Poemas neste tema
Outros
Reinaldo Ferreira
Os astros nascem
Os astros nascem,
Crescem e morrem
Sem aflição,
Por isso correm
Sem que perguntem
Pra onde vão.
O fácil espaço
Foi-lhes materno
Ventre fecundo;
Nasci num quarto,
Nasci dum parto
E foi magoando
Que vim ao mundo.
Nasci rasgando
Quem me sonhava
Antes que mesmo
Me concebesse;
Não sei dum astro,
Tão impiedoso,
Que ao espaço agravos
Tamanhos desse!
Nasci rompendo
Quem me continha
No grácil ventre
Desfigurado,
Como um sacrário
Vaso sagrado!
Mãos impacientes
De me tocarem
Logo estendia
Quem eu magoava
E ensanguentava
Quando nascia!
Nascença de astros
Não tem valor:
Que o fácil espaço
Pare-os sem dor.
Crescem e morrem
Sem aflição,
Por isso correm
Sem que perguntem
Pra onde vão.
O fácil espaço
Foi-lhes materno
Ventre fecundo;
Nasci num quarto,
Nasci dum parto
E foi magoando
Que vim ao mundo.
Nasci rasgando
Quem me sonhava
Antes que mesmo
Me concebesse;
Não sei dum astro,
Tão impiedoso,
Que ao espaço agravos
Tamanhos desse!
Nasci rompendo
Quem me continha
No grácil ventre
Desfigurado,
Como um sacrário
Vaso sagrado!
Mãos impacientes
De me tocarem
Logo estendia
Quem eu magoava
E ensanguentava
Quando nascia!
Nascença de astros
Não tem valor:
Que o fácil espaço
Pare-os sem dor.
2 130
1
Silvaney Paes
Sem Assunto
-Onde
e quando morreu a palavra?
-Não sei se é morta, mas saberei,
Portanto, onde e quando, não responderei,
Pelo menos por agora.
-Terá sido a seu tempo apresentada,
Ou marcaram-lhe hora exata?
-Creio que não o fizeram,
Nem para ida nem para volta.
-Não tendo certo ou incerto curso,
Terá sido apenas língua de água?
-Se foi apenas o fio de riacho,
Poderá lá na frente ser torrente e brava.
-Pode ser esteja por ora represada.
E apenas consigo mesmo fala,
Para quando estiver a alma abarrotada,
Explodir repentinamente em enxurrada.
e quando morreu a palavra?
-Não sei se é morta, mas saberei,
Portanto, onde e quando, não responderei,
Pelo menos por agora.
-Terá sido a seu tempo apresentada,
Ou marcaram-lhe hora exata?
-Creio que não o fizeram,
Nem para ida nem para volta.
-Não tendo certo ou incerto curso,
Terá sido apenas língua de água?
-Se foi apenas o fio de riacho,
Poderá lá na frente ser torrente e brava.
-Pode ser esteja por ora represada.
E apenas consigo mesmo fala,
Para quando estiver a alma abarrotada,
Explodir repentinamente em enxurrada.
854
1
Silvaney Paes
Sem Assunto
-Onde
e quando morreu a palavra?
-Não sei se é morta, mas saberei,
Portanto, onde e quando, não responderei,
Pelo menos por agora.
-Terá sido a seu tempo apresentada,
Ou marcaram-lhe hora exata?
-Creio que não o fizeram,
Nem para ida nem para volta.
-Não tendo certo ou incerto curso,
Terá sido apenas língua de água?
-Se foi apenas o fio de riacho,
Poderá lá na frente ser torrente e brava.
-Pode ser esteja por ora represada.
E apenas consigo mesmo fala,
Para quando estiver a alma abarrotada,
Explodir repentinamente em enxurrada.
e quando morreu a palavra?
-Não sei se é morta, mas saberei,
Portanto, onde e quando, não responderei,
Pelo menos por agora.
-Terá sido a seu tempo apresentada,
Ou marcaram-lhe hora exata?
-Creio que não o fizeram,
Nem para ida nem para volta.
-Não tendo certo ou incerto curso,
Terá sido apenas língua de água?
-Se foi apenas o fio de riacho,
Poderá lá na frente ser torrente e brava.
-Pode ser esteja por ora represada.
E apenas consigo mesmo fala,
Para quando estiver a alma abarrotada,
Explodir repentinamente em enxurrada.
854
1
Silvaney Paes
Sem Assunto
-Onde
e quando morreu a palavra?
-Não sei se é morta, mas saberei,
Portanto, onde e quando, não responderei,
Pelo menos por agora.
-Terá sido a seu tempo apresentada,
Ou marcaram-lhe hora exata?
-Creio que não o fizeram,
Nem para ida nem para volta.
-Não tendo certo ou incerto curso,
Terá sido apenas língua de água?
-Se foi apenas o fio de riacho,
Poderá lá na frente ser torrente e brava.
-Pode ser esteja por ora represada.
E apenas consigo mesmo fala,
Para quando estiver a alma abarrotada,
Explodir repentinamente em enxurrada.
e quando morreu a palavra?
-Não sei se é morta, mas saberei,
Portanto, onde e quando, não responderei,
Pelo menos por agora.
-Terá sido a seu tempo apresentada,
Ou marcaram-lhe hora exata?
-Creio que não o fizeram,
Nem para ida nem para volta.
-Não tendo certo ou incerto curso,
Terá sido apenas língua de água?
-Se foi apenas o fio de riacho,
Poderá lá na frente ser torrente e brava.
-Pode ser esteja por ora represada.
E apenas consigo mesmo fala,
Para quando estiver a alma abarrotada,
Explodir repentinamente em enxurrada.
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1
Giselle del Pino
Definitivamente
II
Âncora
dos meus delírios
Lábios que me calam quando
Vou dormir.
Ainda ontem não sonhava tuas mãos.
E agora?
Definitivamente infinita,
Atordoada pela vontade de ser tua,
Reescrevo o que foi quase verdadeiro.
Palavras, frases
Que guardei secreta,
Mas revelando imediata,
Meu definitivo amor.
Âncora
dos meus delírios
Lábios que me calam quando
Vou dormir.
Ainda ontem não sonhava tuas mãos.
E agora?
Definitivamente infinita,
Atordoada pela vontade de ser tua,
Reescrevo o que foi quase verdadeiro.
Palavras, frases
Que guardei secreta,
Mas revelando imediata,
Meu definitivo amor.
925
1
Reinaldo Ferreira
Aquele senhor que desde a infância me conhece
Aquele senhor que desde a infância me conhece,
Com que direito se enternece
Quando me vê?
Que mal lhe fiz, que me quer bem?
Porque motivo me diz só
Coisas que, se as soubesse, esqueceria,
Hirtas, mortas,
Coisas cheias de pó
E de melancolia?
Com que direito se enternece
Quando me vê?
Que mal lhe fiz, que me quer bem?
Porque motivo me diz só
Coisas que, se as soubesse, esqueceria,
Hirtas, mortas,
Coisas cheias de pó
E de melancolia?
2 138
1
Silvaney Paes
Aquele Olhar
Clamei
por muitos amores,
Concederam-me um ao alvorecer,
Mas ele trouxe tanta luz que me ofuscou,
Parecendo demais para meus anseios.
Achei que poderia fugir
Furtivamente sem nada dizer,
Como uma sombra que se escoa
Ante a luz que adentra pela janela.
Mas teus olhos viram-me
ilhado pela visão dessa luminosa manhã,
Inebriado diante da mulher.
Tentei refazer minha trama,
Mas outra trama trazia um desfecho igual
E parecias cantar em silêncio,
O gozo de ver-me sob o jugo do desejo
E te achegaste para dar nó em teu laço.
Na expressão daquele olhar,
Pressenti que seria preciso perder-me
Mergulhando naquelas vagas,
Mesmo sabendo que ora elas alçam,
Ora destroiem o coração de um homem.
por muitos amores,
Concederam-me um ao alvorecer,
Mas ele trouxe tanta luz que me ofuscou,
Parecendo demais para meus anseios.
Achei que poderia fugir
Furtivamente sem nada dizer,
Como uma sombra que se escoa
Ante a luz que adentra pela janela.
Mas teus olhos viram-me
ilhado pela visão dessa luminosa manhã,
Inebriado diante da mulher.
Tentei refazer minha trama,
Mas outra trama trazia um desfecho igual
E parecias cantar em silêncio,
O gozo de ver-me sob o jugo do desejo
E te achegaste para dar nó em teu laço.
Na expressão daquele olhar,
Pressenti que seria preciso perder-me
Mergulhando naquelas vagas,
Mesmo sabendo que ora elas alçam,
Ora destroiem o coração de um homem.
957
1
Ednólia Fontenele
Espaço Livre
Na poesia
não há espaço
para coisas
pequenas, fugazes.
Falemos pois
da fome do povo,
da miséria do trabalhador,
das injustiças,
das dificuldades dos menos
favorecidos.
Falemos da lama verde
que enche os olhos e bolsos
daquela gente de lá.
Na poesia
não há espaço
para coisas pequenas,
amores mesquinhos.
Falemos pois
dos homens que
cultivam espinhos,
escondem loucuras,
roubam sonhos,
colhem sangue
de toda gente!
não há espaço
para coisas
pequenas, fugazes.
Falemos pois
da fome do povo,
da miséria do trabalhador,
das injustiças,
das dificuldades dos menos
favorecidos.
Falemos da lama verde
que enche os olhos e bolsos
daquela gente de lá.
Na poesia
não há espaço
para coisas pequenas,
amores mesquinhos.
Falemos pois
dos homens que
cultivam espinhos,
escondem loucuras,
roubam sonhos,
colhem sangue
de toda gente!
853
1
Nana Corrêa de Lima
Sonhos de Baú
Sonhos de Baú
Janeiro floresce.
Os galhos dos dias abrem-se um a um
em melodia preguiçosa e sonolenta.
Os sonhos de dezembro
são relíquias cuidadosamente guardadas
em um velho baú.
Utopias do florir do ano....
Janeiro floresce.
Os galhos dos dias abrem-se um a um
em melodia preguiçosa e sonolenta.
Os sonhos de dezembro
são relíquias cuidadosamente guardadas
em um velho baú.
Utopias do florir do ano....
918
1
Jonas da Silva
Paisagens da Carne
O teu corpo lirial, do alvor de Sete-estrelo,
É uma verde floresta em cuja sombra e solo
Passam deusas pagãs de aljava a tiracolo,
Há rouxinóis de aroma em teu loiro cabelo.
Muita vez sob a ação de infernal pesadelo
Se transforma o teu vulto em paisagens do polo
E cuido ver na alvura hibernal do teu colo
A refração do luar nas montanhas de gelo.
E na alucinação de apaixonado creio
Ver dois ursos, do Sol aos mortiços lampejos,
Dois ursos de rubis nos botões do teu seio.
E do gelo polar entre as pratas e espelhos
Vejo ao longe os viris esquimaus dos meus beijos
Lança em punho, em caçada a esses ursos vermelhos
É uma verde floresta em cuja sombra e solo
Passam deusas pagãs de aljava a tiracolo,
Há rouxinóis de aroma em teu loiro cabelo.
Muita vez sob a ação de infernal pesadelo
Se transforma o teu vulto em paisagens do polo
E cuido ver na alvura hibernal do teu colo
A refração do luar nas montanhas de gelo.
E na alucinação de apaixonado creio
Ver dois ursos, do Sol aos mortiços lampejos,
Dois ursos de rubis nos botões do teu seio.
E do gelo polar entre as pratas e espelhos
Vejo ao longe os viris esquimaus dos meus beijos
Lança em punho, em caçada a esses ursos vermelhos
958
1
Jonas da Silva
Paisagens da Carne
O teu corpo lirial, do alvor de Sete-estrelo,
É uma verde floresta em cuja sombra e solo
Passam deusas pagãs de aljava a tiracolo,
Há rouxinóis de aroma em teu loiro cabelo.
Muita vez sob a ação de infernal pesadelo
Se transforma o teu vulto em paisagens do polo
E cuido ver na alvura hibernal do teu colo
A refração do luar nas montanhas de gelo.
E na alucinação de apaixonado creio
Ver dois ursos, do Sol aos mortiços lampejos,
Dois ursos de rubis nos botões do teu seio.
E do gelo polar entre as pratas e espelhos
Vejo ao longe os viris esquimaus dos meus beijos
Lança em punho, em caçada a esses ursos vermelhos
É uma verde floresta em cuja sombra e solo
Passam deusas pagãs de aljava a tiracolo,
Há rouxinóis de aroma em teu loiro cabelo.
Muita vez sob a ação de infernal pesadelo
Se transforma o teu vulto em paisagens do polo
E cuido ver na alvura hibernal do teu colo
A refração do luar nas montanhas de gelo.
E na alucinação de apaixonado creio
Ver dois ursos, do Sol aos mortiços lampejos,
Dois ursos de rubis nos botões do teu seio.
E do gelo polar entre as pratas e espelhos
Vejo ao longe os viris esquimaus dos meus beijos
Lança em punho, em caçada a esses ursos vermelhos
958
1
Honório Armond
Palavras a Um Crente
— "Que vem a ser o Bem?" — perguntas. Digo
que nunca, até hoje, francamente, eu pude
entre o joio do mal achar o trigo.
O pecado é irmão-gêmeo da virtude...
Chamas a todos - Meu fraterno amigo!
A tua alma ingênua, meu irmão, se ilude...
Faze como eu que, há muito, já não sigo
fogos-fátuos brilhando na palude...
Leva este mundo tal como é... Mascara
as tuas emoções, o ódio, a alegria,
cerra o teu coração, aguça o olhar,
que hás de ver entre a turba ingrata e ignara
o Mal, que de virtude se fazia,
rir-se de gozo ao ver alguém chorar...
que nunca, até hoje, francamente, eu pude
entre o joio do mal achar o trigo.
O pecado é irmão-gêmeo da virtude...
Chamas a todos - Meu fraterno amigo!
A tua alma ingênua, meu irmão, se ilude...
Faze como eu que, há muito, já não sigo
fogos-fátuos brilhando na palude...
Leva este mundo tal como é... Mascara
as tuas emoções, o ódio, a alegria,
cerra o teu coração, aguça o olhar,
que hás de ver entre a turba ingrata e ignara
o Mal, que de virtude se fazia,
rir-se de gozo ao ver alguém chorar...
906
1
Reinaldo Ferreira
Feliz do que é levado a enterrar
Feliz do que é levado a enterrar,
Tão indiferente como quem nasceu!
Feliz do que não soube desejar,
Feliz, bem mais feliz do que sou eu!
Feliz do que não riu para não chorar,
Feliz do que não teve e não perdeu!
Feliz do que não sofre se ficar,
Feliz do que partiu e não sofreu!
Feliz do que acha bela e vasta a terra!
Feliz do que acredita a fome, a guerra,
Terrores imaginários de crianças!
Feliz do que não ouve o mundo aos gritos,
Feliz! Felizes todos e benditos
Os que Deus fez iguais às pombas mansas
Tão indiferente como quem nasceu!
Feliz do que não soube desejar,
Feliz, bem mais feliz do que sou eu!
Feliz do que não riu para não chorar,
Feliz do que não teve e não perdeu!
Feliz do que não sofre se ficar,
Feliz do que partiu e não sofreu!
Feliz do que acha bela e vasta a terra!
Feliz do que acredita a fome, a guerra,
Terrores imaginários de crianças!
Feliz do que não ouve o mundo aos gritos,
Feliz! Felizes todos e benditos
Os que Deus fez iguais às pombas mansas
1 869
1
Manuel Bandeira
Enquanto a Chuva Cal…
A chuva cai. O ar fica mole...
Indistinto... ambarino... gris...
E no monótono matiz
Da névoa enovelada bole
A folhagem como a bailar.
Torvelinhai, torrentes do ar!
Cantai, ó bátega chorosa,
As velhas árias funerais.
Minh'alma sofre e sonha e goza
À cantilena dos beirais.
Meu coração está sedento
De tão ardido pelo pranto.
Dai um brando acompanhamento
À canção do meu desencanto.
Volúpia dos abandonados...
Dos sós... — ouvir a água escorrer,
Lavando o tédio dos telhados
Que se sentem envelhecer...
Ó caro ruído embalador,
Terno como a canção das amas!
Canta as baladas que mais amas,
Para embalar a minha dor!
A chuva cai. À chuva aumenta.
Cai, benfazeja, a bom cair!
Contenta as árvores! Contenta
As sementes que vão abrir!
Eu te bendigo, água que inundas!
Ó água amiga das raízes,
Que na mudez das terras fundas
Às vezes são tão infelizes!
E eu te amo! Quer quando fustigas
Ao sopro mau dos vendavais
As grandes árvores antigas,
Quer quando mansamente cais.
É que na tua voz selvagem,
Voz de cortante, álgida mágoa,
Aprendi na cidade a ouvir
Como um eco que vem na aragem
A estrugir, rugir e mugir,
O lamento das quedas d'água!
Indistinto... ambarino... gris...
E no monótono matiz
Da névoa enovelada bole
A folhagem como a bailar.
Torvelinhai, torrentes do ar!
Cantai, ó bátega chorosa,
As velhas árias funerais.
Minh'alma sofre e sonha e goza
À cantilena dos beirais.
Meu coração está sedento
De tão ardido pelo pranto.
Dai um brando acompanhamento
À canção do meu desencanto.
Volúpia dos abandonados...
Dos sós... — ouvir a água escorrer,
Lavando o tédio dos telhados
Que se sentem envelhecer...
Ó caro ruído embalador,
Terno como a canção das amas!
Canta as baladas que mais amas,
Para embalar a minha dor!
A chuva cai. À chuva aumenta.
Cai, benfazeja, a bom cair!
Contenta as árvores! Contenta
As sementes que vão abrir!
Eu te bendigo, água que inundas!
Ó água amiga das raízes,
Que na mudez das terras fundas
Às vezes são tão infelizes!
E eu te amo! Quer quando fustigas
Ao sopro mau dos vendavais
As grandes árvores antigas,
Quer quando mansamente cais.
É que na tua voz selvagem,
Voz de cortante, álgida mágoa,
Aprendi na cidade a ouvir
Como um eco que vem na aragem
A estrugir, rugir e mugir,
O lamento das quedas d'água!
5 948
1
Paulo Mendes Campos
Translúcido
Rosas rara se alçavam puras.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.
Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.
Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.
Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,
Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.
A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.
Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.
Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.
Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.
Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,
Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.
A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.
Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.
1 458
1
William Melo Soares
Assim Aceso
Eu vivo assim
de corpo e alma
peito aberto
aos meus irmãos.
Esta canção
eu canto
e digo em viva voz
por mim
por ti
por nós
e esta chama
acesa assanha
amor dentro de nós.
de corpo e alma
peito aberto
aos meus irmãos.
Esta canção
eu canto
e digo em viva voz
por mim
por ti
por nós
e esta chama
acesa assanha
amor dentro de nós.
1 004
1
Rossini Corrêa
Movimento da Terra
O violino da consciência rememora
a música dos pássaros vegetais,
quando, no crepúsculo, o bolaço
de fogo espacial, movimentava-se
vagoroso, e naufragava, sem a
mínima resistência, no oceano
atlântico. Da estátua, Gonçalves
Dias a tudo assistia, comovido...
Como um namorado das estrelas,
certamente conhecendo os mistérios,
esperava, sob paciente convicção,
o retorno, indescritível aurora:
e o bolaço de fogo espacial, azul
cintilava, aquecido no dormitório
marítimo. O poeta, artesão do
eterno, repetia: "onde canta o sabiá!"
a música dos pássaros vegetais,
quando, no crepúsculo, o bolaço
de fogo espacial, movimentava-se
vagoroso, e naufragava, sem a
mínima resistência, no oceano
atlântico. Da estátua, Gonçalves
Dias a tudo assistia, comovido...
Como um namorado das estrelas,
certamente conhecendo os mistérios,
esperava, sob paciente convicção,
o retorno, indescritível aurora:
e o bolaço de fogo espacial, azul
cintilava, aquecido no dormitório
marítimo. O poeta, artesão do
eterno, repetia: "onde canta o sabiá!"
822
1
Rossini Corrêa
Movimento da Terra
O violino da consciência rememora
a música dos pássaros vegetais,
quando, no crepúsculo, o bolaço
de fogo espacial, movimentava-se
vagoroso, e naufragava, sem a
mínima resistência, no oceano
atlântico. Da estátua, Gonçalves
Dias a tudo assistia, comovido...
Como um namorado das estrelas,
certamente conhecendo os mistérios,
esperava, sob paciente convicção,
o retorno, indescritível aurora:
e o bolaço de fogo espacial, azul
cintilava, aquecido no dormitório
marítimo. O poeta, artesão do
eterno, repetia: "onde canta o sabiá!"
a música dos pássaros vegetais,
quando, no crepúsculo, o bolaço
de fogo espacial, movimentava-se
vagoroso, e naufragava, sem a
mínima resistência, no oceano
atlântico. Da estátua, Gonçalves
Dias a tudo assistia, comovido...
Como um namorado das estrelas,
certamente conhecendo os mistérios,
esperava, sob paciente convicção,
o retorno, indescritível aurora:
e o bolaço de fogo espacial, azul
cintilava, aquecido no dormitório
marítimo. O poeta, artesão do
eterno, repetia: "onde canta o sabiá!"
822
1
Rogaciano Leite Filho
Trevas do Dia
Na noite do mundo
a nuvem gélida do sonho
percorre meus ossos vazados
trazendo dos corações atômicos
das palavras não ditas
dos circuitos elétricos
das memórias esquecidas
dos braços partidos
das mortes insensíveis
dos olhos vendados
das idéias falidas
dos sentimentos perdidos
das bombas mortais
dos Deuses escondidos
O nascer da morte
no começo do dia.
a nuvem gélida do sonho
percorre meus ossos vazados
trazendo dos corações atômicos
das palavras não ditas
dos circuitos elétricos
das memórias esquecidas
dos braços partidos
das mortes insensíveis
dos olhos vendados
das idéias falidas
dos sentimentos perdidos
das bombas mortais
dos Deuses escondidos
O nascer da morte
no começo do dia.
1 049
1
Reinaldo Ferreira
Flor de lapela
Pequeno ser
Que deu prazer,
E ao cabo, num ocaso descorado,
Jaz no passeio, abandonado,
Sem mágoa e sem memória.
Não é diversa a trajectória
Das flores maiores que somos nós
Exibe-nos a Vida na lapela; a glória
Dura o que dura uma manhã de sol. Após,
Esgotada a cor, extinto o perfume,
A mão que nos colheu lança-nos fora,
Pra que nos leve a carroça do estrume
Que vem na madrugada,
Ou, se chover, nos leve a enxurrada
Flor ou bicho
Ou criatura,
Tudo é lixo
Na sepultura.
Que deu prazer,
E ao cabo, num ocaso descorado,
Jaz no passeio, abandonado,
Sem mágoa e sem memória.
Não é diversa a trajectória
Das flores maiores que somos nós
Exibe-nos a Vida na lapela; a glória
Dura o que dura uma manhã de sol. Após,
Esgotada a cor, extinto o perfume,
A mão que nos colheu lança-nos fora,
Pra que nos leve a carroça do estrume
Que vem na madrugada,
Ou, se chover, nos leve a enxurrada
Flor ou bicho
Ou criatura,
Tudo é lixo
Na sepultura.
1 811
1
Francisco Tribuzi
Momento-interno
No ar o sentido do mistério
Em mim essa dor sem remédio
No vago um momento sério
Na vida esse inconfundível tédio.
Qual de mim já foi quem em outras era(s)
Um navegar de azul me influiu quimera(s)
Que em ser outra vida talvez dessa invertida
Hoje a sinto perdida.
Se sinto a impressão que já vi outro céu que não esse:
Manchado, escurecido
Que andei por ruas-rosas distâncias formosas me hei
Esquecido?...
Onde estão meus antigos pensares?
Noutros céus? Noutros mares?
Que hoje só guardo pesares
A que distância de mim me encontro?
... (?) Sinto as canções do meu caminho
Por que essa tristeza de eu ser outro
Perdido no vácuo, sozinho
Que madrugada guardou o meu perfume?
Que a manhã sempre me esconde
Existência gastando o que o ser assume
No ar sem resposta, onde?
Em mim essa dor sem remédio
No vago um momento sério
Na vida esse inconfundível tédio.
Qual de mim já foi quem em outras era(s)
Um navegar de azul me influiu quimera(s)
Que em ser outra vida talvez dessa invertida
Hoje a sinto perdida.
Se sinto a impressão que já vi outro céu que não esse:
Manchado, escurecido
Que andei por ruas-rosas distâncias formosas me hei
Esquecido?...
Onde estão meus antigos pensares?
Noutros céus? Noutros mares?
Que hoje só guardo pesares
A que distância de mim me encontro?
... (?) Sinto as canções do meu caminho
Por que essa tristeza de eu ser outro
Perdido no vácuo, sozinho
Que madrugada guardou o meu perfume?
Que a manhã sempre me esconde
Existência gastando o que o ser assume
No ar sem resposta, onde?
856
1
Hardi Filho
Artista
No atelier da vida, solitário,
somente em comunhão com a fantasia,
eu fui o artista que criou miragens
para conforto de ânsias infinitas.
Eu fui, também, aquele que traçou
formas de vida pelo sentimento;
o gênio louco que ideou amores
para sustento, amparo da esperança.
Insano escafandrista dos mistérios,
fui tradutor das emoções do mundo
e desenhista da volúpia eterna.
De pé, trêmulas mãos, olhos insones,
fui satanás sedento de domínio,
fui deus criando e alimentando sonhos!
somente em comunhão com a fantasia,
eu fui o artista que criou miragens
para conforto de ânsias infinitas.
Eu fui, também, aquele que traçou
formas de vida pelo sentimento;
o gênio louco que ideou amores
para sustento, amparo da esperança.
Insano escafandrista dos mistérios,
fui tradutor das emoções do mundo
e desenhista da volúpia eterna.
De pé, trêmulas mãos, olhos insones,
fui satanás sedento de domínio,
fui deus criando e alimentando sonhos!
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Hardi Filho
Artista
No atelier da vida, solitário,
somente em comunhão com a fantasia,
eu fui o artista que criou miragens
para conforto de ânsias infinitas.
Eu fui, também, aquele que traçou
formas de vida pelo sentimento;
o gênio louco que ideou amores
para sustento, amparo da esperança.
Insano escafandrista dos mistérios,
fui tradutor das emoções do mundo
e desenhista da volúpia eterna.
De pé, trêmulas mãos, olhos insones,
fui satanás sedento de domínio,
fui deus criando e alimentando sonhos!
somente em comunhão com a fantasia,
eu fui o artista que criou miragens
para conforto de ânsias infinitas.
Eu fui, também, aquele que traçou
formas de vida pelo sentimento;
o gênio louco que ideou amores
para sustento, amparo da esperança.
Insano escafandrista dos mistérios,
fui tradutor das emoções do mundo
e desenhista da volúpia eterna.
De pé, trêmulas mãos, olhos insones,
fui satanás sedento de domínio,
fui deus criando e alimentando sonhos!
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Hardi Filho
Artista
No atelier da vida, solitário,
somente em comunhão com a fantasia,
eu fui o artista que criou miragens
para conforto de ânsias infinitas.
Eu fui, também, aquele que traçou
formas de vida pelo sentimento;
o gênio louco que ideou amores
para sustento, amparo da esperança.
Insano escafandrista dos mistérios,
fui tradutor das emoções do mundo
e desenhista da volúpia eterna.
De pé, trêmulas mãos, olhos insones,
fui satanás sedento de domínio,
fui deus criando e alimentando sonhos!
somente em comunhão com a fantasia,
eu fui o artista que criou miragens
para conforto de ânsias infinitas.
Eu fui, também, aquele que traçou
formas de vida pelo sentimento;
o gênio louco que ideou amores
para sustento, amparo da esperança.
Insano escafandrista dos mistérios,
fui tradutor das emoções do mundo
e desenhista da volúpia eterna.
De pé, trêmulas mãos, olhos insones,
fui satanás sedento de domínio,
fui deus criando e alimentando sonhos!
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