Poemas neste tema
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Marília Garcia
blind light
aqui a luz faz o contrário de iluminar, é como
a desorientação ou a serendipia. blind
light, um quadrado que
cega
a pergunta certa podia ser: o que você
faz enviando postais de lisboa ou
seu telefone não atende a
chamadas com números
longos?
mas não podia dizer nada
o último jantar era silencioso,
enquanto pensava em uma escala que planificasse o
esférico: o mundo não seria redondo
mas alguns pacotes de água empilhados
em uma superfície plana para
cobrir os buracos
deste ponto de vista o azul não é
azul. precisa desta vez de
29 dimensões para caber:
e então ela entra
em cena
silêncio
aqui a luz faz o contrário de iluminar
e mais uma vez o 2 e o 9: primeiro somam
58. depois as placas riscavam o ar repetindo-
se a cada esquina. 2. 9. 2. 9
– você ainda vai me ver três
vezes antes do final, fique atento
aos sinais, falou. se procurar as palavras-
chave encontrará
números mas também
seres marinhos, cílios, quilômetro, retina e
eletricidade. 2. 9. 2. 9.2.
o que eu vejo ao lembrar
de você é um buraco
só um buraco.
um buraco cegando tudo.
diante do buraco, as hélices desenhando a
cena em pleno ar:
imagina
que desce durante o giro, o corpo em
câmera lenta caindo
a desorientação ou a serendipia. blind
light, um quadrado que
cega
a pergunta certa podia ser: o que você
faz enviando postais de lisboa ou
seu telefone não atende a
chamadas com números
longos?
mas não podia dizer nada
o último jantar era silencioso,
enquanto pensava em uma escala que planificasse o
esférico: o mundo não seria redondo
mas alguns pacotes de água empilhados
em uma superfície plana para
cobrir os buracos
deste ponto de vista o azul não é
azul. precisa desta vez de
29 dimensões para caber:
e então ela entra
em cena
silêncio
aqui a luz faz o contrário de iluminar
e mais uma vez o 2 e o 9: primeiro somam
58. depois as placas riscavam o ar repetindo-
se a cada esquina. 2. 9. 2. 9
– você ainda vai me ver três
vezes antes do final, fique atento
aos sinais, falou. se procurar as palavras-
chave encontrará
números mas também
seres marinhos, cílios, quilômetro, retina e
eletricidade. 2. 9. 2. 9.2.
o que eu vejo ao lembrar
de você é um buraco
só um buraco.
um buraco cegando tudo.
diante do buraco, as hélices desenhando a
cena em pleno ar:
imagina
que desce durante o giro, o corpo em
câmera lenta caindo
946
1
Soares de Passos
Amor e Eternidade
Repara, doce amiga, olha esta lousa,
E junto aquella que lhe fica unida:
Aqui d'um terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Poderam ambos descançar tranquillos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
Não pôde a fria tumba desunil-os.
Oh! quão saudosa a viração murmura
No cypreste virente
Que lhes protege as urnas funerárias!
E o sol, ao descahir lá no occidente,
Quão bello lhes fulgura
Nas campas solitárias!
Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murcharão flores...
Assim ao menos sob a campa fria
Se reunam também nossos amores!
Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu bello rosto no meu seio inclinas,
Pallido como o lírio que ao sol posto
Desmaia nas campinas?
Oh? vem, não perturbemos a ventura
Do coração, que jubiloso anceia...
Vem, gosemos da vida em quanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de nós essa lembrança!
Mas não receies o funesto corte...
Doce amiga, descança:
Quem ama como nós, sorri à morte.
Vês estas sepulturas?
Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;
Mas esse ardor que as animou outr'ora,
Voou nas azas d'immortal aurora
A regiões mais puras.
Não, a chamma que o peito ao peito envia
Não morre extincta no funéreo gelo.
O coração é immenso: a campa fria
É pequena de mais para contê-lo.
Nada receies, pois: a tumba encerra
Um breve espaço e uma breve idade:
É o amor tem por pátria o céo e a terra,
Por vida a eternidade!
E junto aquella que lhe fica unida:
Aqui d'um terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Poderam ambos descançar tranquillos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
Não pôde a fria tumba desunil-os.
Oh! quão saudosa a viração murmura
No cypreste virente
Que lhes protege as urnas funerárias!
E o sol, ao descahir lá no occidente,
Quão bello lhes fulgura
Nas campas solitárias!
Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murcharão flores...
Assim ao menos sob a campa fria
Se reunam também nossos amores!
Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu bello rosto no meu seio inclinas,
Pallido como o lírio que ao sol posto
Desmaia nas campinas?
Oh? vem, não perturbemos a ventura
Do coração, que jubiloso anceia...
Vem, gosemos da vida em quanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de nós essa lembrança!
Mas não receies o funesto corte...
Doce amiga, descança:
Quem ama como nós, sorri à morte.
Vês estas sepulturas?
Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;
Mas esse ardor que as animou outr'ora,
Voou nas azas d'immortal aurora
A regiões mais puras.
Não, a chamma que o peito ao peito envia
Não morre extincta no funéreo gelo.
O coração é immenso: a campa fria
É pequena de mais para contê-lo.
Nada receies, pois: a tumba encerra
Um breve espaço e uma breve idade:
É o amor tem por pátria o céo e a terra,
Por vida a eternidade!
881
1
Simone Brantes
O pau do doidinho
I
O doidinho me encontrou
uma vez sobre a ponte
O doidinho era só um pouco mais
velho que eu
irmão mais novo
de um menino com quem
eu jogava bola
O doidinho tirou
o pau de dentro
da calça
e me mostrou
Eu pedalei minha bicicleta
para longe
enquanto ele aflito
perguntava
– quer, quer, quer?
Me disseram que
até a morte do doidinho
ele tinha um medo
pânico e inexplicável
do meu pai
que ninguém sabia
por que
Hoje eu queria
poder dizer pro doidinho
que por muitos
anos eu me masturbei
pensando naquele
seu pau
que eu vi num relance
mas com a maior nitidez
um pau
roxo e cheio de veias
Que depois nenhum pau
pôde ser para mim O PAU
o arqui-pau
o pau do
doidinho
II
Tenho
um pau
acordo de noite
dentro de um sonho
e lá está ele
como sempre
incipiente
Não por ser pequeno
Não por ser disforme
Ele não é pequeno
não é disforme
É um pau quase igual a
qualquer outro
pau
É incipiente porque frágil
algo denso mas feito de
uma carne
orgânica e a desordenada
envolta por uma camada
de pele tão fina
tão à flor da pele
que penso que ele
vai romper
e seu conteúdo
estranho
vai se tornar visível
uma pele tão fina
tão rosa
tão transparente
fico com meu pau
na mão diante
do espelho
Me prometo que não
vou dormir
mas examiná-lo
em todos os seus detalhes
Talvez dar a ele uma duração
que prove a viabilidade
de um ser tão frágil
e dolorido
que ousa assim mostrar-se
pedir com delicadeza
um lugar no mundo
Tocam a campainha
e vou despachar quem bate
para voltar para junto
dele
Mas na volta
entre minhas
mãos
ele também se
foi
deixando como resto
um simples fio
III
O meu pau
sob uma pele
fina
frágil
rosa
uma carne
sem liga
uma carne amontoada
ali dentro
algo doce
e ao mesmo tempo
terrível
Agora sim é disforme
porque algo estranho
alguma entranha
vai sair dali
Me mantenho desperta
para olhar o pau
a sua cabeça
que é roxa
que é rosa
IV
Diante de um espelho
mas alguém bate na porta
eu vou atender
e despachar quem bate
Mas na volta
procuro o pau
e não há mais
só algo que míngua
entre as mãos
dentro do pijama
até se tornar
um fio
V
Há uma ponte no tempo
como há uma ponte
entre os sonhos
Agora sei que foi nessa ponte
que um dia encontrei o doidinho
o pau do doidinho
é o meu pau
Eu e o doidinho
o meu pau e o dele
no qual naquele
dia me amarrei
estão ligados
envoltos
na pele
de um cordão
umbilical
VI
Frágil
fino
rosa
roxo
dolorido
e
doce
terráqueo
e extraplanetário
como eu e o doidinho
como eu, o doidinho e você
O doidinho me encontrou
uma vez sobre a ponte
O doidinho era só um pouco mais
velho que eu
irmão mais novo
de um menino com quem
eu jogava bola
O doidinho tirou
o pau de dentro
da calça
e me mostrou
Eu pedalei minha bicicleta
para longe
enquanto ele aflito
perguntava
– quer, quer, quer?
Me disseram que
até a morte do doidinho
ele tinha um medo
pânico e inexplicável
do meu pai
que ninguém sabia
por que
Hoje eu queria
poder dizer pro doidinho
que por muitos
anos eu me masturbei
pensando naquele
seu pau
que eu vi num relance
mas com a maior nitidez
um pau
roxo e cheio de veias
Que depois nenhum pau
pôde ser para mim O PAU
o arqui-pau
o pau do
doidinho
II
Tenho
um pau
acordo de noite
dentro de um sonho
e lá está ele
como sempre
incipiente
Não por ser pequeno
Não por ser disforme
Ele não é pequeno
não é disforme
É um pau quase igual a
qualquer outro
pau
É incipiente porque frágil
algo denso mas feito de
uma carne
orgânica e a desordenada
envolta por uma camada
de pele tão fina
tão à flor da pele
que penso que ele
vai romper
e seu conteúdo
estranho
vai se tornar visível
uma pele tão fina
tão rosa
tão transparente
fico com meu pau
na mão diante
do espelho
Me prometo que não
vou dormir
mas examiná-lo
em todos os seus detalhes
Talvez dar a ele uma duração
que prove a viabilidade
de um ser tão frágil
e dolorido
que ousa assim mostrar-se
pedir com delicadeza
um lugar no mundo
Tocam a campainha
e vou despachar quem bate
para voltar para junto
dele
Mas na volta
entre minhas
mãos
ele também se
foi
deixando como resto
um simples fio
III
O meu pau
sob uma pele
fina
frágil
rosa
uma carne
sem liga
uma carne amontoada
ali dentro
algo doce
e ao mesmo tempo
terrível
Agora sim é disforme
porque algo estranho
alguma entranha
vai sair dali
Me mantenho desperta
para olhar o pau
a sua cabeça
que é roxa
que é rosa
IV
Diante de um espelho
mas alguém bate na porta
eu vou atender
e despachar quem bate
Mas na volta
procuro o pau
e não há mais
só algo que míngua
entre as mãos
dentro do pijama
até se tornar
um fio
V
Há uma ponte no tempo
como há uma ponte
entre os sonhos
Agora sei que foi nessa ponte
que um dia encontrei o doidinho
o pau do doidinho
é o meu pau
Eu e o doidinho
o meu pau e o dele
no qual naquele
dia me amarrei
estão ligados
envoltos
na pele
de um cordão
umbilical
VI
Frágil
fino
rosa
roxo
dolorido
e
doce
terráqueo
e extraplanetário
como eu e o doidinho
como eu, o doidinho e você
680
1
Marília Garcia
ESTRELAS DESCEM À TERRA
começo do começo,
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
717
1
Marília Garcia
ESTRELAS DESCEM À TERRA
começo do começo,
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
717
1
Marília Garcia
ESTRELAS DESCEM À TERRA
começo do começo,
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
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1
Beatriz de Diá
Vou cantar tudo que eu não gostaria
Vou cantar tudo que eu não gostaria,
tanto este amigo só me contraria,
pois amo mais do que a maior poesia;
mas ele não vê charme ou cortesia,
quando sou linda, honrada, inteligente;
já ele que me enganava e me traía,
que eu merecia se te fosse ausente.
Vem, me conforta com a tua presença,
amigo, pois eu nunca fiz ofensa:
te amo mais que Seguis amou Valença,
e adoro que de amor só eu te vença,
pois meu amigo é sempre o mais valente:
me deu orgulho em fala e benquerença,
e é mais querido do que toda a gente.
Me assombro se o teu coração se orgulha
comigo, amigo, e isso mais me embrulha:
injusto é que te roube uma fagulha
que tanto fala até que te debulha;
mas lembre bem que já não é recente
o nosso amor. E que eu não seja a pulha,
por Deus, que definhou o amor crescente.
O valor que em teu peito assim se aninha,
com tua honra mais me desalinha,
não sei de alguém distante ou mais vizinha
que quer amar contigo e não definha,
meu amigo, você bem sabe e sente
quem delas é mais fina e mais certinha,
e lembre o nosso pacto penitente.
Tenho valor por honra e por linhagem
pela beleza e ainda por coragem;
por isso, envio até tua paragem
esta canção que serve de mensagem;
pergunto, belo amigo e boa gente,
por que você comigo é tão selvagem,
tão orgulhoso, ou tão indiferente.
Mas pode lhe dizer, minha mensagem,
que muito orgulho é mágoa a muita gente
Português antigo
A chantar m'er de co qu'eu no volria,
Tant me rancur de lui cui sui amia
Car eu l'am mais que nulha ren que sia:
Vas lui no-m val Merces ni Cortezia
Ni ma beltatz ni mos pretz ni mos sens:
Qu'atressi-m sui enganad' e trahia
Com degr' esser, s'eu fos desavinens.
D'aissò-m conòrt, car anc non fi falhensa,
Amics, vas vos per nulha captenensa;
Ans vos am mais non fetz Seguìs Valensa,
E platz mi mout que eu d'amar vos vensa;
Lo meus amics, car ètz lo plus valens;
Mi faitz orgòlh en ditz et en parvensa
E si ètz francs vas totas autras gens.
Meravelh me com vòstre còrs s'orgòlha,
Amics, vas me, per qu'ai razon que-m dòlha;
Non es ges dreitz qu'autr'amors vos mi tòlha,
Per nulha ren que-us diga ni acòlha.
E membre vos quals fo-l comensamens
De nòstr'amor! Ja Dòmnedeus non vòlha,
Qu'en ma colpa sia-l departimens.
Proeza grans, qu'el vòstre còrs s'aizina
E lo rics prètz qu'avètz m'en ataïma;
Qu'una non sai, lonhdana ni vezina,
Si vòl amar, vas vos no si' aclina;
Mas vos, amics, ètz ben tant conoissens
Que ben devètz conòisser la plus fina:
E membre vos de nòstre covinens.
Valer mi deu mos prètz e mos paratges
E ma beutatz, e plus mos fins coratges;
Per qu'eu vos man, lai on es vòstr'estatges,
Esta chanson, que me sia messatges,
E vòlh saber, lo meus bèls amics gens,
Per que vos m'ètz tant fèrs ni tant salvatges;
No sai si s'es orgòlhs o mals talents.
Mas aitan plus vòlh li digas, messatges
Qu'en tròp d'orgòlh an gran dan maintas gens.
tanto este amigo só me contraria,
pois amo mais do que a maior poesia;
mas ele não vê charme ou cortesia,
quando sou linda, honrada, inteligente;
já ele que me enganava e me traía,
que eu merecia se te fosse ausente.
Vem, me conforta com a tua presença,
amigo, pois eu nunca fiz ofensa:
te amo mais que Seguis amou Valença,
e adoro que de amor só eu te vença,
pois meu amigo é sempre o mais valente:
me deu orgulho em fala e benquerença,
e é mais querido do que toda a gente.
Me assombro se o teu coração se orgulha
comigo, amigo, e isso mais me embrulha:
injusto é que te roube uma fagulha
que tanto fala até que te debulha;
mas lembre bem que já não é recente
o nosso amor. E que eu não seja a pulha,
por Deus, que definhou o amor crescente.
O valor que em teu peito assim se aninha,
com tua honra mais me desalinha,
não sei de alguém distante ou mais vizinha
que quer amar contigo e não definha,
meu amigo, você bem sabe e sente
quem delas é mais fina e mais certinha,
e lembre o nosso pacto penitente.
Tenho valor por honra e por linhagem
pela beleza e ainda por coragem;
por isso, envio até tua paragem
esta canção que serve de mensagem;
pergunto, belo amigo e boa gente,
por que você comigo é tão selvagem,
tão orgulhoso, ou tão indiferente.
Mas pode lhe dizer, minha mensagem,
que muito orgulho é mágoa a muita gente
Português antigo
A chantar m'er de co qu'eu no volria,
Tant me rancur de lui cui sui amia
Car eu l'am mais que nulha ren que sia:
Vas lui no-m val Merces ni Cortezia
Ni ma beltatz ni mos pretz ni mos sens:
Qu'atressi-m sui enganad' e trahia
Com degr' esser, s'eu fos desavinens.
D'aissò-m conòrt, car anc non fi falhensa,
Amics, vas vos per nulha captenensa;
Ans vos am mais non fetz Seguìs Valensa,
E platz mi mout que eu d'amar vos vensa;
Lo meus amics, car ètz lo plus valens;
Mi faitz orgòlh en ditz et en parvensa
E si ètz francs vas totas autras gens.
Meravelh me com vòstre còrs s'orgòlha,
Amics, vas me, per qu'ai razon que-m dòlha;
Non es ges dreitz qu'autr'amors vos mi tòlha,
Per nulha ren que-us diga ni acòlha.
E membre vos quals fo-l comensamens
De nòstr'amor! Ja Dòmnedeus non vòlha,
Qu'en ma colpa sia-l departimens.
Proeza grans, qu'el vòstre còrs s'aizina
E lo rics prètz qu'avètz m'en ataïma;
Qu'una non sai, lonhdana ni vezina,
Si vòl amar, vas vos no si' aclina;
Mas vos, amics, ètz ben tant conoissens
Que ben devètz conòisser la plus fina:
E membre vos de nòstre covinens.
Valer mi deu mos prètz e mos paratges
E ma beutatz, e plus mos fins coratges;
Per qu'eu vos man, lai on es vòstr'estatges,
Esta chanson, que me sia messatges,
E vòlh saber, lo meus bèls amics gens,
Per que vos m'ètz tant fèrs ni tant salvatges;
No sai si s'es orgòlhs o mals talents.
Mas aitan plus vòlh li digas, messatges
Qu'en tròp d'orgòlh an gran dan maintas gens.
1 151
1
Marília Garcia
pelos grandes bulevares
[do lado de dentro]
o que ela vê quando fecha
os olhos? linhas sinuosas, um mapa
feito à mão, parece uma pista vista de cima —
os campos cortados ou poderia ser
uma sombra riscando o verde quando passa
lá no alto.
o que ela vê quando
olha em linha reta tentando
descrever
a garota que conheceu no café?
a transformada de
wavelets ou um peixe-lua-
circular em uma região abissal.
não é nada abissal
estar nesta superfície,
você quis dizer de vidro? esférico?
ou um animal marinho em miniatura:
um polvo de 1mm?
o cinema é 24 vezes
a verdade por segundo. este segundo
poderia ser 24 vezes a cara dela
quando fecha os olhos e vê.
[de fora]
não é por falta de repetição, mas não
encontrava a palavra exata.
o que ela vê não sabe e tudo fica tremido
se fast forward.
agora fecha os olhos para
entender, para ir mais
devagar.
não se perde alguém por duas
vezes, era o que achava
mas a essa altura chego no mesmo terminal
duas semanas depois e a cena se
repete.
— você está tendo um problema
de realidade, ele cochichou.
— qual é o desastre desta vez?
o que ela vê ao abrir a
claraboia? ao bater aquela foto da
ponte ou quando lê
a legenda:
“nos abismos a vida é submetida
ao frio, escuridão, pressão.
oito mil metros de profundidade”
uma montanha
ao contrário.
o que ela vê quando fecha
os olhos? linhas sinuosas, um mapa
feito à mão, parece uma pista vista de cima —
os campos cortados ou poderia ser
uma sombra riscando o verde quando passa
lá no alto.
o que ela vê quando
olha em linha reta tentando
descrever
a garota que conheceu no café?
a transformada de
wavelets ou um peixe-lua-
circular em uma região abissal.
não é nada abissal
estar nesta superfície,
você quis dizer de vidro? esférico?
ou um animal marinho em miniatura:
um polvo de 1mm?
o cinema é 24 vezes
a verdade por segundo. este segundo
poderia ser 24 vezes a cara dela
quando fecha os olhos e vê.
[de fora]
não é por falta de repetição, mas não
encontrava a palavra exata.
o que ela vê não sabe e tudo fica tremido
se fast forward.
agora fecha os olhos para
entender, para ir mais
devagar.
não se perde alguém por duas
vezes, era o que achava
mas a essa altura chego no mesmo terminal
duas semanas depois e a cena se
repete.
— você está tendo um problema
de realidade, ele cochichou.
— qual é o desastre desta vez?
o que ela vê ao abrir a
claraboia? ao bater aquela foto da
ponte ou quando lê
a legenda:
“nos abismos a vida é submetida
ao frio, escuridão, pressão.
oito mil metros de profundidade”
uma montanha
ao contrário.
711
1
Yi Sáng
Poema n. 7
Nesta terra de remoto exílio um ramo • no ramo floresce uma
flora brilhante • peculiar árvore florida de abril • trinta voltas •
espelho claro nos dois lados pré pós trinta voltas • a lua cheia
que decai agora em direção ao horizonte alegrerridente feito
um broto novo • em meio ao ímpeto do riacho límpido do vale a
lua cheia toda estropiada que derrui penalizada com o nariz
decepado • uma carta vinda de casa atravessa essa terra de
exílio • eu de mal em mal protegi-me de louvores • broto da lua
esmaecido • o longínquo da camada atmosférica cobrindo esta
quietude • esta grande caverna oca de um ano e quatro meses
em meio à grandiosa miséria • astros coxeiam tropeçam e por
ruelas mortiças de astros milestilhaçados a grandiosa
neventania foge • cai nevasca • pedrassal tingida de vermelho-
sangue pulverizando-se • com o meu cérebro como pára-raio,
restos mortais encharcados de luz transbordantes de luz vão
sendo transportados • eu, uma cobra venenosa em exílio na
torre, acabei plantado no horizonte e nunca mais pude mover-
me • até que desça a graça dos céus.
flora brilhante • peculiar árvore florida de abril • trinta voltas •
espelho claro nos dois lados pré pós trinta voltas • a lua cheia
que decai agora em direção ao horizonte alegrerridente feito
um broto novo • em meio ao ímpeto do riacho límpido do vale a
lua cheia toda estropiada que derrui penalizada com o nariz
decepado • uma carta vinda de casa atravessa essa terra de
exílio • eu de mal em mal protegi-me de louvores • broto da lua
esmaecido • o longínquo da camada atmosférica cobrindo esta
quietude • esta grande caverna oca de um ano e quatro meses
em meio à grandiosa miséria • astros coxeiam tropeçam e por
ruelas mortiças de astros milestilhaçados a grandiosa
neventania foge • cai nevasca • pedrassal tingida de vermelho-
sangue pulverizando-se • com o meu cérebro como pára-raio,
restos mortais encharcados de luz transbordantes de luz vão
sendo transportados • eu, uma cobra venenosa em exílio na
torre, acabei plantado no horizonte e nunca mais pude mover-
me • até que desça a graça dos céus.
711
1
Tomas Tranströmer
Dó Maior
Quando desceu à rua depois do encontro
o ar rodopiava de neve.
O inverno chegara
enquanto estiveram juntos.
A noite brilhava branca.
Caminhou leve de alegria.
A cidade inteira em declive.
Os sorrisos que passavam –
sorriam todos atrás de colarinhos vincados.
Era de graça!
E todos os pontos de interrogação começavam a cantar o ser de Deus.
Foi isso que pensou.
Uma música surgiu
e a passos largos
caminhava num turbilhão de neve.
Tudo a caminho da nota dó.
Um trémulo compasso em direcção a dó.
Uma hora acima dos tormentos.
Era fácil!
Sorriam todos atrás de colarinhos vincados.
o ar rodopiava de neve.
O inverno chegara
enquanto estiveram juntos.
A noite brilhava branca.
Caminhou leve de alegria.
A cidade inteira em declive.
Os sorrisos que passavam –
sorriam todos atrás de colarinhos vincados.
Era de graça!
E todos os pontos de interrogação começavam a cantar o ser de Deus.
Foi isso que pensou.
Uma música surgiu
e a passos largos
caminhava num turbilhão de neve.
Tudo a caminho da nota dó.
Um trémulo compasso em direcção a dó.
Uma hora acima dos tormentos.
Era fácil!
Sorriam todos atrás de colarinhos vincados.
774
1
Ricardo Aleixo
Homens
Leonilson
pintava
e
bordava.
Bispo do Rosário
colecionava
delírios
e bordava.
Lampião
tocava o terror
no sertão
e bordava.
João Cândido
punha a República
no curé
e bordava.
pintava
e
bordava.
Bispo do Rosário
colecionava
delírios
e bordava.
Lampião
tocava o terror
no sertão
e bordava.
João Cândido
punha a República
no curé
e bordava.
1 022
1
Ricardo Aleixo
Homens
Leonilson
pintava
e
bordava.
Bispo do Rosário
colecionava
delírios
e bordava.
Lampião
tocava o terror
no sertão
e bordava.
João Cândido
punha a República
no curé
e bordava.
pintava
e
bordava.
Bispo do Rosário
colecionava
delírios
e bordava.
Lampião
tocava o terror
no sertão
e bordava.
João Cândido
punha a República
no curé
e bordava.
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1
Golgona Anghel
Vem, noite coisíssima e pindérica
Vem, noite coisíssima e pindérica!
Vem, noite de copos, noite de loucos,
estou só e sem inspiração.
Chamemos a lucidez e a sua escola de dactilografia
para ditar uns carmes.
Vem, Senhora, mulher sócia da compaixão,
vem pingar-me uma gota de Dostoiewhisky na goela.
Noite de Natal, noite de cristal,
noite dos Óscares, noite da Iguana,
noite dos museus,
apanha o primeiro táxi e vem.
Vem semear piolhos de ouro na juba deste boémio.
Vamos os dois corrigir o mundo
com moscatéis e valeriana.
Confia em mim.
Sou forte, sou vigoroso, Senhora!
O deboche sabe-me de cor.
O meu nome é Simão, o apelido Budoar.
Os meus olhos, duas alfaces.
Sou jovem, um bezerro, Madame!
Tenho por alimento mamilos de galáxias.
Por Deus, um computador.
Assim, sem roupa, pareço perigoso.
Mas se me vir de robe,
não passo de um criminoso meigo
que faz cócegas à sua presa
e sabe canções de embalar.
Vem, noite de copos, noite de loucos,
estou só e sem inspiração.
Chamemos a lucidez e a sua escola de dactilografia
para ditar uns carmes.
Vem, Senhora, mulher sócia da compaixão,
vem pingar-me uma gota de Dostoiewhisky na goela.
Noite de Natal, noite de cristal,
noite dos Óscares, noite da Iguana,
noite dos museus,
apanha o primeiro táxi e vem.
Vem semear piolhos de ouro na juba deste boémio.
Vamos os dois corrigir o mundo
com moscatéis e valeriana.
Confia em mim.
Sou forte, sou vigoroso, Senhora!
O deboche sabe-me de cor.
O meu nome é Simão, o apelido Budoar.
Os meus olhos, duas alfaces.
Sou jovem, um bezerro, Madame!
Tenho por alimento mamilos de galáxias.
Por Deus, um computador.
Assim, sem roupa, pareço perigoso.
Mas se me vir de robe,
não passo de um criminoso meigo
que faz cócegas à sua presa
e sabe canções de embalar.
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1
Golgona Anghel
Vem, noite coisíssima e pindérica
Vem, noite coisíssima e pindérica!
Vem, noite de copos, noite de loucos,
estou só e sem inspiração.
Chamemos a lucidez e a sua escola de dactilografia
para ditar uns carmes.
Vem, Senhora, mulher sócia da compaixão,
vem pingar-me uma gota de Dostoiewhisky na goela.
Noite de Natal, noite de cristal,
noite dos Óscares, noite da Iguana,
noite dos museus,
apanha o primeiro táxi e vem.
Vem semear piolhos de ouro na juba deste boémio.
Vamos os dois corrigir o mundo
com moscatéis e valeriana.
Confia em mim.
Sou forte, sou vigoroso, Senhora!
O deboche sabe-me de cor.
O meu nome é Simão, o apelido Budoar.
Os meus olhos, duas alfaces.
Sou jovem, um bezerro, Madame!
Tenho por alimento mamilos de galáxias.
Por Deus, um computador.
Assim, sem roupa, pareço perigoso.
Mas se me vir de robe,
não passo de um criminoso meigo
que faz cócegas à sua presa
e sabe canções de embalar.
Vem, noite de copos, noite de loucos,
estou só e sem inspiração.
Chamemos a lucidez e a sua escola de dactilografia
para ditar uns carmes.
Vem, Senhora, mulher sócia da compaixão,
vem pingar-me uma gota de Dostoiewhisky na goela.
Noite de Natal, noite de cristal,
noite dos Óscares, noite da Iguana,
noite dos museus,
apanha o primeiro táxi e vem.
Vem semear piolhos de ouro na juba deste boémio.
Vamos os dois corrigir o mundo
com moscatéis e valeriana.
Confia em mim.
Sou forte, sou vigoroso, Senhora!
O deboche sabe-me de cor.
O meu nome é Simão, o apelido Budoar.
Os meus olhos, duas alfaces.
Sou jovem, um bezerro, Madame!
Tenho por alimento mamilos de galáxias.
Por Deus, um computador.
Assim, sem roupa, pareço perigoso.
Mas se me vir de robe,
não passo de um criminoso meigo
que faz cócegas à sua presa
e sabe canções de embalar.
1 113
1
Daniel Jonas
OSSÉTIA
Ou como uma foto de Karpukhin
a Madonna ampara com o braço um
dos lados do triângulo
e deixa um derradeiro beijo escorrer por ele
até à cabeça morta
do seu menino no catre.
Uma cena difícil: a contenção
das sombras, do chiaroscuro,
o profundo luto quando a luta
cedeu a sua luz.
De preto ela
emoldurando a palidez do seu querido,
o crânio envolto numa ligadura,
halo de mártires.
O inconsolável.
O fotojornalismo
tem fortes influências da renascença.
Algo de terror.
Algo de Leonardo.
a Madonna ampara com o braço um
dos lados do triângulo
e deixa um derradeiro beijo escorrer por ele
até à cabeça morta
do seu menino no catre.
Uma cena difícil: a contenção
das sombras, do chiaroscuro,
o profundo luto quando a luta
cedeu a sua luz.
De preto ela
emoldurando a palidez do seu querido,
o crânio envolto numa ligadura,
halo de mártires.
O inconsolável.
O fotojornalismo
tem fortes influências da renascença.
Algo de terror.
Algo de Leonardo.
1 106
1
Eucanaã Ferraz
VIDA E OBRA
Repare, Cicero, que os copos se tornam
mais leves quando cheios de vinho.
E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,
canções, vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.
Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
mais leves quando cheios de vinho.
E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,
canções, vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.
Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
823
1
Eucanaã Ferraz
VIDA E OBRA
Repare, Cicero, que os copos se tornam
mais leves quando cheios de vinho.
E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,
canções, vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.
Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
mais leves quando cheios de vinho.
E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,
canções, vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.
Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
823
1
Francesca Angiolillo
A última boa ação
A última boa ação do ano
foi para o escaravelho.
Gordo, preto e luzidio, mas nada
o descrevia melhor do que desajeitado
— assim costumam ser.
Tenazmente desajeitado pois
recusava-se a entender a oferta
que ali se lhe fazia, a ponta
suave do dedo, a pinça natural
do galho que por sorte estava
à mão para reassentar no lugar certo
sua carapaça rebolando de revés
no meio da estrada — a morte
era certa, era questão de tempo, atropelado ou num pisão.
Foi preciso paciência.
Quantos de nós em determinado tempo não
nos agarramos ao não, a negar
a ajuda, a mão aberta,
a ponte improvisada.
foi para o escaravelho.
Gordo, preto e luzidio, mas nada
o descrevia melhor do que desajeitado
— assim costumam ser.
Tenazmente desajeitado pois
recusava-se a entender a oferta
que ali se lhe fazia, a ponta
suave do dedo, a pinça natural
do galho que por sorte estava
à mão para reassentar no lugar certo
sua carapaça rebolando de revés
no meio da estrada — a morte
era certa, era questão de tempo, atropelado ou num pisão.
Foi preciso paciência.
Quantos de nós em determinado tempo não
nos agarramos ao não, a negar
a ajuda, a mão aberta,
a ponte improvisada.
791
1
António Cabrita
SOPRA AS TUAS VELAS
O corpo com a idade impõe ora folga, ora um alpendre certo (com vinha de enforcado) aos apartes, enquanto surripia o humor aos corvos.
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
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António Cabrita
SOPRA AS TUAS VELAS
O corpo com a idade impõe ora folga, ora um alpendre certo (com vinha de enforcado) aos apartes, enquanto surripia o humor aos corvos.
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
734
1
Luís Quintais
MÁQUINA
Nem sombra de fantasma dentro da máquina.
Ser apenas máquina.
Uma máquina de ler.
Uma máquina de dar de comer aos filhos.
Uma máquina de escrever sem qwerty ou azerty,
irreconhecível, mas uma máquina em todo o caso.
Uma máquina de foder.
Uma máquina de beber.
Uma máquina ser erro maquínico.
Uma máquina sem improvável intenção,
melancolia, elegia, meta-representação mortal
e desabrida.
Uma máquina que se finasse depois, sem dor,
de pura obsolescência.
Uma máquina sem dor nem tédio.
Uma máquina sem estados de alma.
Uma máquina sem alma.
Ser apenas máquina.
Uma máquina de ler.
Uma máquina de dar de comer aos filhos.
Uma máquina de escrever sem qwerty ou azerty,
irreconhecível, mas uma máquina em todo o caso.
Uma máquina de foder.
Uma máquina de beber.
Uma máquina ser erro maquínico.
Uma máquina sem improvável intenção,
melancolia, elegia, meta-representação mortal
e desabrida.
Uma máquina que se finasse depois, sem dor,
de pura obsolescência.
Uma máquina sem dor nem tédio.
Uma máquina sem estados de alma.
Uma máquina sem alma.
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1
Wenceslau de Morais
A dor, minha constante companheira
A dor, minha constante companheira,
Votei íntimos laços de amizade.
Se hoje encetasse a 'strada das venturas,
Crede, talvez morresse de Saudade...
Votei íntimos laços de amizade.
Se hoje encetasse a 'strada das venturas,
Crede, talvez morresse de Saudade...
695
1
Vítor Silva Tavares
Poema de Amor e Ódio
começo este poema com muito pouca humildade
com um grande desrespeito pela arte
começo este poema com um grande marimbanço pelos homens
e um não menor estou-me nas tintas para a gramática
não faltará quem arregale o olho enorme por causa da lupa
e tenha à mão um ponto de exclamação para me arrear
não faltará quem esboce um bocejo e me atire à ventas
(que não sou original)
com um grande desrespeito pela arte
começo este poema com um grande marimbanço pelos homens
e um não menor estou-me nas tintas para a gramática
não faltará quem arregale o olho enorme por causa da lupa
e tenha à mão um ponto de exclamação para me arrear
não faltará quem esboce um bocejo e me atire à ventas
(que não sou original)
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Vítor Silva Tavares
Poema de Amor e Ódio
começo este poema com muito pouca humildade
com um grande desrespeito pela arte
começo este poema com um grande marimbanço pelos homens
e um não menor estou-me nas tintas para a gramática
não faltará quem arregale o olho enorme por causa da lupa
e tenha à mão um ponto de exclamação para me arrear
não faltará quem esboce um bocejo e me atire à ventas
(que não sou original)
com um grande desrespeito pela arte
começo este poema com um grande marimbanço pelos homens
e um não menor estou-me nas tintas para a gramática
não faltará quem arregale o olho enorme por causa da lupa
e tenha à mão um ponto de exclamação para me arrear
não faltará quem esboce um bocejo e me atire à ventas
(que não sou original)
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