriosa flâmula da graça!
Publicado no livro Sinhá Flor (1899).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
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2
Thiago de Mello
Narciso Cego
Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio — não me frequento.
Por sobre fonte erma e esquiva
flutua-me, íntegra, a face.
Mas nunca me vejo: e sigo
com face mal disfarçada.
Oh que amargo é o não poder
rosto a rosto contemplar
aquilo que ignoto sou;
distiguir até que ponto
sou eu mesmo que me levo
ou se um nume irrevelável
que (para ser) vem morar
comigo, dentro de mim,
mas me abandona se rolo
pelos declives do mundo.
Desfaço-me do que sonho:
faço-me sonho de alguém
oculto. Talvez um Deus
sonhe comigo, cobice
o que eu guardo e nunca usei.
Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-me sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo — pânico mudo —
entre o sonho e o sonhador.
Publicado no livro Narciso Cego; Seguido do Romance do Primogênito (1952).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio — não me frequento.
Por sobre fonte erma e esquiva
flutua-me, íntegra, a face.
Mas nunca me vejo: e sigo
com face mal disfarçada.
Oh que amargo é o não poder
rosto a rosto contemplar
aquilo que ignoto sou;
distiguir até que ponto
sou eu mesmo que me levo
ou se um nume irrevelável
que (para ser) vem morar
comigo, dentro de mim,
mas me abandona se rolo
pelos declives do mundo.
Desfaço-me do que sonho:
faço-me sonho de alguém
oculto. Talvez um Deus
sonhe comigo, cobice
o que eu guardo e nunca usei.
Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-me sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo — pânico mudo —
entre o sonho e o sonhador.
Publicado no livro Narciso Cego; Seguido do Romance do Primogênito (1952).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
8 707
2
Raul Pompéia
Inverno
Ya la esperanza a los hombres
Para siempre abandonó:
Los recuerdos son tan solo
Pasto de su corazon.
J. DE ESPRONCEDA.
(El Diablo mundo).
Inverno! inverno! inverno!
Tristes nevoeiros, frios negrumes da longa treva boreal,
descampados de gelo cujo limite escapa-nos sempre, desesperadamente,
para lá do horizonte, perpétua solidão inóspita, onde apenas se ouve
a voz do vento que passa uivando como uma legião de lobos, através da
cidade de catedrais e túmulos de cristal na planície, fantasmas que a
miragem povoam e animam, tudo isto: decepções, obscuridade, solidão,
desespero e a hora invisível que passa como o vento, tudo isto é o
frio inverno da vida.
Há no espírito o luto profundo daquele céu de bruma dos lugares
onde a natureza dorme por meses, à espera do sol avaro que não vem.
Nem ao menos a letargia acorda ao clarão de falsas auroras, nem
uma vez ao menos a cúpula unida das névoas abre um postigo para o
outro céu, a região dos astros. Nada! Nada! Procuramos encontrar
fora de nós alguma coisa do que nos falta e os pobres olhos cansados
não vão além dos cabelos brancos que caem pela fronte; sofre-se
o desengano do invernado que da fria choupana contasse ver a seara
loura dos bons dias por entre as franjas de neve que os tetos babam
ao frio.
Tudo sombrio e triste. Triste o derradeiro consolo do inverno que
embriaga entretanto como o último vinho dos condenados: a recordação
dos dias idos, a acerba saudade da primavera.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série II - Amar.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.53. (Vera Cruz, 324c
Para siempre abandonó:
Los recuerdos son tan solo
Pasto de su corazon.
J. DE ESPRONCEDA.
(El Diablo mundo).
Inverno! inverno! inverno!
Tristes nevoeiros, frios negrumes da longa treva boreal,
descampados de gelo cujo limite escapa-nos sempre, desesperadamente,
para lá do horizonte, perpétua solidão inóspita, onde apenas se ouve
a voz do vento que passa uivando como uma legião de lobos, através da
cidade de catedrais e túmulos de cristal na planície, fantasmas que a
miragem povoam e animam, tudo isto: decepções, obscuridade, solidão,
desespero e a hora invisível que passa como o vento, tudo isto é o
frio inverno da vida.
Há no espírito o luto profundo daquele céu de bruma dos lugares
onde a natureza dorme por meses, à espera do sol avaro que não vem.
Nem ao menos a letargia acorda ao clarão de falsas auroras, nem
uma vez ao menos a cúpula unida das névoas abre um postigo para o
outro céu, a região dos astros. Nada! Nada! Procuramos encontrar
fora de nós alguma coisa do que nos falta e os pobres olhos cansados
não vão além dos cabelos brancos que caem pela fronte; sofre-se
o desengano do invernado que da fria choupana contasse ver a seara
loura dos bons dias por entre as franjas de neve que os tetos babam
ao frio.
Tudo sombrio e triste. Triste o derradeiro consolo do inverno que
embriaga entretanto como o último vinho dos condenados: a recordação
dos dias idos, a acerba saudade da primavera.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série II - Amar.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.53. (Vera Cruz, 324c
2 958
2
Hermes Fontes
A Cigarra
Não, orgulhosa! não, alma nobre e vadia,
nunca foste pedir migalha ao formigueiro!
Dessedenta-te o sol e te nutre a alegria
De viver e morrer cantando, o dia inteiro...
Que infâmia ires ao vizinho celeiro
tu, que tens o celeiro universal do Dia,
e preferes morrer queimada em teu braseiro
íntimo a renunciar a tua fantasia!
Não! tu és superior ao código e ao compêndio,
à Economia, ou à Moral. — Aristocrata,
crês que prever miséria é já um vilipêndio.
Primadona pagã do Jardim e da Mata,
trazes dentro em ti mesma, em teu constante incêndio,
a luz, que te alimenta e o fogo, que te mata...
Poema integrante da série Primeira Parte: Os Insetos.
In: FONTES, Hermes. Microcosmo. Rio de Janeiro: Livr. Leite Ribeiro & Maurillo, 1919. p.27-2
nunca foste pedir migalha ao formigueiro!
Dessedenta-te o sol e te nutre a alegria
De viver e morrer cantando, o dia inteiro...
Que infâmia ires ao vizinho celeiro
tu, que tens o celeiro universal do Dia,
e preferes morrer queimada em teu braseiro
íntimo a renunciar a tua fantasia!
Não! tu és superior ao código e ao compêndio,
à Economia, ou à Moral. — Aristocrata,
crês que prever miséria é já um vilipêndio.
Primadona pagã do Jardim e da Mata,
trazes dentro em ti mesma, em teu constante incêndio,
a luz, que te alimenta e o fogo, que te mata...
Poema integrante da série Primeira Parte: Os Insetos.
In: FONTES, Hermes. Microcosmo. Rio de Janeiro: Livr. Leite Ribeiro & Maurillo, 1919. p.27-2
2 013
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Juvenal Galeno
Alface
A alface das nossas hortas
É do ópio sucedâneo:
Acalma dores e tosses,
Seu efeito é instantâneo.
Serve o chá das suas folhas
Para curar os nervosos,
E para banhar os olhos
Inflamados, dolorosos.
Quem o tomar, ao deitar-se,
Logo o sono concilia:
Galeno ceava alfaces,
Pois de insônia padecia.
As urinas facilitam,
E servem de laxativo;
Finalmente, em muitos males
Não há melhor lenitivo.
In: GALENO, Juvenal. Medicina caseira. Apres. Oswaldo Riedel. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
É do ópio sucedâneo:
Acalma dores e tosses,
Seu efeito é instantâneo.
Serve o chá das suas folhas
Para curar os nervosos,
E para banhar os olhos
Inflamados, dolorosos.
Quem o tomar, ao deitar-se,
Logo o sono concilia:
Galeno ceava alfaces,
Pois de insônia padecia.
As urinas facilitam,
E servem de laxativo;
Finalmente, em muitos males
Não há melhor lenitivo.
In: GALENO, Juvenal. Medicina caseira. Apres. Oswaldo Riedel. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
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